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Diário Vermelho,
17 de junho de 2007
Quadrilha de banqueiros e ONGs
movimentou 120 milhões
O sistema financeiro, sempre ultraprotegido pelo judiciário e
por governos passados, agora entrou na mira das operações
policiais. Relatórios do Conselho de Controle das Atividades Financeiras
(Coaf) repassados ao Ministério Público do Distrito Federal
nesta sexta-feira, 15, mostram que 299 pessoas ligadas direta ou indiretamente
a bancos e ONGs, especialmente de Brasília, movimentaram R$ 120
milhões. A maior parte da movimentação ocorreu entre
e julho de 2004 e maio deste ano.
A denúncia está sendo investigada pela Operação
Aquarela, que tem por objetivo pôr fim a uma quadrilha
especializada em desvio de dinheiro público. Na última
quinta-feira, foram presos o ex-presidente do Banco de Brasília
(BRB) Tarcísio Franklin Moura, e o presidente da Associação
Brasileira de Bancos Comerciais Estaduais (Asbace), Juarez
Cançado.
Ao todo, o Coaf produziu sete relatórios. Seis deles considerados
os mais importantes, pois identificaram a maior parte das transações
financeiras foram elaborados em colaboração direta com
o Ministério Público do DF, responsável pelas
investigações, junto com a Receita Federal e a Polícia
Civil de Brasília. As movimentações incluem saques,
depósitos e transferências bancárias suspeitas
e aquelas realizadas em dinheiro vivo acima de R$ 100 mil.
Conforme as investigações, o BRB firmou contratos sem
licitação com a Associação Nacional dos
Bancos Estaduais (Asbace) e duas empresas de tecnologia, que por sua
vez subcontrataram as ONGs. Embora se identificassem como ´sem
fins lucrativos´, as organizações atuariam como
entidades de fachada para lavagem de dinheiro do grupo. Os recursos
repassados às entidades, segundo as autoridades, eram desviados.
Estima-se que o BRB tenha sido lesado em R$ 50 milhões.
O rastreamento das operações financeiras permitiu às
autoridades identificar o caminho do dinheiro. A investigação
constatou que essas organizações vendiam notas fiscais
correspondentes a projetos e serviços não executados.
O valor, em seguida, seria direcionado para os beneficiários
do esquema, por meio de saques feitos com cartões corporativos
pré-pagos ao portador.
A operação também é realizada em Goiás,
São Paulo e Paraná, onde o cumprimento de mandados de
prisão também ficaram a cargo de policiais civis do DF,
que se deslocaram para esses estados. O nome da operação
está ligado à Editora Cortes, investigada pela operação. “Aquarela” é o
título do único livro publicado pela editora.
A operação feita por 50 policiais e 30 auditores, em
seis andares do BRB, apreendeu 200 mil dólares e cerca de 130
computadores e documentos. As apreensões serão analisadas
por peritos do Instituto de Criminalística e auditores da Receita
Federal.
Empresas investigadas:
Cartão BRB
Banco de Brasília
ATP Tecnologia e Produtos AS
Investimentos ATP S/A
Associação Nacional de Bancos
Fundação Asbace de Ensino e Pesquisa
Datalink Ltda
ONG Caminhar
ONG Conviver
Ê xito Comércio de Produtos Nacionais Ltda
FLS Tecnologia
Instituto Êxito
SDL Engenharia e Consultoria
Consys Systems & Consulting
Kamaoun Câmbio e Turismo Versal Artes Gráficas
EDR3 Comunicação
Capital Empreendimentos
Agentes Autônomos de Investimentos Ltda
Critério Pesquisas Consultoria e Marketing LTDA
Da redação, com agências
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Congresso em Foco, 17 de
junho de 2007
Só 7% dos acusados por colarinho
branco são punidos
Levantamento feito pelo jornal O Globo revela que são punidos
apenas 7% dos acusados por crime de colarinho branco, previstos na Lei
de Improbidade Administrativa, de 1992. A edição de hoje
(17) do periódico carioca mostra que a maioria das 14 mil ações
movidas nos últimos 15 anos sequer tiveram sentença. Os
processos contra o ex-presidente Fernando Collor, o primeiro acusado
numa ação de improbidade, arrastam-se há 14 anos.
