 |
Folha
de São Paulo, 9 de abril de 2007
TENDÊNCIAS/DEBATES
Emenda 3 atenta contra Estado de Direito
MARCUS ORIONE GONÇALVES CORREIA
A emenda 3 constitui um empecilho
na difícil tarefa de reconstrução do Estado brasileiro.
Implica retrocesso social sem precedentes
NO ESTADO democrático
de Direito, a todos os poderes e seus agentes são dadas atribuições
para a defesa da coisa pública. O Poder Executivo tem como dever
a manutenção da legalidade, atuando sem a necessidade
de ser provocado. Se há legislação prevendo as
conseqüências decorrentes da não-formalização
da relação de emprego, havendo a violação,
nada mais óbvio que o agente fiscal de imediato faça
incidir a lei.
A análise do ato ilegal
e a sua punição não são prerrogativas prioritárias
apenas do Poder Judiciário -quedando inerte, a autoridade fiscal
atenta contra o princípio da legalidade e se sujeita a penas
funcionais. O Judiciário atua mediante provocação,
mas esta é desnecessária no caso da administração. É indispensável
viabilizar que o Estado-Executivo atue de ofício diante da ilegalidade
constatada. A necessidade de prévia manifestação
do Poder Judiciário sobre a existência da relação
de emprego, pretendida pela emenda 3, atenta contra essa lógica
básica do Estado de Direito.
Estranhas ainda as motivações
da emenda: livre iniciativa, liberdade contratual plena e competência
exclusiva da Justiça do Trabalho. A livre iniciativa não é valor
absoluto, devendo ser ponderada. A Constituição, quando
a menciona, o faz combinando-a com a dimensão social do trabalho
e ressaltando sua finalidade de assegurar a todos uma existência
digna. Já o Código Civil, citado nos considerandos, não
prega a liberdade contratual plena, e sim que esta será "exercida
em razão e nos limites da função social do contrato".
Por fim, a competência
da Justiça do Trabalho exclui apenas a dos outros ramos do Judiciário
nas matérias indicadas na Constituição Federal.
Impossível mencionar que tais atribuições afastam
a atuação administrativa do Executivo diante de ilegalidades
perpetradas, como no caso de ausência de relação
de emprego na forma da CLT.
Verificada a ilegalidade e
ocorrente a autuação, a empresa tem o direito de defesa
nas vias administrativa e judicial. Não há, no modelo
atual, prejuízos às empresas. Mais nefastos, no entanto,
os efeitos da emenda.
a) Quebra do pilar da atual
política do combate ao trabalho escravo, já que a autoridade
fiscal do trabalho não poderá tomar nenhuma medida imediata
contra a ausência de relação de emprego, aqui patente.
Atualmente, acompanhadas, nos rincões do Brasil, pela Polícia
Federal, as autoridades fiscais do trabalho têm tido papel fundamental
no combate ao trabalho escravo, identificando e autuando as situações
irregulares.
b) Imposição
de um ônus excessivo ao empregado, que não poderá mais
contar com a imediata diligência do Estado diante dos abusos
nas relações de emprego.
c) Diminuição
da receita estatal, com perdas decorrentes da imposição
de penalidades administrativas por quebra de obrigações
trabalhistas e provenientes do não-recolhimento previdenciário.
Não havendo, ainda, norma sobre a suspensão da exigibilidade
do crédito fiscal, enquanto não for ajuizada a ação
trabalhista, há o temor da decadência do direito de o
Estado constituí-lo. Não proposta a demanda, ocorrerá a
extinção do crédito fiscal por inércia
estatal. Aliás, é de estranhar que se possibilite tamanha
perda de receita pelo Estado, proporcionando aumento do déficit
público, tão combatido em questões como a reforma
da Previdência Social.
d) Criação de
um precedente perigoso a futuras atuações de ofício
da administração. A emenda 3 constitui um empecilho na
difícil tarefa de reconstrução do Estado brasileiro.
Como estudioso dos direitos sociais, verifico que implica retrocesso
social sem precedentes na vida brasileira. Como cidadão, registro,
satisfeito, a movimentação de entidades como a Ajufe
(Associação dos Juízes Federais do Brasil) contra
a emenda e constato, esperançoso, que o seu veto representou
o reencontro do presidente Lula com as suas origens.
O Brasil espera poder estender
o agradecimento, que se faz ao chefe do Executivo, aos senhores congressistas,
responsáveis, agora, pela manutenção do veto e
pelo definitivo afastamento das disposições dessa emenda
que assombra o país. MARCUS ORIONE
GONÇALVES CORREIA, 42, doutor e livre-docente pela USP, é juiz
federal em São Paulo, professor e chefe do Departamento de Direito
do Trabalho e da Seguridade Social da Faculdade de Direito da USP.
|
Vermelho, 6 de abril de 2007
Lula ameaça ir ao STF se veto à Emenda
3 for derrubado
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva alertou que entrará com
uma Ação Direta de Inconstitucionalidade no Supremo Tribunal
Federal se o Congresso derrubar o veto da Emenda 3 da Super-Receita. Segundo
a Folha de S.Paulo, o recado foi dado para senadores do PT durante um jantar
na terça-feira (3).
Lula teria afirmado que, num
país com trabalho escravo, o Estado não pode ter o poder
de fiscalização reduzido. O presidente também teria
dito que não pode concordar com um mecanismo que serviria para
camuflar relações trabalhistas. O governo afirma que a
emenda fere o princípio de independência dos Poderes ao
proibir a Receita, no caso o Executivo, de fiscalizar, deixando essa
atribuição com o Judiciário.
A Emenda 3 reiterou que só a Justiça do Trabalho tem poder para
interferir nos contratos e nas operações do profissional constituído
como pessoa jurídica. O governo prometeu encaminhar ainda ao Congresso
um novo projeto de lei alternativo para substituir a Emenda 3.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse na quarta-feira que o projeto será "construído
com toda a sociedade". O primeiro projeto alternativo, enviado logo após
o veto presidencial no mês passado, não agradou nem a parlamentares,
nem a trabalhadores e empresários.
Negociações com Renan
A justificativa é de que ele ampliou o poder discricionário dos
fiscais da Receita Federal no trabalho de fiscalizar os contribuintes. Poder
discricionário é aquele em que garante à administração
pública o direito de decidir sem a interferência do Judiciário.
O ministro já negociou com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL),
o adiamento da votação do veto do presidente, previsto inicialmente
para meados deste mês. Renan acertou com Mantega que vai segurar ao máximo
a votação do veto, até que se consiga negociar uma proposta
de consenso com todos os setores envolvidos.
A Emenda 3 era um dispositivo incluído na legislação que
cria a Super-Receita que proibia os auditores fiscais de multar e até desconstituir
as empresas prestadoras de serviços, caso julgassem que o contrato de
prestação de serviços estivesse disfarçando uma
relação de emprego.
|
Folha
de São Paulo, 6 de abril de 2007
Lula pede que Renan adie votação
do veto à emenda 3
Oposição pressiona senador a acelerar
votação na Casa
DA FOLHA ONLINE, EM BRASÍLIA
O presidente Luiz Inácio
Lula da Silva pediu ontem ao presidente do Congresso, senador Renan Calheiros
(PMDB-AL), que adie ao máximo a votação do veto à emenda
3 da lei que criou a Super-Receita. A emenda, defendida pela oposição,
proíbe auditores da Receita de multar profissionais liberais que
prestam serviço na condição de pessoas jurídicas.
Caberia à Justiça definir sobre a relação
contratual.
Os dois se reuniram ontem no
Palácio do Planalto. Renan se comprometeu a esgotar as negociações
com a oposição antes de levar o assunto ao plenário
para evitar um confronto entre governo e oposição, o que
indica um recuo da parte do senador. Ele vem sendo pressionado pela oposição
para colocar o assunto em discussão na próxima semana.
O veto tem que ser analisado
pela sessão do Congresso. Para ajudar nas negociações,
o presidente disse que irá encaminhar ao Legislativo na próxima
semana uma segunda minuta para substituir o veto, com um texto mais flexível.
Lula promete recorrer à Justiça caso o veto seja derrubado,
mas considera que essa medida pode acirrar ainda mais os ânimos
da oposição no momento em que ele deseja abrir o diálogo
com PSDB e DEM (ex-PFL).
O presidente também
se mostrou preocupado com o empenho de Renan em colocar os vetos em
votação. Ao todo, o Congresso tem para analisar 800 vetos
a projetos aprovados pela Casa e que foram vetados parcialmente ou
integralmente pelo presidente Lula.
|
Folha de São Paulo,
6 de abril de 2007
Com real forte, setor calçadista
gaúcho fecha 4.000 postos de trabalho no 1º tri
SIMONE IGLESIAS
DA AGÊNCIA FOLHA, EM PORTO ALEGRE
A valorização do
real e a alta carga tributária levaram empresas do setor calçadista
gaúcho a fechar 4.000 postos de trabalho nos três primeiros
meses do ano, segundo estimativa feita pela Federação dos
Trabalhadores na Indústria do Calçado do Rio Grande do
Sul. De janeiro até a última quarta-feira, o empresário
Ivanor Ferreira, da Calçados Mithieli, demitiu 300 funcionários.
