Nova Central, 16 de maio
de 2007
Lula descarta 3º mandato, afirma
que aborto é questão de saúde e defende limite
de greve no serviço público
Na primeira entrevista coletiva de seu segundo mandato, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva descartou hoje a possibilidade de disputar a reeleição
em 2010 para a presidência da República. Lula deixou em aberto
a hipótese de apoiar o governador tucano Aécio Neves (Minas Gerais)
para o cargo, mas disse esperar que a base aliada do governo tenha candidato único
na disputa presidencial --com a esperança de fazer o seu "sucessor" para
o posto.
"Eu não brinco com
democracia. Fui obrigado a ser candidato à reeleição.
Sou contra e não serei candidato em 2010. Não é por
nada não, é porque a Constituição não
permite." Lula defendeu a pluralidade de forças políticas
que compõem o seu segundo mandato ao justificar a escolha de antigos
críticos de seu governo para o primeiro escalão do Executivo
--como o ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional)
e o filósofo Mangabeira Unger.
Lula disse que "muita gente
vai ter que engolir" o que disse do seu governo com o passar do
tempo. O presidente negou que tenha reduzido o espaço do PT no
primeiro escalão do governo, mesmo com a substituição
de petistas para abrir espaço a partidos da base aliada. "O
PT tem o privilégio de ter o cargo de presidente, o mais importante
da República. Mais do que isso, é querer muita coisa",
enfatizou.
Lula disse que fez acordo com
partidos políticos, e não com pessoas. Mas admitiu que,
no exercício do seu mandato, um presidente não governa
necessariamente com as forças que gostaria de governar. "Cabe
ao partido indicar as pessoas, desde que elas estejam aptas a assumir
funções", disse.
Greve
Sobre o projeto elaborado pelo
governo para regulamentar o direito de greve no país, o presidente
disse que se sente à vontade, como ex-sindicalista, para propor
a discussão do tema. "A greve no setor público não
pode ser feita como em uma fábrica", disse. Lula negou que
o objetivo do governo seja proibir o direito de greve no Brasil. Mas
criticou os que abusam do direito sem efetivas razões trabalhistas.
"Não é possível
que alguém faça greve 90 dias e receba os dias parados.
Porque deixa de ser greve e passa a ser férias. Todos nós
temos o direito de fazer greve, mas saber que não é tirar
férias. Afinal de contas você ganha pelo dia que você trabalha,
e não pelo que fica em casa."
Lula criticou a greve dos servidores
do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis), que protestam contra a divisão do órgão,
proposta pelo governo.
Segundo ele, "todos temos
medo de mudança", mas a proposta de separação
das áreas de licenciamento e de preservação ambiental é uma
forma de se modernizar o Ibama. O presidente tentou minimizar os efeitos
do movimento dos trabalhadores em projetos importantes do governo, como
o licenciamento das hidrelétricas do rio Madeira (RO), e disse
que não deixará para o seu sucessor um "apagão" no
setor elétrico.
Ao comentar as divergências
entre as ministras Dilma Rousseff (Casa Civil) e Marina Silva (Meio Ambiente),
Lula fez questão de dizer que qualquer disputa se encerra quando
chega à sua mesa, porque a decisão do governo.
Aborto
Sobre o aborto, ele disse que
pessoalmente é contra. Mas que como chefe de Estado não
pode se omitir sobre o assunto. "Eu tenho comportamento como cidadão,
sou contra o aborto. E não acredito que tenha uma mulher nesse
país favorável ao aborto, como se fosse coisa que as pessoas
querem fazer. Mas como chefe de Estado, sou a favor de o aborto ser tratado
como saúde pública, dar atenção a pessoas
que tiveram gravidez indesejada", afirmou.
Segundo o presidente, o debate
sobre o aborto será bem-vindo pelo governo --mas deve ser realizado
pelo Congresso Nacional. O presidente também defendeu que as televisões
brasileiras e a futura TV pública, a ser criada pelo governo,
discutam de forma aberta o tema.
