Agência Diap, 4 de
janeiro de 2007
Congresso Nacional
52ª Legislatura não
foi das piores, mas “atípica”, segundo Antônio
Augusto
Em entrevista ao sítio Congresso em Foco, o diretor de Documentação,
jornalista e analista político do DIAP faz um breve balanço
da 52ª Legislatura. Para Antônio Augusto de Queiroz (Toninho),
o Congresso que encerrou seus trabalhos em dezembro de 2006, apesar dos
sucessivos escândalos envolvendo parlamentares, a Câmara
dos Deputados e o Senado Federal aprovaram matérias importantes.
Com um olhar de quem tem experiência
em acompanhar os movimentos do Legislativo desde a redemocratização
do País, Toninho avalia que esse Congresso acirrou o acompanhamento
da sociedade com relação aos seus representantes no Parlamento.
Para a próxima legislatura, os parlamentares deverão
estar mais atentos com relação ao seu comportamento no
Legislativo.
Veja a íntegra da entrevista
realizada pelo repórter Ricardo Taffner, publicada no sítio
Congresso em Foco.
Congresso em Foco – Este
ano foi atípico no Congresso por causa das eleições,
uma vez que os parlamentares fizeram o chamado “recesso branco”.
Apesar dos escândalos, os parlamentares aprovaram projetos importantes
como o Fundeb e a Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas. Como você avalia
o Congresso em 2006?
Antônio Augusto – O
ano de 2006 foi absolutamente atípico porque o primeiro semestre
foi todo tomado pela crise política. Além disso, houve
uma eleição no segundo semestre, que praticamente paralisou
o processo legislativo no Congresso Nacional. Apesar disso, a Câmara
e o Senado, nas poucas vezes que se reuniram, conseguiram aprovar as
principais pendências da legislatura anterior. Aprovaram a LDO,
o orçamento, a Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas, o Fundeb,
a lei geral do saneamento, e outras matérias menos relevantes
que bloquearam a pauta nesse período. Ficaram pendentes para
o próximo ano muito poucas matérias desta legislatura,
como a Super-Receita – porque não houve acordo na Câmara
para concluir a votação – e a Lei do Gás.
No mais, em quase todos os outros pontos houve votação
conclusiva.
Apesar da crise política
e da eleição, este foi um ano produtivo?
É, apesar dessas coisas, foi
o ano que se conseguiu aprovar algumas matérias muito relevantes
da atual legislatura. Foi um ano também de muita articulação
política para as bases do segundo mandato. Nós viemos
de uma eleição presidencial que, do ponto de vista econômico,
não há precedente na história do país.
Um presidente vai assumir com relativa tranqüilidade. Mesmo o
Fernando Henrique, no segundo mandato, teve um problema de crise cambial
gravíssimo, tanto que, antes mesmo da posse, teve de tomar medidas
drásticas. No caso do presidente Lula, ele tem dois desafios
pela frente. O primeiro é de natureza gerencial. Há gargalos
ainda pendentes e, se não conseguir destravar esses gargalos,
dificilmente vai conseguir fazer com que o país cresça
na dimensão esperada.
Esses gargalos estão na área
econômica ou na área política? Estão basicamente
na gerência de infra-estrutura do país. Há uma
série de pendências que têm relação
com outras políticas que envolvem a equipe econômica,
mas o ponto central é de natureza gerencial e está vinculado às
questões da área de infra-estrutura. Por exemplo, há uma
série de matérias na área de meio ambiente com
pendências que não têm uma relação
direta com a legislação ambiental. Mas há incapacidade
ou falta de unidade do governo para decidir a respeito. Se isso vai
ser possível ou não, é outra questão, mas
tem pelo menos que decidir e não ficar segurando eternamente.
Houve agora recentemente a aprovação de uma matéria
extremamente polêmica nessa área, que foi a questão
dos transgênicos. É uma MP que tem problemas graves. Mas
houve avanço significativo. A lei das florestas foi aprovada,
uma série de outras medidas importantes caminhou, mas a área
ambiental tem esse problema de agilidade na tomada de decisão.
Isso tem, em grande medida, atrasado alguns investimentos.
Qual o outro desafio de Lula?
