Informativo Eletrônico n.º 116   -   Ano 03   -   Curitiba (PR), 08 de maio de 2006.



Agência Senado, 08, de maio de 2006

Propostas
Projeto permite que empregado "fiscalize" recolhimento de suas contribuições ao INSS

Com o objetivo de permitir que os empregados acompanhem o recolhimento de suas contribuições ao INSS - uma obrigação do empregador -, projeto de lei que tramita no Senado faculta ao trabalhador solicitar, a qualquer momento, o extrato das contribuições feitas em seu nome. Essa proposta também obriga as empresas a comunicar mensalmente aos seus empregados os valores recolhidos sobre o total de sua remuneração. O PLS 10/06 é de autoria do senador Cristovam Buarque (PDT-DF).

No texto de justificação, o senador ressalta que a fiscalização desses recolhimentos cabe ao INSS, mas reconhece que isso "nem sempre é eficaz e constante". Ele também destaca o alto índice de sonegação das empresas em relação a essa contribuição. O PLS 10/06 - que altera os artigos 32 e 80 da Lei 8.212/91 - tramita atualmente na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado.

 

Diário Vermelho, 07 de maio de 2006
OIT reconhece neoliberalismo como responsável pelo trabalho "indecente"

A discussão na Reunião Regional da OIT, que encerrou nesta sexta-feira (5), em Brasília, foi centrada na forte crítica às medidas neoliberais das décadas de 1980 e 1990, que levaram à pobreza do povo e demonstrou ser política fracassada, que aumentou o desemprego, o subemprego e a pobreza. Ao escolher como tema central das discussões a valorização do trabalho decente, a entidade reconhece essa realidade já denunciada pelos trabalhadores.

Para João Batista Lemos, presidente da Corrente Sindical Classista (CSC), que participa pela primeira vez da reunião da OIT, "a unidade neste fórum é pela valorização do trabalho, que não passa pelo modelo neoliberal e precisa da intervenção do Estado", resumiu.

Ele destaca que "isso tem levado a explosões de mudanças, sobretudo na América Latina", acrescentando que "a revolta popular tem se traduzido em vitórias da esquerda nos países da América Latina como Bolívia, Uruguai, Argentina, Brasil e Venezuela".

Recomposição do Estado

Existe consenso no movimento sindical de que o livre mercado vai levar a mais precarização, por isso os trabalhadores apresentaram a proposta de intervenção maior do Estado. Batista destaca como um avanço o consenso de que só a retomada do crescimento econômico não é suficiente para repor os postos de trabalho. "Tem que recompor o papel do Estado para garantir políticas públicas de valorização do trabalho decente.

A preocupação da luta pela valorização do trabalho chegou a OIT, fórum de discussão tripartide, que reúne governos, trabalhadores e empregadores, segundo Batista "para amenizar essas contradições e evitar revolta popular".

Causa e efeito

A característica de fórum tripartide não permite unidade de pensamento, destaca o sindicalista brasileiro, impedindo inclusive a discussão sobre quem são os responsáveis, "que são os empresários e os governos anti-populares, que o povo da América Latina quer mudar", afirmou.

Ele fez críticas ao fato de não ter sido aprofundado o debate sobre questões fundamentais como redução da jornada de trabalho sem redução de salário, contenção de hora-extra e banco de horas que é forma de flexibilizar a jornada de trabalho no comércio. Batista também faz coro as críticas de todos os representantes dos trabalhadores de que as várias convenções não são aplicadas porque não há medidas e controle para aplicar.

Teses reforçadas

A análise do líder sindical brasileiro é compartilhada pelos companheiros dos outros países, que reforçam a idéia de que nessas décadas de neoliberalismo se depreciou o trabalho, com flexibilização dos direitos e desemprego. "O neoliberalismo, com o processo de privatização, acabou com as economias nacionais, priorizando o investimento no capital financeiro ao invés do setor produtivo, que levou a precarização do trabalho", afirma Batista.

Rubén Dario Molina, diretor de Relações Internacionais do Ministério do Trabalho da Venezuela, amplia a discussão para necessidade de trabalho decente e digno. Segundo ele, decente está de acordo com as normas estabelecidas pela OIT e digno é caraterística intrínseca do ser humano.

Ele diz que a discussão deve ser contra a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), idealizada pelos Estados Unidos, que quer enriquecer grandes empresas, que ameaçam o meio ambiente e exploram mão de obra; e parte da discussão sobre a integração entre trabalhadores, empregadores e o povo.

Para Molina, "as políticas públicas devem ter como foco a pessoa humana, com ênfase na saúde e educação. Ele reconhece as dificuldades de aplicação das recomendações da OIT, mas destaca que "elas são importantes sob o ponto de vista político e moral".

Crítica aos empresários

José Gregorio Ibarra, presidente da Central Unitária de Trabajadores de Venezuela, disse que "a preocupação do fórum foi discutir os meios de garantir segurança social e trabalho estável, porque os governos dizem eufemisticamente que criam postos de trabalho, mas não é suficiente". Segundo definição dele, "trabalho decente é aquele em que se goza de seguridade social, salários digno e estabilidade".

Ibarra critica a posição dos empresários que não aplicam as normas da OIT e ficam na impunidade, porque a organização não tem poder de sanções. Ele diz que muitos empresários alegam que os governos não assinam as normas e tratados da OIT, mas destacou que "o empresário sério não precisa esperar que o seu governo assine para cumprir as normas".

Alfonso Velásquez Rico, da CUT Colômbia e membro do Partido Comunista colombiano, como fez questão de frisar, também fez críticas à aplicabilidade das normas da OIT. Ele reconhece como importante a discussão do tema pela OIT, mas se queixa de que "a organização aconselha, recomenda, persuade, mas não obriga, as sanções são de natureza moral".

Sindicalistas mortos

Para ele, "quem vai mudar esse estado de coisa somos nós, trabalhadores, tomando em nossas mãos a decisão de colocar no poder governos progressistas", afirmou. Rico defende a "democracia popular para fazer defesa dos trabalhadores e estabelecer garantias" e indica como um dos meios para se alcançar esse estágio fortalecer o movimento sindical para que altere essa realidade.

Ele também fez queixa da situação do seu País aonde, "além da descompensação entre demanda e oferta de trabalho, que resulta em contratos de trabalho sem direitos – flexibilização, terceirização, desemprego e empobrecimento popular, o país vive situação de violência que já resultou na morte de milhares de líderes sindicais".

Ele diz que 97% dos casos de crime de morte de sindicalistas ficam na impunidade e que são presos os executores, mas não se chega aos autores intelectuais dos crimes. E denuncia: "o movimento sindical está amedrontado na Colômbia porque existe processo de estigmatização dos sindicalista pelas oligarquias e pela mídia".

Também as palavras de Ramon Cardona, presidente da Federação Sindical Mundial, de Cuba, corroboram com os demais representantes dos trabalhadores. Ele, que fez questão de destacar as relações fraternas que mantém com a CSC, diz que "o texto final recebe a aprovação da Federação porque reconhece que existem anseios dos trabalhadores que precisam ser atendidos e que os princípios deve ser de paz com justiça social, que não existe por causa do modelo neoliberal", afirmou.

Ele também ressaltou que essa ansiedade dos trabalhadores "tem se refletido nas eleições da América Latina, que querem fortalecer o Estado que seja comprometido com os trabalhadores para aplicar políticas públicas de defesa dos interesses dos trabalhadores". O líder considera o fórum e as discussões positivas, mas também ele alerta para luta que deve ser travada para que as decisões sejam colocadas em prática.

Encerramento

O diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Juan Somavia, encerrou, nesta sexta-feira (5) a XVI Reunião Regional Americana, que começou em Brasília no último dia 3 de maio, reunindo delegações de 35 países. A solenidade de encerramento da Reunião, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, contou com a presença do ministro do Trabalho brasileiro, Luiz Marinho, e do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim.

A XVI Reunião Regional Americana teve como tema uma Agenda Hemisférica para o Trabalho Decente e durante os três dias do evento os representantes de governos, empregadores e trabalhadores discutiram as ações possíveis e estabeleceram metas para a redução do déficit de trabalho decente na região nos próximos 10 anos. De Brasília, Márcia Xavier.

 

Nova Central, 08 de maio de 2006
Alta programada do INSS é um risco para o trabalhador
Alta programada ou equívoco antecipado

Agora, quando o trabalhador se encontra incapacitado para o trabalho, o INSS está concedendo auxílio-doença com a denominada alta programada. Esta alta antecipada estaria baseada em um pretenso estudo científico contido em arquivos informáticos; assim, quando o médico perito admite a concessão do benefício, determina antecipadamente, com fundamento em programa de computador, a data que o paciente receberá a alta. Talvez em uma fratura do tipo mais simples fosse bem fácil determinar o dia para o retorno ao trabalho, mas em doenças, especialmente as profissionais, a previsão tem ficado bastante difícil.

Num primeiro momento, se o trabalhador ainda não está em condições de retornar ao trabalho, a solução parece possível: um pedido de reconsideração pode ser feito no período entre cinco dias antes da alta programada até trinta dias depois. Porém, a tal reconsideração insiste em apontar uma nova data para a alta antecipada, e se a incapacidade do segurado persistir não cabe nova reconsideração, e sim um recurso que exigiria exame através de junta médica, com bastante tempo de espera. Enquanto isto, ou o doente vai trabalhar mesmo sem condições ou corre o risco de ficar sem receber durante o longo período de aguardo.

As promessas de maior rapidez nas juntas médicas para análise dos recursos ainda não me parecem uma solução adequada. Até porque, a nova realização de exames, e por juntas médicas, não estará contradizendo a própria idéia da alta programada, a pretendida diminuição de exames médicos periciais?

Talvez nem tanto ao mar nem tanto à terra, que se programem as altas quando o caso assim bem o permitir, mas que se respeitem as condições adversas dos trabalhadores, garantindo a manutenção dos benefícios durante o intervalo em que perdurar a incapacidade laboral, inclusive com a admissão de pedidos de reconsideração toda vez que o segurado entender que precisa, mesmo que a nova perícia possa ser negativa, sem embargos burocráticos recursais.

As respostas dos trabalhadores devem ocorrer de todas as formas, seja pelos atuais recursos administrativos, seja através de seus sindicatos ou por ações judiciais, mas a continuidade de concessão de auxílio-doença com alta antecipada – e com a grave burocracia dificultando a necessária resposta do instituto aos trabalhadores que continuam incapacitados para o trabalho – certamente vai gerar graves confusões.

Sergio Pardal Freudenthal é advogado especializado em Previdência Social com escritório em Santos, atua em diversos Sindicatos de Trabalhadores, é professor em três Universidades e mestrando em Previdência Social na PUC/SP. Fonte:DIAP.

 

Nova Central, 08 de maio de 2006
Comissão do Trabalho vai debater Convenção 102 da OIT

A Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público vai realizar audiência para discutir o Projeto de Decreto Legislativo (PDC) 1547/04, que aprova o texto da Convenção 102 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), sobre Seguridade Social. O autor do requerimento aprovado na quarta-feira (3), deputado Tarcísio Zimmerman (PT-RS), sugeriu a realização do evento no dia 17 de maio, quando estará em Brasília um técnico do Departamento de Normas Internacionais do Trabalho da sede da entidade, em Genebra. A idéia é reuni-lo com um técnico brasileiro da OIT.

Sistema de seguridade

A convenção 102 expõe detalhadamente as linhas gerais do sistema de seguridade, desde a contribuição até a idade de aposentadoria, no caso, 65 anos, podendo ser adaptada pelos países de acordo com a perspectiva laboral das populações.

O projeto do deputado propõe a aprovação do texto e estabelece, nos termos da Constituição Federal, que é da competência do Congresso Nacional "a revisão ou ajustes que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional".

Folha de São Paulo, 06 de maio de 2006
ELEIÇÕES 2006/PRESIDÊNCIA
Ex-governador admite que denúncias e antecipação da convenção do PMDB tornaram indicação de seu nome inviável, mas diz não desistir

Para Garotinho, só milagre pode salvar a sua candidatura
SERGIO TORRES
DA SUCURSAL DO RIO

Pela primeira vez desde que, no ano passado, lançou-se em campanha pela indicação à Presidência da República pelo PMDB, o ex-governador do Rio Anthony Garotinho admitiu em público considerar ter pouca chance de disputar a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A declaração foi feita por Garotinho, em greve de fome desde domingo na sede do PMDB do Rio, durante entrevista concedida ontem, pela manhã, à rádio carioca Tupi AM. "Não tenho mais ilusão, não. Minha candidatura, agora, só [por] um milagre. Não tenho mais ilusão, não."

À tarde, em entrevista coletiva, Garotinho voltou a abordar a questão. "Tenho fé, mas só um milagre pode salvar nossa candidatura. Creio em milagres, por isso vou até o fim", disse. O pré-candidato afirma ter parado de comer em protesto contra o que chama de perseguição política orquestrada por inimigos na política e na imprensa. Ontem, Garotinho voltou a indicar quem considera inimigo: as Organizações Globo, a revista "Veja", os bancos, o presidente Lula e até "gente de dentro do PMDB". Entre os peemedebistas, citou o senador e ex-presidente José Sarney (AP), o presidente do Senado, Renan Calheiros (AL), e o senador Ney Suassuna (PB).

"Eles não querem me deixar ser candidato. Eu não estou pedindo para votar em mim, não. Me deixa só ser candidato", implorou. Garotinho afirmou que a suposta campanha foi deflagrada agora por causa das pesquisas eleitorais.
"Eles calcularam: "bom, Garotinho está muito forte na pesquisa, cresceu na pesquisa, vamos agora antecipar a convenção e bombardear ele. Vamos encher ele de denúncia. Depois não prova nada, mas não tem problema, já passou a convenção, ele não é mais candidato, não vai atrapalhar a gente."

Ainda na entrevista, o pré-candidato disse que os inimigos conseguiram derrubá-lo. "Só um milagre [para disputar a eleição à Presidência] porque eles atingiram o objetivo deles, me pegaram na hora em que eu estava subindo na pesquisa, encheram de denúncia, atacaram, para depois não provar nada."

Greve de fome

Com voz fraca, mas em tom dramático, Garotinho voltou a dizer que não desistirá da greve de fome, embora sua equipe estivesse preparada para levá-lo ao hospital Quinta D'Or (zona norte do Rio) ontem à noite, após o "Jornal Nacional". "Vou continuar, vou até o fim, quero que a minha honra seja restabelecida. A minha honra vale mais do que qualquer coisa. Cada um sabe o valor da sua honra. Se eles não têm honra para defender, eu tenho a minha. O que vale mais para um homem, a honra ou a vida? Eles estão me matando vivo."

A respeito do presidente Lula, o pré-candidato disse que ele "traiu o povo brasileiro". "O Lula não quer minha candidatura porque ele sabe que se eu for candidato ele não ganha. Aí anteciparam a convenção e, antecipando a convenção, eles vão dizer: "olha aqui, o senhor caiu na pesquisa, o senhor não pode ser candidato". Isso tudo foi montado. Isso é o dedo de Lula. Lula é um homem mau." Na entrevista, Garotinho destacou aqueles que disse amar. "Eu amo a minha esposa [a governadora Rosinha Matheus], amo meus eleitores, amo meus filhos. Eles querem que eu tenha uma honra limpa. Eles não querem ter vergonha do pai, eles querem ter o pai de cabeça erguida. Sempre fui um pai zeloso, dedicado. Eu me fiz político, mas antes de tudo sempre fui um pai e radialista. Estou lutando pelo direito de ser contra os poderosos, de enfrentar esse sistema perverso."

O médico de Garotinho Abdu Neme disse à tarde que o cliente já perdeu 3,9 kg desde o início da greve de fome. Estava com queda de pressão e arritmia cardíaca. "Se ele continuar assim vamos consultar a família, porque teremos que interná-lo o mais rapidamente possível", anunciou.

 

Folha de São Paulo, 06 de maio de 2006
VEÍCULOS
Medida será avaliada após montadora informar plano de reestruturação no país com corte de empregos e direitos

Paraná pode rever incentivo dado à Volks
CLAUDIA ROLLI
DA REPORTAGEM LOCAL

O governo do Paraná pode rever os incentivos fiscais concedidos à Volkswagen desde que a montadora iniciou a produção em 1999 na fábrica de São José dos Pinhais, a 25 km de Curitiba. A medida será avaliada pelo governo após a empresa anunciar que vai se reestruturar no país, com um plano que prevê demissão de funcionários, corte de benefícios dos empregados e redução de custos das fábricas. A Vollkswagen informou que enviou carta ao governador Roberto Requião (PMDB) anteontem "se colocando à disposição" para apresentar e explicar ao Estado seu plano de reestruturação.

"Dependendo da justificativa da montadora e do que ocorrer na prática [se efetivar a demissão de trabalhadores], o Estado pode sim rever benefícios concedidos pelo governo anterior", disse à Folha o advogado Mário Lobo, assessor especial do governador e presidente do Conselho de Política Automotiva do Paraná. Os sindicatos dos metalúrgicos do ABC (CUT) e de Curitiba (Força Sindical) informam que a Volks quer demitir 5.773 trabalhadores de São Bernardo do Campo, Taubaté e São José dos Pinhais (PR) em dois anos.

Só no Paraná, seriam eliminados 1.420 dos 4.200 empregos existentes. Neste ano, a previsão é cortar 946 postos de São José do Pinhais, de um total de 3.016 em três unidades. Desde segunda-feira, a Volks concedeu férias coletivas para cerca de mil empregados daquele Estado. É a segunda vez que isso ocorre no ano. No Paraná, a Volkswagen têm desconto nas tarifas de água e energia, incentivos para exportar pelo porto de Paranaguá e diferimento no recolhimento de ICMS até 2015, segundo protocolo assinado com o governo em 1996.

"Cerca de R$ 700 milhões em imposto deixaram de ser recolhidos desde 99 e podem começar a ser pagos em oito anos", disse Lobo. Segundo ele, o terreno cedido à VW para a instalar sua fábrica custou R$ 6 milhões. "A desapropriação foi bancada pelo governo anterior [de Jaime Lerner]." O protocolo de intenções, assinado com a montadora em dezembro de 96, cita que os incentivos seriam concedidos "considerando os benefícios que a instalação dessa fábrica poderá proporcionar para a economia e desenvolvimento social do Estado do Paraná, em decorrência da elevação das ofertas de empregos diretos e indiretos e do aumento de suas receitas e do futuro incremento das exportações".

