FOLHA DE LONDRINA, 07
de maio de 2006 | ESPECIAL MST
TERRA ESTREMECIDA
Invasões, acampamentos e assentamentos
em condições precárias formam as fissuras deixadas
no sítio paranaense por movimentos que começaram a
se organizar, impulsionados pela ideologia, religião e esperança
de uma vida melhor.
A reportagem da Folha fez uma viagem
de 1.800 km pelo Estado do Paraná para conhecer de perto
o perfil dos acampados/assentados que se encontram na base do movimento
dos sem-terra. O que se observou, inicialmente, é que há
muito agricultores nos grupos em luta pela terra: mais do que pode
parecer àqueles que comungam a idéia de que o MST
e outros movimentos estão 'levando para o campo gente arregimentada
na cidade, que nada entende de agricultura'.
A maior parte dessa massa de trabalhadores,
por sua vez, ingressa no acampamento pelo sonho de conquistar um
pedaço de terra e não se identifica com o ideário
revolucionário esposado pelos líderes conhecidos.
Contudo, já existe uma geração de jovens criados
em acampamentos/assentamentos, que estão muito mais dispostos
a aceitar as teses políticas do MST do que seus pais e avós.
É uma geração que luta pelo poder.
Em linhas gerais, o que foi observado
ao longo da reportagem aponta para um alerta: enquanto o governo
não oferecer uma solução técnica para
assentar os verdadeiros trabalhadores, estará fornecendo
lenha à fogueira das invasões alimentadas pelo MST
e outros movimentos políticos.
Números que impressionam
Se o mapa do Paraná recebesse
uma marcação em cada local de assentamento rural,
ao final surgiriam pequenas manchas - principalmente nas regiões
central, sudoeste, norte e noroeste - a indicar os 272 núcleos
de reforma agrária legalmente constituídos. Se, em
cima disso, fossem anotadas as 126 invsões de sem-terra consideradas
pelo Incra, um novo mapa do Paraná poderia ser definido,
com 398 aglomerações - apenas uma a menos do que o
total de municípios. Nestes locais, já moram 120 mil
pessoas, o equivalente à população de Apucarana.
Mas esse conjunto de sem-terra pode
ser ainda maior: o Incra estima que existam 40 mil famílias
fora dos núcleos organizados, o que representa outras 160
mil pessoas com grandes chances de entrar para algum movimento.
Com isso, o universo de pessoas dependentes de reforma agrária
chegaria a 280 mil no Paraná e 3 milhões em todo o
Brasil. É número suficiente para desanimar aqueles
que pretendem isolar o debate, e mais do que o bastante para acrescentar
um enfoque técnico àquele já conhecido e definido
como ideológico e incendiário.
História e poder
No Paraná, é quase
consenso entre estudiosos a existência de um histórico
de irregularidades na distribuição da terra. O superintendente
estadual do Incra, Celso Lacerda de Lisboa, cita uma extensa área
nas regiões oeste e sudoeste, abrangendo quase uma centena
de municípios, que tem a maior parte das propriedades com
títulos irregulares. ''Os problemas são diversos:
desde concessão, em meados do século passado, de fazendas
inseridas na faixa de 150 km da fronteira com Argentina e Paraguai,
que não poderia ser feita pelo governo, até fraude
de documentos para justificar centenas de doações
individuais para uma mesma pessoa''.
Na região centro-sul, outro
conflito, que também precede em muitas décadas a formação
do MST e outros movimentos populares, se dá a partir da titularização
de terras para empresas madeireiras onde viviam pequenas comunidades
rústicas havia dois séculos.
Desapropriações
têm alto custo
A tentativa do Incra para resolver
essa diversidade de problemas esbarra na falta de pessoal, infra-estrutura
e orçamento. Atualmente, o órgão está
negociando a aquisição de 54 fazendas no estado -
num total de 58 mil hectares -, por aproximadamente R$ 350 milhões.
Mas o próprio superintende regional reconhece que a área
em vista é suficiente para assentar apenas 4.800 famílias
- metade das que estão acampadas - e que, em razão
do custo, o projeto não será finalizado este ano.
Para resolver o problema, seria necessária a aquisição
de 124 mil hectares a curto prazo.
''Atualmente, é muito difícil
obter novas terras porque as propriedades com títulos irregulares
demandam longas batalhas judiciais. Além disso, o índice
para comprovar que determinada propriedade não é produtiva,
para fins de desapropriação, é de 1965 e está
muito defasado. Mesmo áreas quase paradas ainda são
consideradas produtivas'', afirma Lacerda de Lisboa. ''Na falta
de alternativas, estamos comprando fazendas, mas aí a discussão
passa para o valor comercial da terra''.
Outra evidência é a
existência de fazendeiros dispostos a negociar suas terras
e o Incra sem recursos para comprá-las. Há terras,
há gente para cultivá-las, mas o governo está
impossibilitado de avançar neste sentido. Ou simplesmente
falta interesse neste momento.
Ao alto custo das desapropriações,
devem ser acrescidos os insumos concedidos aos assentados: R$ 2.400
para crédito de fomento; R$ 5 mil para habitação;
e R$ 18 mil para plantio (via Pronaf). Somente para as 10 mil famílias
de acampados no Paraná (seriam 13 mil, segundo o MST), a
conta fecha em R$ 250 milhões, mas o orçamento geral
do Incra no Paraná, em 2006, é de R$ 85 milhõs
- para créditos agrícolas e aquisição
de terras. Desde o início do governo Lula foram assentadas
5 mil famílias no Paraná, com previsão de chegar
a 7 mil até o fim do ano. Muito pouco perto da demanda.
O que todos estes números
significam de fato para os acampados, assentados e o meio rural
brasileiro são o assunto principal desta reportagem especial.
São inúmeras tragédias, e também histórias
de esperança e superação.