O segundo aspecto é de natureza
política. Da base de sustentação. Para isso, o
governo vai precisar ter uma interlocução muito forte
com os partidos da base e uma participação significativa
dos governadores nesse processo.
O presidente está tentando
atrair diversos partidos como PDT e PMDB. Como vai ficar o governo
de coalizão?
Se, de um lado, o governo de coalizão
dá tranqüilidade para aquilo que houver acordo andar, de
outro, é um processo muito penoso, que exige muita negociação,
muita capacidade de articulação e coordenação.
De qualquer maneira, existe a garantia de que aquilo que for acordado
será respeitado pela base de sustentação. Um outro
dado relevante nesse processo, que facilita a vida do governo, é o
fato de que na eleição presidencial não houve
muita divergência entre oposição e situação.
Os dois principais candidatos tinham concordância em relação
ao crescimento econômico e à necessidade de se fazer algumas
mudanças. A população referendou isso. A manutenção
e ampliação dos programas de distribuição
de renda, a redução da carga tributária e a responsabilidade
fiscal para que os três pilares permaneçam conduzindo
a orientação econômica.
Quais são esses pilares?
São as três condições
para o crescimento sustentável: a inflação sob
controle; câmbio com bandas, mas trabalhando na perspectiva do
equilíbrio; e redução da carga tributária.
Além de continuidade da redução dos juros. Isso
a população parece ter referendado durante a campanha.
Não houve debate sobre reforma da previdência; portanto,
acho muito difícil que essa matéria faça parte
da pauta do governo. As reformas estariam limitadas a três: a
política, a sindical – com um aspecto ou outro da trabalhista –,
e a fiscal, com perda da receita e da despesa. A parte tributária,
na minha avaliação, é o ponto mais difícil
para o governo operacionalizar, apesar de que ele terá condições
favoráveis na nova legislatura. Uma vez que os governadores
vão ter um papel decisivo nesse processo.
Qual será a participação
dos governadores?
Eles estão interessados em pelo
menos cinco medidas que partam do governo federal. E dessas cinco,
o governo vai ter condições de atender duas ou três.
A primeira é para renovar a DRU (Desvinculação
de Receitas da União). Os governos estaduais querem criar uma
espécie de DRE (Desvinculação de Receitas Estaduais)
para permitir a livre movimentação das parcelas dos recursos.
O segundo aspecto é a redução da margem de endividamento
dos estados, que o mínimo hoje é de 13% e o máximo,
se não me engano, de 22%. É uma margem muito grande que
os governadores trabalham para reduzir. O terceiro aspecto diz respeito
ao aumento da participação dos recursos federais nos
fundos de participação dos estados e municípios.
O quarto seria a ampliação da participação
dos estados nos recursos da Cide (Contribuição de Intervenção
no Domínio Econômico). Se não me engano, hoje é partilhado
com os estados em torno de 29%. Uma outra reivindicação
dos governadores, especialmente dos estados exportadores, é a
ampliação dos recursos ou dos fundos vinculados à Lei
Kandir – compensação pela perda de receitas em
função das exportações. Por último,
uma outra possibilidade que se cogita, mas acho essa muito remota,
seria uma espécie de participação dos estados
na CPMF. Isso, se houver, não será diretamente na receita
da CPMF, mas seria na ampliação do fundo de participação
dos estados.
Quais são as vantagens
do governo ao atender as reivindicações dos governadores?
As vantagens são basicamente
as seguintes: o governo vai contar com a coalizão que certamente
lhe dará apoio para aprovar a agenda. Em segundo lugar, os governadores
da oposição que vão pesar mesmo são os
do PSDB. O PFL elegeu só um governador, no Distrito Federal,
que depende excessivamente do governo federal e não vai criar
maiores problemas, além de não ter vínculos históricos
com o PFL, que é o deputado José Roberto Arruda. Com
os tucanos sim, o governo poderia ter problema. Mas quando a gente
decompõe a situação do PSDB no plano dos governos
estaduais, percebe que os dois principais estados, São Paulo
e Minas Gerais, são governados por dois políticos que
querem que o país esteja saneado em 2010. Até porque
aspiram a disputar a presidência da República. Além
disso, são pessoas de diálogo e não vão
fazer oposição ostensiva, pelo menos nos dois primeiros
anos.