"A Volks usa dinheiro público, recebe incentivos do Estado e devolve o troco ameaçando demissões? Não vamos aceitar esse jogo", afirmou Sérgio Butka, presidente do sindicato de Curitiba. Eleno José Bezerra, vice-presidente da Força, defende que o BNDES suspenda empréstimo feito à montadora. "Queremos impedir que a empresa receba R$ 497 milhões para se reestruturar." Representantes dos 21,5 mil funcionários da VW no país decidiram ontem que vão fazer ações em conjunto em cinco fábricas para impedir a retirada de direitos e prometem resistir às demissões.

"Se for preciso, haverá greve. Vamos propor aos trabalhadores da Volks afetados pela reestruturação em outros países, como os da Alemanha, onde quer demitir 20 mil, e da Espanha, onde quer fechar uma fábrica, uma reposta em comum", disse José Lopez Feijóo, do sindicato do ABC. Ele irá hoje para a Alemanha, onde participa de reunião do Comitê Mundial dos Trabalhadores da VW.

Folha de São Paulo, 06 de maio de 2006
PRODUÇÃO
Setor cresce 1,2% no primeiro trimestre, mas perde força em março; estimativa é avanço de 1,8% em 2006

IBGE aponta estabilidade na indústria
PEDRO SOARES
DA SUCURSAL DO RIO

A produção da indústria caiu 0,3% em março na comparação livre de influências sazonais com fevereiro, quando havia subido 1,2%. Com o resultado, o setor fechou o primeiro trimestre do ano com crescimento de 1,2% em relação ao último trimestre de 2005. Para Sílvio Sales, chefe da Coordenação da Indústria do IBGE, a indústria está mais próxima de um cenário de "estabilidade" da produção do que do de um início de uma trajetória de quebra. Isso porque o setor acomodou sua produção depois da forte expansão registrada em fevereiro.

Na avaliação de Sales, a indústria está reagindo mais rapidamente e "ajustando de modo mais fino" seus estoques ao volume de encomendas, o que provoca as oscilações na comparação com o mês imediatamente anterior. Guilherme Maia, economista da Tendências Consultoria, também avalia que o quadro está mais próximo de uma estabilidade. O economista previa variação nula para a produção da indústria em março na comparação com fevereiro. Das 23 atividades pesquisadas pelo IBGE, 17 tiveram queda na produção de fevereiro para março. As retrações que mais contribuíram para o recuo da indústria foram farmacêutica (14,3%), bebidas (-5,5%), veículos (-1,7%) e outros equipamentos de transporte (-8,2%). Todos esses ramos haviam crescido em fevereiro e agora reduziram sua produção para ajustar estoques, avalia Sales.

O pior desempenho ficou com a categoria de bens de consumo durável, que inclui veículos e eletrodomésticos. A queda foi de 5,1% em março, depois de ter liderado a expansão em fevereiro (6,7%). Para Sales, o nível (a quantidade total de produtos que saem das fábricas) atual de produção da indústria, apesar do resultado negativo em março, mantém-se próximo ao recorde obtido em dezembro de 2005. É apenas 0,5% inferior ao de dezembro, o que reforça a constatação de que a indústria se acomodou, mas num patamar elevado de produção, diz.

Segundo o IBGE, mantido o atual ritmo, a produção da indústria crescerá 1,8% neste ano. Na visão de Maia, o incremento é pequeno e insuficiente para assegurar uma expansão do PIB de 4%. O economista da Tendências avalia, porém, que a partir do terceiro trimestre deste ano o crescimento irá se acelerar, quando o efeito do corte dos juros se tornar mais evidente e o consumo se expandir. Ele prevê alta de 3% na produção da indústria neste ano.

Para Sílvio Sales, não há razões para acreditar em queda da produção, já que a massa salarial está em expansão, a oferta de crédito continua crescendo e a inflação registra queda. Um dos indicadores que apontam que a indústria poderá incrementar sua produção, diz Sales, é a evolução das vendas. Anteontem, a CNI (Confederação Nacional da Indústria) revelou que elas cresceram 2,26% no primeiro trimestre ante o último trimestre de 2005. Para Sales, o fato de a produção ter crescido menos (1,2% na comparação com o quatro trimestre de 2005) indica que há espaço para aumento da produção. Na comparação com o primeiro trimestre de 2005, a produção subiu 4,6%. Foi a décima taxa positiva nesse tipo de comparação.

 

Folha de São Paulo, 06 de maio de 2006
IMPOSTO DE RENDA
Alterações na MP elevam valor a ser abatido na declaração

Dedução com domésticos será maior
DO "AGORA"

A dedução da contribuição previdenciária do empregado doméstico no Imposto de Renda a partir do próximo ano pode chegar a R$ 528. De acordo com o projeto de lei aprovado anteontem pela Câmara, os descontos devem incidir desde janeiro e também sobre o 13º salário. Pela medida provisória editada pelo governo em março, a dedução seria de, no máximo, R$ 378 porque só começaria a valer a partir das contribuições previdenciárias feitas em abril e sem considerar o abono natalino.

O empregador paga de contribuição previdenciária 12% do valor do salário do trabalhador. O texto, como a medida provisória, restringe o benefício a apenas um trabalhador e a salário mínimo. Na próxima terça-feira, outras modificações podem ser feitas no parecer da deputada Sandra Rosado (PSB-RN) durante a votação dos destaques (proposições dos parlamentares).

Duas mudanças importantes foram propostas pelo líder do PFL na Câmara, Rodrigo Maia (RJ). Para o parlamentar da oposição, não deveria haver limitação de número de empregados nem no valor do salário. "Se não houver essa restrição, a formalização vai ser maior. O governo não pode pensar só a curto prazo, na redução de receita", comentou Maia, para quem as emendas podem ser barradas pela bancada governista para não aumentar a perda de arrecadação.

 

Folha de São Paulo, 07 de maio de 2006
TRABALHO
Projeto de lei aprovado em comissão do Senado estende o benefício aos empregados mesmo sem o patrão recolher o FGT
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Domésticos podem ter seguro-desemprego
MARCOS CÉZARI
DA REPORTAGEM LOCAL

Os empregados domésticos poderão ter direito de receber o seguro-desemprego, em caso de demissão sem justa causa, mesmo sem o empregador depositar o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço). O benefício consta de projeto de lei da Câmara aprovado sem modificações na quinta-feira pela Comissão de Assuntos Sociais do Senado. O projeto deverá ser votado pelo plenário do Senado ainda nesta semana. Se aprovado, seguirá para a sanção presidencial.

Se virar lei, todos os empregados domésticos demitidos sem justa causa receberão o seguro-desemprego desde que sejam cumpridos basicamente três requisitos: ter trabalhado 15 meses nos últimos 24 meses, ter a carteira de trabalho assinada pelo empregador e ter o carnê do INSS com as contribuições recolhidas. Embora o projeto de lei não detalhe o valor e o período, o benefício deverá ser pago por até três meses e equivalerá a um salário mínimo (hoje, R$ 350).

Corrigir injustiça

A proposta de dar o seguro-desemprego aos empregados domésticos mesmo sem estarem inscritos no regime do FGTS é da deputada federal Almerinda de Carvalho (PMDB-RJ). Segundo a deputada, a lei nº 10.208, de março de 2001, comete uma injustiça ao condicionar o pagamento do seguro-desemprego ao doméstico demitido sem justa causa apenas se ele estiver inscrito no regime do FGTS. O principal argumento da deputada é que não é o FGTS que financia o pagamento do seguro-desemprego, mas o FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador).

A senadora Patrícia Saboya Gomes (PSB-CE), relatora do projeto no Senado, diz que a exigência do FGTS para que os domésticos recebam o seguro-desemprego, em caso de demissão sem justa causa, é um ônus a mais para os patrões. Devido a esse ônus, uma grande parcela dos domésticos "continua ainda à margem desse direito, pois são poucos os empregadores que, além de manterem seus empregados na formalidade, podem arcar com os custos que o recolhimento do FGTS representa".

Por concordar com a tese da deputada, a senadora deu parecer favorável à aprovação do projeto. Esse argumento, embora correto, pode ser um empecilho à aceitação do projeto pelo Planalto. Motivo: o FAT é financiado pelas contribuições ao PIS/Pasep, pagas pelas empresas. Como os empregadores domésticos não recolhem as contribuições, não haveria uma fonte de recursos para custear o pagamento do seguro-desemprego aos domésticos.

Emerenciana Lúcia de Oliveira, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Domésticos no Município de São Paulo, aprova a possibilidade de os demitidos sem justa causa receberem o benefício. Para ela, isso deverá fazer com que muitos domésticos passem a exigir o registro em carteira e o pagamento das contribuições ao INSS por parte do patrão, condições básicas para o recebimento do seguro-desemprego.

Mudança radical na MP

Para o consultor Mario Avelino, especialista em FGTS, o projeto é um grande avanço para os domésticos. Além de propiciar o recebimento de um salário mínimo em caso de perda do emprego, o fato de ter esse direito fará com que mais domésticos exijam a formalização do vínculo de emprego. Segundo ele, apenas 1,672 milhão de domésticos têm registro em carteira, contra 4,8 milhões que trabalham na informalidade.

Para Avelino, maior eficácia nesse sentido seria alcançada com a mudança radical na MP nº 284, que permite aos patrões deduzir no IR o valor da contribuição ao INSS paga em favor dos domésticos. Proposta de Avelino: substituir a dedução no IR pela redução de 12% para 6% na contribuição do doméstico e alíquota única de 6% para o patrão. A MP foi aprovada na quinta-feira. Nesta terça-feira, serão votados os destaques.


JORNAL DO ESTADO, 08 de maio de 2006
ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA
Salário mínimo regional volta à pauta sob dúvidas
Empresários não descartam recorrer à Justiça contra lei após aprovação
Abraão Benício

Dividido entre mensagens de apoio das entidades sindicais e críticas das associações empresariais, o projeto de Lei que cria o salário mínimo regional no Paraná no valor de R$ 437,00 vai à votação final hoje na Assembléia Legislativa.

Durante todo mês de abril, os dois lados interessados (trabalhadores e empregadores) tiveram a oportunidade de expor seus argumentos aos deputados.

Pelo lado dos sindicalistas, os principais argumentos são de que o mínimo regional ajudaria a melhorar a distribuição de renda, aqueceria a economia e que o impacto para o empresariado seria quase nulo.

Já a classe empresarial alega que a indústria e o comércio do estado não tem condições de arcar com este reajuste, que certamente irá gerar demissões e consequente aumento da informalidade. o empresariado também vê claros objetivos eleitorais no projeto enviado pelo governador Roberto Requião (PMDB) à Assembléia às vésperas da disputa eleitoral.

Pólvora — Já não bastassem as diferenças entre sindicalistas e empresariado, na última semana, um alerta dado pelo deputado Élio Rusch (PFL) acabou colocando mais pólvora na discussão sobre o mínimo de R$ 437,00.

De acordo com Rusch, a proposta do governo contraria diretamente a Lei Complementar 103 da Constituição Federal, que afirma que “os Estados podem instituir o salário mínimo regional, desde que não seja aplicado às categorias que tenham dissídio coletivo ou piso salarial pré-estabelecido e nem para os servidores públicos municipais”.

“No artigo 3, o projeto do Requião determina que o novo mínimo seja aplicado para as categorias de trabalhadores que têm acordo coletivo e piso salarial inferior aos R$ 437,00. Mesmo que aprovado, o projeto pode ser facilmente derrubado na Justiça por aqueles que são contrários à sua aprovação”, explica Rusch.

Caso uma das entidades que representam os empresários entre na Justiça com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin), a Lei pode nunca entrar em vigor.

O vice-presidente da Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Paraná (Faciap) — uma das entidades contrárias ao projeto , Alcy Antonio Marochi não descarta uma medida judicial. “Vamos aguardar a votação. Se for aprovado, consultaremos nossos 280 associados. Eles decidirão sobre a possibilidade de entrarmos na Justiça contra a Lei”.

Prós e contras

FAVORÁVEIS A APROVAÇÃO ARGUMENTO

Nova Central dos Trabalhadores do Paraná (NCST) Para os pequenos e médios empresários o impacto será de apenas 0,9% com folha de pagamento.

Conselho Regional de Economia do Paraná (Corecon-PR) Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul adotaram o mínimo regional e não há registro de crescimento do desemprego e de falências.

Força Sindical O Paraná tem o quinto maior Produto Interno Bruto do país e tem condições de pagar os R$ 437,00.

Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Em mais de 200 municípios paranaenses os trabalhadores Paraná (Fetaep) não conseguem fazer acordo coletivo. O mínimo regional resolveria este problema.

Central Única dos Trabalhadores (CUT) O Paraná tem o pior índice de distribuição de renda entre os estados da região Sul. O salário regional vai ajudar a diminuir as diferenças sociais.

CONTRA A APROVAÇÃO ARGUMENTO

Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) A indústria e o comércio do Paraná não tem condições de arcar com este reajuste, que vai acabar gerando desemprego.

Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Por motivos eleitorais, o governador apresentou o projeto.

Paraná (Faciap) Para aquecer a economia, Requião deveria reajustar o salário de policiais e professores.

Associação Comercial do Paraná (ACP) Os aumentos reais de salário só têm justificativa quando sustentados por ganhos de produtividade do trabalho, o que não acontecerá no Paraná.

Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado do Se aprovado, o novo salário, agravará ainda mais a crise no Paraná (Ocepar) campo e alimentará o desemprego.

Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) 62% dos 1,8 mil agropecuarista já declararam que terão que demitir se o mínimo regional for implantado.

Requianistas prometem derrubar emenda


Antes de ir à votação, o projeto de Lei do governador que cria o salário mínimo regional no Paraná ainda vai gerar mais um “round” na disputa entre a bancada governista e oposicionistas na Assembléia.

Depois de ser aprovado em primeiro turno na última quarta-feira por unanimidade em primeira votação, o projeto teve que ser retirado da pauta do dia, já que a bancada do PPS apresentou uma emenda para que o mínimo regional seja reajustado anualmente em 7% acima dos índices da inflação, pelos próximos doze anos. Assim, o projeto voltou para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) que vai analisar sua constitucionalidade.

Porém, o líder da bancada de apoio ao governador Roberto Requião (PMDB), deputado Dobrandino da Silva (PMDB) garante que, mesmo que passe pela CCJ, a emenda será derrubada. “Em ano de eleições é comum que surjam idéias como esta. Não precisa nem de ordem do governo, todos os deputados da base aliada têm conciência de que devemos derrubar esta absurda emenda”.

Para o líder da bancada do PPS, deputado Marcos Isfer, caso os governistas se unam para derrubar a emenda, ficará claro que o projeto de Requião é meramente eleitoreiro. “Para encobrir a vergonha do nepotismo, o governador apresentou este projeto. Se os governistas derrubarem minha emenda isso ficará evidente. Bem como os objetivos eleitorais de Requião. O que queremos é que seja aprovada uma proposta que de fato vise instituir no Paraná uma política de reajuste salarial”.
(AB)

 

JORNAL GAZETA DO POVO, 8 de maio de 2006 | Brasil
CRISE-Entidade avalia se há indícios para ir ao Congresso pedir cassação do mandato presidencial
OAB decide hoje se pedirá o impeachment de Lula

Brasília – Ainda sob o impacto da entrevista do ex-secretário do PT Sílvio Pereira, que afirmou que o empresário Marcos Valério pretendia arrecadar R$ 1 bilhão no governo, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) deve decidir hoje, em Brasília, se vai ou não ao Congresso pedir o impeachment do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista ao jornal O Globo, Pereira afirmou que Lula “mandava no PT” na época do mensalão, porém eximiu a responsabilidade do presidente no esquema.

O colégio da OAB é formado por 36 integrantes – 27 conselheiros federais e 9 membros honorários vitalícios. Entre os conselheiros, há a expectativa de que o pedido não será aprovado. O impeachment do Fernando Collor de Mello, em 1992, foi requerido pela OAB, presidida então por Marcelo Lavènere, e pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Por ser ex-presidente da entidade, Lavènere integra a bancada de membros honorários vitalícios, com direito a voto. Mas, por ser ele integrante do conselho da anistia, deverá ser pedida a sua suspensão. Outro vitalício que não votará é o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que faz parte do Executivo.

“A OAB não é partido político nem tem ideologia. É uma tribuna da cidadania, espaço público não-estatal a serviço dos interesses da sociedade civil. Como em outros momentos dramáticos da história republicana brasileira, somos chamados a exercer um protagonismo na cena política que não postulamos, mas a que não podemos fugir”, afirmou o presidente da entidade, Roberto Busato, que há cerca de 20 dias visitou o presidente Lula no Palácio do Planalto.

Para ele, o “impeachment é remédio amargo, drástico, ministrado em casos extremos. Mas, se o diagnóstico assim o indicar, deve ser visto com naturalidade, como recurso institucional legítimo, a serviço do Estado Democrático de Direito. A serviço da sociedade”, afirmou Busato.

Se a instituição, no entanto, entender que não é caso de impeachment, afirmou, “não poderá ser acusada de omissão, ou de estar de costas para a parte da sociedade que quer aquela solução. Prevalecerá a vontade soberana da maioria”. A comissão da OAB terá como relator o conselheiro Sérgio Ferraz (AC) e como demais integrantes, Orlando Maluf Haddad (SP), Mário Lúcio Quintão (MG), Amauri Serralvo (DF), Marcelo Bravo (AL) e Cezar Roberto Bittencourt (RS).

 

SITE UOL, 08 de maio de 2006
TENSÃO ENTRE VIZINHOS
Projeto, revelado à Folha por ministro boliviano, prevê nacionalização de 11% das terras, inclusive na fronteira
Reforma agrária ameaça brasileiro na Bolívia

Jorge Araújo/Folha Imagem

O brasileiro Medina (à dir.), produtor de soja e trigo em Mineiro, perto de Santa Cruz de la Sierra


FABIANO MAISONNAVE
ENVIADO ESPECIAL A SANTA CRUZ DE LA SIERRA

Depois do gás, a terra. O presidente boliviano, Evo Morales, já tem em sua mesa um pacote de decretos e um projeto de lei que regulamenta o que ele mesmo tem chamado de nacionalização da terra. A medida deve afetar de forma diferente as centenas de proprietários de terra brasileiros no país, divididos pelo governo entre sojicultores radicados no departamento de Santa Cruz e os que exercem atividades ilegais na extensa zona de fronteira.

