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Nova Central, 21 de abril de 2006
Funcionário que assume empresa
perde direitos trabalhistas
Se a empresa repassa ao ex-empregado o mobiliário, ponto comercial
e carteira de clientes e ele dá continuidade ao negócio,
o novo empresário não tem como cobrar dívida trabalhista
dos antigos proprietários da empresa. Este é o entendimento
dos juízes da 10ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho
da 2ª Região (TRT-SP), firmado no julgamento do processo
da Little Sam School S/C Ltda.
Uma ex-funcionária da escola ingressou
com processo na 5ª Vara do Trabalho de São Bernardo do Campo
(SP), reclamando o pagamento de verbas e indenizações
devidas pela escola. A ex-empregadora, em sua defesa, sustentou que
não teria mais responsabilidade sobre as dívidas, pois
a própria reclamante seria sua sucessora trabalhista. Ela assumiu
o negócio por meio da empresa que constituiu, de nome Target.
Por entender que houve culpa recíproca,
o juiz da vara julgou o pedido da reclamante procedente em parte. Inconformada,
ela apelou ao TRT-SP, insistindo que a Little School deveria arcar com
todos títulos trabalhistas devidos. Segundo o juiz Celso Ricardo
Peel Furtado de Oliveira, relator do recurso no tribunal, a ex-empregada
"deu vida a uma personalidade jurídica, tendo assumido todo
o patrimônio mobiliário da reclamada, inclusive a carteira
de renomados clientes", como a Mercedes Benz.
Para o relator, "a assunção
de todo aparato comercial, bem assim o ponto comercial e a carteira
de clientes, afiguram, à luz da Consolidação das
Leis do Trabalho, sucessão de empregadores"."Diante
deste quadro, pergunta-se: a quem a reclamante pode executar? A ela
mesma, é a resposta que decorre da lógica, pois entre
ela e a reclamada operou-se a sucessão de empregadores",
observou ele.
No entender do juiz Celso Ricardo de
Oliveira, "temos uma situação sui generis no presente
feito, donde se extrai o instituto jurídico da confusão",
previsto no artigo 381 do Código Civil Brasileiro de 2002, quando
na mesma pessoa se confundem as qualidades de credor e devedor. "Prevendo
essa hipótese, o Código de Processo Civil especificou
a solução no eventual litígio, quer seja, a extinção
o feito sem julgamento do mérito", decidiu. A 10ª Turma,
por unanimidade, acompanhou o voto do relator.
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CFT/PR, 21 de abril de 2006
Maio terá pacote sindical e trabalhista
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai propor ao Congresso
Nacional um pacote de projetos de lei nas áreas trabalhista e
sindical. O pacote deverá ser anunciado pelo presidente em solenidade
no Palácio do Planalto em maio. Dois projetos de lei deste pacote
já estão concluídos: a criação do
Conselho Nacional das Relações de Trabalho (CNRT) e o
reconhecimento das centrais sindicais. O primeiro substitui o Conselho
Nacional do Trabalho, criado por decreto em 2003. Tornado permanente,
o CNRT, que terá composição tripartite de 15 trabalhadores,
empregadores e representantes do governo, passa a ser o principal formulador
das propostas de mudança sindical e trabalhista.
Com o reconhecimento das centrais, ficarão
estabelecidos os critérios de participação da representação
sindical nos fóruns deliberativos do Estado. Um terceiro projeto
visando a regulamentação do trabalho aos domingos está
sendo concluído. Atualmente, leis municipais permitem o funcionamento
do comércio aos domingos, mas ainda não há regulamentação
sobre o trabalho. Originalmente, essas propostas estão previstas
em projeto de lei, mas há pressões para que se transformem
em medidas provisórias.
Também será anunciada a
ratificação da convenção da Organização
Internacional do Trabalho (OIT) que compromete o governo com a regulamentação
do direito de greve e a negociação coletiva do servidor
público. Ainda consta do pacote o anúncio de que o governo
iniciará as consultas públicas para um projeto de lei
que regulamente a terceirização de mão-de-obra.
O projeto é polêmico pelas contendas jurídicas entre
as empresas de terceirização e as contratantes sobre quem
deve arcar com o passivo trabalhista.
O último ponto do pacote é
um decreto sobre a composição tripartite das instâncias
que deliberam sobre as políticas públicas estaduais que
se utilizam dos recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Com
o pacote, o presidente volta a sinalizar, a menos de seis meses da eleição,
um compromisso com o avanço das reformas sindical e trabalhista
que ficaram paradas no Congresso Nacional. Em sua campanha de 2002,
Lula usou seu respaldo nos meios sindicais para reivindicar à
sua candidatura condição privilegiada de promover mudanças
mais radicais no setor. Aos empresários sinalizava que só
um sindicalista conseguiria aval em suas próprias bases para
as mudanças. Aos sindicalistas, garantia que as mudanças
seriam menos traumáticas em um governo por ele presidido.
Em fevereiro de 2004, dias antes de eclodir
as denúncias contra o ex-assessor da Casa Civil, Waldomiro Diniz,
Lula chegou a mencionar em jantar com jornalistas, sua disposição
em propor mudanças na multa do Fundo de Garantia do Tempo de
Serviço (FGTS) por demissão e na revisão do abono
de férias.
As propostas de reforma sindical e trabalhista
foram discutidas no Fórum Nacional do Trabalho e ampliadas no
Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselhão.
Ao decidir enviar a proposta de reforma sindical antes da trabalhista,
o governo tinha a intenção de fortalecer os sindicatos
na negociação dos direitos trabalhistas, às portas
de uma possível precarização. Apenas o projeto
de reforma sindical foi enviado ao Congresso e não avançou.
Nele, previa-se que aquilo que é negociado entre patrões
e empregados prevalecesse sobre a lei.
"Com essas medidas o presidente
demonstra sua disposição de dar prosseguimento às
reformas sindical e trabalhista", explica Osvaldo Bargas, chefe
de gabinete do ministro do Trabalho, Luiz Marinho. O ministro está
na linha de frente da campanha à reeleição. Fonte:
Valor Econômico.
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Folha de São Paulo,
21 de abril de 2006
ESCÂNDALO DO MENSALÃO/ ALÉM
DA CASSAÇÃO
Ex-ministro mantém rede de contatos no partido e no primeiro
escalão do governo
Cassado, Dirceu trabalha para reeleger
Lula com o aval do PT
MALU DELGADO, CATIA SEABRA
DA REPORTAGEM LOCAL
Cinco meses após ter o mandato
de deputado federal cassado e perder os direitos políticos até
2015, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu continua atuando
na vida política do país. Ao contrário do prognóstico
feito por ele, o deputado cassado não abandonou o cargo de ministro
todo-poderoso do governo Lula para se tornar apenas um cidadão
brasileiro.
Relatos de petistas, de ministros e de parlamentares dão conta
de que, nos bastidores, Dirceu executa ações políticas
nos Estados para favorecer o projeto de reeleição do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, conversa com parlamentares, orienta
petistas, traça estratégias sobre a ofensiva petista nas
CPIs, participa de almoços e jantares com políticos e
empresários.
Antes de anunciar que Tarso Genro assumiria
a Secretaria de Relações Institucionais, Lula conversou
com Dirceu sobre a decisão. O deputado estadual Fausto Figueira
(PT-SP), amigo de Dirceu, contou à Folha que o ex-ministro reagiu
com satisfação à "deferência" do
presidente. Enquanto exercia a presidência do PT interinamente,
no ano passado, Tarso afirmou que só assumiria a função
e disputaria a eleição interna se Dirceu não fizesse
parte da mesma chapa. O episódio gerou mal-estar no PT e aumentou
as rivalidades.
Logo depois da posse, Tarso e Dirceu
almoçaram juntos num restaurante italiano, em Brasília,
para selar a reaproximação e convivência pacífica.
Analisaram o cenário político e discutiram o futuro do
PT. A Folha apurou que o ex-ministro mantém conversas com integrantes
do primeiro escalão, incluindo Tarso e Lula. Dirceu ainda manda
recados. Há aproximadamente dez dias, disse ao ex-deputado Marcelo
Barbieri (PMDB-SP) que Lula telefonaria para o ex-governador Orestes
Quércia. Ele não recebeu a ligação, mas
incentivou Itamar Franco a lançar-se pré-candidato à
Presidência, decisão que o ex-presidente anunciou depois
de conversa com Dirceu. Ambos disseram que tudo não passou de
coincidência.
CPI
O ex-ministro orientou integrantes petistas sobre como proceder no encerramento
da CPI dos Correios. Segundo o líder do PT na Câmara, Henrique
Fontana (RS), com quem Dirceu conversou, "na política e
na vida, todo mundo conversa com todo mundo". Dirceu, diz Fontana,
é consultado por petistas por ser um quadro respeitado por todos.
"Quanto mais ficar demonstrado e caracterizado para a sociedade
que Dirceu faz essas articulações com o conhecimento do
presidente, isso poderá contaminar a campanha do Lula",
disse o deputado Júlio Delgado (PSB-MG), relator do processo
de cassação de Dirceu no Conselho de Ética.
Procurado pela Folha, por intermédio
de sua assessoria de imprensa, Dirceu não quis se manifestar.
Segundo a assessoria, o ministro é procurado por vários
políticos, o que gera especulações sobre a atuação
dele. O ex-ministro reage com irritação sempre que é
questionado sobre suas ações políticas. Afirma
que atua como militante do PT, direito que não lhe foi cassado.
Diz também que não
tem obrigação de prestar contas de suas atividades privadas
como consultor e advogado.
O poder de Dirceu é motivo de dúvidas no próprio
PT. Um grupo de petistas que conversou com o ex-ministro recentemente
relatou à Folha que ele se sente magoado por não estar
recebendo missões do partido nem do governo federal. O encontro
com Itamar teria sido uma resposta dele ao PT, para provar que ainda
tem poder político.
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Folha de São Paulo,
21 de abril de 2006
EMPREGO
Mercado de trabalho fica estagnado em março, com desemprego de
10,4%, mas renda média sobe 0,5% e volta a R$ 1.000
Renda recupera patamar pré-crise
de 2003
PEDRO SOARES
DA SUCURSAL DO RIO
O mercado de trabalho das seis maiores
regiões metropolitanas do país ficou estagnado em março:
a taxa de desemprego foi de 10,4% (ante 10,1% de fevereiro) e a renda
do trabalhador teve alta de só 0,5%, ritmo menor que a expansão
no mês anterior (1,1%). Mesmo em ritmo menor, o rendimento médio
do trabalhador voltou ao patamar anterior à recessão de
2003. Estimada em R$ 1.006,8, a renda média cresceu 2,5% na comparação
com março de 2005. Com tal desempenho, retomou o nível
de fevereiro de 2003, quando o país enfrentava a crise de confiança
detonada pelas eleições presidenciais de 2002.