Dos outros quatro estados, dos seis
do PSDB, um fica na região Norte, sem nenhuma influência
na composição estadual, que é Roraima. Os outros
três, que poderiam fazer oposição ostensiva, são
Rio Grande do Sul, Alagoas e Paraíba. Coincidentemente são
os três estados mais endividados do país. Eles vão
precisar muito do governo para renegociar as dívidas e repactuar
uma série de medidas do governo federal, no modo que possam
ter êxito nos seus governos. Então o presidente, do ponto
de vista dos governadores, terá uma posição razoavelmente
confortável.
Existem outras vantagens?
Outras vantagens são os apoios
nas reformas que dependem de emenda da constituição:
política, sindical e fiscal. O mais complicado de todos vais
ser a tributária e fiscal. A CPMF e a DRU vencem no final do
ano que vem e sem esses dois mecanismos – um significa receita
concreta com entrada de recursos, e o outro significa possibilidade
de governança – ninguém governaria o país.
Essa importância dos governadores
na articulação política não era tão
forte no passado. Por qual razão eles estão ganhando
tanta força?
É verdade. O grande problema é que
com a crise política no Congresso, os governadores que antes
se apresentavam como atores secundários, ganham uma posição
muito grande. O Congresso está muito desgastado e tem que ter
alguém para fazer essa interlocução. O segundo
aspecto é que a agenda de reforma vai passar pelo diálogo
com os governos estaduais na medida em que muitos deles estão
numa situação pré-fragmentar. Ou o governo revê e
repactua as dívidas ou cria mecanismos de compensação.
Então há esses dois aspectos: a deslegitimação
do Congresso, e a agenda direta com os governos estaduais. Toda a interlocução
política está com o presidente da República e
ele vai preferir fazer diretamente com os principais partidos e, quando
isso não for possível, envolver os governadores.
O PMDB sempre teve muita importância
devido o tamanho da sua bancada e sua história. Apesar disso,
carrega a fama de ser um partido dividido. Uma parte geralmente apóia
o governo e outra a oposição. Você acha que desta
vez o PMDB se une?
Esse é um dado interessante a
ser identificado. Mesmo com a postura de independência em relação
ao governo no período anterior à sua entrada na base
de sustentação, foi o PMDB que garantiu a aprovação
das reformas do presidente Lula. Fica a impressão de que o PMDB
sempre foi profundamente dividido, mas o índice de divergência
dentro do partido ficou no patamar de 20% em relação à orientação
da liderança. O que significa dizer que ele agiu mais ou menos
unido em torno das matérias programáticas sob as quais
houve negociação. Desta vez, a tendência é que
haja uma maior unidade porque o setor que faria oposição
ao governo participou de um processo de aproximação muito
grande. Por exemplo, o [deputado] Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) era
um dos líderes da ala oposicionista e hoje está mais
próximo do governo do que nunca. O [senador eleito] Jarbas Vasconcelos
(PE), que fez oposição, é um político que
sempre se pautou pela ética da responsabilidade e não
vai entrar em nenhuma aventura para inviabilizar o governo do presidente
Lula. A disposição de efetivamente fazer um governo de
coalizão, em que se entregue de porteira fechada a responsabilidade
em relação ao resultado, dá a segurança
para que a margem de divergência de 20% se reduza. Acho que a
entrada do PMDB no governo com a negociação feita desde
cedo vai ser com unidade. O custo disso provavelmente será elevado,
mas este é o preço que o presidente vai ter que pagar
para contar com um grande partido na sua base de sustentação.
Qual é o custo do apoio
peemedebista?
Esse custo passa necessariamente por
compromissos em relação a cargos, entregar os ministérios
com porteira fechada. Naturalmente o presidente vai exigir qualidade
técnica para que se cumpra a coalizão programada. Também
vai passar pela negociação do conteúdo da política
pública. O presidente, que antes não dava satisfação
a ninguém, vai ter de conversar previamente antes de encaminhar
as matérias. A liberação dos recursos do orçamento
vai precisar estar em sintonia com o programa de governo e também
não há mais ambiente político para distribuir
cargos sem a devida capacitação dos seus ocupantes. Não
dá para distribuir recursos de forma desordenada porque ficou
evidente que isso levou a desvio de conduta, levou a roubalheira mesmo
e a crises de razão de incompetências e vaidades. Agora
vai ter que lidar com muita responsabilidade com esses temas porque
a sociedade vai fiscalizar e não vai permitir que se repitam
as bandalheiras que aconteceram na legislatura passada.