"São aproximadamente oito decretos e um projeto de lei, que têm a finalidade de reverter ao Estado boliviano todas as terras que não cumprem uma função econômica e social ou cujos títulos de propriedade tenham sido obtidos fraudulentamente", disse à Folha o ministro de Desenvolvimento Rural, Agropecuário e Meio Ambiente, Hugo Salvatierra, 54.

"Isso representará a recuperação de 11 a 14 milhões de hectares de terras, que serão distribuídos a camponeses sem-terra, comunidades indígenas e originárias e a todos os bolivianos que não possuem terra e estão dispostos a trabalhá-la. Mas representará também a segurança jurídica para todos os pequenos, médios e grandes proprietários e empresários que cumprem a função socioeconômica, trabalham a sua terra e a possuem de maneira legal."

Essa área é cerca de 11% dos 1,09 milhão de km2 da Bolívia e é maior que a do Estado de Pernambuco, que tem 10,1 milhões de hectares. O projeto agrário, diz o ministro, envolverá 2,5 milhões de pessoas, ou 27% da população.

Salvatierra diz que o pacote inclui a regularização dos títulos de terra pelo Estado, freio à expansão da fronteira agrícola promovida por produtos de exportação (sobretudo a soja), o princípio da reversão da terra pelo não-cumprimento da função social, a expropriação de propriedades onde existe trabalho escravo e a expulsão de proprietários estrangeiros da zona de 50 km de fronteira, o que é ilegal pela Constituição.

De acordo com o ministro, as medidas ainda serão revisadas por Morales. Ele disse que também haverá reuniões com associações agro-empresariais.

Salvatierra afirmou que o decreto não trará medidas específicas contra propriedades de estrangeiros. "Nacionalização das terras é um conceito que o presidente tem usado para dizer que, agora, a terra tem de ser para os bolivianos. Não é tanto para dizer que as terras estão ocupadas pelas multinacionais ou por grupos estrangeiros, mas que nunca foram usadas para o interesse nacional e o bem-estar dos bolivianos."

Brasileiros

Para o ministro, os brasileiros estão na Bolívia de duas formas: como sojicultores arrendatários no interior do país, muitas vezes em situação fundiária irregular, e exercendo diversas atividades ilegais na fronteira, desde a extração de madeira, borracha e castanha até operando mineradoras.

No primeiro caso, cerca de cem famílias brasileiras produzem 35% da soja boliviana, diz a Anapo (Associação de Produtores de Oleaginosas e Trigo). A soja é o segundo produto de exportação no país e representa 6,5% do PIB.

Segundo Salvatierra, os arrendatários "que utilizaram a terra como mercadoria" serão afetados. Nesse caso, afirma ele, a função socioeconômica será decidida com base na localização das plantações de soja. Caso estejam fora da área agrícola, sobretudo em áreas de bosques, serão reutilizadas para outras atividades. "Uma área de 30 mil hectares de soja cumpre uma função social desde que esteja nas áreas apropriadas. O que não pode é produzir em zonas tipicamente florestais."

Já no segundo caso, o dos brasileiros na fronteira, não haverá diferenciação, pois estão em zona de fronteira. Salvatierra estima que existam pelo menos 200 propriedades nessa situação. "Vamos restabelecer ali a soberania nacional, recuperando o direito de propriedade para o Estado."

 

REVISTA ISTO É, 08 de maio de 2006
Brasil / Bolívia
TIC, TAC, TIC... BUUM
Explodiu o nacionalismo populista de Evo Morales: num golpe de caneta, ele nacionalizou o gás, o petróleo, expropriou a Petrobras e humilhou Lula
Por Francisco Alves Filho e Hugo Studart

A notícia estourou como um ato de guerra contra o Brasil. No feriado de 1º de maio, sem prévio aviso diplomático e cercado por militares armados, o presidente da Bolívia, Evo Morales, invadiu o campo de produção de gás da Petrobras de San Alberto, no sul do país, e anunciou a nacionalização do setor de hidrocarburetos – gás e petróleo. Como um homem-bomba, numa só detonação ele atingiu os interesses econômicos e comerciais da maior empresa brasileira, espalhou deste lado da fronteira o temor do desabastecimento energético e colocou em xeque a diplomacia do presidente Lula. Ao anunciar o decreto, Morales usou requintes de provocação. Debaixo de um capacete de operário da Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB, a estatal boliviana de petróleo), rasgou seu populismo cocaleiro. “Acabou o saque das empresas estrangeiras”, proclamou, salvacionista, para justificar a quebra de contrato com a Petrobras e as demais companhias energéticas estrangeiras, a maioria européias, que atuam no país. Em seguida, soldados do Exército boliviano ocuparam as 53 instalações privadas de gás e petróleo no país. Pelo decreto, as companhias serão obrigadas a entregar toda a sua produção à YPFB, que assumirá a comercialização e definirá volumes de produção e preços. O faturamento será tributado em 82%, quase o dobro da taxa anterior. O Estado boliviano passa também a ter o controle acionário (51%) das principais empresas. É, nua e crua, a expropriação. Além da Petrobras, foram atingidas a Andina (Repsol-YPF), a Chaco (British Petroleum e fundos bolivianos) e a Tranredes (Shell, Prisma Energy e fundos). O decreto não tratou de indenizações às empresas.


Segunda-feira 1º: à frente de tropas bolivianas, o presidente Evo Morales expropria instalações da Petrobras e nacionaliza o gás e o petróleo.

Esperava-se do presidente Lula uma reação à altura da rajada de provocações de Morales. Para estupefação do País, no entanto, ele escolheu uma linha extremamente suave. “Não tem crise Brasil-Bolívia. Existirá o ajuste necessário de um povo sofrido e que tem o direito de reivindicar maior poder sobre a riqueza que tem”, disse Lula na quarta-feira 3. O problema é que esse “ajuste necessário” vai incluir, obrigatoriamente, um aumento no preço do gás que a Bolívia vende ao Brasil. O mesmo gás que responde por 70% do abastecimento industrial de São Paulo e 50% do total consumido no País, incluidos aí o conteúdo dos botijões das cozinhas brasileiras e das grandes tubulações industriais. Com receio de que, em meio à fúria populista, o governo do país vizinho interrompa o fornecimento de gás ao Brasil, um atônito Silas Rondeau, ministro das Minas e Energia, telefonou logo após a eclosão da crise ao ministro dos Hidrocarburetos da Bolívia, Andrés Soliz Rada. Apelidado de “Bocão”, ele disse que não. O risco, porém, é real. Caso a Bolívia exagere no pedido de aumento de preços e, nessa medida, as negociações com a Petrobras sejam dificultadas, quem garante que as torneiras nos campos de produção ocupados pelos militares continuarão abertas? Morales? Bocão? “Não há nenhuma possibilidade de apagão de gás neste país. É pura especulação irresponsável dos que falam disso”, reage o presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli.

O mercado nacional já precifica o aumento do gás boliviano em cerca de 15%, saindo dos atuais US$ 3,15 para US$ 5 por mil BTUs (Unidade Térmica Britânica). As negociações começam nesta semana. “Não podemos admitir prejuízos à nossa produção”, reagiu o presidente da Fiesp, Paulo Skaf. O governo tem o seu próprio plano para não repassar o aumento – e ele guarda enormes semelhanças com o que se viu, no passado recente, durante o Plano Cruzado. Ali, em 1986, um congelamento de preços foi sustentado artificialmente por quase seis meses, terminando com uma chuva de aumentos logo depois das eleições para governador, em novembro. Agora, com as eleições presidenciais marcadas para outubro, a idéia já pronta nos bastidores oficiais é calibrar na dose do imposto para não repassar o reajuste ao consumidor. Esse tipo de política, é claro, não se sustenta a longo prazo. Serve, no entanto, à perfeição para um governo que busca a reeleição. A retenção artificial do novo preço preserva de um gasto extra os consumidores mais pobres, para os quais o preço do botijão de gás é um dos itens essenciais mais pesados do orçamento doméstico. Exatamente a base de votos que está dando a liderança nas pesquisas a Lula.


Na fronteira:
Bolivianos protestam contra o fechamento da EBX, a primeira provocação contra o Brasil

Para entender o tamanho do imbróglio, Lula convocou uma reunião no Palácio do Planalto na manhã de terça-feira 2. Só conseguiu iniciá-la às 11h30, quando o presidente da Petrobras chegou a Brasília. Estavam presente sete ministros, mais o assessor internacional Marco Aurélio Garcia. “O presidente estava muito sentido”, relata o ministro da Defesa Waldir Pires. “Ele estava é furioso”, revela outro ministro. Chegou a soltar muitos palavrões. Foi para acalmar os ânimos que Rondeau telefonou para o boliviano Bocão. O conselheiro Garcia, no melhor estilo de um advogado paceño – como são chamadas as pessoas nascidas em La Paz –, argumentou em defesa do direito da Bolívia de nacionalizar suas lavras. “Nós já fizemos isso com a Petrobras há 50 anos, na campanha do Petróleo é Nosso”, lembrou. O embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, secretário-geral do Itamaraty, reforçou. “Eles têm direito à soberania. O essencial para nós é garantir o abastecimento de gás.” Lula, neste ponto, aderiu à tese de responder com flores às pedradas vindas da fronteira. Guido Mantega, da Fazenda, concluiu: “Os bolivianos não são suicidas. Se eles não venderem gás para nós, vão vender para quem?”


Sob pressão:
o chanceler Amorim (à esq.) foi surpreendido; entre Morales, Chávez e Kirchner, Lula ficou isolado; só Gabrielli, da Petrobras, respondeu à altura o ato de guerra boliviano

Na quinta-feira 4, Lula foi ao encontro de Morales numa reunião marcada às pressas em Puerto Iguazú, na tríplice fronteira do Brasil com a Argentina e o Paraguai. “Discutiremos nossas pendências com a Bolívia da maneira mais democrática possível”, disse o presidente, reafirmando seu tom para lá de moderado. Se quisesse, ele teria todos os motivos para externar indignação. Antes mesmo da expropriação das instalações da Petrobras na Bolívia, o governo Morales já havia pressionado o empresário brasileiro Eike Baptista a fechar as portas da siderúrgica EBX, instalada em Puerto Quijarro, perdendo investimentos de US$ 60 milhões. “Pensei que sairia de lá preso”, contou Eike sobre uma de suas reniões com os ministros bolivianos. Lula também perdeu uma chance – talvez a melhor dos últimos anos – de ser mais enfático contra seus colegas presidentes sul-americanos. Diante de Lula, eles sorriem, mas pelas costas têm, seguidamente, apunhalado os interesses do Brasil. É assim, por exemplo, com Nestor Kirchner, da Argentina. Presente à reunião de Puerto Iguazú no papel de vítima, em razão da expropriação da hispano-argentina Repsol-YPF, Kirchner comanda uma política de boicote ao consumo de produtos brasileiros, dos eletrodomésticos aos sapatos. Também é assim com o companheirão Hugo Chávez, presidente da Venezuela. Mas foi o companheirão Chávez quem articulou, ao lado do ditador cubano Fidel Castro, a nacionalização dos hidrocarburetos bolivianos. A operação da nacionalização do gás e do petróleo foi consolidada no dia 20 de abril, em Assunção, no Paraguai. Organizador de uma delirante Alternativa Bolivariana das Américas (Alba), Chávez levou à tiracolo o chanceler cubano, Felipe Pérez Roque. Numa conversa privada, ambos venderam a Morales o apoio para emplacar a nacionalização. Ali, Chávez convenceu o boliviano a criar o decreto presidencial. Os dois revisaram o texto uma semana depois. Dessa feita, em Havana, sob a proteção do camarada Fidel. Para dar ainda mais segurança a Morales, Chávez ofereceu-lhe apoio técnico e créditos superiores a US$ 100 milhões para manter em operação as refinarias que seriam expropriadas. Feito o trato, o presidente venezuelano partiu para consumar a traição a Lula. Seguiu de Havana para Curitiba, onde assinou acordos comerciais de US$ 300 milhões com o governador Roberto Requião (PMDB), discursou para dois mil integrantes do MST e, à noite, jantou no Palácio da Alvorada. Em Brasília, Chávez nada contou ao anfitrião Lula sobre o pacto com Morales.


No Exterior, a reação à manobra de Morales veio pela voz da secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice. “O continente precisa tomar cuidado com líderes demagogos e autoritários”, cravou. No Brasil, a primeira devolução em tom adequado ao tamanho do golpe da nacionalização partiu do presidente da Petrobras. “Estamos suspendendo qualquer possibilidade de investimento adicional na Bolívia”, afirmou Sérgio Gabrielli. Ele antecipou que não vai aceitar qualquer aumento de preço. Explicou que o contrato que a empresa assinou com o governo do país vizinho – e, na prática, foi rasgado por Morales – impede ações unilaterais, mas permite negociações sobre as condições de exportação, inclusive das fórmulas de preços. A Petrobras começou a operar na Bolívia em 1996, com pesquisas sísmicas. O gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol) foi inaugurado em 1999 e, em abril de 2000, no governo Fernando Henrique, foram assinados com o governo boliviano os contratos de venda de gás. Até então, o maior comprador de gás boliviano era a Argentina. A demanda brasileira é de 40 milhões de metros cúbicos por dia e, em 2010, vai chegar a 99,3 milhões de m3/dia. Para escapar do nacional-populismo de Morales, a Petrobras planeja aumentar a produção de gás no Brasil. Está investindo cerca de US$ 17 bilhões no aumento da produção no campo de Santos, num gasoduto adequado ao mercado brasileiro e na interligação da rede do Sudeste à do Nordeste. Além disso, a empresa está acelerando os estudos sobre o gás natural liquefeito (GNL), vindo de outros países. Mas, qualquer que seja a alternativa, vai demorar. “Não há solução de curtíssimo prazo”, avisa Gabrielli.


Os militares e "Bocão":
ministro dos hidrocarburetos prega mais radicalização

Os especialistas, entretanto, criticam duramente o fato de o governo ter permitido que o Brasil ficasse dependente de uma fonte única de abastecimento de gás natural. “Os investimentos na Bolívia são feitos há tempos, mas nessa gestão houve a massificação do uso do gás, inclusive por meio de congelamento de preços”, analisa o economista Adriano Pires, diretor da consultoria Centro Brasileiro de Infra-Estrutura. “Agora, criou-se a incerteza. Vai ter gás? Os preços vão subir?”, pergunta. Gabrielli prefere acreditar que as leis serão cumpridas. “Se isso não ocorrer, a alternativa seria, talvez, pensar em armas de destruição em massa na Bolívia e pedir o apoio do Exército brasileiro”, ironizou.





BOLÍVIA JÁ NACIONALIZOU


Apoio:
Gulf foi estatizada em 1969

Antes do decreto de Evo Morales, a Bolívia já tinha estatizado empresas estrangeiras em três períodos anteriores. Em 1937, o governo militar do coronel David Toro encampou a petrolífera americana Standard Oil. A medida foi adotada depois da Guerra do Chaco (1932-1935), na qual a Bolívia foi derrotada pelo Paraguai. Em 1952, a chamada “revolução nacional” estatizou as minas de estanho. Em 1969, o general Alfredo Ovando Candia nacionalizou a americana Gulf Oil.

Em outros países, a nacionalização – eufemismo para estatização – já esteve na crista da onda. E não apenas no mundo comunista ou subdesenvolvido. Até meados do século XX, quase todos os países da Europa estatizaram setores estratégicos da economia. E o Brasil, entre as décadas de 1930 e 1980, nacionalizou a São Paulo Railway, do setor de transportes, a ITT (telefonia), a Bond & Share e a Light (energia). Argentina, México, Chile, Bolívia e Peru também expropriaram empresas estrangeiras. O que contava para as empresas e para os países atingidos não era uma questão ideológica, mas prática: quem recebia indenizações, não reclamava. Quem ficava a ver navios, chiava.

 

REVISTA ISTO É, 08 de maio de 2006
Economia
Juros baixos e desenvolvimento é o plano de Mantega
O ministro da Fazenda diz que representa o pensamento do presidente e afirma que chegou a hora de os bancos darem sua contribuição
Por Hugo Studart

Guido Mantega exala felicidade no principal gabinete do quinto andar do Ministério da Fazenda. Desabotoa o paletó, mexe no controle remoto do ar-condicionado, ironiza os adversários, ajeita o quadro de Manabu Mabe, olha a cada cinco minutos para uma tela eletrônica onde se movem constantemente os índices da Bovespa, do dólar e do risco Brasil. Guido Mantega sorri o tempo inteiro. “Já me sinto muito à vontade no Ministério”, confidencia. “Até decorei o nome das minhas quatro secretárias e três motoristas.” Alçado há 40 dias ao comando da economia, ele acha que chegou a hora de impor seu próprio estilo. “Chegou a hora de falar menos de juros e começar a falar de desenvolvimento”, foi logo avisando, na tarde da quinta-feira 4, em entrevista exclusiva a ISTOÉ. Mas como falar em crescimento se a última ata do Comitê de Política Monetária do Banco Central fala em manter parcimônia para conter a inflação? “O presidente do Banco Central não pode pensar de forma diferente do presidente da República”, ataca, referindo-se a Henrique Meirelles. A ordem do dia é consolidar o crescimento. A questão é saber o que Mantega vai fazer de concreto para garantir tal índice. Na manhã da sexta-feira 5, ele deixou seu gabinete refrigerado em Brasília e desembarcou em São Paulo para manter uma reunião com os representantes dos maiores bancos privados brasileiros. Na pauta, forçá-los a baixar imediatamente o crédito ao consumidor. “Chegou a hora de os bancos privados darem sua contribuição à economia”, disse. Enfim, Guido Mantega começa a mostrar a que veio:

ISTOÉ – Quais mudanças o sr. pretende implementar na política econômica de Antônio Palocci?

Guido Mantega – A grande diferença entre o Mantega e o Palocci é o peso e o cabelo. O Palocci tem mais peso do que eu. E muito mais cabelo.

ISTOÉ – O Palocci manteve por mais de três anos uma política defensiva, enquanto o sr. passou todo esse tempo cobrando mais ousadia.
Mantega – Na verdade, se há uma mudança em curso, é decorrência da fase que se encontra o País. Na primeira fase, a do Palocci, se deu uma maior atenção à recuperação dos fundamentos econômicos. Mas agora já há condições de priorizar a pauta do desenvolvimento. "É hora de colocar em segundo plano a pauta da política monetária. O ideal é que nem falássemos mais em juros"

ISTOÉ – Como se faz isso?