"A recuperação do
rendimento prossegue, mas de modo mais discreto. Antes, havia um dinamismo
maior", avalia Cimar Azeredo Pereira, do IBGE. A renda só
cresceu porque aumentou (2,1%) o rendimento dos com carteira assinada
-houve queda nos sem carteira (-3,3%) e conta própria (-2,1%).
Já o emprego teve queda ou ficou estável tanto para os
sem carteira (- 1,8%) como para os com (-0,3%) e conta própria
(variação nula).
O indicador que melhor ilustra a paralisia
do mercado de trabalho é a ocupação (número
de pessoas empregadas), que ficou estável em março -período
para o qual já era esperado o início da geração
da novas vagas, passada a fase de demissões de temporários
no primeiro bimestre. Foram abertos só 7.000 postos de fevereiro
para março -número que o IBGE considera estatisticamente
estável, mesma avaliação feita para a taxa de desemprego.
Segundo Cimar Azeredo Pereira, do IBGE, a taxa de desemprego não
cedeu em março em razão do aumento da procura por trabalho,
sem a contrapartida de uma geração expressiva de vagas,
capaz de absorver a demanda.
Pereira avalia, porém, que a taxa
de desemprego repetiu em março seu padrão sazonal e que
só deve começar a cair em abril, quando a atividade econômica
tende a ser maior. "Esperava um aumento ainda maior [da taxa de
desemprego] em março, como aconteceu em outros anos", disse.
Apesar do repique na ponta de série, o desemprego segue menor
quando comparado com 2005. No primeiro trimestre deste ano, a taxa ficou
em 9,9%, a menor marca para igual período na Nova Pesquisa Mensal
de Emprego, iniciada em 2004. Nos mesmo período de 2005, havia
sido de 10,5%.
Para Marcelo de Ávila, do
Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), os dados revelam
que o crescimento econômico está acontecendo de modo "heterogêneo"
(com desempenhos diferenciados para cada setor) e ainda não é
suficiente para movimentar o mercado de trabalho. Na avaliação
de Ávila, o câmbio afeta o desempenho de muitos setores
intensivos em mão-de-obra, como têxtil e vestuário,
o que impede uma recuperação mais firme do mercado de
trabalho. Ainda assim, Ávila espera recuo do desemprego no segundo
semestre.
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Folha de São Paulo,
22 de abril de 2006
ELEIÇÕES 2006/ABRIL VERMELHO
João Paulo Rodrigues diz que movimento vai estreitar relação
com CUT, UNE e sem-teto
Líder do MST elogia protestos na
França e quer ações urbanas
FÁBIO GUIBU
DA AGÊNCIA FOLHA, EM RECIFE
O MST, movimento que tem nas invasões
de terras o seu principal modo de atuação, pretende atuar
mais na cidades. A idéia é estreitar relações
com entidades e movimentos sociais urbanos representativos para fortalecer
as manifestações de rua e, de quebra, o próprio
MST. Com isso, quer viabilizar o que chama de "revolução".
Apesar do discurso, a ida às cidades vai ter de esperar, ao menos,
as eleições deste ano. O projeto foi anunciado ontem pelo
coordenador nacional do MST João Paulo Rodrigues, em Recife,
onde participa do 2º Fórum Social Brasileiro, na UFPE (Universidade
Federal de Pernambuco). Porém, o sem terra não explicou
como fará a revolução pretendida. "Revolução,
para nós, é resolver o problema da reforma agrária,
da educação, da saúde, fazer com que o Estado seja
menos burocratizado", explicou Rodrigues.
Tido como um dos principais interlocutores
do MST com o governo federal, Rodrigues citou os protestos ocorridos
na Venezuela e na Bolívia como exemplos de experiências
de mobilização. Na Bolívia, as manifestações
ora pressionam o governo sobre a posse de campos de gás ora reivindicam
o direito de plantar coca. Quase sempre terminam em conflitos com a
polícia. Na Venezuela, os principais atos recentes tinham como
objetivo atacar a violência urbana no país e a corrupção
policial. Porém, Rodrigues deixou claro que os atos ocorridos
na França neste ano são o modelo ideal do movimento.
No final de março, estudantes
e sindicalistas franceses promoveram uma série de protestos e
greves contra a lei trabalhista, parando o país. Houve conflitos
e prisões. A lei acabou rejeitada - a França tem uma longa
história de leis de proteção social, tradição
que os manifestantes conseguiram manter. "O Brasil só conseguirá
resolver seus problemas estruturais se tivermos o povo na rua. Por isso,
nós precisamos fazer um esforço, fazer com que a França
seja aqui", diz Rodrigues.
A decisão surgiu a partir da constatação
das lideranças de que o MST estava perdendo força. "A
maioria da população está nas cidades", diz
o líder sem terra. Segundo ele, por ser "uma das menores
organizações sociais que existem no país, o MST
tem a clareza de que, para fazer mudanças no Brasil, precisa
ter uma base muito maior". "Como conseguimos construir a Via
Campesina rural, precisamos construir a Via Campesina urbana",
disse. O MST ajudou a fundar a Via Campesina em 1992 e é uma
das entidades mais influentes deste fórum que reúne diversas
organizações de agricultores do mundo todo. Seu objetivo
é garantir o apoio de uma organização à
outra, inclusive em mobilizações.
Rodrigues citou a CUT (Central Única
dos Trabalhadores), a UNE (União Nacional dos Estudantes) e os
movimentos dos sem-teto e dos desempregados como entidades que poderão
se unir aos sem-terra. A CUT apóia a idéia. "A tendência
é apoiarmos toda e qualquer mobilização de entidades
sociais. Apoiaremos integralmente ações do MST no campo
e na cidade. Mas espero que o MST não deixe de fazer a luta pela
terra", afirmou ontem o secretário de Comunicação
da CUT, Antonio Carlos Spis. A UNE não foi localizada para comentar
a proposta.
O governo federal não respondeu
às declarações do MST. Procurados por meio de suas
assessorias, até a conclusão desta edição
os ministros Guilherme Cassel (Desenvolvimento Agrário) e Paulo
Vannuchi (Direitos Humanos) não haviam falado.
Trégua na eleição
Não há prazo para o início
das investidas do MST nas cidades. O tom de ameaça se dissipa
nos prazos. Rodrigues diz que as negociações para as alianças
já estão em curso. Até junho, os movimentos discutirão
os objetivos para a definição de uma pauta comum de reivindicações,
mas as mobilizações só deverão acontecer
a partir do próximo ano. Até lá, disse Rodrigues,
os protestos no campo serão prioritários. Mas com um intervalo
de ao menos seis meses.
A partir de julho, os sem terra acenam
com a possibilidade de uma trégua no campo. "É bem
provável que no segundo semestre fique mais difícil [promover
protestos], mas não é porque atrapalha a eleição.
É porque não tem com quem negociar", disse Rodrigues,
que ainda afirma que as lideranças do movimento estão
discutindo com suas bases a posição da entidade em relação
aos candidatos à Presidência. "O mais provável
é uma decisão de autonomia política, pelo menos
no primeiro turno", declarou.
Sobre as acusações
de que o MST promove atos violentos, disse: "O Poder Judiciário
reconhece que [a invasão] é um ato democrático,
na medida em que você ocupa uma terra improdutiva para demonstrar
que ela precisa servir para a reforma agrária", disse. "Destruir
o laboratório da Aracruz, no Rio Grande do Sul, não é
uma ação violenta, é uma desobediência civil",
afirmou. "Nenhuma pessoa ficou ferida naquela ação.
Isso é um ato de violência contra quem? Contra a infra-estrutura?
Contra as plantinhas que estavam lá?", questionou.
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Folha de São Paulo,
22 de abril de 2006
IMPOSTO DE RENDA
Entrega da declaração não
guarda relação com a idade da pessoa
Menores também podem declarar
DA REPORTAGEM LOCAL
A entrega da declaração
do Imposto de Renda não guarda relação com a idade
do contribuinte. Assim, contribuintes menores de idade também
podem entregar as declarações. A declaração
é feita em nome e com o número do CPF do menor, abrangendo
os rendimentos próprios. Opcionalmente, o menor pode ser considerado
dependente dos pais ou de quem o crie, eduque e detenha sua guarda judicial.
Nesse caso, o declarante terá de incluir os rendimentos do menor
em sua declaração.
No caso de menor que esteja sob a guarda
de um dos pais, em virtude de sentença judicial, ou acordo homologado
judicialmente, a declaração em conjunto só pode
ser feita com aquele que detém a guarda judicial. No caso de
menor emancipado, a declaração é feita em nome
e com o CPF dele, abrangendo os rendimentos próprios. Opcionalmente,
se preencher os requisitos para permanecer como dependente, seus rendimentos
são tributados em conjunto na declaração de um
dos pais.
No caso de contribuinte incapaz,
a declaração é feita em nome e com o número
do CPF dele, abrangendo os rendimentos próprios. A declaração
é feita pelo tutor, curador ou responsável por sua guarda
judicial. Opcionalmente, o incapaz pode ser considerado dependente do
tutor, curador ou responsável por sua guarda judicial, desde
que o declarante inclua, em sua declaração, os rendimentos,
bens e direitos do incapaz.
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Folha de São Paulo,
23 de abril de 2006
ELEIÇÕES 2006/EM BUSCA DE UM DISCURSO
Berzoini diz que população não prestará
atenção em quem falar da crise; para Sérgio Guerra,
porém, PT vai ter "sérios problemas" na questão
PT e PSDB minimizam ética na campanha
DA REPORTAGEM LOCAL
A seis meses da eleição,
PT e PSDB já apresentam suas armas para a disputa. Contrapondo-se
ao discurso do PT de confrontar os governos Luiz Inácio Lula
da Silva e Fernando Henrique Cardoso, o coordenador da campanha de Geraldo
Alckmin, senador Sérgio Guerra (PSDB-PE), diz que a comparação
"é uma fraude", por conta dos cenários internacionais
distintos. Sobre a corrupção no governo Lula, Guerra diz:
"O PT vai ter sérios problemas nessa questão ética.
Não consigo ver esse problema do nosso lado". Pondera, porém,
que o tema "não vai ser necessariamente explorado pela campanha".
"A sociedade brasileira está cansada de saber o que foi
feito."
Ao falar das acusações
contra Alckmin, Guerra ataca: "Não se trata de dizer que
Alckmin tem o monopólio da honestidade. (...) O governo dele
[em São Paulo] foi limpo. O PT não pode dizer a mesma
coisa do governo Lula". Potencial coordenador da campanha de Lula
à reeleição, o presidente do PT, Ricardo Berzoini,
diz que será natural a comparação do governo Lula
ao de FHC. E desafia: "A oposição faz um debate demagógico
sobre a questão da ética. Um partido cujo presidente da
República foi flagrado discutindo formação de consórcio
durante a privatização das teles ou que teve a diretoria
do Banco do Brasil inteira condenada à prisão por gestão
temerária no caso Encol não tem autoridade para falar
em ética". (CATIA SEABRA)
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Folha de São Paulo,
23 de abril de 2006
CRISE NO AR
Empresa não cortou custos, sofreu com problemas de administração
e estimulou corporativismo
Viés estatal-sindicalista afunda
Varig
ELVIRA LOBATO, JANAINA LAGE
DA SUCURSAL DO RIO
A maior companhia da história
da aviação brasileira está em ruína por
ter reproduzido vícios de má administração
estatal e por ter estimulado o corporativismo típico de entidade
sindical, sendo uma empresa privada. Controlada acionariamente pelos
empregados, por meio da Fundação Ruben Berta, a Varig
deixou que seus problemas se avolumassem e esperou por uma solução
salvadora do Estado, que não veio. Tudo indica que não
sobreviverá para completar 80 anos em 2007 -caso não seja
vendida.
