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Congresso em Foco, 2 de janeiro de 2007
Valeu o preço da estabilidade?
Para economistas, faltou ousadia ao primeiro
governo Lula para baixar juros e carga tributária e permitir
a retomada do crescimento
RICARDO TAFFNER
Considerada um dos carros-chefe
da reeleição
do presidente Lula, a condução da economia ainda divide
diversos setores e especialistas da área e deixa no ar uma interrogação
sobre o destino a ser tomado pelo país nos próximos quatro
anos: a estagnação ou o crescimento econômico.
De um lado, estão aqueles que aprovam a política
econômica ortodoxa, com o controle da inflação
como vértice das condutas do governo, e elogiam a atuação
da equipe técnica do presidente. Para esses, juros altos, controle
da reserva cambial e aumento das exportações são
fatores fundamentais para a estabilidade econômica. Nesse sentido,
observam, o governo Lula superou quaisquer expectativas.
Do outro lado, a maioria dos críticos enxerga
com preocupação o pequeno crescimento do país
nos últimos anos, marcado por índices abaixo da média
mundial, e avalia negativamente as medidas adotadas pelo governo.
Ao fim do primeiro mandato do
petista na Presidência
da República, resta a pergunta: havia outro caminho melhor para
a economia brasileira? A divergência na reposta é certa.
Entretanto, todos especialistas ouvidos pelo Congresso em Foco concordam
em um ponto: faltou ousadia ao governo Lula para fazer o Brasil crescer,
principalmente em função do controle da taxa de juros.
O Comitê de Política Monetária
(Copom) tem reduzido a taxa Selic nos últimos meses, mas ainda
assim é uma movimentação considerada tímida
e tardia pelos analistas. Durante a gestão petista na Presidência,
os juros oscilaram em valores muito próximos. A política
de redução gradual adotada desde o final de 2005 fez
a taxa cair em 11,75%, em comparação àquela entregue
pelo governo anterior.
Inflação
x juros
O governo Lula recebeu o país com a inflação de 12,53%,
em 2002. Em resposta, aumentou rapidamente a taxa Selic, de 25% (dez/2002)
para 26,5% (fev/2003) ao ano. Segundo o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, Lula
assumiu o primeiro mandato em uma situação muito difícil,
de crise e desconfiança.
Havia aceleração da inflação
e desvalorização do real. Além disso, a dívida
pública sofria os efeitos negativos das taxas de juros. “No
início de 2003, Lula reverteu essa situação ao
encontrar uma política internacional favorável”,
explica o professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Os juros continuaram acima dos
20% até setembro
de 2003, quando o Copom sinalizou uma mudança de mentalidade
para fazer cortes maiores para fechar aquele ano com 16,5%. A inflação
respondeu positivamente e caiu para 9,3% no ano. Por outro lado, praticamente
não houve crescimento econômico, com a evolução
do PIB inferior a 1%.
Belluzzo acredita que no primeiro
momento do mandato de Lula, a política foi correta, uma vez que precisava emplacar
a economia e conquistar a confiança. Mas para ele, houve um
erro de timing na política monetária e aceitação
da desvalorização cambial, o que afetou a exportação
e a importação. “Um país emergente não
se pode abrir mão da taxa de câmbios e permitir que a
indústria manufatureira perca elos importantes”, diz.
Passados os 12 meses iniciais,
os índices de
inflação continuaram a cair gradativamente durante o
primeiro mandato de Lula – 7,6%, em 2004, e 5,69%, em 2005 – resultado
da manutenção da taxa de juros entre 16% e 18% nesses
dois anos. Como conseqüência da fórmula adotada,
a economia do país evoluiu pouco. O crescimento de 5,2%, em
2004, animou o governo, que vislumbrou um vôo prolongado, sonho
interrompido no ano seguinte. Em 2005, o PIB cresceu apenas 2,3%, um
pouco mais da metade da média mundial (4,3%) e um dos piores índices
do mundo, ficando atrás somente do Haiti na América Latina.
Fórmula mágica
Segundo Belluzzo, Lula foi mal
na condução
da política econômica e agiu de forma receosa para não
correr riscos, optando por uma “racionalização
vagabunda”. O economista aponta que poderia ter havido uma política
monetária mais ousada, que liberasse a inflação
para 5% ou 6% ao ano, mas que permitisse o crescimento.
“Não é nenhuma fórmula
mágica, como costuma dizer o presidente. Mágica é fazer
o país crescer com essa combinação de câmbio
e juros”, afirma. Para ele, é necessário ousar
para melhorar a economia e, assim, conseguir aliviar a política
fiscal e tributária.
Belluzzo diz que o modelo de metas
de inflação é “bastante
discutível”, uma vez que, com ele, o país só pode
crescer desde que não afete a inflação. “Por
isso, o país cresceu pouco, bem abaixo do que os outros países
emergentes. De bom mesmo, foi que o país conseguiu uma balança
comercial muito favorável”, avalia.
Entraves ao crescimento
Outros pontos apontados por Belluzzo
para o “travamento” do
país são a legislação e a burocracia brasileiras.
Para ele, a redução do papel do Estado criou obstáculos
legislativos para os investimentos. “Aqui só se pode fazer
o que o Ministério Público permite. A burocracia pública é burra
e analfabeta em economia. Quem nada de braçadas são os
bancos”, critica.
Segundo Belluzzo, as elites do
país envelheceram
influenciadas por 25 anos de baixo crescimento. Para buscar a solução,
recomenda, é necessário um amplo debate e “criar
um ambiente para que o setor privado se desenvolva com uma reforma
progressiva para pragmaticamente mudar as regras obsoletas.” Beluzzo
defende uma reforma gradual, lenta e consistente a fim de estimular
a economia a crescer.
Caminho da responsabilidade
O presidente da Associação dos Analistas
do Mercado Financeiro (Abamec), Edmilson Loureiro de Lima, diz que
o governo atuou com eficiência no controle da inflação.
Para ele, o modelo econômico adotado pelo presidente Lula foi
do “caminho da responsabilidade”.
“O governo teve a sensatez de não fazer
grandes aventuras que poderiam ter quebrado o país”, afirma
Loureiro. O analista financeiro afirma que os resultados da estabilidade
conquistaram o mercado financeiro, que passou a confiar e, conseqüentemente,
investir mais no país.
Como exemplo da confiança internacional, Loureiro
aponta o fato de não ter havido fuga de capital durante os períodos
mais traumáticos do governo, como na época do escândalo
do mensalão. “A bolsa respondeu bem à política
econômica. Acho que foi um sucesso”, avalia.
Loureiro reconhece, entretanto,
que faltou ousadia do governo no controle da taxa de juros. Para
ele, o país poderia
ter crescido mais nos últimos anos se tivesse diminuído
os juros, mas destaca que esse não era o único ponto
para o desenvolvimento.
Impostos e mais impostos
“Com essa alta carga tributária o Brasil
não vai crescer. Ninguém consegue pagar os custos dos
impostos e isso acaba fomentando apenas o Isso só fomenta o
mercado paralelo, ilegal”, comenta. Para Loureiro, é necessário
acontecer reformas em áreas urgentes como a trabalhista, previdenciária,
fiscal e tributária.
Segundo o presidente da Abamec,
o Brasil poderá perder “o
bonde do crescimento mundial” caso não se ajuste. Para
ele, é urgente o enxugamento dos gastos públicos, pois
isso reflete diretamente na economia e afeta o andamento da bolsa.
O investimento na bolsa de valores é, inclusive,
outro fator para o crescimento nacional, destaca o analista financeiro: “A
utilização do FGTS e a criação dos clubes
de investimentos serviram de estímulo para que 27% das pessoas
físicas investissem em ações, mas esse número
ainda é muito baixo. Existem muitas aplicações
em renda fixa e título de governo que podem aquecer o mercado
financeiro”.
Cristão-novo
Uma das principais referências no Congresso
na área orçamentária, o deputado Sérgio
Miranda (PDT-MG) acredita que o governo Lula se rendeu às pressões
do setor hegemônico do capital financeiro. Para ele, esse setor
potencializou a desorganização e a brutal retirada de
dólares e desvalorização da moeda. “Lula
tomou medidas de cristão-novo. Para provar que não é judeu,
tende a radicalizar”, comenta o deputado, que trocou o PCdoB
pelo PDT por se opor ao apoio incondicional dos comunistas ao governo
petista.
Miranda avalia que, ao contrário do que é ventilado
pelo Palácio do Planalto, a economia não foi bem nos últimos
quatro anos. O deputado acredita que Lula não se reelegeu pela
ortodoxia econômica, mas pela proximidade com o povo. “Não
pode ir bem se tem essa doença tropical da maior taxa de juros
do mundo. Esse travamento impede investimento interno.”