" O papa defendeu visão da igreja brasileira e internacional, como
outras pessoas defendem. Eu tenha minha visão e ela continua inalterada.
Sou favorável ao debate e acho que o Estado tem que tratar como saúde
pública. Qual o problema das pessoas debaterem?", questionou.
Lula disse que, muitas vezes,
não há diálogos entre pais e filhos --o que leva
meninas a praticarem o aborto. Por isso, na sua opinião, o Estado
deve dar apoio de saúde às mulheres que optarem pela prática. "Eu
acho que essa legislação não trata da veracidade
dos acontecimentos desse país. Todo cidadão, católico
ou não, cristão ou não, sabe que existe no Brasil
quantidade exagerada de jovens que praticaram aborto porque tiveram gravidez
indesejada. Quando essas pessoas se encontram nessa situação,
o poder público abandona? Deixa fazer experiências com seu
pouco conhecimento, ou o Estado intervém."
Crise aérea
Lula responsabilizou parte da
crise aérea que atinge o país ao que chamou de "falta
de planejamento histórico" no setor aéreo brasileiro.
Segundo o presidente, ainda é cedo para apontar culpados para
a crise ou para o acidente entre o Boeing da Gol e o jato Legacy, no
ano passado. Mas reconheceu que, diante do sucateamento do setor nos últimos
anos, a crise acabou ganhando força.
"Estamos sendo vítimas
da falta de planejamento histórico desse país. E agora
temos que recuperar. Se algum aeroporto ou a Infraero gastou dinheiro
a mais em publicidade, tem que se investigar. No mais, vamos continuar
trabalhando nos aeroportos brasileiros porque eles precisam que a gente
continue trabalhando", disse.
Violência
O presidente disse, na entrevista,
que o governo federal não é o maior responsável
pela crise de segurança pública vivida atualmente no país.
Segundo Lula, os Estados têm a prerrogativa de desenvolver ações
de combate à criminalidade.
"Na questão da segurança
pública, o governo federal não é o foco principal.
Somos a força auxiliar do sistema de segurança pública
que é majoritariamente controlado pelo governos estaduais. Às
vezes, temos que pedir autorização aos Estados para a Polícia
Federal entrar. O governo federal só entra quando é pedido",
disse.
Lula admitiu que nenhum governo
conseguirá solucionar em curto prazo o problema da violência
e o aumento da criminalidade.
Juros
Na entrevista, Lula reafirmou
que não irá interferir nas decisões do Copom (Comitê de
Política Monetária) para forçar uma queda mais rápida
da taxa básica de juros (Selic) e defendeu a autonomia do Banco
Central. Ao ser questionado sobre um descompasso entre o ritmo de queda
da taxa de juros e os avanços da economia brasileira, o presidente
defendeu o Banco Central e disse que a taxa de juros vai continuar caindo
sem que se faça a "estupidez" de uma intervenção.
Ele lembrou que a taxa atual é a
mais baixa da história, e o "viés é de baixar",
sem que haja a 'tensão pré-Copom' do passado. "Quando
as pessoas viram oposição colocam uma tapa nos olhos e
esquecem quanto era os juros quando governavam o país", afirmou.
Entrevista
O presidente respondeu a 15 perguntas
de jornalistas sorteados pelo Palácio do Planalto de veículos
credenciados na Presidência da República. Bem-humorado,
Lula não se recusou a responder nenhuma pergunta.
Em quase duas horas de entrevista,
o presidente ficou de pé em um púlpito separado pela presidência
da República e em diversos momentos recorreu ao copo d'água
oferecido pelo cerimonial do Palácio do Planalto.
Ao final da entrevista, assessores
da presidência afirmaram que a entrevista coletiva não foi
a primeira concedida por Lula em seu segundo mandato. Eles alegam que
o presidente, em viagens ou cerimônias oficiais, já concedeu
44 entrevistas desde o início de janeiro --embora a de hoje tenha
sido a primeira no formato oficial, seguindo o modelo implantado em apenas
uma coletiva de seus quatro primeiros anos de governo.