Fábio Cavazotti
O MST é
um movimento providencial’
Donizete
Oliveira
‘‘O que se faz na reforma agrária, se faz na
marra’’, avalia Dom Pedro Casaldáliga, desapontado
com o Governo Lula
Em São Félix do Araguaia (MT), todos o conhecem. Afinal,
dom Pedro Maria Casaldáliga Plá está lá
desde 1968, quando foi sagrado bispo e iniciou sua luta em prol
dos mais fracos. Numa casa simples, sem muros ou portas e com as
paredes cheias de pequenas lembranças, dom Pedro recebe constantes
visitas de índios, peões e jornalistas de várias
partes do Brasil e do mundo. Aos 78 anos, com a saúde debilitada,
foi afastado do comando da Prelazia que engloba 15 municípios,
mas permanece lúcido e entusiasta, como mostra a entrevista
a seguir.
FL: Como foi sua experiência
de reforma agrária em São Félix?
Dom Pedro: Quando
chegamos aqui, em 1968, começamos a chamado de fiscais. Então,
percebemos que estávamos numa fogueira. O que acontecia nesta
região de Barras do Garças até o Pará,
estendia-se para toda a Amazônia legal. Quando fui sagrado
bispo, em 23 de outubro de 1971, enterrei um peão sem nome
e família. A questão da terra atingia os índios,
os posseiros e os peões. Era um regime de escravidão
numa terra de ninguém, onde impera a lei do mais forte. Na
época, escrevi uma carta ao arcebispo de Goiânia, dom
Fernando Gomes dos Santos, pedindo que a Igreja encontrasse uma
saída para aquela situação.
Essa iniciativa foi uma das sementes
que ajudaram a criar a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e
o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), no começo
da década de 70. Intensificamos uma luta contra um drama
histórico. Afinal, o Brasil tem cinco séculos de latifúndio.
Na época, além de enfrentarmos a resistência
dos fazendeiros, fomos perseguidos pela ditadura militar. Respondi
a vários inquéritos e fui tachado de comunista.
FL: Houve algum avanço
desde então?
Dom Pedro: Em alguns
aspectos, avançamos. Em primeiro lugar a consciência.
Hoje, as pessoas sabem que a problemática do campo afeta
a cidade. Também aumentou a consciência sobre a perversidade
estrutural. Acumulação e exclusão, por um lado.
Por outro, a monocultura, que é antinatural. A natureza é
pluricultural.
FL: Como está o papel
da Igreja frente à reforma agrária, com o arrefecimento
da Teologia da Libertação?
Dom Pedro: O papel
da Igreja Católica frente à questão da terra
deve ser profético. De estímulo, mediação.
Hoje, há grupos autônomos fortes. O MST, por exemplo,
em parte, surgiu da própria CPT. O João Pedro Stédile,
coordenador nacional do movimento, reconhece isso com frequência.
Portanto, a luta da Igreja está presente.
FL: Algumas pessoas da região
de São Félix dizem que a Prelazia é radical
e contra o progresso na questão da terra. Como o senhor vê
essa crítica?
Dom Pedro: É
preciso deixar claro de que lado se está. Já me chamaram
de tudo, comunista, terrorista. Os militares diziam que eu estava
envolvido na guerrilha do Araguaia, em 1972, quando houve embate
contra o Exército. Advertiam a quem chegava: cuidado com
a Prelazia, cuidado com o bispo. Agora, claro que sou contra abrir
uma estrada na Ilha do Bananal, como querem alguns, porque lá
é território indígena.
FL: E a reforma agrária
no Governo Lula?
Dom Pedro: Infelizmente,
não houve grandes avanços. Reforma agrária
e causa indígena estão bastante paralisadas. A bancada
ruralista tem um poder imenso. Lula repete os gestos de bombeiros
que ocorriam no Governo de Fernando Henrique Cardoso. O atual governo
atende certas emergências para evitar conflitos. Mas reforma
agrária de verdade, com distribuição de terras
e reforma agrícola, não tem ocorrido. O que se faz
na reforma agrária, se faz na marra. O MST faz reforma agrária...
FL: Como o senhor vê
ações do MST, consideradas violentas, como a destruição
de uma plantação de eucalipto da empresa Aracruz no
último dia 8 de março no Rio Grande do Sul?
Dom Pedro: O MST
é um golpe bom e necessário à propriedade privada
acumuladora. Essa irresponsabilidade consciente ou inconsciente
tem sido respaldada até por setores da Igreja. Dizem que
é a sagrada propriedade privada. Esquecem de que a grande
propriedade privada acumuladora não é um direito absoluto.
É um direito relativo. Não é possível
aceitar que uma pessoa ou uma empresa tenha 200, 300 mil hectares
de terra. Todo latifúndio é iníquo. Inclusive,
o produtivo. Porque acumula e exclui. Além de ''ecocida''
porque destrói a natureza. O MST é um movimento providencial.
Se não existisse, deveria ser criado. Pode ter tido alguns
excessos, mas destruir uma produção transgênica
é necessário. O capital só responde quando
é atingido como capital.
Donizete Oliveira é estudioso
da questão agrária e esteve, em abril, com Dom Pedro
Casaldáliga, visando traçar amplo perfil deste personagem
fundamental na história dos movimentos sociais no Brasil.
Donizete Oliveira
Especial para a Folha
Fim
da violência ainda está longe
Faltam recursos para dotar os assentamentos
das condições mínimas
A melhor explicação que o ministro do Desenvolvimento
Agrário (MDA), Guilherme Cassel, tem para a crescente violência
no campo brasileiro é que nunca foram executados tantos projetos
de reforma agrária como nos três primeiros anos do
governo Lula - e cita 262 mil famílias num universo de aproximadamente
700 mil famílias assentadas até hoje. O número
exato de famílias assentadas é fonte de discussão
no próprio governo federal: 784 mil para o MDA; e 663 mil
para o Incra. Os números oficiais apontam ainda a existência
de 100 mil famílias acampadas.
Segundo o ministro, que falou por
telefone com a Folha, a meta de assentar 400 mil famílias
até o fim do ano ''está mantida e vai ser cumprida''.
O Movimento de Sem Terra (MST) -
que diz representar uma base de 350 mil famílias assentadas
em todo o país - reconhece a ascensão do programa
de reforma agrária, mas alega que os assentamentos chegaram
a, no máximo, 170 mil famílias - e outras 170 mil
estariam em acampamentos irregulares.
As declarações do MDA
e MST convergem, porém, para uma insólita coincidência
quando o assunto é a falta de informações precisas
sobre a produtividade dos assentamentos. Indagações
sobre a produção dos assentamentos e a renda média
familiar simplesmente não podem ser respondidas em razão
do limbo estatístico que envolve o assunto.
