VERMELHO, 18 de maio de 2007
Lula: ''longe de mim querer tirar direito
de trabalhador''
Ao abrir nesta quinta-feira a reunião do Conselho de Desenvolvimento
Econômico e Social (CDES), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
disse que o país não deve ''ter medo'' de promover as reformas
política, tributária, trabalhista e previdenciária. ''Longe
de mim tirar direitos do trabalhador, mas tem de haver mudanças'', disse
Lula sobre a reforma trabalhista que, segundo ele, deve ser feita para aumentar
o grau de formalidade do emprego.

Lula fala aos integrantes
do CDES
O presidente Luiz Inácio
Lula da Silva avisou hoje aos sindicatos que vai mesmo iniciar o debate
de uma reforma nas leis trabalhistas da era Vargas. Na reunião
do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, no Palácio
do Planalto, ele também fez coro com segmentos que defendem as
reformas política, previdenciária e tributária.
Ele deixou claro, para início de conversa, que não pretende
tirar direitos, mas flexibilizar a Consolidação das Leis
do Trabalho (CLT), de 1943, garantindo contratos especiais a um ''exército''
de jovens entre 15 e 24 anos.
''Ora, meu Deus do céu,
longe de mim querer tirar direito de trabalhador'', ressaltou. ''Se eu
não puder dar, tirar eu não tiro'', garantiu. Lula observou
que a tecnologia está ocupando um espaço ''extraordinário''
e o mundo do trabalho mudou desde o decreto 5.452, assinado pelo presidente
Getúlio Vargas, da CLT, há mais de 50 anos. Na avaliação
de Lula, o cenário também é diferente daquele dos
anos 1970, quando presidia o famoso Sindicato dos Metalúrgicos
do ABC paulista e liderava as grandes greves.
Lula recorreu, em diversos momentos, à proximidade com os sindicalistas
para defender as reformas, especialmente ao sugerir uma carteira de trabalho
diferente para novos empregados. Lembrou que na época de sindicato no
ABC só precisava xingar o governo. ''Como vocês não podem
me xingar agora - pelo menos por companheirismo, vocês me resguardam
- temos de ser produtivos e criativos, fazer o possível para mudar as
coisas'', disse. ''Temos milhões de jovens entre 15 e 24 anos querendo
trabalhar, como é que vamos dar emprego para eles?''
O presidente relatou que, nas conversas com sindicalistas, os ''companheiros''
dizem que um contrato especial vai tornar mais precário o sistema
de trabalho e criar um ''trabalhador diferente''. ''Tudo bem, trabalhador
diferente ele já é quando está na rua, sem trabalhar'',
ressaltou. Por fim, avaliou que não se pode esperar a economia crescer
para resolver a situação dos trabalhos informais.
Nos últimos dias, diversos líderes sindicais criticaram propostas
de restrição ao direito de greve e de flexibilização
das leis trabalhistas. (leia mais)
Uma das críticas mais contundentes foi do ex-presidente da Central Única
dos Trabalhadores (CUT), João Felício. Ele qualificou o projeto
de lei que a a Advocacia Geral da União enviou à Casa Civil regulamentando
a lei de greve como uma ação ''estimulada pela postura preconceituosa
e anti-sindical ainda existente na sociedade brasileira e em segmentos do próprio
governo''. ''Algumas das peças do baú de maldades são
verdadeiras pérolas, jogadas aos porcos da grande mídia, cujos
patrões insistem em pautar e impor o programa neoliberal derrotado nas últimas
eleições como política de governo, desconstruindo o serviço
público e ridicularizando os servidores para melhor viabilizar a privatização
do Estado brasileiro'', disse Felício.
Veja abaixo, a íntegra do discurso
do presidente na 21ª reunião do Conselho de Desenvolvimento
Econômico e Social – CDES
Palácio do Planalto, 17 de maio de 2007
Meu caro Walfrido,
Meu Caro Tarso Genro,
Meu caro Miguel Jorge,
Meu caro Patrus, Márcio,
Companheiros ministros,
Conselheiros,
Eu penso que todos estão
percebendo que houve uma renovação no Conselho, com praticamente
50%, 46% de conselheiros novos. Houve uma distribuição
mais equânime entre os segmentos sociais que fazem parte da sociedade
brasileira, outras categorias entraram. Eu estou vendo aqui o nosso querido
empresário de Uberlândia, o senhor Lair Martins, grande
empresário da área de transportes. E está junto
com quem vende para ele as coisas para ele transportar, o Abílio
Diniz. Eu acho importante todas as centrais estarem aqui representadas, é uma
alegria ter o Cândido Mendes conosco.