Leia abaixo a segunda parte da entrevista coletiva
concedida nesta terça-feira pelo presidente Luiz Inácio
Lula da Silva:
Jornalista Guilherme Menezes, SBT: Bom dia, presidente.
O assunto ainda é a sucessão. O senhor acaba de dizer
que tem mais de três anos de mandato pela frente. O segundo mandato
mal começou, mas a gente sabe que em política, quem não
faz estratégia não colhe lá na frente, e o senhor,
com certeza, não vai abrir mão do seu papel de líder
político e de querer influenciar a política brasileira,
ninguém tem dúvida disso. Então, a pergunta que
eu faço é a seguinte: o senhor estaria disposto ou o
senhor acha que um presidente eleito pelo PT está obrigado a
apoiar um candidato do PT ou o apoio do senhor poderia estar ligado à lógica
da montagem da sua base política que privou o PT de algum espaço
para beneficiar os aliados? Quem o senhor vai apoiar, na medida em
que o senhor descartou a possibilidade da terceira eleição?
Presidente: Primeiro,
nenhum partido privou o PT de algum espaço. O PT tem o privilégio
de ter o cargo mais importante da República, que é o de
presidente, mais do que isso é querer muita coisa. Além
disso, todos os partidos participam do governo em função
da proporcionalidade da sua representação na sociedade
brasileira, e o candidato que sairá da base deverá ser
discutido entre todos os partidos que compõem a base. Eu digo
sempre o seguinte: eu quero terminar o meu mandato em 2010 na condição
daquele que os candidatos chamem para ir para o palanque, porque é duro
você terminar um mandato e ninguém te chamar para nada,
as pessoas te esconderem, fingirem que você não é do
partido, não citarem o seu nome, não o convocarem para
a televisão. Eu quero ser um presidente diferente. Quando chegar
a eleição de 2010, eu quero estar tão afiado que
as pessoas vão pedir para eu ir ao palanque: "Vamos lá Lula,
vamos fazer um comiciozinho, não sei das quantas". É assim
que eu quero terminar o meu mandato e é para isso que eu vou trabalhar.
A base vai ter um candidato e esse candidato, na minha opinião,
deve ser tirado de um consenso da base para que a gente possa disputar
as eleições.
Jornalista Guilherme
Menezes, SBT: Não precisa ser alguém do PT?
Presidente: Necessariamente
não. Se eu estou dizendo que é um candidato da base, e
a base tem vários partidos políticos, vai ser um candidato
da base, de dentro da base. Hoje a gente erra só se quiser, porque
você tem pesquisa, você tem estudo científico que
pode dizer: olha, quem tem mais possibilidade é esse, quem tem
possibilidade de crescer é esse, quem vai crescer é aquele,
e preparar o tipo de discurso que as pessoas têm que fazer. Hoje,
uma campanha tem métodos científicos importantes. E eu
acho que nós estamos numa condição favorável.
O que eu posso dizer para vocês é que toda a minha expectativa
e tudo o que eu acredito que vai acontecer é que nós terminaremos
o segundo mandato numa condição eminentemente mais favorável
do que terminamos o mandato de 2006. E o Brasil estará economicamente,
politicamente e socialmente infinitamente melhor do que esteve em 2006. Portanto,
as condições serão muito mais favoráveis. Obviamente
que sempre haverá alguém jogando uma casca de banana, sempre
haverá alguém jogando uma pedra, mas isso faz parte da política.
O que eu preciso é colocar um sapato com umas travinhas para não
escorregar nas cascas de banana que me jogam todo santo dia. Eu também
aprendi muito, também fiquei calejado, também aprendi a saber
quem é quem na política brasileira e acho que por isso eu estou
mais tranqüilo para fazer as coisas corretas.
Jornalista Guilherme
Menezes, SBT: O senhor faz sucessor?
Presidente: Meu
Deus do céu, eu esqueci de perguntar para o Papa, mas eu posso
dizer para vocês que eu quero fazer o sucessor, e por uma razão
muito simples: porque eu quero que tenha continuidade o que nós
estamos fazendo no País. Só isso. Eu trabalho para fazer.