A desculpa que não convence:''O
Brasil precisa urgentemente de um censo agropecuário, o último
tem mais de 10 anos. Tínhamos planejado para fazer esse ano,
mas não houve dinheiro'', disse o ministro. Representantes
do MST e até de universidades desconsideram a importância
destes levantamentos, alegando que, acima da produtividade, está
a possibilidade de subsistência das próprias famílias.
Os dados mais detalhados sobre os assentamentos mostram, porém,
condições bastante precárias.''No início
do governo, 70% dos assentamentos não tinham água,
mais da metade não tinha energia, quase 70% não tinham
estrada, e apenas 10% eram atendidas por assistência técnica.
Estamos investindo pesado para reverter isso'', afirma o ministro.
Apesar de todos os desafios e, na
contramão das visões mais pessimistas sobre reforma
agrária, o ministro Guilherme Cassel acredita que ''se o
atual ritmo de assentamento se mantiver, em três a cinco anos
passaremos a trabalhar com menos violência, visando a qualificação
técnica das famílias''.''O que fizemos até
agora talvez ainda não tenha um impacto maior porque são
dois séculos de demanda por terra. Mas tenho convicção
de que vamos reduzir em muito os conflitos no campo''. Especificamente
sobre o Paraná, o ministro disse que a prioridade é
aumentar a produtividade dos assentamentos: ''Aí, nosso maior
desafio é fazer as coisas funcionarem bem, como na fazenda
Araupel, para justificar os investimentos''.(F.C.)
TERRA
ESTREMECIDA - Os conflitos agrários de Pinhão
Da Guerra do Contestado aos faxinais - posseiros da área
desde a década de 40 -, os conflitos agrários em Pinhão
resistem
A história da ocupação
da terra no Paraná encontra, nas regiões sudoeste
e oeste, um de seus capítulos mais conturbados. Desde a Guerra
do Contestado, que opôs Paraná a Santa Catarina numa
disputa pela demarcação de fronteira, no início
do século XX, o conflito entre posseiros e empresas particulares
tem sido constante na vida rural de dezenas de municípios
da região.
Os primórdios do conflito
podem ser encontrados na concessão de uma extensa faixa de
terra, com 30 km de largura, feita pelo governo federal à
empresa norte-americana São Paulo Railway. O objetivo - nunca
concretizado - era construir uma estrada de ferro entre Rio Grande
do Sul e São Paulo, para escoar a crescente produção
de erva-mate e café. A ocupação da área
pela empresa ocorreu em detrimento de famílias de pequenos
agricultores, que já habitavam aquelas sesmarias desde o
Brasil imperial. A expulsão das famílias deu início
a um processo de convulsão fundiária, que ainda persiste.
O município de Pinhão,
no sudoeste, é um dos epicentros desse conflito. Desde a
chegada da madeireira Indústrias João José
Zattar, na segunda metade da década de 40, começaram
a surgir relatos de brigas e mortes pelo uso da terra entre as quase
2 mil famílias de posseiros que viviam em comunidades tradicionais,
conhecidas como faxinais. ''Os posseiros de Pinhão são
povo de origem cabocla, mistura de indígenas e portugueses,
que nunca se preocupou com documentos ou divisas porque vivia de
forma coletiva'', explica Hamilton José da Silva, conhecido
como 'Tula', presidente do movimento de posseiros local.
No auge da produção,
a madeireira chegou a ocupar 80 mil hectares na região centro-sul
do estado. Para as famílias de faxinais, instalou-se uma
luta desigual pela titularidade das terras. De acordo com o líder
dos posseiros, os primeiros sinais de mudança nessa história
ocorreram em 1987, quando passaram a se organizar e fundaram a Associação
das Famílias Tradicionais Rurais (Afatrup) e o Movimento
dos Posseiros de Pinhão. ''A partir daí, o problema
chegou ao governo, à imprensa e à população
em geral. Após muita pressão, o Incra, que antes ficava
do lado da empresa, fez o primeiro assentamento''. Porém,
até hoje, das 1.000 famílias de faxinais de Pinhão,
Tula conta que apenas 88 obtiveram a regularização
da terra.
Na década de 90, ainda segundo
Tula, a madeireira mudou de tática e começou a solicitar
a expulsão dos posseiros por via judicial. ''Eles executam
os contratos, assinados após o prazo inicial de arrendamento,
e os posseiros têm de sair. O tempo de vigência é
inferior ao usucapião e a justiça não tem reconhecido
nosso direito à terra como comunidade tradicional''. O movimento
dos posseiros diz que 550 famílias já saíram
das casas ou estão sob risco iminente de despejo. A empresa
fala em aproximadamente 300 processos, entre pedidos de reintegração
de posse e ações por direito de usucapião,
por parte de algumas famílias de posseiros. Em apenas um
caso a madeireira admite ter perdido a titularidade da terra por
direito de uso dos faxinalenses.
Outro entrave jurídico, que
pesa contra a permanência dos posseiros, é a legislação
aprovada em 1999, no governo FHC, que proíbe a desapropriação
de terras invadidas para fins de reforma agrária. A medida,
que tinha o objetivo de coibir a invasão de terras, atingiu
em cheio o grupo de posseiros.
Nos últimos anos, os despejos
e a violência física foram reduzidos drasticamente,
em razão do não cumprimento das ordens judiciais pelo
governo estadual, mas o conflito fundiário ainda representa
uma das principais causas de queixas que chegam à Delegacia
da Polícia Civil de Pinhão.
Fábio Cavazotti
Reportagem Local
Pequenas
e grandes tragédias
Um campo de batalha, em que os faxinais
lutam contra a dura realidade, substitui o campo de cultivo sonhado
Fotos: Dorico da Silva
Tristeza e revolta pela perda da filha de 2 anos em incêndio,
sem causa apurada, marcam a vida do casal Freitas

Lidando na roça ou no fogão à lenha, Olímpio
Martins filosofa com a reportagem: ‘‘Vivo aqui na fé
de Deus’’
De olhos fechados
As pequenas e grandes tragédias
em Pinhão representam um latifúndio de injustiça
e violência, a formar mapa constrangedor da situação
agrária no Brasil. O isolamento das famílias na região
de difícil acesso encobre relatos que não estão
nas estatísticas dos conflitos no campo. Uma história
como a de Madalena (nome fictício), por exemplo. Trinta anos,
cinco filhos menores, pouca escolaridade forçam-na a fechar
os olhos para a violação dos direitos, que vão
além da falta de uma escola perto de sua propriedade de 11
alqueires ou de assistência médica.''Quando um filho
fica doente, a gente procura fazer um remedinho mesmo assim de casa.