Mantega – A parte da política monetária teve até agora um certo conservadorismo, que é um viés natural do Banco Central. Eu entro numa fase em que vamos colher os frutos daquilo que foi plantado. Hoje, nós temos uma situação fiscal que nunca tivemos, com a inflação abaixo da meta. Se foi feito um esforço, já foi feito, acabou. Se foi excessivo, eu não sei lhe dizer. Só sei que agora estamos na fase da colheita. A minha vantagem é essa. O desenvolvimento já se torna uma realidade, se transformou na nossa pauta central. Estamos na fase de colocar em segundo plano a pauta da política monetária, que vai perdendo importância à medida que os juros vão caindo. O ideal é que nem falássemos mais em juros no País.

ISTOÉ – Mas continuamos com os juros mais altos do mundo.
Mantega – Tudo bem, então digo que chegou a hora de falar menos de juros. Mas enquanto os juros estiverem caindo, como agora, está todo mundo satisfeito. Deixa os juros irem caindo. Quanto mais eles vão caindo, mais eles deixam de ser assunto da ordem do dia. Nos outros países você não fica falando de inflação a toda hora, você só fala daquilo que vira problema.

ISTOÉ – O sr. e o presidente do BC, Henrique Meirelles, estão em caminhos opostos?

Mantega – A maioria interpretou a ata do Copom como conservadora. Eu diria que é uma ata cautelosa, que vai examinar os vários indicadores da economia. Se for isso mesmo, tudo bem. Pode examinar, desde que continue baixando os juros. O BC tem a obrigação de examinar como anda a inflação com toda cautela. Mas eu posso garantir que este ano nós estamos com os preços administrados numa situação muito favorável. É o primeiro ano em que esses preços ficam abaixo da média da inflação medida pelo IPCA. Portanto, estamos com um cenário muito favorável.

ISTOÉ – O sr. está avisando ao BC que não é hora de ter parcimônia no crescimento?
Mantega – Não, não é hora. Acho que no início do governo podíamos ter parcimônia, mas agora a meta é atingir um crescimento entre 4% e 4,5% em 2006 e chegar a 5% em 2007. É daí para mais.

ISTOÉ – O sr. está querendo subordinar Meirelles à Fazenda?
Mantega –O presidente do Banco Central não pode pensar diferente do presidente da República, e eu estou expressando o pensamento do presidente da República. O presidente Lula já disse: nós agora temos que olhar para o crescimento. A ordem do dia é consolidar o crescimento. As políticas todas do governo têm que ser orientadas nessa direção. E eu, como o ministro da Fazenda, tenho que orientar as ações do governo e viabilizar esse crescimento.

ISTO É – Quais medidas serão tomadas para viabilizar esse crescimento?
Mantega – Vamos primeiro pelas forças que estão impulsionando o crescimento, em especial o setor externo. O governo terá que tomar medidas efetivas na área de infra-estrutura para facilitar o transporte e o embarque de mercadorias. Ferrovias, portos, rodovias, tudo isso tem de ser melhorado. Também está sendo criada uma zona de exportação. Vai funcionar assim: se o empresário instala uma fábrica que vai exportar 80% da produção, ele fica isento de praticamente todos os tributos. Essas zonas serão em qualquer lugar, podem ser implantadas onde quiserem. É quase uma zona franca.

ISTOÉ – O sr. vai olhar para o consumidor?

Mantega – Há muito que o governo está olhando. Tanto que uma das forças que estão impulsionando o atual crescimento é essa quase revolução no crédito ao consumidor. É muito mais do que o crédito consignado. Estão oferecendo carro em 72 prestações.

ISTOÉ – Mas são linhas de crédito especiais. A taxa real de juros ao consumidor e o cheque especial permanecem impraticáveis.
Mantega – É verdade, o Brasil é campeão não só de taxa básica do Banco Central, a Selic, mas também temos um outro pódio, temos os maiores spreads do mundo. É a taxa de risco que os bancos cobram pelos empréstimos, 16%, 17% em média. Eu acho que poderíamos reduzir. É claro que os banqueiros têm várias demandas, várias explicações para esses spreads. Mas eles poderiam ser mais agressivos na redução, existe espaço para isso. Os bancos captam dinheiro pela Selic e depois emprestam para seus clientes. Ora, a Selic já baixou 3%, 4% em termos reais nos últimos meses e continuam caindo. Eles poderiam estar repassando isso para o consumidor. E se algum banco privado repassou, fez menos do que deveria.

ISTOÉ – Vem aí alguma medida para enquadrar os bancos?
Mantega – Eu quero discutir com eles. Estou indo conversar com a Febraban para tentar convencê-los a baixar os spreads. Nós aumentamos muito a segurança do crédito, como a nova Lei de Falências e as mudanças na legislação habitacional. Chegou a hora de os bancos darem a contrapartida.

ISTOÉ – O sr. planeja flexibilizar a meta de inflação para 2007, de forma a facilitar o crescimento?
Mantega – A meta permanecerá em 4,5%. É uma meta que permite o crescimento econômico. Não tem sentido subi-la. Nem pretendo baixá-la. Não vamos fazer nenhuma loucura de querer perseguir uma inflação suíça.

ISTOÉ – E os gastos públicos? Eles estão explodindo.
Mantega – Não está explodindo nada. O que tem de diferente é que este é um ano eleitoral, quando você gasta mais no primeiro semestre e menos no segundo. Mas os gastos estão sob controle, tanto que o superávit até abril foi de 4,38%. É um bom nível de gastos, é sinal de que a máquina está funcionando, os investimentos estão sendo feitos, o Bolsa Família está sendo posto em prática.


"O Alckmin falou em aumentar o superávit. Ele vai acabar com o Bolsa Família?"

ISTOÉ – O que o sr. acha da proposta da equipe de Palocci de aumentar o superávit primário para fazer o ajuste de longo prazo?
Mantega – Esse superávit atual, de 4,25% do PIB, ajuda a viabilizar o crescimento gradual nos moldes que estamos pensando, de 4,5% em 2006, 4,75% em 2007, 5% em 2008 e de 5,25% em 2009. O desenho adequado é esse. Eu acho que 4,25% é suficiente. Nem mais, nem menos. Tinha gente que achava melhor aumentar o superávit ao infinito. Tem até um certo candidato à Presidência falando nisso. Eu sou contra, porque prejudicaria as outras atividades.

ISTOÉ – Qual candidato?
Mantega – O Geraldo Alckmin. Ele andou falando em aumentar o superávit primário. Parece que depois mudou um pouco o discurso. Se o Alckmin aumentar o superávit, eu só quero saber de onde ele vai tirar o dinheiro para as demais necessidades. Será que ele vai acabar com o Bolsa Família? Ou não vai mais aumentar o salário mínimo? Ou vai deixar de fazer investimentos, desistir da rodovia 163? O exagero fiscal que a ortodoxia econômica gostaria de praticar pode levar a uma redução do nível de atividades e ao agravamento dos problemas sociais.

 

JORNAL GAZETA DO POVO, 07 de maio de 2006 | Economia
EXPORTAÇÕES-Madeireiras de Telêmaco Borba amargam prejuízos com a desvalorização cambial
Real forte golpeia o vigoroso desempenho do pólo da árvore



Telêmaco Borba – A valorização do real provocou a maior crise da breve história do pólo madeireiro de Telêmaco Borba (região centro-leste do estado). Criado há 13 anos para absorver parte da matéria-prima gerada pela Klabin – que há mais de seis décadas mantém no município a maior fábrica de papel da América Latina –, o “cluster da árvore”, como é conhecido, enfrenta alta dos custos de insumos e queda de rentabilidade com as exportações. Cluster é uma palavra de origem inglesa que designa um arranjo econômico em torno de um produto, serviço ou de uma vocação regional.

O pólo de Telêmaco Borba é formado por 56 empresas, além da Klabin, voltadas basicamente para a exportação de derivados de madeira. Elas fabricam uma ampla gama de produtos (compensados, pisos, molduras, laminados, móveis e até cabos de vassoura) usando pinus e eucalipto, madeiras desprezadas pelo consumidor brasileiro, que as considera de baixa qualidade e ainda está acostumado às madeiras nobres nativas – boa parte explorada de maneira ilegal.
Rejeitados no mercado interno, os produtos de Telêmaco Borba são encontrados nas casas das melhores famílias dos Estados Unidos, Europa e Ásia. Nos Estados Unidos, por exemplo, 75% da população mora em casas de madeira. Dos 135 milhões de metros cúbicos do produto que consome anualmente, o país produz pouco mais de metade: 85 milhões. Mas o Brasil ainda participa timidadamente – com cerca de 1% – nesse mercado, dominado por Canadá e Chile.

Segundo o secretário municipal de Trabalho e Indústria, Randy Speltz, o pólo, excluindo-se a Klabin, gera 3,5 mil empregos diretos, registrou um faturamento de aproximadamente R$ 250 milhões em 2005 e já responde por 18% da arrecadação municipal. Com a gigante do papel – que, sozinha, emprega 4.530 pessoas – o setor de base florestal é responsável por 85% da arrecadação de Telêmaco Borba. O município, com 63,7 mil habitantes, terá em 2006 um orçamento de R$ 52,3 milhões.

O vigoroso cluster, no entanto, já sente o baque da defasagem cambial. Desde o início do ano passado, quando o dólar, então valendo R$ 2,70, iniciou sua trajetória de queda, o pólo perdeu duas empresas. Uma delas era a filial da madeireira Wosgrau, com matriz em Ponta Grossa, que demitiu 100 funcionários. As empresas que permaneceram enfrentam dificuldades para honrar seus contratos de exportação sem prejuízos. A saída mais comum é a redução de custos – o que inclui ganhos de eficiência, mas também corte de pessoal.

Um exemplo é a Ecofor, pertencente a um grupo madeireiro catarinense, que exporta 100% de sua produção para Estados Unidos, União Européia e Ásia. Instalada há sete anos no pólo, a Ecofor fabrica painéis (usados como tampos de mesas) e vigas coladas (para janelas) de eucalipto. Não há alternativa à exportação. “Nosso produto é muito bem aceito nos exigentes mercados internacionais, mas não encontra consumo no Brasil”, lamenta Marcelo Ramacioti Borges, gerente geral da empresa.

No ano passado, a Ecofor conseguiu aumentar sua produtividade em 26%, mas a perda de receita cambial foi maior que o ganho, atingindo 32% no período. Além de abandonar produtos menos rentáveis, enxugar os custos de produção e melhorar a eficiência do processo fabril, a empresa, que faturou R$ 13 milhões em 2005, reduziu seu quadro de funcionários de 260 para 170. A produção mensal também foi cortada, em 22%, e está nos 2 mil metros cúbicos mensais. Para voltar aos patamares antigos, é necessário o dólar valendo R$ 2,70.

Darci Fagundes Gouveia, dono da 5M Indústria e Comércio, também espera, apreensivo, a reação da moeda norte-americana. Por causa do real valorizado, ele perdeu a exportação mensal de 51,3 mil cabos de vassoura para Portugal. A exportação representava um terço de sua produção, de 150 mil unidades por mês. Com o baque, cortou de 10 para 4 o número de funcionários da empresa – uma das menores do pólo – e reduziu a produção a um terço.

Hoje, toda a produção da 5M é direcionada ao mercado interno, contribuindo para a superoferta de cabos de vassoura. Gouveia consegue, no máximo, R$ 0,40 por unidade. Quando exportava, obtinha pelo menos o equivalente a R$ 0,42. “É o pior ano desde que me instalei aqui, em 1997”, opina.

Valmir Denardin

JORNAL GAZETA DO POVO, 07 de maio de 2006 | Economia
EXPORTAÇÕES-Preços estáveis e proximidade entre fornecedor e fábrica geram custo menor
Ciclo fechado ameniza perdas

Telêmaco Borba – O “cluster da árvore” desenvolve um circuito produtivo fechado: a Klabin fornece cerca de 80% das toras de pinus e eucalipto e compra a totalidade dos resíduos gerados pelas empresas (serragem, maravalha, cavacos, ponteiras e até cascas). Num momento de crise como o atual, essa característica se revelou uma importante vantagem.

Há a garantia de fornecimento regular de matéria-prima, com preços estáveis – a Klabin adota o preço internacional da madeira para abastecer o pólo de Telêmaco Borba, quando a prática é a cotação em real. Também há o benefício do preço reduzido do frete. Na Klabin, a distância entre as reservas e a fábrica (vizinha ao pólo) é de 34 quilômetros, a menor entre as fábricas de papel em todo o mundo. Mesmo em outros pólos madeireiros do Paraná é comum os caminhões viajarem centenas de quilômetros para buscar as toras.

No ano passado, a Klabin forneceu ao pólo 1,22 milhão de toneladas de toras, volume recorde desde a implantação do programa. Neste ano, a expectativa é manter esse patamar, informa Ronaldo Luiz Sella, gerente de Comercialização de Madeira e Fomento Florestal da empresa. A proporção do fornecimento é de 77% pinus e 23% eucalipto. A madeira representa cerca de 45% dos custos das empresas do pólo.

Até há poucos anos um problema ambiental, hoje os resíduos contribuem no orçamento das empresas. Na Ecofor, por exemplo, a participação desse item na composição das receitas cresceu de 1% para 7% nos últimos sete anos. Para Marcelo Borges, diretor da empresa, a principal vantagem de estar perto da Klabin, no entanto, é a facilitação dos negócios. “O pólo atrai visitantes que acabam conhecendo todas as empresas e seus produtos.”

Outra vantagem é a certificação ambiental para todos os seus processos que a Klabin obteve junto ao Forest Stewardship Council (FSC), a certificadora com maior credibilidade internacional no segmento. Utilizar matéria-prima com este selo é uma excelente bandeira publicitária para as empresas da cidade, especialmente num país ainda manchado pela derrubada criminosa de florestas nativas.

Valmir Denardin

 

JORNAL GAZETA DO POVO, 07 de maio de 2006 | Economia
EXPORTAÇÕES
Vocação surgiu antes mesmo da cidade

Telêmaco Borba – Fundada em 1900, a Klabin se estabeleceu no Paraná há 72 anos, em 1934, quando comprou a Fazenda Monte Alegre. Em 1943, construiu no local sua fábrica de papel. A área pertencia ao município de Tibagi. Telêmaco Borba só viria a se tornar município em 1963. O pólo em torno da indústria começou a se instalar em 1993, por meio de um convênio entre a empresa e a prefeitura.

Hoje, as reservas florestais do grupo, de capital brasileiro, ocupam 230 mil hectares, espalhados por 11 municípios da região. Além disso, a empresa já soma 40,5 mil hectares plantados, pelo sistema de fomento, em 5,5 mil hectares de propriedades pequenas e médias. Neste ano, serão plantados mais 7 mil hectares por meio desse programa. “Não queremos o monopólio da matéria-prima”, afirma Ronaldo Luiz Sella, gerente de Comercialização de Madeira e Fomento Florestal da Klabin.

A demanda da empresa vai aumentar. A partir deste ano, serão investidos R$ 1,5 bilhão na ampliação da fábrica paranaense, cuja capacidade crescerá de 700 mil para 1,1 milhão de toneladas anuais. A Klabin, situada entre os 80 maiores grupos empresarias do país, possuiu 17 fábricas no país e uma na Argentina.

 

JORNAL GAZETA DO POVO, 07 de maio de 2006 | Economia
EXCEÇÃO
Dinamarquesa resiste à crise

Uma das poucas empresas do pólo ainda não afetadas pela crise é a ScanCom, multinacional com sede na Dinamarca. No Paraná, ela produz 6,5 mil metros cúbicos de eucalipto serrado por mês. A produção é exportada pa-ra a fábrica de móveis que o grupo mantém no Vietnã. De lá, os produtos seguem para a Euro-pa. Segundo o diretor geral da ScanCom no Brasil, Wenzel Niel-sen, não há previsão de demissões (ela gera 100 empregos di-retos) ou corte na produção.

O ESTADÃO.COM / SÃO PAULO, 06 de maio de 2006 | Economia
Mínimo deveria ser de R$ 1.536,96, aponta Dieese
Segundo o Dieese, o preço leva em consideração que o salário deve ser suficiente para garantir as despesas familiares, como alimentação, moradia e saúde
Flavio Leonel

SÃO PAULO - Levantamento divulgado nesta sexta-feira pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) apontou que o salário mínimo do trabalhador brasileiro deveria ser de R$ 1.536,96, no mês passado, para suprir suas necessidades básicas e da família. A constatação foi feita por meio da utilização da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de abril, realizada em 16 capitais do País pela instituição.

Com base no maior valor apurado para a cesta, de R$ 182,95, em São Paulo, e levando em consideração o preceito constitucional que estabelece que o salário mínimo deve ser suficiente para garantir as despesas familiares com alimentação, moradia, saúde, transportes, educação, vestuário, higiene, lazer e previdência, o Dieese calculou que o mínimo deveria ser 4,39 vezes maior que o piso vigente, de R$ 350, que começou a vigorar em 1º de abril.

Em março, quando o mínimo equivalia a R$ 300, o salário mínimo necessário ficava em R$ 1.489,33, mas correspondia a 4,96 vezes o valor. Há um ano, quando o menor salário pago no País encontrava-se em R$ 260,00, a quantia necessária totalizava um valor muito próximo do calculado para abril de 2006: R$ 1.538,64.

Elevação

O Dieese destacou que a elevação do salário mínimo, a partir de 1º de abril deste ano, resultou em forte redução no tempo de trabalho necessário para a aquisição da cesta básica, pela primeira inferior a 100 horas. Assim, a jornada de trabalho necessária para a aquisição da cesta básica, na média das 16 capitais pesquisadas, ficou, em abril, em 98 horas e 48 minutos. Em março, a mesma compra comprometia 110 horas e 55 minutos e em abril de 2005 exigia 132 horas e 21 minutos.

Quando se considera o salário mínimo líquido - após o desconto da parcela referente à Previdência Social - verificou-se também, pela primeira vez, que o trabalhador que ganha salário mínimo, na média das 16 capitais, comprometeu, com alimentação, menos da metade de seus rendimentos (48,63%). Em março a parcela necessária corresponda a 54,59% do salário mínimo líquido e, há um ano, ficava em 65,14%.