Agora, entre trabalhar para fazer e dizer que vou fazer, não tenho
esse poder.
Jornalista Leandro Fortes,
Carta Capital: presidente, bom dia. Sobre esse hábito de coalizão
ao qual o senhor se referiu, eu queria lhe fazer uma pergunta específica
sobre isso. No início do segundo mandato, o senhor trouxe para
o governo, por exemplo, o deputado Geddel Vieira Lima, que lhe desancava
sem maiores pudores durante a crise política do mensalão
em 2005/2006. Recentemente o senhor surpreendeu a todos trazendo também
o professor Mangabeira Unger, que não só lhe desencava
publicamente como também escreveu um artigo pedindo o seu impeachment,
por nomeá-lo, designá-lo como chefe do governo mais corrupto
da história. Então, eu lhe pergunto: essa coalizão
feita nesses termos, essa coalizão feita a qualquer custo, levada,
enfim, a todas as conseqüências por conta da governabilidade,
do exercício da governabilidade, primeiro, se ela lhe provoca
algum desconforto em relação a esses nomes. E, segundo,
se o senhor não acha que isso vai acabar lhe criando mais problemas
do que soluções, ao longo do seu mandato.
Presidente: Uma
coisa importante que temos que meditar é se nós, cidadãs
e cidadãos brasileiros, respeitamos o resultado das eleições
ou se vamos ficar discordando, porque as pessoas que nós queríamos
que fossem eleitas não foram. O presidente da República,
no exercício do seu mandato, não governa com as forças
que gostaria de governar, ele governa com as forças vivas que
compõem as organizações políticas da sociedade
civil e dos partidos políticos. Isso vale para um prefeito, vale
para um governador e vale para o presidente da República. Segundo,
obviamente que quando você faz aliança política,
ela tem preço, e eu vou lhe dar um exemplo. Eu perdi três
eleições, e cada eleição que eu perdia, eu
perdia por 15%. Chegou um dia em que alguém me convenceu de que
eu não precisava mais ficar fazendo discurso para agradar o PT,
que eu não precisava mais ficar fazendo discurso para agradar
os 30% ou 35% que eu tive em todas as eleições. Era preciso
que eu me preparasse para ter do meu lado os 15% que faltavam. E eu me
preparei e ganhei a eleição. Da mesma forma, na hora em
que você vai montar a coalizão, eu não fiz acordo
com pessoas individualmente, eu fiz acordo com partidos políticos
e, portanto, cabe ao partido político indicar as pessoas que vão
fazer parte do governo, desde que as pessoas - e todo mundo que é indicado
passa por um critério que pode ter ou não problema - estejam
aptas para exercer a sua função.
Ora, eu queria fazer a coalizão
porque queria o PMDB como um todo e não o PMDB fracionado. Eu
queria o PMDB na sua totalidade, com os seus deputados, com os seus senadores
e com a direção do partido. Eu não queria um PMDB
que tivesse 40 deputados de um lado, 40 deputados do outro, 10 senadores
de um lado, 10 senadores do outro. Eu queria o todo do PMDB, como eu
quero o todo do PR, como eu quero o todo do PRTB, e assim a gente monta
o governo. Se essas pessoas forem me dar problema, as do PT e as que
não são do PT, os partidos irão tomar posições
em relação a elas. Até agora todas estão
a contento. O fato de a pessoa ter sido contra o presidente da República
em outro período, ela tinha que ser contra porque não fazia
parte da coalizão. Agora, ela faz parte da coalizão e você vai
ver essa pessoa, pelo Brasil afora, defendendo o governo e defendendo
o presidente Lula. A mesma coisa, o Mangabeira Unger, que vem para um
trabalho específico de pensar este País para o ano de 2022,
que é o ano em que a gente completa 200 anos de Independência.
Eu pretendo apresentar um projeto para o Brasil, quero mandar esse projeto
para a Câmara dos Deputados e para o Senado para que seja votado
e possa parecer quase que uma espécie de constituinte de obras.