Quando apura, a gente paga para alguém levar. Se chove ou
se o problema é à noite, a criança perece,
né?'', conforma-se. ''Ela ali é minha mãe'',
aponta para uma mulher deficiente mental, e surpreende a reportagem
ao acrescentar: ''Meu pai, eu não conheço. Minha avó
deixou a minha mãe sozinha e aí aconteceu isso'',
comenta Madalena sobre o estupro de sua mãe, atualmente com
49 anos, do qual foi o fruto. Um caso que, como tantos outros na
região, não mereceu investigação policial.
Violência marcada a fogo
Um dos casos mais trágicos
registrados na região é o da pequena Janaína
dos Santos Freitas, de 2 anos, que morreu carbonizada durante um
incêndio em modesta casa de madeira, na Serra da Cabra. Seu
pai, Hildebrando Domingues de Freitas, foi um dos organizadores
do movimento dos posseiros de Pinhão na década de
80. ''Eu e minha esposa estávamos trabalhando na roça'',
conta, ''e a filha ficou sozinha em casa. Era uma 'distancinha'
só, mas, quando vimos, o fogo já tinha tomado conta
de tudo e as paredes estavam ardendo. Muitos homens vieram ajudar
a socorrer, mas o que eu tinha para socorrer não puderam''.
Seo Hildebrando acredita que o incêndio
teve ligação com o conflito pela posse da terra. ''Não
havia fogo, querosene, nem fósforo na casa e o vizinho que
chegou primeiro contou que não tinha fogo na cozinha, mas
o quarto - onde Janaína dormia - já estava inteiro
queimado. Não tem fundamento''.
Menos de 45 dias após a morte
de Janaína, o inquérito foi arquivado sem que a causa
do incêndio tivesse sido apurada.
(F.C.)
Convite para
invadir
Envolvimento em atividades ilícitas pode ser um subproduto
do latifúndio de miséria, onde vivem alguns posseiros
assentados numa área que consideram improdutiva. O nordestino
José (nome fictício), 42 anos, diz que resolveu entrar
''na área das posses'' há sete anos, depois de um
convite. ''Sempre bastante gente faz convite para entrar nas posses.
São posseiros, pessoas sem-terra. Às vezes, descobrem
lá uma propriedade, que há muitos anos não
paga imposto e o fazendeiro não tem ocupação
para aquela terra. Aí o pessoal diz: mas nós estamos
precisando de terra, vamos lá, vamos entrar lá, entendeu?''
Com R$ 5 mil, José comprou
3 alqueires, onde mora com a mulher e quatro filhos, mas antes já
havia ocupado outra área na região. ''Cheguei aqui
para trabalhar, plantando milho, feijão. Plantei também,
no primeiro lote, um pouco de pasto, mas já passei a terra
para outro porque eu sabia que, na hora de uma medição
do Incra, só tiro um lote e não dois. Aí eu
fiquei aqui por causa da criança ir pra escola''. Ele conta
que conseguiu R$ 2 mil do Pronaf, mas que gastou o dinheiro para
pagar os custos com uma doença, que o deixou praticamente
cego de um olho. ''O dia em que o banco aparecer aqui, eu chamo
pra nós fazermos negociação e, se não
aparecer, o que eu vou fazer? A gente sobrevive de fazer carvão,
que é contra a lei. O Ibama não quer que a gente trabalhe
porque desmata. A gente faz tudo para trabalhar em condições,
mas sempre trabalha irregular. Não tem jeito'', destaca José,
acrescentando que os posseiros insistem na atividade, com o carvão
ou com vasos de xaxim, ''que toda vida foi proibido'', enfrentando
o risco de serem surpreendidos pela fiscalização.
Sem título ou esperança
''Eu pelei essa serra tudo'', lembra
Olímpio Martins, 68 anos de idade, demarcando em seus 5 alqueires
de terra, ocupados há 7 anos, os limites de um sonho que
começou com o trabalho na madeireira, derrubando árvores
nativas e que, hoje, o deixa isolado. O telefone público
mais próximo está a cerca de 20 quilômetros.
Luz, só a da vela. No mais, o cheiro de comida preparada
no fogão de lenha e as péssimas condições
em que vive. Na panela de Martins, o arroz e o feijão, tirados
da roça de subsistência dos faxinais, alimentam suas
esperanças para a velhice. ''Vivo aqui na fé de Deus.
Não fiz nenhum cadastro. Trabalhei nove anos para fazendeiros
da região, derrubando mato, mas não ganhei um pedaço
de terra desse. Eles não se interessaram nem em me aposentar,
me deixando ficar aqui'', ressalta o matuto, nascido e criado na
região, legitimando, simplesmente com o trabalho de uma vida
toda, a ocupação da área e que, como outros,
não possuem título do lote.
Sonhos à luz de velas
Eroni de Araújo Macedo, 51
anos, segue nessa toada, representando ainda a exploração
da posse que, sucessivamente, passa de uma mão para outra,
sem a emissão do título. ''Há 10 anos estou
nesta terra. Aqui foi comprado o direito de um prefeito falecido,
que tinha dado o lote para um camarada. Aí o homem veio morar
aqui e não acostumou. Daí vendeu para nós o
direito. Pagamos R$ 2 mil. O camarada não gostou daqui por
causa de ser fraquinha a terra. Eu sei que o prefeito já
tinha comprado o lote de outra pessoa'', afirma Eroni.