Segundo Miranda, a base da política econômica – ortodoxa – foi
do superávit primário. “Disseram para o presidente
que isso ia impulsionar o crescimento da economia”. Mas o pedetista
lembra que em 2003 o crescimento foi quase nulo.
Em 2004, observa o deputado, houve
alguma melhora “mínima” e
criou-se a “falsa sensação” de que o país
estava no caminho correto, mas o retorno do crescimento pífio,
em 2005, teria provocado uma preocupação na cabeça
do presidente. “Aqueles que prometeram crescimento não
entregaram, o Brasil não cresceu”, resume o deputado.
Medidas compensatórias
Sérgio Miranda aponta que, em meados de 2005,
Lula passou a tomar algumas medidas para tentar compensar a estagnação.
O presidente aumentou a transferência de renda com a ampliação
do Bolsa Família; deu um aumento mais significativo para o salário
mínimo; voltou a negociar com o servidor público, aumentou
os gastos correntes e os investimentos.
Segundo o pedetista, porém, é preciso
avaliar os pontos positivos alardeados pelo governo com cautela, como
o aumento das exportações e das reservas. O deputado
acredita que a conjuntura do cenário internacional, ao longo
do governo Lula, favoreceu a condução da economia. “Nesse
aspecto, o mérito não é só da política
econômica brasileira”, observa.
Para Miranda, a vulnerabilidade
do país aumentou
porque Lula ampliou a possibilidade dos ativos em reais mudarem para
dólares, facilitando a transferência internacional. “Eles
podem sair do país a qualquer hora”, afirma.
Perspectiva
de estagnação
O deputado diz que a promessa
de Lula de destravar a economia não acontecerá, uma vez que o presidente não
pensa em mudar a política econômica. “Ele fala em
destravar por expressão de vontade, mas não é o
voluntarismo que desfaz essa ordem. Nem se discutiram na campanha as
ferramentas para se fazer isso”, afirma.
Na avaliação de Sérgio
Miranda, os principais problemas do Brasil são o endividamento
e a garantia da solvência de dívidas, o fluxo de capital
e a falta de investimentos. Se, por um lado, o setor privado não
tem investido no país; por outro, o setor público não
pode investir porque está amarrado ao superávit, observa
o deputado. O pedetista acredita que somente o aumento do PIB poderá resolver
os problemas do país, como a própria previdência. “Só se
focar na estabilidade sob o custo social não é lógico”,
diz.
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Nova Central,
30 de dezembro de 2006
STF determina recolhimento de contribuição
sindical para a CSPB
A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Ellen Gracie,
indeferiu pedido de Suspensão de Segurança (SS 2975) ajuizada pelo Estado
do Maranhão que pretendia impedir o recolhimento, em folha de pagamento,
de 20% de um dia de trabalho da remuneração dos servidores públicos
estaduais, a título de contribuição sindical cobrada pela
Confederação dos Servidores Públicos do Brasil (CSPB).
O Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA)
deferiu liminar em mandado de segurança que determinou ao estado
que procedesse ao recolhimento, devendo o montante ser depositado em
juízo.
A Procuradoria Geral do Estado (PGE), no pedido ajuizado
no STF, contestou a decisão do TJ-MA, argumentando que a competência
para processar e julgar ações que versem sobre contribuição
sindical é da Justiça do Trabalho. Alegou, também,
que a determinação causa dano às ordens administrativa
e pública.
A ministra Ellen Gracie entendeu que a ação
cuida de vinculação sindical de servidores públicos,
e não de relação trabalhista. “No caso em
tela tanto a alegada lesão à ordem administrativa quanto à ordem
pública não ocorrem, pois os fundamentos trazidos dizem
respeito ao próprio mérito, sobre o qual esta Corte não
admite manifestação em sede de incidente de suspensão”,
disse a ministra ao indeferir o pedido.
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Nova Central, 30 de dezembro
de 2006
Senador quer prioridade para créditos
trabalhistas em caso de falência
Visando garantir a prioridade dada aos pagamentos de créditos trabalhistas
no caso de falência de empresas, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) apresentou
projeto (PLS 218/05) querevoga um artigo da Lei 11.101/05, mais conhecida como
nova Lei de Falências. A proposta tramita atualmente na Comissão
de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado.
Na justificação da matéria, o
parlamentar reconhece que tal prioridade já está expressa
no artigo 83 dessa lei. No entanto, ele argumenta que, em seu artigo
57, ao exigir que o devedor apresente certidões negativas de
débitos tributários como condição para
a recuperação judicial da empresa, a nova Lei de Falências
abriria a possibilidade de que as obrigações com o fisco
sejam pagas antes dos créditos trabalhistas. É por essa
razão que o projeto de Simon revoga justamente o artigo 57.
O senador afirma na justificação que "os
créditos oriundos das obrigações trabalhistas
são (...) sagrados e prioritários em qualquer plano de
reestruturação empresarial ou nos pagamentos devidos
já no processo falimentar". E que o objetivo de sua proposta é corrigir "uma
distorção, talvez fortuita, de uma grande norma".
Prioridade parcial
Além da questão levantada por Simon,
uma outra possível distorção da nova Lei de Falências
- apontada por vários juristas logo que esta entrou em vigor
- seria o fato de que os créditos trabalhistas são prioritários
até o valor de 150 salários mínimos. O montante
que excede esse limite perde tal prioridade, passando a integrar os
chamados créditos quirografários. Na antiga Lei de Falências,
todos os créditos trabalhistas eram prioritários.
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Folha de São Paulo, 30 de dezembro
de 2006
Carga tributária pode chegar
a 39% do PIB em 2007
Sob Lula, carga tributária sobe R$
192 bi
Aumento é real, pois exclui inflação;
instituto estima que peso dos tributos deste ano equivalerá a
38,75% do PIB, novo recorde | Quando Lula assumiu, a carga estava em
35,84% do PIB; em 2003, houve pequena queda, mas nos anos seguintes
só cresceu
MARCOS CÉZARI
DA REPORTAGEM LOCAL
O primeiro mandato do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, que termina amanhã, será marcado no campo
econômico por dois fatores negativos: baixo crescimento do PIB
(Produto Interno Bruto) e carga tributária recorde. Toda a sociedade
foi prejudicada por pagar mais tributos, mas as pessoas físicas,
ou seja, os consumidores, e as empresas importadoras e as prestadoras
de serviços foram as mais afetadas.
Os consumidores pagaram a maior parte da conta porque é sobre
eles que recaem, via preços, todos os aumentos de tributos pagos
pelas empresas. No caso das importadoras, porque elas passaram a pagar
mais PIS e Cofins a partir de maio de 2004; no caso das empresas prestadoras
de serviços, porque as optantes pelo lucro presumido tiveram
a base de cálculo da CSLL elevada de 12% para 32% (mais 166,7%)
a partir de setembro de 2003. Em resumo, devido aos inúmeros
aumentos de tributos nos últimos anos, todos os setores da economia
foram, em maior ou em menor grau, punidos com taxação
mais elevada.
Quando Lula assumiu o governo, em janeiro de 2003,
a carga tributária estava em 35,84% do PIB -nível ao
final de 2002, último ano da gestão FHC. No primeiro
ano, houve pequena queda (para 35,54%), mas nos anos seguintes a carga
só aumentou.
Recorde
O país fechará a primeira gestão
de Lula com carga tributária bem próxima de 39% do PIB
-um novo recorde. Estimativa feita pelo IBPT (Instituto Brasileiro
de Planejamento Tributário) indica que até amanhã os
contribuintes deixarão ao menos R$ 812 bilhões em tributos
nos cofres da União, dos Estados e dos municípios. Isso
dá R$ 2,22 bilhões por dia; R$ 92,67 milhões por
hora; R$ 1,54 milhão por minuto ou R$ 25,73 mil por segundo.
O IBPT estima que a carga fiscal deste ano equivalerá a 38,75%
do PIB, estimado em R$ 2,095 trilhões. Assim, a carga fiscal
avançará 2,91 pontos percentuais do PIB no primeiro mandato
de Lula em relação à do último ano de FHC.
No primeiro ano de Lula, foram arrecadados R$ 553,05
bilhões (nos três níveis de governo). Em 2004,
foram R$ 650,15 bilhões; em 2005, R$ 732,87 bilhões;
e neste ano, R$ 812 bilhões (valores nominais). Comparada a
receita deste ano com a do último ano (2002) da gestão
FHC (R$ 482,49 bilhões), o aumento nominal é de R$ 329,5
bilhões. Excluída a inflação (IPCA), há aumento
real de R$ 192 bilhões. Para o advogado Gilberto Luiz do Amaral,
presidente do IBPT, "o governo Lula ampliou a tributação
sobre todos os segmentos da economia". Isso ocorreu porque alguns
tributos, como a CPMF (imposto do cheque), o PIS e a Cofins acabam
incidindo sobre todas as empresas.