A Varig não se ajustou para enfrentar
as crises conjunturais do mercado de aviação e o aumento
da concorrência. Para 54 aeronaves em operação,
possui 9.400 empregados, dos quais 1.400 são pilotos e co-pilotos.
Na TAM, a proporção era de 1.034 pilotos e co-pilotos
para 79 aviões no ano passado, segundo dados do balanço
financeiro. Hoje, a TAM tem um total de 9.669 empregados para 81 aeronaves.
A Varig tem média de quase 26 pilotos por avião (13 da
TAM). Em 2003, o número de funcionários por aeronave da
Varig (201) era mais do que o dobro do da TAM (88) e do da Gol (85),
mostra tese de doutorado defendida na Escola Politécnica da USP
pelo professor Antonio Henriques de Araújo Jr., da Unesp.
Ouvidos pela Folha, ex-presidentes da
empresa, como Ozires Silva, dizem que os funcionários não
permitiram demissões ou ajustes. Ozires lembra frase de Ruben
Berta: "Quando criou a fundação e passou aos empregados
a propriedade, ele disse que a Varig somente cairia se os empregados
assim deixassem. Parecem palavras proféticas". Arnim Lore,
que deixou a presidência após o conselho curador da FRB
ter recusado um acordo com credores, ressalta o custo financeiro da
empresa. "Os gastos a prejudicavam em relação a outras
empresas. Havia uma série de problemas: incapacidade financeira,
gestão e eficiência."
Os governos dos últimos 24 anos
também são responsabilizados, por ex-dirigentes, pelos
problemas da Varig. Sustentam que a origem da crise está na defasagem
dos preços das passagens acumulada nos governos de José
Sarney (1985-90) e Fernando Collor (1990-92) e que a empresa foi instrumento
de política externa, tendo sido levada a operar rotas deficitárias
para a África e a América Latina por mais de dez anos.
Gestão e planejamento
A abertura do mercado, principalmente
nas rotas para EUA e Europa, surpreendeu a companhia, que esperava compensar
o preço elevado da passagem com a qualidade do serviço.
As tarifas desabaram, e a Varig nunca fez um sério controle de
custos. Até 2005, havia mais de cem pessoas na companhia com
poder de autorizar passagens gratuitas. "Os salários eram
menos vinculados a horas de vôo e acima da média do mercado",
afirmou um dos ex-dirigentes. A maioria prefere não se identificar
ao comentar a situação da empresa.
Mas alguns, como o ex-presidente do BNDES
Carlos Lessa, que defende a ajuda do governo à Varig, atacam
abertamente, culpando a FRB pelos problemas de gestão e acusando
o acionista controlador de ter permitido "as mais altas comissões
de companhia aérea para as agências de viagens, que surgiam
de primos, amigos e parentes dos dirigentes". Lessa foi presidente
do BNDES em 2003 e 2004 e negociou com o controlador da Varig. Presidente
da empresa entre 2000 e 2002, Ozires acha que o principal aspecto negativo
da companhia é a governança corporativa. "Os empregados
não querem ceder nada. O plano de demissões voluntárias
que propus não foi aceito pela empresa, controlada por funcionários.
Eles disseram não, e assim foi."
Apesar disso, defende a participação
do governo na recuperação da empresa e na salvação
da marca. "A sacudida que a Varig está levando agora é
para optar entre o aspecto corporativo e as garantias de emprego. É
um momento de reflexão, de salvar os empregos."
Passivo a descoberto
O último balancete financeiro
da Varig, de setembro de 2005, mostra um passivo a descoberto de R$
7,2 bilhões. Significa que, se todos os ativos forem vendidos
pelo valor contábil, esse é o valor que faltará
para pagar as dívidas. De 1990 para cá, ela só
teve lucro em 1994 (US$ 202 milhões) e em 1997 (US$ 25 milhões).
Todos os demais anos terminaram no vermelho e com um rombo cada vez
maior. Desde 1999, tem déficit operacional. Ou seja, além
das dívidas que já tem, seu funcionamento dá prejuízo.
A participação no mercado doméstico, hoje, caiu
a menos de 19%.
A maior parte (64%) das dívidas
da Varig é com o governo e com empresas estatais. O segundo maior
credor é o fundo de pensão Aerus. Esse perfil de dívida
contribuiu para a atitude da empresa de aguardar uma solução
do Estado para os problemas, em vez de impor sacrifícios contra
a crise.
Governo militar
O rombo da Varig começou a se
formar no governo João Baptista Figueiredo (1979-85), quando
ela encomendou à Boeing cinco 747-300, com financiamento japonês.
O México declarara moratória, e os EUA suspenderam os
empréstimos às empresas brasileiras. A empresa foi autorizada
a buscar crédito no Japão. Com a valorização
do iene, o custo das aeronaves duplicou em dólar. Em 1999, quando
os aviões foram desativados e devolvidos, ficou uma dívida
de US$ 250 milhões.
Luiz Martins, que presidiu a Varig de
2003 a 2005, aponta a política de reserva de informática,
dos anos 80, como outro fator negativo sobre a empresa. Segundo ele,
enquanto a importação de computadores esteve proibida,
ela "fabricou" computadores para informatizar as agências
de viagem. "É injusto atribuir a crise da Varig à
má gestão. Nenhuma companhia chega a um déficit
de R$ 7 bilhões apenas por incompetência."
Reajuste de tarifas
Na gênese da crise da Varig há
outro fator atribuído ao governo: o descasamento entre o reajuste
das passagens e o aumento do custo dos insumos, principalmente do querosene.
A Varig reivindica na Justiça a reposição de perdas
sofridas entre 1986 (início do Plano Cruzado) e 1991 (governo
Collor) por insuficiência de reajuste tarifário. Na ocasião,
a empresa calculou suas perdas em US$ 986 milhões. O STJ (Superior
Tribunal de Justiça) deu ganho à Varig, mas a União
recorreu ao STF (Supremo Tribunal Federal). Segundo a Fundação
Getulio Vargas, a reposição pedida soma R$ 4,4 bilhões.
Paternalismo
Em 1982, o fundo Aerus foi criado com
vantagens para os empregados que só uma estatal se permitiria.
Além da contribuição do patrocinador e dos empregados,
o governo criou taxa adicional de 3% sobre o valor das passagens dos
vôos domésticos para capitalizar o fundo. Previu-se, na
época, que a taxa perduraria por 30 anos, mas foi extinta após
oito anos. Funcionários conseguiram se aposentar, nos anos 80,
com apenas três anos de contribuição. Por muito
tempo, o fundo ofereceu pecúlio por morte bancado somente pela
Varig. O plano atuarial previa contribuição dos aposentados
de 7,6% sobre o valor do benefício, que foi derrubada em 86,
por pressão dos funcionários.
O cálculo da aposentadoria começou
limitado a dois tetos do benefício oferecido pelo INSS e acabou
liberado em 1989, o que elevou o fosso entre o patrimônio e os
compromissos assumidos.
Trem descarrilhado
A Varig, segundo informações
de executivos que já estiveram em seu comando, assemelha-se a
um trem descarrilhado, sem a mínima estabilidade. De 2000 para
cá, a empresa teve nove presidentes. Os empregados se dividem
em várias facções que se atacam. "As diretorias
do sindicato, da Associação dos Pilotos, da Fundação
Ruben Berta e do Aerus estão em constante luta política
e influenciam na empresa. Tudo na Varig é para o curto prazo,
não há tempo para decisões estratégicas",
diz um ex-presidente que não quis ser identificado. No seu jingle
mais famoso, de 1967, a Varig era a "estrela brasileira no céu
azul, iluminando de Norte a Sul". Uma versão atualizada
poderia cantar uma estrela cadente em céu nublado, se apagando
de Norte a Sul.
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Folha de São Paulo,
24 de abril de 2006
ELEIÇÕES 2006/PRESIDÊNCIA
Tucanos vão ao TSE contra propaganda da auto-suficiência
do petróleo, que, segundo eles, promove eleitoralmente o presidente
Lula
PSDB quer suspender comercial da Petrobras
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O PSDB informou ter ingressado anteontem
no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com uma representação
e um pedido de investigação eleitoral contra a campanha
publicitária da Petrobras para divulgar a auto-suficiência
na produção do petróleo. Os tucanos pedem a suspensão
da campanha e a aplicação de multa ao presidente da estatal,
José Gabrielli, e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O argumento dos dois documentos -cujo
protocolo no TSE a Folha não conseguiu confirmar ontem- é
semelhante: o de que o objetivo camuflado da campanha é beneficiar
eleitoralmente Lula, que deve disputar a reeleição. "Na
prática, a Petrobras malversou recursos para, de forma subliminar,
promover eleitoralmente a pessoa do senhor Luiz Inácio Lula da
Silva, notório pré-candidato à Presidência
da República", diz o texto da representação.
Com o argumento de que a campanha da
auto-suficiência tem cunho eleitoral, as ações fazem
referência à seguinte locução da propaganda
televisiva: "Só nos últimos três anos foram
investidos R$ 63 bilhões para que o país chegasse a essa
conquista". "Uma rápida leitura do texto acima transcrito
revela evidente propaganda eleitoral intempestiva pois afirma que nos
últimos três anos, ou seja, durante o mandato do senhor
Luiz Inácio Lula da Silva, a Petrobras recebeu, supostamente,
um volume recorde de investimentos, R$ 63 bilhões, necessários
para chegar a essa conquista", diz a representação.
A assessoria do Palácio
do Planalto disse ontem que, por enquanto, não comentará
as ações do PSDB. A Folha não conseguiu falar com
assessores da Petrobras. "Isso é propaganda eleitoral clara.
Além disso, há evidentes mentiras, a maior delas é
a desqualificação do governo passado. Entre 1995 e 2002,
no governo do PSDB, praticamente dobrou-se a produção
da Petrobras", afirmou o deputado Alberto Goldman (SP).
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O ESTADO DO PARANÁ,
23 de abril de 2006
Entulho da construção para
reciclagem
Redação/O Estado do
Paraná
Foto: Fábio Alexandre/O
Estado
Sobras podem ser transformadas em blocos de concreto, argamassa e contrapiso.