Morando no alto da serra, em que
mais de 1.000 famílias vivem isoladas de serviços
básicos de saúde e educação, Eroni toca
sozinha sua roça, como fazem muitas outras mulheres da região,
enquanto os maridos saem para ganhar R$ 15,00 por dia na indústria
madeireira local. A pouca produção sai da roça
no lombo de cavalo. Eroni financiou R$ 3 mil, por meio do Pronaf
- programa do governo federal de apoio à agricultura familiar
-, aplicando o dinheiro na compra de duas novilhas, um boi, uma
vaca e arado, e o restante para iniciar a construção
da casa de dois cômodos, onde mora com o marido. Seu sonho
imediato? ''A gente tem de conseguir terminar nossa casa'', planeja,
em meio à escuridão da noite que avança.
Francismar Lemes
Madeireira
defende-se de queixas de violência
De acordo com avaliação de Miguel Zattar Filho, neto
do patriarca fundador das Indústrias João José
Zattar, e atual diretor-presidente do grupo, as queixas de violência
e expropriação de terras na região em que atua
devem ser avaliadas sob outro ângulo:''É óbvio
que, se você pega pessoas de baixa escolaridade no campo,
numa situação daquelas, surgem alguns dogmas, nos
quais eles passam a acreditar. Eu não estou aqui para julgá-los,
mas o fato é que são inverdades''.
Sobre casos específicos, como
o da menina Janaína Santos Freitas, de 2 anos, morta em um
incêndio, Miguel Zattar Filho é veemente. ''Isso é
um absurdo, deste caso eu me lembro. O sujeito deixa a criança
em casa sozinha, houve provavelmente um acidente, e como era um
momento em que os ânimos estavam acirrados, todo tipo de problema
era atribuído à empresa. Você acha possível
que a gente vá fazer tudo isso?'', questiona.
De acordo com ele, foram iniciadas
negociações de 18 mil hectares, entre a empresa, posseiros
e Incra, no começo da década de 90, mas por falta
de interesse do governo, não foi concretizada, o que gerou
momentos de revolta e frustração entre os posseiros.
''Com isso, começou uma corrida de aventureiros para extrair
clandestinamente madeiras nas áreas, e nesse momento implantamos
vigilância com porte de armas e uso de helicópteros.
Tudo com autorização do exército. Mas não
tenho desse período registro de conflito armado ou de vítimas''.
O superintendente do Incra no estado,
Celso Lisboa de Lacerda, ao avaliar a negociação iniciada
pela madeireira com fins de assentamento, reconhece que o órgão
se equivocou quanto à forma de análise da terra naquela
época. ''O solo foi considerado inadequado para reforma agrária.
Mas, ali, o caso é de regularização de lotes
dos faxinais que já vivem na terra e tem condições
de desenvolver atividade extrativa e agro-pastoril''. As negociações
para adquirir a área foram retomadas recentemente, mas estão
empacando na diferença entre o valor de avaliação
da terra. ''Eles falam em R$ 12 mil por hectare, mas não
existe terra no Paraná que valha mais do que R$ 10 mil. Ainda
mais naquela região, com todas as dificuldades, o hectare
não chega a R$ 2 mil''.
Atualmente, o Incra está fazendo
o levantamento da cadeia dominial das fazendas pertencentes às
Indústrias Zattar para verificar a sucessão de proprietários
desde os primeiros títulos. De acordo com Celso Lisboa, os
estudos feitos até agora indicam que os títulos da
madeireira foram adquiridos regularmente. ''Mas pode haver buracos
na documentação, e é isso que vamos ver''.
(F.C.)
TERRA
ESTREMECIDA - Movimento dos sem-terra tem gênese religiosa
É preciso colocar uma espada nas
mãos dos sem-terra, pregava a Teologia de Libertação
nos primeiros anos do movimento
A senda que se abriu nos primeiros 20 anos do movimento dos Trabalhadores
Sem-Terra no Brasil, foi iluminada pela mística e filosofia
da Teologia da Libertação, vivenciada principalmente
nas Comunidades de Base (CEBs), entre as quais prevalecia a idéia
de que não basta apenas se ajoelhar diante de Deus, mas é
preciso colocar uma espada nas mãos dos trabalhadores sem-terra,
para que lutem por um pedaço de chão. Essa estratégia
orientou as ocupações de propriedades e foi considerada
o ''motor'' da democratização da terra. Porém,
na avaliação da Comissão Pastoral da Terra
(CPT), a instituição Igreja Católica, a partir
do pontificado de João Paulo II, abandonou a opção
pelos pobres, em especial na América Latina, para navegar
na direção de uma fé mais espiritual e menos
preocupada com as questões sociais.
O entendimento atual da questão
pela Igreja difere da preocupação com a luta social
que norteia o pensamento de pessoas como Maria Isabel da Silva,
encontrada pela reportagem em Pinhão e que recebeu em casa
o presidente Lula. Apesar de representar um vértice diferente
dos que lutam pela justiça no campo, como ex-posseira beneficiada
pelo usucapião, Maria Isabel reproduz a profissão
de fé presente no MST: ''Quando eu ouvia dizer que Jesus
é o caminho, a verdade e a vida, e comparava essa idéia
aos anos em que estava dentro da Igreja, esperando pela terra, me
perguntava: Que caminho é esse, de miséria?''.
O fermento que fez a massa do MST
crescer em todo o País começou a ser misturado no
caldeirão da reforma agrária no Paraná - o
berço do movimento -, com a organização dos
sem-terra da barragem de Itaipu e o processo de empobrecimento das
comunidades rurais do oeste, sudoeste e centro do estado.
''Nos anos 70 e início dos
80 já existiam alguns movimentos no sul do Brasil, por conta
do processo de agravamento do êxodo rural e da efetivação
do pacote capitalista, conhecido como Revolução Verde.
O MST identificou-se com essa massa, que não conseguia encontrar
uma saída. Em 1985, o movimento efetivou-se nacionalmente,
sendo que o primeiro encontro nacional foi realizado em Cascavel'',
afirma o coordenador estadual da Camissão Pastoral da Terra
(CPT), Dionísio Vandresen, ressaltando que, neste retalho
histórico, a Igreja Católica, pós-concílio
Vaticano II, tinha uma posição radical de luta pelos
pobres.
''Observando a história, eu
diria que hoje o MST caminha pelas próprias pernas. O que
houve, no decorrer do tempo e dos processos históricos, é
que a Igreja, que orientou o nascimento do movimento, se distanciou.