"A carga tributária em porcentagem do
PIB não cai porque os aumentos são para todos e as reduções
são para alguns poucos setores. As maldades tributárias
são sempre maiores do que as bondades." Amaral refere-se às
reduções tributárias aprovadas nos últimos
dois anos mas que, além de desonerar poucos setores -construção
civil, bens de capital, computadores, alguns itens da cesta básica,
medicamentos e livros-, não surtem efeito sobre o conjunto da
sociedade. "São reduções pontuais, que pouco
resultado trazem para reduzir a pesada carga fiscal no país."
Para a advogada Elisabeth Libertuci, do escritório
Libertuci Advogados Associados, "um sistema tributário
justo é aquele que tributa mais a renda e menos a produção.
Só assim o Brasil terá condições de crescer.
Se a idéia do presidente Lula é fazer o país crescer,
ele está na contramão." Em países do Primeiro
Mundo (Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Canadá, Holanda,
França, Japão, Itália, Dinamarca etc.), a carga
tributária sobre bens e serviços é de 33%, em
média, e a sobre a renda, de 46%. No Brasil, há o inverso:
os bens e serviços são tributados em 63% e a renda, em
26%.
Libertuci questiona o fato de o país ter quitado
a dívida com o FMI e deixado de investir (o país quitou
a dívida ao final de 2005, antecipando pagamentos que venceriam
neste ano e em 2007). "Será que era preciso pagar ao FMI?
Acho que não era hora, ainda. Dispensamos o FMI, mas crescemos
pouco."
Mais independência
O advogado João Victor Gomes de Oliveira, do
escritório Gomes de Oliveira Advogados Associados, vê na
centralização tributária um dos males para a elevada
carga fiscal. "Não há desenvolvimento econômico
quando há centralização tributária." Um
caminho, diz Oliveira, é dar mais independência aos Estados
e aos municípios. "Não há mais necessidade
de centralizar a arrecadação em Brasília.
É preciso diminuir a centralização
para acabar com a "dependência política" de
Estados e municípios." Diante dos constantes aumentos dos
gastos correntes, especialmente do governo federal, Amaral prevê cenários
não muito animadores para 2007. E conclui: "Tributo na
medida certa é remédio, mas em excesso é veneno".
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Folha de São Paulo, 30 de dezembro
de 2006
Saddam Hussein, 69, é enforcado
no Iraque
Ex-ditador foi condenado em 5 de novembro
pela morte de 148 xiitas em 1982 | Mídia não pôde
presenciar o ato, mas receberá fotos do cadáver, que
será sepultado em local sigiloso, afirma um assessor do governo
local
DA REDAÇÃO
O ex-ditador iraquiano Saddam Hussein, 69, foi enforcado
na madrugada de hoje em Bagdá, após ter sido condenado
em novembro pela morte de 148 xiitas, em 1982, confirmou o Ministério
do Exterior do país. Uma corte de apelação manteve
a sentença de morte na terça-feira, e o governo iraquiano
acelerou os trâmites para enforcá-lo até o final
do ano e antes do feriado religioso de Eid al Adha, que começa
hoje, coincidindo com a peregrinação anual a Meca.
A execução ocorreu pouco antes da 1h
da madrugada no Brasil, o correspondente a próximo das 6h, em
Bagdá. O governo iraquiano manteve os detalhes da execução
em sigilo, em meio a preocupações quanto a uma onda ainda
maior de violência por parte de seus antigos seguidores. Hora
antes da execução, advogados de Saddam entraram com recurso
num tribunal americano para impedir que seu cliente fosse entregue
ao governo do Iraque.
Líderes curdos também tentaram adiar
a execução para que o ex-ditador também fosse
julgado pela acusação de genocídio contra a população
curda no norte do país. A condenação de Saddam,
no dia 5 de novembro, foi elogiada pelo presidente americano, George
W. Bush, como um triunfo para a democracia que ele prometeu impulsar
no Iraque após a invasão, há quase quatro anos.
A última tentativa de adiar o enforcamento
foi nos EUA, onde os advogados de Saddam tentaram uma ação.
Mas a juíza distrital Colleen Kollar-Kotelly disse que Saddam
não estava sob custódia americana e, portanto, fora de
sua jurisdição.
A polícia iraquiana e militares americanos
reforçaram desde a madrugada de ontem a segurança em
Bagdá e em regiões com predominância sunita, grupo
religioso do qual Saddam fazia parte. As medidas procuravam evitar
manifestações de revolta, tão logo o enforcamento
fosse anunciado. O "New York Times" afirmou ontem que o momento
da execução não seria previamente revelado pelo
temor de atos de violência. Nowaffak Rubaie, assessor de segurança
interna do governo iraquiano, disse que os jornalistas e câmeras
de televisão não seriam convidados.
O enforcamento, adiantou ainda, seria registrado em
videoteipe, mas "é pouco provável" que as imagens
sejam tornadas públicas. Rubaie disse ao "Times",
de Londres, que o corpo do ex-ditador será sepultado num local
sigiloso e que apenas no futuro o governo estudaria a possibilidade
de entregá-lo à família. Disse ainda que serão
divulgadas apenas fotografias do cadáver, para comprovar que
o enforcamento ocorreu. A agência de notícias Reuters
disse que o governo americano tinha interesse em que o enforcamento
se desse rapidamente.
Saddam Hussein foi ditador entre julho de 1979 e abril
de 2003, tendo sido capturado pelos Estados Unidos em dezembro daquele
ano. Foi condenado no último 5 de novembro, pela morte de 148
xiitas, em 1982, num dos episódios de crimes contra a humanidade
pelos quais vinha sendo processado. Ele estava preso em Camp Cropper,
prisão de segurança máxima, localizada num setor
do aeroporto de Bagdá sob controle militar americano.
Ele chegou ao poder depois de um golpe de Estado.
No ano seguinte, invade o Irã, com o qual o Iraque mantinha
uma velha disputa fronteiriça. A guerra, que durou até 1988,
provocou a morte de cerca de 1,5 milhão de pessoas e deixa uma
dívida externa de US$ 30 bilhões para o Iraque. Dois
anos depois após o fim do conflito com o Irã, Saddam
ataca o Kuait, provocando a primeira Guerra do Iraque. A coalizão
liderada pelos EUA do presidente George Bush restaura as fronteiras
originais, mas não o afasta do poder.
Em 2003, sob a falsa alegação de que
o Iraque possuía um arsenal de armas de destruição
em massa, o presidente George W. Bush comanda um ataque ao regime de
Saddam, deposto em abril daquele ano. Em dezembro de 2003, Saddam foi
capturado por soldados americanos na região de Awja, onde nasceu.
Desde então, enfrentou um processo judicial que resultou na
condenação à morte pela morte de xiitas que estariam
envolvidos num plano para assassiná-lo.
Mais tropas
O presidente George W. Bush definiu anteontem um plano
que aumenta em 20 mil o número de combatentes americanos no
Iraque. Analistas acreditam que Bush considerava pouco conveniente
anunciar seu novo plano com o enforcamento de Saddam.
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Folha de São Paulo, 31 de dezembro
de 2006
Indústria tem pior resultado
da década
Rentabilidade do setor é inferior
ao custo do capital; deixar dinheiro no mercado financeiro rende
mais que investir na produção | São várias
as razões para o desempenho fraco do setor; para as grandes,
o problema foi o câmbio e a dificuldade para exportar
MARCELO BILLI
DA REPORTAGEM LOCAL
Vendas e margens de lucro em queda fizeram do primeiro
semestre deste ano o pior da década para o setor industrial.
Grandes e pequenas empresas do setor nem sequer conseguiram atingir
rentabilidade que superasse o custo de capital, medido como rentabilidade
das aplicações financeiras. Para o segundo semestre,
as estimativas são que o cenário será tão
ruim quanto o dos seis primeiros meses de 2006. Os balanços
de 1.338 empresas do setor industrial analisados no "Painel de
Competitividade Fiesp-Serasa" mostra que, apesar da queda dos
juros, investir no setor produtivo ainda é praticamente sinônimo
de perder dinheiro.
O setor como um todo não dá prejuízo,
pelo contrário, a rentabilidade é positiva em todos os
anos desde 2001, ano em que começou o acompanhamento do estudo
da Fiesp-Serasa. Mas a rentabilidade da indústria é,
em média, inferior ao custo do capital. Ou seja, quem investiu
R$ 1 na atividade industrial poderia ganhar mais se tivesse decidido
deixar o dinheiro no mercado financeiro.
O levantamento considera os balanços do primeiro
semestre, mas, diz a Fiesp (Federação das Indústrias
do Estado de São Paulo), pouco mudou desde então. "Nós
fazemos um monitoramento. Os juros caíram, mas o "spread" bancário,
não. A queda não chegou ao consumidor final. Só as
grandes empresas têm acesso ao financiamento. Nossa percepção é que,
no segundo semestre, pouca coisa vai mudar em relação
ao primeiro", diz José Ricardo Roriz Coelho, diretor do
Departamento de Competitividade da Fiesp. "Os mesmos elementos
que contribuíram para o baixo crescimento econômico na
primeira metade do ano continuam presentes", conclui o "Painel
de Competitividade".
