 |
Folha de São Paulo,
16 de abril de 2007
Tucanos não aceitam articular
fim da reeleição
CATIA SEABRA
DA REPORTAGEM LOCAL
Um jogo de empurra entre tucanos
e governistas ameaça deixar sem patrocínio a emenda que
põe fim à reeleição no país. Sob críticas
e a acusação de casuísmo, tucanos não aceitam
a proposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que assumam
a paternidade da emenda. Segundo a Folha apurou, Lula afirma que só encamparia
a idéia com o aval dos governadores de São Paulo, José Serra,
e de Minas, Aécio Neves. Assumidamente contrário à reeleição,
Serra já disse que não vai liderar a articulação,
sob argumento de que tem de se dedicar ao governo.
Procurado pela Folha, Aécio
-outro crítico da reeleição- não se manifestou.
Para o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio Neto (AM),
Lula "se equivoca com essa fulanização". "Não
tem nada a ver com Aécio, Serra ou ele", reagiu o líder,
acrescentando: "Lula tem papel capital nisso. Sempre foi contra
a reeleição. Está na hora de colocar isso na prática".
Líder da minoria na Câmara, Júlio Redecker (PSDB-RS)
afirma que "o governo é o principal interessado".
Hoje, Aécio recebe
líderes tucanos num almoço. Na pauta, projetos de interesse
de Minas. Mas o gesto é encarado como uma demarcação
de espaço. Aécio teria até autorizado o deputado
Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR) para o lançamento, em Londrina,
do slogan "Aécio em 10", numa alusão a 2010.
Seria em maio. Mas "deu tanto problema que é melhor adiar",
disse Hauly.
|
Folha
de São Paulo, 15 de abril de 2007
Benefício social é bomba-relógio
fiscal
Valores destinados a idosos a partir de 65 anos
e a portadores de deficiência praticamente quadruplicaram nos últimos
dez anos | Em 2006, benefícios foram pagos a 2,477 milhões
e custaram R$ 9,718 bi ao governo; previsão é que, em 20
anos, custem R$ 50 bi
JULIANNA SOFIA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Os benefícios assistenciais
pagos a idosos a partir de 65 anos e a portadores de deficiência
praticamente quadruplicaram nos últimos dez anos e podem se
tornar a nova bomba-relógio fiscal que o governo precisará desarmar.
As últimas projeções do Ministério da Previdência
Social indicam que em 20 anos o número de beneficiários
continuará crescendo a passos largos e, ao final de duas décadas,
consumirá quase R$ 50 bilhões por ano.
No ano passado, os benefícios
da Loas (Lei Orgânica da Assistência Social), também
conhecidos por BPCs (Benefícios de Prestação Continuada),
foram pagos a 2,477 milhões de brasileiros e custaram aos cofres
públicos R$ 9,718 bilhões -mais do que o principal programa
social do governo, o Bolsa Família. Somente nos dois primeiros
meses deste ano o estoque de benefícios já incorporou
mais 23 mil pessoas.
No final de 1997, o total de
atendidos pela Loas não chegava a 650 mil idosos e portadores
de deficiência, e o gasto era inferior a R$ 800 milhões
por ano. "Há realmente um crescimento do estoque de benefícios.
Há sempre a entrada de pessoas e a saída não ocorre
na mesma proporção. A expectativa de vida do brasileiro
aumentou. Por isso, é natural que o número seja crescente",
afirma a diretora do Departamento de Benefícios Assistenciais
do Ministério de Desenvolvimento Social, Maria José de
Freitas.
A avaliação do
ministério é que a taxa de concessão não
está crescendo. A previsão é que o número
de benefícios cresça 6% em 2007. Nos últimos três
anos, porém, o governo assistiu a um boom de concessões
devido à criação do Estatuto do Idoso. Com a nova
lei, em vigor em 2004, houve redução na idade exigida
para recebimento do benefício -de 67 para 65 anos. No primeiro
ano da vigência do estatuto, o volume de BPCs cresceu 21%. Em
2005, a taxa de crescimento foi menor (de 10%) e, no ano passado, menor
ainda (8%).
Técnicos da Previdência
explicam que o efeito do estatuto já foi totalmente absorvido
e atribuem o contínuo crescimento do estoque a dois outros fatores:
o crescimento vegetativo da folha e a política de reajustes
para o mínimo. Um dos requisitos para o acesso ao BPC é a
renda per capita familiar mensal ser de até um quarto do mínimo
(hoje, R$ 95). Com os aumentos reais para o mínimo, há uma
ampliação no número de famílias cujos idosos
se enquadram na regra.
Bomba-relógio
Especialistas ouvidos pela
Folha alertam, porém, que a tendência de aumento do estoque
dos benefícios deve se acelerar nos próximos anos e chegam
a considerar subestimadas as projeções da Previdência
para o médio prazo. Uma das explicações é o
envelhecimento da população, aumentando o universo de
elegíveis ao BPC. "A população está envelhecendo
e acredito que as estatísticas estejam subestimadas. O sistema
assistencial e o contributivo [Previdência] precisam ser consistentes",
afirma o especialista da OIT (Organização Internacional
do Trabalho) e ex-secretário de Previdência Social Vinícius
Pinheiro.
Segundo o economista
José Márcio Camargo, a bomba-relógio do ponto
de vista fiscal está sendo armada porque, além de a
população brasileira estar envelhecendo, o governo
vem reajustando o valor dos benefícios acima da inflação.
Camargo diz que a atual regra do BPC estimula a informalidade, deixando
mais gente de fora da Previdência. Um estudo de sua co-autoria
traz evidências de que, desde a criação da Loas,
houve redução na entrada de jovens de pouca qualificação
no mercado de trabalho.
|
Folha
de São Paulo, 15 de abril de 2007
Cuidados evitam que a declaração
do IR caia na malha fina e adota parâmetros para apanhar os que
estão sonegando
Contribuinte deve ficar atento, pois a Receita
cruza dados
| Fontes de renda, despesas médicas, dependentes e aumento de patrimônio
injustificado são dados a que o leão presta atenção
MARCOS CÉZARI
DA REPORTAGEM LOCAL
Malha fina. Essas duas palavras costumam tirar
o sono de milhares de contribuintes a cada ano. São aqueles cujas
declarações do Imposto de Renda ficam retidas pela Receita
Federal para uma verificação mais detalhada -por algum
erro ou por suspeita de sonegação. O contribuinte que comete
algum erro, ainda que involuntário, ou aquele que pretende enganar
o leão do IR precisa ter em mente o seguinte: a malha fina não é um
sistema aleatório, do tipo "a cada dez declarações
processadas uma fica retida".
A Receita Federal não trabalha dessa forma.
Ela usa dois sistemas básicos: cruzamento de informações
e parâmetros. No primeiro caso, a Receita cruza as diversas informações
existentes em seus cadastros com as de outros órgãos. Um
exemplo: verificar se um mesmo CPF tem rendimento pago por uma empresa
e pelo INSS.
Os parâmetros são "bases" que
a Receita usa a cada ano, no processamento das declarações,
com o objetivo de apanhar os "espertinhos" que têm a
intenção de sonegar -seja pagando menos ou restituindo
mais. As "bases" desses parâmetros são decididas
somente depois que as declarações são entregues.
Assim, eles serão usados a partir do momento que começa
o processamento das declarações. Detalhe: a Receita não
divulga quais são esses parâmetros -para não dar
chance aos "espertos"- e alguns deles são mudados a
cada ano.
Um parâmetro pode recair sobre os gastos
médicos. É provável que a Receita defina que toda
declaração de um contribuinte com mulher e filho fique
retida se as despesas médicas superarem R$ 15 mil, por exemplo.
Ou então, se forem maiores do que 10% da renda anual (em geral,
esses gastos ficam abaixo desses limites). Outro parâmetro podem
ser os dependentes. Nesse caso, a "base" para reter a declaração
pode ser, por exemplo, o número: cinco, seis ou mais dependentes. É que,
na maioria dos casos, os contribuintes têm dois ou três dependentes.
Não omitir renda
Para evitar que a sua declaração
fique presa na malha fina, o contribuinte deve adotar alguns cuidados
na hora de prestar contas ao fisco. O primeiro deles é não
omitir nenhuma fonte de renda (no caso de ter mais de uma, como salário
e aposentadoria). É que, nesse caso, a Receita descobre o "golpe" ao
cruzar os dados recebidos das fontes pagadoras. O cruzamento é simples,
pois é feito através do número do CPF do contribuinte.
Deixar de informar uma fonte pagadora é malha fina na certa.
Omitir renda dos dependentes também deixa
a declaração presa. Há contribuintes que adotam
essa estratégia, especialmente quando o dependente (um filho,
por exemplo) ainda estuda e é jovem. Só que, se a fonte
pagadora informou o pagamento na Dirf, a Receita cruza os dados e pega
a falcatrua. Deixar de declarar renda com aluguel também é uma
estratégia muito usada por quem quer passar a perna no leão.
Mas descobrir essa fraude não é difícil, uma vez
que quem paga aluguel tem de declarar o valor, mesmo não resultando
em dedução. Com o CPF informado pelo inquilino, fica fácil
saber se o contribuinte que recebeu declarou o valor ou não.
As despesas médicas são um dos
principais focos de irregularidades nas declarações. Motivo: é mais
difícil a fraude ser descoberta pela Receita. A dificuldade para
descobri-la ocorre porque, na maioria dos casos, os contribuintes usam
diferentes artifícios. O primeiro consiste em aumentar o valor
do recibo -por exemplo, um gasto de R$ 200 ser declarado por R$ 300.
Outro é lançar uma despesa inexistente. Nesse caso, tendo
o nome e o CPF do profissional (para isso basta ter um recibo de anos
anteriores) é lançado um valor sem que ele de fato tenha
sido gasto.
Embora seja mais difícil detectar essas
fraudes referentes a gastos médicos, a Receita tem como detectá-las,
através do cruzamento da renda informada pelo profissional com
o total declarado pelos contribuintes.
Erros de digitação
Outra providência que os contribuintes
devem adotar é verificar, antes de entregar a declaração,
se não cometeram erros na digitação de números
(valores, CPF e CNPJ). Um erro fácil de ocorrer é a troca
de posição de um número no valor da renda declarada
-como R$ 59.405 por R$ 54.905.
Embora o programa da Receita na internet detecte erros de CPF e CNPJ, ele não "pega" um
como o citado. Assim, todo cuidado é pouco, pois esse tipo de falha
também retém a declaração na malha fina.
As informações prestadas pelos
bancos também ajudam a Receita a detectar sonegação.
Os informes das aplicações financeiras de cada contribuinte
trazem o valor da CPMF retida. Basta cruzar esse valor com a movimentação
financeira para saber se há ou não sonegação.