É uma pena. João Paulo II tomou outra direção,
voltando-se para o espiritual. Não digo que ele fugiu da
proposta, geradora de alguns movimentos sociais, mas o MST sofreu
um prejuízo com isso. Não foi o MST que se distanciou
das suas raízes, mas a Igreja.''
Francismar Lemes
Reportagem Local
MST institui aprendizado
de ideologia
Fotos: Dorico da Silva
‘‘Nossos professores não passam por concurso,
são indicados pela própria comunidade’’,
ensina a coordenadora pedagógica Maria Zenilda
A bandeira vermelha do MST está hasteada
no coração de Maria Zenilda Pingas, coordenadora pedagógica
da escola de Araupel, em Quedas do Iguaçu (165 quilômetros
a leste de Cascavel), o maior assentamento da América Latina.
Inspirada pela ideologia que sacraliza a terra, a jovem de 25 anos
não separa o ''corpo do movimento'', representado pela luta
dos camponeses, do ''espírito sem-terra'', configurando assim
uma identidade.
''Nós (os sem-terra) estamos
modificando a estrutura fundiária. À medida que ocupamos
uma fazenda, mexemos nos alicerces da sociedade. Minha tarefa é
ir nas favelas e fazendas onde estão trabalhadores, convidando
para que entrem na luta. Não é uma forma de tomar
o poder, como muitos afirmam. Acreditamos em outra forma de organização
da sociedade brasileira. Se chamam isso de socialismo não
importa, o importante é que não queremos o capitalismo,
cuja marca é gerar pobres'', afirma Maria Pingas que, diariamente,
anda 6 quilômetros de sua casa até a escola, onde estudam
383 alunos, também denominados ''sem-terrinha''.
Maria Pingas começou a dar
aulas no assentamento Nova Aliança, em Palmital (146 quilômetros
a oeste de Guarapuava), onde o pai já era assentado.''Somos
seis filhos e eu, como filha mais velha, precisava sair para também
acampar'', comenta, revelando um pouco da lógica sem-terra,
incluída na cartilha dos sem-terrinha, que absorvem conhecimento
produzido a partir da realidade.
Por ter como base a ideologia do
MST, as escolas dos sem-terra já foram comparadas às
madrassas, escolas islâmicas que pregam o extremismo. Maria
Pingas afirma ser impossível uma separação.
''Os livros didáticos são mostrados aos alunos para
que vejam como são feitos a partir da classe dominante. Trabalhamos
com conceitos de um Brasil que não foi descoberto, mas invadido.
Um grande desafio que temos - digo isso enquanto integrante do setor
de educação - é sistematizar nosso conhecimento'',
afirma a professora, que estuda Pedagogia na Universidade Federal
do Rio Grande do Sul.
A coordenadora explica que o currículo
escolar nos acampamentos abrange motivação para que
os sem-terrinha queiram viver no campo e não na cidade.
''Desde 1999 estamos na fazenda.
É muito tempo na luta, mas temos muitas crianças que
não se sentem camponesas e outras, vindas do Paraguai e de
favelas de Foz do Iguaçu, que precisam resgatar a auto-estima,
para que valorizem a luta dos pais'', explica.
A seguir, um pouco mais sobre a ideologia
do MST, de acordo com a professora Maria Pingas:
VISÃO DE MUNDO
Educação
''Nossos professores não passam por concurso, são
indicados pela própria comunidade. Os estudantes têm
uma visão sobre o mundo, aprendendo a pensar novas estratégias
do movimento. Precisamos ter engenheiros, professores, médicos,
entre outras profissões. É importante para a luta
que saiam do nosso meio. O Incra chegou a contratar um veterinário
para nós, porém, não deu certo porque não
tinha vínculo com o movimento. Três técnicos
que prestavam assistência também foram embora porque
não tinham ligação com a gente''.
Tecnologia
''Consideramos a tecnologia importante
para alavancar a luta, olhando para o campo de uma maneira diferente
do agronegócio. O carro, a energia elétrica, a informática
são importantes. Nós, do movimento, reconhecemos isso
e acreditamos que podem unificar a luta dos povos do mundo. A Via
Campesina utiliza a Internet para articular as lutas, fazendo com
que consigamos nos comunicar com mais rapidez. É uma redemocratização
do que foi apropriado pelos capitalistas''.
Futuro
''Enquanto assentada - ex-acampada
- o primeiro objetivo é a terra. Depois, tem de ser a luta
pela reforma agrária de verdade, com educação
e saúde. O sonho de todos é ter uma vida digna, com
boas estradas, transporte, casa, água, luz, saneamento, universidade,
tudo isso. Essas conquistas só são possíveis
com a permanência na luta. O que nos diferencia (MST) é
que estamos modificando a estrutura fundiária do Brasil''.
Alcoolismo e drogas
''O alcoolismo é bastante
presente e as drogas - maconha, cocaína e crack - tentaram
se fazer presentes. Me lembro bem quando éramos acampados.
Lá não se olha se a pessoa é adventista ou
vende drogas. Quando percebemos que veio gente para distribuir drogas,
chamamos para conversar e mostrar que isso não leva a nada,
é o caminho da destruição da vida. Tentamos
conscientizar, mas se a pessoa permanece no erro, é expulsa.
Já tivemos de expulsar porque entendemos que pode contaminar
o resto das pessoas e passar uma imagem errada para a sociedade.''
(F.L.)
TERRA ESTREMECIDA
- Sem soluções efetivas, a luta pela terra continua
Incessante disputa pela terra traça
mapa de erosão social
Para muitos pequenos agricultores, endividados e desiludidos com
a vida no campo, a decisão de deixar tudo para trás
e arriscar a sorte num acampamento de sem-terra, é algo mais
do que difícil: é única. O ato de abandonar
a casa e se mudar para um local onde centenas - e até milhares
- de famílias coabitam um amontoado de barracos de lona,
justifica-se, na maioria das vezes, por uma combinação
cruel de três motivos: insatisfação absoluta
com a realidade; ausência de alternativas viáveis;
e expectativa de uma vida melhor.