Desde 1992, foram condeandos 1.035 agentes públicos, segundo registros
do Tribunal Superior Eleitoral. A maioria de políticos é do
interior. “A verdade é que a Lei de Improbidade não
está sendo eficaz. Num sistema judicial tão complexo, com
tantas possibilidades de recursos, a lei só condena os mais frágeis,
os pobres e os que não têm condições de constituir
defesa”, afirma o presidente da Associação Nacional
dos Membros do Ministério Público, José Carlos Cosenzo,
citado pelo jornal.
A exceção é deputado Paulo Maluf (PP-SP), ex-prefeito
de São Paulo. Ele foi condenado em 1995 a devolver R$ 68 mil mais
multa por usar dinheiro público para fazer um informativo particular.
Na semana passada, informa O Globo, o deputado recorreu ao Supremo Tribunal
Federal para não pagar a multa, ainda não calculada. Mas
os ministro negaram o pedido do ex-prefeito.
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Agência Cut, 17 de
junho de 2007
Emenda 3
Nova proposta deve ser apresentada
em 48 horas
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, após reunião realizada
na última terça-feira (12/6) com os líderes partidários
e o presidente do Senado, Renan Calheiros, anunciou que uma comissão
está trabalhando na redação de um projeto de consenso
entre o governo e a oposição para "acabar com a novela
da Emenda 3". O dispositivo foi vetado em março deste ano
pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no projeto que criou
a Super-Receita, a unificação das Receitas Federal e Previdenciária.
“ Com representantes de todos os poderes e de todas as tendências
e partidos, estará sendo redigido um texto que nas próximas 48
horas será submetido ao governo”, prometeu Mantega.
A Emenda 3 impedia auditores fiscais de definirem a natureza da relação
entre um prestador de serviço que constitui empresa de uma só pessoa
e uma empresa convencional. A emenda diz que apenas o Poder Judiciário
pode tomar decisões sobre relações de trabalho entre
as empresas e essas pessoas jurídicas prestadoras de serviços.
O ministro disse que a posição do governo será de
impedir que haja precarização das relações
de trabalho, mas ao mesmo tempo de tornar legítimas certas condições
de trabalho. O líder do governo, senador Romero Jucá (PMDB-RR),
disse acreditar na elaboração de um substitutivo satisfatório.
Para o senador José Agripino (DEM-RN), é tempo demais esperar
48 horas por uma proposta, já que o Executivo está levando
a "uma indefinição do processo" e afirmou:
“ Não aceitamos aumento de carga tributária nem que os fiscais
da Receita Federal atuem nas relações trabalhistas”.
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Gazeta do Povo, 17 de junho
de 2007
BRASIL | REFORMA
“Efeito Severino” ronda
reforma política
Baixo clero se rebela contra lista fechada e sociedade passa a desconfiar
do andamento das propostas
por ANDRÉ GONÇALVES, correspondente
Jamil Bittar/Reuters

O ex-presidente da Câmara, Severino
Cavalcanti, elegeu-se graças a insatisfação
do “baixo clero”.
Brasília – Estava tudo acertado entre os líderes
partidários: a reforma política começaria
a ser votada na Câmara dos Deputados na quarta-feira passada,
com a proposta de mudança do sistema eleitoral para as listas
fechadas, nas quais o eleitor escolhe o partido e não o
candidato. O pleito não andou e deve se arrastar até o
recesso parlamentar, na metade de julho.
O que faltou? Acertar o combinado entre os “chefes” com
o baixo clero – grupo formado pelos parlamentares sem expressão
política e partidária, que são maioria na
Casa.
Confira as principais propostas
do projeto:

Com medo de ficarem subordinados aos caciques dos partidos, eles
iniciaram uma série de rebeliões que adiaram a decisão
sobre a lista fechada para a semana que vem. Só no PT, supostamente
coeso a favor da votação, surgiram 30 rebeldes. Até no
DEM, mentor e principal defensor da proposta, apareceram descontentes.
Sem o primeiro passo, está distante a votação
de outros pontos importantes, como financiamento público
de campanha.