Em 2005, tinha 800 empregados. Atualmente, apenas 250.
Ele afirmou ontem que a baixa
do dólar dificulta a entrada de seus produtos nos EUA, para onde
costumava exportar, e que acabou dispensando funcionários para
evitar que a empresa entrasse no vermelho. A crise no setor coureiro-calçadista
vem se agravando desde 2005. Naquele ano, 22 mil pessoas perderam o emprego
no Estado. Em 2006, 13% dos postos de trabalho foram fechados, segundo
a FGV. As empresas de calçados são responsáveis,
no Rio Grande do Sul, por 150 mil empregos diretos.
O diretor-executivo da Abicalçados
(Associação Brasileira das Indústrias de Calçados),
Heitor Klein, disse que não há como evitar as demissões
e que a tendência é a de agravamento nos próximos
meses. "As empresas não conseguem fechar negócios,
e a dispensa de funcionários foi a forma encontrada de não
chegarem à falência", afirmou.
O presidente do Sindicato
dos Trabalhadores das Indústrias Calçadistas de Teutônia
(109 km de Porto Alegre), Roberto Müller, disse que as empresas
da região demoraram para começar a demitir porque tinham
expectativa de que o governo federal ajudaria, desvalorizando o real
ante o dólar. Como isso não ocorreu e a queda se acentuou
entre fevereiro e março, não houve alternativa.
|
Folha
de São Paulo, 8 de abril de 2007
Governo petista admite "bagunça" sindical
Após quatro anos no poder, sindicalistas
são incapazes de brecar proliferação de sindicatos,
o que sempre criticaram
No ano passado, foram liberados 307 registros para
novos sindicatos, quase um por dia; número é 24% maior
do que o de 2005
FÁTIMA FERNANDES, CLAUDIA
ROLLI
DA REPORTAGEM LOCAL
O governo Lula, comandado por
sindicalistas, não foi capaz de modificar em quatro anos a "bagunça" que
caracteriza o movimento sindical no Brasil. Alvo de críticas
da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e do PT no passado,
o sindicalismo se mantém com regras que resultam na proliferação
de entidades sem representação e de fachada, com interesses
apenas no dinheiro dos trabalhadores.
Estima-se a existência
de 25 mil sindicatos (patronais e de trabalhadores) no país,
segundo informa o Ministério do Trabalho, a partir de arquivos
da década de 30. Entre 2003 e 2006, o ministério concedeu
1.064 registros para novos sindicatos. Somente em 2006, foram 307 registros
liberados, quase um por dia -número 24% maior do que o de 2005.
Com os registros, esses sindicatos ficaram autorizados a receber parte
do imposto sindical (equivale a um dia de salário). Em 2006,
a arrecadação desse imposto foi de R$ 1,073 bilhão.
A expansão dos sindicatos
resultou numa espécie de "canibalismo" no meio sindical,
segundo advogados, líderes sindicais e membros do governo. Há 20
dias, o ministro Luiz Marinho (então no Trabalho) disse a uma
platéia de sindicalistas do comércio: "Com essa
estrutura sindical, continuarão ocorrendo aberrações,
pois não é preciso comprovar representatividade. Basta
ter lá o registro em cartório. O ministério nega,
vem lá o juiz e manda conceder o registro. Então, virou
uma bagunça danada. Só se muda isso com nova lei com
base na representatividade."
Disputa
A disputa para representar
uma categoria profissional em uma base territorial (município
ou região) resulta em milhares de ações judiciais,
em troca de acusações entre sindicalistas e em afirmações
de que o setor responsável pela concessão de registros
se transformou num "balcão de negócios". Amadeu
Roberto Garrido de Paula, advogado que assessora sindicatos, especialmente
na constituição dessas entidades, sugere uma investigação
do Ministério Público, uma espécie de CPI no departamento
de registros sindicais do MTE.
"O regime que existe lá é antidemocrático.
O poder deles é, na prática, maior do que o da Justiça
na liberação de registros", afirma o advogado, que
tem uma dúzia de pedidos para abertura de sindicatos. Desde
a Constituição de 88, o ministério está obrigado
a conceder registro ao sindicato que foi criado numa assembléia,
respeita a unicidade (uma categoria em uma região) e não
sofreu pedido de impugnação por outra entidade. Só que,
em muitos casos, há dúvidas sobre o cumprimento das exigências.
Resultado: sindicatos acabam
nascendo exclusivamente para ocupar o espaço de outras entidades,
sem considerar os interesses dos trabalhadores. Há sindicatos
sérios, mas estão na casa das "centenas", reconhecem
os sindicalistas. Quatro meses após assumir o governo, o presidente
Lula admitia: "Vamos parar de brincar. A reforma sindical é necessária
porque temos apenas 20% dos sindicatos com representatividade. Os outros
80% atendem a interesses."
O projeto de lei de reforma
sindical -que não refletiu consenso entre trabalhadores, empresários
e governo- emperrou no Congresso. "Continuam as facilidades para
os sindicatos que são de interesse do governo", afirma
Luiz Carlos Prates, secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos
de São José dos Campos (filiado à Conlutas), que,
desde 2005 enfrenta outro sindicato na sua base: o Sindiaeroespacial,
que representa os trabalhadores em empresas de aviação
(a principal é a Embraer).
Registro
"Impugnamos esse sindicato,
mesmo assim o Ministério do Trabalho concedeu o registro após
dois meses do pedido." Elias Jorge da Cruz, secretário-geral
do Sindiaeroespacial (ligado à CUT), que surgiu em 2005, informa
que os trabalhadores do setor não se sentiam representados pela
categoria metalúrgica. "Vamos devolver aos sócios
o imposto sindical que cabe ao sindicato", afirma Cruz. O Sindiaeroespacial
já tem 1.500 sócios.
Há inúmeros exemplos
de disputa por base de trabalhadores que se transformaram em trocas
de acusações. Em Capivari (SP), o Sindicato dos Comerciários
(filiado à CUT) informa que o Sindicato dos Comerciários
de Piracicaba teria surgido com base em um documento falso -ambos disputam
comerciários da região . A denúncia foi parar
na Polícia Federal, que arquivou o caso.
O Sindicato de Piracicaba
informa que, como o documento que seria falso é de 1963, cabe à PF
a decisão sobre o caso. "Tinha 14 anos naquela época",
diz Antonio Roberto Previde, presidente do sindicato de Piracicaba
(filiado à Força). Se a reforma sindical não
sair, o país corre o risco de ter um sindicato de categoria
por município -o que seria o limite para o setor, na avaliação
de Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese.
A fragmentação dos sindicatos prejudica o trabalhador,
na sua opinião, porque ele perde força nas negociações
com os patrões.
|
Folha
de São Paulo, 8 de abril de 2007
Governo vê excesso de normas sindicais
Secretária-adjunta de Relações
do Trabalho do Ministério do Trabalho diz que atrativo para criar
sindicatos é o imposto sindical
Uma categoria chega a ter 25 descrições
diferentes, o que, diz secretária, cria dificuldade para ministério
conceder os registros
DA REPORTAGEM LOCAL
Ana Paula Cerca, secretária-adjunta
de Relações do Trabalho do Ministério do Trabalho,
admite que existe uma "bagunça" na questão
de cadastros de categorias no órgão. Há também "sobreposição
de normas" para a concessão de registros sindicais, segundo
diz. "Isso tudo dificulta o entendimento sobre os limites de atuação
do ministério. Mas, desde 2005, existe uma campanha de recadastramento
de sindicatos para corrigir essas distorções." Até agora,
13 mil entidades já se recadastraram.
Ela afirma que existe um cadastro
de sindicatos no Ministério do Trabalho, com informações
desde 1931, "que não é confiável", com
mais de 25 mil entidades sindicais, e um universo de mais de 5.000
classificações diferentes para as categorias de trabalhadores. "Às
vezes, uma categoria tem 25 descrições diferentes, como
a de metalúrgicos, a de trabalhadores na indústria metalúrgica
e a de trabalhadores nas empresas de metalurgia. Percebe a nossa dificuldade?"
Fácil de montar
Para Cerca, é fácil
montar um sindicato no Brasil. "Os requisitos para que o sindicato
se constitua são: publicação de edital para dar
ciência à categoria de que será feita assembléia
para estabelecer a fundação da entidade, envio do estatuto
para informar qual é a base que o sindicato representa, lista
de presença, ata dessa assembléia, taxa de recolhimento
do valor equivalente à publicação no "Diário
Oficial" e pronto."
Ela diz que o MTE tenta fazer
um "filtro" nos pedidos. "O fato é que, às
vezes, escapa. Há dificuldade para identificar se existe uma
entidade já representando o sindicato que pede registro. Por
isso é dado 30 dias de prazo para o sindicato já existente
(com registro) impugnar o surgimento de outra instituição." A
partir do pedido de impugnação, segundo diz, o Ministério
do Trabalho verifica se a entidade que impugnou o sindicato tem registro,
apresentou documentos necessários, recolheu taxa e se há conflito
de representação.