Nesta reportagem, a Folha mostra
o resultado das visitas aos dois tipos de núcleos de sem-terra:
acampamentos e assentamentos rurais. Os primeiros caracterizam-se
pela ilegalidade, ou seja, o despejo pode ocorrer a qualquer momento;
há apenas barracos amontoados; as pequenas lavouras são
de risco; e não há energia elétrica, nem crédito
para investimento. Já os assentamentos são locais
com lotes legalizados e distribuídos; moradias individuais;
lavouras permanentes e financiamento oficial.
A evolução de acampamento
para assentamento, que pode levar mais de uma década, apresenta
tantos percalços que boa parte das pessoas acaba voltando
para a casa sem vencer a 'guerra'. Durante a viagem, a Folha constatou,
por exemplo, a desintegração de um acampamento de
67 famílias em Tapira, na região noroeste, batizado
ironicamente de Vitória. Apesar de permanecer na listagem
oficial do Incra, a existência do antigo núcleo - ligado
à Confederação dos Trabalhadores na Agricultura
(Contag) - já quase não evoca lembranças entre
a população do município. Também no
noroeste, a Folha encontrou um acampamento do Movimento dos Agricultores
Sem Terra (Mast), ainda ativo, mas com condições de
vida tão precárias que parece fadado a morrer como
crisálida, sem conhecer a fase de borboleta.
Fábio Cavazotti
Reportagem Local
Sob a bandeira do MAST
Desvinculados de qualquer movimento,
de acordo com a Comissão Pastoral da Terra, os acampados
que vivem em frente à Fazenda Santa Filomena, em Cidade Gaúcha
(80 quilômetros a nordeste de Umuarama), e que já estiveram
sob a bandeira do Movimento dos Agricultores Sem-Terra (MAST), encontram-se
no momento entregues à própria sorte.
Três anos esperando a porteira
da fazenda abrir, mediante uma desapropriação, a maioria
das 53 famílias, que reivindicam a área, somente volta
para o acampamento no fim de semana, na expectativa de garantir
o quinhão de terra. Os que ficam no acampamento são
obrigados a viver entre cobras, escorpiões e ratos, enfrentando
os efeitos do calor dentro das barracas. A única água
disponível é a que o gado bebe, proveniente de uma
caixa d'água sem tampa.
A representante da coordenação
da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em Cidade Gaúcha,
Vera Luiza Schwerz Gislon, lembra que, inicialmente, o acampamento
foi erguido no município. Porém, o grupo se dividiu,
perdendo a bandeira do MAST.
Vera ressalta que a falta de uma
ideologia deixa esses grupos independentes vulneráveis: ''A
importância de se ligarem a um movimento social mais forte
é que conseguem ter força política para encaminhar
a questão agrária. Quando surgiu o acampamento era
um período de campanha eleitoral, e tinha muito envolvimento
de candidatos na ocupação. Uma outra coisa que temos
de ver é que toda a mídia coloca o MST como bicho-papão
e eles têm medo''.
O superintendente do Incra no Paraná,
Celso Lacerda de Lisboa, concorda que a região noroeste é
uma das mais ''complicadas'' do estado, em razão da manipulação
política da questão agrária. De acordo com
ele, a maioria dos acampados é dissidente do MST que recebe
incentivos de políticos. ''Isso complica muito porque entram
interesses eleitorais. Por exemplo, temos diversos vereadores que
sempre querem cestas básicas para distribuir aos acampados.
Temos de tomar um cuidado grande com isso''.
(F.L.)
Araupel:
uma nova oportunidade para assentados
Os embaraços da história se põem entre as cerca
de 1.500 famílias na Fazenda Araupel, em Quedas do Iguaçu
(165 quilômetros a leste de Cascavel), o maior assentamento
da América Latina. Apesar de ainda não terem nas mãos
o título de posse da terra, os camponeses divididos em lotes,
já colhem os frutos da reforma agrária.
Uma história que perpassa
a Guerra do Contestado, em que os 53 mil hectares da Araupel, antiga
Giacometti Marodin, viraram motivo de divergência jurídica,
atualmente se reportando quanto à nulidade ou não
da titulação dos 25 mil alqueires que estão
sendo adquiridos pelo Incra. A controvérsia tem origem na
titulação concedida pela União à empresa,
para que construísse uma ferrovia. A obra nunca foi iniciada
e, no governo Getúlio Vargas, um decreto presidencial cancelou
o título.
Sem entender muito o que significam
as demandas judiciais, as famílias, como a de Anélio
Moraes, 42 anos, tentam tirar o sustento da terra, cultivando em
4 alqueires feijão, arroz, mandioca e milho. ''Em 1999, o
pessoal abriu aqui um acampamento com 10 famílias. Sou de
Chopinzinho. Aí ouvimos no rádio e viemos para cá
no dia 10 de maio, às 3 horas da manhã. Quando amanheceu
já estávamos com o barraco montado. A maioria de nós
éramos agricultores, mas também havia gente que não
tinha vínculo com a terra'', lembra Moraes, que, como outros
assentados, está há 10 meses no lote.
Uma colheitadeira comprada de sociedade,
geladeira a gás, luz e televisão tocados à
bateria de carro, e um automóvel ano 86 são alguns
frutos da reforma agrária plantados no quintal da casa de
Luciana de Oliveira, 30 anos, que vive com o marido e um filho em
4 alqueires. ''Não pensamos em aumentar a família.
Pensamos em trabalhar porque não adianta ganhar a terra se
não trabalhar. Porém, a terra não tem ajudado.
O que a gente colheu não deu para pagar as dívidas'',
afirma a assentada.
A Araupel está na lista dos
10 maiores exportadores de madeira do Brasil, sendo uma das empresas
que mais gera emprego em Quedas do Iguaçu. Na avaliação
do secretário interino de Agricultura do município,
Roberto Nogueira, os sem-terra assentados na região podem
contribuir para a economia da cidade, já que realizam compras
de insumos e outros produtos. A agricultura representa cerca de
30% dos impostos gerados no município, que ainda conta com
royalties de R$ 800 mil mensais de Salto Osório. ''Avalio
que, futuramente, a presença dos assentados será boa
para o município'', acredita o secretário interino
de Agricultura, Roberto Nogueira.
(F.L.)