Qualquer pessoa que vier a governar este País, poderá fazer
a obra que lhe der na cabeça, mas tem aquelas obras que são
prioritárias, são necessárias para o País.
Ora, na medida em que o partido
do Mangabeira Unger, que tinha o vice-presidente da República
e tem o vice da República, o indica para uma função
que eu queria criar, ótimo. Vamos ver o que o Mangabeira vai fazer
daqui para frente, vamos ver o que os ministros vão fazer daqui
para frente. O que fizeram para trás, faz parte do passado.
A segunda coisa, meu querido, é a
seguinte: muita gente vai engolir o que disse do governo, com muita tranqüilidade.
Nada como um pouco do assar dotempo para as coisas irem se assentando.
E todo ser humano é plausível de erro. As pessoas podem
errar. Eu já fiz julgamento precipitado de quantas coisas? Eu
me lembro que quando o Sarney lançou a Ferrovia Norte-Sul, eu
me esgoelava no Congresso Nacional contra a Ferrovia Norte-Sul, eu e
outras pessoas. Tanto é verdade que ela ficou, de 1987 até agora,
com apenas 215 quilômetros construídos. Eu, que era contra
em 1987, já fiz em quatro anos mais do que todos os presidentes
que começaram em 1987.
Então, eu penso que o
ser humano é assim: nós falamos uma coisa hoje, amanhã percebemos
que estamos errados e humildemente temos que reconhecer que erramos,
pedir desculpas do que fizemos, fazer autocrítica e tocar o barco
para frente. O que a gente não pode é ficar com o passado
como se fosse uma espada na cabeça das pessoas, sem permitir que
elas possam evoluir.
Esses dias eu peguei um estudo
sobre o que diziam da hidrelétrica de Itaipu. Se vocês puderem,
peçam aos dirigentes de Itaipu para mandar, e vocês vão
ver que coisa fantástica. Lá estão dizendo que vai
ter tremor, lá estão dizendo que vai aumentar a ventania,
lá estão dizendo que vai acontecer uma série de
coisas que não aconteceram desde 1974. Então, na política é a
mesma coisa. As pessoas dizem uma coisa hoje, amanhã têm
que reconhecer que erraram. E eu acho que, graças a Deus, o mundo é assim.
Graças a Deus, nós temos inteligência para não
ser os donos da verdade e ser uma espécie de metamorfose ambulante,
mudando sempre, nos aprimorando sempre, para melhorar sempre. O que eu
posso te garantir é que eu continuo, hoje, o mesmo Lula de janeiro
de 2003.
Jornalista Paulo de Tarso,
Valor Econômico: presidente, bom dia. Um dos cenários
econômicos que parece consolidado é a questão do
câmbio. Com o dólar a cerca de 2 reais, e com a classificação
do Brasil como investment grade, a tendência é que o real
fique ainda mais valorizado perante a moeda americana. A nossa pergunta é:
que medidas o governo vai apresentar aos empresários brasileiros
que estão perdendo competitividade no exterior, com esse cenário?
Presidente: Primeiro,
se eu pudesse te responder com essa facilidade toda, eu já teria
feito o que tem que ser feito. Primeiro, nós temos que reconhecer
uma coisa que o ministro Guido Mantega disse para vocês, outro
dia, em uma entrevista. A gente fica dizendo que o real está valorizado
sem reconhecer que o dólar está se desvalorizando diante
de quase todas as moedas do mundo. Segundo, nós não podemos
resolver o problema do câmbio como alguns querem que a gente resolva: "Ah,
cria o câmbio para agricultura, cria o câmbio-soja, o câmbio-automóvel,
o câmbio-parafuso", não dá. O câmbio vai
continuar sendo flutuante e vai se ajustar. Já faz algum tempo
que ele está na casa dos 2% e vai se ajustar.