O filme parece reprise da eleição de Severino Cavalcanti
(PP-PE) há dois anos. Na época, o PT articulava com
os políticos graúdos a eleição do paulista
Luiz Eduardo Greenhalgh, dada como certa. Levou uma rasteira do
baixo clero, que preferiu as propostas de aumentos de salários
e regalias de Cavalcanti à soberba governista.
O conflito atual leva setores da sociedade a desconfiar do andamento
da reforma. “Não consigo enxergar um desfecho feliz”,
lamenta Alberto Machado, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil
no Paraná (OAB-PR). Nacionalmente, a Ordem discute a reforma
há mais de uma década.
Segundo ele, é clara a preocupação apenas
em situações partidárias e eleitorais – e
não em mudanças profundas no sistema político. “O
cacique do partido quer a lista para ficar mais forte e o baixo
clero não quer porque vai perder os meios que o levaram
a ser deputado. Estão pensando apenas na suas perspectivas
eleitorais.”
Substância
O presidente da Federação das Indústrias
do Estado do Paraná (Fiep), Rodrigo Rocha Loures, conta
que esperava a discussão de temas com mais “substância”. “Mas
acho que só o fato de abrir a discussão é positivo”,
afirma o empresário. Rocha Loures é um dos autores
de uma proposta levada ao presidente Luiz Inácio Lula da
Silva para que a reforma política fosse tratada por uma
assembléia constituinte revisora, fora do Congresso.
Tanto o industrial quanto o advogado são contra a lista
fechada. “Parece um desejo da população em
geral, que não quer deixar a escolha nas mãos dos
partidos”, justifica o presidente da Fiep. Esse anseio, compartilhado
pelo baixo clero, parece ter sido ouvido pelos líderes partidários.
Tanto que o presidente da Câmara convocou uma reunião
para buscar uma solução alternativa para o tema,
na próxima terça-feira. A idéia é agradar
tanto ao baixo clero quanto aos caciques – ou seja ter uma “lista
flexível”, na qual o eleitor vota no partido, mas
escolhe a ordem dos candidatos a serem eleitos. Assim, a força
continuaria dosada, não muito diferente do que ocorre hoje.
Desunião
30 deputados do PT se rebelaram contra a decisão do partido
de votar pela aprovação da lista fechada.
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Gazeta do Povo, 17 de junho
de 2007
ECONOMIA | TRIBUTOS
Agora complicou! Vem aí o
Supersimples
Novas regras deixaram ainda mais confuso o empresário, que tem
duas semanas para se adaptar
por FELIPE LAUFER
Caro empresário: nas próximas duas semanas,
procure seu contador e preste muita atenção
no que ele tem para lhe dizer. Afinal, talvez só ele
consiga dar resposta a pelo menos duas perguntas que vêm
lhe rendendo noites e noites sem dormir:
1) Como um regime tributário chamado “Supersimples”,
que pretende desburocratizar a vida de micro e pequenas empresas
no Brasil ao unificar até oito impostos num só,
conseguiu se complicar tanto a ponto de criar mais de mil
alíquotas possíveis de tributação?
2) Vale a pena aderir a esse novo modelo?
Até agora, empresários, contadores e especialistas
em tributos são unânimes em afirmar que o capítulo
em questão da nova Lei Geral das Micro e Pequenas
Empresas só é simples no apelido. No dia 1.º de
junho, o Comitê Gestor do Simples Nacional (CGSN) publicou
as resoluções com a regulamentação
da Lei, e frustrou as expectativas de quem esperava ver sanadas
suas dúvidas em relação ao novo regime.
Pelo contrário: quem já estava perdido ficou
ainda mais.
Além da confusão, a carga tributária
ficará mais pesada para algumas empresas se elas aderirem
ao Supersimples. No entanto, dada a infinidade de casos de
alíquotas possíveis no regime, não há como
se definir uma “regra geral”. Mas especialistas
no assunto já conseguem enxergar algumas tendências
da Lei Geral.
Bom ou ruim?