São Paulo

De acordo com o Dieese, foi o terceiro mês consecutivo em que a capital paulista ficou na liderança das cidades onde a cesta é vendida ao maior preço. No fechamento de abril, o custo médio da cesta, R$ 182,95, teve alta de 3,20% ante o valor verificado no mês anterior.

O levantamento mostrou que, em mais quatro cidades, o custo do conjunto de produtos alimentícios essenciais superou, em abril, o valor de R$ 170: Rio de Janeiro, com R$ 175,64; Curitiba, com R$ 172,24; Porto Alegre, com R$ 171,86; e Belo Horizonte, com R$ 170,22. Em março, apenas São Paulo, com R$ 177,28, e Brasília, com R$ 173,29, ficaram com o preço da cesta no mesmo nível.

A exemplo do que ocorreu no mês anterior, o menor custo da cesta foi apurado em Fortaleza, com R$ 126,99; com um valor bem inferior ao de Salvador, de R$ 139,82; que teve o segundo menor preço em abril.

 

CONSULTOR JURÍDICO, 06 de maio de 2006
Ao alcance
Justiça do Trabalho Itinerante passa por Rondônia

A Justiça do Trabalho Itinerante vai passar pelo município de Governador Jorge Teixeira, em Rondônia, entre os dias 14 e 16 de maio, para atender reclamações trabalhistas da população. Antes disso, o servidor Regente Marinho Beltrão da Rocha, da Vara do Trabalho de Jaru, fala sobre “Direitos básicos dos trabalhadores”, na segunda-feira e terça-feira (8 e 9/5). A palestra será às 15h30, nas escolas estaduais Costa Júnior e Prima Vera.

As atividades são parte da campanha de divulgação da Justiça do Trabalho Itinerante promovida pelo Tribunal Regional do Trabalho da 14ª Região no interior de Rondônia e Acre. Entre os dias 13 e 14 de junho, vão ser realizadas audiências de conciliação e julgamento na sede da Emater — Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do estado, com a presença da juíza titular da Vara do Trabalho de Jaru, Mônica Harumi Ueda.

 

O LIBERAL ONLINE/ BELÉM, 08 de maio de 2006
Trabalhadores da construção fazem assembléia em plena rua



Dois dias depois do Ministério Público encaminhar ao Comando Geral da Polícia Militar um ofício orientando a corporação a coibir abusos nas manifestações públicas e a efetuar a prisão de quem interditasse ruas e avenidas, uma ação do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção e Mobiliário de Belém e Ananindeua indicou que a Polícia terá que ser cuidadosa nessa questão. Em pleno horário de pico no tráfego, por volta das 18h30, os representantes do sindicato fecharam a travessa 9 de Janeiro entre as avenidas Magalhães Barata e José Malcher e resolveram realizar sua assembléia de lançamento da campanha salarial de 2006 no meio da rua, com direito até mesmo a uma mesa em pleno asfalto. Os policiais que acorreram ao local preferiram interditar a via e desviar o trânsito.

O tenente Roberto, da 2ª Zpol, que respondeu ao chamado gerado no Centro Integrado de Operações (Ciop), chegou ao local depois do movimento instalado. 'Com essa quantidade de pessoas, se torna impossível desmobilizar a manifestação e desobstruir a via. O que vamos fazer é verificar a situação e tentar fazer o desvio do tráfego. Estamos tentando contactar a Ctbel para pedir apoio'.

O presidente do sindicato, Atenágoras Lopes, justificou a assembléia na rua como um imprevisto, apesar do carro-som. 'Marcamos a assembléia na sede do sindicato, mas o prédio não teve condições de suportar a quantidade de trabalhadores que compareceu. Até agora, 800 companheiros já assinaram a lista de presença. Por isso resolvemos fazer a assembléia aqui em frente, na rua.'

Repartição - Aumento de salário para todas as categorias de trabalhadores da construção civil, participação nos lucros das construtoras, diminuição de descontos e inclusão de benefícios como plano de saúde e vale-gás constam na pauta de reivindicações que o Sindicato dos Trabalhadores na Construção referendou ontem à noite para apresentar ao sindicato patronal, antecipando as negociações da data-base.

Segundo Atenágoras Lopes, a proposta inclui a mudança da remuneração de servente de pedreiro, hoje fixada em um salário mínimo, para um piso de R$ 375, e um aumento do salário dos outros trabalhadores (pedreiros, pintores, carpinteiros etc) de R$ 536 para R$ 617. 'Não nos baseamos em valores inflacionários para chegar a esses valores porque nossas perdas históricas são muito maiores do que isso. A cesta básica subiu mais do que a inflação. Há dez anos, nós já tivemos um piso de dois salários mínimos, esperamos pelo menos recuperar o poder de compra que a categoria já teve'.

O sindicalista diz que os 13 mil trabalhadores da construção civil nos dois municípios também esperam por participação nos lucros das empresas. 'Em cada esquina de Belém tem um prédio novo e nós produzimos isso. É um direito que temos previsto em lei o da repartição de benefícios. O que queremos propor às empresas é que elas abram o caixa, nos mostrem seus lucros e discutam percentuais conosco. Também queremos discutir uma tabela de adicional de produtividade, porque hoje cada empresa paga o que quer'. A proposta dos trabalhadores ainda inclui a diminuição do desconto de 6% de vale-transporte para apenas 1%, garantia de plano de saúde, cesta básica e redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas semanais, sem diminuição de salário. 'Devemos levar a proposta ao sindicato patronal na próxima semana', informou Atenágoras Lopes.

 

ÚLTIMA INSTÂNCIA, 07 de maio de 2006
Aposentado por invalidez poderá ter prioridade na Justiça
Agência Câmara

O Projeto de Lei 6748/06, do deputado Manato (PDT-ES), garante aos aposentados por invalidez a prioridade na tramitação de processos judiciais em todas as instâncias. A proposta altera o Código de Processo Civil (Lei 5869/73), que só prevê esse benefício para as pessoas com mais de 65 anos.

De acordo com Manato, o objetivo é garantir a aplicação do preceito constitucional da dignidade da pessoa humana. "É justo garantir, aos trabalhadores incapacitados para exercerem as suas atividades, acesso mais rápido à Justiça", afirma o deputado.

Direito para cônjuges

O projeto determina que, em caso de morte do trabalhador, a prioridade no andamento dos processos judiciais será estendida ao cônjuge (ou companheiro, quando se tratar de união estável).

No âmbito da Previdência, 2,7 milhões de trabalhadores recebem aposentadoria por incapacidade física ou mental, segundo dados do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), divulgados em março.

Tramitação

O PL 6748 tramita em caráter conclusivo, apensado ao PL 5000/01, de autoria do deputado Medeiros (PL-SP). As duas propostas serão avaliadas pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania.

 

ÚLTIMA INSTÂNCIA, 07 de maio de 2006
Validade da mini-reforma eleitoral divide especialistas
Roseli Ribeiro

O texto foi aprovado pelo Senado em abril, mas ainda é incerto o alcance das alterações da chamada mini-reforma eleitoral. Especialistas ouvidos por Última Instância divergem sobre a aplicação _ou não_ das novas regras para a eleição de outubro. Mas, considerando resolução do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), parte das regras entra mesmo em vigor já este ano.

O Senado Federal aprovou o substitutivo da Câmara dos Deputados ao projeto de lei do senador Jorge Bornhausen (PFL-SC), que ficou conhecido como mini-reforma eleitoral. O projeto altera alguns artigos da lei 9504/97 e aguarda a sanção presidencial. As alterações pretendem combater os gastos nas campanhas, aumentar a transparência e penalizar o candidato com a perda do mandato em caso irregularidades.

Contudo, antes da aprovação o TSE já havia expedido a Resolução 22.160, em 3 de março deste ano. O texto fixou os parâmetros para o TSE e os TREs (tribunais regionais eleitorais). Uma das exigências é que as doações de campanha devem ser feitas por meio de cheques ou transferências bancárias, o que facilita a identificação do doador. Outra novidade é a necessidade do candidato ou candidata assinar a sua prestação de contas. Isso evita que posteriormente seja alegado desconhecimento.

Antônio Carlos Mendes, advogado e professor de Direito Constitucional da PUC-SP e ex-procurador regional eleitoral do Estado de São Paulo defende que “as leis que alteram o processo eleitoral estão submetidas à vacacio constitucional de um ano, durante o qual não podem ser aplicadas.”

Essa também é a opinião de Roberto B. Dias da Silva, advogado, sócio do escritório Dias da Silva e Barroso Advogados, que leciona direito constitucional na PUC-SP e Unip: “as alterações da mini-reforma serão válidas apenas para as próximas eleições, conforme artigo 16 da Constituição Federal.”

Já Alberto Rollo, especialista em direito eleitoral, acredita que parte das modificações deve ser aplicada nas eleições deste ano, como por exemplo, as referentes à arrecadação e gastos da campanha.

Fernando Molino, especialista em direito eleitoral e político do escritório, Leite, Tosto e Barros Advogados Associados, também concorda com o prazo de um ano entre a edição da lei e o começo da sua aplicação, mas vê exceções. “Qualquer norma somente seria aplicada às eleições deste ano se editada e aplicada anteriormente ao dia 1º de outubro de 2005, haja vista que o primeiro turno das eleições será em 1º de outubro de 2006.”

Molino, entretanto, enfatiza que algumas normas fixadas pela reforma eleitoral não influenciam diretamente no processo eleitoral, como por exemplo, a proibição de showmícios. Dessa forma ele acredita que “tais normas podem entrar em vigor na data de sua publicação, sem qualquer afronta a regra exposta no artigo 16 da Constituição Federal.”

A eficácia das novas regras também sucita dúvidas. O professor Antônio Carlos Mendes acredita que “independente dos depósitos por meio de movimentação bancária, pode haver desvios na captação e aplicação de recursos”. Por sua vez, Fernando Molino pondera que as alterações da mini-reforma são paliativas, e não se pode afirmar, neste momento, se realmente impedirão manobras financeiras.

Mendes afirma ainda que “as captações e gastos superiores ao orçamento aprovado pela Justiça Eleitoral ou a falta de prestação válida das contas ou ainda a rejeição das contas pela Justiça podem implicar o cancelamento do registro do candidato ou a anulação do diploma, mesmo durante a campanha eleitoral.”

Alberto Rollo espera que a punição com perda de mandato prevista na mini-reforma --quando encontradas irregularidades nas prestações de contas-- já seja aplicada este ano, e não fique apenas para 2008. Do contrário, a situação ainda será regrada pelo o artigo 14, § 10º da Constituição Federal, que prevê que "o mandato eletivo poderá ser impugnado ante a Justiça Eleitoral, no prazo de quinze dias contados da diplomação, instruída a ação com provas de abuso de poder econômico, corrupção ou fraude."

Polêmica também no mérito das novas regras

Pelo texto da mini-reforma eleitoral ficam proibidas as propagandas em áreas externas, distribuição de brindes e showmícios. E a propaganda em rádio e TV sofre restrições. Segundo Antônio Carlos Mendes, “as limitações, dirigidas indistintamente a todos os candidatos, podem violar o princípio constitucional de `igualdade de chances entre partidos e candidatos´”.

Fernando Molino acha que tais mudanças prejudicam em muito a escolha do eleitor, pois o acesso à informação sobre os candidatos e planos de governo será mais restrito. Em sua opinião, quem “sofrerá maior restrição com as medidas serão os candidatos de menor espaço na mídia, posto que o processo eleitoral começará mais tarde, em agosto.”

Alberto Rollo concorda que a reforma prejudica os candidatos sem projeção da mídia, que agora ficam impedidos até de distribuir um brinde simbólico. Com relação às restrições de divulgação de pesquisas, outra regra da reforma, Rollo diz que “com certeza será decretada a inconstitucionalidade do dispositivo que proíbe a divulgação a partir de 15 dias antes do pleito”. Roberto B. Dias da Silva reforça o coro contra a proibição de divulgação de pesquisas, afirmando que, além de inconstitucional, vai contra o direito de liberdade da imprensa.

Conheça as mudanças da mini-reforma:

Radiodifusão: os programas de rádio e TV, incluindo as inserções, serão restritos a gravação do candidato e dos filiados ao seu partido em estúdio, sendo vedadas gravações externas, montagens ou trucagens, computação gráfica, desenhos animados e efeitos especiais;

Imprensa escrita: até a antevéspera da eleição, é permitida a divulgação paga, na imprensa escrita, de propaganda eleitoral de candidato, partido ou coligação;

Horário eleitoral gratuito: O horário destinado à divulgação, em rede, da propaganda eleitoral gratuita, será distribuído pela representação de cada partido na Câmara dos Deputados na data do resultado das eleições, não mais da data do início da legislatura que estiver em curso;

Mídia exterior: A utilização de outdoors passa a ser vedada. Também fica proibida em áreas públicas a veiculação de propaganda de qualquer natureza (pichação, inscrição a tinta, fixação de placas, estandartes, faixas e assemelhados). O descumprimento prevê multa de R$ 2 mil a R$ 8 mil reais;

Brindes: é vedada a distribuição de camisetas, chaveiros, bonés, canetas, brindes, cestas básicas ou quaisquer bens ou materiais que possam proporcionar vantagem ao eleitor;

Showmício: proibida a apresentação, remunerada ou não, de artistas com a finalidade de animar comício ou reunião eleitoral;

Telemarketing: é permitida a propaganda eleitoral por meio de operadora comercial de telemarketing;

Boca de urna: a boca de urna e a propaganda no dia das eleições passam a ser caracterizados como crimes, puníveis com detenção, de seis meses a um ano e multa;

Pesquisas eleitorais: fica vedada a divulgação de pesquisas eleitorais a partir do 15º dia anterior até às 18h do dia da eleição.

Veja as principais regras estabelecidas pela mini-reforma eleitoral com relação ao financiamento de campanha:

Limites de gastos de campanha: lei deverá fixar o limite dos gastos de campanha para os cargos em disputa. Não sendo publicada a lei, caberá aos partidos políticos fixar esse limite e comunicar à Justiça Eleitoral.

Abuso do poder econômico: o uso de recursos financeiros para pagamentos de gastos eleitorais que não provenham de conta bancária específica registrada para esse fim implica a desaprovação da prestação de contas. Se comprovado abuso de poder econômico, o candidato terá registro cancelado ou diploma cassado;

Doações: as doações de recursos financeiros somente poderão ser efetuadas na conta registrada por meio de cheques cruzados e nominais ou transferências eletrônicas de depósito. No caso de pessoa física, é permitido depósito em espécie até o limite de 10% dos rendimentos brutos do cidadão, declarados no ano anterior à eleição. Não podem fazer doações de nenhum tipo entidades beneficentes e religiosas, esportivas e organizações não governamentais que recebam recursos públicos e organizações da sociedade civil de interesse público;

Prestação de contas: os partidos, coligações e candidatos serão obrigados a divulgar, em página criada pela Justiça Eleitoral na Internet, relatório discriminando os recursos recebidos para financiamento das campanhas e os gastos efetuados nos dias 6 de agosto e no dia 6 de setembro.


O ESTADO DO PARANÁ, 07 de maio de 2006
Unicidade sindical, decisões do STF, registro no MTE e medidas judiciais (Final)
Edésio Passos

19. Cautelar da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria da Construção da CNTI: Na Ação Cautelar Inominada ajuizada pela CNTI contra a Comissão Pró-Fundação, da Madeira e Assemelhados, o despacho do juiz da 47.ª Vara do Trabalho de São Paulo, concedendo parcialmente a liminar requerida, destacou: “Trata-se de ação cautelar inominada, com pedido de liminar, inaudita altera parte, em que os requerentes requerem a sustação da reunião marcada para o dia 07(sete) de abril de 2006, alegando nulidades no edital de convocação, tais como: 01 - descumprimento do art. 53, caput, da CLT. 02 - reunião em local não apropriado. 03 - denominação em desacordo com a lei. 04 - expressão imprecisa na denominação. 05 - assembléia com “qualquer número de presentes”. 06 - falta de quorum para votação. 07 - participação de sindicatos. 08 - falta de decisão da maioria. Relatados. Decide-se. A ação proposta visa a sustação da reunião marcada para o dia sete de abril do corrente ano, alegando que a criação de nova Confederação fere ao já deliberado em reunião das Federações interessadas, as quais se declararam contrárias á formação de nova Confederação e aponta irregularidades no Edital de Convocação. Tais questões, em realidade, são matérias que envolvem o próprio mérito, o qual deverá ser apreciado no momento oportuno. Todavia, diante da situação exposta na inicial, por ora acolho parcialmente a liminar requerida, “inaudita altera parte”, apenas e tão somente para sustar os efeitos da reunião a ser realizada dia 07 de abril de 2006, cuja realização fica mantida até decisão final da presente demanda, nos termos do § 7.º do art. 273, do CPC e § 3.º do art. 461 do CPC. Cite-se a Requerida para que, querendo, apresente sua contestação no prazo legal. Expeça-se mandado de citação com a máxima urgência. Ciência ao Requerente. São Paulo, 4.4.2006. Eduardo Ranulssi, Juiz do Trabalho” (autos 00274.2006.047.02.00.5).

20.
A exclusão da maioria: Relata Geraldo Ramthun, dirigente da CNTI e presidente da Federação dos Trabalhadores na Indústria da Construção e do Mobiliário do Estado do Paraná, que embora mais de 2/3 das Federações dos setores profissionais envolvidos tivesse comparecido a assembléia de fundação da nova Confederação, foram impedidas de ingressar no recinto da reunião, face a presença de força militar e de segurança privada convocada e contratada pelos interessados na assembléia. Todavia, as entidades sindicais realizaram, defronte o local da assembléia, assembléia para debater a matéria e, a unanimidade, rejeitaram a fundação da nova Confederação. Mesmo assim, quer diante da cautelar, quer com a assembléia da maioria rejeitando a criação da nova entidade, os dirigentes de Central Única dos Trabalhadores e da Força Sindical divulgaram comunicado, no dia seguinte, dando por criada a nova Confederação.