Se o banco reteve R$ 380 de CPMF de um correntista, é sinal de
que ele movimentou R$ 100 mil no ano. Se declarar renda muito menor do
que isso, pode ser indício de sonegação. A declaração
de bens também requer cuidados. Aumento de patrimônio sem
renda compatível -o chamado sinal exterior de riqueza- também
pode ser um indício de sonegação.
|
Folha
de São Paulo, 16 de abril de 2007
Expectativa do mercado é nova redução
da taxa Selic
Inflação norte-americana será divulgada
amanhã
DA REPORTAGEM LOCAL
O mercado doméstico
terá na reunião do Copom (Comitê de Política
Monetária) o principal evento desta semana. Nos Estados Unidos,
a divulgação do CPI (índice de preços ao
consumidor americano) amanhã vai ser o mais relevante evento
a ser acompanhado pelo mercado financeiro. Entre amanhã e quarta-feira,
o Copom vai decidir como fica a taxa básica de juros da economia
brasileira, a Selic, que está em 12,75% anuais.
A esmagadora maioria de investidores
e analistas espera que a taxa seja reduzida em 0,25 ponto percentual,
para 12,50%. O cenário externo ainda incerto -especialmente
devido à economia americana- não daria espaços
para que o Copom fosse mais ousado neste momento. Uma parada técnica
-ou seja, a manutenção da Selic no atual patamar- também
tem sido descartada pelo mercado nesse momento.
Para o Departamento de Economia
do Santander Banespa essa reunião do Copom "será realizada
sob forte consenso de que a Selic sofrerá um corte de 0,25 ponto". "Dificilmente
o resultado será diferente, mas o mercado buscará na
nota divulgada após a reunião e na ata motivos para acreditar
que o Banco Central venha, em algum momento do ano, a cortar a taxa
em 0,50 ponto percentual."
A Selic serve de referência
para as outras taxas praticadas no mercado. Em períodos de alta
da Selic, os juros cobrados em diferentes modalidades de crédito
tendem a subir. Em momentos de redução da taxa básica,
os outros juros tendem a recuar. Na semana passada, as taxas futuras
dos contratos DI (Depósito Interfinanceiro) negociados na BM&F
(Bolsa de Mercadorias & Futuros) recuaram moderadamente.
De segunda para sexta, a taxa
do DI de prazo de vencimento mais curto, que espelha as projeções
para a reunião do Copom, recuou de 12,52% para 12,46% -o que
indica expectativa de redução de 0,25 ponto na Selic.
A saída do diretor de Política Monetária do BC,
Rodrigo Azevedo, na semana passada aumentou as expectativas do mercado
em relação aos juros poderem recuar de forma mais forte
no segundo semestre do ano. Azevedo -ao lado de Afonso Beviláqua,
que deixou o BC no mês passado- era visto como um dos mais conservadores
diretores da autoridade monetária.
Maristella Ansanelli, economista-chefe
do banco Fibra, diz que o BC "deve manter o ritmo de flexibilização
da política monetária, reduzindo a taxa Selic em 0,25
ponto". "Estimamos que a taxa de juros encerre 2007 em 11,25%,
o que implica reduções de 0,25 pontos em todas as reuniões
do Copom daqui até o final do ano", diz a economista. Segundo
o último boletim Focus, feito a partir de pesquisa do BC com
cem bancos, a Selic deve encerrar o ano em 11,50%.
Inflação
Nos Estados Unidos será conhecido
amanhã um importante indicador, que é o CPI do mês
de março. O mercado espera que o índice de preços
ao consumidor americano fique em torno de 0,6%. Em fevereiro, esse índice
de preços marcou alta de 0,4%. Para o núcleo do índice,
que exclui as variações de preços de energia e
alimentos, a expectativa é que demonstre uma alta de 0,2%. Amanhã também
serão conhecidos dados do mercado imobiliário americano,
levantados pelo MBA (Associação de Bancos de Hipoteca
dos EUA, na sigla em inglês).
|
Diário Vermelho, 14
de abril de 2007
Emenda 3: centrais convocam Paralisação
Nacional para dia 23
Por Carla Santos*
Nesta quinta-feira (12), em reunião
na capital paulista, lideranças de sete centrais sindicais, entre
elas a CUT e a Força Sindical, decidiram intensificar as mobilizações
pela manutenção do veto presidencial a Emenda 3. A principal
decisão foi por um Dia Nacional de Paralisação para
23 de abril (segunda-feira). As sindicais querem endurecer ainda mais
a pressão dos trabalhadores contra o veto. Por outro lado, parlamentares
ameaçam votá-lo e derrubá-lo. Governo insiste em
uma possível negociação entre patrões e trabalhadores
por um projeto alternativo à Emenda.

Manifestações e greves do dia 10 parou milhares
A Emenda 3, apresentada
no projeto de lei (PL) que criou a Super Receita, foi aprovada com
amplo apoio de senadores e deputados no Congresso Nacional. Porém,
ao chegar no Palácio do Planalto o presidente Lula a vetou apedido
das centrais sindicais do país. Como a emenda foi vetada, ela
voltará à pauta de votações do Congresso
que pode ratificar ou derrubar o veto presidencial.
As lideranças sindicais são unânimes em afirmar que a derrubada
do veto pelo Congresso Nacional abrirá caminho à flexibilização
dos direitos sociais, configurando um sério retrocesso para a classe
trabalhadora brasileira. Se o veto for derrubado, as empresas poderão
transformar trabalhadores registrado em pessoas jurídicas (PJs) levando
a perca de 13º salário, FGTS, seguro desemprego, entre outros direitos.
Paralisação de 2 horas dia
23
O desafio da reunião com as sete centrais sindicais (Central Única
dos Trabalhadores (CUT), Força Sindical, Central Geral dos Trabalhadores
Brasileiros (CGTB), Central Geral dos Trabalhadores (CGT), Social Democracia
Sindical (SDS), Central Autônoma dos Trabalhadores (CAT) e a Nova Central.)
foi o de tomar medidas para ampliar a mobilização contra o veto.
Tarefa nada fácil, uma vez que na quarta-feira da semana passada milhares
de trabalhadores cruzaram os braços em mais de 20 estados do Brasil.
Somente em São Paulo, mais de 120 mil trabalhadores foram mobilizados.
Em Caxias do Sul (RS) a cidade viu a maior manifestação dos últimos
20 anos, com mais de 10 mil pessoas marchando pela manutenção
do veto a Emenda 3.
Neste sentido, a reunião apontou para três medidas de intensificação
das mobilizações. Primeiro, garantir maior articulação
de pressão em todos os estados junto aos parlamentares que defendem
o veto.
Segundo, criar um Grupo de Trabalho (GT) para formatação de uma
proposta substitutiva ao projeto da Emenda 3. O GT será composto por
representantes das centrais sindicais, DIEESE (Departamento Intersindical de
Estatística e Estudos Socioeconômicos), especialistas em fiscalização
do trabalho, previdência e leis tributárias. A primeira reunião
do GT já está marcada para o dia 19 de abril, quinta-feira.
E terceiro, convocar uma nova paralisação, desta vez nacional
e de 2 horas, envolvendo todas as centrais nos estados e todos os ramos, para
o dia 23 de abril, segunda-feira, o Dia Nacional de Paralisação
pela manutenção do veto à Emenda 3.
O vice-presidente da CUT e também membro da coordenação
nacional da Corrente Sindical Classista (CSC), Wagner Gomes, declarou que é fundamental, “partir
para uma ampla mobilização das bases, convocar assembléias,
conscientizar os trabalhadores sobre os perigos embutidos na Emenda 3 e viabilizar
as paralisações”.
Em São Paulo, os trabalhadores em transportes deverão aderir à paralisação.
Wagner apelou aos sindicalistas da CSC para “pôr mãos às
obras desde já com o objetivo de envolver todos os sindicatos dirigidos
pelos classistas e suas respectivas bases no movimento. Temos de seguir o exemplo
dos companheiros e companheiras de Caxias do Sul (RS), que realizaram uma manifestação
histórica contra a Emenda 3 no último dia 10.”
Governo e centrais buscam soluções
O impasse a respeito da Emenda 3 entre trabalhadores e empresários e
a difícil co-relação de forças dentro do Congresso
Nacional, levou o Governo a chamar uma nova reunião com as centrais
no dia 23. Uma primeira reunião, realizada nas manifestações
do dia 10 de abril já foi realizada, porém, centrais e governo
não chegaram a um acordo.
“ Estamos dispostos a negociar um novo projeto, mas não estamos
otimistas com esta possibilidade. A nova proposta do governo quer manter a contratações
de pessoas jurídicas (PJs), não vamos aceitar isto em hipótese
alguma”, disse Wagner.
Com o GT criado pelas centrais se renovam as esperanças de que as entidades
possam apresentar alguma proposta ao governo que o contemple. Embora, este
seja o melhor cenário para entidades e governo as centrais não
descartam uma possível votação do veto na semana que vem,
conforme ameaças de parlamentares na grande mídia. “Se
o veto for votado, vamos exigir que a votação seja aberta, a
sociedade tem direito de saber, um a um, quem serão os traidores do
povo”, disse o vice-presidente da CUT.
|
Folha de São Paulo,
14 de abril de 2007
GOVERNO
Evento do PAC no ABC vira ato pró-Marinho
JOSÉ ALBERTO BOMBIG
DA REPORTAGEM LOCAL
Em pré-campanha pela Prefeitura
de São Bernardo do Campo, o ministro Luiz Marinho (Previdência)
foi a grande estrela de um evento que reuniu cerca de 500 pessoas ontem
e teve as presenças do presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia
(PT), e da ministra Dilma Rousseff. O tema do seminário, patrocinado
pelo governo e pela Petrobras, era o impacto do PAC na região.
A organização ficou a cargo do jornal "ABCD Maior",
que tem o jornalista Celso Horta, ex-assessor de Marinho, como diretor.
"O assunto [PAC] é importante,
mas houve, infelizmente, uma tendência partidária na composição
do evento", disse o prefeito tucano Kiko Teixeira, de Rio Grande
da Serra. Nas rodinhas de bate-papo, o deputado Vicentinho (PT) não
escondia as pretensões eleitorais do ministro: "O Marinho é a
nossa grande esperança de vencer", afirmou. Questionado
sobre isso, Marinho foi breve: "Não sei, vocês têm
de perguntar aos presidentes dos diretórios do PT na região".
|
Folha de São Paulo,
14 de abril de 2007
PARANÁ
Vereador perde o mandato por trocar
de sigla
DA AGÊNCIA FOLHA, EM CURITIBA
O vereador Osdival Gomes
da Costa, 64, de Guarapuava (PR), que trocou o PMDB pelo PP, perdeu
ontem o mandato por infidelidade partidária. Com base na decisão
do TSE de que o mandato pertence ao partido, e não ao eleito,
o presidente da Câmara Municipal, Admir Strechar (PMDB), 38,
atendeu a um pedido do seu partido e, por ato administrativo, cassou
o mandato de Costa. Segundo o filho do vereador, ele estudar recorrer.
|
Folha
de São Paulo, 14 de abril de 2007
Lula evita ser "pai" do fim da
reeleição
Após conversa com presidente, líderes
governistas afirmam que debate não é do Executivo e deve
ser feito via reforma política | Líder do governo no Senado,
Romero Jucá (PMDB) diz que presidente não quer parecer "patrocinador" de
uma emenda constitucional
DA REPORTAGEM LOCAL
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O presidente Luiz Inácio
Lula da Silva sinalizou a líderes governistas que é a
favor do fim da reeleição, mas pretende transferir ao
Congresso a paternidade da proposta, temendo comparações
com o colega venezuelano Hugo Chávez. Ontem, após reunião
com o presidente, líderes deixaram o Palácio do Planalto
admitindo a inclusão do fim da reeleição na reforma
política. Estavam na reunião os líderes do governo
no Congresso, Roseana Sarney (PMDB-MA), no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR),
e na Câmara, José Múcio (PTB-PE).