"Às vezes, o sindicato
de indústria quer impugnar o de comércio. Se não
há conflito, o registro é concedido. Se há, ou
as partes se entendem ou vão à Justiça. É a
Justiça que determina o que o MTE deve fazer", afirma.
O atrativo para criar sindicatos, segundo diz, é o imposto sindical. "Fizemos
uma grande discussão sobre isso no Fórum Nacional do
Trabalho, elaboramos uma Proposta de Emenda Constitucional e um projeto
de lei que está no Congresso. Mas a conjuntura política
não foi favorável à implementação
desse projeto."
Festa do peão
Questionada se o governo, mesmo
sem aprovação da reforma sindical, poderia barrar o surgimento
de sindicatos, que, muitas vezes, só têm interesses financeiros,
afirma: "Não podemos barrar nada, não podemos interferir
no setor. Se uma assembléia foi fraudulenta, se ocorreu no dia
da festa do peão, se o sindicato tem só aparência,
se a assembléia ocorreu com três gatos pingados, o Ministério
do Trabalho não pode fazer nada. O que podemos fazer, diante
de uma denúncia, é encaminhá-la para o Ministério
Público fazer a investigação."
Ouvidoria
Ela diz que os interessados
em abrir sindicatos tinham fácil acesso a técnicos do
MTE. "O que não quer dizer que havia favorecimentos. Mas
dava margem para um possível conflito de interesses. O que fizemos?
Construímos uma ouvidoria específica para tratar dos
registros. Por e-mail, telefone ou no ministério, a entidade
pode obter informações." (FF e CR)
|
Folha de São Paulo,
8 de abril de 2007
Falta vontade de mudar, dizem sindicalistas
DA REPORTAGEM LOCAL
Sindicalistas afirmam que faltou "vontade
política" ao governo para fazer a reforma sindical e que
o Ministério do Trabalho poderia ser mais "criterioso" ao
analisar pedidos de concessão de registro sindical. "A estrutura
sindical no país é uma esculhambação. O próprio
Lula, que sempre criticou isso, não conseguiu alterar o quadro.
O governo poderia ter se empenhado mais nesse projeto", diz Eleno
José Bezerra, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos
de São Paulo.
A facilidade para criar sindicatos
sem representatividade, diz, é um problema estrutural e teve início
com a Constituição de 88, que possibilita a liberdade e
a unicidade sindical. "A unicidade que existe hoje é de fachada.
Existe uma indústria de sindicatos no país. Há até advogados
especializados na criação de sindicatos, com interesse
apenas em pegar uma fatia do imposto sindical." José Maria
de Almeida, membro da coordenação da Conlutas, diz que
há "falhas" no MTE que precisam ser resolvidas "independentemente" da
aprovação da reforma sindical. "Há casos de
sindicatos que impugnam o registro de outros e, ainda assim, o MTE concede
o registro, caso dos ligados à CUT.
Há sindicatos que obtêm
o registro em dois meses, enquanto outros esperam há dois anos
a decisão do governo." Para Denise Motta Dau, secretária
de Organização da CUT, sem a reforma sindical, o governo
precisa ter mais "discernimento para diagnosticar o que é um
pedido legítimo, democrático de uma categoria profissional
ou uma mera tentativa de arrecadar impostos em conflito com outra entidade
sindical".
Diz ainda que o governo precisa ter discernimento. "A legislação
não ajuda. Mas o histórico das entidades e o diálogo com
as centrais podem contribuir para uma melhor atuação do MTE.
A fiscalização tem de ser severa, para não se tratar a
organização sindical como brincadeira." Os próprios
sindicalistas, segundo ela, também devem denunciar sindicatos de fachada.
Para José Lopez Feijóo, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos
do ABC, a modernização da lei foi impedida pelo "lobby da
velha estrutura sindical" no Congresso. "[O lobby foi] de ambos os
lados, do patronal e dos trabalhadores. Rejeitaram a proposta de criar o Conselho
Nacional de Relações do Trabalho, cujo objetivo era organizar
o meio sindical."
Feijóo ressalta que nem
todos os sindicatos existem para viver do imposto sindical. "Devolvemos
o imposto há dez anos, e muitos devolvem. Quase 80% da nossa categoria
recebe participação nos lucros. Conseguimos mudança
na correção da tabela do Imposto de Renda e tarifa bancária
zero. Esse é o papel de um sindicato." Ricardo Patah, presidente
do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, acredita que
as ONGs ocuparam o espaço dos sindicatos. "O que há é canibalismo:
um quer ocupar o espaço do outro."
Wagner Gomes, vice-presidente
da CUT, concorda que há uma corrida para criar entidades. "Quando
se percebeu que não haveria a reforma, foi um salve-se-quem-puder.
[Sindicatos] correram para pegar o registro. Foi um verdadeiro Deus
nos acuda." (CR e FF)
|
Folha
de São Paulo, 9 de abril de 2007
Após 32 anos, só 23% das
empresas mantêm status
Estudo mostra que 117 das 500 maiores companhias
perderam importância desde 73
Principal destino foi aquisição por
outras organizações, segundo Fundação Dom
Cabral; parte faliu ou foi privatizada
JANAÍNA LEITE
DA REPORTAGEM LOCAL
Das 500 maiores e mais importantes
empresas do país em 1973, só 117 permanecem a atuar com
excelência em seus respectivos setores -23,4% do total. A constatação é de
estudo coordenado pelo professor Carlos Arruda, da Fundação
Dom Cabral. O trabalho, obtido com exclusividade pela Folha, discorre
sobre longevidade e performance das empresas brasileiras. Será apresentado
nesta semana em Comandatuba (BA), durante o IT Fórum, um dos
principais eventos de tecnologia e telecomunicações realizados
no Brasil.
Segundo os pesquisadores, o
motivo para tantas baixas é que essas organizações
não foram capazes de criar condições para resistir às
mudanças nos fatores sociais, políticos e econômicos
ocorridas ao longo desses 32 anos. No período -para ficar apenas
no campo da economia-, os brasileiros conviveram com hiperinflação,
carga tributária inchada, juros altos, desvalorização
cambial, cinco moedas e sete planos econômicos.
"E nada indica que o ambiente
se tornará mais fácil", diz Arruda. "O ambiente
de negócios tende a ficar cada vez mais difícil em todo
o mundo." Ex-ministro da Fazenda e ex-congressista, o economista
Delfim Netto concorda. Para ele, o resultado está em linha com
a tendência mundial de concentração econômica,
embora o empresário brasileiro conviva com certas perversidades,
como a política monetária apertada.
"Quando se levam em conta
30 anos, o cemitério sempre será maior que a maternidade",
resume Delfim. "Só quem tem um comichão pelo risco
agüenta ser empresário no Brasil." Na avaliação
do economista Antônio Corrêa de Lacerda, da PUC de São
Paulo, existe uma "elite" de empresas brasileiras que se
antecipou à globalização. "A atuação
fica mais complicada porque é um cenário contraditório,
que acentua a competitividade, cria necessidade de demanda e resulta
em concentração."
Conclusões
As empresas que perderam status
e deixaram de figurar no rol das maiores e melhores tiveram vários
destinos, conforme o estudo levado adiante pela Fundação
Dom Cabral. Das 383 pesquisadas, a maioria deixou de existir da forma
como eram conhecidas em 1973: 36,5% foram adquiridas por outras empresas;
12,4% fecharam por motivos diversos; 10,3% faliram; 9,9% acabaram privatizadas
e 9% fundiram-se a outras companhias.
Qual o segredo para
manter o mesmo peso no mercado, ou mesmo aumentá-lo?
" Esperávamos, pelos estudos, descobrir que essas companhias seriam
aquelas com valores bem definidos, capazes de renovação e relativamente
conservadoras na gestão dos negócios. É esse o modelo vitorioso
na Europa, nos Estados Unidos e no Japão", observa Arruda. "Mas
não foram esses os fatores mais significativos no Brasil, segundo a pesquisa."
O segredo, afirma Carlos Arruda,
pode ser dividido em três características. O primeiro
ponto em comum entre as empresas longevas no país é que
elas têm consciência de que é preciso expansão
contínua: vale engolir as concorrentes, diversificar a área
de atuação ou lançar produtos, ocupando novos
nichos de mercado. Parte da explicação está no
fato de que a perspectiva de crescimento da empresa motiva os profissionais,
que vêem aí chances de ascensão.
A segunda particularidade observada
no levantamento da Dom Cabral está diretamente relacionada com
a cúpula das empresas: a capacidade das lideranças de
perceber e antecipar mudanças no ambiente interno e externo,
de forma a preparar a equipe para uma guinada, se isso for necessário.