Primeiro, quero agradecer aos companheiros que saíram. Uns saíram
porque não podiam participar, outros porque não vinham nas reuniões.
Eu quero assumir um compromisso com vocês, aqui. O César Alvarez,
que é o homem da minha agenda, certamente está aí. Eu
penso que as quatro reuniões ordinárias que vão ser feitas
no Conselho, essas que vocês chamam de reuniões plenas, eu preciso
colocar na minha agenda. Isso, como prioridade, para participar o dia inteiro
da reunião, ouvir as pessoas. É porque eu saio daqui para atender
pessoas que não são mais importantes do que vocês. Eu penso
que é importante participar mais do Conselho. Então, Walfrido, é um
compromisso de que eu participe das ordinárias com mais vigor para ouvir
os debates das pessoas e aprender um pouco.
A segunda coisa é dizer para vocês que eu concordo com o Paulo
Godoy de que estamos vivendo um momento, eu diria, quase excepcional neste
País. Não porque as coisas já estejam todas feitas e todas
prontas, pelo contrário, temos muita coisa para fazer. Mas porque a
situação do País nos permite, daqui para a frente, pensar
em fazer aquilo que nós não conseguimos fazer no primeiro mandato.
E aí entram os temas que foram abordados aqui, a reforma política.
A reforma política não pode ser um tema que a gente discuta apenas
quando acontece um problema ou em época de eleição. Nós
temos vontade política, acho que o Congresso Nacional e os partidos
políticos têm noção de que ela precisa ser feita.
Eu penso que nós temos que ter a coragem de incentivar o Congresso Nacional
com propostas, através do Conselho, a entrar nesse debate para que a
gente tenha uma reforma política definitiva, que dê mais clareza
e mais representatividade aos partidos políticos no Congresso Nacional,
para que a gente fortaleça a democracia brasileira.
A gente discute muito quando acontece um problema no País: “Ah,
precisa de reforma política”. Mas depois isso vai amortecendo
porque todo mundo, na verdade, tem medo de reforma. Reforma é como mudar
de casa, ou seja, você está habituado a morar numa casa e precisa
mudar; a outra pode ser muito melhor, pode ser maior, mas você tem dificuldade
de sair da casinha em que você está. Você está acostumado
com o cheiro de mofo, você está acostumado com o banheiro entupido.
Então, você não quer sair para uma coisa mais nova, você fica
lá. Isso é tão verdadeiro que quando você tem uma área
crítica em uma cidade, quando as pessoas estão morando em área
de risco, quem já foi prefeito ou governador sabe, que a casa do vizinho
caiu, o vizinho morreu e você tem muita dificuldade de convencer o outro – que
será o próximo – a sair dali. Aconteceu um acidente grave
em 2003, em Belo Horizonte, um pai que perdeu seis filhos, ele tinha ganho
uma casa da prefeitura, ele foi para a casa nova, mas vendeu a casa nova e
voltou para a área de risco de onde foi tirado. E aí aconteceu
a chuva, morreram os seis filhos, a família inteira morreu. E não
sei quem da prefeitura falou: “vamos processar o cidadão”.
Meu Deus do céu, mais castigo do que perder a família inteira,
não tem. Vai processar o quê?
Então, mudança é algo complicado. Os partidos hão
de falar “mas a mudança vai me prejudicar, a mudança vai
atrapalhar, porque não sei das quantas”. Todo mundo sofrerá algum
problema com uma mudança, no começo, mas ao longo do tempo essa
própria mudança, se for feita para melhor, vai criar as vantagens
para as quais ela foi feita. Portanto, Armando, você, não apenas
como presidente da CNI, mas como deputado federal, por favor, faça essa
bandeira da reforma política ser uma bandeira da CNI também,
porque eu acho que é uma bandeira de todos. Podem crer que ela é necessária.