Desempenho fraco
São várias as razões para o desempenho
fraco do setor, e elas são diferentes dependendo do tamanho
das empresas. Para as grandes, o problema foi o câmbio e a conseqüente
dificuldade para exportar e para redirecionar a produção
para o mercado interno. As vendas das grandes empresas caíram
7,4%. Para compensar, as empresas tentaram reduzir custos, mas conseguiram
redução, em média, de 5%. Resultado: queda na
rentabilidade sobre o patrimônio, que havia sido de 10,8% no
semestre que terminou em junho de 2005 e baixou 34%, chegando a 7,1%
no primeiro semestre deste ano.
2006 foi ruim para as grandes empresas em vários
sentidos. As vendas caíram pela primeira vez na década.
De 2001 a 2005, as vendas subiram, em média 6,3% ao ano, sempre
comparando os resultados dos primeiros semestres. O primeiro semestre
de 2006 também registra a menor margem de lucro da década
para as grandes empresas do setor industrial.
Neste ano, a margem de lucro ficou em 14,3%, contra
resultado de 17,3% no ano passado. Por fim, a queda nas vendas foi
superior à capacidade de reduzir custos e compensar as perdas.
Assim, a relação entre a despesas operacional e o faturamento
foi a maior desde junho de 2002. O cenário não é tão
desastroso para as pequenas e médias empresas. Mas explique-se:
desde 2001 elas têm enfrentado situações muito
mais dramáticas do que as enfrentadas pelas grandes empresas.
Enquanto as grandes registraram vendas crescentes em todo o período
2001-2005 e só enfrentaram retração neste ano,
as PME's (pequenas e médias empresas) enfrentaram um início
de década bem mais turbulento.
Os três primeiros anos desta década foram
de estagnação para as PME's industriais. Estagnação
que foi interrompida pelos bons resultados de 2004, ano de melhor rentabilidade
para as pequenas e médias. 2005, novamente, foi ano de retração
e, em 2006, graças à capacidade de redução
de custos, as PME's não registraram queda tão grande
de rentabilidade quanto as grandes empresas.
Rentabilidade
Na média, a rentabilidade sobre o patrimônio
das PME's industriais era de 7,1% no primeiro semestre de 2005 e baixou
para 6,4% em 2006. A queda é menos pronunciada do que nos casos
das grandes empresas porque PME's conseguiram reduzir mais os custos,
compensando parte importante da queda de 4,8% nas vendas. O câmbio,
que prejudicou as exportações, é apontado como
grande obstáculo para a grande indústria -a indústria
não conseguiu manter a rentabilidade das exportações
tampouco redirecionar a produção para o mercado interno
e ainda sofreu a concorrência dos importados mais baratos.
As pequenas empresas, por sua vez, sofrem mais por
conta de aspectos internos, sendo o alto custo do crédito o
grande inibidor para o crescimento das PME's, diz o estudo da Fiesp-Serasa.
Os dados dos balanços mostram que enquanto as despesas financeiras
líquidas representam 71% do lucro líquido das pequenas
e médias empresas, para as grandes essa proporção é de
apenas 16%. "As pequenas e médias empresas não crescem
porque o crédito é caro e raro", relata o documento.
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Folha de São Paulo,
1 de janeiro de 2007
Lula larga com indefinição
no ministério e na economia
Presidente petista, que é empossado
hoje, só anunciará a equipe definitiva em fevereiro
| Duas decepções confessas de Lula a aliados no primeiro
mandato: crescimento baixo do PIB e o "desastre político",
com o mensalão
KENNEDY ALENCAR, VALDO CRUZ
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Ao contrário de 2002, quando criou ministérios
e lançou novidades como o "Fome Zero", o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, 61, inicia oficialmente hoje o segundo
mandato com um governo de feição provisória. Há indefinições
na política e na economia. A situação não é inédita:
Fernando Henrique Cardoso (PSDB) assumiu o segundo mandato em 1999
sem alterações significativas na equipe.
Nova reforma ministerial é esperada para fevereiro.
O primeiro escalão do 39º presidente do Brasil e segundo
a ser reeleito tem seis ministros interinos, um demissionário
e outros que poderão ser remanejados ou substituídos.
A equipe será alterada de acordo com as negociações
para a montagem da base de apoio no Congresso. Nem o partido do presidente,
o PT, sabe qual será a sua cota. A tendência é que
perca espaço para acomodar aliados, sobretudo do PMDB. Em 2003,
o PT tinha 19 dos 33 ministros. Hoje, possui 17 entre 34.
Quando reeleito no segundo turno, em 29 de outubro,
Lula prometeu medidas para "destravar" o crescimento da economia.
No discurso da nova posse, hoje, deverá dizer que esse será o
desafio do segundo mandato. No entanto, o prometido pacote econômico
foi adiado mais uma vez. O anúncio das medidas não tem
data. E seu conteúdo é uma incógnita.
Ao mesmo tempo em que promete manutenção
da responsabilidade fiscal, Lula estuda se permitirá afrouxamento
nas contas públicas para acelerar o crescimento da economia.
O primeiro exemplo foi a elevação do salário mínimo
em 2007 de R$ 350 para R$ 380.
Os ministros discordam da visão de que Lula
assume com um governo provisório. "Esse é um governo
de continuidade e de superação. O presidente não é provisório. É o
mesmo que saiu consagrado do processo eleitoral, com um grupo de ministros
que o acompanha há anos", afirma Tarso Genro (Relações
Institucionais). "O governo vai priorizar os investimentos em
infra-estrutura para o Brasil crescer mais rapidamente, com maior distribuição
de renda e sem descuidar do controle da inflação",
diz o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, com assento garantido no
segundo mandato.
Tarso rebate as críticas de que o governo está sem
rumo na economia e pode afrouxar o ajuste fiscal: "A crítica é ideológica.
Parte do princípio de que a questão fiscal pode ser resolvida
pelo arrocho salarial".
Duas decepções
O presidente Lula chegou a confessar, em conversas
reservadas, "duas decepções" que teve em seu
primeiro governo. A Folha apurou que o diagnóstico de Lula sobre
a economia é mais severo do que o admitido publicamente. O crescimento
foi bem menor do que o esperado e prometido. No primeiro mandato, a
taxa média do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) deverá ficar
em torno de 2,7%. Nos oito anos de FHC, foi de 2,3%.
Na política, Lula reconhece reservadamente
que o primeiro mandato foi "um desastre" que resultou na
crise do mensalão. Temeu o processo de impeachment no auge do
escândalo que lhe minou a popularidade entre setembro de 2005
e janeiro de 2006. Na época, Lula temeu ainda a derrota nas
urnas. O petista havia perdido as eleições de 1989, 1994
e 1998.
A amigos Lula diz que uma de suas principais preocupações é fortalecer
sua articulação política no Congresso. Reservadamente,
ele diz que seu maior erro foi permitir as CPIs que deram eco às
denúncias que Roberto Jefferson, presidente do PTB à época
e hoje, fez em entrevistas à Folha em junho de 2005. Para tentar
costurar uma base mais fiel no segundo mandato, Lula adiou a formação
do novo ministério. Pretende casá-la com as eleições
para as presidências da Câmara e do Senado (1º de
fevereiro) e com a indicação dos novos líderes.
Dará cargos e verbas aos aliados, mas exigirá fidelidade
nas votações e defesa do governo.
Lula terá dez partidos na coalizão -PT,
PMDB, PSB, PDT, PTB, PP, PC do B, PV, PR e PRB. Poderá reduzir
o espaço do PT, distanciando-se mais do partido após
as crises políticas que abalaram a legenda. O segundo governo
será "mais lulista do que petista", diz um auxiliar
direto do presidente. O presidente faz um diagnóstico sobre
as razões da reeleição com votação
recorde (60,83% dos votos válidos e mais de 58 milhões
de votos) após o susto do dossiegate na virada do primeiro para
o segundo turno da eleição. A "volta por cima",
acredita, deveu-se a ações positivas na economia e na área
social.
Apesar do baixo crescimento, a inflação
sob controle e a valorização do real baratearam itens
de consumo, como alimentação e material de construção.
Simultaneamente, a política social ampliou a destinação
de recursos.
Ao final de 2006, o Bolsa Família atingiu 11,16 milhões de famílias.
Lula investiu no ano eleitoral R$ 8,5 bilhões no seu principal programa
social. Em 2002, FHC gastou R$ 2 bilhões em programas comparáveis
ao Bolsa Família.
O ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias,
diz que "o controle da inflação foi fundamental
para o bom resultado das ações sociais". "A
gestão econômica responsável e uma ação
social eficaz deram bom resultado num país socialmente brutalizado."