21.
Lei ministerial: Por inexistir lei que regulamente a criação de novas entidades sindicais, as regras são adotadas segundo o interesse de pessoas, grupos, ou entidades. Resulta que, com a disputa sindical, cabe ao Judiciário a definição da regularidade das decisões. E não só, o Ministério do Trabalho passa a adotar decisões baseadas em notas técnicas de assessor, segundo avaliação calcada em critérios não conhecidos. São passados 17 anos da Constituição Federal de 1988 e a questão sindical continua sendo definida por ato administrativo, mesmo diante da controvérsia e da impugnação. Ou seja, passou o Ministério do Trabalho a legislar segundo sua visão e a interferir na organização sindical.

22.
Pluralidade via Ministério: E este posicionamento ministerial tem sustentado a adoção de decisões administrativas prevalentes sobre o princípio constitucional da não-intervenção e não-interferência na organização sindical e da unicidade sindical. Veja-se o seguinte exemplo. Em 12 de março de 2004, o Diário Oficial da União publicou despacho do Secretário Executivo do MTE Alencar Ferreira Junior pelo qual, ao mesmo tempo, anulava despacho anterior que suspendia o registro da Federação dos Trabalhadores em Empresas de Crédito de São Paulo (FETEC-CUT) e restabelecia o registro da referida entidade, além de acolher acordo firmado com a Federação dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul (FEEB), acordo que encerrou pendência de 14 anos. Comentando o acordo e o registro duplo de duas entidades face a mesma categoria profissional, a FETEC-CUT, em nota publicada em 18/3/2004, assinalava: “Ao consentir a existência de duas federações em um mesmo estado, o ministério sinaliza de que o caminho a ser seguido é o da pluralidade sindical”. Rompido assim o princípio da unicidade, a mesma categoria, na base territorial de um determinado Estado da Federação, possui representação de duas entidades registradas no Ministério do Trabalho e Emprego.

23. Desconstituição do sistema: Alamentável conclusão que vem se afirmando diante do posicionamento do Ministério do Trabalho depois da derrota da sua proposta de reforma sindical, é que a desconstituição do sistema da unicidade sindical e da representação por categoria profissional ou econômica, continua sendo a diretriz definida para a política oficial. Por evidente que o perigo de permanecer nesse posicionamento levará com que as fissuras existentes no movimento sindical, se transformem rapidamente em rachaduras que levem o edifício a desmoronar. Já escrevemos anteriormente sobre a questão.

24. Uma certeza: “Por enquanto, estamos no campo das centenas de dúvidas, embora tenhamos uma certeza: o atual sistema conduziu política, econômica e socialmente os trabalhadores e empregadores até o atual estágio em suas relações durante setenta anos. Há afirmações de que se trata de um sistema anacrônico, ultrapassado, obstáculo ao livre desenvolvimento das forças produtivas, impeditivo do crescimento econômico. Por isso, a necessidade das urgentes mudanças. Mas não foi esse o sistema que contribuiu de modo decisivo para que Luiz Inácio Lula da Silva chegasse à Presidência e chefia do governo democrático e popular? Para que o Presidente Lula possa levar à frente as mudanças que todo o povo espera, em especial gerando emprego e renda, não será fundamental que convoque todo o atual sistema sindical para somar forças, ao invés de desconstituí-lo, fragmentá-lo e enfraquecê-lo? Este, certamente, é o pior momento para que tal empreitada possa ser levada adiante. Assim como o debate da reforma da lei trabalhista ficou para 2005, é prudente que o mesmo suceda com o que se tem chamado de reforma sindical. Há tempo para o Ministério do Trabalho e Emprego repensar o caminho que pretende seguir e convocar todas as forças sindicais, de todos os campos, empregadores e empregados, para a agenda construtiva e positiva em favor do país, em torno dos programas de crescimento econômico que estão sendo apresentados pelo Presidente Lula. A melhor contribuição do Ministério seria somar forças, ao invés de dividi-las. Especialmente em um ano eleitoral”.

25. Ano eleitoral: Publicado o texto em 2003, previa que, sem somar forças, não haveria agenda construtiva por parte do Ministério do Trabalho. Esta previsão infelizmente se confirmou. Mas o Ministro do Trabalho Luiz Marinho, ex-presidente da CUT, tem nova oportunidade de propor a somatória de forças ao movimento sindical para essa agenda construtiva. Os seus pontos hoje estão claros depois do fracasso do Fórum Nacional do Trabalho. Essa agenda se baseia (1) no respeito ao artigo 8.º da CF/88 (2) dentro das normas constitucionais, o imediato afastamento do Ministério do Trabalho de decisões relativas ao reconhecimento de entidades sindicais impugnadas (3) a suspensão total do sistema de registro sindical até a formulação de uma lei consensual do registro sindical (4) a não interferência na organização sindical. São pontos iniciais (outros poderão ser fixados) para reflexão, mas que, se adotados, se constituirão em uma diretriz democrática para o período eleitoral e para o próximo governo.

Edésio Passos é advogado, ex-deputado federal (PT/PR) e membro da Comissão Nacional de Direito e Relações do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego.
E-mail: edesiopassos@terra.com.br


Notícias do Tribunal Superior do Trabalho

08/05/2006
Afastamento para candidatura em eleição suspende periculosidade

O empregado público que se afasta de suas funções para concorrer a cargo eletivo tem direito a receber vencimentos integrais, mas não o adicional de periculosidade, que só é cabível quando o trabalhador está efetivamente sujeito ao risco. Com base nesse entendimento, a Terceira Turma do Tribunal Superior do Trabalho negou provimento (rejeitou) o agravo de instrumento movido por um funcionário das Centrais Elétricas de Santa Catarina (Celesc).

O empregado afastou-se da empresa nos meses de agosto, setembro e outubro de 2000 para concorrer a uma vaga na Câmara de Vereadores de Tubarão (SC), nas eleições realizadas naquele ano. Em outubro, retornou ao serviço, e pleiteou na Justiça do Trabalho o recebimento do adicional de periculosidade, suspenso durante os três meses.

A 2ª Vara do Trabalho de Tubarão julgou o pedido improcedente, decisão mantida pelo Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região (SC), que, em seguida, negou seguimento ao recurso de revista. O empregado lançou mão então do agravo de instrumento, na tentativa de fazer com que o TST determinasse a subida de seu processo para julgamento.

Sua alegação era a de que a Lei Complementar nº 64/1990 exige o afastamento de servidores públicos, estatutários ou não, de órgãos ou entidades da Administração direta ou indireta da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos municípios e dos territórios, inclusive das fundações mantidas pelo Poder Público nessa situação, e assegura-lhes o direito aos vencimentos integrais nos três meses de afastamento.

O relator do agravo, ministro Alberto Bresciani, registrou em seu voto que “o adicional de periculosidade corresponde ao que se denomina salário-condição, parcela atrelada ao exercício de situações contratuais específicas, de constância não necessária”, ou seja, só é devido quando houver efetivamente contato com o agente perigoso ou exposição ao risco.

O ministro ressaltou que, no caso, “a compreensão de que corresponde a ‘vencimentos integrais’, no texto da Lei Complementar nº 64/90, não pode perder de vista a natureza jurídica do adicional de periculosidade. Afastado de suas funções, o trabalhador foi poupado do risco gerador do pagamento da parcela, que não é sujeita à incorporação.” A decisão do TRT, portanto, foi correta, não havendo pressupostos para a interposição de recurso. (AIRR 1321/2002-041-12-40.6)

08/05/2006
Pagamento de adicional tem de ser registrado em folha

A condenação do empregador ao pagamento do adicional pelo desempenho de atividades insalubres ou perigosas implica na obrigatoriedade do registro dessa parcela na folha de pagamento. Com base nesse entendimento jurisprudencial, a ministra Rosa Maria Weber (relatora) e os demais integrantes da Sexta Turma do Tribunal Superior do Trabalho negaram agravo de instrumento interposto pela Volkswagen do Brasil Ltda.

O objetivo da montadora era o de cancelar determinação da Justiça do Trabalho de São Paulo, que constatou, por meio de laudo pericial, o direito de um empregado ao adicional de periculosidade e o respectivo registro em folha. O argumento utilizado pela empresa foi o da inviabilidade da anotação diante da inexistência de previsão legal para a inclusão do adicional na folha de pagamento.

O exame do recurso, segundo a relatora, demonstrou o acerto da decisão tomada em âmbito regional, pois baseada na previsão da Orientação Jurisprudencial nº 172 da SubSeção de Dissídios Individuais – 1 (SDI-1) do TST. “Condenada ao pagamento do adicional de insalubridade ou periculosidade, a empresa deverá inserir, mês a mês e enquanto o trabalho for executado sob essas condições, o valor correspondente em folha de pagamento”, prevê a OJ nº 172. (AIRR 724/2001-465-02-40.4)

 

MATÉRIA REGIONAL PARA CONHECIMENTO

FOLHA DE LONDRINA, 07 de maio de 2006 | ESPECIAL MST
TERRA ESTREMECIDA
Invasões, acampamentos e assentamentos em condições precárias formam as fissuras deixadas no sítio paranaense por movimentos que começaram a se organizar, impulsionados pela ideologia, religião e esperança de uma vida melhor.

A reportagem da Folha fez uma viagem de 1.800 km pelo Estado do Paraná para conhecer de perto o perfil dos acampados/assentados que se encontram na base do movimento dos sem-terra. O que se observou, inicialmente, é que há muito agricultores nos grupos em luta pela terra: mais do que pode parecer àqueles que comungam a idéia de que o MST e outros movimentos estão 'levando para o campo gente arregimentada na cidade, que nada entende de agricultura'.

A maior parte dessa massa de trabalhadores, por sua vez, ingressa no acampamento pelo sonho de conquistar um pedaço de terra e não se identifica com o ideário revolucionário esposado pelos líderes conhecidos. Contudo, já existe uma geração de jovens criados em acampamentos/assentamentos, que estão muito mais dispostos a aceitar as teses políticas do MST do que seus pais e avós. É uma geração que luta pelo poder.

Em linhas gerais, o que foi observado ao longo da reportagem aponta para um alerta: enquanto o governo não oferecer uma solução técnica para assentar os verdadeiros trabalhadores, estará fornecendo lenha à fogueira das invasões alimentadas pelo MST e outros movimentos políticos.

Números que impressionam

Se o mapa do Paraná recebesse uma marcação em cada local de assentamento rural, ao final surgiriam pequenas manchas - principalmente nas regiões central, sudoeste, norte e noroeste - a indicar os 272 núcleos de reforma agrária legalmente constituídos. Se, em cima disso, fossem anotadas as 126 invsões de sem-terra consideradas pelo Incra, um novo mapa do Paraná poderia ser definido, com 398 aglomerações - apenas uma a menos do que o total de municípios. Nestes locais, já moram 120 mil pessoas, o equivalente à população de Apucarana.

Mas esse conjunto de sem-terra pode ser ainda maior: o Incra estima que existam 40 mil famílias fora dos núcleos organizados, o que representa outras 160 mil pessoas com grandes chances de entrar para algum movimento. Com isso, o universo de pessoas dependentes de reforma agrária chegaria a 280 mil no Paraná e 3 milhões em todo o Brasil. É número suficiente para desanimar aqueles que pretendem isolar o debate, e mais do que o bastante para acrescentar um enfoque técnico àquele já conhecido e definido como ideológico e incendiário.

História e poder

No Paraná, é quase consenso entre estudiosos a existência de um histórico de irregularidades na distribuição da terra. O superintendente estadual do Incra, Celso Lacerda de Lisboa, cita uma extensa área nas regiões oeste e sudoeste, abrangendo quase uma centena de municípios, que tem a maior parte das propriedades com títulos irregulares. ''Os problemas são diversos: desde concessão, em meados do século passado, de fazendas inseridas na faixa de 150 km da fronteira com Argentina e Paraguai, que não poderia ser feita pelo governo, até fraude de documentos para justificar centenas de doações individuais para uma mesma pessoa''.

Na região centro-sul, outro conflito, que também precede em muitas décadas a formação do MST e outros movimentos populares, se dá a partir da titularização de terras para empresas madeireiras onde viviam pequenas comunidades rústicas havia dois séculos.

Desapropriações têm alto custo

A tentativa do Incra para resolver essa diversidade de problemas esbarra na falta de pessoal, infra-estrutura e orçamento. Atualmente, o órgão está negociando a aquisição de 54 fazendas no estado - num total de 58 mil hectares -, por aproximadamente R$ 350 milhões. Mas o próprio superintende regional reconhece que a área em vista é suficiente para assentar apenas 4.800 famílias - metade das que estão acampadas - e que, em razão do custo, o projeto não será finalizado este ano. Para resolver o problema, seria necessária a aquisição de 124 mil hectares a curto prazo.

''Atualmente, é muito difícil obter novas terras porque as propriedades com títulos irregulares demandam longas batalhas judiciais. Além disso, o índice para comprovar que determinada propriedade não é produtiva, para fins de desapropriação, é de 1965 e está muito defasado. Mesmo áreas quase paradas ainda são consideradas produtivas'', afirma Lacerda de Lisboa. ''Na falta de alternativas, estamos comprando fazendas, mas aí a discussão passa para o valor comercial da terra''.

Outra evidência é a existência de fazendeiros dispostos a negociar suas terras e o Incra sem recursos para comprá-las. Há terras, há gente para cultivá-las, mas o governo está impossibilitado de avançar neste sentido. Ou simplesmente falta interesse neste momento.

Ao alto custo das desapropriações, devem ser acrescidos os insumos concedidos aos assentados: R$ 2.400 para crédito de fomento; R$ 5 mil para habitação; e R$ 18 mil para plantio (via Pronaf). Somente para as 10 mil famílias de acampados no Paraná (seriam 13 mil, segundo o MST), a conta fecha em R$ 250 milhões, mas o orçamento geral do Incra no Paraná, em 2006, é de R$ 85 milhõs - para créditos agrícolas e aquisição de terras. Desde o início do governo Lula foram assentadas 5 mil famílias no Paraná, com previsão de chegar a 7 mil até o fim do ano. Muito pouco perto da demanda.

O que todos estes números significam de fato para os acampados, assentados e o meio rural brasileiro são o assunto principal desta reportagem especial. São inúmeras tragédias, e também histórias de esperança e superação.

Fábio Cavazotti

O MST é um movimento providencial’

Donizete Oliveira



‘‘O que se faz na reforma agrária, se faz na marra’’, avalia Dom Pedro Casaldáliga, desapontado com o Governo Lula


Em São Félix do Araguaia (MT), todos o conhecem. Afinal, dom Pedro Maria Casaldáliga Plá está lá desde 1968, quando foi sagrado bispo e iniciou sua luta em prol dos mais fracos. Numa casa simples, sem muros ou portas e com as paredes cheias de pequenas lembranças, dom Pedro recebe constantes visitas de índios, peões e jornalistas de várias partes do Brasil e do mundo. Aos 78 anos, com a saúde debilitada, foi afastado do comando da Prelazia que engloba 15 municípios, mas permanece lúcido e entusiasta, como mostra a entrevista a seguir.

FL: Como foi sua experiência de reforma agrária em São Félix?

Dom Pedro: Quando chegamos aqui, em 1968, começamos a chamado de fiscais. Então, percebemos que estávamos numa fogueira. O que acontecia nesta região de Barras do Garças até o Pará, estendia-se para toda a Amazônia legal. Quando fui sagrado bispo, em 23 de outubro de 1971, enterrei um peão sem nome e família. A questão da terra atingia os índios, os posseiros e os peões. Era um regime de escravidão numa terra de ninguém, onde impera a lei do mais forte. Na época, escrevi uma carta ao arcebispo de Goiânia, dom Fernando Gomes dos Santos, pedindo que a Igreja encontrasse uma saída para aquela situação.

Essa iniciativa foi uma das sementes que ajudaram a criar a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), no começo da década de 70. Intensificamos uma luta contra um drama histórico. Afinal, o Brasil tem cinco séculos de latifúndio. Na época, além de enfrentarmos a resistência dos fazendeiros, fomos perseguidos pela ditadura militar. Respondi a vários inquéritos e fui tachado de comunista.

FL: Houve algum avanço desde então?

Dom Pedro: Em alguns aspectos, avançamos. Em primeiro lugar a consciência. Hoje, as pessoas sabem que a problemática do campo afeta a cidade. Também aumentou a consciência sobre a perversidade estrutural. Acumulação e exclusão, por um lado. Por outro, a monocultura, que é antinatural. A natureza é pluricultural.

FL: Como está o papel da Igreja frente à reforma agrária, com o arrefecimento da Teologia da Libertação?

Dom Pedro: O papel da Igreja Católica frente à questão da terra deve ser profético. De estímulo, mediação. Hoje, há grupos autônomos fortes. O MST, por exemplo, em parte, surgiu da própria CPT. O João Pedro Stédile, coordenador nacional do movimento, reconhece isso com frequência. Portanto, a luta da Igreja está presente.

FL: Algumas pessoas da região de São Félix dizem que a Prelazia é radical e contra o progresso na questão da terra. Como o senhor vê essa crítica?

Dom Pedro: É preciso deixar claro de que lado se está. Já me chamaram de tudo, comunista, terrorista. Os militares diziam que eu estava envolvido na guerrilha do Araguaia, em 1972, quando houve embate contra o Exército. Advertiam a quem chegava: cuidado com a Prelazia, cuidado com o bispo. Agora, claro que sou contra abrir uma estrada na Ilha do Bananal, como querem alguns, porque lá é território indígena.

FL: E a reforma agrária no Governo Lula?

Dom Pedro: Infelizmente, não houve grandes avanços. Reforma agrária e causa indígena estão bastante paralisadas. A bancada ruralista tem um poder imenso. Lula repete os gestos de bombeiros que ocorriam no Governo de Fernando Henrique Cardoso. O atual governo atende certas emergências para evitar conflitos. Mas reforma agrária de verdade, com distribuição de terras e reforma agrícola, não tem ocorrido. O que se faz na reforma agrária, se faz na marra. O MST faz reforma agrária...

FL: Como o senhor vê ações do MST, consideradas violentas, como a destruição de uma plantação de eucalipto da empresa Aracruz no último dia 8 de março no Rio Grande do Sul?

Dom Pedro: O MST é um golpe bom e necessário à propriedade privada acumuladora. Essa irresponsabilidade consciente ou inconsciente tem sido respaldada até por setores da Igreja. Dizem que é a sagrada propriedade privada. Esquecem de que a grande propriedade privada acumuladora não é um direito absoluto. É um direito relativo. Não é possível aceitar que uma pessoa ou uma empresa tenha 200, 300 mil hectares de terra. Todo latifúndio é iníquo. Inclusive, o produtivo. Porque acumula e exclui. Além de ''ecocida'' porque destrói a natureza. O MST é um movimento providencial. Se não existisse, deveria ser criado. Pode ter tido alguns excessos, mas destruir uma produção transgênica é necessário. O capital só responde quando é atingido como capital.