“Para o setor de serviços, quanto menor a relação
entre o valor da folha de pagamento dos empregados e a receita
bruta, mais pesada deve ser a tributação no
Supersimples”, conta o advogado tributarista Eduardo
Munhoz da Cunha, do escritório Katzwinkel e Advogados
Associados. Assim, para aquelas empresas que contratam funcionários
terceirizados ou sob a forma de pessoas jurídicas
(os “PJs”), aderir ao novo programa não é bom
negócio. “O regime pode representar redução
de impostos para empresas que tenham pelo menos 40% da sua
receita gasta em folha de pagamento e encargos. Na maior
parte desses casos haverá vantagem em relação à tributação
normal”, avalia o advogado Gilberto Luiz do Amaral,
presidente do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário
(IBPT).
A contadora Lucélia Lecheta, conselheira do Conselho
Regional de Contabilidade do Paraná (CRC-PR), explica
que os setores de comércio e indústria devem
ser beneficiados pelo novo regime. “Desde que, no Paraná,
se mantenha a legislação atual do ICMS, com
isenção de impostos para micro e pequenas empresas”,
completa Amaral, do IBPT. “O que ficou bem mais complicado
foi o setor de serviços”, conta a contadora
Lucélia.
Isso porque a Lei antiga proibia a participação
da maioria dos prestadores de serviços no Simples.
Agora, alguns deles foram incluídos (como academias
de ginástica, escolas de línguas, serviços
de limpeza e vigilância, webdesign, transporte municipal
e outros), mas terão de recolher a contribuição
previdenciária (INSS) em separado (veja infográfico). “O
grande charme do Simples sempre foi a possibilidade de você incluir
o INSS, porque isso causava uma redução enorme
nos custos da empresa. Agora, muitas delas que não
podiam optar pelo Simples poderão entrar no Supersimples,
mas terão de excluir a contribuição
previdenciária sobre a folha de pagamento, o que vai
tornar o regime desvantajoso”, explica o advogado Munhoz
da Cunha.
Risco de errar
“Eu sinceramente não entendo por que o governo
penaliza tanto a área que trabalha com serviços.
Por que não escalonar as alíquotas apenas pelo
faturamento? Agora você não sabe onde se encaixa
e tem medo de errar”, diz a proprietária da
academia de natação e musculação
Mobi Dick, em Curitiba, Ana Dayse Cunha Agulham. Mesmo depois
de algumas reuniões com os contadores, não
houve consenso sobre qual regime tributário adotar.
“A tendência é haver cada vez mais programas
para calcular o imposto. Se for colocar no papel, o risco
de errar é muito grande”, alerta Munhoz da Cunha.
O CRC-PR coloca à disposição na internet
(www.crcpr.org.br) um simulador para o cálculo do
imposto.
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Gazeta do Povo, 17 de junho
de 2007
PARANÁ | TRABALHO
Promessa do 1.º emprego
Só 13 pessoas são beneficiadas pelo programa do governo
federal em Curitiba
por ROGERIO WALDRIGUES GALINDO
Entenda o Programa Primeiro Emprego:
O número de pessoas que procuram emprego em Curitiba e
região é de aproximadamente 95 mil, segundo o Ipardes.
Perto da metade deste número é composta por jovens
de até 24 anos. Ou seja: contando só os meninos e
meninas desempregados, dá para encher o Couto Pereira, maior
estádio de futebol da capital. Foi para esse público
que o governo federal criou, quatro anos atrás, o programa
Primeiro Emprego. Hoje, porém, o número de beneficiados
pela iniciativa ainda não chega a encher uma van. São
13 pessoas em toda a região metropolitana.
Apenas três empresas de Curitiba mantêm atualmente
empregados do programa: uma firma de limpeza, uma farmácia
homeopática e uma produtora de fotolitos. Os empresários
que ainda apostam no convênio elogiam os funcionários,
que muitas vezes acabam sendo efetivados. Mas criticam o excesso
de burocracia do governo, falam que o pagamento do subsídio
federal nem sempre é feito de maneira correta e reclamam
da falta de formação técnica para os jovens.
Daniel Castellano/Gazeta do Povo

Adriano Pereira, primeiro beneficiado pelo 1.º Emprego no Paraná:
trabalho sem carteira assinada.
O programa funciona com um incentivo de R$ 250,00 a cada dois
meses para cada jovem de 16 a 24 anos que as empresas contratarem.