Você acredita que a união
do PMDB com o governo irá viabilizar as reformas? Há muito
se fala na importância de aprová-las, principalmente a
reforma política, que foi tão divulgada durante as campanhas
eleitorais. Havia um consenso sobre essa necessidade, mas depois da
eleição parece que o tema foi esquecido.
É verdade. A reforma política é um
tema sempre recorrente e muito polêmico. Há um consenso
sobre a necessidade da reforma, porque as pessoas identificam nela
a solução para os problemas, mas não há nenhum
acordo sobre o conteúdo. Ela prejudica os interesses de médios
e pequenos partidos. Qualquer que seja o formato desenhado, os grandes
vão querer um tratamento diferenciado em relação
aos pequenos. Especialmente no que diz respeito ao direito de antena,
ou seja, ao espaço no horário eleitoral gratuito, e em
relação aos recursos do fundo partidário. Isso
vai ser uma polêmica eterna. Muito provavelmente a reforma vai
sair porque. ao contrário do que se imagina, a derrubada pelo
Supremo [Tribunal Federal] da cláusula de barreira não é um
elemento que desestimula a reforma, mas dá gás porque
os grandes poderiam se acomodar em razão do fato de já ter
se beneficiado por essas regras de antena e fundo partidário.
Como isso, voltou-se à estaca zero.
As lideranças vão ter
que fazer um esforço muito grande. E dessa vez conta com a ação
do governo federal, que nunca entrou nessa disputa. Uma possibilidade
concreta é que haja o fim das coligações nas eleições
proporcionais, mas que se admita em contrapartida a federação
dos partidos, como uma forma de preservar os ideológicos. Como
a federação de partidos tem como pressuposto a vinculação
orgânica de pelo menos três anos, você elimina aquele
inconveniente próprio dos partidos de aluguéis que fazem
um acordo só para ganhar a eleição, depois já se
vende para outro. Também deve vir a lista fechada, mas com a
possibilidade da federalização. Ainda pode ser que seja
aprovado o financiamento público de campanha...
Que foi um dos grandes temas da última
eleição.
Enquanto houver financiamento privado
no Brasil, vai haver corrupção. Vai haver uma relação
promíscua como existe em qualquer lugar do mundo entre quem
financia e quem é financiado. Uma decorrência da reforma
será a fidelidade. Se houver um fechamento da lista, o mandato
passa a ser do partido e não mais do candidato. Embora tenha
o inconveniente de entregar a condução efetiva dos partidos
aos caciques – caso os dirigentes não abrirem as decisões às
convenções com as minorias dos partidos – os grandes
partidos vão jogar todo seu peso para viabilizar a reforma e
a sociedade está reivindicando isso. Pela primeira vez esse
tema foi debatido na campanha eleitoral, e não tem motivo nenhum
para ficar de fora das prioridades da agenda política.
Os políticos costumam trabalhar
tranqüilamente durante a legislatura devido à falta de
participação do eleitor. Mas os parlamentares tomaram
um susto neste final de ano com a forte movimentação
da população contra o reajuste salarial...
Boa parte dessa crise política
e da imagem desgastada do Congresso decorreu em grande medida do erro
das lideranças políticas e das direções
das Casas. Colocaram algumas matérias em momentos completamente
impróprios para o debate. Por exemplo, a idéia de reajustar
em 91% a remuneração dos parlamentares, em momento que
se buscavam centavos para atualizar o salário mínimo
e com a imagem desgastada foi uma imprudência das maiores. Isso
causou a indignação da população. O ideal
nessa situação seria corrigir o salário dos parlamentares
de acordo com a inflação e aí se estabeleceria
de forma gradual a equiparação do valor do subsídio
do ministro do Supremo, mas ao mesmo tempo reduzindo a verba indenizatória
de tal modo que aconteça o mesmo que houve no Supremo, a adoção
de uma parcela única.
A legislatura que terminou só fez
trapalhada?