A resolução do Conama —Conselho Nacional do Meio
Ambiente, que tem por finalidade reduzir os impactos ambientais resultantes
do lixo na construção civil e preservar os recursos naturais,
completou um ano em janeiro. No entanto, muitas construtoras ainda não
se adaptaram às novas regras. A ABCP — Associação
Brasileira de Cimento Portland -, órgão técnico
do setor cimenteiro, há alguns anos desenvolve programas e sistemas
para incentivar construtoras a reduzir a geração de entulhos.
Muitos ainda não sabem, mas reciclar entulho de obra e transformá-lo
em blocos de concreto, argamassa, contrapiso e base para pavimentação
é algo perfeitamente viável. Tudo com o aval da ABNT —Associação
Brasileira de Normas Técnicas, que define parâmetros de
qualidade dos agregados reciclados.
Mesmo antes da lei entrar em vigor, muitas construtoras já haviam
constatado que o entulho no canteiro de obra é sinal de desperdício.
Para amenizar o problema, o Sinduscon — Sindicato Nacional da
Construção Civil e representantes da cadeia produtiva
formataram uma cartilha para orientar as construtoras quanto à
destinação do entulho. Essa também tem sido uma
preocupação da ABCP, que desenvolve sistemas construtivos
visando à redução dessas sobras.
De acordo com o gerente do Projeto Indústria da ABCP, Cláudio
Oliveira, a falta de planejamento na obra e a ausência de normalização
dos materiais de construção são agravantes para
a geração de entulhos. “Paredes irregulares, por
exemplo, são as principais responsáveis pelo gasto excessivo
de materiais, como argamassa, blocos e tijolos”, explica. Segundo
ele, com um metro cúbico de entulho reciclado é possível
fabricar 227 blocos de concreto; com cinco metros, se ergue uma casa
popular.
Para obras de edificações mais limpas, a ABCP indica sistemas
de alvenaria estrutural com blocos de concreto, paredes monolíticas
e pré-fabricados para estruturas e fachadas, em que a utilização
dos materiais é racionalizada.
Alvenaria estrutural com blocos de concreto
Neste sistema, o projetista consegue calcular o número exato
de blocos que serão utilizados e eliminar as etapas de rasgos
nas paredes para colocação de instalações
elétricas e hidráulicas, que levam ao desperdício
e ao retrabalho. Considerando todas estas vantagens, o metro quadrado
de parede pronta de blocos de concreto chega a ser 25% mais barato que
o das demais alternativas.
Paredes Monolíticas
As paredes monolíticas contemplam todos os “embutidos”,
ou seja, ao retirar as fôrmas, toda parte elétrica, hidráulica
e de esquadrias já estão contemplados na parede.
Pré-fabricados de concreto
O pré-fabricado de concreto é um dos sistemas que mais
evoluiu nos últimos anos. Mais recentemente, suas inovações
tecnológicas têm sido colocadas a serviço da arquitetura,
por meio das fôrmas arrojadas das estruturas e fachadas pré-fabricadas.
Feitos sob medida para cada obra, os painéis, por exemplo, podem
reproduzir qualquer desenho de fachada com qualidade e rapidez. Inclusive
a construção formal está migrando para os sistemas
pré-fabricados de concreto em função da agilidade,
economia e limpeza do canteiro que este tipo de obra proporciona.
Além desses sistemas, a ABCP criou a Comunidade da Construção,
um movimento que integra os agentes da cadeia produtiva, no intuito
de gerar melhoria de desempenho e, conseqüentemente, amenizar as
perdas e geração de entulho.
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O ESTADO DO PARANÁ, 23 de abril de
2006
Trabalhadores assumem vagas no Sistema
S
Redação/O Estado do
Paraná
As entidades ligadas à Federação
das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) - Sesi e Senai
- e à Federação do Comércio -Sesc e Senac
- pela primeira vez na história incluirão trabalhadores
em seus conselhos deliberativos. Os sindicatos e as centrais sindicais
já estão elegendo os representantes e até junho
o processo deverá estar concluído.
A inclusão dos trabalhadores nos conselhos deliberativos destas
quatro entidades do Sistema S foi aprovada pelos sindicatos e pelos
empresários e regulamentada em março último através
de decretos assinados pelo presidente da República, Luiz Inácio
Lula da Silva. Nas entidades regionais estão sendo abertas de
uma a três vagas e nas nacionais seis.
O processo ocorre simultaneamente em todos os estados. A expectativa
do coordenador do Fórum Nacional do Sistema S e presidente do
Conselho Nacional do Sesi, Jair Meneguelli, é de que sejam abertas,
em todo o País, 300 vagas somente nestas quatro entidades.
Os trabalhadores também vão ganhar assento nos colegiados
das outras cinco entidades que formam o Sistema S - Sebrae, Senat, Sest,
Senar e Sescoop. As negociações, que ocorrem no âmbito
do fórum, estão avançadas e a regulamentação
deve sair no segundo semestre deste ano. A inclusão se dará
também em nível regional. O objetivo da medida é
aprimorar ainda mais o sistema.
Segundo Meneguelli, ninguém melhor do que o “chão
de fábrica”, o grande usuário dos serviços
deste sistema, para apontar eventuais falhas e projetos prioritários.
Para o dirigente, o sistema ganhará em eficiência e será
ainda mais útil para a sociedade, principalmente na área
de qualificação profissional.
Meneguelli estima, ao todo, entre titulares e suplentes, a criação
de cerca de mil vagas para os trabalhadores nos colegiados destas nove
entidades. O Sistema S é a maior ONG do planeta, devendo movimentar
neste ano R$ 13 bilhões, duas vezes mais que o bolo anual de
royalties gerado no País pela indústria do petróleo.
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O ESTADO DO PARANÁ,
23 de abril de 2006
Unicidade sindical, decisões do
STF, registro no MTE e medidas judiciais (1)
Edésio Passos [23/04/2006]
1. Unicidade sindical:
O atual inciso II do artigo 8.º define o sistema sindical vigente,
de unicidade, em suas linhas mestras, desde a década de 30, ao
prescrever: “Art. 8.º... II - é vedada a criação
de mais de uma organização sindical, em qualquer grau,
representativa de categoria profissional ou econômica, na mesma
base territorial, que será definida pelos trabalhadores ou empregadores
interessados, não podendo ser inferior a área de um Município”.
O atual sistema sindical tem as seguintes bases: a) uma só entidade
representativa de categoria profissional ou econômica na mesma
base territorial, o que se entende por unicidade sindical um só
sindicato, uma só Federação, uma só Confederação;
b) base territorial limitada a, pelo menos, um município, impossibilitando,
assim, o sindicato de empresa, mas não vedando sindicatos intermunicipais,
estaduais, interestaduais e nacionais; c) direito do trabalhador ou
empregador definir a base territorial, possibilitando, portanto, o desmembramento
da entidade sindical que detenha a base em mais de um município.
2. Liberdade e autonomia sindical: Ao mesmo tempo, a Constituição
Federal de 05 de outubro de 1988 fixou com clareza o princípio
da liberdade e autonomia sindical também no art. 8.º, em
seu inciso I: “ a lei não poderá exigir autorização
do Estado para a fundação de sindicato, ressalvado o registro
no órgão competente, vedadas ao Poder Público a
interferência e a intervenção na organização
sindical”. Portanto, é livre a fundação da
entidade sindical, mas a aquisição de sua personalidade
jurídica fica na dependência de registro no órgão
competente, vedando ao Ministério do Trabalho e Emprego ou de
outro organismo do Poder Público a interferência e a intervenção
na organização sindical.
3. A prática sindical: Tanto o princípio
da unicidade sindical, como e da liberdade e autonomia sindical, foram
confirmados por históricas decisões do Supremo Tribunal
Federal, assim como a necessidade do registro no Ministério do
Trabalho e Emprego. Portanto, liberdade e unicidade sindical coexistem
no sistema, assim como a garantia das mesmas pelo Ministério
do Trabalho e Emprego. Mas esta aparente contrariedade tem sido motivo
de amplo debate judicial, na medida em que na prática sindical
ocorre (a) a livre fundação da entidade (b) o pedido de
reconhecimento pelo registro no Ministério do Trabalho e Emprego
(c) a possibilidade da impugnação por entidade sindical
que for atingida em sua representatividade sindical ou na sua base territorial
(d) as decisões judiciais que decidem, em definitivo, as disputas
em torno das controvérsias surgidas. Assim, em primeiro plano,
é em torno do registro no Ministério do Trabalho e Emprego
que as disputas entre as várias correntes do movimento sindical
se degladiam. Pois, a partir da decisão, favorável ou
contrária daquele organismo público, que o Poder Judiciário
decidirá sobre a infringência ou não dos princípios
constitucionais que norteiam a organização sindical brasileira.
4. Histórica decisão do STF: Vide histórica
decisão do Supremo Tribunal Federal, de 1995, ao decidir sobre
ação direta de inconstitucionalidade:
“REGISTRO SINDICAL E LIBERDADE SINDICAL: - A jurisprudência
do Supremo Tribunal Federal, no interpretar a norma inscrita no art.
8.º, I, da Carta Política e tendo presentes as várias
posições assumidas pelo magistério doutrinário
(uma, que sustenta a suficiência do registro da entidade sindical
no Registro Civil das Pessoas Jurídicas; outra, que se satisfaz
com o registro personificador no Ministério do Trabalho e a última,
que exige duplo registro: no Registro Civil das Pessoas Jurídicas,
para efeito de aquisição da personalidade meramente civil,
e no Ministério do Trabalho, para obtenção da personalidade
sindical) -, firmou a exigência de registro sindical no Ministério
do Trabalho, órgão este que, sem prejuízo de regime
diverso passível de instituição pelo legislador
comum, ainda continua a ser o órgão estatal incumbido
de atribuição normativa para proceder à efetivação
do ato registral. Precedente: RTJ 147/868, Rel. Min. Sepúlveda
Pertence. O registro sindical qualifica-se como ato administrativo essencialmente
vinculado, devendo ser praticado pelo Ministro do Trabalho, mediante
resolução fundamentada, sempre que, respeitado o postulado
da unicidade sindical e observada a exigência de regularidade,
autenticidade e representação, a entidade sindical interessada
preencher, integralmente, os requisitos fixados pelo ordenamento positivo
e por este considerados como necessários à formação
dos organismos sindicais” (ADI 1121-9,Tribunal Pleno, STF, DJ
6.10.95, ementário 1803-01, relator Ministro Celso de Mello).
Destaca o acórdão que o Ministro do Trabalho se obriga,
ao decidir sobre o registro sindical, adotar “...resolução
fundamentada, sempre que, respeitado o postulado da unicidade sindical
e observada a exigência de regularidade, autenticidade e representação,
a entidade sindical interessada preencher, integralmente, os requisitos
fixados pelo ordenamento positivo...”. Exatamente a observância
de tal postulado é que balisará, se houver, a decisão
judicial que confirmará ou negará o despacho ministerial.