Segundo Jucá, o presidente "não
quer parecer patrocinador" de uma emenda constitucional para acabar
com a reeleição, apesar de, "historicamente",
já ter se manifestado contra. A Folha publicou reportagem ontem
sobre as articulações em curso entre governistas e dirigentes
do PSDB para votação de uma emenda.
"Essa questão da
reeleição não está na pauta do presidente",
disse Jucá. "Na hora que bota a mão patrocinando,
parece que está fazendo em proveito próprio.Tem que ser
por aqui [pelo Congresso]", justificou,acrescentando: "Se
o governo entra num negócio desse, e já tem gente dizendo
que ele está fazendo isso para se candidatar de novo, cria um
tumulto que não interessa". Segundo ele, o fim da reeleição,
com mandato de cinco anos, não vigoraria a partir de 2010, para
não parecer casuísmo.
A exemplo de Lula, o governador
de São Paulo, José Serra, evita figurar como padrinho
da proposta. "Diretamente, não tive nenhuma conversação
com ninguém do governo federal a esse respeito. Nem do PT. Eu
tenho uma posição antiga de que, inclusive, não
houvesse reeleição no Brasil. Mas, eu não participei
de nenhuma tratativa", disse Serra, que foi sondado sobre o tema,
segundo a Folha apurou. O líder da minoria na Câmara,
Júlio Redecker (PSDB-RS), vai defender a emenda pelo fim da
reeleição na próxima reunião de líderes.
O ministro da Justiça,
Tarso Genro, levará ao conselho político de Lula, dia
23, a proposta de reforma política que inclui o fim da reeleição.
O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), disse que
apoia o fim da reeleição. "Isso exigiria uma emenda à Constituição.
Pode ser que durante a discussão da reforma política
o tema apareça." O tema divide o Congresso. Líder
do DEM, ex-PFL, Onyx Lorenzoni (RS) disse que o partido ainda não
tem posição. Ele tem simpatia pela idéia, desde
que não seja aplicada em 2010. Já José Múcio
vê com ressalvas o fim da reeleição. "Você não
pode proibir o uso da faca porque a faca matou alguém."
O deputado Luciano Castro
(RR), líder do PR, aprova o fim da reeleição
a partir de 2014 e com unificação de pleitos. De fato,
a mudança exigiria uma delicada engenharia para compatibilização
de mandatos e eleições. As fórmulas são
diversas. Jucá defende que todas as eleições
de Legislativo sejam num mesmo ano e as de Executivo, em outro. Nesse
caso, os governantes teriam cinco anos de mandato. Deputados e vereadores,
quatro. Só assim seria possível driblar um problema
no Senado, onde os mandatos são de oito anos.
|
Folha
de São Paulo, 14 de abril de 2007
Fim da reeleição é idéia
para acomodar interesses, diz FHC
Ex-presidente defende que eleitor tem direito
de escolher se governante continua no cargo | Sobre intenção
do governo de conversar com líderes da oposição,
tucano afirma que o presidente não quer um diálogo, mas "tirar
proveito"
DA SUCURSAL DO RIO
O ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso (PSDB) classificou a negociação para dar fim à reeleição
como uma proposta para "acomodar interesses". FHC conseguiu
aprovar a emenda 16, que permitiu a reeleição para presidente
durante o seu governo, em 1997. "O Brasil tem mania de mudar toda
hora tudo. Nós mal introduzimos a reeleição. (...)
Não sou favorável a mudanças institucionais a
cada instante. O país não é um laboratório
experimental", disse. Segundo FHC, o povo precisa ter o direito
de escolher se prefere que um governante continue no cargo.
O ex-vice-presidente Marco
Maciel também manifestou a mesma opinião: "Ainda é muito
cedo para fazer uma avaliação definitiva e cogitar alterações
no instituto da reeleição". FHC já defendia
a reeleição antes mesmo de ser eleito, em 1994. No início
de seu mandato, porém, dizia que não pensava no assunto: "Estou
fora". É só a partir de 1996 que ele passa a apoiar
abertamente a reeleição. A proposta em discussão
ampliaria o período de mandato no Executivo de quatro para cinco
anos. FHC disse não estar convencido de que cinco anos sejam
suficientes para que um governante consiga fazer uma gestão
inovadora. Em compensação, afirma que caso a gestão
não obtenha êxito, o prazo pode se tornar longo demais.
"Por que nós vamos
agora inventar a roda quadrada e mudar o sistema outra vez? No fundo
isso é para acomodar interesses. Mais gente poderá ser
candidata, com mais chances de se tornar presidente", disse. FHC
fez a palestra de encerramento do seminário "A reinvenção
do futuro das grandes metrópoles e a nova agenda de desenvolvimento
econômico e social da América Latina", na sede da
Associação Comercial do Rio de Janeiro.
Aproximação
Sobre a intenção
do governo de conversar com líderes da oposição,
ele disse: "Como é que vamos dialogar, se o presidente
todo dia me ataca à toa, sem mais nem menos? Então ele
não quer diálogo nenhum, quer é tirar proveito",
disse. Ele afirmou não ser contrário à conversa,
mas que ela precisa de uma base definida. Segundo o ex-presidente,
os partidos de oposição precisam discutir com os da base
governista no Congresso. Fora desse cenário, ele disse que a
proposta "tem cheiro de cooptação, de chamar para
amortecer".
O ex-presidente classificou
o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) como
uma "carta de intenções". "É um
conjunto de projetos que já estavam por lá. Infelizmente,
o governo Lula descontinuou os eixos de desenvolvimento e as formas
de gestão que tínhamos montado para dar prioridade
a esses projetos", disse.
|
JORNAL GAZETA DO POVO, 16
de abril de 2007 | Economia
Censo vai mostrar o tamanho do Brasil
urbano e rural
82 mil pesquisadores vão
visitar 30 mi de casas e 5,7 mi de estabelecimentos agropecuários
A partir de hoje, 82 mil recenseadores do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE) começam a percorrer 30 milhões de
domicílios e 5,7 milhões de estabelecimentos agropecuários
em todo o Brasil para a produção do Censo Agropecuário
2007 e da Contagem da População. Durante três meses, o
IBGE pretende entrevistar 99 milhões de pessoas, o que corresponde a
52% da população brasileira. O levantamento tem um custo estimado
de R$ 560 milhões e será feito em 5.435 cidades brasileiras com
menos de 170 mil habitantes.
Tecnologia Contagem será informatizada
Pela primeira vez, um levantamento do IBGE será feito com uso de computadores
de mão. Serão 82 mil “palm tops” utilizados simultaneamente.
O projeto do computador que será usado pelo IBGE foi feito especialmente
para a instituição e custou R$ 996 cada um. São equipados
com tecnologia GPS e levam, além dos questionários, análises
críticas que limitam os erros de preenchimento. “Se o equipamento
for roubado, os entrevistados podem ficar tranqüilos, os dados estão
criptografados”, explica o coordenador de informática do censo,
Heleno Mansoldo. A transmissão das informações será feita
por banda larga ou via modem, conectado em linha telefônica.
Com a informatização
dos questionários, os resultados serão divulgados mais
rapidamente. Os primeiros resultados da contagem serão divulgados
no fim de agosto e os do censo, em outubro. Além do levantamento
agropecuário, um dos objetivos principais é atualizar a
população de cidades com menos de 170 mil habitantes, informação
importante para a repartição dos recursos do Fundo de Participação
dos Municípios (FPM). Acima desse número, as alíquotas
se mantêm iguais. Outro objetivo é atualizar o cadastro
nacional de endereços para o censo populacional de 2010.
No Paraná, 2.862 pesquisadores farão o levantamento para o IBGE.
Os últimos dados disponíveis sobre a situação das
criações, das lavouras e dos estabelecimentos rurais brasileiros
são de 1996. De acordo com o Censo Agropecuário de 1996, o estado
tem 369 mil propriedades agrícolas. “O questionário demora
cerca de duas horas para ser preenchido. Parece muito tempo, mas serão
duas horas que valerão por uma década, quando deve ser feito
o próximo censo”, afirma o gerente do Censo Agropecuário,
Antonio Carlos Simões Florido.
Além da missão
de medir a atividade agropecuária, que ocupa mais de 5 milhões
de pessoas, a pesquisa trará indicadores sociais, de saúde
e meio ambiente. Será o termômetro esperado por diversos
setores do governo para avaliar as políticas públicas em
vigor, como por exemplo o Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf),
criado em 1996. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (Incra) espera ansioso o resultado dos assentamentos que
serão investigados. A estimativa é de que haja 600 mil
a 700 mil assentados, número hoje desconhecido e que é uma
das novidades incluídas na pesquisa.
O censo investigará o
uso de energia elétrica, dado já esperado pelo Ministério
de Minas e Energia, por causa do Programa Luz para Todos, que tem a meta
de atingir 10 milhões de pessoas em 2008, mas que só chegou
a cerca de 5,4 milhões. Até o trabalho infantil – medido
somente na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad),
também do IBGE – terá um indicador obtido a partir
do censo, que vai apurar a situação dos trabalhadores com
menos de 14 anos. O censo será recurso importante ainda para avaliar
questões de caráter ambiental, por considerar fatores como
a forma de criação de bovinos (confinados ou não)
e os tipos de adubo e de irrigação usados. “Com isso,
será possível saber o nível de emissão de
poluentes da agropecuária brasileira”, diz Florido.
Criações novas
vão figurar na pesquisa, como a de camarões, um dos mais
competitivos do mundo que já mereceu até barreiras americanas,
além de peixes e ostras. Na aspecto da saúde, o alvo são
os agrotóxicos, um dos principais motivos de envenenamento entre
trabalhadores no campo. Os recenseadores vão apurar qual o gasto
com agrotóxicos, de que forma são aplicados, para onde
vão as embalagens e se já houve intoxicação
de trabalhadores
O novo censo vai verificar
também a desigualdade na agricultura brasileira, além
do pessoal ocupado, dos salários e da receita dos empreendimentos.