A segunda questão, da infra-estrutura. Eu, de vez em quando, fico imaginando
o que aconteceu neste País durante esses últimos 30 anos e, se
nós imaginarmos que o único momento de investimento em infra-estrutura
foi no governo Geisel, nós vamos imaginar quanto tempo faz que este
País não tem projeto de infra-estrutura. Eu estou falando de
1975, portanto, nós estamos falando de 30 anos. Da forma que o Geisel
fez, eu não sei qual era o critério de discussão naquela época,
mas o dado concreto é que a reforma, os investimentos de infra-estrutura
feitos naquele momento, foram a razão pela qual depois o Brasil entrou
numa encalacrada, porque não tinha como pagar as dívidas contraídas.
Por isso o PAC é uma novidade neste País. Certamente, Paulo,
ainda estamos longe de atingir a perfeição, mas eu não
creio que tenha havido algum momento no País em que um projeto de investimento
em infra-estrutura foi tão bem pensado e tão bem arquitetado.
E ainda estamos tentando aprender a aprimorá-lo. Se o PAC acontecer
como eu estou prevendo que aconteça, parece pouco, mas eu vou falar,
João Felício, em dólar. Parece pouco, mas cada vez que
o dólar baixa um pouquinho, aumenta a quantidade de dólares que
nós estamos investindo, ou seja, são praticamente 250 bilhões
de dólares de investimentos em infra-estrutura. Não é pouca
coisa, e também não é muita coisa. Não é aquilo
de que o Brasil precisa, quem sabe o Brasil precisasse de muito mais. Mas dentro
das possibilidades criadas pelo governo e pela sociedade brasileira é um
investimento que, se acontecer do jeito que nós estamos pensando que
vai acontecer, significa que nós, definitivamente, criamos uma parcela
do empresariado, do governo e da sociedade, que serão pessoas especializadas
em fazer com que as coisas aconteçam de verdade no País.
Eu estou muito – e aí vale para os trabalhadores e para os empresários – satisfeito
com o que aconteceu com o PAC até agora. Eu tenho dito para a Dilma,
para o Guido e para o Paulo Bernardo: não fiquem quietos com a cobrança.
A cobrança é necessária porque ela vai sempre alertando
sobre o que a gente não fez ou o que a gente fez e as pessoas não
compreenderam. É melhor estruturá-lo para que a gente, ao iniciá-lo,
não dê o vexame que está dando o time do Corinthians, ou
seja, que vá de vento em popa.
Eu queria contar para vocês uma pequena coisa que está acontecendo
no PAC. Há mais ou menos 20 dias eu sugeri à Dilma, numa reunião,
o Márcio Fortes estava presente, que na discussão sobre saneamento
básico e urbanização de favelas a gente não repetisse
os erros históricos do Brasil, disponibilizar recurso para as prefeituras
ou para os governos dos estados. Primeiro, a gente definiu atacar mais profundamente
as regiões metropolitanas. Segundo, a gente resolveu, a partir do governo
federal, fazer um levantamento de quais eram os grandes projetos a serem atacados.
A partir dessa descoberta dos projetos pelo governo federal, nós convidamos
aqui os governadores e os prefeitos de cada região metropolitana. Por
exemplo, já houve duas reuniões com o governador de São
Paulo e com os prefeitos, já houve reuniões com o governador
de Minas e com os prefeitos, já houve reunião com o governador
do Rio e com os prefeitos. Praticamente faltam seis ou sete estados. Está havendo
com todos os governadores e com os prefeitos. Para quê? Primeiro, para
que a gente descubra se tem projeto executivo de verdade. Se não tiver,
nós estamos dispostos a aceitar o projeto básico e, se não
tiver, nós estamos dispostos a ajudar a fazer o projeto.
Terceiro, nós não queremos que o dinheiro se disperse, porque
você fica dando 500 mil para um lugar, 30 mil para outro lugar, 20 mil
para outro lugar, aí, quando você vai ver o conjunto da obra,
não tem obra. É como se você fosse fazer uma pintura e
colocasse um pouquinho de tinta em cada ponta de uma madeira ou de uma parede.