Donizete Oliveira é estudioso da questão agrária e esteve, em abril, com Dom Pedro Casaldáliga, visando traçar amplo perfil deste personagem fundamental na história dos movimentos sociais no Brasil.

Donizete Oliveira
Especial para a Folha

Fim da violência ainda está longe
Faltam recursos para dotar os assentamentos das condições mínimas

A melhor explicação que o ministro do Desenvolvimento Agrário (MDA), Guilherme Cassel, tem para a crescente violência no campo brasileiro é que nunca foram executados tantos projetos de reforma agrária como nos três primeiros anos do governo Lula - e cita 262 mil famílias num universo de aproximadamente 700 mil famílias assentadas até hoje. O número exato de famílias assentadas é fonte de discussão no próprio governo federal: 784 mil para o MDA; e 663 mil para o Incra. Os números oficiais apontam ainda a existência de 100 mil famílias acampadas.

Segundo o ministro, que falou por telefone com a Folha, a meta de assentar 400 mil famílias até o fim do ano ''está mantida e vai ser cumprida''.

O Movimento de Sem Terra (MST) - que diz representar uma base de 350 mil famílias assentadas em todo o país - reconhece a ascensão do programa de reforma agrária, mas alega que os assentamentos chegaram a, no máximo, 170 mil famílias - e outras 170 mil estariam em acampamentos irregulares.

As declarações do MDA e MST convergem, porém, para uma insólita coincidência quando o assunto é a falta de informações precisas sobre a produtividade dos assentamentos. Indagações sobre a produção dos assentamentos e a renda média familiar simplesmente não podem ser respondidas em razão do limbo estatístico que envolve o assunto.

A desculpa que não convence:''O Brasil precisa urgentemente de um censo agropecuário, o último tem mais de 10 anos. Tínhamos planejado para fazer esse ano, mas não houve dinheiro'', disse o ministro. Representantes do MST e até de universidades desconsideram a importância destes levantamentos, alegando que, acima da produtividade, está a possibilidade de subsistência das próprias famílias. Os dados mais detalhados sobre os assentamentos mostram, porém, condições bastante precárias.''No início do governo, 70% dos assentamentos não tinham água, mais da metade não tinha energia, quase 70% não tinham estrada, e apenas 10% eram atendidas por assistência técnica. Estamos investindo pesado para reverter isso'', afirma o ministro.

Apesar de todos os desafios e, na contramão das visões mais pessimistas sobre reforma agrária, o ministro Guilherme Cassel acredita que ''se o atual ritmo de assentamento se mantiver, em três a cinco anos passaremos a trabalhar com menos violência, visando a qualificação técnica das famílias''.''O que fizemos até agora talvez ainda não tenha um impacto maior porque são dois séculos de demanda por terra. Mas tenho convicção de que vamos reduzir em muito os conflitos no campo''. Especificamente sobre o Paraná, o ministro disse que a prioridade é aumentar a produtividade dos assentamentos: ''Aí, nosso maior desafio é fazer as coisas funcionarem bem, como na fazenda Araupel, para justificar os investimentos''.(F.C.)

TERRA ESTREMECIDA - Os conflitos agrários de Pinhão
Da Guerra do Contestado aos faxinais - posseiros da área desde a década de 40 -, os conflitos agrários em Pinhão resistem

A história da ocupação da terra no Paraná encontra, nas regiões sudoeste e oeste, um de seus capítulos mais conturbados. Desde a Guerra do Contestado, que opôs Paraná a Santa Catarina numa disputa pela demarcação de fronteira, no início do século XX, o conflito entre posseiros e empresas particulares tem sido constante na vida rural de dezenas de municípios da região.

Os primórdios do conflito podem ser encontrados na concessão de uma extensa faixa de terra, com 30 km de largura, feita pelo governo federal à empresa norte-americana São Paulo Railway. O objetivo - nunca concretizado - era construir uma estrada de ferro entre Rio Grande do Sul e São Paulo, para escoar a crescente produção de erva-mate e café. A ocupação da área pela empresa ocorreu em detrimento de famílias de pequenos agricultores, que já habitavam aquelas sesmarias desde o Brasil imperial. A expulsão das famílias deu início a um processo de convulsão fundiária, que ainda persiste.

O município de Pinhão, no sudoeste, é um dos epicentros desse conflito. Desde a chegada da madeireira Indústrias João José Zattar, na segunda metade da década de 40, começaram a surgir relatos de brigas e mortes pelo uso da terra entre as quase 2 mil famílias de posseiros que viviam em comunidades tradicionais, conhecidas como faxinais. ''Os posseiros de Pinhão são povo de origem cabocla, mistura de indígenas e portugueses, que nunca se preocupou com documentos ou divisas porque vivia de forma coletiva'', explica Hamilton José da Silva, conhecido como 'Tula', presidente do movimento de posseiros local.

No auge da produção, a madeireira chegou a ocupar 80 mil hectares na região centro-sul do estado. Para as famílias de faxinais, instalou-se uma luta desigual pela titularidade das terras. De acordo com o líder dos posseiros, os primeiros sinais de mudança nessa história ocorreram em 1987, quando passaram a se organizar e fundaram a Associação das Famílias Tradicionais Rurais (Afatrup) e o Movimento dos Posseiros de Pinhão. ''A partir daí, o problema chegou ao governo, à imprensa e à população em geral. Após muita pressão, o Incra, que antes ficava do lado da empresa, fez o primeiro assentamento''. Porém, até hoje, das 1.000 famílias de faxinais de Pinhão, Tula conta que apenas 88 obtiveram a regularização da terra.

Na década de 90, ainda segundo Tula, a madeireira mudou de tática e começou a solicitar a expulsão dos posseiros por via judicial. ''Eles executam os contratos, assinados após o prazo inicial de arrendamento, e os posseiros têm de sair. O tempo de vigência é inferior ao usucapião e a justiça não tem reconhecido nosso direito à terra como comunidade tradicional''. O movimento dos posseiros diz que 550 famílias já saíram das casas ou estão sob risco iminente de despejo. A empresa fala em aproximadamente 300 processos, entre pedidos de reintegração de posse e ações por direito de usucapião, por parte de algumas famílias de posseiros. Em apenas um caso a madeireira admite ter perdido a titularidade da terra por direito de uso dos faxinalenses.

Outro entrave jurídico, que pesa contra a permanência dos posseiros, é a legislação aprovada em 1999, no governo FHC, que proíbe a desapropriação de terras invadidas para fins de reforma agrária. A medida, que tinha o objetivo de coibir a invasão de terras, atingiu em cheio o grupo de posseiros.

Nos últimos anos, os despejos e a violência física foram reduzidos drasticamente, em razão do não cumprimento das ordens judiciais pelo governo estadual, mas o conflito fundiário ainda representa uma das principais causas de queixas que chegam à Delegacia da Polícia Civil de Pinhão.

Fábio Cavazotti
Reportagem Local

Pequenas e grandes tragédias
Um campo de batalha, em que os faxinais lutam contra a dura realidade, substitui o campo de cultivo sonhado

Fotos: Dorico da Silva

Tristeza e revolta pela perda da filha de 2 anos em incêndio, sem causa apurada, marcam a vida do casal Freitas


Lidando na roça ou no fogão à lenha, Olímpio Martins filosofa com a reportagem: ‘‘Vivo aqui na fé de Deus’’


De olhos fechados

As pequenas e grandes tragédias em Pinhão representam um latifúndio de injustiça e violência, a formar mapa constrangedor da situação agrária no Brasil. O isolamento das famílias na região de difícil acesso encobre relatos que não estão nas estatísticas dos conflitos no campo. Uma história como a de Madalena (nome fictício), por exemplo. Trinta anos, cinco filhos menores, pouca escolaridade forçam-na a fechar os olhos para a violação dos direitos, que vão além da falta de uma escola perto de sua propriedade de 11 alqueires ou de assistência médica.''Quando um filho fica doente, a gente procura fazer um remedinho mesmo assim de casa. Quando apura, a gente paga para alguém levar. Se chove ou se o problema é à noite, a criança perece, né?'', conforma-se. ''Ela ali é minha mãe'', aponta para uma mulher deficiente mental, e surpreende a reportagem ao acrescentar: ''Meu pai, eu não conheço. Minha avó deixou a minha mãe sozinha e aí aconteceu isso'', comenta Madalena sobre o estupro de sua mãe, atualmente com 49 anos, do qual foi o fruto. Um caso que, como tantos outros na região, não mereceu investigação policial.

Violência marcada a fogo

Um dos casos mais trágicos registrados na região é o da pequena Janaína dos Santos Freitas, de 2 anos, que morreu carbonizada durante um incêndio em modesta casa de madeira, na Serra da Cabra. Seu pai, Hildebrando Domingues de Freitas, foi um dos organizadores do movimento dos posseiros de Pinhão na década de 80. ''Eu e minha esposa estávamos trabalhando na roça'', conta, ''e a filha ficou sozinha em casa. Era uma 'distancinha' só, mas, quando vimos, o fogo já tinha tomado conta de tudo e as paredes estavam ardendo. Muitos homens vieram ajudar a socorrer, mas o que eu tinha para socorrer não puderam''.

Seo Hildebrando acredita que o incêndio teve ligação com o conflito pela posse da terra. ''Não havia fogo, querosene, nem fósforo na casa e o vizinho que chegou primeiro contou que não tinha fogo na cozinha, mas o quarto - onde Janaína dormia - já estava inteiro queimado. Não tem fundamento''.

Menos de 45 dias após a morte de Janaína, o inquérito foi arquivado sem que a causa do incêndio tivesse sido apurada.

(F.C.)

Convite para invadir

Envolvimento em atividades ilícitas pode ser um subproduto do latifúndio de miséria, onde vivem alguns posseiros assentados numa área que consideram improdutiva. O nordestino José (nome fictício), 42 anos, diz que resolveu entrar ''na área das posses'' há sete anos, depois de um convite. ''Sempre bastante gente faz convite para entrar nas posses. São posseiros, pessoas sem-terra. Às vezes, descobrem lá uma propriedade, que há muitos anos não paga imposto e o fazendeiro não tem ocupação para aquela terra. Aí o pessoal diz: mas nós estamos precisando de terra, vamos lá, vamos entrar lá, entendeu?''

Com R$ 5 mil, José comprou 3 alqueires, onde mora com a mulher e quatro filhos, mas antes já havia ocupado outra área na região. ''Cheguei aqui para trabalhar, plantando milho, feijão. Plantei também, no primeiro lote, um pouco de pasto, mas já passei a terra para outro porque eu sabia que, na hora de uma medição do Incra, só tiro um lote e não dois. Aí eu fiquei aqui por causa da criança ir pra escola''. Ele conta que conseguiu R$ 2 mil do Pronaf, mas que gastou o dinheiro para pagar os custos com uma doença, que o deixou praticamente cego de um olho. ''O dia em que o banco aparecer aqui, eu chamo pra nós fazermos negociação e, se não aparecer, o que eu vou fazer? A gente sobrevive de fazer carvão, que é contra a lei. O Ibama não quer que a gente trabalhe porque desmata. A gente faz tudo para trabalhar em condições, mas sempre trabalha irregular. Não tem jeito'', destaca José, acrescentando que os posseiros insistem na atividade, com o carvão ou com vasos de xaxim, ''que toda vida foi proibido'', enfrentando o risco de serem surpreendidos pela fiscalização.

Sem título ou esperança

''Eu pelei essa serra tudo'', lembra Olímpio Martins, 68 anos de idade, demarcando em seus 5 alqueires de terra, ocupados há 7 anos, os limites de um sonho que começou com o trabalho na madeireira, derrubando árvores nativas e que, hoje, o deixa isolado. O telefone público mais próximo está a cerca de 20 quilômetros. Luz, só a da vela. No mais, o cheiro de comida preparada no fogão de lenha e as péssimas condições em que vive. Na panela de Martins, o arroz e o feijão, tirados da roça de subsistência dos faxinais, alimentam suas esperanças para a velhice. ''Vivo aqui na fé de Deus. Não fiz nenhum cadastro. Trabalhei nove anos para fazendeiros da região, derrubando mato, mas não ganhei um pedaço de terra desse. Eles não se interessaram nem em me aposentar, me deixando ficar aqui'', ressalta o matuto, nascido e criado na região, legitimando, simplesmente com o trabalho de uma vida toda, a ocupação da área e que, como outros, não possuem título do lote.

Sonhos à luz de velas

Eroni de Araújo Macedo, 51 anos, segue nessa toada, representando ainda a exploração da posse que, sucessivamente, passa de uma mão para outra, sem a emissão do título. ''Há 10 anos estou nesta terra. Aqui foi comprado o direito de um prefeito falecido, que tinha dado o lote para um camarada. Aí o homem veio morar aqui e não acostumou. Daí vendeu para nós o direito. Pagamos R$ 2 mil. O camarada não gostou daqui por causa de ser fraquinha a terra. Eu sei que o prefeito já tinha comprado o lote de outra pessoa'', afirma Eroni.

Morando no alto da serra, em que mais de 1.000 famílias vivem isoladas de serviços básicos de saúde e educação, Eroni toca sozinha sua roça, como fazem muitas outras mulheres da região, enquanto os maridos saem para ganhar R$ 15,00 por dia na indústria madeireira local. A pouca produção sai da roça no lombo de cavalo. Eroni financiou R$ 3 mil, por meio do Pronaf - programa do governo federal de apoio à agricultura familiar -, aplicando o dinheiro na compra de duas novilhas, um boi, uma vaca e arado, e o restante para iniciar a construção da casa de dois cômodos, onde mora com o marido. Seu sonho imediato? ''A gente tem de conseguir terminar nossa casa'', planeja, em meio à escuridão da noite que avança.

Francismar Lemes

Madeireira defende-se de queixas de violência

De acordo com avaliação de Miguel Zattar Filho, neto do patriarca fundador das Indústrias João José Zattar, e atual diretor-presidente do grupo, as queixas de violência e expropriação de terras na região em que atua devem ser avaliadas sob outro ângulo:''É óbvio que, se você pega pessoas de baixa escolaridade no campo, numa situação daquelas, surgem alguns dogmas, nos quais eles passam a acreditar. Eu não estou aqui para julgá-los, mas o fato é que são inverdades''.

Sobre casos específicos, como o da menina Janaína Santos Freitas, de 2 anos, morta em um incêndio, Miguel Zattar Filho é veemente. ''Isso é um absurdo, deste caso eu me lembro. O sujeito deixa a criança em casa sozinha, houve provavelmente um acidente, e como era um momento em que os ânimos estavam acirrados, todo tipo de problema era atribuído à empresa. Você acha possível que a gente vá fazer tudo isso?'', questiona.

De acordo com ele, foram iniciadas negociações de 18 mil hectares, entre a empresa, posseiros e Incra, no começo da década de 90, mas por falta de interesse do governo, não foi concretizada, o que gerou momentos de revolta e frustração entre os posseiros. ''Com isso, começou uma corrida de aventureiros para extrair clandestinamente madeiras nas áreas, e nesse momento implantamos vigilância com porte de armas e uso de helicópteros. Tudo com autorização do exército. Mas não tenho desse período registro de conflito armado ou de vítimas''.

O superintendente do Incra no estado, Celso Lisboa de Lacerda, ao avaliar a negociação iniciada pela madeireira com fins de assentamento, reconhece que o órgão se equivocou quanto à forma de análise da terra naquela época. ''O solo foi considerado inadequado para reforma agrária. Mas, ali, o caso é de regularização de lotes dos faxinais que já vivem na terra e tem condições de desenvolver atividade extrativa e agro-pastoril''. As negociações para adquirir a área foram retomadas recentemente, mas estão empacando na diferença entre o valor de avaliação da terra. ''Eles falam em R$ 12 mil por hectare, mas não existe terra no Paraná que valha mais do que R$ 10 mil. Ainda mais naquela região, com todas as dificuldades, o hectare não chega a R$ 2 mil''.

Atualmente, o Incra está fazendo o levantamento da cadeia dominial das fazendas pertencentes às Indústrias Zattar para verificar a sucessão de proprietários desde os primeiros títulos. De acordo com Celso Lisboa, os estudos feitos até agora indicam que os títulos da madeireira foram adquiridos regularmente. ''Mas pode haver buracos na documentação, e é isso que vamos ver''.

(F.C.)

TERRA ESTREMECIDA - Movimento dos sem-terra tem gênese religiosa
É preciso colocar uma espada nas mãos dos sem-terra, pregava a Teologia de Libertação nos primeiros anos do movimento

A senda que se abriu nos primeiros 20 anos do movimento dos Trabalhadores Sem-Terra no Brasil, foi iluminada pela mística e filosofia da Teologia da Libertação, vivenciada principalmente nas Comunidades de Base (CEBs), entre as quais prevalecia a idéia de que não basta apenas se ajoelhar diante de Deus, mas é preciso colocar uma espada nas mãos dos trabalhadores sem-terra, para que lutem por um pedaço de chão. Essa estratégia orientou as ocupações de propriedades e foi considerada o ''motor'' da democratização da terra. Porém, na avaliação da Comissão Pastoral da Terra (CPT), a instituição Igreja Católica, a partir do pontificado de João Paulo II, abandonou a opção pelos pobres, em especial na América Latina, para navegar na direção de uma fé mais espiritual e menos preocupada com as questões sociais.

O entendimento atual da questão pela Igreja difere da preocupação com a luta social que norteia o pensamento de pessoas como Maria Isabel da Silva, encontrada pela reportagem em Pinhão e que recebeu em casa o presidente Lula. Apesar de representar um vértice diferente dos que lutam pela justiça no campo, como ex-posseira beneficiada pelo usucapião, Maria Isabel reproduz a profissão de fé presente no MST: ''Quando eu ouvia dizer que Jesus é o caminho, a verdade e a vida, e comparava essa idéia aos anos em que estava dentro da Igreja, esperando pela terra, me perguntava: Que caminho é esse, de miséria?''.

O fermento que fez a massa do MST crescer em todo o País começou a ser misturado no caldeirão da reforma agrária no Paraná - o berço do movimento -, com a organização dos sem-terra da barragem de Itaipu e o processo de empobrecimento das comunidades rurais do oeste, sudoeste e centro do estado.