A concentração de renda, uma característica da
sociedade brasileira, é repetida na repartição
das terras. Pelo último censo, de 1996, 1,02% dos estabelecimentos
concentrava 45,1% da área, percentual que aumentou em relação
a 1985.
|
JORNAL FOLHA DE LONDRINA, 16 de abril de 2007
Jovens são principais atingidos
pelo desemprego
Estudo do economista Márcio Pochman,
aponta que um em cada dois desempregados tem menos de 25 anos de
idade

Desemprego já atinge 9 milhões de brasileiros; chances de encontrar
recolocação no mercado são cada vez menores
São Paulo - O desemprego, que já atinge mais de 9 milhões
de brasileiros, afeta principalmente os jovens. Um em cada dois desempregados
tem menos de 25 anos de idade, segundo estudo do economista Márcio Pochmann,
da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O administrador de empresas
desempregado João Boaventura dos Santos, de 24 anos, ilustra as dificuldades
enfrentadas pelo jovem brasileiro no mercado de trabalho. Santos saiu da faculdade
em 2004 e acaba de iniciar um MBA em gestão estratégica empresarial.
''Espero que o MBA funcione como diferencial na disputa pelo emprego.''
Ele diz que tem conhecimentos
básicos de inglês e experiência na área de
logística, onde trabalhou no Grupo Pão de Açúcar
até novembro de 2005. Depois disso, começou a prestar concursos
públicos em busca de estabilidade e de um salário melhor.
''Prestei exame para Receita Federal e para a Caixa Econômica Federal,
mas não tive êxito. No caso da Receita, o salário
era de R$ 4,5 mil, bem acima dos R$ 750 que recebia na empresa privada.
Cansado de procurar alternativas mais vantajosas, em maio de 2006 foi
contratado por uma pequena gráfica como auxiliar de vendas. Ele
ganhava R$ 700 e trabalhou até fevereiro.
As chances de encontrar uma colocação
no mercado são cada vez mais remotas. Segundo José Ricardo
Roriz, diretor do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Federação
das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), investimentos
do setor, que poderiam ampliar a oferta de trabalho, hoje são
defensivos.
''Ninguém está investindo
em aumento de produção e sim de produtividade, com o objetivo
de ganhar competitividade ante o ataque dos produtos estrangeiros, que
são beneficiados pela valorização do real em relação
ao dólar.''
Por esse motivo, o investimento
tem de ser cada vez mais vultoso para gerar um número razoável
de empregos. De acordo com a Fiesp, para cada R$ 1 milhão investido,
são abertos 22 postos de trabalho em na pequena empresa industrial
e apenas cinco, numa grande. ''A globalização exige empresas
cada vez maiores, com ganhos de escala e produtividade. Estamos saindo
da média de 22 empregos para 5.''
Para o presidente da Associação
Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee),
Humberto Barbato, com a valorização do real as indústrias
do setor estão investido em aumento de produtividade, trazendo
do exterior equipamentos automatizados. ''Por isso, o emprego e as vendas
não crescem no mesmo ritmo.''
O setor prevê um crescimento
de 13% nas vendas este ano e vai ampliar o emprego em apenas 7%. ''Isso é natural,
pois temos ociosidade nas fábricas.'' Em 2006, também houve
um descompasso entre o crescimento do setor e o número de vagas
abertas. No ano passado, o faturamento aumentou 12% e o emprego 8,5%.
Na produção de
máquinas e equipamentos, o número de trabalhadores recuou
1,4% em fevereiro, em relação a igual período de
2006. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias
de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), o setor empregava 209 mil
trabalhadores em fevereiro deste ano, ante 212 mil no mesmo mês
de 2006.
A situação
do emprego chega a ser dramática em empresas que sofrem concorrência
direta das importações chinesas, como no setor de escovas
para cabelo. Das 30 fábricas que existiam no País há cinco
anos, restaram apenas duas.
|
JORNAL FOLHA DE LONDRINA,
16 de abril de 2007
Vagas crescem menos que o PIB
São Paulo - Se o País crescer 4% neste ano, a ocupação
deve aumentar, no máximo, 3%, segundo o diretor da RC Consultores, Fábio
Silveira. Ele lembra que, quando o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 5,7%
em 2004, a ocupação avançou 3,3%. ''O crescimento da ocupação
está sistematicamente abaixo do PIB.'' De um lado, diz o economista,
esse desempenho mostra um lado positivo, isto é, há uma modernização
da estrutura produtiva, com ganhos de eficiência. O problema é que
o Brasil cresce pouco para absorver quem chega ao mercado de trabalho. Nas
suas contas, se o PIB crescesse 6%, seria possível ampliar a ocupação
entre 4% e 4,5%. ''Esta seria uma excelente taxa'', observa.
Mas, na avaliação
de Silveira, uma ampliação mais acelerada do PIB e do emprego
não deverá ocorrer porque há uma questão
estrutural que impede que esse movimento ocorra. Não existe um
modelo de crescimento voltado para ampliação do emprego.
''Ao Brasil coube um papel específico na economia mundial de grande
fornecedor de commodities.'' Como fornecedor de commodities, as cadeias
de produção são curtas e não empregam muita
gente.
De acordo com economista, o descolamento
entre o ritmo de crescimento da economia e do emprego tende a se agravar
com aumento das importações. Em setores como calçados,
eletroeletrônicos, autopeças, material plástico e
metalurgia, intensivos em mão-de-obra, a perspectiva é de
uma oferta modesta de empregos, com o aumento da produtividade para enfrentar
a concorrência dos importados asiáticos.
O que tem impedido que o desempenho
do emprego piore é o estímulo dado pelo governo à construção
civil, um segmento intensivo em mão-de-obra, pondera Silveira.
''É preciso ter um plano de relançamento da indústria
para crescermos mais rapidamente.'' Ele observa que, apesar de a participação
dos serviços no PIB ser expressiva, o motor da economia continua
sendo a indústria. ''A indústria está no mais completo
abandono frente ao importados.''
Marcelo Rehder e Márcia De Chiara
|
JORNAL FOLHA DE LONDRINA,
16 de abril de 2007
Projeto prevê extinção
de leis ultrapassadas
Levantamento aponta que no Brasil são
contabilizados mais de 181 mil ordenamentos jurídicos, mas
apenas 53 mil leis estão em vigor
Brasília - Berço esplêndido da impunidade, o Brasil é também
um país de muitas leis. O ordenamento jurídico brasileiro tem
um total de 181.318 normas legais, segundo levantamento efetuado pela Subchefia
para Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência da República.
O impressionante é que, desse universo, 53 mil leis estão realmente
em vigor. Um leque onde há um pouco de tudo: leis que colidem até com
a própria Constituição, outras que já foram revogadas,
algumas que o tempo tornou obsoletas e tantas outras que servem apenas para
confundir.
O pior desse cenário é que
o Brasil vive uma fúria legiferante. Diante da pressão
do eleitorado por serviço, deputados e senadores estão
sempre redigindo mais leis, muitas vezes sem a menor necessidade. Para
se ter uma idéia, só na última legislatura foram
aprovadas 14 emendas constitucionais, oito leis complementares, 762 leis
ordinárias e 3.687 decretos legislativos. ''Se cada deputado aprovar
duas leis por ano, teremos um movimento de mais de mil leis'', observa
o deputado Cândido Vacarezza (PT-SP).
Vacarezza comanda, a pedido do
presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), uma frente de
parlamentares para transformar essa confusão jurídica em
um ordenamento. A Comissão de Consolidação das Leis,
como é chamado o grupo de deputados, está recolhendo dados
junto ao governo e aos Tribunais Superiores para consolidar as leis vigentes.
A idéia é eliminar
as normas que contradizem a Constituição e as que já foram
alvo de Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin). Também
serão riscadas do mapa legal as leis que, com o tempo, ficaram
naturalmente ultrapassadas. Outras leis, algumas não mais que
jocosas, estão sendo agrupadas por tema e deverão desaparecer
para sempre.
Depois de consolidado, o projeto
de extinção de leis será encaminhado para apreciação
da Comissão de Constituição e Justiça. Após
aprovação pelo plenário da Câmara, caberá ao
Senado examinar as mudanças feitas. ''A conclusão desse
trabalho é necessária para o fortalecimento da democracia,
uma contribuição ao desenvolvimento do País e à estabilidade
da ordem jurídica. É também uma forma de promover
a defesa dos interesses do cidadão'', afirma Vacarezza.
À frente de seu projeto
de consolidação das leis, Vacarezza já esteve com
o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, e com
ministros dos Tribunais Superiores. Os juristas têm contribuído
para apontar as distorções legais existentes. Um deles
chegou a enviar um e-mail à comissão com o alerta de que,
embora alguns artigos do Código do Processo Penal (de números
26 e 531) tenham sido considerados inconstitucionais, a Lei de Falências
insiste na sua aplicação.
O problema é que pelo
direito brasileiro a simples retificação é considerada
lei nova. Mesmo tendo vigorado por um dia, houve pedidos e decisões
judiciais com base no dispositivo.
Entre os oposicionistas,
há a desconfiança de que o projeto do petista pode ter
um viés ideológico. O medo é que a faxina legal
proposta acabe por restringir ainda mais os direitos das minorias na
Câmara. ''Os princípios podem ser nobres, mas os resultados
podem ter um viés político. O PT quer também mexer
no Regimento da Câmara dos Deputados'', desconfia o deputado
Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA), que foi convidado por
Vacarezza para participar do grupo, mas não aceitou.
|
JORNAL O ESTADO DO PARANÁ,
15 de abril de 2007
Quem ganha ou perde com o dólar?
Lyrian Saiki
A queda do dólar
esta semana - na sexta-feira, a moeda fechou cotada a R$ 2,0220 para
venda, o menor patamar desde março de 2001 - está obrigando
muitas empresas a repensar a gestão para continuarem competitivas.
Por outro lado, companhias que trabalham com matéria-prima importada
estão tendo a oportunidade de aumentar a margem de lucro, com
o dólar mais baixo. Afinal, quem ganha e quem perde com a atual
cotação da moeda norte-americana?
“ Quem ganha, em primeiro lugar, é o importador, que consegue comprar
com menos reais mais mercadorias no exterior”, apontou Nelson de Oliveira,
vice-presidente de Relações Institucionais do Ibef/PR (Instituto
Brasileiro de Executivos de Finanças no Paraná). Nesse grupo estão
produtos como fertilizantes, defensivos, derivados de petróleo, além
de insumos de informática de alta tecnologia que não têm
similares nacionais. “O real valorizado faz com que o fluxo de produtos
e serviços entre com preço mais baixo no País”, apontou.
Por outro lado, a indústria tradicional exportadora, como de calçados,
têxtil e de madeira, vem amargando prejuízos. No caso do setor
têxtil, a crise se agrava quando acrescida a concorrência de produtos
vindos da China e da Índia. “Esses produtos importados vêm
de países em que o custo de produção é mais baixo
do que no Brasil. Eles chegam com preços bem mais baixos, causando sérios
problemas”, apontou.
Agregando valor
Para Nelson de Oliveira, empresas devem se ajustar para não se tornarem
reféns do ‘modelo antigo’ nem do câmbio. “A
empresa tem que oferecer produtos com maior valor agregado, mais tecnologia,
e não ser muito dependente da commodity”, afirmou. Nesse sentido,
o setor agropecuário é outro que perderia com a valorização
do real, se não fosse o aumento do preço internacional em dólar.