A última conclusão é que o cuidado com processos
de sucessão é determinante. As empresas que não
souberam preparar seus futuros gestores minguaram. A equipe da Dom
Cabral desenvolverá agora a segunda parte da pesquisa, na qual
serão analisadas também companhias estrangeiras.
|
Folha de São Paulo,
9 de abril de 2007
Construção e transportes
são mais afetados
DA REPORTAGEM LOCAL
A pesquisa realizada pela Fundação
Dom Cabral mostra que nem sempre é possível antecipar o
destino de uma empresa a partir de sua exposição na mídia. "Boa
parte das que aparecem como modelos de sucesso acabam falindo cinco anos
depois", afirma o professor Carlos Arruda, responsável pela
coordenação do estudo. A justificativa para a dificuldade
de antever o comportamento de mercado no longo prazo é que as
inovações de gestão que podem mudar o rumo dos negócios
são, muitas vezes, pequenas jogadas, restritas ao comando da companhia.
"Um exemplo é a empresa
de construção civil cujo presidente estava de férias
na Europa e viu, pela televisão, a queda do Muro de Berlim. Imediatamente
ele e outro executivo da empresa começaram a delinear como aquilo
afetaria os negócios", conta Arruda. "Ambos enviaram
um fax para o Conselho Administrativo com suas ponderações.
Menos de 20 anos depois, a companhia é três vezes maior
e a construção civil representa apenas 30% das atividades."
A pesquisa da Dom Cabral, aliás, é recheada
de histórias ocorridas no mundo das grandes empresas. Exemplo é o
caso do dono de uma empresa atacadista que fundou sua primeira loja aos
19 anos. Hoje, ele tem 79. "Esse empresário percebeu que
seus netos precisavam ser orientados sobre os valores da empresa, pois,
quando nasceram, ela já contava com 10 mil empregados. Então
ele criou o que chama de "Suco Com o Vovô", uma reunião
semanal em que conta histórias, "causos" vividos por
ele como empreendedor", revela o professor.
E qual é a dica para delinear
o perfil ideal para o presidente de uma empresa bem-sucedida? "Nunca
indicaria um curso superior de orientação técnica,
e sim algo que valorize a formação clássica, humanista",
afirma Arruda. "A capacidade de decisão fica restrita",
justifica.
Setores
Em proporção, Limpeza,
Construção Civil e Transportes foram os setores mais atingidos
pelas mudanças. De acordo com a pesquisa da Fundação
Dom Cabral, a única companhia de Limpeza que figurava entre as
500 maiores e mais importantes do país em 1973 não participava
do ranking em 2005.
O mesmo aconteceu com 89,2% das
empresas de construção (33 das 37 deixaram a lista) e 88,9%
das companhias de transporte (16 das 18 foram apagadas). No setor de
Alimentos, Bebidas e Fumo, saíram do ranking 53 das 60 cujos nomes
estavam cravados entre as maiores e melhores. Ou seja, 88,3%. Entre Confecções
e Têxteis, o número é parecido: 88% das 25 empresas
foram eliminadas do rol.
As que tiveram melhor desempenho
foram as empresas de Serviço Público. Das 27 que apareciam
no ranking de 1973, 44,4% tinham saído. No setor automotivo, o
percentual foi de 59,3%.
" Não se trata apenas de má administração. Muitas
empresas boas, rentáveis e bem administradas saíram do ranking
-foram vendidas", explica Arruda. (JL)
|
JORNAL GAZETA DO POVO, 09
de abril de 2007 | Política
Site de transparência não
revela todos os gastos
Portal foi criado para dar acesso às
contas do Executivo
O site gestão do dinheiro público, do governo do estado, foi
criado para permitir acesso a todos os gastos do Poder Executivo estadual.
Mas não permite saber quanto do orçamento está sendo destinado
em forma de recursos voluntários para os municípios. Apenas as
destinações constitucionais estão listadas no endereço
eletrônico.
O portal foi lançado no
final de 2004 como uma iniciativa de transparência da gestão.
A página, que pode ser acessada no endereço www.gestaododinheiropublico.pr.gov.br,
inclui receitas e despesas, como dívidas externa e interna do
estado, pagamentos efetuados, precatórios e orçamento.
O ícone “Repasse
aos Municípios “ dá acesso a todos os recursos do
governo para as cidades. Mas para a decepção do usuário,
lá estão repasses como Imposto sobre Circulação
de Mercadorias e prestação de Serviços (ICMS), fundo
de exporação, royalties de petróleo, Imposto sobre
Propiedade de Veículos Automotores (IPVA), que são a parte
dos municípios no bolo da arrecadação.
Já o depósito de
recurso para programas sociais e obras, por exemplo, não é publicado
de forma integral. Se estivesse acessível no site, seria possível
conferir em quais municípios o estado está investindo mais
e em que áreas.
O endereço eletrônico
está sob responsabilidade da secretaria estadual da Fazenda. A
reportagem pediu ajuda a algum técnico da secretaria que mostrasse
a forma de encontrar o repasse desse tipo de recurso. A resposta foi
que informações completas teriam que ser coletadas em cada
secretaria. Não no site. A assessoria de imprensa ainda informou
que os órgãos estaduais que mais repassam dinheiro voluntário
são a secretaria de Educação, Saúde, Trabalho,
e ainda o Departamento de Estadas de Rodagem. Ao acessar os gastos dessa
secretaria no próprio site, é possível conferir
alguns repasses, mas a informação não é completa.
A Companhia de Informática
do Paraná (Celepar), é a responsável pelo desenvolvimento
do portal. Recebe diariamente arquivo magnético enviado pelo Banco
Itaú com os valores a serem depositados no dia seguinte nas contas
correntes das prefeituras municipais e insere na página de repasses
municipais. Mas são publicados somente os constitucionais.
O presidente da Associação
dos Municípios do Paraná (AMP), Luiz Sorvos, prefeito de
Nova Olímpia, disse que a entidade também não tem
acesso a essas informações. “Seria interessante que
o governo disponibilizasse para sabermos o volume de recursos destinadas
para ações municipais”, diz.
Para Sorvos, os recursos voluntários
devem ser tratados em cima de programa e critérios, como estudo
da situação de cada município. “Com isso saberíamos
as necessidades de cada município, se é em saúde,
educação, ação social”, diz.
O presidente da AMP afirma
que o governo tem pouca capacidade para investir, mas que conversando
com os prefeitos é possível saber, em teoria, que alguns
municípios recebem mais do que outros.
|
JORNAL GAZETA DO POVO, 09 de abril de 2007
| Educação
Jornada dupla no trabalho e na sala
de aula
Candidatos relatam as dificuldades para
manter estudo e emprego simultaneamente
Antônio Costa/Gazeta do Povo
Quem precisa estudar e trabalhar
sabe que o dia é curto. Desenvolvidas ao mesmo tempo, as duas
jornadas exigem esforços extras de quem tem o objetivo de entrar
na universidade.
Daniela Marchesi, 17 anos, trabalha
em uma loja de roupas do Shopping Mueller das 9h30 às 16 horas,
com apenas 30 minutos de almoço. Ao sair do trabalho, vai direto
para a sala de estudos do Dom Bosco, onde faz o cursinho à noite.
Depois das aulas, Daniela ainda estuda em casa até 2 horas da
manhã. No dia seguinte, tudo outra vez. “Cheguei a pensar
em parar de trabalhar, mas a gente se acostuma. Por enquanto, vou levando.
Se não der conta, vou ter de ficar só com o estudo”,
afirma.
Ao contrário da estudante,
candidata de Engenharia Mecânica, que não precisa pagar
os estudos com seu salário, Thiago Albini, de 22 anos, arca com
todas as despesas que tem. Funcionário público, ele trabalha
em regime de escalas e, por isso, não são todas as aulas
que pode assistir.
Em função do horário
de trabalho, acompanha apenas as três primeiras aulas da manhã no
Curso Unificado. Quando está na escala nesse período, é preciso
faltar e recuperar o conteúdo sozinho. “Como já fiz
cursinho antes, sei o conteúdo. Estou apenas relembrando e isso
facilita na hora de estudar em casa”, diz.
Thiago pretende fazer a Escola
de Formação de Oficiais da Polícia Militar, pela
Universidade Federal do Paraná (UFPR), e também quer tentar
Direito na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
O cansaço pela dupla jornada não o desanima. Assim, quando
chega em casa ainda dá uma olhada nos jornais e nas notícias
divulgadas na internet. Mas estudar mesmo, só nos finais de semana – e
quando não está em escala extraordinária. “Durmo
pouco, mas estou feliz porque percebo que mesmo assistindo a poucas aulas,
estou acompanhando o conteúdo. Sei que vai ser gratificante”,
conclui.
Roberto Cosme Raimundo, de 29
anos, trabalha como motorista. Seu sonho é fazer o curso de Jornalismo
para ser fotógrafo de um jornal. O período de trabalho
vai das 9h30 às 18 horas. Das 19 às 22 horas ele estuda
no Colégio Estadual Potty Lazarotto. Seu horário também
depende de escalas nos fins de semana. Se consegue escapar delas, aproveita
para descansar e estudar.