Os jovens precisam se cadastrar em agências do trabalhador
em uma fila específica de emprego. Em todo o Paraná,
há 29 mil inscritos no programa, de acordo com dados do
governo do estado. E apenas em nove municípios do estado – incluindo
a capital – alguns deles conseguiram vagas para entrar no
mercado de trabalho.
Responsabilidade
A maior contratadora de mão-de-obra pelo Primeiro Emprego
em Curitiba é a Tecnolimp, uma empresa especializada em
terceirização de mão-de-obra para serviços
de limpeza, zeladoria, copa e outras tarefas. Atualmente, são
dez empregados que vieram da fila do programa. “Contrataríamos
mais, mas não tem candidatos suficientes e nem há gente
qualificada para trabalhos mais especializados”, afirma Manoel
Ribeiro Júnior, diretor administrativo da empresa.
Ribeiro conta que o programa tem um lado muito positivo. “Decidimos
entrar porque acreditamos que é nosso papel ter responsabilidade
social, dar chance a esses jovens”, diz. “E realmente
tem bons casos. Já temos várias pessoas que passaram
pelo Primeiro Emprego e que hoje estão como funcionários
efetivos”, comenta. No entanto, isso não esconde os
problemas do programa. O diretor conta que só pode colocar à disposição
dos mais jovens vagas que exijam pouca especialização. “Quando
eu tenho uma vaga de carpinteiro ou pedreiro coloco na fila regular
de trabalhadores. Não há órgãos do
serviço público que capacitem jovens para estas funções”,
afirma.
Opção pela informalidade
O beneficiado número um da história do programa
Primeiro Emprego no Paraná está trabalhando sem carteira
assinada. Adriano Elias Pereira, de 24 anos, foi contratado em
janeiro de 2004 pela Lonatop, de Curitiba. Trabalhou lá por
dois anos e meio. “Foi um serviço fantástico”,
diz ele. Depois de algum tempo procurando, foi pelo programa oficial
que ele conseguiu trabalho com toda a documentação
e os direitos que isso garante.
O emprego deu certo. Depois dos 12 meses de subsídio do
governo, a empresa decidiu manter Pereira contratado. E ele recebeu
seu salário normalmente até metade de 2006. Porém,
na metade do ano passado, Pereira decidiu que queria tentar algo
diferente. E saiu do trabalho para tentar ganhar a vida por conta
própria.
“Sempre gostei de arte, quis desenvolver algo nessa área”,
conta ele. Pereira hoje trabalha com letreiros e cartazes, que
faz em casa. Não tem mais carteira assinada e não
tem nenhum direito garantido. Mas acha que está bem assim. “A
experiência foi ótima, mas sempre quis trabalhar por
conta própria”, diz ele.
Feliz com a escolha que fez, Pereira só acha que deveria
haver melhores condições para quem trabalha como
autônomo. (RWG) Ribeiro não está sozinho em
suas críticas. Índio Correa, sócio da rede
de farmácias Ao Homeopata, conta que já fez vários
contratos pelo Primeiro Emprego. Atualmente, tem duas funcionárias
do programa em suas lojas. “Mas há problemas de burocracia
e de mau gerenciamento”, diz ele. Um caso vivido pelo empresário
mostra o tipo de problema enfrentado pelos parceiros do governo
no programa.
“Colocamos uma vaga à disposição. A
candidata veio e foi contratada”, conta. “Quando chegou
a hora de o governo pagar o subsídio, nada. Ligamos para
cobrar e fomos informados de que não tínhamos direito”,
lembra Corrêa. É que a funcionária havia sido
enviada para entrevista à beira de completar 24 anos, idade
limite para o programa. Assim que foi contratada, estourou o limite
e o governo excluiu a moça da lista de beneficiários. “Não
ia demitir a menina, que estava indo bem, mas tive que arcar com
o custo todo”, afirma.
Chance
Apesar das limitações, para os poucos beneficiados
o programa continua sendo uma boa chance de começar em um
trabalho já com a carteira assinada e com os direitos garantidos. “Antes
eu fazia bicos. Mas ter carteira assinada é bem melhor”,
diz Adalto von Wieding Lopes, de 21 anos. Ele foi contratado pela
Swimmer, uma empresa que vende piscinas. “Ele começou
como boy e agora já foi promovido para o almoxarifado”,
conta Gislene Castelhano, diretora da empresa. Embora concorde
que o programa tem problemas – até agora ela diz não
ter recebido uma das parcelas do subsídio do governo –,
Gislene acha que o programa é bom. “Para nós,
funcionou.”