Além disso, o grande volume produzido consegue contrabalançar
a desvalorização da moeda estrangeira.
“ A empresa tem que estar se reinventando sempre, seja na tecnologia, na
gestão, na busca de novos produtos e mercado. Não é uma
tarefa fácil num mundo dinâmico em que vivemos, mas a verdade é que
hoje ninguém mais está numa situação tranqüila”,
afirmou o analista.
Câmbio
Para Nelson de Oliveira, são poucas as chances de que o dólar
volte a subir em curto ou médio prazo. “Enquanto a remuneração
da renda fixa no Brasil for alta como é em relação a qualquer
outro lugar do mundo, é difícil que haja valorização
do dólar no atual modelo de fluxos internacionais”, acredita.
Em outros países, lembrou, o baixo rendimento da renda fixa leva muitos
investidores a optarem pelo mercado de ações. “Ninguém
vai querer investir na produção para ganhar menos”, lamentou.
Para ele, o Brasil está apenas ‘surfando a boa onda da economia
mundial’, mas poderia aproveitar melhor o momento atual da economia.
Turismo comemora desvalorização
Se há um setor que tem pouco a reclamar do câmbio atual é o
de turismo. Com o dólar cotado a R$ 2,02, esta está sendo a oportunidade
para muitos brasileiros viajarem para o exterior pela primeira vez. Os pacotes
de viagens estão com preços bem interessantes, e o mercado interno
está precisando rever os valores para não perder a competitividade.
“ A queda do dólar é a esperança para que as agências
e operadoras recuperem os prejuízos da ‘crise aérea,” apontou
o presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens
no Paraná (Abav-PR), Antônio Azevedo. Segundo ele, o prejuízo
para o setor é de aproximadamente 40%. Só no feriado da Páscoa,
afirmou, agências do Paraná tiveram perdas de 15%, já que
muitos preferiram viajar de carro a enfrentar possíveis transtornos nos
aeroportos.
De acordo com Azevedo, as vendas de pacotes de viagens devem aumentar entre
10% e 15% em relação ao mesmo período do ano passado,
por conta do dólar mais baixo, mas poderia aumentar ainda mais. “Não
será aquela explosão de vendas. O problema é que há um
limite na capacidade do transporte aéreo”, explicou, referindo-se à falta
de aeronaves em rotas para o exterior.
Por outro lado, o destino Brasil se tornou mais caro para os turistas estrangeiros,
o que é negativo para o turismo receptivo. “O País vai
perder competitividade porque os custos são mais altos. Há muitos
turistas desistindo de vir ao Brasil e preferindo o destino asiático,
por exemplo”, apontou. De maneira geral, porém, Azevedo acredita
que o câmbio atual mais favorece do que prejudica o setor. “Quase
80% das agências de viagens são emissivas (vendem pacotes de viagens)
e apenas 10% são receptivas (recebem turistas de fora)”, explicou.
Em todo o Paraná, há aproximadamente 1,1 mil agências de
viagens.
Quase 70%
Na operadora de turismo CVC, pacotes internacionais estão respondendo
por quase 70% das vendas, segundo o representante da empresa em Curitiba, Ricardo
Luz. Segundo ele, com o câmbio atual é possível, por exemplo,
passar 4 noites e 5 dias em Paris por US$ 928,00, aproximadamente R$ 1.870,00.
Já um pacote para a Costa do Sauípe, na Bahia, também
de 5 dias, custa R$ 1,5 mil. “Por causa de R$ 300,00, muitos preferem
ir para Paris”, exemplificou. Ele lembrou, no entanto, que os custos
na ‘Capital da Luz’ são muito maiores do que no Brasil.
|
JORNAL O ESTADO DO PARANÁ,
16 de abril de 2007
Comissão propõe mudanças
para reduzir custos trabalhistas
Agência Estado
Brasília - Congresso
e governo abriram discussão sobre um modelo alternativo de relações
de trabalho que permita redução dos custos trabalhistas
e crie perspectivas de ampliação de empregos no País.
Na quarta-feira, o presidente da Comissão de Trabalho da Câmara,
Nelson Marquezelli (PTB-SP), entregou ao ministro do Trabalho, Carlos
Lupi, um esboço de proposta que cria um sistema optativo, em
que os trabalhadores receberiam pagamento por tarefa executada, ganhando
o salário bruto, sem descontos de qualquer espécie, como
o previdenciário, por meio de cartão magnético.
A proposta, porém, não extinguiria o atual regime de
trabalho feito pela Consolidação das Leis do Trabalho
(CLT), uma vez que o modelo alternativo funcionaria como optativo.
Na próxima quarta-feira, Lupi irá à Comissão do
Trabalho para se encontrar com os parlamentares pela primeira vez desde a posse
no cargo, há cerca de 15 dias. Ele é um dos ministros que se
manifestaram contra a proposta, vista como corte de conquistas históricas. “Não
vou defender reformas que tiram os direitos do trabalhador”, avisou.
A idéia é abrir esse debate. “Na conversa que tivemos,
o ministro foi receptivo a discutir o assunto. Porque, já que existe
essa resistência geral a mexer com a CLT, inclusive do próprio
ministro, a idéia é apresentar um modelo alternativo de caráter
optativo”, afirma Marquezelli. “O modelo atual das relações
trabalhistas é obsoleto, ultrapassado e não ajuda em nada na
geração de empregos.”
|
JORNAL O ESTADO DO PARANÁ,
15 de abril de 2007
Indústria já cresceu
7,1% neste ano
Redação O Estado
do Paraná
De acordo com os indicadores
econômicos da Associação Brasileira da Indústria
de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), o consumo aparente do setor,
que representa a produção mais a importação,
descontada a exportação, registrou aumento de 7,1% no
comparativo entre os dois primeiros meses do ano, ao passar de R$ 8,46
bilhões, em 2006 para R$ 9 bilhões, em 2007.
Para o presidente da Abimaq, Newton de Mello, o aquecimento reflete a ampliação
de investimentos realizados pela indústria já no início
do ano. Os segmentos que impulsionaram o crescimento do setor foram o de maquinário
agrícola, bombas e motobombas e válvulas industriais, com incremento
produtivo de 38%, 23% e 20%, respectivamente.
Na área de comércio exterior, a indústria de bens de capital
mecânicos (descartando veículos de transporte e tratores agrícolas)
registrou aceleração nas importações da ordem de
20,9%, ao totalizar US$ 1,97 milhão nesse primeiro bimestre do ano,
em relação aos dois primeiros meses de 2006.
|
JORNAL O ESTADO DO PARANÁ,
15 de abril de 2007
Os cinco eixos da reforma política
Edésio Passos
Os cinco eixos constantes
da proposta do movimento das entidades da sociedade civil para a reforma
política são (1) fortalecimento da democracia direta
(2) fortalecimento da democracia participativa (3) fortalecimento da
democracia representativa (4) democratização da comunicação
e informação (5) transparência e democratização
do Poder Judiciário.
Eis os pontos assinalados na plataforma apresentada dia 27 de março
na Câmara dos Deputados, firmados, entre outras entidades, pela OAB e
CNBB: “A plataforma apresentada tem cinco eixos. O primeiro deles propõe
o fortalecimento da democracia direta, começando pela regulamentação
e ampliação de mecanismos como o plebiscito, o referendo e a
iniciativa popular, previstos na Constituição. O segundo eixo
trata do fortalecimento da democracia participativa, por meio, inclusive, da
participação da sociedade na definição das prioridades
de pauta do Congresso Nacional. O terceiro eixo é o aperfeiçoamento
da democracia representativa. Os movimentos sociais apóiam os pontos
principais da proposta elaborada pela Comissão Especial de Reforma Política:
- financiamento público de campanhas; - fidelidade partidária;
-voto de legenda em listas partidárias pré-ordenadas; - a criação
das federações partidárias, em substituição às
atuais coligações. Só que os movimentos vão além,
e defendem ainda o fim da reeleição para os cargos executivos,
com ampliação dos mandatos; o limite dos mandatos legislativos
a dois consecutivos; e a manutenção dos partidos exclusivamente
pela contribuição dos filiados e pelo fundo partidário.
O quarto eixo é o da democratização da comunicação
e da informação, através de um sistema público
de comunicação, do fortalecimento da comunicação
comunitária, e da instituição de mecanismos de controle
público sobre os meios de comunicação. Por fim, o quinto
eixo preocupa-se com a transparência e a democratização
do Poder Judiciário e defende a exigência de concursos públicos
para o acesso aos cargos” (Agência Câmara).
Frente Parlamentar: O presidente da Câmara,
Arlindo Chinaglia, participou de ato promovido pela Frente Parlamentar
pela Reforma Política com Participação Popular
para divulgar a plataforma, afirmando que “há um clima
favorável para aprovar, em prazo relativamente curto, uma reforma
política que contemple pontos fundamentais para a democratização
do País, como o financiamento público das campanhas eleitorais
e a fidelidade partidária”, destacando a importância
da contribuição das entidades da sociedade civil que
se organizaram em um movimento pela reforma política com participação
popular. A coordenadora da frente, deputada Luiza Erundina (PSB-SP),
anunciou que 257 parlamentares já aderiram à frente parlamentar,
em apoio às iniciativas na Câmara e no Senado que tentam
regulamentar o artigo 14 da Constituição em relação
aos plebiscitos e referendos. O grupo também defende a democratização
da comunicação e a transparência do Poder Judiciário.
A deputada Luiza Erundina quer a mobilização contra a
proposta elaborada pela Comissão Especial da Reforma Política
- Projeto de Lei 2679/03, que está pronto para entrar na ordem
do dia do Plenário. No entender de Erundina, esse projeto “não
será um passo à frente se não vier acompanhado
de avanços no campo da participação popular”.
A coordenadora pediu aos movimentos sociais que façam “onda
de pressão que impeça a votação de uma
reforma fatiada e incompleta”.
Ampla e profunda ação: Verifica-se,
portanto, que as ações organizadas da sociedade civil
têm como alvo (1) o sistema partidário, eleitoral e de
representação parlamentar (2) o sistema democrático
de representação e implementação administrativa
do setor público (3) o sistema de um efetivo controle das contas,
gastos e investimentos públicos e a destinação
dos recursos públicos (4) o sistema de controle da participação
dos grandes grupos econômicos na vida político-partidária
(5) o sistema de organização da empresa, dos trabalhadores
e de suas organizações representativas (6) o aperfeiçoamento
do sistema no plano do Judiciário. Mas o movimento popular pela
reforma política está diante de muitos obstáculos
e já tem ciência que será necessária ampla
e profunda ação contra vícios histórico-estruturais
que debilitam os sistemas apontados. Trata-se de reconstruir o conjunto
desses sistemas, de modo a extrair da velha condição
o que se provou de saudável e de introduzir o novo colhido das
experiências do mundo em transformação. A análise
teórico-prática de cada setor se impõe como condição
necessária ao diagnóstico social. Pesquisa do Ibope desde
agosto de 2005 assinalava a fragilidade das instituições
diante dos olhos do povo: 9% confiavam nos políticos, rejeitados
por 90% da população; os partidos políticos rejeitados
por 88%; a Câmara dos Deputados por 81%; o Senado Federal por
76% e o Poder Judiciário por 51%, números que pouco se
alteraram em quase dois anos.