Copavi,
um assentamento que deu certo
O Assentamento Cooperativa de Produção Agropecuária
Vitória (Copavi), em Paranacity (66 quilômetros ao
norte de Maringá), é uma demonstração
de que a organização dos camponeses pode ir além
de justiça social, tornando-se sinônimo de sucesso.
É o que constatou a última etapa da viagem da Folha
ao conhecer a realidade das 20 famílias do assentamento,
que vivem com uma renda bruta mensal de R$ 1.500,00.
Sob a bandeira do MST, os assentados
mantêm duas empresas, sendo uma cooperativa agrícola
e uma associação, responsável pelo gerenciamento
da produção industrial. Uma organização
que faz com que os cooperados já pensem em dobrar a produção
de derivados de açúcar para 30 toneladas ao mês
até 2008. A intenção é aumentar também
em 35% a produção de derivados de leite, passando
de 550 litros para cerca de 900 litros.
Uma fábrica de lacticínios,
uma padaria, a produção de açúcar mascavo
e cachaça encabeçam a lista de produtos oferecidos
pela cooperativa que exportou, em 2005, 4 mil garrafas de cachaça
para a Espanha. Para 2006, os cooperados estão negociando
com a Itália e França.
Sublinhando os números, a
boa infra-estrutura do assentamento ajuda o visitante a entender
o significado da frase ''você está em uma terra libertada'',
exibida no refeitório, onde todas as 20 famílias fazem
as suas refeições diárias em regime comunitário.
A marcha sob esse ideário
faz parte da vida de assentados, como Valmir Stronzake, 31 anos,
representante da primeira geração de jovens, que foram
criados embaixo de lonas e que assistem a esse novo capítulo
da luta pela terra. Desde os 10 anos idade, Stronzake viveu em acampamentos.
Perto de completar 18 anos, o rapaz acompanhou os pais na ocupação
da Fazenda Santa Maria, de 96 alqueires, propriedade da família
londrinense de Michel Sahão.
Dos primeiros anos de ocupação
até a legalização do acampamento, em 1994,
à regularização do assentamento pelo Incra,
10 famílias já passaram pelo Copavi, número
praticamente igual ao das 11 famílias que ocuparam a área
inicialmente. ''Há quatro anos, a cooperativa estabilizou,
mas já faz 13 anos que estamos aqui. Passamos os primeiros
nove anos pedalando'', avalia Stronzake.
Formado em Ciências Contábeis,
Stronzake ilustra a reforma agrária que, além da terra,
conquista a educação, saúde e cultura. Paralelo
à persistência e ao trabalho, a explicação
para o sucesso dos cooperados pode estar nesta fórmula, que
não foi fácil para todos assimilarem. ''É preciso
criar um ambiente de bom relacionamento entre as famílias,
atingir um certo grau de eficiência e um trabalho permanente
social. Um trabalhador que a vida inteira pensou de uma maneira
individual e, então, vem para um lugar onde precisa ouvir
opiniões, não é fácil. É um processo
de mudança cultural demorado. Vencemos os obstáculos
com muita paciência'', afirma.
(F.L.)
Primeiro
de Agosto, ‘cidade dos sem-terra’
A primeira sensação que se tem quando a cancela do
acampamento 'Primeiro de Agosto' fica para trás é
a de que chegamos à ''cidade dos sem-terra''. A localidade
reproduz tudo o que se vê nos pequenos aglomerados rurais:
ruas 100% de terra; uma praça central, onde estacionamos;
uma igreja do Evangelho Quadrangular; um bar; um pequeno silo; e
a casa de força. Bandeiras do MST estão por todos
os lados e o vermelho predomina na indumentária local.
Estamos na fazenda Cajati, em Cascavel,
propriedade de 3.300 hectares, considerada produtiva pelo Incra,
e que foi invadida por 1.000 famílias ligadas ao MST em 2000
e 2004. A Justiça já concedeu ordem de reintegração
de posse, ainda não cumprida pela polícia.
Assim que estacionamos o veículo
na área central, somos recepcionados por um sujeito barbudo,
muito sério, que quer saber por que estamos ali. Informa-nos
que o líder não está no momento e que ninguém
pode nos atender. ''Não tenho informação nenhuma,
vocês devem ir embora'', diz. Sem espaço para discussão,
nos conduz resolutamente de volta ao carro.
Escapando da marcação
do líder do acampamento, no entanto, um rapaz que se identificou
apenas por Fernandes disse que integra o MST há quatro anos
e que já foi despejado de uma outra ocupação
no norte do estado.''Fiquei um ano e pouco acampado lá na
região de Ivaiporã'', conta. Aos 34 anos, Fernandes
abriga em sua barraca a mulher e um filho de oito anos. Enquanto
conversamos com o acampado, sem chamar a atenção do
líder, observamos a quantidade de lixo a céu aberto,
próximo às barracas, demostrando a situação
precária a que as famílias estão submetidas
num acampamento.
Deixamos o local e seguimos para
o segundo acampamento do MST na mesma fazenda (Dorcelina Folador),
localizado a mais de 10 km de distância. Desta vez, somos
barrados logo na porteira por dois acampados que exercem o cargo
de vigias. Ambos informam que o líder não está,
e que ninguém pode conceder entrevista. Porém, pequenos
agricultores que não sabem fugir das origens, seguem 'proseando'
com os repórteres sobre o dia-a-dia do acampamento. Aos poucos,
o mais velho informa que seu único objetivo é a conquista
de um pedaço de terra. ''Estou aqui há sete anos com
a esposa e uma neta. Trabalhei na roça a vida toda, é
a única coisa que sei fazer. Só que onde morava -
Rio Bonito -tinha de arrendar a terra. Chegou uma hora em que não
consegui vencer e vim para cá''.
Sobre os temas políticos,
caros ao movimentos, o agricultor atribue pouquíssima importância
em comparação com a luta por uma pequena propriedade.
''Reforma agrária para mim é ganhar o pedaço
de terra que a gente tanto precisa. Falar em revolução,
capitalismo, não resolve nada para a gente. Estou aqui para
melhorar a sobrevivência mesmo''.
A abertura dos agricultores que conversam
com a Folha é fechada em menos de 15 minutos por um integrante
do acampamento que vem até a porteira verificar o que está
acontecendo e encerrar a conversa.
(F.C. e F.L.)