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O Estado do Paraná,
17 de junho de 2007
Direito e Justiça
O novo projeto de reforma
política
Redação O
Estado do Paraná
Ana Claudia Santano
Um assunto que já tardou a ser discutido voltou à pauta
da Câmara dos Deputados na última quarta-feira
(13/06/07). Trata-se do projeto de lei n.º 1210/2007,
de autoria do deputado Regis de Oliveira (PSC-SP) referente à reforma
política, fruto de um acordo dos líderes
partidários. Embora a votação tenha
sido adiada devido à falta de consenso com relação
aos aspectos envolvendo o voto em lista fechada, já é de
grande valia tal assunto ter voltado a ser discutido pelos
parlamentares.
O projeto aborda questões extremamente delicadas,
e promete modificar radicalmente a rotina eleitoral do
país. Pontos como o voto em listas fechadas, atenuação
da cláusula de barreira, financiamento público
puro de campanhas eleitorais, dentre outros, poderão
ser adotados no sistema eleitoral brasileiro.
Ao analisar o projeto de lei que está sendo submetido à votação,
verifica-se que há alguns detalhes do texto, os
quais ocultam possíveis conseqüências
da aplicação dessas novas medidas. Vejamos
o que poderá ser modificado.
1) Voto em lista fechada
A primeira modificação sugerida pelo projeto
de lei é a elaboração de listas pelos
partidos políticos para as eleições
proporcionais. Tais listas serão compostas por candidatos
escolhidos através de votação na convenção
partidária a ser realizada antes do pleito. A ordem
dos candidatos na lista será de acordo com o número
de votos obtido por cada um deles.
A instituição de listas fechadas para as
eleições proporcionais está intimamente
ligada à adoção do financiamento público
de campanhas. Porém, há diversos aspectos
que não estão abordados no projeto de lei
e que poderão ter efeitos nefastos no momento de
sua aplicação.
Um desses aspectos é que não há disposição
no projeto de lei acerca da divulgação das
listas pelos partidos para o eleitorado, ou seja, o eleitor
deverá obrigatoriamente comparecer às urnas
e votar na legenda do partido, mas não terá conhecimento
sobre os candidatos que compõem a lista do partido
em que está votando. Essa omissão impede
a fiscalização sobre a legitimidade da elaboração
da referida lista, bem como deixa com que a cúpula
partidária possa agir da forma como bem pretender
no momento de outorgar a sua respectiva quota de cadeiras
parlamentares aos componentes das listas, possibilitando,
inclusive, que se burle a ordem estabelecida na lista.
A questão torna-se ainda mais controversa se for
analisada a medida contida no referido projeto de lei,
que prevê que os atuais parlamentares, ao noticiarem
aos seus respectivos partidos políticos a sua intenção
de se candidatar novamente ao cargo que ocupam, já comporão
a lista de candidatos, independentemente de votação
dos filiados na convenção partidária,
salvo deliberação do partido em contrário.
Sinceramente, não acredita-se que haverá algum
partido que decida por não aplicar a regra, justamente
para manter a cúpula partidária intacta.
Tal ponto merece ampla discussão, a fim de coibir
a “ditadura” dos caciques dentro dos partidos,
bem como tornar o processo de elaboração
das listas algo transparente para o eleitorado, principal
destinatário da medida.
Sobre o tema, esclarece-se que não se trata da
adoção da democracia indireta. Não
há colégios eleitorais, portanto, o voto
não é indireto. Entretanto, o eleitor perderá o
direito de saber em quem efetivamente atribuiu o seu voto,
escolhendo apenas o partido. Sabe-se que tal medida fortalecerá as
agremiações partidárias, e que talvez
isso possa ser muito benéfico para o sistema político,
pois mobilizará candidatos e filiados a se dedicarem
mais ao partido e a deixarem de lado interesses individuais.