5. A salvaguarda da unicidade sindical: Por isso, que já
anteriormente, em 1993, o Supremo Tribunal Federal definia o caráter
do despacho ministerial sobre registro sindical em acórdão
em mandado de injunção: “1. O que é inerente
à nova concepção constitucional positiva de liberdade
sindical é, não a inexistência de registro público
o qual é reclamado, no sistema brasileiro, para o aperfeiçoamento
da constituição de toda e qualquer pessoa jurídica
de direito privado -, mas, a teor do art. 8.º, I, do texto fundamental,
“que a lei não poderá exigir autorização
do Estado para a fundação de sindicato”; o decisivo,
para que se resguardem as liberdades constitucionais de associação
civil ou de associação sindical, é, pois, que se
trate efetivamente de simples registro ato vinculado subordinado apenas
à verificação de pressupostos legais -, e não
de autorização ou de reconhecimento discricionários.
2. A diferença entre o novo sistema, de simples registro, em
relação ao antigo, de outorga discricionária do
reconhecimento sindical não resulta de caber o registro dos sindicatos
ao Ministério do Trabalho ou a outro ofício de registro
público. 3. Ao registro das entidades sindicais inere a função
de garantia da imposição de unicidade esta, sim, a mais
importante das limitações constitucionais ao princípio
da liberdade sindical”. (Mandado de Injunção 144,
Tribunal Pleno, DJ 28.05.93, ementário 1705-1, relator Ministro
Sepúlveda Pertence).
6. Súmula 677: É fundamental salientar
que o STF indica, com clareza, a essência do ato ministerial que
é de simples registro,. mas basicamente para garantir o princípio
constitucional da unicidade sindical, ou seja, a função
de salvaguarda. Esta diretriz se consubstanciou na Súmula 677
do STF: “Até que lei venha a dispor a respeito, cabe ao
Ministério do Trabalho proceder ao registro das entidades sindicais
e zelar pela observância do princípio da unicidade”.
7. Portarias do MTE: Neste sentido, a Portaria n.º
376, de 23.5.2000, do MTE, reformulou a Portaria n.º 343, de 4.5.2000,
no que concerne aos efeitos do despacho ministerial relativo à
decisão sobre a impugnação ao pedido de registro
sindical, in verbis: “ Art. 6.º ... Parágrafo único:
O exame de admissibilidade da impugnação restringir-se-á
à tempestividade do pedido, à representatividade do impugnante,
nos termos do caput do art. 5.º, à comprovação
de seu registro no Ministério do Trabalho e Emprego e de recolhimento
do valor relativo ao curso da publicação, não cabendo
a este Ministério analisar ou intervir sobre a conveniência
ou oportunidade do desmembramento, desfiliação, dissociação
ou situação assemelhada”.
A própria portaria ministerial limita o despacho da autoridade
pública que não poderá “analisar ou intervir”
sobre a conveniência de desmembrar, desfiliar, dissociar ou atender
a qualquer outro pedido assemelhado relativo ao registro sindical requerido.
Justamente sobre este ponto é que surgem as atuais questões
relativas às decisões ministeriais sobre registro sindical,
em contraponto com a obrigação de zelar pelo princípio
constitucional da unicidade sindical.
Edésio Passos é advogado,
ex-deputado federal (PT/PR) e membro da Comissão Nacional de
Direito e Relações do Trabalho do Ministério do
Trabalho e Emprego. E-mail: edesiopassos@terra.com.br.
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REVISTA ISTO É, 24 de abril de 2006
Eleições
A onda do voto nulo
Jovens defendem boicote a todos os candidatos
para derrotar a corrupção
Por Celina Côrtes
A desilusão com a classe política e sobretudo com o PT
alimenta um movimento ainda restrito, mas cada vez mais ruidoso. Grupos
de jovens, refletidos em dezenas de sites, blogs e comunidades virtuais
arregimentam seguidores para o voto nulo, tido por eles como a melhor
forma de protestar contra o atual estado de coisas. “É
uma minoria barulhenta”, define o cientista político Geraldo
Tadeu Monteiro. O Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (IBPS), presidido
por Monteiro, ouviu em dezembro passado 803 eleitores no Estado do Rio
de Janeiro e aferiu o tamanho da insatisfação: 25% dos
entrevistados admitem anular o voto nas eleições de outubro.
Outros institutos não confirmam essa tendência, mas estão
todos de olho no Efeito Baixo-Astral no eleitorado brasileiro.
Internet: sites ensinam como anular o
voto eletrônico
“É um tiro que sai pela culatra, porque reduz o número
de votos válidos e, assim, favorece os políticos tradicionais”,
acredita Monteiro. O cientista social Luiz Antônio Machado, do
Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj),
classifica o voto nulo como antidemocrático. “Não
adianta nada. Para ter impacto, só se a adesão fosse esmagadora”,
pondera. Mas as fronteiras da internet vão sendo aos poucos ultrapassadas.
Dinho Ouro Preto, vocalista da banda Capital Inicial, promete defender
a tese nos 100 shows que fará até as eleições.
“Chegou a hora dos que estão fartos com o que está
aí usarem a abstenção como ferramenta de afirmação
política”, diz.
A onda, registre-se, não atinge só os jovens. É
o caso do advogado carioca Homero Moutinho Filho, 57 anos, que coordena
uma campanha pelo Orkut – o site de relacionamentos mais visitado
do País. Seu argumento pelo voto nulo é radical. “Nosso
voto não vale nada diante de campanhas milionárias de
marqueteiros”, diz Moutinho.
O Ibope até agora não registrou uma tendência no
eleitorado rumo ao voto nulo, mas pelo que tem observado o presidente,
Carlos Augusto Montenegro, há possibilidade de uma abstenção
maior – normalmente em torno de 15% – nos votos para deputado
e senador. “A campanha está fria, só esquenta depois
da Copa do Mundo”, estima. Para Maria Tereza Monteiro, da Retrato,
outro instituto de pesquisa, ainda não existe a cultura do voto
nulo no País. Ela observa que as pessoas sempre souberam da existência
da corrupção e talvez tenham se surpreendido com o envolvimento
do PT. Por isso, define as manifestações como “um
basta”. Ela não sabe qual vai ser o tamanho da onda, mas
reconhece que a marola já começou.
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REVISTA ISTO É, 24
de abril de 2006
Personagem
Para onde vai Delcídio
Acossado no PT e em seu Estado, o senador que
liderou a CPI dos Correios pode virar tucano
Por Rudolfo Lago
Quarta-feira. 14h30. O senador Delcídio Amaral (PT-MS), ex-presidente
da CPI dos Correios, desembarca em Brasília de um vôo direto
vindo de Campo Grande. Terá uma reunião com o deputado
Osmar Serraglio (PMDB-PR), que foi o relator da comissão, e técnicos
que os assessoraram. Tratarão dos desdobramentos das investigações,
que ficarão agora a cargo do Ministério Público.
No caminho entre o setor de desembarque e seu automóvel, Delcídio
vai esbarrando em brasileiros como o empresário paulista Roberto
Ducco. “Apesar de o senhor ser petista, eu tenho muita admiração
pelo trabalho que o senhor fez para desbaratar essa quadrilha”,
diz o empresário, com os olhos marejados. “Eu votei no
Lula. Mas não voto nunca mais”, completou. Delcídio,
depois de um suspiro, respondeu: “É o sentimento de muita
gente.” Mais adiante, foi Wilmar do Prado Vaz, deficiente físico
que chegava de Curitiba para disputar um torneio de tênis de mesa.
“Eu tinha certeza que o senhor não ia deixar tudo acabar
em pizza”, elogiou Wilmar. Mais uns passos, foi a vez de Vânia
Monsueth, uma jovem de 23 anos, que carregava no colo uma cadela poodle
de nome Good. “Sou sua fã número 1. Acompanhei todo
o seu trabalho”, disse ela. “E, além de tudo, você
é um gato”, avançou. “Virei celebridade, uma
espécie de artista”, disse Delcídio.
No teste de rua, o senador vai muito bem. Seu problema será conseguir
administrar o caldo de ódio que se estabeleceu no PT contra ele.
Os xingamentos que Delcídio ouviu do deputado Jorge Bittar (PT-RJ)
depois que operou para que nada impedisse a aprovação
do relatório final da CPI dos Correios são apenas o lado
visível de uma frente que uma parcela do partido move contra
ele. Em nível nacional, ele é o principal responsável
pela aprovação de um texto que envolve diretamente o PT
com a gênese e a alimentação do mensalão.
Ou seja, na cabeça de parte considerável do PT, foi Delcídio
quem deu à oposição a chave do discurso que fará
para tentar demolir o partido. Na semana passada, o senador procurou
o presidente do partido, deputado Ricardo Berzoini (SP), para buscar
desfazer a má impressão. Explicou que estava amparado
em pareceres dos técnicos em regimento do Senado para evitar
que os petistas tentassem mutilar com destaques o relatório final
da CPI. Ficou de mandar por escrito para Berzoini todas as explicações
técnicas das atitudes que tomou.
O senador enfrenta também turbulências em Mato Grosso do
Sul. Antes mesmo de se tornar celebridade, Delcídio buscava descolar-se
do caminho que o levou à política e ao PT, quando se tornou
secretário de Infra-Estrutura do governador Zeca do PT. No ano
passado, por exemplo, Delcídio lançou Saulo Monteiro como
presidente regional do partido, contra o próprio governador.
Perdeu o processo de eleição direta montado pelo PT. Mas
tomou de Zeca 43% do diretório regional do partido. Cada passo
que Delcídio deu para se diferenciar do governador, Zeca do PT,
deu também para se afastar dele. Hoje, é exatamente Zeca
quem mais cria dificuldades no Estado para que se viabilize a candidatura
de Delcídio. No final do ano passado, por conta dessas desavenças,
por pouco o senador não trocou o PT pelo PSDB. Permaneceu temendo
que fosse ainda mais massacrado por, em pleno exercício da presidência
da CPI que fustigava o governo, bandear-se para a oposição.
Na tática que vem montando para buscar superar os obstáculos
que enfrenta no PT e vencer as eleições, Delcídio
enxerga uma única saída: ser menos petista e mais Delcídio.
Nisso, ele tem em quem se espelhar. Em certa medida, é assim
que age também Lula na sua tentativa de reeleição.
É no presidente também que Delcídio busca se amparar
para evitar um possível boicote do PT. Durante todo o seu trabalho
à frente da CPI, o senador manteve conversas com o presidente.
Elas aconteciam pelo menos a cada três semanas. Inicialmente,
quando a comissão foi instalada, Delcídio, que ocupava
então a liderança do PT no Senado, não queria aceitar
a tarefa de presidi-la. Convenceu-se após falar com o presidente.
“Seja justo. Seja isento. Se tiver de cortar na carne, corte”,
recomendou-lhe Lula. Enquanto as linhas de investigação
não o atingiam diretamente, nenhum sinal de preocupação
transparecia do presidente. Rapidamente, o então presidente da
CPI percebeu que havia uma diferença profunda entre a estratégia
de Lula e a de seu partido para os desdobramentos das apurações.