Então, o que nós queremos é concluir a obra pegando as
coisas mais importantes em cada cidade, para ali a gente concluir. Por exemplo,
em vez de pegar 300 milhões de reais e dividir em 30 favelas, nós
pegamos o Complexo de Manguinhos e o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro,
e vamos gastar logo o dinheiro todo ali, para resolver definitivamente aquele
negócio. E assim vale para São Paulo, porque ao longo do tempo
a irresponsabilidade foi tomando conta. Em São Paulo nós temos
de 35 a 40 mil pessoas morando em áreas de manancial, onde não
podem morar. Mas as pessoas estão lá há muitos anos. Como
tirá-las? É possível tirar ou é possível
a gente resolver o problema sem tirar as pessoas de lá?
Então, estamos fazendo isso para que a gente pegue os 40 bilhões
de reais que temos para investir em saneamento básico e, ao chegar ao
final de 2010, eles estejam gastos. O que acontecia antes? Você liberava
o dinheiro, eu fazia um ato aqui no Palácio, anunciava a governadores,
prefeitos: disponibilizados 6 bilhões. Chegava o final do ano e, do
disponibilizado, quanto tinha sido liberado? Trezentos, 400 milhões.
Por quê? Porque não tinha projeto executivo. Depois, tinha uma
coisa que todos vocês sabem, o Paulo Godoy conhece bem, chamada fila
burra. Uma fila que foi criada para não liberar dinheiro, entravam todos
os prefeitos para pedir dinheiro, o primeiro da fila não tinha direito
porque não tinha projeto, mas não o tiravam da fila para os outros
não pegarem o dinheiro. Então, nós precisamos da ajuda
de vocês sobre como a gente deve gastar corretamente o dinheiro que foi
disponibilizado para o PAC, para que a gente se sinta estimulado, para daqui
a uns dois anos estarmos pensando num outro PAC ainda maior, ainda mais vigoroso
do que esse que nós estamos construindo hoje.
Quero dizer para vocês que eu estou muito otimista, e acho que nós
vamos chegar ao final do mandato com o PAC, certamente, bem construído
e eu penso que vai ser importante. A questão da reforma tributária,
o Rigotto disse muito bem. Não é a primeira vez que a gente está quase
no ponto de votar uma reforma tributária e não vota. Não
vota porque tem momentos políticos importantes. No ano que vem tem eleição
para prefeito. Muitos legisladores serão candidatos a prefeito ou terão
candidatos a prefeito. Então, se você não toma cuidado,
se depender do discurso contra a reforma tributária, o cidadão
fala: “bom, nós não podemos votar agora porque tem eleições
no ano que vem e eu não vou me prejudicar na minha eleição.” Eu
quero convocar vocês, e não tenho dúvida nenhuma, convocar
a sociedade brasileira, de que nessa questão da reforma tributária
nós não temos que pensar de forma corporativa, nós temos
que dar uma chance ao Brasil. O Brasil está precisando que a gente dedique
um pouco de tudo o que a gente sabe para este País ser pensado para
os próximos 30 ou 40 anos. Se não tiver reforma tributária,
a gente vai viver vendo isso ser motivo de discurso em toda campanha, em toda
palestra. Tem gente que tem até escritório para dar palestra
sobre reforma tributária. Às vezes, eu tenho a impressão
de que as pessoas não querem que aconteça.
Da parte do governo, nós queremos dizer para vocês que essa comissão
acertando, nós não teremos dúvidas, vocês têm
a minha palavra de que não haverá, da parte do governo, qualquer
empecilho para que a gente vote uma reforma tributária, levando em conta
algumas preocupações que disse o ex-governador Rigotto. Nós
temos que pensar nos estados mais pobres. E temos que fazer a reforma tributária
levando em conta que você tem na própria reforma tributária
ou em um fundo especial que possa canalizar, em função do grau
de necessidade, para os estados mais pobres possibilidades deles se desenvolverem,
senão o Brasil vai continuar desigual. E, continuando desigual, é ruim
para todos nós e ruim para o próprio País.