Frentes estaduais: No dia 20 de abril serão lançadas
frentes estaduais em todo o Brasil, com o mesmo perfil da frente nacional,
composta pelas entidades da sociedade civil e parlamentares. Os organizadores
buscam estender a rede de mobilização em um amplo arco social,
com mecanismos locais de pressão. No dia 31 de maio, será realizado
ato a nível nacional com ampla participação popular. Assinalam,
ainda, os organizadores principais que “a plataforma não representa
o fim dos processos de articulação e debate. O diálogo
com o Congresso e com outras frentes que tratam da temática continua
como pauta fundamental da Mobilização” (in “Reforma
política por uma transformação social”, de Flávia
Mattar e Jamile Chequer, Ibase)
OAB e a Reforma Política: Destaco a análise
resumida da OAB nacional sobre fatores políticos: (1) “A
esses fatores patogênicos de ordem econômica, deve-se acrescentar
um conjunto de causas diretamente ligadas ao sistema político,a
saber: A persistente marginalização do povo, impedido
de tomar diretamente as grandes decisões políticas, não
só na esfera nacional, mas também no plano local; Uma
representação popular falseada, que acabou criando um
pequeno mundo político irresponsável, cada vez mais distanciado
da realidade social; A incapacidade institucional do Estado brasileiro
de elaborar e conduzir programas de ação de longo prazo,
com base num projeto de desenvolvimento nacional”. (2) “A
Ordem dos Advogados do Brasil tem em vista, como não poderia
deixar de ser, os objetivos fundamentais da nossa República,
proclamados no art. 3.º da Constituição Federal:
Construir uma sociedade livre, justa e solidária; Garantir o
desenvolvimento nacional; Erradicar a pobreza e a marginalização,
e reduzir as desigualdades sociais e regionais; Promover o bem de todos,
sem preconceitos ou discriminações de qualquer espécie.
Para tanto, classificou as propostas de reforma em três capítulos,
correspondentes aos três grandes defeitos do nosso sistema político,
acima apontados: a efetivação da soberania popular, com
integral proteção dos direitos humanos; a correção
substancial das normas eleitorais e partidárias; e a reforma
do Estado, com a reorganização dos Poderes Públicos.
Em sua sessão plenária de 10 de dezembro, o Conselho
Federal deliberou sobre as duas primeiras séries de propostas
..., reservando-se para discutir e decidir aquelas concernentes à reforma
do Estado em sua próxima sessão plenária...”
A crise política: considero que a atual crise
política não é apenas de conduta, no âmbito
do Executivo, do Parlamento e do Judiciário, como muitos apontam.
Vai muito além, pois envolve o conjunto do sistema político-partidário-eleitoral,
assim como o sistema de organização econômico-social.
Os cenários que devem ser avaliados indicam que as organizações
da sociedade civil, em especial as representações dos
empresários e dos trabalhadores, deverão se movimentar
para fortalecer as propostas formuladas pelo fórum nacional
constituído para levar à frente as idéias da reconstrução
nacional, com sólidas bases econômico-sociais e de firme
sustentação política. Os dias que se seguirão
vão demarcar a linha de construção apontada pela
sociedade civil, em especial de como será recepcionada no Parlamento,
no Executivo e no Judiciário. Nossa imperfeita Democracia tem
tido seus instrumentos institucionais testados diariamente. O encontro
do povo como a ação político-eleitoral sempre
tem sido uma escola de ensinamentos. Um deles é o que estamos
diante da necessidade da quebra de barreiras corporativas, possibilitando
identidades básicas das representações de todos
os segmentos sociais.
O novo nasce do velho: Sabemos que o novo nasce do
velho. Ao focar a necessária ultrapassagem do velho, para seguir
a transformação para o novo, citamos novamente a velha
lição de Maquiavel: “Costumam dizer os homens prudentes,
e não é por acaso nem sem mérito, que quem deseje
ver aquilo que há de ser, considere aquilo que foi porque todas
as coisas do mundo, em cada tempo, têm seu próprio embate
com os antigos tempos. O que nasce porque, sendo elas operadas pelos
homens, que têm e tiveram sempre as mesmas paixões, convém
por necessidade que lhe suscitem o mesmo efeito”. É o
que se tem denominado de aprender com as lições emanadas
de nossos erros. O processo eleitoral de 2006 foi a nova lição
dada pelo povo brasileiro a ser apreendida. A formação
de um governo de coalizão nacional é experiência
a ser desenvolvida visando a consolidação do eixo básico
da democracia, rumo a igualdade social. Mas se as proposições
da sociedade civil não foram atendidas com rapidez, planos fundamentais
como o PAC, no setor da economia, e o PDE, no setor da educação,
poderão ficar comprometidos pela lentidão das transformações
na área política. Sem que essa avance, o melhor dos quadros
econômicos poderá não se definir como permanente,
pela falta das bases de sua sustentação política.
Edésio Passos é advogado, ex-deputado federal (PT/PR). E.mail:
edesiopassos@terra.com.br
|
REVISTA ISTO É, 16 de abril de 2007
Pedro Bruzzi
O novo Chico Mendes
O coordenador do centro dos trabalhadores
da amazônia diz que a corrupção é uma
das causas da devastação
Por Luciana Sgarbi
Enquanto governantes assinam protocolos e ensaiam leis que prometem conter
o desmatamento na Amazônia, são ainda os trabalhadores e a população
local que defendem, como podem, cada árvore da maior floresta do planeta.
Esses trabalhadores e seus novos líderes são seringueiros que
herdaram o legado do ativista ambiental Chico Mendes, assassinado em 1988 porque
se opunha abertamente àqueles que tratam a Floresta Amazônica
como uma fonte de lucros desenfreados – os relatórios ambientais
alertam que, até 2080, a mata pode virar uma grande savana. Para mudar
esse quadro, o engenheiro florestal Pedro Bruzzi desponta como o atual Chico
Mendes, menos radical no discurso, mas nem por isso menos combativo em suas
ações. Ele coordena os projetos do Centro dos Trabalhadores da
Amazônia, uma espécie de escola para formar novos Chico Mendes.
Já foram formados 300 líderes comunitários que atuam como
guardiães da floresta para defender o berço mundial da biodiversidade.
ISTOÉ – Quais as dificuldades que os seringueiros
enfrentam atualmente?
Pedro Bruzzi – As principais carências estão relacionadas
aos serviços básicos de saúde, educação
e habitação que ainda não chegam aos seringais. A produção
extrativista centrada em dois produtos básicos, borracha e castanha,
não vem oferecendo as condições mínimas de qualidade
de vida. Por isso a opção pela pecuária ganha espaço.
ISTOÉ – O modelo de reservas extrativistas não
era um dos centros de luta do líder Chico Mendes?
Bruzzi – Sim. E foi uma grande vitória do movimento seringueiro
liderado por Chico Mendes. Pena que hoje essas reservas estejam em colapso.
A reprodução socio econômica desses modelos de assentamento
e de reserva extrativista não está sendo assegurada. O desmatamento,
a pecuária e a lavoura de grãos vêm substituindo a floresta
e o extrativismo, os seringueiros estão sendo substituídos pelos
agricultores.
ISTOÉ – Quais os principais problemas gerados
por isso?
Bruzzi – Na verdade existe uma cascata de problemas. Os mais graves são
a venda das propriedades rurais dos seringueiros, o que chamamos de colocações,
a conversão da floresta em pasto, a corrupção, a migração
para favelas nas periferias urbanas e a perda da cultura extrativista.
ISTOÉ – A luta travada por Chico Mendes continua?
Os problemas ainda são os mesmos?
Bruzzi – Diria que sim. Apesar da vitória da conquista da terra
com a criação das reservas extrativistas e dos assentamentos
agroextrativistas, observamos que essas áreas estão sofrendo
desmatamentos desenfreados, êxodo das populações e, em
contrapartida, há a chegada de agricultores do sul do País para
aumentar esse desflorestamento. A terra foi conquistada, mas a territorialidade,
o domínio sobre ela e a capacidade de produção em equilíbrio
com a floresta, gerando qualidade de vida digna às populações
tradicionais, isso ainda não se conquistou.
ISTOÉ – Existe apoio do governo?
Bruzzi – Os governos do Amazonas e do Acre realizaram, nos últimos
anos, um grande esforço para trazer ao âmbito das políticas
públicas grande parte das propostas defendidas por Chico Mendes, desde
o investimento na valorização do extrativismo, através
de incentivos econômicos e do fortalecimento das cooperativas seringueiras,
até a busca por novas alternativas de valorização do recurso
florestal. Nesse momento o grande desafio é de como a sociedade se apodera
dessas políticas, como ela, em vez do Estado, pode ser a grande força
motriz dessa mudança. É necessário ir além da floresta
e realizar investimentos na base social. Realizar mudanças consistentes
nos indicadores educacionais que permitam a seringueiros, índios e colonos
assumirem a autogestão de seus recursos e, em última análise,
de seus destinos.
ISTOÉ – Mesmo com denúncias sobre a extração
ilegal pelas indústrias madeireiras, a devastação
da Amazônia continua. Por quê?
Bruzzi – Há uma tendência global de hegemonia e proliferação
do capital que o neoliberalismo acolhe com carinho. Caímos naquela questão
levantada por Frei Beto: se o mundo é uma grande espaçonave,
por que alguns viajam de primeira classe e outros não? Para que toda
a população da Terra possa ter o nível de consumo de Nova
York, de Paris ou das elites de nossas grandes capitais seriam necessárias
mais umas quatro ou cinco Terras que suportassem essa sede estabelecida pelas
elites, que, diga-se de passagem, são menos de 1% dos seis bilhões
de habitantes do planeta.
ISTOÉ – E o Brasil nisso?
Bruzzi – O Brasil adota medidas eficientes e eficazes para um real aprofundamento
no problema do desmatamento, mas não adota uma abordagem do problema
ambiental do desmatamento em conjunto com as questões socioeconômicas.
ISTOÉ – Existe fiscalização?
Bruzzi – Sim. Mas não é a melhor alternativa para se preservar
e conservar os recursos naturais, que devido a sua extensão praticamente
inviabiliza ações de comando e controle ambiental do ponto de
vista orçamentário e da infra-estrutura necessária. Vale
ressaltar que é fundamental a fiscalização, que devem
ser investidos cada vez mais esforços nesse sentido, fortalecendo e
ampliando a capacidade do Ibama e das secretarias estaduais de meio ambiente.
Existem esforços do atual governo em implantar uma política de
valorização da floresta, como é o caso do projeto de lei
de Gestão de Florestas Públicas e da estratégia dos Distritos
Florestais.
ISTOÉ – Fala-se muito na valorização da floresta.
O que é isso?