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Folha de São Paulo,
1 de janeiro de 2007
Presidenciável, Aécio
vai buscar apoio para novo pacto federativo
PAULO PEIXOTO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELO HORIZONTE
Governador reeleito de Minas Gerais, o presidenciável Aécio
Neves (PSDB), 46, se prepara para uma espécie de "road
show" pelo país nos próximos anos para aglutinar
forças por um novo pacto federativo, tema defendido por ele
desde 2003. Aécio também vai elevar o tom no questionamento
ao modo de gestão do governo Lula, mas seguirá preservando
a relação com o presidente. Há quatro anos, o
tucano destacou no seu discurso de posse a necessidade de o país
promover o que chama de repactuação da Federação,
situação que daria a Estados e municípios mais
autonomia financeira e administrativa. Isso implicaria maior parte
no bolo tributário recolhido pela União e novos deveres.
No novo discurso, além da revalorização da política
pela conduta ética, Aécio vai voltar a falar da questão
federativa -afirmando que o modelo centralizador da União se
exauriu, dificultando o gerenciamento dos Estados e do próprio
governo federal. Aécio vê falta de decisão do governo
Lula em mudar essa concentração, que ele diz ser de 80%
do volume arrecadado em tributos.
O governador quer agora buscar o apoio de governadores e outras lideranças
regionais. Trata-se de um discurso sensível aos governantes
estaduais, especialmente em tempos de carência de recursos. Com
essa pregação, Aécio vai também montando
a face de um eventual discurso para 2010. Para ele, o pacto federativo é a
reforma mais urgente.
A montagem da equipe favorece as incursões políticas de Aécio
pelo país, a começar pela escolha do vice, pessoa da sua inteira
confiança política e administrativa. Trata-se do advogado e administrador
público Antonio Anastasia (PSDB), secretário de Planejamento
e Gestão no mandato anterior.
Mentor do "choque de gestão" mineiro em 2003, que
permitiu ao Estado acabar com o déficit orçamentário,
ele será o responsável por gerenciar todas as ações
desenvolvidas pelo secretariado mineiro. Segundo Aécio, caberá ao
gerente Anastasia "acompanhar e fiscalizar, orientar projetos
estruturadores, coordenar câmaras setoriais, presidir o Conselho
de Defesa Social e a Câmara de Gestão -órgão
executor das ações de governo, orçamentárias
e administrativas". Aécio quer que sua gestão seja
uma "vitrine" (expressão dele). E usa a eficiência
de gestão para reforçar o discurso pela repactuação
da federação.
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Folha de São Paulo,
2 de janeiro de 2007
Lula promete crescer com inclusão
e combater "terror"
Reempossado, presidente classifica onda
de violência no Rio de "terrorismo"
Ao ser empossado ontem para o seu segundo mandato,
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 61, anunciou a substituição
do verbo "mudar", tônica de seu discurso em 2003, por
outras três conjugações: "Acelerar, crescer
e incluir". O petista, 39º presidente da República,
reeleito com 60,83% dos votos válidos (58.295.042 de votos),
afirmou que não foi escolhido para "ouvir a velha ladainha
conformista".
Em discurso de 37 minutos no Congresso, Lula anunciou
que adotará nos próximos quatro anos o PAC (Plano de
Aceleração do Crescimento). Evitou comprometer-se com
a meta de crescimento de 5% do PIB e não antecipou detalhes
do pacote que anunciará ao final do mês para destravar
a economia. Lula disse que sua vitória demonstra que "o
povo optou um lado". Defendeu o Bolsa Família, afirmando
que "nunca foi política compensatória, e sim criadora
de direitos".
Em comparação a 2003, a posse foi esvaziada.
No primeiro mandato, 150 mil assistiram ao evento. Ontem, a estimativa
foi de 10 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios. Ao falar à população,
Lula classificou de "terrorismo" a onda de violência
no Rio de Janeiro e pediu a "mão forte do Estado" para
combatê-lo.
Os 27 governadores também tomaram posse ontem.
Em São Paulo, o governador José Serra (PSDB), nome forte
da oposição, ao lado do mineiro Aécio Neves, para
a sucessão de 2010, optou por um discurso com enfoque nacional
e atacou a "pasmaceira econômica" e os deslizes éticos
na política. "Tenho para mim que a ineficiência crônica,
a corrupção, o compadrio e o fisiologismo desmoralizam
a democracia", disse.
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Gazeta do Povo, 2 de janeiro de 2007
PERSPECTIVAS PARA 2007-Mudanças na distribuição
de renda fazem empresas correr atrás de produtos e serviços
“com a cara” das classes populares
Os desafios para o consumo de baixa renda
Henry Milléo/Gazeta do Povo

Supermercados disputam classes D e E.
São Paulo – Empresas de todos os setores da economia
estão disputando o consumidor das classes C, D e E, cujo poder
de compra cresceu nos últimos quatro anos. Fatores como a estabilidade
da economia, juros em queda, aumento da renda, programas assistenciais
do governo e a oferta abundante de crédito foram fundamentais
não apenas para a melhoria do poder de consumo, mas também
colaboraram para que houvesse ascensão social. Só neste
ano, de acordo com pesquisa da empresa LatinPanel, 2,15 milhões
de famílias das classes D e E, com renda mensal de 1 a 4 salários
mínimos, passaram para a classe C com rendimentos mensais de
5 a 10 mínimos. Outra pesquisa, do Datafolha, apontou que o
porcentual dos que fazem parte da classe C subiu de 32% para 40% de
outubro de 2002 a julho de 2006, enquanto as classes D e E encolheram
de 46% para 38% em decorrência da migração para
a classe C.
“Vemos uma forte migração para a classe C de 2002
a 2006. E aqueles que se mantiveram nas classes D e E passaram a consumir
produtos que antes não poderiam comprar, como suco em pó,
massa instantânea, caldos, extrato de tomate e maionese. Enquanto
a classe C está sofisticando seu consumo, comprando mais o que
antes era evitado no carrinho do supermercado, por ser supérfluo”,
afirma o gerente de atendimento da LatinPanel, Antonio Perrella. Analisando
itens com 60% de penetração nas residências, a
pesquisa em 8,2 mil domicílios demonstrou que as famílias
das classes D e E elevaram de 21 para 27 o número de produtos
consumidos nos últimos quatro anos, enquanto as residências
da classe C passaram a adquirir 33 produtos agora, contra 28 em 2002.
E a necessidade de ampliar o consumo é ainda maior. Questionados
pela LatinPanel sobre o que consumiriam caso a situação
melhorasse, 23% das famílias das classes D e E comprariam itens
diversos como imóveis (64%), eletrodomésticos (33%) e
alimentos (29%).
Para conquistar esse mercado, Perella acredita que a indústria
deve montar estratégias específicas para cada classe.
O grande desafio para ampliar as vendas nas classes D e E é um
forte investimento em canais de distribuição. Isso porque
a pesquisa detectou que 54% do consumo das famílias dessa classe
ocorre fora de grandes redes de supermercados, como em pequenas quitandas
e lanchonetes. “O preço é um fator determinante
para esta classe e a indústria precisa entender que esse consumidor,
além de desejar produtos sofisticados como sonho de consumo,
ainda tem a necessidade de consumir mais alimentos. Eles ainda têm
necessidades básicas. A palavra desafiadora para a indústria
nesta classe é ‘acesso’”, explica. Já para
a classe C o grande desafio é a customização,
já que 60% dos gastos são feitos no varejo tradicional. “Eles
já têm acesso, mas querem coisas mais com a sua cara.
As empresas precisam trabalhar com nichos específicos e ouvir
mais a necessidade dessa classe.”
Adequação
A Nestlé segue essas dicas à risca e até montou
uma unidade de vendas no Nordeste, região onde há, de
acordo com o estudo do Departamento Intersindical de Economia e Estudos
Socioeconômicos (Dieese), a maior concentração
no país de trabalhadores ganhando até um salário
mínimo. E também onde há o maior impacto de programas
como o Bolsa Família. “O tíquete médio de
compra em supermercado no Nordeste é de apenas R$ 7. Ou seja,
eles compram pouco e vão mais vezes ao supermercado. Além
de lançar produtos específicos para essa classe, com
preço melhor, fazemos também promoções
não do tipo ‘leve dois e pague um’, mas unindo,
por exemplo, chocolate, leite e bolacha”, explica o diretor de
novos negócios da Nestlé, Johnny Wei. A empresa adaptou,
por exemplo, a bolacha Bono para venda no Nordeste, reduzindo o conteúdo
para 140 gramas e aproximando seu custo do poder aquisitivo da população
de baixa renda. “Outro produto é o leite Ideal, que foi
modificado para dar maior nutrição à população
com menor acesso ao leite e tem custo mais baixo”.