Como desenvolver mais a região Norte, a região Nordeste, como
não permitir que um estado como o Rio Grande do Sul, que atingiu um
estágio de desenvolvimento extraordinário durante todo o século
XX, agora sofra um processo de descenso? Eu até conversei com Nelson
Sirotsky, ontem, e disse: a Dilma vai te ligar. Nós precisamos reconstruir
um grupo de trabalho que tínhamos para pensar como fazer para não
deixar o Rio Grande do Sul retroceder, mas aproveitar que é um estado
bem-estruturado e fazer com que ele tenha crescimento. Até porque estamos
brigando para fazer o Nordeste crescer e não podemos permitir que um
estado que já cresceu venha a retroceder agora. Então, isso é um
desafio.
Veja qual é a vantagem que o Conselho tem hoje, Walfrido. O Conselho,
ganhou uma certa confiança do próprio Congresso Nacional. Vocês
estão lembrados que quando nós inauguramos o Conselho, em 2003,
tinha uma desconfiança: “ah, mas o Presidente está criando
um Conselho para competir com o Congresso, o Conselho vai fazer o papel do
Congresso”. Esses argumentos sem pé e nem cabeça foram
criando uma desconfiança. “Por que o presidente Lula está chamando
os conselheiros, ele quer passar por cima das instituições?” Não. É que
o governo entendeu que seria importante que a sociedade brasileira, que tem
um papel de transformar em lei, pelos deputados federais, tem que ter também
o papel de fazer o debate com os segmentos da sociedade organizada. Eu estou
convencido de que nós precisaríamos preparar as reformas para
fazer agora.
Quando a gente discute a reforma trabalhista, quando a gente discute reforma
na Previdência, eu sei como funciona a cabeça dos companheiros
dirigentes sindicais, eu tenho clareza de como funciona. Agora, eu quero
discutir, quero um espaço para discutir. Eu quero saber qual é a
contrariedade, aonde é que você está mexendo nas coisas,
porque senão, meu caro, nós pagaremos o preço quando
a gente estiver velhinho. Quando a gente estiver sentado numa cadeira, com
a dentadura de baixo mordendo a de cima, vai estar o nosso neto ou filho
do nosso lado, reclamando das coisas que eles não têm porque
nós não tivemos coragem de fazer. Nós temos que aproveitar
o momento político para fazer essas coisas.
O Pettinha sabe, e ele sabe que eu sou agradecido à UNE, porque durante
um tempo houve uma desconfiança quando a gente falou do ProUni: “porque
vai colocar dinheiro nas universidades particulares”. Não é isso,
Petta? Depois de muitas conversas, os companheiros da UNE assumiram a responsabilidade,
foram para os debates, enfrentaram aqueles que já estavam na universidade
e não queriam permitir que outros entrassem, e hoje o ProUni é um
programa de extraordinário sucesso no Brasil. A UNE, eu penso que pela
primeira vez, também, tem hoje representatividade na escola privada,
coisa que não tinha porque era muito mais forte na escola pública.
A reforma trabalhista. Ora, meu Deus do céu, longe de mim querer tirar
direito de trabalhador, se eu não puder dar, tirar eu não tiro.
Agora, não é possível que algumas coisas feitas em 1943
não precisem de mudanças em 2007, 2008. São 50 anos, o
mundo do trabalho mudou, houve uma evolução nas condições
de trabalho. Antigamente, quando eu ia a uma fábrica e falava “peão”,
chamava “peãozada”, a “peãozada” delirava,
aplaudia, porque era uma identificação. Hoje, se você for
falar “peão”, os caras falam: “não sou peão
mais não”. Os caras já fizeram universidade, já fizeram
curso de especialização, já estão num outro patamar.
As condições deles são diferentes daquelas que eu, particularmente,
enfrentei dentro de uma fábrica.