Todavia, não se pode privilegiar o fortalecimento
das legendas em detrimento do direito ao sufrágio
do eleitor, assegurado constitucionalmente.
Assim, a questão merece ser melhor abordada no
texto legal, para que não cause mais transtornos
além dos já existentes no sistema atual.
2) Federação de partidos
e cláusula de barreira
Outra novidade trazida pelo projeto de lei é a
instituição de federação de
partidos, face a proibição de coligações
nas eleições proporcionais. Contudo, novamente
o texto legal possui vácuos perigosos, os quais
deveriam ser preenchidos antes da modificação
das regras atuais.
A federação de partidos possui praticamente
o mesmo papel que as coligações, ou seja,
fortalece os partidos pequenos, tornando-os “competitivos” perante
os partidos de maior expressão. Porém, os
partidos que constituírem uma federação
deverão permanecer como tal pelo prazo de 3 (três)
anos, no mínimo, o que não ocorre na coligação,
que freqüentemente se dilui logo após as eleições.
Mas essa é a única diferença aparente
na medida. Na verdade, serão aplicadas nas eleições
proporcionais a federação de partidos, mas
nas eleições majoritárias as coligações
permanecem permitidas. Trata-se de um equívoco,
pois não há qualquer menção
no projeto de lei sobre a obrigatoriedade de obediência
da federação de partidos no momento da coligação
para as eleições majoritárias. Assim,
permite-se que um partido constitua uma federação
para as eleições proporcionais com determinadas
legendas, e se coligue com outros partidos diversos nas
eleições majoritárias.
Assim, no fundo a medida proposta não modificará em
nada o cenário atual, uma vez que a verticalização
das coligações encontra-se extinta com a
Emenda Constitucional n.º 52, e não a ressuscitaram
na reforma política, o que é uma pena.
Ainda, a tão polêmica cláusula de
barreira volta a ser abordada no projeto de lei posto em
votação. Devido à declaração
da sua inconstitucionalidade pelo Supremo Tribunal Federal
ao final de 2006, o qual utilizou como principal argumento
para tal a ausência de razoabilidade na cláusula,
ela foi adaptada, certamente com os dados trazidos pelas
eleições de 2006. Verifica-se, assim, que
partidos de pequena expressão não terão
grandes dificuldade em ultrapassá-la, ainda mais
se utilizarem do mecanismo da federação de
partidos.
3) Financiamento público de campanhas
eleitorais
Uma dos pontos mais delicados do projeto de lei é,
sem dúvida, o financiamento público puro
de campanhas. Sabe-se que uma campanha eleitoral custa,
e muito. Mas a conta foi transferida para os contribuintes,
sendo que cada contribuinte eleitor pagará R$ 7,00
(sete reais) por pleito.
A divisão destes recursos não são
exatamente iguais, pois os critérios consideram
o número de partidos registrados no TSE, o número
de partidos com representação na Câmara
dos Deputados, bem como o número de representantes
que cada partido possui na Câmara. É certo
que esta aritmética criada trará desigualdades
no momento da divisão dos recursos, beneficiando
os grandes partidos e, por uma via diversa, ocultando os
partidos de pequena expressão. Entretanto, dividir
os recursos por igual entre todos os partidos também
seria desarrazoado.
O projeto de lei também dispõe que a utilização
para o financiamento de campanhas do fundo partidário
e de recursos doados por particulares, tanto pessoas físicas
quanto pessoas jurídicas, estão expressamente
vedadas. Caso seja constatado que alguma pessoa jurídica
colaborou em campanhas, esta poderá ser impedida
de participar de licitações durante o prazo
de 5 (cinco) anos, de acordo com a determinação
da justiça eleitoral.
São, sem dúvida, boas medidas para a coibição
da corrupção que se alastrou pelo país
nas duas últimas legislaturas. Todavia, a eficácia
destas medidas poderá ser seriamente comprometida
devido à disposição constante no projeto
de lei, de que é de exclusiva responsabilidade dos
partidos políticos pela administração
dos recursos para o financiamento de campanhas, bem como
a necessidade de comprovação perante a justiça
eleitoral da responsabilidade do partido ou candidato,
em casos de suspeita de abuso do poder econômico.
É cediço que a justiça eleitoral é extremamente
tolerante com casos envolvendo abuso do poder econômico.