Esse Congresso atual, que é tão
cobrado em relação a questão ética e moral,
tomou algumas medidas importantes. Por exemplo, aprovou uma resolução
proibindo que o parlamentar mude de partido tendo como motivação
a disputa por determinado colegiado da casa. Se ele mudar, não
vai fazer qualquer efeito para a disputa, porque o critério
utilizado é o número de parlamentares que os partidos
elegeram. Isso foi importante porque vai reduzir muito a migração
partidária. Outra medida do atual Congresso foi de acabar com
o jeton por ocasião de convocação extraordinária.
Terceiro, reduziu o recesso parlamentar de modo significativo. Foram
medidas importantes que não tiveram a menor repercussão
exatamente em razão do modo pouco cuidadoso que as presidências
da Mesa e as lideranças partidárias conduziram o processo.
Isso vem lá de trás, da tentativa da reeleição
do Sarney e do João Paulo Cunha, da parcela da crise de desorganização
da base do governo, da eleição do Severino e da recondução
dele na Câmara. Houve o próprio erro dos partidos de negociarem
apoio em troca de dinheiro, o chamado mensalão. Agora o Congresso
está numa situação complicadíssima. Não
conseguiu aprovar o reajuste e o jogou para o ano que vem.
Muita gente diz que essa foi
a pior legislatura que já houve no Congresso. Isso é verdade?
O problema é o seguinte. Do ponto
de vista da percepção da população em relação
ao parlamento, de fato essa foi uma das piores. Ela viu o parlamento
de acordo com as informações que são passadas.
E aí é importante saber que houve um trabalho importante
da Polícia Federal, do Ministério Público e da
CGU (Controladoria Geral da União) no sentido de que todas aquelas
mazelas, que antes ocorriam por debaixo do pano, passaram a ser passadas
para a opinião pública. Outro aspecto foram os erros
nas conduções dos partidos com aquelas trapalhadas todas
que geraram a crise política. Com isso a população
teve essa imagem de trapalhões, mercenários, incompetentes,
desvio de condutas e recursos públicos.
Existe uma visão mais
positiva do Parlamento?
O Congresso não foi julgado pela
produção legislativa que fez apesar da crise, mas pela
percepção que a população teve dos desvios
de condutas. Foram aprovadas nessa legislatura leis da maior importância.
Só para citar as emendas da Constituição aprovadas:
a reforma do Judiciário, o Fundeb, a desconstitucionalização
do sistema financeiro, a emenda da reforma tributária e da previdência
do setor público. Matérias relevantes em nível
constitucional. Outros pontos importantes que foram aprovados: Lei
Geral das Micro e Pequenas Empresas, Lei de Falências, Lei da
Parceria Público-privada (PPP), Lei dos Consórcios, Estatuto
do Idoso, Lei de Biosegurança, Estatuto do Desarmamento. Há uma
quantidade significativa de matérias aprovadas que contribuem
para o fortalecimento das instituições, para que o país
tenha crescimento sustentável e para fechar alguns ralos de
desvio de recursos públicos. Uma série de medidas que
não foram consideradas porque o apelo por ética da classe
média, que é muito importante, se sobrepõe ao
conteúdo das políticas públicas aprovadas. A classe
média se indigna corretamente com o desvio de conduta e se tiver
que expressar publicamente sua opinião, ela vai chamar atenção
ao aspecto ético. Não aprova mais aquele “rouba,
mas faz”.
Essa avaliação
deve mudar a atuação dos parlamentares?
Acho que houve uma mudança cultural
importante nesse período. Ficou evidente que a opinião
pública cobra mais. Uma prova disso é que entre os chamados
sanguessugas poucos renovaram seus mandatos. Houve mudança na
legislação para acelerar os processos contra pessoas
que tiveram desvio de conduta. Na próxima legislatura, esses
organismos vão funcionar de forma mais consistentes de modo
que a tendência é que haja mais fiscalização.