A dedicação de
alguns alunos sensibiliza o professor de Física do Curso Decisivo,
João Francisco Kasecker. “Nós procuramos dar um estímulo
a eles, fazer um trabalho de motivação, principalmente
nas últimas aulas da noite. Esses alunos muitas vezes deixam de
comer para chegar no cursinho em tempo. Eles normalmente custeiam o próprio
estudo e sabem quantas horas de trabalho despendem para estar ali. A
formação deles é criada pela própria vida”,
comenta.
O professor compara a situação
desses jovens à de outros que não precisam trabalhar para
pagar os estudos e que, apesar disso, não aproveitam as possibilidades
que têm. “Quem tem tempo, desperdiça, quando deveria
aproveitar o máximo”, finaliza.
|
JORNAL FOLHA DE LONDRINA,
09 de abril de 2007
32 milhões trabalham além
da jornada para compensar queda da renda
Quase 50% dos ocupados no Brasil desempenham
mais de uma atividade no mercado de trabalho ou fazem hora extra
para compensar a queda da renda
São Paulo - Quase 50% dos ocupados no País desempenham mais de
uma atividade no mercado de trabalho ou fazem hora extra para compensar a queda
da renda. Pressionados pelo aumento dos gastos, mais de 32 milhões de
trabalhadores cumprem jornada superior às 44 horas semanais previstas
na Constituição, enquanto outros 4,2 milhões têm
duas ou mais ocupações. Entre os aposentados e pensionistas,
6,6 milhões continuam na ativa.
Os números são
de um levantamento feito pelo professor Márcio Pochmann, do Centro
de Estudos de Economia Sindical e do Trabalho, da Unicamp, com base em
dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do
IBGE. Entre 1999 e 2005 (último dado disponível), a quantidade
de brasileiros que exercem o chamado sobretrabalho passou de 37,7 milhões
para 42,8 milhões - um salto de 13,5%, equivalente ao acréscimo
de 5,1 milhões de pessoas. Em 2005, existiam 87,1 milhões
de ocupados em todo o País.
A pressão sobre o mercado
de trabalho é crescente. Além do avanço do desemprego,
que atingia 8,9 milhões de brasileiros em 2005, ante 7,6 milhões
em 1999, também cresceu o número de pessoas que estavam
empregadas mas procuravam outra ocupação. Passou de 5,6
milhões para 8,8 milhões , o que representa aumento de
57% entre os dois períodos. ''Os números refletem uma mudança
na estrutura de ocupação brasileira'', afirma Pochmann.
''O crescimento anêmico da economia gera empregos de baixa remuneração,
o que leva as pessoas a trabalharem mais para conseguir uma renda satisfatória.''
O economista explica que, entre
1999 e 2005, o País criou 20,9 milhões de ocupações
com remuneração inferior a dois salários mínimos
(o equivalente a R$ 760 hoje). Em contrapartida, fechou 5,5 milhões
de postos que pagavam mais. O saldo foi a abertura de 15,4 milhões
de vagas de baixa remuneração.
Desde 1996, quando a remuneração
do trabalho no País apresentou o nível mais alto do Plano
Real, o rendimento médio dos ocupados teve queda de 15%, passando
de R$ 948, naquele ano, para R$ 805 em 2005, já descontada a inflação.
Não é à toa que a participação dos
rendimentos do trabalho no Produto Interno Bruto (PIB) tem caído.
Sua participação, que era de 50% da renda nacional em 1980,
encolheu para 36% em 2004.
A secretária Aparecida
Falopa de Souza, de 48 anos, sentiu isso no bolso. Depois de trabalhar
26 anos num grande escritório de advocacia em São Paulo,
ela foi dispensada em outubro do ano passado, cinco meses após
ter se aposentado. Hoje, cumpre jornada que supera 60 horas semanais
e, mesmo assim não conseguiu igualar o salário.
Além do emprego de secretária
numa empresa de relações públicas, onde ganha R$
1.500 por mês, Aparecida trabalha, à noite, na cantina de
uma escola municipal, da qual tem a concessão. Seu salário
principal, mais o rendimento da cantina e os R$ 1.300 que recebe de aposentadoria,
somam R$ 3.300.
No escritório de advocacia,
a secretária ganhava R$ 3.500. ''A gente tem de se desdobrar para
tentar manter o padrão de vida'', diz Aparecida, que é casada
e mãe de dois filhos em idade escolar.
Para Clemente Ganz Lúcio,
diretor-técnico do Departamento Intersindical de Estatística
e Estudos Socioeconômicos (Dieese), os trabalhadores são
obrigados a montar estratégias de ocupação para
ter uma renda que atenda às suas necessidades básicas,
dado os baixos salários pagos hoje no mercado.
Solteiro, o oftalmologista e
médico do trabalho Carlos Alberto Grandini Izzo, de 50 anos, exerce
três atividades com as quais consegue compor uma renda bruta de
quase R$ 9 mil. Na parte da manhã, ele cumpre jornada de quatro
horas no departamento de medicina ocupacional de uma empresa de energia
elétrica.
No período da tarde, dá expediente
de mais quatro horas no Centro de Referência ao Trabalhador, da
Prefeitura de São Paulo. Além disso, Izzo ainda atende
pacientes particulares em seu consultório de oftalmologia até as
20h. ''Precisa gostar muito da profissão para aguentar esse ritmo
sem ficar louco'', diz o médico.
Marcelo Rehder
Agência Estado
|
JORNAL FOLHA DE LONDRINA,
09 de abril de 2007
6 milhões de aposentados ainda
têm que trabalhar
São Paulo - Um em cada três aposentados e pensionistas continuam
ativos no mercado de trabalho. Segundo levantamento feito pelo professor Márcio
Pochmann, da Unicamp, dos cerca de 20 milhões de aposentados e pensionistas
do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e do setor público, 6
6 milhões estavam trabalhando em 2005.
O metalúrgico Nilton Sebastião
Rissi, de 57 anos, se aposentou em 1994, mas continuou trabalhando como
ferramenteiro na fábrica de caminhões da Ford no Ipiranga,
zona sul da capital paulista. No ano seguinte foi demitido, mas não
desistiu.
Desde 1996 trabalha como ferramenteiro
numa microempresa de autopeças. Casado e pai de três filhos,
recebe R$ 2 mil por mês, além da aposentadoria de R$ 1,9
mil. ''A aposentadoria mal daria para pagar a faculdade dos meus filhos,
que custa R$ 500,00 cada uma.''
O número de brasileiros
na mesma situação de Rissi cresceu de 5,8 milhões,
em 1999, para 6,6 milhões, em 2005. Isso representa um aumento
de 13,8% entre os dois períodos.
Para o consultor José Cechin,
ex-ministro da Previdência Social no governo Fernando Henrique
Cardoso, os números mostram que a aposentadoria não abre
vaga no mercado de trabalho. ''Isso retira o argumento de muita gente
que diz que aumentar a idade mínima para aposentadoria traria
dificuldade no emprego, o que é uma bobagem.''
Segundo ele, a aposentadoria
passou a ser uma renda adicional. Hoje, o teto da aposentadoria do INSS é R$
2,8 mil.(M.R./A.E.)
|
JORNAL O ESTADO DO PARANÁ,
07 de abril de 2007
Superávit só em cinco
estados
Agência Brasil
Brasília - A segunda
edição do Índice de Desenvolvimento Previdenciário
(IDP), divulgada pelo Núcleo Atuarial de Previdência (NAP),
registra um déficit no sistema de Previdência Social de
21 estados brasileiros em 2006, de R$ 400,76 bilhões, contra
um superávit de R$ 1,73 bilhão em apenas cinco unidades
da federação (Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás,
Paraná e Amazonas). Segundo o estudo do NAP, São Paulo
concentra o maior déficit na Previdência de toda a federação
em 2006, somando R$ 154,34 bilhões. No ano anterior, o déficit
previdenciário de São Paulo atingia R$ 207 bilhões.
Embora tenham sido observados avanços na maior parte dos estados, outros
ainda encontram dificuldades de efetuar reformas. São Paulo é um
deles, segundo o coordenador-executivo do NAP, Benedito Passos. O NAP é uma
unidade da Coordenação de Programas de Pós-Graduação
de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ). O coordenador-executivo
do NAP revelou que São Paulo representa mais de 1/3 de toda a deficiência
do sistema de Previdência brasileiro ou 40% do total.
Outro estado com grande dificuldade de ação é o Rio Grande
do Sul, que possui despesas com servidores inativos e pensionistas superiores
aos trabalhadores em atividade. Também em Santa Catarina, a situação é deficitária. “Todos
os indicadores foram zerados. Nós não conseguimos pontuar dentro
dos elementos que consideramos fundamentais para um sistema estar equilibrado.
Há muito o que se fazer em Santa Catarina”, indicou Passos. Nesse
estado, o NAP encontrou o nível mais baixo de desenvolvimento previdenciário
(0,0 ponto) de todo o País.