Delcídio resolveu ficar com Lula. No PT, porém, isso poderá
lhe custar um alto preço.
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JORNAL O TEMPO / MINAS GERAIS,
24 de abril de 2006 | Economia
Previdência Social beneficia minoria
rica
SÃO PAULO – A desigualdade
na distribuição de renda entre os aposentados é
gritante no Brasil. Hoje o Estado paga aos 60% dos beneficiários
mais pobres a mesma quantia que dá aos 10% mais ricos. Ou seja,
enquanto a maioria sofre nas filas para receber parcos rendimentos,
muitas vezes um salário mínimo, a minoria abocanha boa
parte do que o país arrecada.
O sistema perverso contribui para aumentar
o déficit da seguridade social, que está em torno de R$
40 bilhões. “Além disso, aumenta a concentração
de renda e nada ajuda no crescimento do país”, afirma a
coordenadora da Fundação Institutos de Pesquisas Econômicas
(Fipe), Maria Helena Zockun. Ela liderou o estudo Simplificando o Brasil,
feito a pedido da Federação do Comércio do Estado
de São Paulo (Fecomercio), que traz propostas de reforma da Previdência
Social.
O trabalho revela ainda que, além
de gastar mal, o país gasta muito com a Previdência Social:
cerca de 12% do Produto Interno Bruto (PIB) todo ano, número
que dá ao Brasil o título de campeão mundial de
gastos com aposentadorias. Teoricamente, quanto maior a proporção
de idosos, maior o gasto público com Previdência Social.
Mas, segundo Maria Helena, o Brasil está fora do padrão
internacional. Com uma população idosa na casa de 5%,
o volume de despesa deveria ficar em 4,5% do PIB.
“Hoje gastamos o mesmo que a Finlândia
e a Espanha, cuja população idosa gira em torno de 15%
e 16%.” O México tem proporção de pessoas
com 65 anos ou mais semelhante ao Brasil, mas as despesas com previdência
estão abaixo de 5% do PIB, dentro da média mundial. Outro
dado assustador é que o governo gasta muito mais dinheiro para
atender aos inativos do que para investir em serviços aos 182
milhões de cidadãos.
Em 2004, os beneficiários da Previdência
receberam em média R$ 7.930 por ano. O gasto per capita com custeio
(educação, saúde, segurança, Justiça
e transportes) e investimentos na infra-estrutura ficou em R$ 2.197
por ano.
Discrepância
O mais indigno, diz Maria Helena, é
que se forem analisados os gastos previdenciários por categoria
a desigualdade é absurda. Os beneficiários do INSS são
cerca de 23 milhões e recebem em média R$ 5.660 por ano.
Já os 3 milhões de funcionários públicos
inativos e pensionistas ganham em média R$ 25.300 por ano –
cinco vezes mais que os aposentados do INSS. Ou seja, o funcionário
público se aposenta, em média, com R$ 1.946 e o do INSS,
R$ 435 por mês.
Segundo Maria Helena, não há
vínculo entre a contribuição recolhida na folha
de pagamento e o benefício que se vai receber no futuro, quando
se aposentar. “Quase metade das despesas com aposentadoria é
paga pela arrecadação geral do governo.”
A explicação está
ancorada no fato de a arrecadação sobre a folha de pagamento
cobrir 54% dos gastos com a Previdência. Os outros 46% são
injetados pelo Tesouro Nacional por meio das receitas dos demais impostos
e contribuições.
O professor do Departamento de Economia da Universidade de São
Paulo (USP), Juarez Rizzieri, lembra também que na década
de 50 eram oito trabalhadores para cada aposentado.
Em 1990, essa relação caiu
para 2,5 trabalhadores e, em 2002, para 1,1. “Mesmo que o país
conseguisse reverter toda informalidade, chegaríamos ao nível
de 1990”, afirma.
Segundo o estudo, o país chegou
a essa situação especialmente por três motivos:
precocidade da aposentadoria no Brasil, envelhecimento da população
e generosidade dos legisladores para com os funcionários públicos.
Para eles, o valor do benefício de aposentadoria é igual
ao último salário integral. (Agência Estado)
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JORNAL O TEMPO / MINAS GERAIS,
24 de abril de 2006 | Política
Primeiro Emprego só cumpre 0,5%
da meta
BRASÍLIA – O governo federal
desistiu do programa Primeiro Emprego. Lançado com toda pompa
há quase três anos, o programa naufragou. Desde julho de
2003, conseguiu empregar 3.936 jovens, quando o plano inicial era 260
mil vagas por ano – o que daria 780 mil jovens empregados em três
anos.
O rendimento pífio, de apenas
0,5% do pretendido, levou o governo a deixar de lado a idéia
– inicialmente considerada brilhante – de pagar R$ 1.500
por ano para empresas contratarem jovens de 16 a 24 anos.
Pior do que isso, o programa hoje repassa
dinheiro para empresas que tradicionalmente já contratam jovens
e continuariam a fazê-lo mesmo que o Primeiro Emprego não
existisse. Os maiores contratadores são empresas de telemarketing,
supermercados e lanchonetes.
O maior contratador, a rede de supermercados
Zaffari, do Rio Grande do Sul, é responsável por 1.104
vagas – mas a empresa sempre contratou jovens, assim como a rede
de lanchonetes Mc Donalds, que empregou 532 jovens, dos 763 que o programa
atendeu em São Paulo.
A idéia do Primeiro Emprego estava
errada de início. Partia do pressuposto de que jovens não
conseguem emprego porque não têm experiência e, como
as contratações são caras, as empresas preferiam
investir dinheiro em alguém já com experiência.
As duas idéias estão erradas,
como já mostravam estudos da época, confirmados pelo próprio
governo quase dois anos depois do lançamento. Um estudo feito
pela economista Priscila Flori, da CNI, antes do lançamento do
programa, mostra que jovens conseguem emprego sim, apesar da inexperiência.
Só que não ficam
empregados. Priscila decompôs a taxa de desemprego dos jovens
e descobriu que 80% dos desempregados nessa faixa não procuram
o primeiro emprego. Já trabalharam antes, mas foram demitidos.
(Agência Estado)
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O ESTADÃO.COM / SÃO PAULO, 24
de abril de 2006 | Economia
Desemprego no primeiro trimestre é o menor desde 2002
Segundo o IBGE, nos três primeiros meses
do ano o total de desocupados ficou em 9,9% nas seis regiões
pesquisadas pelo instituto
SÃO PAULO - O nível de desocupação
no primeiro trimestre de 2006 foi o menor para o período desde
2002. O dado, divulgado nesta quinta-feira pela Pesquisa Mensal de Emprego
(PME), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
mostra que de janeiro a março deste ano o total da população
desempregada ficou em 9,9% nas seis regiões.
DESOCUPAÇAO
POR REGIÃO METROPOLITANA (em %) |
| Mês |
Recife |
Salvador |
Belo
Horizonte |
Rio
de Janeiro |
São
Paulo |
Porto
Alegre |
março/2005 |
14,1 |
15,7 |
10,7 |
8,4 |
11,5 |
7,9 |
abril |
13 |
17 |
9,5 |
8,6 |
11,4 |
8 |
maio |
12,8 |
15,9 |
8,9 |
8,5 |
10,5 |
7,7 |
junho |
9,6 |
14,7 |
8,5 |
6,9 |
10,5 |
7,1 |
julho |
12,7 |
15,7 |
8,2 |
7,2 |
9,9 |
7 |
agosto |
13,4 |
15,5 |
8,3 |
7,4 |
9,4 |
7,6 |
setembro |
15 |
15,2 |
8,1 |
7,4 |
9,7 |
8,4 |
outubro |
14,3 |
14,9 |
8,5 |
7,9 |
9,6 |
7,5 |
novembro |
14,7 |
15 |
8,2 |
7,7 |
9,7 |
7,2 |
dezembro |
13,9 |
14,6 |
7 |
6,8 |
7,8 |
6,7 |
janeiro/2006 |
15,3 |
14,9 |
8,1 |
6,9 |
9,2 |
7,7 |
fevereiro |
15,9 |
13,6 |
9,1 |
7,9 |
10,5 |
7,5 |
março |
16,5 |
13,7 |
9,3 |
8,5 |
10,6 |
8,3 |
A pesquisa detalhou que, de fevereiro para março, o nível
de desemprego passou de 10,1% para 10,4%, o que, para o IBGE, é
considerado como "estabilidade". Ainda em março, as
regiões pesquisadas não tiveram variação
significativa no total de desempregados.
No terceiro mês do ano, em comparação
com março de 2005 - quando o total de desocupação
estava em 10,8% - o cenário também foi considerado como
estável. Porém, utilizando essa base, o contingente de
desempregados aumentou em Recife, ao passo que apresentou diminuição
em Salvador e Belo Horizonte.As regiões metropolitanas do Rio
de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre não apresentaram
movimentações significativas.
População ocupada
O contingente da população
ocupada (PO), estimada em 19,9 milhões de pessoas em março
de 2006, ficou estável em relação a fevereiro.
Na comparação com o mesmo mês de 2005, houve crescimento
de 1,9%, o que representou 369 mil pessoas. O nível da população
ocupada do terceiro mês de 2006 foi de 50,6%.
Dos ocupados, o setor privado assinou
a carteira de 41,3% da PO, ao passo que manteve 14,5% em situação
de informalidade. Os trabalhadores por conta própria representaram
19% dos ocupados.
Segmentos
Segundo o IBGE, o comércio
foi o segmento que mais empregou em março, representando 19,3%
do total. Apesar da alta representatividade, o porcentual ficou estável
no terceiro mês do ano, tanto na comparação com
fevereiro quanto no confronto com março de 2005.
Em seguida veio a indústria,
com 17,5% da PO, e o grupo de Outros Serviços (alojamento, transporte,
limpeza urbana e serviços pessoais), com 16,9%. Seguindo a lista
estão os segmentos de Educação, Serviços
prestados à empresa, e Serviços domésticos, com
16%; 14,3% e 8,1%; respectivamente. Por último veio o setor de
Construção, com 7,4%.
Rendimento
O rendimento médio real
foi estimado em R$1.006,80 no terceiro mês do ano, com crescimento
de 0,5% ante fevereiro e de 2,5% com base no mesmo período do
ano anterior.
Na comparação com
fevereiro, no comércio e no serviços domésticos,
houve estabilidade no rendimento, ao passo que no grupo de Construção,
Serviços prestados à empresa, Educação,
e Outros serviços, houve aumento de 1,25; 0,7%; 0,7% e 3,6%;
respectivamente. Ainda nesse comparativo, a indústria pagou 2,5%
a menos de um mês para o outro.
Região
Ainda utilizando como base fevereiro
deste ano, a região onde o rendimento mais aumentou foi Recife,
com incremento de 6,1%. Em menor crescimento, vieram Salvador, com 1,5%;
Belo Horizonte, com 1%; e Rio de Janeiro, com 0,5%. Em São Paulo
e Porto Alegre, o cenário foi de estabilidade.