A Unilever também aposta no consumo de baixa renda. Uma das
iniciativas para entender esse universo foi contratar um grupo do qual
faziam parte cientistas sociais que já haviam estudado os hábitos
de consumo dessas classes, conta o vice-presidente de Assuntos Corporativos,
Luiz Carlos Dutra. Ao perceber que o consumidor nordestino preferia
um produto que aliasse limpeza e fragrância, a Unilever lançou
no Nordeste, em 1996, o sabão em pó Ala, que hoje tem
23% de participação nesse mercado. “Construímos
uma fábrica em Igarassu, em Pernambuco, em 1996, buscando reduzir
ao máximo os custos de produção, para que isso
se refletisse no produto e o aproximasse do consumidor.”
A empresa também fez a transferência de parte da fábrica
da Kibon de São Paulo para Jaboatão dos Guararapes, também
em Pernambuco, já com sorvete especial para os nordestinos:
o sabor cajá, em versão picolé Fruttare e em pote
de 2 litros. Além de um produto chamado “Copão”,
um pote de sorvete de 400 ml com preço de R$ 3,50, apenas para
os nordestinos. A empresa também lançou só para
o Nordeste o Rexona Compact, que tem participação de
5% no mercado e preparou outros produtos com foco no público
de baixa renda para todo o país, como o sabão em pó Surf,
que substituiu o Campeiro, e a marca de produtos para cabelo Suave. “Nós
nos antecipamos ao ‘boom’ do consumo popular no fim da
década de 90”, afirma.
A Johnson & Johnson realizou há cinco anos uma pesquisa
que mostrava que a marca era percebida pelos consumidores como um produto
destinado apenas às classes de maior poder aquisitivo, explica
o gerente de marketing da companhia, Ricardo Wolff. Além de
fortes ações de marketing em programas de televisão,
a empresa também lançou produtos específicos para
as classes de baixo poder aquisitivo, como o absorvente Sempre Livre
Especial e a linha de loção Johnson Soft Lotion, para
adultos.
Distribuição
Quiosques e venda porta-a-porta. Vale tudo para conseguir chegar mais
próximo do cliente de baixa renda. A Nestlé afirma conseguir
hoje 95% de penetração de seus produtos nos lares brasileiros
e não descuida de canais alternativos. Segundo o diretor de
novos negócios, Johnny Wei, há um programa da Nestlé que
incentiva mulheres de famílias de baixa renda a vender os produtos
da companhia no sistema porta-a-porta. “O programa se chama Nestlé Até Você,
que prepara pequenos distribuidores, como a dona de casa, que tem um
tempinho para percorrer a casa dos vizinhos e vender nossos produtos.
Isso já é tradicional para produtos de higiene e cosméticos.
E é um modelo que estudamos ampliar. Além disso, queremos
chegar a farmácias e parques públicos.”
A Johnson & Johnson também aposta em ações
específicas em canais alternativos. Em janeiro deste ano, a
empresa iniciou um projeto-piloto com um quiosque montado no Poupa
Tempo de Santo Amaro, em São Paulo, em um acordo com o governo
do estado. “Não temos ainda a capilaridade necessária
para conquistar ainda mais o público dessas classes e vimos
uma grande oportunidade no Poupa Tempo. E a experiência tem sido
incrível, porque tivemos no quiosque picos de vendas que superaram
lojas tradicionais”, explica Wolff. Segundo ele, a idéia é ampliar
o projeto paulatinamente e já está em negociação
a abertura de um quiosque no Poupa Tempo da Sé. Segundo o gerente
de marketing, o quiosque quebra a visão de que os produtos da
Jonhson não seriam acessíveis e funciona como canal alternativo
de faturamento.
Mesmo com esse esforço, ainda há muito que avançar.
O marceneiro Eikeson Freitas, 36 anos, ainda acha que os preços
dos produtos não estão tão acessíveis como “estão
divulgando”. Com renda de R$ 800, casado e pai de uma filha pequena,
ele não acredita que o custo de vida tenha melhorado. “Os
preços dos produtos sobem e nosso salário não
acompanha. Vejo no bolso que a situação está ruim
ainda e o povo lá em Brasília levando o deles. Se não
houvesse corrupção, sobraria mais dinheiro pra quem precisa”,
afirma. Concorda sua esposa, Neusa, que acha pouco o esforço
da indústria nos chamados produtos populares. “Tem preço
menor, mas em produto supérfluo, como salgadinho, bolacha, mas
o que não é supérfluo continua caro”, reclama.
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Gazeta do Povo, 2 de janeiro
de 2007
PERSPECTIVAS PARA 2007
Classes C, D e E já compram
60% dos eletrônicos
Fernanda Preto/Arquivo Gazeta do
Povo

Classe popular consome mais eletrônicos.
São Paulo – O processo de sofisticação
do consumo popular pode ser percebido não apenas em alimentos,
mas também em eletrodomésticos, computadores, telefones
celulares e outros eletroeletrônicos. A Associação
Nacional dos Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros)
fez uma pesquisa com seus associados em outubro e descobriu que 60%
do consumo de seus produtos estavam sendo impulsionado pelas classes
C, D e E. Essas classes representam 60% também do mercado de
telefonia celular, segundo uma pesquisa divulgada pela Vivo. Dos clientes
da operadora, por exemplo, 64% têm renda mensal de R$ 480. A
Intel, fabricante de microprocessadores, estima que dos 7,5 milhões
de computadores que serão vendidos em 2006, 1 milhão
foi adquirido por famílias de baixa renda.
“O aumento do consumo de produtos de tecnologia
dessas classes nos levou a ter uma relação mais forte
com os varejistas, na busca de preços baixos e de como conquistar
o consumidor, e até ações de marketing e merchandising
em novela”, conta Elber Mazaro, diretor de marketing da Intel
Brasil.
O funcionário público Carlos Santana
Melo, 31 anos, já está partindo para o segundo computador.
Na fila do ônibus fretado pelas Casas Bahia numa grande estação
de metrô em São Paulo, estava ansioso para chegar à Super
Casas Bahia, montada pela rede varejista no espaço de feiras
do Anhembi. Com o salário de R$ 1 mil, Melo parcelou seu primeiro
PC há um ano. “O novo ficará comigo e o velho vou
dar para minha filha, para ela aprender a utilizar”, conta, ao
lado da filha.
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O ESTADO DO
PARANÁ, 31 de dezembro de 2006
No último dia do ano de 2006
Edésio Passos
Na edição de “Direito e Justiça” de
02/03/2003, publicamos o artigo “Depois do Carnaval”, na
edição de 28/12/2003 o texto “No Natal e Antes
do Carnaval”, na edição de 19/12/2004 “Antes
do Natal, do Ano Novo e do Carnaval” e na edição
do primeiro dia do ano de 2006 o texto “No Último Dia
do Ano de 2006”. Com esta análise, retornamos à retrospectiva
das condições político-sócio-econômicas
e seus reflexos nas relações de trabalho face o ano que
se finda e do ano que se inicia. Já afirmamos: “Momento
de reflexão do que passou, análise de nossa situação
no presente, já projetando o futuro próximo.
Exercício individual, também se verifica
coletivamente nas instituições públicas, empresas,
sindicatos, partidos políticos, igrejas, escolas, organizações
da sociedade civil, na busca da interação do desenvolvimento
pessoal-familiar-profissional com o crescimento de toda a sociedade”.
Esta análise, para 2006, do ponto de vista econômico e
das relações de trabalho, se enriquece com o estudo do
resultado eleitoral, no País e nos Estados, assim como no Congresso
Nacional. A esmagadora vitória do Presidente Luiz Inácio
Lula da Silva se inscreve como um dos momentos de maior significado
na história política da América Latina.
Números para comparação
Comparativamente, relembro alguns dados e questões
suscitadas nos artigos anteriores e aponto cenários para um
período que envolverá o ano que se inicia. Macroeconomia: (1)
a taxa de juros era 18% em 09/02, avançou até 26,5% no
início de 2002 e progressivamente foi reduzida para 17,25% em
2004. Em 2005, depois de atingir 19,75% em maio, iniciou queda para
ser fixada em 18% em dezembro e, agora, 13,5% (selic) (2) o real perante
o dólar, então em R$ 3,63, passando a R$ 2,70, no início
do ano em cerca de R$ 2,20 e hoje R$ 2,15 (3) o risco-Brasil que atingia
a 1.600 pontos para 198 pontos (menor nível da história)
(4) o saldo comercial de 11 bilhões de dólares (2002),
o dobro em 2003, ou seja, 22 bilhões de dólares, avançando
para cerca de 32 bilhões de dólares em novembro de 2004,
crescendo para 44 bilhões de dólares em 2005 e neste
momento mantendo o saldo positivo de US$ 44 bilhões, sendo 135
para as exportações e 91 para as importações,
no maior resultado já verificado em nosso país (5) em
2003 resultado quase negativo do produto interno bruto (apenas +0,5%),
sinalizando a necessidade da retomada mais conclusiva da política
de crescimento econômico, o que ocorreu durante todo o ano de
2004, com o PIB no patamar de 4,9%. Mantida a política de contenção
inflacionária, com redução nos preços,
o reequilíbrio nas contas externas, superávit nas exportações
e novos investimentos externos, foi superado o quadro recessivo que
se afigurava. Mas em 2005, de uma previsão de superar o percentual
de 2004, fechou o ano em cerca de 3%, mantido em 2006, sendo o desafio
para 2007 em atingir 5% (6) no final de 2005, a quitação
antecipada da dívida com o FMI (US$ 15,5 bi) possibilitou a
economia de US$ 900 mi em juros, com o crescimento de US$ 15 bi para
US$ 51 bilhões, de 2003 a 2005, de reservas líquidas
do país, finalmente atingindo o total-récorde de US$
83 bilhões neste final de ano.