O próximo Congresso é pouco diferente do atual do ponto
de vista partidário, mas do ponto de vista ideológico é mais
conservador. Liberal do ponto de vista econômico, mas conservador
no social. Outro dado importante é que o padrão de comportamento
da oposição não vai se alterar muito. Ela faz
oposição ostensiva quando percebe que a política
pública beneficia apenas o governo, com orientação
mais populista à esquerda. Libera a bancada quando há coincidência
de agenda, mas o custo da decisão é concentrado, ou seja,
tem problemas com setores organizados. E apóia de modo ostensivo
quando há coincidência plena de agenda. Com o comportamento
da oposição se mantendo sempre nesses três tipos
de orientação, os governadores serão acionados
sempre que houver coincidência de agendas, mas com custos concentrados,
para diluir esses custos e quando houver uma oposição
mais populista.
O cenário é favorável
ao governo Lula, então?
É uma oposição
para ser, nos primeiros anos de mandato, confortável ao presidente
da República. Desde que ele acerte três coisas: monte
uma equipe ministerial que seja tecnicamente preparada, politicamente
respaldada e eticamente inatacável; forme uma coalizão
consistente que envolva os governadores; e eleja o presidente da Câmara
e do Senado. Se errar em qualquer um desses três pontos, vai
ter dificuldades na aprovação da agenda do governo e
problemas gerenciais.
Dá para arriscar quem
leva as presidências das Casas?
O PMDB com certeza não ficará com
a presidência das duas. E vai ter que tomar uma decisão
importante que é optar pelo Senado. Se fizer isso, tem todas
as chances de eleger, mas, se quiser Câmara e Senado, corre o
risco de ficar sem nenhuma. A tendência natural é que
o PMDB fique com o Senado e, negociadamente, a Câmara fique com
outros partidos da base. Por enquanto, tem dois nomes no páreo,
do PT e do PCdoB. Não dá para antecipar qual dos dois
leva, mas provavelmente ficará com um deles. Só que com
o aprendizado que o governo já teve e com os candidatos que
tem, leais à orientação de Lula, um apelo do presidente
fará que qualquer um deles desista para ter candidato único.
Como ficou a imagem do Aldo
Rebelo (PCdoB) depois da tentativa de reajuste nos salários
dos parlamentares?
O presidente da Câmara usa de
muita habilidade na condução da Casa, mas nesse último
episódio ele saiu chamuscado, porque foi convencido pelos líderes
a supostamente aplicar uma resolução que teria sido aprovada
na legislatura passada. Como não deu o aumento na época,
estender a lei de uma legislatura para outra não é válido.
O presidente achou que era mera formalidade e criou um problema político
da maior gravidade. Com a decisão do Supremo de que isso não
era possível, resolveu então tomar uma posição
que era da sua vontade de fixar o subsídio em um valor significativo,
mas eliminando as indenizações. Aí ficou mal com
todo mundo. Queimou-se com a opinião pública e com os
próprios parlamentares. Então decidiu passar a decisão
para o próximo Congresso e saiu chamuscado. Até então
ele estava ganhando na corrida pela sucessão. Foi beneficiado
pela vitória do candidato do PFL, com a derrota do PT, no TCU;
foi beneficiado pelo fim da cláusula de barreira; mas errou
quando acreditou nos líderes e na própria assessoria
da Casa.
Esse erro pode ter sido fatal?
Esse erro pode significar a não
reeleição dele. Um erro fatal.
Então ficou mais fácil
para o Arlindo Chinaglia (PT)?
No PT o nome mais consistente,
na minha avaliação, é mesmo do Chinaglia. Ele
tem um bom trânsito entre os parlamentares, foi candidato na
eleição anterior, é um senhor de cabeça
branca, muito bem articulado e com autoridade suficiente para conduzir
o parlamento. Com lealdade ao Congresso, sem ser hostil ao presidente
da República. No PCdoB o nome de peso é do Aldo. Só um
desses vai disputar em Plenário. Não se sabe ainda
qual. Vai depender do entendimento com o PMDB, que é o partido
que vai bater o martelo. O PT aparentemente tem vantagem, porque
tem mais de uma vaga na mesa e pode abrir mão para o PMDB
em troca do acordo. O PCdoB teria pouco a ofertar. Para o Aldo se
viabilizar, vai ter que contar com muito empenho do presidente da
República e com o empenho total do Renan [Calheiros, PMDB,
presidente do Senado] e não sei se os dois estão dispostos
a essa exposição. No máximo, o presidente só vai
arbitrar na reta final a favor de quem estiver melhor.