O IDP é calculado com base em indicadores atuariais, financeiro-jurídicos
e administrativo-operacionais e varia de zero ponto (sistema em ruína,
em extrema dificuldade) a 1 ponto (sistema financeiro e atuarialmente em equilíbrio,
possuindo gestão em nível de excelência). Outro fator considerado
no IDP é a relação entre trabalhadores ativos e inativos.
|
JORNAL O ESTADO DO PARANÁ, 07 de abril
de 2007
Tem dinheiro esquecido no banco
Agência Estado
Brasília - Há cerca
de R$ 1,9 trilhão nos bancos privados e públicos à espera
dos poupadores para ser resgatado. O dinheiro refere-se à diferença
de indexadores da remuneração da aplicação
em caderneta de poupança com a entrada em vigor do Plano Bresser,
em 12 de junho de 1987.
O prazo máximo para reaver a diferença de rendimento do Plano
Bresser termina no dia 31 de maio. Depois dessa data, parte do dinheiro passará a
integrar o patrimônio dos bancos. Com isso, os poupadores, que na época
de entrada em vigor do plano tinham aplicação na poupança,
perdem o direito de reaver a diferença dos rendimentos.
Quando o Plano Bresser entrou em vigor, em junho de 1987, houve a mudança
no indexador da poupança de Obrigação do Tesouro Nacional
(OTN) para a Letra do Banco Central (LBC).
De acordo com as novas regras, que passaram a valer na época, foi determinado
que, entre os dias 1.º e 15 de junho de 1987, a poupança seria
remunerada pela variação OTN e, a partir de então, pela
LBC. Acontece que os bancos remuneraram o mês todo usando como indexador
a LBC, que teve variação de 18,02% no período, bem menor
que a variação da OTN, de 26,06%. É exatamente a diferença
de 8,04 pontos porcentuais de remuneração que o poupador tem
direito.
Com indexadores diferentes, o mesmo raciocínio é válido
para o Plano Verão, que entrou em vigor em 15 de janeiro de 1989. Só que,
neste caso, o prazo máximo para entrar na Justiça é dezembro
de 2008.
|
JORNAL O ESTADO DO PARANÁ,
08 de abril de 2007
Marcha das Margaridas, a luta por
direitos e contra a impunidade
Edésio Passos [08/04/2007]
Cinqüenta mil margaridas
marcharão em Brasília na luta por direitos e contra a impunidade,
a discriminação, a exclusão e a violência.
Será a 3.ª Marcha das Margaridas nos dias 21 e 22 de agosto
de 2007, onde o Paraná estará presente com dez caravanas.
Em seminário realizado em novembro, com a presença da primeira-dama
Marisa Letícia, e os ministros do desenvolvimento agrário
e do trabalho, foi oficializado o evento que se caracteriza como um dos
principais instrumentos de luta das trabalhadoras rurais pela igualdade
de gênero e contra a violência sexista. A coordenadora nacional
da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura-Contag-Carmen
Foro afirma: “Dialogar sobre essas questões com a sociedade é de
fundamental importância para nós, porque os problemas do
campo sempre ficaram meio escondidos, muito mais para as mulheres. Portanto,
estamos aqui para dizer às autoridades qual é a nossa pauta
política, o que queremos para o Brasil e para todas nós”.
Basta um exemplo para indicar essa desigualdade: os homens, no campo,
estão com salários, em média, superiores a 60% em
relação às mulheres. As Marchas anteriores conseguiram êxitos,
como a campanha nacional de documentação (que já beneficiou
cerca de 360 mil trabalhadoras), a titulação conjunta,
o Pronaf-mulher e acesso ao crédito(passando de 97 mil contratos
em 2003 para 488 mil em 2006). A atual pauta reivindicatória está sendo
elaborada pela confederação e federações
estaduais dos trabalhadores rurais em sucessivos encontros.
Margarida Alves: “José de Arimatéia
Alves nunca mais vai se esquecer do dia 12 de agosto de 1983. Ele
tinha apenas dez anos quando viu sua mãe, a líder sindical
Margarida Alves, ser assassinada com um tiro no rosto disparado de
uma espingarda calibre 12. Margarida presidente do Sindicato dos
Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, na Paraíba estava na
porta de sua casa. A cena do corpo de Margarida todo ensangüentado
e jogado no chão perturba José Arimatéia a exatos
18 anos. O algoz de Margarida era um homem encapuzado. Dos cinco
acusados de serem os mandantes do crime, apenas dois foram julgados
e absolvidos... Na época de seu assassinato, Margarida denunciou
a Usina Tanques ao Ministério do Trabalho. De propriedade
de Zito Buarque, a usina foi acusada de abusos contra canavieiros
e o descumprimento da legislação trabalhista... Com
repercussão internacional, o processo Margarida Alves agora
está na Comissão Interamericana de Direitos Humanos
da Organização dos Estados Americanos (OEA). Mesmo
com a absolvição de Zito Buarque a corte internacional
permanecerá examinando o caso” (In “A impunidade
no caso Margarida Alves”, de Evanize Sidow).
Prêmio e Instrução Normativa: No dia 13 de março,
os ministros do desenvolvimento agrário e da secretaria especial de
políticas para as mulheres entregaram o Prêmio Margarida Alves
de Estudos Rurais e Gêneros 2.ª Edição, divulgando
livro onde estão publicados os trabalhos premiados. Na oportunidade,
o presidente do INCRA Rolf Hackbart assinou a Instrução Normativa
sobre o direito das trabalhadoras rurais ao Programa Nacional da Reforma Agrária,
detalhando procedimentos da Portaria n.º 981/2003, que estabeleceu a titulação
conjunta obrigatória da terra nos assentamentos da reforma agrária,
normatizando o constante no artigo 189 da Constituição Federal
de 1988. Afirmou o presidente do Incra sobre esta importante medida: “Agora,
o Incra tem de fazer acontecer esse processo lá nos assentamentos da
reforma agrária. E cabe a vocês, mulheres, cobrarem. A democratização
e o acesso à terra pelas mulheres também acontece nos movimentos
sociais”.
Os jovens do campo: Antes das margaridas marcharem em Brasília,
mais de cinco mil jovens do campo realizaram o Primeiro Festival Nacional da
Juventude Rural (26/29 de março) para discutir e reivindicar ações
do governo para educação, esporte e cultura. O encontro nacional
de Brasília for precedido de encontros estaduais, onde foram examinadas
as situações do jovem em cada região do país. Na últimas
décadas, cerca de 20 mil escolas rurais foram fechadas. Dentre os pontos
debatidos destacaram-se (1) a criação de secretaria nacional
de educação no campo para dar atenção diferenciada
ao estudo no meio rural, (2) erradicar o analfabetismo entre a juventude no
campo, (3) interiorização das universidades públicas,
(4) construção de uma política de esportes para o campo,
(5) a aprovação do Plano Nacional da Juventude pelo Congresso
Nacional (Emenda Constitucional 138/03). Em carta dirigida ao Presidente Luiz
Inácio Lula da Silva indicam essas e outras reivindicações
como ação governamental. Desde já o governo federal tem
efetivado ações com os jovens do campo, como (a) rede cultural
da terra, (b) rede cultural dos estudantes, (c) seminário nacional de
cultura popular.
Debate com os assalariados agrícolas: Nesta
linha de atuação, a Federação dos Trabalhadores
Rurais do Paraná realizou o Seminário Estadual sobre
Política Salarial (21/23 de março), em Curitiba,
com a presença de cerca de uma centena de assalariados agrícolas,
trabalhadores nas várias regiões do Estado. O economista
Cid Cordeiro, do Dieese, abordou a temática da conjuntura
do assalariamento no campo (estrutura agrária no Brasil
e no Paraná), levantamento econômico e formalidade
e informalidade do trabalho. O dr. Luiz Eduardo Gunther, juiz do
TRT/PR, analisou questões do direito trabalhista (convenções,
acordos e dissídios coletivos do trabalho, emenda constitucional
n.º 45 e flexibilização e terceirização
do trabalho e suas conseqüências). O direito previdenciário
(formas de contratação e obrigação
do recolhimento previdenciário e benefícios sociais)
foi abordado pela representante do INSS-Brasília Alessandra
Lunas. As questões da reforma agrária e do crédito
fundiário foram o tema enfrentando pela representante do
Incra, Ana Paula. O advogado da Fetaep e ex-juiz do TRT/PR, dr.
Carlos Buck, apresentou um panorama da situação das
convenções, acordos e dissídios coletivos
de trabalho da categoria dos trabalhadores rurais e sobre a política
do piso salarial regional. Nossa participação buscou
indicar os desafios que os trabalhadores rurais, em especial os
assalariados agrícolas, enfrentam na atual conjuntura política-econômica-social,
detalhando as formas de mobilização, organização
e educação destinadas a possibilitar o enfrentamento
dos atuais desafios.