O que nós precisamos é ter
medidas tributárias para que a gente possa permitir que as empresas
brasileiras que produzem e competem com um produto, normalmente chinês,
no mercado internacional e estão perdendo competitividade, possam
ter mais competitividade. Ao mesmo tempo, nós temos que incentivar
essas empresas a adotarem inovação tecnológica,
porque seremos mais competitivos com mais tecnologia moderna. É isso
que temos que fazer. O dólar vai se ajustar na medida em que a
gente comece a importar mais bens de capital, na medida em que a gente
comece a reduzir a taxa de juros, que está sendo reduzida e vai
continuar sendo reduzida. Agora, não tem milagre.
Eu quero dizer para as pessoas
que estão perdendo competitividade que o governo fará a
sua parte. O governo pode aumentar a alíquota de produtos importados,
pela OMC nós poderemos chegar até 35% na taxação
de determinados produtos. Já fizemos isso no setor têxtil,
poderemos fazer para outros setores. Nós poderemos criar políticas
para estudar a desoneração de alguns setores aqui dentro,
mas não tem como o governo, num passe de mágica, dizer:
olha, para esse setor sobreviver, o dólar vai ser tanto. Não
tem, o que nós precisamos saber é que não estamos
competindo com a Alemanha ou com os Estados Unidos, estamos competindo
com a China e as condições da China, do ponto de vista
da relação trabalho/capital, é muito mais favorável
do que a relação aqui dentro do Brasil.
Por isso é que eu votei
para que a China fosse transformada em economia de mercado. Por quê?
Nós precisamos levar a China para a OMC e fazer com que a China
faça um debate junto com todos os demais países que concorrem
com ela, o que não pode é a China ficar de fora, do jeito
que está hoje. Mas eu estou tranqüilo e acho que o câmbio,
veja, não adianta a gente ficar nervoso não, faz seis meses
que eu discuto a questão do câmbio neste país, com
amplos setores da sociedade, com empresários dos mais diferentes
setores, e não tem milagre. De vez em quando eu pergunto para
as pessoas: vocês querem o câmbio fixo? Não. Então,
meu caro, vamos deixá-lo flutuar. Vamos tratar de ordenar um aumento
das importações brasileiras para que a gente tenha menos
dólares, a política de juros vai sendo reduzida, nós
vamos ter menos dólares. Agora, na medida em que o Brasil vai
consolidando a sua economia, podem ficar certos de que nós vamos
precisar aprender que mais dólares vão entrar aqui.
Veja que interessante, acabou
o tempo em que os homens da economia deste país precisavam correr
todo final de ano para Washington para conseguir uma migalhazinha do
FMI para fechar a nossa conta. Nós, agora, estamos tentando ver
como gastar um pouco dessa quantidade de dólar que temos, porque
uma reserva de 125 bilhões de dólares, um saldo comercial
de mais de 40 bilhões de dólares, um superávit de
conta corrente de mais 14 bilhões de dólares, inflação
baixa, é tudo o que os brasileiros não estavam preparados
e graças a Deus nós conquistamos tudo isso. Agora, é continuar
andando sem emoções e sem inventar, fazendo o que tem que
ser feito.
Paulo de Tarso: Mas tem
prazo para essas medidas, presidente?
Presidente: Não,
não tem prazo. Veja, essas coisas nós vamos discutindo.
Veja que nós estamos discutindo desoneração. Nesses últimos
meses, você vai perceber que até o final de 2006 nós
desoneramos praticamente 22 bilhões de reais neste país.
A construção civil não estaria crescendo como
está se nós não tivéssemos adotado um pacote
para a construção civil. Nós acreditamos que com
o PAC, com outras medidas que vamos tomar, a economia vai crescer ainda
mais, nós vamos gastar um pouco dos dólares que temos
aí. Se antes a gente corria atrás para pegar dólar,
e o banco tinha que vender dólar para baixar o preço,
hoje nós estamos comprando para o dólar não baixar
e estamos comprando muitos dólares. Eu quero que a gente, ao
invés de ficar comprando dólares, aumente a importação
de bens de capital para modernizar a indústria nacional. É isso
que vai dar à indústria nacional competitividade, para
que a gente possa disputar com os mercados mais desenvolvidos.