Tomando como base março
de 2005, o poder de compra aumentou em todas as regiões pesquisadas.
A lista foi encabeçada novamente por Recife, com 10,5%; seguida
por Salvador, com 4,8%; Porto Alegre, com 3,3%; São Paulo, com
2,4%; Rio de Janeiro, com 2,2%; e Belo Horizonte, com 2,1%.
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O
ESTADÃO.COM / SÃO PAULO, 24 de abril de 2006 | Economia
Para FMI, real não está sobrevalorizado
O economista-chefe para a América Latina
do fundo, Anoop Singh, sua afirmação se baseia nas crescentes
exportações brasileiras
WASHINGTON - O economista-chefe para
a América Latina do Fundo Monetário Internacional, Anoop
Singh, disse que o real não está sobrevalorizado. A prova,
segundo ele, é que as exportações continuam crescendo.
“A exportação continua
a crescer em dois dígitos, e não somente as commodities
que tiveram valorização no mercado internacional, mas
em todos os setores”, afirmou Singh numa entrevista coletiva em
Washington, nesta sexta-feira, na véspera da reunião de
primavera do FMI, em resposta a uma pergunta sobre o que o País
deveria fazer em relação à sobrevalorização
da moeda brasileira. “Não concordo com esta afirmação”,
disse.
Ele disse que o Brasil conseguiu, nos
últimos anos, construir uma capacidade de exportação
que “excedeu o que se pensava que seria possível há
cinco anos”.
Na avaliação dele, a recuperação
do real está ligada à recuperação da economia,
depois da crise de 2002. “À medida em que outros setores
se recuperaram da crise, o real também se recuperou. Não
é só uma questão de taxa de câmbio, mas de
competitividade da economia, que vem aumentando”, afirmou.
"Bom histórico"
Singh também disse que não
está preocupado com a possibilidade de aumento de gastos públicos,
mesmo em ano eleitoral. “O Brasil tem um bom histórico
de superávit fiscal e nesta semana isso foi reafirmado quando
o governo mandou a Lei de Diretrizes Orçamentárias para
o Congresso”, afirmou.
O economista responsável pelo
Brasil, Charles Collin, disse que o FMI “apóia totalmente”
o aumento de gastos públicos em programas como o Bolsa Família.
“Eles são instrumentais para reduzir a pobreza, mas haverá
necessidade mais para a frente de discutir reformas mais fundamentais,
como nos gastos carimbados”, disse.
O FMI fez uma avaliação
otimista para a economia da América Latina neste e no próximo
ano. O crescimento como um todo será de 4,3%, com expansão
em todos os países do hemisfério.
A projeção, para
o Brasil, é de 3,5%, um dos mais baixos, superior apenas ao previsto
para o Equador (3%), Belize (2,7%) e Haiti (2,5%).
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CONSULTOR JURÍDICO,
21 de abril de 2006
Direitos do trabalhador
Lopes Leal assume TST com planos para
agilizar Justiça
por Maurício Cardoso e Adriana Aguiar
Aos 69 anos, o ministro Ronaldo Lopes
Leal assumiu a presidência do Tribunal Superior do Trabalho, nesta
segunda-feira (17/4). A menos que haja alterações na legislação,
ficará no cargo até fevereiro, quando completa a idade
limite de 70 anos, para servidores públicos. “Devemos trabalhar
como se fossemos viver eternamente”, diz ele que, em privado,
lamenta a aposentadoria compulsória em menos de um ano. Na prática,
está enfrentando a contrariedade com uma extraordinária
disposição para concretizar os muitos planos que tem para
a Justiça do Trabalho.
Segundo Leal, os dois grandes problemas
da Justiça Trabalhista brasileira são: a fase de execução
e o próprio TST, que sobrecarregado com a grande quantidade de
processos, deixa de exercer a sua obrigação constitucional
de uniformizar a jurisprudência. Com um programa de computador
numa mão e uma resolução na outra, o novo presidente
tem idéias muito claras para descongestionar tanto a fase de
execução dos processos quanto o próprio acumulo
de ações no TST.
Nesta entrevista concedida por telefone
à Consultor Jurídico o presidente do TST falou também
da reforma trabalhista e sindical, de flexibilização da
legislação, de informalidade do emprego e da ampliação
das competências da Justiça do Trabalho. “Pode-se
mudar a lei, desde que não se retirem os direitos dos trabalhadores
garantidos pela Constituição”, ele diz.
Ronaldo Leal graduou-se em Direito pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Foi juiz do trabalho e presidente
do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (Rio Grande
do Sul). É ministro do Tribunal Superior do Trabalho desde dezembro
de 1995. Tornou-se corregedor-geral de Justiça do Trabalho em
10 de abril de 2002 e em 13 de abril de 2004 passou a ser vice-presidente
do TST até tomar posse como presidente nesta segunda-feira.
Leia a íntegra da entrevista:
ConJur — O que o senhor
acha das propostas de Reforma Trabalhista e Sindical?
Ronaldo Leal —
Com relação à Reforma Trabalhista, temos uma Constituição
rígida que garante os direitos básicos e fundamentais
dos trabalhadores e que não podem ser modificados. No Brasil
não se pode ampliar ou diminuir os direitos trabalhistas em função
de conjunturas econômicas. Já medidas previstas na CLT
estão sujeitas a modificações, desde que não
implique retirar direitos dos trabalhadores porque a Constituição
não permite. Com relação à Reforma Sindical,
a proposta ainda está bem complicada e do jeito que está
caminhando é melhor que não exista reforma nenhuma. A
reforma quer dar um poder aos sindicatos que não seria compatível
com a realidade sindical brasileira.
ConJur — A CLT precisa
de reformas?
Ronaldo Leal —
A CLT precisa passar por uma modernização, mas isso não
significa retirar direitos dos trabalhadores. Não é viável
uma flexibilização dos direitos dos trabalhadores no Brasil
porque a Constituição garante a permanência desses
direitos. Mesmo a modernização da CLT não precisa
ser uma prioridade. Normas obsoletas que existem na CLT simplesmente
deixam de ser aplicadas.
ConJur — Com a emenda 45
e a nova competência da Justiça Trabalhista, processos
de outros tribunais estão sendo encaminhados para a Justiça
do trabalho. Muitos processos já foram encaminhados? O TST está
preparado para analisar essas questões e para receber essa demanda?
Ronaldo Leal —
A Justiça do trabalho por enquanto não está assustada
com a quantidade de processos que estão chegando de outros tribunais.
Da mesma maneira que a Justiça Trabalhista está preparada
para julgar questões que envolvem o trabalhador regido pela CLT,
pode julgar casos de empresas de natureza mais autônoma já
que o trabalhador continua sendo subordinado ao patrão.
ConJur — Como a Justiça
do Trabalho pretende enfrentar o problema do emprego informal?
Ronaldo Leal —
O trabalho informal deve diminuir bastante com a ampliação
da competência da Justiça Trabalhista pela Emenda 45 de
2005, já que o trabalho informal passou a ser julgado pela Justiça
do Trabalho. Por isso, as empresas que tinham o receio de serem acionadas
pela Justiça Trabalhista e contratavam o trabalhador informalmente
não terão mais como escapar das suas obrigações
trabalhistas.
ConJur — Uma das críticas
em relação à Justiça do Trabalho está
nos valores discrepantes estipulados como indenização
por dano moral. O senhor pretende fazer alguma coisa em relação
a isso?
Ronaldo Leal —
Só a jurisprudência poderá resolver esse problema.
Mas essa questão não é enfrentada só pela
Justiça do Trabalho, também existem casos de valores destoantes
de indenização por danos morais na Justiça Comum.
Esse problema ocorre porque o valor estipulado para indenização
por danos morais acaba sendo subjetivo e isso só será
resolvido com a formação de jurisprudência.
ConJur — O senhor disse
que um dos problemas da Justiça do Trabalho é a execução.
Que tipo de solução o senhor propõe?
Ronaldo Leal —
O TST está investindo em um programa chamado Cálculo Rápido
que irá permitir que uma sentença de primeiro grau já
possa sair líquida, com valores calculados. Esse cálculo
poderá ser revisto usando o mesmo programa nos tribunais regionais
se o juiz alterar a decisão e a condenação. Quando
a decisão transitar em julgado, já se poderá saber
qual é o valor da condenação e não haverá
mais uma fase de liquidação da sentença. Nesse
momento, o trabalhador já vai fazer a constrição
dos bens do devedor e se o devedor não pagar pode-se aplicar
o sistema Bacen-Jud. Para que tudo isso aconteça, basta apenas
promover uma mudança de cultura nos tribunais para implementar
o programa. Esse processo para implantar o sistema na Justiça
do Trabalho deve demorar de um a dois anos no mínimo, mas trará
uma agilidade enorme para a Justiça Trabalhista.
ConJur — Muitas empresas,
que tiveram todas as suas contas bloqueadas no Bacen-Jud, criticam o
sistema e dizem que ele inviabiliza o funcionamento da empresa. Como
isso pode ser resolvido?
Ronaldo Leal —
Esse problema está resolvido na nova versão do Bacen-Jud
que já está sendo utilizado. Com essa nova versão,
o sistema tem 24 horas para desbloquear todo e qualquer excesso que
tenha sido bloqueado. Outra idéia para solucionar esse problema
é que o próprio devedor indique qual a conta que deve
sofrer bloqueios. Além do mais, fiz um apelo aos juízes
de primeiro grau para que não façam bloqueio online de
contas de sócios das empresas e de terceiros sem que tenham absoluta
certeza de que estes sejam efetivamente responsáveis pela dívida
trabalhista.
ConJur — E com relação
à grande quantidade de processos que são encaminhados
ao TST que acabam impossibilitando a Corte de se dedicar à uniformização
de jurisprudência. O que pode ser feito com relação
a esse problema?
Ronaldo Leal —
Esse problema é um pouco mais complicado de solucionar porque
temos que dialogar com o Congresso Nacional e com a Ordem dos Advogados
do Brasil para apresentar modificações na legislação.
Mas algo que pode ser feito internamente é tentar dar prioridade
no TST para os casos que implicam formação de novas súmulas.
Isso porque surgem novas teses nos tribunais regionais que são
julgadas e que o TST só vai uniformizar com uma súmula
depois de três ou quatro anos. Para agilizar a uniformização
da jurisprudência, o TST fez uma resolução administrativa
que determina que os tribunais regionais identifiquem na capa do processo
as ações apresentam teses novas, para que este seja separado
dos demais e examinado com prioridade no TST. Já temos 4,5 mil
processos no TST assinalados que estão nas mãos dos relatores,
mas que não têm dado a prioridade no julgamento. Por isso
vamos determinar que essa resolução seja cumprida por
todos os ministros do TST. Essa uniformização de jurisprudência
impede que grande parte dos processos suba ao TST desafogando a nossa
pauta.
ConJur — Existem outras
medidas que serão tomadas para diminuir os processos no TST?