Eu acho que os dirigentes sindicais brasileiros evoluíram de forma extraordinária
para pensar essas coisas, para debater e não ter medo de debater. Entre
debater e fazer tem uma distância muito grande, mas é no debate
que a gente descobre se é possível ou não. Eu me lembro,
e aqui o Feijóo é o mais próximo, o Feijóo lembra,
o Alemãozinho, vocês sabem, por exemplo, que era extraordinário,
em 1978 e 1979, eu dizer: “o sindicato é um órgão
de contestação”. Era o máximo. Depois de 30 anos,
o que eu acho? Obviamente que o sindicato pode continuar contestando, mas na
medida em que o mundo do trabalho de 2007 não é o mundo de trabalho
de 1970, em que a tecnologia está ocupando um espaço extraordinário,
nós temos condições de fazer algumas discussões
que nós não podíamos fazer naquela época. Hoje,
um companheiro dirigente sindical tem que conhecer muito mais coisas do que
eu precisava conhecer. Eu só precisava xingar o governo. Como vocês
não podem me xingar agora – pelo menos por companheirismo, vocês
se resguardem – nós temos que ser produtivos e criativos, nós
temos que tentar fazer o que é possível mudar para melhorar.
Nós estamos aí com um exército de milhões de jovens,
que é um estoque que este País, de forma irresponsável,
deixou acumular nesses anos todos, temos milhões de jovens entre 15
e 24 anos querendo trabalhar. Como é que nós vamos dar emprego
para eles? Aí os companheiros falam: “não, não pode
ter um contrato especial porque vai precarizar, ele vai ser um trabalhador
diferente”. Tudo bem, trabalhador diferente ele já é quando
ele está na rua, sem trabalhar.
Se nós tivermos condições de criar mecanismos para que
esse cara entre, como se nós estivéssemos criando... quer dizer,
como colocar? Se for esperar a economia crescer, sabe o que eu penso? Quando
eu comecei a fundar o PT, de todas as coisas que a gente falava, os caras diziam: “vamos
esperar o socialismo”. É verdade, havia quem quisesse que eu não
disputasse mais eleições, que era preciso organizar a sociedade
durante 30 anos, e 30 anos depois a gente ia ter 30% da sociedade socialista,
e eu já teria uma base para disputar as eleições. Eu falei
para o cidadão: escuta aqui, e se eu morrer antes? Eu vou disputar a
eleição. E estou aqui.
Então, companheiros, o que eu quero é que nessa boa provocação,
a gente não tenha medo. A reforma da Previdência Social é necessária
e nós não vamos resolver os problemas dela para hoje não.
Mas qual é a Previdência ou sistema de seguridade social que nós
queremos para daqui a 20 ou 30 anos? Alguém pensou por nós, muitos
aqui não estavam nem vivos quando foi pensado o sistema de seguridade
social, nós o herdamos. Agora, nós teremos condições
de aprimorar alguma coisa, de fazer alguma coisa a mais? Então, qual é a
preocupação do debate? Nenhuma, e eu penso que a gente deve fazer
o debate com a cabeça muito aberta, sem dogmas, sem medo, sem aquele
negócio de que “isso me prejudica”. Nós precisamos
pensar no que vai ser bom para este País.
Veja, estou dizendo isso porque se a gente não fizer essas coisas e
esse debate, a gente vai ficar um pouco, eu diria, defeituoso no nosso projeto.
O segundo mandato só tem sentido para isso, para a gente fazer as coisas
que não foram feitas no primeiro, e muitas não foram feitas porque
não podiam ser feitas e porque não era o momento de serem feitas.
Vocês já viram pessoas que são internadas com um tumor
e os médicos comunicam “olha, tem um tumor, é maligno,
eu não posso tirar, ele tem que ficar. Eu vou fazer um dreno, vou tirar
o líquido toda semana mas, se eu tirar, você morre”.
Todo mundo sabe o sacrifício que todos nós aqui fizemos para
chegar à situação de hoje. E nós temos problemas
para resolver? Temos. Eu sei que nós precisamos encontrar uma solução
para algumas coisas, para o câmbio, por exemplo. Mas, qual é a
situação de hoje? Há cinco anos, o governo precisava correr,
todo final de ano, para pegar uns míseros dólares para resolver
as suas contas. Hoje, o nosso problema é excesso de entrada de dólar,
lembrando que os juros de hoje estão mais baratos do que os juros daquela época.