Infanticídio nas áreas indígenas: A
Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara
dos Deputados realizará audiência pública para
analisar a prática de infanticídio nas áreas
indígenas. Já foi lançada a Campanha Nacional
a Favor da Vida e Contra o Infanticídio pela Frente Parlamentar
Evangélica. A antropóloga Keila Pienezi, da USP,
defende políticas públicas e fiscalização
do governo nas referidas áreas, afirmando: “O Estado
tem um papel importante e não pode se omitir sobre ele,
que é o de garantir o direito à vida e às
condições para as crianças crescerem e terem
acesso à cidadania”. Centenas de crianças têm
sido sacrificadas, envenenadas ou enterradas vivas, por terem nascido
com algum defeito físico, algum problema neuromotor, por
serem meninas quando a família esperava um menino, gêmeas,
ou ainda por serem filhas de mães solteiras (informações
da agência Câmara).
Ministro do Trabalho: (1) Carlos Lupi, presidente
do PDT, é o Ministro do Trabalho. Tem cinqüenta anos,
ingressou na política com 22, quando era jornaleiro, ao
conhecer o então governador Leonel Brizola. Coordenador
das regiões administrativas do Rio de Janeiro (1980), deputado
federal (90/92), Secretário de Transportes do Rio (1992),
participou da administração do governador Anthony
Garotinho. Com a morte de Brizola, assumiu a presidência
do PDT, (2) “Como presidente do PDT terei que abrir espaço
para contemplar o partido com cargos... No Trabalho terei mais
condições de colocar pedetistas no governo. As delegacias
regionais do trabalho vão passar para o controle do PDT.
Vai ter outra briga por causa disso. Mas eu compro”, (3) “Minha
prioridade será a geração de emprego. Mas
não tenho meta. O presidente Lula me pediu para eu resgatar
o primeiro emprego. Eu também estou preocupado com os desempregados
com mais de 50 anos. São pessoas que perdem o emprego e
que ficam com dificuldade de voltar ao mercado, pois não
tem especialização”. (in entrevista a O Globo).
Reforma trabalhista: (1) O ministro Carlos Lupi
sobre a propalada reforma trabalhista foi enfático: “Não
discuto uma reforma para tirar direitos trabalhistas assegurados
pela CLT. Agora, no país há 33 milhões de
trabalhadores com carteira assinada, enquanto 40 milhões
não estão no mercado formal de emprego. Neste caso,
precisamos nos adaptar para uma realidade moderna para incluir
quem está fora do mercado de trabalho formal. O que fazer
pelo mercado informal é o meu maior desafio” (idem,
entrevista a O Globo), (2) “Lupi disse que “nenhum
cargo’ o fará apoiar uma reforma trabalhista que mexa
com pontos como o 13.º salário, as férias remuneradas
e a indenização por demissão sem justa causa. “Não
tem cargo que faça a gente abrir mão dessa posição,
porque essa é a nossa história’. Questionado
sobre modificações na CLT, Lupi disse: “Eu
sou contra, meu partido é contra. Sou sou a favor se tiver
a aprovação dos trabalhadores’” (entrevista à Folha
de S.Paulo).
Diálogo ministerial: “Lupi, a decisão é tua.
Se você quiser, eu mantenho a palavra (sobre o Ministério
da Previdência), mas sabe quem criou o Ministério
do Trabalho? Getúlio Vargas. Sabe quem foi ministro do Trabalho
e era presidente do velho PTB? O Jango (João Goulart)”. “Eu
disse: Presidente, tá bom, aceito” (Diálogo
entre o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o hoje ministro
Carlos Lupi, in Folha de S.Paulo, 29.03.07).
Salário mínimo, R$ 380,00: (1) vigência:
01/04/2007, (2) reajuste de 8,57%, aumento real de 5,41%, (3) De
abril/2002 a abril/2007, aumento real de 32,1%, (4) 43,7 milhões
de pessoas têm rendimento referenciado no mínimo,
(5) incremento na renda de R$16,8 bilhões, (6) acréscimo
na arrecadação de R$4,1 bilhões, (7) impacto
na previdência de R$5,9 bilhões (dados do DIEESE).
Trabalho em Revista: Em seu número de março,
a publicação da Editora Decisório Trabalhista,
do ex-juiz do TRT Silvonei S. Piovesan, divulga entrevista com
a dra. Francisca Rita Alencar Albuquerque, eleita para presidente
do Tribunal Regional do Trabalho da 11.ª Região (Amazonas
e Roraima). Em sua parte doutrinária, a revista apresenta
textos relacionados com o dano moral, denunciação à lide,
controle de atividades externas, acidentes do trabalho no Peru
e responsabilidade civil. No espaço opinativo, o juiz Eduardo
Bacarat, da 9.ª Vara do Trabalho de Curitiba, discorre sobre
a “audiência trabalhista e telefone sem fio”.
Mapas históricos: O prof. Gediel Antônio Peres Gediel, da UFPR,
presidente do ITC, me envia exemplar da segunda edição da “Coletânea
de Mapas Históricos do Paraná” (1876/1948), importante
iniciativa para conhecimento de nossa história, da ocupação
do espaço geográfico por gentes de todos os povos, dos empreendimentos
de nossos governantes, dos caminhos de nossa terra.
Edésio Passos é advogado,
ex-deputado federal (PT/PR).E.mail: edesiopassos@terra.com.br
|
AGÊNCIA BRASIL, 06
de abril de 2007
Centrais sindicais apresentam cerca
de 150 propostas para o desenvolvimento
Bruno Bocchini
São Paulo - Sete centrais
sindicais apresentaram hoje (4) um documento com mais de 150 propostas
para o desenvolvimento do país. Em linhas gerais, o texto, de
37 páginas, defende o desenvolvimento sustentável com distribuição
de renda, sustentabilidade ambiental e valorização do trabalho.
As medidas prevêem, dentre
outras, a manutenção do processo de valorização
do salário mínimo em longo prazo por meio de aumentos reais;
metas para a geração de empregos; redução
das taxas de juros para a diminuição do endividamento público;
e participação de movimentos sociais nas instâncias
de decisão de política pública, como nas agências
reguladoras.
A divulgação das
propostas faz parte de um movimento das centrais chamado Jornada pelo
Desenvolvimento, que pretende elaborar permanentemente uma agenda propositiva
do movimento sindical para o desenvolvimento do país.
Clemente Ganz Lúcio, diretor
do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos
(Dieese), um dos órgãos que coordenou a elaboração
do documento, destaca o combate à desigualdade social como uma
das linhas mestras do documento.
"Por um lado, a desigualdade
em si é um impeditivo para desenvolvimento. Ou seja, a gente não
sai da situação desse país subdesenvolvido se não
enfrentarmos a questão da desiguladade”, diz, acrescentando
que a decisão das centrais de elaborar em conjunto o documento
foi tomada após a experiência positiva de negociação
do salário mínimo.
A agenda dos trabalhadores foi
discutida em 15 encontros de representantes da Central Autônoma
de Trabalhares (CAT), Confederação Geral dos Trabalhadores
(CGT), Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB), Central Única
dos Trabalhadores (CUT), Força Sindical, Nova Central Sindical
dos Trabalhadores (NCST) e Social Democracia Sindical (SDS).
Os sindicalistas pretendem levar
a agenda para a apreciação do presidente da República,
do Congresso Nacional e da iniciativa privada. Uma série de debates
com trabalhadores deve ocorrer também.
"Uma das grandes preocupações
nossas é a alta informalidade. Esse é um problema central
do conjunto da sociedade brasileira. Não adianta ter um PAC que
investe em determinados setores na geração de mão
de obra, como construção civil, se você não
tiver a contrapartida da formalização dos trabalhadores
desse setor”, afirma o presidente da CUT, Artur Henrique.
Um site deve ser criado para
facilitar o acesso público a todas as propostas.
|
AGÊNCIA BRASIL, 06
de abril de 2007
Redução de jornada
deve ser principal bandeira de sindicatos, defendem especialistas
Flávia Albuquerque
São Paulo - A redução
da jornada de trabalho é a melhor forma de garantir emprego às
pessoas desempregadas e garantir qualidade de vida aos outros 87 milhões
de pessoas que estão empregadas. Este foi o consenso de especialistas
reunidos hoje (3), no primeiro dia do seminário Jornada pelo Desenvolvimento,
realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos
Sócio-Econômicos (Dieese) em conjunto com sete centrais
sindicais, hoje (3) em São Paulo.
Uma Proposta de Emenda Constitucional
(PEC), de 2001, sugere a redução da jornada de trabalho
no país para 35 horas semanais. Atualmente, é de 44 horas.
Mas o economista Márcio Pochmann, professor da Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp) tem uma proposta mais radical. Ele sugere uma jornada
de 12 horas semanais, sendo quatro por dia de três dias por semana.
As centrais sindicais não podem ficar não podem ficar presas às
reivindicações do século passado, segundo ele. A
redução de 16 para 8 horas diárias foi a reivindicação
do protesto que reuniu 180 mil trabalhadores nos Estados Unidos, em 1º de
maio de 1886, marco do Dia do Trabalhador.