Inflação: em 2002 o índice
inflacionário foi de 14,74% - INPC/IBGE, balizador de reajustes
salariais nas negociações coletivas - atingindo 16,33%
entre 02/02 a 01/03. De 12/02 a 11/03 o índice ficou em 12,76%,
registrando 5,72% no período de 12/03 a 11/04 e, nos últimos
doze meses de 2005, percentual de 6,22%, e em 2006 em 2,59%, consolidando
a unificação entre preços dos produtos e índices
dos reajustes salariais, equilibrando o mercado de trabalho. Foram,
portanto, três anos (2004/6) em que, depois de um longo período
de instabilidade, os índices relativos ao crescimento dos preços
se estabilizaram, tornando-se um dos pilares fundamentais da política
econômica oficial.
Negociações salariais: em
2002, pouco mais da metade das categorias profissionais conseguiu fixar
o reajuste salarial respeitado o INPC anual. Já o resultado
de 2003 foi de 53% das categorias com reajustes abaixo do INPC, embora
no 2.º semestre algumas delas (bancários, petroleiros,
químicos, metalúrgicos, por exemplo) tivessem conseguido
reajustes acima dos índices de inflação. Houve,
portanto, quadro semelhante em 2002 e 2003, embora a queda inflacionária
possibilitasse a manutenção do poder aquisitivo em patamares
mais elevados do que no ano 2002. Em 2004, ocorreu avanço na
quase totalidade dos acordos, convenções coletivas de
trabalho e acordos sobre a participação nos lucros e
resultados, pois a grande maioria registrou percentuais iguais ou superiores
ao INPC do período. Em 2005, cerca de 80% obteve ganhos reais
de 1 a 2% acima do INPC, repetindo-se o mesmo patamar em 2006 (89%),
os melhores resultados desde 1996, também no Paraná.
Os reajustes e aumentos salariais, inclusive no setor público
(administração direta e indireta), permitiram a reposição
parcial de perdas salariais acumuladas ao longo dos anos.
Salário mínimo: Este
um dos pontos fundamentais. Em 1.º de abril de 2007 o novo salário
mínimo será de R$ 380,00, reajuste de 8,57%, sendo 5,3%
de aumento real. Está prevista a Política de Valorização
do Salário Mínimo até 2023, com revisões
quadrianuais e antecipação da data-base progressiva até janeiro
no ano de 2010. O ganho real com o mínimo será de 32,7%,
entre abril de 2007/2002. O aumento nominal terá variação
de 90%, de R$ 200 para R$ 380. Face o dólar, o valor equivale
a US$ 177 (R$ 2,15). Em 01/2003 equivalia a 56 dólares. Das
cerca de 160 milhões de pessoas no País em idade ativa,
25% têm rendimento de até um salário mínimo.
Segundo o Ministério da Previdência Social, em outubro
de 2006, havia 15,9 milhões de beneficiários que recebiam
um salário mínimo.
Emprego formal e desemprego: Em 25.11.05
foram divulgados pelo IBGE os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra
de Domicílios (Pnda), com o aumento do número de empregos
em 3,3% em relação a 2003 (o segundo melhor desde 1992),
acréscimo de 2,7 milhões de trabalhadores ocupados, sendo
que a taxa de desemprego caiu de 9,7% para 9%, equivalente a 8,2 milhões
de desempregados. A renda média do trabalhador permaneceu em
R$ 733,00, já descontada a inflação. Em 21.12.06,
o IBGE, em sua pesquisa mensal de empregos, em seis regiões
metropolitanas (Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São
Paulo e Porto Alegre), registrou a taxa de desocupação
em 9,5% em novembro, sendo o rendimento médio mensal de R$ 1.056,60,
com um ganho acumulado no ano de 5,7%. Quanto aos empregos formais,
de novembro de 2005 a novembro de 2006 houve acréscimo de 6%,
ou seja, mais 487 mil postos de trabalho com carteira assinada nas
referidas regiões metropolitanas.
Avaliações de 2003
a 2005
(a).Escrevíamos no início
de março de 2003 que “o desafio, pois, será encontrar,
nesse quadro de dificuldades locais, herdado de uma política
econômica neoliberal por oito anos, e nas turbulências
da política internacional norte-americana, as fórmulas
eficientes para superar a crise, gerar empregos e renda e estabelecer
um ponto de equilíbrio nas relações entre capital
e trabalho, que são as indicadoras da harmonia social Eis algumas
das difíceis tarefas que se colocam para todos nós, depois
do carnaval”.
(b). No final de 2003, assinalávamos
que “hoje, durante as festividades do Natal temos a certeza que
a política macroeconômica foi controlada, o processo inflacionário
está sendo reduzido a quase zero ao mês, o real readquire
sua capacidade de compra, o risco país foi drasticamente rebaixado,
a balança comercial é favorável, a credibilidade
internacional brasileira está em alta. As condições
para o combate ao desemprego estão colocadas. Ainda na avaliação
da CUT, “para 2004, as perspectivas de crescimento são
positivas. A partir da redução da taxa de juros, haverá uma
queda da dívida pública e aumento da oferta de crédito,
estimulando o consumo e os investimentos produtivos. A retomada do
desenvolvimento do nosso país passa pelos investimentos em produção
de bens de capital, com fortalecimento da indústria nacional.
Para isso é preciso reduzir o superávit primário
para gerar emprego e renda e desenvolver uma política social
integrada e audaz”. Já o ministro Antônio Palloci,
em entrevista a Agência Estado (21.12.03) assinalava que o governo
vai ser proativo na questão do emprego, pois “o Brasil
precisa de um compromisso,na retomada do crescimento, de distribuir
renda. Essa é uma política que gera emprego. O Brasil
já cresceu a taxas baixas e altas, mas nunca distribuiu renda.” E
indica a fórmula: “O que o presidente Lula tem usado muito é que
o Brasil agora vai crescer para todos. A novidade é, primeiro,
a possibilidade de arrumação da casa de longo prazo;
segundo, crescimento de longo prazo e terceiro, crescimento com distribuição
de renda. Isso já é outro Brasil”.
(c).Já em novembro de 2004,
escrevemos: “Embora, alguns desses fatores tivessem sido confirmados,
ainda persistem grandes dificuldades para o ano de 2005, como as mesmas
questões cruciais do final de 2003 a serem enfrentadas, “entre
elas a da dívida pública, interna e externa, a dependência
do país em face ao capital internacional, a especulação
financeira e a necessidade de controle desse capital especulativo”
(d) e, em 2005, “acrescente-se,
a questão relacionada com a queda do dólar em relação
ao real, podendo gerar problemas nas exportações. A avaliação
empresarial é no sentido de manter as taxas de crescimento,
em conseqüência, de manter os investimentos e persistir
na geração de empregos, embora persista a reivindicação
relacionada com a queda da taxa dos juros, ponto essencial para o empresariado.
As entidades sindicais dos trabalhadores assinalam com o aumento significativo
do salário mínimo e correção da tabela
do imposto de renda, como fatores emergenciais”.
Avaliações de 2006
Como os números indicam, o ano de 2006 caracterizou-se
pelo aprofundamento da política do governo federal buscando
o aumento da renda/salário/emprego, a queda e controle dos preços,
o pagamento das dívidas/crescimento das reservas cambiais, aumento
nas exportações, a queda dos juros, mais investimentos
público/privados, entre outros fatores, consolidando e estabilizando
o campo econômico. Esse o principal fator quanto ao resultado
político-eleitoral, com a recondução do Presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente sustentado pelas camadas
mais pobres da sociedade, beneficiárias diretas da implementação
econômica. No plano das relações de trabalho, repetiu-se
a estabilidade atingida em 2005, refletida nas negociações
coletivas e na quase inexistência de paralisações
do trabalho no setor privado. Assinalamos no texto inicial de 2006
que “quatro pontos ainda para definir no ano que se abre: a reforma
sindical, medidas de combate a flexibilização e precarização
da lei trabalhista, a complementação da reforma do Judiciário
e a aprovação do pacote da reforma processual” Desses
pontos, apenas avançou o pacote da reforma processual, com várias
leis já sancionadas e em vigor ou às vésperas
de serem aplicadas. O ano de 2007 marcará a retomada destas
e de outras importantes questões, juntamente com a análise
das medidas necessárias para destravar o país e fazer
avançar seu crescimento econômico/social em sua infra-estrutura
basicamente.