Bruzzi – Para que possamos entender a valorização da floresta
devemos pensá-la como um ativo qualquer. A pecuária extensiva
na Amazônia rende anualmente, em média, segundo informações
do Instituto Socioambiental, de R$ 150 a R$ 200 líquidos por hectare.
Um hectare de pasto vale bem mais do que um hectare de floresta, logo se torna
mais interessante desmatar. A lógica predominante é: o capital
migra para onde ele se reproduz com mais eficiência. Se for mais eficiente
na soja, ele vai para a soja, se for no mercado de valores, é para lá que
ele vai, se for no boi, vai para o boi, e, se for mais eficiente na floresta,
ele migra para a atividade florestal.
ISTOÉ – Quais são as falhas dos órgãos
públicos?
Bruzzi – Falta uma visão integrada de atuação do
setor público. O Estado brasileiro foi e é ainda o maior financiador
do desmatamento.
ISTOÉ – Como isso se dá?
Bruzzi – Através de crédito subsidiado, investimentos em
infra-estrutura sem um planejamento adequado e o descontrole da base fundiária
da região. A aplicação da lei é outro fator importante,
pois ainda temos regiões onde não há a presença
do Estado e muitas vezes seus representantes se investem de tal poder que comandam
todos os esquemas relacionados a atividades ilegais de grilagem de terra e
exploração irracional dos recursos. A exemplo do problema da
corrupção na política, a falta de punições
exemplares contribui para o sentimento de impunidade na floresta.
ISTOÉ – Áreas de pastagem para gados
e extração ilegal de madeira são as principais
causas da devastação?
Bruzzi – As duas não existiriam sem um conjunto de fatores que
as potencializa e gera as condições para que operem sem nenhum
padrão ou compromisso socioambiental. O problema não é a
atividade econômica em si, mas o ambiente no qual os segmentos descompromissados
de determinados setores prosperam. Há uma associação muito
forte das políticas que promovem o agronegócio – pecuária,
soja e agora cana – com a insegurança fundiária e ambiental,
e a incapacidade dos órgãos públicos em garantir o controle
fundiário e ambiental no País. É uma complementação
negativa e cruel onde a impunidade, corrupção e morosidade do
setor público geram um ambiente propício para a atuação
de determinados segmentos do setor privado que operam sem nenhum tipo de critério
de responsabilidade ambiental e social.
ISTOÉ – Como engenheiro florestal, qual seria
o seu projeto?
Bruzzi – Para um projeto dar certo na Amazônia e conter o desmatamento é necessário
que se incentive um modelo de desenvolvimento adaptado à região,
que as populações tradicionais tenham voz e sejam incluídas
efetivamente nesse modelo, que as alternativas de produção tradicionais
ligadas ao extrativismo e as alternativas modernas ligadas ao Manejo Florestal
Sustentável sejam priorizadas. As comunidades têm de se organizar
em redes sociais de sindicatos, cooperativas e ONGs. A partir disso, organizações
de capital social legítimo podem se fortalecer e protagonizar os processos
de desenvolvimento.

“ O governo ainda não percebeu a importância de relacionar
o problema ambiental com questões socioeconômicas
ISTOÉ – Ainda existe trabalho escravo na Amazônia?
Bruzzi – Não há dúvida e freqüentemente assistimos
a operações da Polícia Federal e Delegacias do Trabalho
para libertar trabalhadores em condições degradantes. Mas, assim
como o desmatamento, essa atividade não prosperaria sem que houvesse
uma forte indústria de grilagem de terra, pistolagem e extração
ilegal de recursos naturais por trás. O Acre deu um exemplo: a luta
de Chico Mendes gerou uma forte base de organização social, moldada
para a luta e o enfrentamento pacífico. Isso propiciou diversos avanços
políticos e institucionais. Mazelas tão comuns em outros Estados,
como trabalho escravo e assassinato de lideranças rurais, foram praticamente
erradicadas no Acre.
ISTOÉ – Seringueiros ainda são vítimas do coronelismo?
Bruzzi – Não como eram no passado, mas ainda sofrem com a atuação
de fazendeiros. Seja na pressão por ocupar suas terras e transformar
as florestas em pastagens, seja na influência cultural que exercem desfilando
em suas caminhonetes Hilux, mostrando para os seringueiros que a pecuária é a única
alternativa que pode dar qualidade de vida.
ISTOÉ – O que vem a ser o Centro dos Trabalhadores
na Amazônia?
Bruzzi – O centro tem diversas atividades, mas a principal delas é a
formação de novos líderes seringueiros, novos Chico Mendes,
porque a defesa da floresta e da população que vive nela tem
de ser uma luta constante.
ISTOÉ – Quantos novos líderes seringueiros
o centro já criou?
Bruzzi – Já formamos, no mínimo, 300 líderes que
se tornam agentes multiplicadores na defesa de nossos interesses socioeconômicos.
Atualmente podemos ser menos radicais no discurso, mas somos igualmente determinados
nas ações como foi Chico Mendes.
ISTOÉ – O centro segue uma linha econômica?
Bruzzi – Apoiamos o fortalecimento de cooperativas locais como a Cooperfloresta
e a Cootaf, que atuam diretamente na cadeia produtiva florestal no Acre. O
centro é uma organização pioneira assessorando também
as redes de produtores que trabalham com o Manejo Florestal Comunitário.
ISTOÉ – Quais os principais obstáculos
enfrentados pelo Centro dos Trabalhadores da Amazônia?
Bruzzi – A morosidade e a baixa capacidade de ação no comando
e no controle de órgãos fundamentais como o Incra e o Ibama,
que demoram a responder às pressões sobre a terra e sobre os
recursos naturais dentro das reservas extrativistas e dos assentamentos. Isso
facilita o desmatamento, o abandono dos seringais e abre um espaço irracional à pecuária
e ao cultivo de grãos.
|
AGÊNCIA BRASIL, 14
de abril de 2007
Representante de aposentados considera “desrespeito” reajuste de
3,30% no benefício
Clara Mousinho
Da Agência Brasil
Brasília - O representante
da Confederação Brasileira de Aposentados e Pensionistas
(Cobap) no Conselho Nacional Dos Direitos do Idosos (CNDI), Emídio
Rebelo Filho, disse hoje (13), em entrevista à Agência Brasil,
que o reajuste de 3,30% nas aposentadorias e pensões superiores
a um salário mínimo é um “desrespeito” com
os aposentados.
Desde o dia 1º de abril
os aposentados e pensionistas que recebem um salário mínimo
tiveram aumento de 8,57% em seus benefícios. Segundo Rebelo Filho,
a Cobap luta pelo mesmo reajuste para os demais benefícios.
“Consideramos que isso é uma
desigualdade e até um desrespeito com os aposentados, poque os
dividem em duas categorias. Uma que ganha o salário mínimo
e recebe o percentual acima e o aposentado que ganha acima do salário
mínimo recebe um índice menor”, explicou.
Segundo ele, mais de 12 milhões
de aposentados, que contribuíram para a Previdência Social,
estão marginalizados com essa situação. O representante
disse também que desde 1995 há uma defasagem de 80% na
comparação dos reajustes do salário mínimo
com os das aposentadorias. Rebelo Filho disse também que não
acredita que a equiparação vá quebrar a Previdência
Social.
Ele aftrmou que o déficit
vem do desvio autorizado por lei de recursos da Previdência para
pagamentos de compromissos do governo federal, com o por exemplo o chamado
superávit primário - a economia que o governo faz para
pagar juros da dívida externa. “Assim os aposentados que
construíram a Previdência estão sendo penalizados
de uma forma indigna”.
O representante da Cobap também
afirmou que o reajuste de 3,30% não melhora o poder de compra
dos aposentados e pensionistas. Desde 1994, o reajuste dos benefícios
da Previdência superiores a um salário é desvinculado
do aumento do salário mínimo.
O aumento de aposentadorias
e pensões tem por base a inflação oficial, medida
pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A Cobap
quer a aprovação no Congresso do Projeto de Lei 58, de
2003, que reunifica os aumentos. Rebelo Filho participa da reunião
do CNDI, que começou na quarta-feira (11) para discutir diversos
assuntos de interesse dos idosos, como recursos para políticas
públicas, assistência social, saúde e lazer.
|
REVISTA ÂMBITO JURÍDICO,
14 de abril de 2007
Consolidação é remédio
para uns e problema para outros
Uma forma de dar maior racionalidade
ao conjunto de normas federais, estaduais e municipais é a sua
consolidação. Mas essa tarefa está longe de ser
pacífica: a legitimidade dos órgãos encarregados
do trabalho muitas vezes é questionada, apesar de a própria
Constituição de 1988 prever essa consolidação.
Mas há experiências bem-sucedidas em estados, como São
Paulo, e em países como Grã-Bretanha, Bélgica, França,
Grécia, Espanha e Alemanha.
As tentativas de organizar a
legislação federal no Brasil vêm de longe. Em 1970,
já incomodado pelo estado de desordem das leis, o então
deputado Henrique Turner (SP) apresentou projeto de lei para alterar
o "processo legislativo, as normas para numeração,
alteração, redação e controle das leis".
Mas ficou por aí.
Mais recentemente, o princípio
da Constituição de 1988 foi detalhado pela primeira vez
na Lei Complementar 95, de 1998, e, em seguida, a Subchefia para Assuntos
Jurídicos da Casa Civil iniciou um processo de "consolidação
das normas com objeto idêntico, análogo ou conexo, a fim
de eliminar eventuais divergências, colisões ou repetições,
e, assim, conferir unidade, simplicidade e coerência ao corpo legislativo
federal". Mais tarde, o Congresso aprovou a Lei Complementar 107/01,
que prevê a codificação e a consolidação
da legislação federal, reunindo leis sobre uma mesma área.
Enquanto o Executivo e os adeptos
da tese de que se trata de um trabalho técnico defendem que os
parlamentares possam apresentar apenas emendas de redação,
o Congresso reagiu à limitação de sua prerrogativa
de legislar.
Para o juiz Rodrigo Collaço, é preciso
enfrentar e realizar a "limpeza de leis" já revogadas
para que haja maior clareza e precisão nos textos em vigor. Esse
trabalho de consolidação das leis é, na sua opinião,
mais administrativo e técnico que político.
Até lei sobre processo legislativo é polêmica
A constitucionalidade da Lei
95/98, por exemplo, é questionada pelo professor Menelick de Carvalho
Netto, da UFMG, sempre zeloso com a legitimidade do processo político
que dá origem às leis, principalmente as que determinam
as bases de uma nação, como a própria Constituição.
– Tenho sérias dúvidas
quanto à constitucionalidade da própria lei complementar
sobre o papel do processo legislativo. Todo conteúdo é político – afirmou.