A atual duração
da jornada de trabalho tem gerado doenças e acidentes do trabalho,
além de problemas emocionais, avalia o economista Sadi Dal Rosso,
professor da Universidade de Brasília (UnB). "Nós
temos que ter uma qualidade de vida para fazer outras coisas, por isso é importante
a redução jornada de trabalho", defende.
O economista da UnB destacou
que a redução da jornada não pode vir acompanhada
do aumento de horas extras. Isso porque não está incluída
na hora extra os direitos que o trabalhador recebe em uma hora normal.
Alguns países impõem um limite de horas extras que um trabalhador
pode fazer, inclusive na Argentina, Uruguai e Chile.
A jornada brasileira é maior
que a de países desenvolvidos e até de outros latino-americanos,
segundo dados da Campanha pela Redução da Jornada de Trabalho,
coordenada pelo Dieese e cinco centrais sindicais. Na Alemanha, a jornada
semana é de 39 horas; nos Estados Unidos, 40 horas; e no Canadá,
31 horas. No Chile, a jornada semanal é de 43 horas e na Argentina,
de 39 horas. Em todos esses países, a jornada foi reduzida nos últimos
20 anos.
O objetivo do seminário,
que prossegue até amanhã, é iniciar um movimento
para debater o crescimento econômico do país e as formas
para que esse crescimento traga desenvolvimento para a população.
O seminário será concluído com uma agenda de propostas
das centrais com as diretrizes para superar os problemas centrais e
que impedem o desenvolvimento. As propostas serão apresentadas
para empresários, governo e estados e municípios e serão
uma base para as ações que as centrais sindicais desenvolverão
em todo o país.
|
ESTADÃO.COM / SÃO
PAULO, 06 de abril de 2007 | Economia
Risco Brasil atinge nova mínima
e se iguala a emergentes
A taxa de risco reflete a confiança
do investidor estrangeiro na capacidade de pagamento da dívida
de um país. Quanto menor, maior é a confiança
do investidor
SÃO PAULO - O Risco Brasil
atingiu nova mínima nesta quinta-feira, 5, ao chegar a 161 pontos
base, e mais uma vez se igualou ao risco dos países emergentes
que, às 15h35 desta quinta-feira, dia 5, está neste mesmo
patamar. A taxa de risco reflete a confiança do investidor estrangeiro
na capacidade de pagamento da dívida de um país. Quanto
menor esta taxa, maior é a confiança do investidor.
Neste patamar, significa que
o Brasil paga 1,61 ponto porcentual como prêmio (em dólar)
acima dos juros dos títulos norte-americanos, considerados sem
risco. Esse prêmio de risco influencia as taxas pagas pelas empresas
brasileiras para captar recursos no exterior. Ou seja, o risco Brasil
em queda significa menor custo de captação tanto para o
governo brasileiro quanto para as empresas do País.
A queda do risco abre a possibilidade
para que o Brasil atinja o investment grade, classificação
dada os ativos considerados de baixo risco de crédito pelas agências
de classificação. Para se ter uma idéia, se o México
for tomado como exemplo de comparação, o Brasil está a
60 pontos de receber esta classificação, já que
o risco daquele país, que já é considerado grau
de investimento pelas agências, oscila atualmente na casa de 100
pontos.
Três anos
A economista-chefe da Mellon
Global Investments, Solange Srour, avalia que a queda do Risco Brasil
mostra que os investidores estão confiantes em relação
ao Brasil, e o mercado já considera o grau de investimento. "Acho
que o Brasil está no caminho para o investment grade. Não
vai demorar mais do que três anos e um upgrade (melhora na perspectiva)
deve vir este ano", disse em entrevista ao Broadcast Ao Vivo - serviço
de informações financeiras da Agência Estado. A economista
frisou, porém, que para que se chegue ao grau máximo de
confiança dos investidores serão necessários avanços
nas reformas, os quais ela não acredita que ocorrerão este
ano.
A economista observou também
que a queda do Risco Brasil daqui para frente dependerá, além
das reformas necessárias, da evolução do cenário
externo, especialmente da economia dos Estados Unidos, cujo ritmo de
desaceleração ainda é discutido. Solange disse ainda
que as reservas do Brasil estão num nível bom e que o aumento
delas daqui por diante tem menos a ver com a diminuição
do risco e mais com a suavização da apreciação
do câmbio.
O Risco Brasil foi popularizado
durante a crise de confiança que antecedeu a eleição
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. No pior momento
de nervosismo nos mercados, no segundo semestre daquele ano, o risco
Brasil chegou aos 2.400 pontos.
|
Notícias do Tribunal
Superior do Trabalho
09/04/2007
Estagiária será indenizada
por doença adquirida no local de trabalho
O Instituto Euvaldo Lodi de Santa
Catarina - IEL/SC foi condenado a pagar indenização de
R$ 8.261,42 por danos morais e materiais a uma estagiária que
adquiriu doença profissional no local de trabalho. O instituto,
que atua como intermediador de contratos de estágio de estudantes,
foi condenado porque não observou, como deveria, as condições
de trabalho da estagiária.
A condenação imposta
ao IEL pelo Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região (Santa
Catarina) foi mantida pela Sexta Turma do Tribunal Superior do Trabalho
que, por unanimidade, acompanhou o voto do ministro Aloysio Corrêa
da Veiga, relator do processo.
A estudante de Administração de Empresas, de 26 anos, foi contratada
pelo instituto para estagiar na LAMB – Comércio e Transportes
Confecções Ltda, no período de 13 de abril a 12 de outubro
de 2004, com salário de R$ 500,00 para uma jornada de 22 horas semanais.
Segundo contou na petição
inicial, foi lotada no setor industrial, realizando serviço administrativo.
O seu local de trabalho ficava próximo à estamparia da
fábrica de roupas, em local considerado insalubre, por causa do
forte cheiro do material químico utilizado na tintura e da quantidade
de pó que escapava dos tecidos.
O contato permanente com os agentes
insalubres, sem uso de equipamento de proteção individual
(EPI), acarretou-lhe sérios problemas de saúde, como urticária
aguda, angiodema, hipotensão e dispnéia. Segundo seu relato,
os primeiros sintomas surgiram em maio de 2004, quando passou a sofrer
seguidas crises alérgicas, necessitando de tratamento médico
permanente e precisando ser afastada do trabalho em várias ocasiões.
De acordo com a estagiária,
as faltas ao trabalho não agradaram os dono da empresa, que terminaram
por romper o contrato de estágio. Em abril de 2005, ela ajuizou
reclamação trabalhista contra o IEL e a Lamb, pedindo ressarcimento
de despesas médicas no valor de R$ 1.261,42, indenização
por danos morais no valor de R$ 50 mil e pensão mensal de R$ 500,00
a contar da data da propositura da ação até o seu
pronto restabelecimento.
O IEL, em contestação,
argüiu a incompetência da Justiça do Trabalho para
julgar causas envolvendo acidente de trabalho e apontou ilegitimidade
passiva pela não existência de vínculo de emprego
entre as partes. Quanto ao dano moral, argumentou que jamais recebeu
queixas da estagiária quanto à insalubridade do local e
negou o direito de recebimento de pensão por inexistência
de nexo de causalidade entre a doença apresentada e o local de
trabalho.
A Lamb, por sua vez, defendeu-se
alegando inexistência de relação empregatícia.
Afirmou que a estagiária jamais teve contato com agentes insalubres,
e que os problemas de saúde apresentados ocorreram por “culpa
da vítima, que já possuía a doença”.
A sentença foi parcialmente
favorável à estudante. Com base no laudo pericial apresentado
em juízo, o magistrado concluiu pela existência da condição
insalubre e responsabilizou solidariamente a empresa e o instituto pela
doença da estagiária, condenando as rés a pagar
R$ 7 mil pelos danos morais, R$ 1.261,42 relativo aos gastos com medicamentos
(danos materiais), e R$ 450,00 pelos honorários periciais.
Segundo o juiz da Vara do Trabalho
de São Miguel do Oeste (SC), o IEL, na qualidade de conhecido órgão
intermediador de contratos de estágios, deveria se preocupar com
o ambiente de trabalho para o qual está destinando os estudantes
por ele arregimentados e o empregador, por seu turno, tem obrigação
de zelar pela saúde, não só de seus empregados,
como dos estudantes que desempenham papel educacional sob sua responsabilidade.
O Instituto Euvaldo Lodi recorreu,
insistindo na tese de que por não ser o real empregador, não é responsável
pela doença adquirida no local de trabalho. O TRT/SC manteve a
decisão. “O intermediário de mão-de-obra que,
contrariando as regras inerentes à segurança e à saúde
no ambiente de trabalho, contribui para que o empregado sofra dano dele
decorrente, incide na obrigação de indenizar”, destacou
o acórdão regional.
Novo recurso foi interposto pelo
IEL, dessa vez ao TST. O recurso não foi conhecido porque o instituto
não conseguiu demonstrar violação de dispositivo
de lei nem divergência jurisprudencial apta ao conhecimento do
apelo. (RR-417/2005-015-12-00.9).

|