Renovar a Esperança
Renovamos nossa mensagem do final de 2004, porque continua atual: “Que
as confraternizações do Ano Novo nos unam e revigorem e que,
passadas as férias, depois de Carnaval, já estejamos dispostos
a enfrentar velhos e novos desafios que se nos colocam neste pais tão
maravilhoso pela sua gente e natureza, mas tão desigual e injusto para
milhões de excluídos”.
E-mail: edesiopassos@terra.com.br.
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Folha de Londrina, 31 de dezembro de 2006
Reforma trabalhista volta a ser
discutida em 2007
E se prevalecer a visão do governo, os
sindicatos sairão fortalecidos dessa discussão com empresários
Gervásio Baptista/Abr

Marinho: ‘‘Vamos pedir ao sindicalista que se coloque na cadeira
do dirigente da empresa, e vice-versa’’
Brasília - Um tema espinhoso consta da agenda do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva no ano que vem: a reforma trabalhista.
Deixada em segundo plano durante o primeiro mandato agora ela voltará à pauta,
segundo o ministro do Trabalho, Luiz Marinho. ''É uma discussão
complexa, polêmica, e se não for bem conduzida não
vai a lugar algum'', comentou. ''Vamos começar com uma discussão
informal entre as partes, longe das pressões dos holofotes.''
Marinho acredita que, diante das câmaras e microfones, empresários
e sindicalistas vão procurar marcar posições políticas
e tenderão a valorizar os pontos de divergência. É o
oposto do que se pretende: desarmar os espíritos e buscar um
acerto.
A idéia é convidar empresários e sindicalistas
a propor mudanças que sejam aceitáveis pela outra parte.
''Vamos pedir ao sindicalista que se coloque na cadeira do dirigente
da empresa, e vice-versa'', disse o ministro. Sobre o que pode ser
o resultado dessa discussão, Marinho não arrisca previsões.
Porém, dá uma pista: se prevalecer a visão do
governo, os sindicatos sairão fortalecidos dessa reforma.
''A legislação brasileira é feita para proteger
o indivíduo, mas hoje eles têm uma organização
coletiva'', disse, referindo-se aos sindicatos. ''Por isso, eu digo
que a reforma trabalhista tem de caminhar junto com a reforma sindical.''
Marinho dá como exemplo o direito a férias de 30 dias.
''Existem muitos detalhes na legislação sobre como o
empregado deve gozar os 30 dias'', comentou. O ministro acha que esse é um
ponto da legislação que pode ser simplificado, ficando
a critério de empregados e empresa a melhor forma de exercer
esse direito.
Outro problema na legislação apontado por Marinho é o
fato de os acordos coletivos não poderem durar mais do que dois
anos. Ele e Lula acreditam que esse instrumento seria mais eficiente
se pudesse envolver entendimentos para prazos mais longos. A principal
queixa dos empresários é o elevado preço de se
manter um empregado formal. Há estimativas pelas quais os custos
acessórios são de aproximadamente 100% do salário
pago ao empregado. O ministro, porém, afirma que esse cálculo é um
''mito''.
Elogios - Em alta no governo depois que conduziu
a negociação com as centrais sindicais que terminou na
fixação do salário mínimo em R$ 380 e numa
política de correção automática desse valor
ao longo dos próximos quatro anos, Marinho é tido como
um nome praticamente certo para permanecer no segundo mandato. Ele
recebeu muitos elogios de Lula durante o jantar de confraternização
do primeiro escalão do governo, na semana passada.
O presidente é muito grato a ele e às centrais sindicais,
pelo apoio que recebeu no auge da crise do mensalão. O ministro
nega que tenha brigado com seu colega da Fazenda, Guido Mantega, por
causa do valor do salário mínimo. Até o último
minuto, Mantega defendeu que o mínimo ficasse em R$ 367. O valor
de R$ 380 foi decidido numa reunião no Planalto à qual
o ministro da Fazenda não estava presente, pois se encontrava
no Congresso Nacional.
''Não teve nada dessa história de atropelar o ministro
da Fazenda'', afirmou Marinho. Ele explicou que Mantega defendia o
valor menor como uma estratégia de negociação.
''Se começássemos a negociar em R$ 380, é claro
que o valor final ficaria maior'', comentou.
A versão de Marinho é confirmada por técnicos
da área econômica. Desde o início das negociações,
o governo já estava preparado para um mínimo um pouco
maior do que os R$ 375 que constavam da proposta do Orçamento
de 2007. Também não havia a menor esperança que
a regra de correção do mínimo fosse algo inferior
ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Ou seja, Mantega defendeu
um mínimo de valor mais baixo, como é função
de seu cargo, mas não fez uma oposição ferrenha.
Marinho comentou que, quando o Ministério da Fazenda era comandado
por Antonio Palocci, essas negociações eram bem mais
difíceis.
Lu Aiko Ottae Vera Rosa - Agência Estado.
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Notícias do Tribunal Superior do Trabalho
02/01/2007
TST valoriza composição
entre as partes em dissídio de greve
A função da Justiça do Trabalho no exercício
do seu poder normativo, sobretudo em relação aos dissídios
de greve, deve estar voltada prioritariamente à pacificação
do conflito entre as partes. Sob esse entendimento, manifestado pelo
ministro Milton de Moura França (relator), a Seção
de Dissídios Coletivos (SDC) do Tribunal Superior do Trabalho
negou recurso ordinário ao Ministério Público
do Trabalho (MPT) da 3ª Região (Minas Gerais), num processo
que envolveu empresas e trabalhadores do sistema de transporte coletivo
de Belo Horizonte. A decisão unânime do TST afasta a execução
de multa superior a R$ 1,2 milhão contra o sindicato profissional,
que alcançou – durante o curso do dissídio coletivo – acordo
com o sindicato patronal que pôs fim ao dissídio.
“Salvo a prática de graves ilícitos no curso do
movimento grevista, a composição do conflito por interesses
das partes deve ser prestigiada”, afirmou Moura França
ao destacar a necessidade do Judiciário Trabalhista valorizar
as soluções encontradas pelos diretamente envolvidos
nos conflitos coletivos.
A questão examinada pelo TST remonta a março de 2002,
quando o Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros de Belo
Horizonte (Setransp) ajuizou dissídio coletivo, com notícia
de greve, contra o Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Ferroviários
em Belo Horizonte e Região. O objetivo da iniciativa patronal
era o de obter sentença normativa que disciplinasse as relações
trabalhistas entre as partes tendo em vista o período entre
1º de fevereiro de 2002 e 31 de janeiro de 2004.
À época, diante da paralisação do setor,
o TRT determinou que fosse garantida a presença ao trabalho
dos profissionais necessários ao funcionamento mínimo
de 50% da frota de transporte coletivo na capital mineira. Em caso
de descumprimento da ordem, foi fixada multa diária de no mínimo
R$ 150 mil. A inobservância parcial da determinação
judicial pelo sindicato dos trabalhadores teria acarretado um total
de R$ 1.280.000,00 a título de multa.
Em abril de 2002, contudo, as partes encontraram uma composição
satisfatória, fato que levou o sindicato patronal a pedir a
desistência do processo de dissídio coletivo, solicitação
que foi homologada pelo TRT, que também afastou a aplicação
da multa. “A aplicação de sanção
poderia ter efeito contrário e deflagrar de novo o desentendimento
e a disputa entre as partes, colocando novamente em risco o interesse
público envolvido e a utilização dos serviços
de transporte da cidade”, considerou o órgão regional.
O posicionamento adotado pelo TRT-MG não foi aceito, contudo,
pelo Ministério Público do Trabalho local. Sob a alegação
de necessidade de cumprimento das ordens judiciais, o MPT defendeu
a obrigatoriedade da execução da multa. “Se está comprovado
nos autos o descumprimento da ordem judicial, o consectário
lógico é que a multa incide inexoravelmente, visto que
ofendida a própria ordem jurídica”, afirmou em
seu recurso.
No TST, o relator da causa classificou como razoável a postura
regional uma vez que, após a conciliação entre
as partes, a multa perdeu sua exigibilidade. “Em momento algum
o TRT afirma que houve lesão ao patrimônio da empresa
e prática de outros ilícitos, mas sim descumprimento
parcial da ordem que, no seu entender, não poderia ser tratado
com rigor excessivo, como se a hipótese fosse de ação
objetivando a responsabilidade civil ou penal”, concluiu Moura
França ao negar o recurso. (RODC 329/2002-000-03-00.4)

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