Outra dúvida é como
identificar a legislação federal que se limita a esse
nível de governo e a que tem impacto nos estados e municípios,
o que influenciaria a consolidação das leis dos entes
federados. Até que uma metodologia seja definida, o trabalho
continua na longa fila das prioridades nacionais.
|
REVISTA ÂMBITO JURÍDICO,
14 de abril de 2007
Especialistas condenam “cultura
reformista”
As sucessivas iniciativas dos
governos eleitos de propor reformas legais são criticadas tanto
por parlamentares quanto por especialistas. Além de aumentar a
quantidade de leis, as grandes reformas, ao buscarem resolver os problemas
tidos como prioritários pelos governantes, afetam a própria
organização institucional da sociedade. Em análise
feita em 2003, Geraldo Mesquita Júnior encontrou entre as razões
da baixa popularidade do Legislativo a grande quantidade, a má qualidade
e a falta de serventia da maioria das leis aprovadas. Ele considerou
ainda que o quadro legal é confuso e facilita inclusive a corrupção
no país, já que muitas leis são feitas, mas não
serão cumpridas.
O presidente da Associação
dos Magistrados Brasileiros (AMB), juiz Rodrigo Collaço, pondera
que, apesar de gozarem de simpatia junto à mídia e aos
brasileiros de modo geral, as reformas não permitem que haja estabilidade
das instituições e da legislação. Para ele, é preciso
deixar que as relações sociais e as leis amadureçam
para que sejam mais bem conhecidas pela população e pelos
operadores do Direito.
Para o consultor legislativo
do Senado Gilberto Guerzoni, o Congresso é influenciado por uma
visão da política pela qual o Legislativo só trabalha
quando está reunido produzindo leis – produtividade medida
pelo número de atos legais editados e de reuniões realizadas.
Guerzoni também identifica
que os incentivos por reformas têm por base a premissa de que a
mudança legislativa é capaz de levar à mudança
social. Dessa forma, senadores e deputados são instados a permanecer
em reunião quase permanente, o que exigia seguidas convocações
extraordinárias e, recentemente, até a diminuição
do recesso parlamentar.
O ministro do Superior
Tribunal de Justiça (STJ) Antônio de Pádua Ribeiro
lembra que os interesses do momento trabalham pela alteração
das regras do jogo. Os sucessivos planos econômicos e mudanças
na Previdência, citou, provocaram e provocam graves conflitos
legais, abarrotando de ações os tribunais.
|
CONSULTOR JURÍDICO,
15 de abril de 2007
Direitos da mão-de-obra
Empresa responde por direitos de empregado
terceirizado
Empresa que terceiriza serviços
também responde por ação trabalhista de funcionários
terceirizados. O entendimento foi reafirmado pela 4ª Turma do Tribunal
Superior do Trabalho. A Turma confirmou decisão do Tribunal Regional
do Trabalho da 2ª Região (São Paulo), que reconheceu
a responsabilidade subsidiária de uma empresa que terceirizava
serviços de limpeza e manutenção.
A ação trabalhista
foi movida por uma ex-empregada contra as empresas Mavec Comércio
e Manutenção de Obras e Ultrafértil, ambas de São
Paulo. De acordo com os autos, a ex-empregada foi contratada pela Mavec
como ajudante de limpeza, deixou de receber dois meses de salário,
além de horas extras, férias, 13º salário,
aviso prévio e outras verbas indenizatórias. Por isso,
ajuizou ação contra seu ex-empregador, já em processo
de falência, e a Ultrafértil, empresa onde ela prestava
serviços.
A Ultrafértil contestou
a reclamação, alegando ser parte ilegítima. A 4ª Vara
do Trabalho de Cubatão (SP) acolheu o pedido. A trabalhadora recorreu.
O TRT paulista condenou a Mavec e, subsidiariamente, a Ultrafértil
ao pagamento das verbas rescisórias.
As duas partes apelaram ao TST.
O relator do processo, ministro Barros Levenhagen, refutou a tese de
inexistência de responsabilidade subsidiária levantada pela
Ultrafértil. O relator citou o fundamento do TRT de origem, que
concluiu se tratar de simples terceirização de mão
de obra, enquadrando-se o caso do Enunciado 331 do TST. De acordo com
o texto, “sendo a segunda reclamada, tomadora e beneficiária
dos serviços da reclamante, subsidiariamente responsável
pelos termos da condenação”.
RR 271/2001-254-02-00.1
|
ÚLTIMA INSTÂNCIA,
16 de abril de 2007
Mesmo com justa causa, empresa não
pode demitir durante auxílio-doença
Não é possível
despedir empregado por justa causa no curso de benefício auxílio-doença.
A decisão é da 3ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho
que reintegrou um ex-funcionário do Banco do Brasil, demitido
com acusações de fraude e apropriação indébita.
De acordo com o TST, a decisão
mantém entendimento do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região
(RS). O escriturário, admitido em 2000, foi licenciado pelo INSS
por apresentar sintomas de uma doença identificada como “neurose
de caráter”. Em julho de 2005, quando ainda recebia auxílio-doença,
foi demitido, por justa causa, acusado de fraude e apropriação
indébita de valores pertencentes a um cliente do banco.
Em 26 de agosto de 2005 o empregado
ajuizou reclamação trabalhista pleiteando a anulação
do ato de demissão e a imediata reintegração, por
ter sido demitido enquanto se encontrava em licença médica.
O Banco do Brasil alegou que
o funcionário foi demitido após minuciosa apuração
de fatos delituosos em inquérito administrativo especialmente
aberto para apuração de falta grave. O resultado apontou
a prática de furto de talonário de cheques, falsificação
de assinaturas e apropriação indébita de R$ 76.498
da conta-corrente de um dos clientes.
Na documentação
juntada aos autos pelo empregador, consta uma confissão feita
pelo empregado, de próprio punho, em que descreve seu desvio de
caráter. “Desde a infância tenho esse tipo de problema
de roubar qualquer coisa que me chame a atenção. Quando
criança, roubava dos meus parentes. No mercado, ficava com o troco
das compras que fazia”, disse.
Segundo a defesa apresentada
pelo empregador, “o banco já foi severamente prejudicado
pela conduta do empregado, tanto em sua imagem perante seus clientes
quanto em não ter conseguido até o momento o retorno integral
dos valores desviados, sendo portanto, profundamente temerária
a reintegração pretendida”.
No recurso do banco ao TRT, o
entendimento foi o de que “somente a falta grave praticada durante
o período de suspensão do contrato autoriza a dispensa
motivada, e, no caso, a falta cuja prática é atribuída
ao autor é anterior à concessão do benefício”.
O banco recorreu ao TST
insistindo na tese de que, mesmo suspenso o contrato de trabalho, o
empregado pode ser dispensado por justa causa. A 3ª Turma negou
provimento ao agravo, seguindo voto do relator, juiz convocado Ricardo
Machado, porque não foi comprovada divergência jurisprudencial
que amparasse o recurso, nem violação de lei ou da Constituição
Federal.
|
Notícias do Tribunal
Superior do Trabalho
16/04/2007
Farmácia terá que pagar multa
por não empregar menor aprendiz
A vedação ao exercício
da profissão de vendedor de produtos farmacêuticos a menor
de 18 anos, prevista no artigo 3º da Lei nº 6.224/75, não
impede a contratação de menor aprendiz para trabalhar em
farmácia. A decisão foi proferida pela unanimidade dos
ministros da Terceira Turma do Tribunal Superior do Trabalho, no julgamento
de ação movida pela rede de drogarias Araújo S/A.
A rede de farmácias impetrou
mandado de segurança, com pedido de liminar, contra ato do delegado
regional do Trabalho em Belo Horizonte (MG) que, por duas vezes multou
os 38 estabelecimentos pertencentes à rede por descumprimento
do artigo 429 (caput), da CLT. O artigo regula a contratação
de menores aprendizes no comércio, determinando que “os
estabelecimentos de qualquer natureza são obrigados a empregar
e matricular nos cursos dos Serviços Nacionais de Aprendizagem
número de aprendizes equivalente a cinco por cento, no mínimo,
e quinze por cento, no máximo, dos trabalhadores existentes em
cada estabelecimento, cujas funções demandem formação
profissional”.
Segundo contou o dono da rede
farmacêutica, suas lojas foram multadas em dezembro de 2004 e maio
de 2005 por não cumprir o número mínimo de contratações
de aprendizes exigido pela lei. Disse que seus estabelecimentos não
têm condições de receber os aprendizes pois não
dispõem de instrutores para acompanhar os menores na área
de vendas. Alegou, ainda, em sua defesa, que sendo a atividade-fim da
empresa a venda de medicamentos, “é temerário que
o processo de aprendizagem se desenvolva nesse setor de comércio,
cujo equívoco poderá acarretar prejuízos à saúde
e à vida dos consumidores”.
Defendeu-se, ainda, o comerciante,
destacando que o Estatuto da Criança e do Adolescente veda o trabalho
penoso aos menores de idade e que, no caso das farmácias, o vendedor
permanece todo o tempo de pé, agachando-se e levantando-se constantemente,
a fim de buscar mercadorias requisitadas pelos clientes. “Vê-se,
pois, que é impossível, se não ilegal, a aprendizagem
nessas condições”. Por fim, alegou que a Lei n° 6.224/75,
artigo 3°, veda o exercício de propagandista e vendedor de
produtos farmacêuticos ao menor de 18 anos.
Indeferido o pedido de liminar,
a 18ª Vara do Trabalho de Belo Horizonte negou a segurança
requerida sob o fundamento de que a autoridade tida como coatora (delegado
regional do Trabalho) agiu dentro dos limites da legalidade e com legitimidade,
tendo em vista cumprir seu poder de polícia em defesa dos interesses
da coletividade.
A empresa interpôs recurso
ordinário, insistindo na concessão da segurança
para impedir novas autuações até decisão
final dos processos administrativos em andamento. Novamente a decisão
foi desfavorável à rede farmacêutica. O acórdão
do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região (Minas Gerais)
entendeu não haver direito líquido e certo a amparar a
segurança requerida, no intuito de impedir fiscalizações
do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) enquanto pendentes recursos
administrativos.
Diante da decisão desfavorável,
a Drogaria Araújo recorreu ao TST. O juiz convocado Ricardo Machado,
relator do processo, negou provimento ao agravo de instrumento interposto.
Sobre o pedido de impedimento de novas autuações, o relator
disse que não há litispendência entre autuações
administrativas porque não se trata de processo judicial, estando
correta a decisão do TRT/MG que negou a pretensão.
Quanto à contratação
de menor aprendiz em estabelecimentos farmacêuticos, o juiz Ricardo
Machado destacou que a Classificação Brasileira de Ocupações,
elaborada pelo MTE, define as funções que demandem formação
profissional e, dentre elas, encontram-se as de atendente de farmácia
(balconista); auxiliar de farmácia de manipulação;
auxiliar técnico em laboratório de farmácia; técnico
em farmácia e técnico em laboratório de farmácia,
podendo os menores serem enquadrados em qualquer uma dessas funções.
Sobre a vedação
ao exercício da profissão de vendedor de produtos farmacêuticos
a menor de 18 anos, o juiz explicou que esta não impede a contratação
de menor aprendiz para trabalhar em farmácia, porque suas atividades
deverão ser executadas de forma compatível com o seu desenvolvimento
físico, moral e psicológico. (AIRR-1086/2005-018-03-40.7).
(Cláudia Valente)

|