''Nos anos 70 e início dos 80 já existiam alguns movimentos no sul do Brasil, por conta do processo de agravamento do êxodo rural e da efetivação do pacote capitalista, conhecido como Revolução Verde. O MST identificou-se com essa massa, que não conseguia encontrar uma saída. Em 1985, o movimento efetivou-se nacionalmente, sendo que o primeiro encontro nacional foi realizado em Cascavel'', afirma o coordenador estadual da Camissão Pastoral da Terra (CPT), Dionísio Vandresen, ressaltando que, neste retalho histórico, a Igreja Católica, pós-concílio Vaticano II, tinha uma posição radical de luta pelos pobres.

''Observando a história, eu diria que hoje o MST caminha pelas próprias pernas. O que houve, no decorrer do tempo e dos processos históricos, é que a Igreja, que orientou o nascimento do movimento, se distanciou. É uma pena. João Paulo II tomou outra direção, voltando-se para o espiritual. Não digo que ele fugiu da proposta, geradora de alguns movimentos sociais, mas o MST sofreu um prejuízo com isso. Não foi o MST que se distanciou das suas raízes, mas a Igreja.''

Francismar Lemes
Reportagem Local

MST institui aprendizado de ideologia

Fotos: Dorico da Silva

‘‘Nossos professores não passam por concurso, são indicados pela própria comunidade’’, ensina a coordenadora pedagógica Maria Zenilda





A bandeira vermelha do MST está hasteada no coração de Maria Zenilda Pingas, coordenadora pedagógica da escola de Araupel, em Quedas do Iguaçu (165 quilômetros a leste de Cascavel), o maior assentamento da América Latina. Inspirada pela ideologia que sacraliza a terra, a jovem de 25 anos não separa o ''corpo do movimento'', representado pela luta dos camponeses, do ''espírito sem-terra'', configurando assim uma identidade.

''Nós (os sem-terra) estamos modificando a estrutura fundiária. À medida que ocupamos uma fazenda, mexemos nos alicerces da sociedade. Minha tarefa é ir nas favelas e fazendas onde estão trabalhadores, convidando para que entrem na luta. Não é uma forma de tomar o poder, como muitos afirmam. Acreditamos em outra forma de organização da sociedade brasileira. Se chamam isso de socialismo não importa, o importante é que não queremos o capitalismo, cuja marca é gerar pobres'', afirma Maria Pingas que, diariamente, anda 6 quilômetros de sua casa até a escola, onde estudam 383 alunos, também denominados ''sem-terrinha''.

Maria Pingas começou a dar aulas no assentamento Nova Aliança, em Palmital (146 quilômetros a oeste de Guarapuava), onde o pai já era assentado.''Somos seis filhos e eu, como filha mais velha, precisava sair para também acampar'', comenta, revelando um pouco da lógica sem-terra, incluída na cartilha dos sem-terrinha, que absorvem conhecimento produzido a partir da realidade.

Por ter como base a ideologia do MST, as escolas dos sem-terra já foram comparadas às madrassas, escolas islâmicas que pregam o extremismo. Maria Pingas afirma ser impossível uma separação. ''Os livros didáticos são mostrados aos alunos para que vejam como são feitos a partir da classe dominante. Trabalhamos com conceitos de um Brasil que não foi descoberto, mas invadido. Um grande desafio que temos - digo isso enquanto integrante do setor de educação - é sistematizar nosso conhecimento'', afirma a professora, que estuda Pedagogia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A coordenadora explica que o currículo escolar nos acampamentos abrange motivação para que os sem-terrinha queiram viver no campo e não na cidade.

''Desde 1999 estamos na fazenda. É muito tempo na luta, mas temos muitas crianças que não se sentem camponesas e outras, vindas do Paraguai e de favelas de Foz do Iguaçu, que precisam resgatar a auto-estima, para que valorizem a luta dos pais'', explica.

A seguir, um pouco mais sobre a ideologia do MST, de acordo com a professora Maria Pingas:

VISÃO DE MUNDO

Educação

''Nossos professores não passam por concurso, são indicados pela própria comunidade. Os estudantes têm uma visão sobre o mundo, aprendendo a pensar novas estratégias do movimento. Precisamos ter engenheiros, professores, médicos, entre outras profissões. É importante para a luta que saiam do nosso meio. O Incra chegou a contratar um veterinário para nós, porém, não deu certo porque não tinha vínculo com o movimento. Três técnicos que prestavam assistência também foram embora porque não tinham ligação com a gente''.

Tecnologia

''Consideramos a tecnologia importante para alavancar a luta, olhando para o campo de uma maneira diferente do agronegócio. O carro, a energia elétrica, a informática são importantes. Nós, do movimento, reconhecemos isso e acreditamos que podem unificar a luta dos povos do mundo. A Via Campesina utiliza a Internet para articular as lutas, fazendo com que consigamos nos comunicar com mais rapidez. É uma redemocratização do que foi apropriado pelos capitalistas''.

Futuro

''Enquanto assentada - ex-acampada - o primeiro objetivo é a terra. Depois, tem de ser a luta pela reforma agrária de verdade, com educação e saúde. O sonho de todos é ter uma vida digna, com boas estradas, transporte, casa, água, luz, saneamento, universidade, tudo isso. Essas conquistas só são possíveis com a permanência na luta. O que nos diferencia (MST) é que estamos modificando a estrutura fundiária do Brasil''.

Alcoolismo e drogas

''O alcoolismo é bastante presente e as drogas - maconha, cocaína e crack - tentaram se fazer presentes. Me lembro bem quando éramos acampados. Lá não se olha se a pessoa é adventista ou vende drogas. Quando percebemos que veio gente para distribuir drogas, chamamos para conversar e mostrar que isso não leva a nada, é o caminho da destruição da vida. Tentamos conscientizar, mas se a pessoa permanece no erro, é expulsa. Já tivemos de expulsar porque entendemos que pode contaminar o resto das pessoas e passar uma imagem errada para a sociedade.''

(F.L.)

TERRA ESTREMECIDA - Sem soluções efetivas, a luta pela terra continua
Incessante disputa pela terra traça mapa de erosão social

Para muitos pequenos agricultores, endividados e desiludidos com a vida no campo, a decisão de deixar tudo para trás e arriscar a sorte num acampamento de sem-terra, é algo mais do que difícil: é única. O ato de abandonar a casa e se mudar para um local onde centenas - e até milhares - de famílias coabitam um amontoado de barracos de lona, justifica-se, na maioria das vezes, por uma combinação cruel de três motivos: insatisfação absoluta com a realidade; ausência de alternativas viáveis; e expectativa de uma vida melhor.

Nesta reportagem, a Folha mostra o resultado das visitas aos dois tipos de núcleos de sem-terra: acampamentos e assentamentos rurais. Os primeiros caracterizam-se pela ilegalidade, ou seja, o despejo pode ocorrer a qualquer momento; há apenas barracos amontoados; as pequenas lavouras são de risco; e não há energia elétrica, nem crédito para investimento. Já os assentamentos são locais com lotes legalizados e distribuídos; moradias individuais; lavouras permanentes e financiamento oficial.

A evolução de acampamento para assentamento, que pode levar mais de uma década, apresenta tantos percalços que boa parte das pessoas acaba voltando para a casa sem vencer a 'guerra'. Durante a viagem, a Folha constatou, por exemplo, a desintegração de um acampamento de 67 famílias em Tapira, na região noroeste, batizado ironicamente de Vitória. Apesar de permanecer na listagem oficial do Incra, a existência do antigo núcleo - ligado à Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) - já quase não evoca lembranças entre a população do município. Também no noroeste, a Folha encontrou um acampamento do Movimento dos Agricultores Sem Terra (Mast), ainda ativo, mas com condições de vida tão precárias que parece fadado a morrer como crisálida, sem conhecer a fase de borboleta.

Fábio Cavazotti
Reportagem Local

Sob a bandeira do MAST

Desvinculados de qualquer movimento, de acordo com a Comissão Pastoral da Terra, os acampados que vivem em frente à Fazenda Santa Filomena, em Cidade Gaúcha (80 quilômetros a nordeste de Umuarama), e que já estiveram sob a bandeira do Movimento dos Agricultores Sem-Terra (MAST), encontram-se no momento entregues à própria sorte.

Três anos esperando a porteira da fazenda abrir, mediante uma desapropriação, a maioria das 53 famílias, que reivindicam a área, somente volta para o acampamento no fim de semana, na expectativa de garantir o quinhão de terra. Os que ficam no acampamento são obrigados a viver entre cobras, escorpiões e ratos, enfrentando os efeitos do calor dentro das barracas. A única água disponível é a que o gado bebe, proveniente de uma caixa d'água sem tampa.

A representante da coordenação da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em Cidade Gaúcha, Vera Luiza Schwerz Gislon, lembra que, inicialmente, o acampamento foi erguido no município. Porém, o grupo se dividiu, perdendo a bandeira do MAST.

Vera ressalta que a falta de uma ideologia deixa esses grupos independentes vulneráveis: ''A importância de se ligarem a um movimento social mais forte é que conseguem ter força política para encaminhar a questão agrária. Quando surgiu o acampamento era um período de campanha eleitoral, e tinha muito envolvimento de candidatos na ocupação. Uma outra coisa que temos de ver é que toda a mídia coloca o MST como bicho-papão e eles têm medo''.

O superintendente do Incra no Paraná, Celso Lacerda de Lisboa, concorda que a região noroeste é uma das mais ''complicadas'' do estado, em razão da manipulação política da questão agrária. De acordo com ele, a maioria dos acampados é dissidente do MST que recebe incentivos de políticos. ''Isso complica muito porque entram interesses eleitorais. Por exemplo, temos diversos vereadores que sempre querem cestas básicas para distribuir aos acampados. Temos de tomar um cuidado grande com isso''.

(F.L.)

Araupel: uma nova oportunidade para assentados

Os embaraços da história se põem entre as cerca de 1.500 famílias na Fazenda Araupel, em Quedas do Iguaçu (165 quilômetros a leste de Cascavel), o maior assentamento da América Latina. Apesar de ainda não terem nas mãos o título de posse da terra, os camponeses divididos em lotes, já colhem os frutos da reforma agrária.

Uma história que perpassa a Guerra do Contestado, em que os 53 mil hectares da Araupel, antiga Giacometti Marodin, viraram motivo de divergência jurídica, atualmente se reportando quanto à nulidade ou não da titulação dos 25 mil alqueires que estão sendo adquiridos pelo Incra. A controvérsia tem origem na titulação concedida pela União à empresa, para que construísse uma ferrovia. A obra nunca foi iniciada e, no governo Getúlio Vargas, um decreto presidencial cancelou o título.

Sem entender muito o que significam as demandas judiciais, as famílias, como a de Anélio Moraes, 42 anos, tentam tirar o sustento da terra, cultivando em 4 alqueires feijão, arroz, mandioca e milho. ''Em 1999, o pessoal abriu aqui um acampamento com 10 famílias. Sou de Chopinzinho. Aí ouvimos no rádio e viemos para cá no dia 10 de maio, às 3 horas da manhã. Quando amanheceu já estávamos com o barraco montado. A maioria de nós éramos agricultores, mas também havia gente que não tinha vínculo com a terra'', lembra Moraes, que, como outros assentados, está há 10 meses no lote.

Uma colheitadeira comprada de sociedade, geladeira a gás, luz e televisão tocados à bateria de carro, e um automóvel ano 86 são alguns frutos da reforma agrária plantados no quintal da casa de Luciana de Oliveira, 30 anos, que vive com o marido e um filho em 4 alqueires. ''Não pensamos em aumentar a família. Pensamos em trabalhar porque não adianta ganhar a terra se não trabalhar. Porém, a terra não tem ajudado. O que a gente colheu não deu para pagar as dívidas'', afirma a assentada.

A Araupel está na lista dos 10 maiores exportadores de madeira do Brasil, sendo uma das empresas que mais gera emprego em Quedas do Iguaçu. Na avaliação do secretário interino de Agricultura do município, Roberto Nogueira, os sem-terra assentados na região podem contribuir para a economia da cidade, já que realizam compras de insumos e outros produtos. A agricultura representa cerca de 30% dos impostos gerados no município, que ainda conta com royalties de R$ 800 mil mensais de Salto Osório. ''Avalio que, futuramente, a presença dos assentados será boa para o município'', acredita o secretário interino de Agricultura, Roberto Nogueira.

(F.L.)

Copavi, um assentamento que deu certo

O Assentamento Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória (Copavi), em Paranacity (66 quilômetros ao norte de Maringá), é uma demonstração de que a organização dos camponeses pode ir além de justiça social, tornando-se sinônimo de sucesso. É o que constatou a última etapa da viagem da Folha ao conhecer a realidade das 20 famílias do assentamento, que vivem com uma renda bruta mensal de R$ 1.500,00.

Sob a bandeira do MST, os assentados mantêm duas empresas, sendo uma cooperativa agrícola e uma associação, responsável pelo gerenciamento da produção industrial. Uma organização que faz com que os cooperados já pensem em dobrar a produção de derivados de açúcar para 30 toneladas ao mês até 2008. A intenção é aumentar também em 35% a produção de derivados de leite, passando de 550 litros para cerca de 900 litros.

Uma fábrica de lacticínios, uma padaria, a produção de açúcar mascavo e cachaça encabeçam a lista de produtos oferecidos pela cooperativa que exportou, em 2005, 4 mil garrafas de cachaça para a Espanha. Para 2006, os cooperados estão negociando com a Itália e França.

Sublinhando os números, a boa infra-estrutura do assentamento ajuda o visitante a entender o significado da frase ''você está em uma terra libertada'', exibida no refeitório, onde todas as 20 famílias fazem as suas refeições diárias em regime comunitário.

A marcha sob esse ideário faz parte da vida de assentados, como Valmir Stronzake, 31 anos, representante da primeira geração de jovens, que foram criados embaixo de lonas e que assistem a esse novo capítulo da luta pela terra. Desde os 10 anos idade, Stronzake viveu em acampamentos. Perto de completar 18 anos, o rapaz acompanhou os pais na ocupação da Fazenda Santa Maria, de 96 alqueires, propriedade da família londrinense de Michel Sahão.

Dos primeiros anos de ocupação até a legalização do acampamento, em 1994, à regularização do assentamento pelo Incra, 10 famílias já passaram pelo Copavi, número praticamente igual ao das 11 famílias que ocuparam a área inicialmente. ''Há quatro anos, a cooperativa estabilizou, mas já faz 13 anos que estamos aqui. Passamos os primeiros nove anos pedalando'', avalia Stronzake.

Formado em Ciências Contábeis, Stronzake ilustra a reforma agrária que, além da terra, conquista a educação, saúde e cultura. Paralelo à persistência e ao trabalho, a explicação para o sucesso dos cooperados pode estar nesta fórmula, que não foi fácil para todos assimilarem. ''É preciso criar um ambiente de bom relacionamento entre as famílias, atingir um certo grau de eficiência e um trabalho permanente social. Um trabalhador que a vida inteira pensou de uma maneira individual e, então, vem para um lugar onde precisa ouvir opiniões, não é fácil. É um processo de mudança cultural demorado. Vencemos os obstáculos com muita paciência'', afirma.

(F.L.)

Primeiro de Agosto, ‘cidade dos sem-terra’

A primeira sensação que se tem quando a cancela do acampamento 'Primeiro de Agosto' fica para trás é a de que chegamos à ''cidade dos sem-terra''. A localidade reproduz tudo o que se vê nos pequenos aglomerados rurais: ruas 100% de terra; uma praça central, onde estacionamos; uma igreja do Evangelho Quadrangular; um bar; um pequeno silo; e a casa de força. Bandeiras do MST estão por todos os lados e o vermelho predomina na indumentária local.

Estamos na fazenda Cajati, em Cascavel, propriedade de 3.300 hectares, considerada produtiva pelo Incra, e que foi invadida por 1.000 famílias ligadas ao MST em 2000 e 2004. A Justiça já concedeu ordem de reintegração de posse, ainda não cumprida pela polícia.

Assim que estacionamos o veículo na área central, somos recepcionados por um sujeito barbudo, muito sério, que quer saber por que estamos ali. Informa-nos que o líder não está no momento e que ninguém pode nos atender. ''Não tenho informação nenhuma, vocês devem ir embora'', diz. Sem espaço para discussão, nos conduz resolutamente de volta ao carro.

Escapando da marcação do líder do acampamento, no entanto, um rapaz que se identificou apenas por Fernandes disse que integra o MST há quatro anos e que já foi despejado de uma outra ocupação no norte do estado.''Fiquei um ano e pouco acampado lá na região de Ivaiporã'', conta. Aos 34 anos, Fernandes abriga em sua barraca a mulher e um filho de oito anos. Enquanto conversamos com o acampado, sem chamar a atenção do líder, observamos a quantidade de lixo a céu aberto, próximo às barracas, demostrando a situação precária a que as famílias estão submetidas num acampamento.

Deixamos o local e seguimos para o segundo acampamento do MST na mesma fazenda (Dorcelina Folador), localizado a mais de 10 km de distância. Desta vez, somos barrados logo na porteira por dois acampados que exercem o cargo de vigias. Ambos informam que o líder não está, e que ninguém pode conceder entrevista. Porém, pequenos agricultores que não sabem fugir das origens, seguem 'proseando' com os repórteres sobre o dia-a-dia do acampamento. Aos poucos, o mais velho informa que seu único objetivo é a conquista de um pedaço de terra. ''Estou aqui há sete anos com a esposa e uma neta. Trabalhei na roça a vida toda, é a única coisa que sei fazer. Só que onde morava - Rio Bonito -tinha de arrendar a terra. Chegou uma hora em que não consegui vencer e vim para cá''.

Sobre os temas políticos, caros ao movimentos, o agricultor atribue pouquíssima importância em comparação com a luta por uma pequena propriedade. ''Reforma agrária para mim é ganhar o pedaço de terra que a gente tanto precisa. Falar em revolução, capitalismo, não resolve nada para a gente. Estou aqui para melhorar a sobrevivência mesmo''.

A abertura dos agricultores que conversam com a Folha é fechada em menos de 15 minutos por um integrante do acampamento que vem até a porteira verificar o que está acontecendo e encerrar a conversa.

(F.C. e F.L.)