Ronaldo Leal —
Na medida em que os tribunais regionais julgarem uma lei inconstitucional,
esses mesmo órgãos proporiam um controle concentrado da
norma e o TST julgaria o caso como uma ação declaratória,
como se fosse uma ADI do Supremo, e já emitiria uma súmula
sobre o caso. Também penso em criar uma espécie de Sistema
de Transcendência em que o TST só julgaria processos que
obedecessem ao critério da relevância, ou seja só
julgaria o que julgasse relevante.
ConJur — O senhor tem algum
projeto de investimento na área de tecnologia?
Ronaldo Leal —
O objetivo maior é fazer com que o processo trabalhista se torne
totalmente virtual, seria o fim do processo de papel. O projeto piloto
deverá ser implantado no Conselho Superior de Justiça
Trabalhista e depois poderá ser usado nos outros tribunais. Contratamos
a Fundação Getúlio Vargas para estabelecer uma
uniformização de rotinas nos tribunais e esse processo
vai demorar cerca de oito meses, para que depois o sistema de informática
seja implantado.
ConJur — Segundo os dados
do CNJ de 2004, a Justiça do Trabalho é a que tem a maior
porcentagem de recursos, tanto da primeira para segunda instância
(74%) quanto da segunda para o TST (40%). Como o senhor analisa este
fato?
Ronaldo Leal —
Uma das causas desse alto grau de recorribilidade é que o órgão
público é obrigado a recorrer e ele é responsável
por um grande número de recursos. A partir do momento em que
o órgão público for dispensado de recorrer por
súmulas administrativas esse índice de recorribilidade
deve diminuir.
ConJur — A Justiça
trabalhista deve julgar ação que envolve servidores públicos?
Ronaldo Leal —
Apesar de achar que qualquer relação de trabalho deve
ser julgada pela Justiça do Trabalho, não entendo que
a Justiça trabalhista deva se envolver nesta questão.
Isso porque, por tradição, a Justiça do Trabalho
deve proteger o trabalhador. No caso do serviço público,
o protegido nessa relação é a administração
pública e não o servidor.
ConJur — O senhor assumiu
o TST com 69 anos. De acordo com as normas da aposentadoria compulsória,
o senhor teria menos de um ano para colocar todos esses projetos em
prática na presidência TST. Como será isso?
Ronaldo Leal —
Precisamos exercer nossas tarefas como se fossemos viver eternamente.
De qualquer forma, o homem passa os seus conhecimentos e projetos para
outro que poderá assumir as responsabilidades. É preciso
que se trabalhe pensando desta maneira até que seja resolvido
esse problema da aposentadoria compulsória para que haja a ampliação
da aposentadoria para os 75 anos, e aí então teria mais
tempo para concretizar esses planos.
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Notícias do Tribunal
Superior do Trabalho
24/04/2006
Justa causa pode ser aplicada no curso de
auxílio-doença
O empregador pode demitir por justa causa
um empregado afastado por auxílio-doença previdenciário,
mas a demissão só produzirá efeitos quando não
houver mais o motivo ensejador do benefício. Este foi o entendimento
adotado pela Quinta Turma do Tribunal Superior do Trabalho ao dar provimento
parcial a um recurso do Banco do Estado de Santa Catarina (BESC) e reconhecer
a legalidade da dispensa de um funcionário nessa condição.
O bancário foi admitido em 1984.
Em abril de 2000, passou a usufruir do auxílio-doença
pelo INSS por causa de dependência química. No decorrer
do afastamento, o comitê disciplinar do BESC abriu dois processos
para apurar suspeitas de apropriação indébita de
valores. No segundo deles, o empregado foi acusado de efetuar diversos
saques de pequenos valores em contas-poupança de clientes sem
o conhecimento destes – procedimento que ele próprio confessou.
Diante disso, o Banco o demitiu por justa causa.
O trabalhador ajuizou então reclamação
trabalhista com pedido de reintegração no empregado, por
considerar ilegal sua dispensa durante o gozo do benefício previdenciário.
A Vara do Trabalho de Florianópolis julgou o pedido improcedente.
No julgamento do recurso ordinário, o Tribunal Regional do Trabalho
de Santa Catarina (12ª Região) condenou o BESC a efetivar
a demissão apenas no dia imediatamente posterior ao término
do benefício.
Inconformado com essa decisão,
o Banco recorreu ao TST. Em suas alegações apresentou
o entendimento de que, “embora o auxílio-doença
implique suspensão temporária do contrato de trabalho,
que deixa, naquele período, de produzir efeitos, o empregador
pode rescindir o contrato por justa causa, quando constatado o ato de
improbidade no período de suspensão.”
O relator do recurso de revista, ministro
Gelson Azevedo, analisou o tema em seu voto. “O afastamento do
empregado por mais de 15 dias por motivo de doença é causa
da suspensão do contrato de trabalho, caracterizada pela sustação
dos efeitos decorrentes do vínculo de emprego, continuando, contudo,
em vigor o contrato de trabalho. Ou seja, as cláusulas contratuais
não se aplicam durante o período de suspensão,
inclusive a faculdade do empregador de demitir o empregado”, explicou.
No entanto, quando se trata de
justa causa por ato cometido antes do afastamento – como no caso,
em que a empresa apurou administrativamente a falta cometida e o afastamento
se deu antes da conclusão da apuração -, a suspensão
contratual prevalece, mas a empresa pode comunicar de imediato ao trabalhador
a justa causa. A efetiva rescisão, porém, só será
feita quando chegar ao fim a causa suspensiva do contrato. (RR 5712/2003-001-12-00.7)
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24/04/2006
TST nega efeito retroativo à Emenda
Constitucional nº 28
A Emenda Constitucional nº 28
de 2000, que alterou o prazo de prescrição para o ajuizamento
das reclamações trabalhistas pelos empregados rurais
(rurícolas), tem aplicação imediata, mas não
possui efeito retroativo quanto aos contratos em curso à época
de sua promulgação. Esse entendimento foi firmado pela
Subseção de Dissídios Individuais – 1 (SDI-1)
do Tribunal Superior do Trabalho ao negar embargos em recurso de revista
à Usina São Martinho S/A. A decisão relatada
pelo ministro João Oreste Dalazen confirmou o direito de um
trabalhador do interior paulista ao pagamento de parcelas não
quitadas durante toda relação de emprego.
A prerrogativa do rurícola já
havia sido reconhecida pela Quinta Turma do TST, que negou recurso de
revista à Usina São Martinho. O argumento da empregadora
foi o da inviabilidade do pagamento das verbas solicitadas pelo empregado
à justiça, pois teriam sido alcançadas pelo prazo
prescricional estabelecido pela EC nº 28/00, editada em 26 de maio
daquele ano. Com o advento da Emenda, foi fixado um prazo único
para a proposição das ações pelos trabalhadores
urbanos e rurais.
Ambos passaram a contar com dois anos,
contados da extinção do contrato de trabalho, para o exercício
do direito de ação, que alcança os fatos ocorridos
nos cinco anos anteriores da relação de trabalho. Pela
antiga previsão constitucional, os rurícolas podiam reivindicar
as verbas não pagas ao longo de todo o contrato.
No caso concreto, a empresa reivindicava
a aplicação da nova regra prescricional, pois a ação
de seu ex-empregado foi proposta em novembro de 2000, cinco meses após
a entrada em vigor da EC nº 28/00. O argumento da empresa, contudo,
não foi adotado pela Justiça do Trabalho da 15ª Região
(sediada em Campinas-SP) nem pelos órgãos julgadores do
TST (Quinta Turma e SDI-1).
O entendimento que prevaleceu foi o da
impossibilidade de a EC nº 28 alcançar situações
jurídicas constituídas antes de sua edição.
Em outras palavras, os direitos e a possibilidade de questioná-los
ilimitadamente, observado o prazo bienal, já existiam antes da
alteração constitucional; logo, não poderiam ser
suprimidos por uma norma criada posteriormente.
Essa interpretação
leva à conclusão de que a prescrição qüinqüenal
somente poderia atingir direitos surgidos após a vigência
da referida Emenda. Segundo o ministro Dalazen, a aplicação
retroativa da EC nº 28, como pretendia a empresa, “significaria
penalizar o titular do direito (rurícola) por não ter
postulado preventivamente a reparação das virtuais lesões
de direito consumadas no curso do contrato de trabalho”.
(ERR 1691/2000-120-15-00.8)
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24/04/2006
TST: prorrogação de contrato
de trabalho requer autorização
A prorrogação do contrato
de trabalho temporário depende, segundo a legislação,
de autorização do Ministério do Trabalho e Emprego
(MTE), e não apenas da comunicação da empresa interessada
ao órgão da administração pública.
Com esse esclarecimento do ministro Carlos Alberto Reis de Paula (relator),
a Terceira Turma do Tribunal Superior do Trabalho deferiu recurso de
revista a uma trabalhadora do interior paulista que firmou contrato
temporário com a empresa Funcional Centro de Recrutamento e Seleção
Pessoal Ltda para a venda de produtos de vestuário nas dependências
do Carrefour Comércio e Indústria Ltda.
Após o término do contrato
temporário, a trabalhadora continuou a prestar serviços
de promoção e venda dos produtos. A prorrogação
do contrato foi comunicada ao órgão local do MTE pelo
Carrefour. Posteriormente, a vendedora ingressou na 1ª Vara do
Trabalho de Jundiaí, solicitando o reconhecimento do vínculo
de emprego, conseqüência da irregularidade ocorrida na prorrogação.
A vendedora também alegou que,
com a prorrogação equivocada, o tomador de serviços
– Carrefour – passou a ser o responsável pelo contrato
de trabalho. A primeira instância não detectou a irregularidade,
tampouco o Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região (com
sede em Campinas-SP). “O contrato temporário pode ser automaticamente
autorizado desde que a empresa tomadora comunique ao órgão
local do Ministério do Trabalho, condição que foi
cumprida pela empresa cliente”, registrou a decisão regional.
Esse entendimento, contudo, foi reformado
no TST. O ministro Carlos Alberto observou que o art. 10 da Lei nº
6019 de 1974 aponta a necessidade da autorização do MTE
para a prorrogação do contrato temporário. O dispositivo
prevê que “o contrato entre a empresa de trabalho temporário
e a empresa tomadora ou cliente, com relação a um mesmo
empregado, não poderá exceder de três meses, salvo
autorização conferida pelo órgão local do
Ministério do Trabalho, segundo instruções a serem
baixadas pelo Departamento Nacional de Mão-de-Obra”.
Diante da constatação
de que houve mera comunicação, a Terceira Turma entendeu
que, no caso concreto, a prorrogação foi irregular. A
decisão reconheceu a continuidade da relação contratual
e, com isso, os autos retornarão à Vara do Trabalho de
Jundiaí, que prosseguirá no julgamento da ação
da trabalhadora e no exame dos direitos que reivindica. (RR 1901/2001-002-015-00.9)

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