Então, não era só a questão de juros que fomentava
a entrada de dólares. Nós temos que nos preocupar com as empresas
brasileiras. Tem setores que vão perdendo competitividade, nós
temos que cuidar. A gente não tem que ter medo de dizer que é nacionalista,
não. Não tem que ter dogma, não. Isso não é um
nacionalismo arcaico, não. Ter uma indústria têxtil produzindo
aqui no Brasil é condição sine qua non para se ter aumento,
para ter trabalhador trabalhando, garantir a nossa empresa de sapatos, a nossa
empresa de móveis. Agora, é preciso que a gente faça política
mas, ao mesmo tempo, a gente convença o empresário de que ele
precisa investir em inovação na sua empresa, porque uma das formas
de ser competitivo é ter investimento em tecnologia, ser competitivo
na qualidade.
Então, o Brasil está pronto para isso. Está preparado
como nunca esteve. E eu penso que é nisso que o Conselho pode dar uma
contribuição extraordinária. Vejam o avanço do
Conselho: até a Previ está presente aqui no Conselho, até os
fundos de pensão, o poderoso fundo de pensão do Banco do Brasil.
Então, eu acho que as coisas estão colocadas.
Queria dizer, Walfrido, que não deve ter tema proibido para o Conselho.
O Conselho é como se fosse uma espécie de caixa de ressonância
da sociedade, mais estruturada, que a gente chama de sociedade organizada,
ou seja, vocês não estão dispersos. E outros temas que
nós temos que discutir. Não tem que ter tema proibido. Eu fico
feliz, primeiro, com os companheiros e companheiras que resolveram continuar
no Conselho. Algumas pessoas tiveram que sair, porque teve companheiro que
entrou no Conselho e nunca veio. Isso é que nem ser diretor de sindicato
e dirigente partidário. Nas convenções, os caras brigam,
quebram mesa, cadeira, para participar da direção. Na primeira
reunião, não aparece ninguém. E aí, durante o ano,
de dez reuniões, faltam nove. Mas brigaram para ser. O Conselho, para
mim, é uma coisa sagrada, é uma experiência que, se a gente
consolidar, qualquer governo que vier depois pode não ter vocês,
mas, certamente, não terá condições de prescindir
do Conselho.
Estou feliz porque tem uma maior representação, também,
dos trabalhadores, estava um pouco desbalanceado. No Conselho, o Feijóo
vai aprender a vir de gravata, algumas vezes que forem necessárias.
Vocês também. O Artur já está equilibrado. Então,
eu estou feliz, gente. Eu tenho tentado passar para a sociedade brasileira
o momento que o Brasil vive. Eu tenho tentado passar esse otimismo 24 horas
por dia. Estou vendo aqui a Bolsa de Valores. Vejam como as coisas mudaram.
Para eu passar na frente da Bolsa de Valores, na campanha de 2002, era preciso
conversar com o Sérgio Roger, com o Berzoini, com os bancários,
para juntar um pouco de gente, porque o medo que eles tinham de mim era um
negócio maluco. Até que, um dia, me levaram lá. Depois
de muita labuta, eu consegui entrar na Bolsa de Valores. Hoje, a Bolsa de Valores
deve, publicamente, sempre que puder, agradecer tudo o que foi feito neste
governo para chegar à situação extraordinária em
que está hoje. Hoje, ela está parecendo uma bolsa mesmo, porque
tem volume. Não é aquela bolsa pequenininha, que parecia um enfeite.
Hoje você pode falar “Bolsa de Valores”, porque ela tem grandeza
para isso. E, também, venceu os preconceitos que tinha. Eu não
sei se as parcerias com os trabalhadores foram feitas.
Então é isso, Walfrido. Você percebeu que eu não
li o discurso que você preparou para mim. Não li, porque eu ia
repetir o que você já falou. Mas quero dizer para vocês
que estou feliz, contem comigo. Essa é a importância, Patrus,
do segundo mandato, é a leveza. Eu hoje estou, Rigotto, com 800 quilos
a menos nas costas, só de saber que em 2010 eu não tenho que
disputar nenhuma eleição. Então, eu não tenho adversário.
Hoje eu só quero amigos, eu só quero construir. É verdade, é para
isso que serve o segundo mandato. A gente aprendeu muito no primeiro. É tentar,
agora, colocar em prática no segundo as coisas que precisam ser feitas
no País. Essa é a minha disposição e quero dizer
para vocês: contem comigo e parabéns a todos vocês.