REVISTA ISTO É, 10 de abril de 2006
Mansões da corrupção
Os belos endereços dos fiscais
cariocas que lesavam trabalhadores demitidos
Por Celso Fonseca
Colaborou Celina Côrtes

Pé-de-meia: o auditor Pereira é dono deste imóvel
de R$ 370 mil – e mora em outro, bem na frente, de igual valor
Vergonha
Aprecie as mansões suspensas que ilustram
estas páginas. Elas possuem varandas amplas, com vista para pontos
privilegiados do Rio de Janeiro, ambientes generosos e acabamento refinado.
Estão localizadas em regiões valorizadas como a avenida
Sernambetiba, atual Lúcio Costa, na exuberante orla da Barra
da Tijuca, no Rio. Mas atenção: não se trata de
um anúncio imobiliário daqueles que fazem suspirar. Estes
apartamentos são de 56 fiscais e agentes do Ministério
do Trabalho, acusados de manter um esquema de corrupção
e arrecadação de propinas na delegacia regional do Estado.
Foi a maior operação da história da Polícia
Federal na cidade. Fica difícil imaginar que esses pequenos pedaços
do paraíso, com preços entre R$ 300 mil e R$ 1 milhão,
não tenham sido arrematados com o fruto do trabalho árduo
de lesar trabalhadores. O esquema, segundo o ministro do Trabalho, Luiz
Marinho, existe há mais de dez anos.
Hora de acordar: logo de manhã, agente da PF
prende um dos 56 acusados de fraudar o DRT fluminense
Os imóveis são suntuosos. Estão fora do alcance
de consumo da esmagadora maioria dos brasileiros que nem sequer consegue
pagar aluguéis baratos. Mirá-los em sua imponência
e saber que pertencem a possíveis corruptos amplia a angústia
de quem trabalha, paga impostos e conta os reais para comer pizza e
beber cerveja nos finais de semana. Parecemos então, diante destes
totens de luxo, cidadãos envergando reluzentes narizes de palhaço.
E paralisados pelo bombardeio de notícias de escândalos
que pipocam na imprensa. A sensação é a de que,
em meio a uma seqüência tão impiedosa de atentados
ao bem público, tudo parece vulgar mas nada soa como grave.
Na manhã da terça-feira 4, a maioria dos fiscais foi acordada
de surpresa, por agentes vindos do Rio Grande do Sul, Paraná
e de São Paulo, nas camas king size de suas belas residências.
Presos, atravessaram os portões da sede da PF, na praça
Mauá, centro do Rio, com os pulsos algemados, uma leve vingança
diante da dimensão deste mais novo ataque à combalida
ética nacional. Os apartamentos estão lá, firmes
na solidez do concreto. Residências exageradas para os padrões
dos barnabés, que ainda assim não podem reclamar de seus
ganhos mensais, entre R$ 2 mil a R$ 10 mil. Dinheiro suficiente para
não precisar cometer mutretas envolvendo rescisões trabalhistas,
recolhimento de Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS),
homologação de demissões judiciais e extorsão
de empresários.
Sem miséria: apartamentos de
R$ 1 milhão (à esq.) e de R$ 750
mil em nome dos fiscais
Mas os salários, mesmo os mais gordos, não foram suficientes
para abastecer os seus devaneios. Porque não fazer uma associação
mafiosa e ganhar um dinheirinho a mais? Foi possivelmente com ganhos
extras que três deles se reuniram para construir dois pequenos
prédios de três andares no Recreio dos Bandeirantes. Os
apartamentos, com 100 metros quadrados e três vagas na garagem,
foram avaliados entre R$ 220 mil e R$ 280 mil. O fiscal Emmanuel Avelino
também tinha espaço para guardar três carros ao
mesmo tempo, mas o apartamento era ainda maior. Avelino morava de frente
para o mar da Barra da Tijuca num imóvel que custa R$ 1 milhão
e, apenas de condomínio, exige gasto mensal de R$ 1,5 mil.
O patrimônio imobilizado pela turma inclui até uma sala
comercial na elegante avenida das Américas, também na
Barra, avaliada em R$ 120 mil. Está em nome do fiscal Fabiano
Rossi, cujo movimento envolveria depósitos no paraíso
fiscal das Ilhas Virgens Britânicas. Alguns supostos fraudadores
iam trabalhar em carrões Toyota cotados em R$ 50 mil. “O
fiscal que está ali para evitar fraudes vira o fraudulento. Um
verdadeiro escândalo. No Brasil, se conjuga o desgaste dos valores
éticos com uma sociedade destituída de valores normativos”,
analisa o cientista social carioca Hélio Jaguaribe. “O
País perdeu a religião e a ética, fazendo com que
a sociedade perca a viabilidade”, lamenta ele.
Sócios fiéis: prédios construídos
por três fiscais no Recreio dos Bandeirantes
O antropólogo Rubem Cesar Fernandes, presidente do Movimento
Viva Rio, é cético. “A Justiça do Trabalho
é um segmento sobre o qual as pessoas são familiarizadas
e sabem como brigar pelos seus direitos. Se este setor está corroído
dessa forma, imaginem o resto.”
Visível e triste nessa história é que, para proteger
corruptos, há sempre a conivência de outros funcionários.
Ou seja, muita gente sabe e fica quieta. O governo federal fala em rever
processos trabalhistas e tentar ressarcir os prejudicados pela fraude.
E a vítima é sempre a mesma: o cidadão comum, que
suporta o peso da impotência diante da corrupção
cada vez mais banalizada. A saída é arranjar forças
para combater essas práticas intoleráveis e, na medida
do possível, procurar ter uma vida melhor. Afinal, abrir os classificados
dos jornais de domingo e sonhar com um belo apartamento de frente para
o mar é legítimo. Desde que isso não custe o fruto
do suor de demitidos que trabalharam a vida inteira.