Transferir ao partido a gestão dos recursos, deixando
a eles somente a obrigatoriedade da prestação
de contas dos gastos efetivados permite claramente a manipulação
de valores de despesas, bem como a ocultação
da existência de recursos recebidos de particulares.
Ou seja, é provável que tais medidas não
consigam impedir totalmente o trânsito de recursos
particulares nas campanhas eleitorais, permanecendo a possibilidade
de obtenção de vantagens por meios ilícitos,
como ocorre atualmente.
4) Pesquisas eleitorais e showmícios
Outro assunto abordado no projeto é com relação às
pesquisas eleitorais, o seu uso pela mídia e a volta
dos showmícios. As pesquisas eleitorais deverão
ser cadastradas na justiça eleitoral pelas empresas
que as elaborarem até 48 (quarenta e oito) horas
após a sua divulgação, detalhando
dados envolvendo a consulta, como percentual de homens
e mulheres que foram consultados, amostra utilizada por
Estado, em caso de pesquisas nacionais, dentre outras informações.
Ainda, nas eleições de 2006, os showmícios
foram proibidos pela lei n.º 11.300/2006, na tentativa
de diminuir os custos das campanhas eleitorais. Porém,
a tentativa foi em vão, uma vez que nunca se gastou
tanto no financiamento de campanhas. Os showmícios
deverão ser contabilizados a preço de mercado,
mesmo que o artista se apresente de graça. Deverá,
desta forma, haver prestação de contas do
evento, como despesa de campanha.
5) Fidelidade partidária
Por fim, o projeto de lei traz um “ensaio” sobre
disposições acerca da fidelidade partidária.
Porém, não enfrenta a questão de modo
devido, uma vez que prevê apenas a colocação
dos candidatos que mudaram de partido ao final da lista
do seu atual partido. Não há dúvida
que esta medida desmotiva a troca de partidos, já que
haverá a ameaça de não eleição
do candidato que migrou para outra agremiação.
Todavia, é conveniente pensar em outras formas de
coibir o troca-troca partidário, já que o
próprio Supremo Tribunal Federal já demonstrou
concordar com a perda do mandato do parlamentar tido como
infiel ao partido que se elegeu. Ainda, não há outras
disposições acerca deste assunto, que certamente é um
dos mais importantes que estão sendo abordados no
projeto de lei.
Desta forma, procurou-se expor algumas premissas acerca
da tardia, porém ainda tão necessária
reforma política. De fato, o projeto de lei ora
discutido na Câmara dos Deputados significa um avanço,
uma vez que se trata de um tema muito polêmico. Entretanto,
devido ao atual cenário político nacional,
será que um pouco mais de ousadia e reflexão
não cairia bem?
Ana Claudia Santano é formada
em Direito pelo UnicenP-Centro Universitário Positivo,
especialista em Direito Aplicado pela Escola da Magistratura
do Paraná e pós-graduanda em Direito Constitucional
pela Academia Brasileira de Direito Constitucional ABDConst.
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Folha de São Paulo,
17 de junho de 2007
1973
O ano em que o Brasil cresceu
14%
Delfim Netto rechaça
tese de que ditadura ajudou a elevar crescimento e diz que
despertou "espírito animal" dos empresários
No auge do regime militar, país bateu recorde de crescimento após
reformas
PEDRO SOARES
DA SUCURSAL DO RIO
A moda era a calça boca-de-sino. A musa, Darlene
Glória. O ídolo esportivo, Emerson Fittipaldi.
Na vitrola, rodavam os Secos & Molhados. O ano era
1973, talvez o de maior repressão do regime militar,
sob o governo Médici. E, enquanto isso, o país
crescia a uma taxa recorde de 14%, no último ano
do chamado "milagre econômico". Mas o que
levou o PIB do Brasil a crescer a taxas maiores que as
da China? A resposta, dizem especialistas, vai desde uma
conjuntura mundial favorável, que permitiu o aumento
do investimento via endividamento externo, até reformas
estruturais introduzidas no governo Castello Branco.
Planejamento econômico, promoção e
estímulo (às vezes, subsídios) às
exportações, programas de desenvolvimento
do parque industrial a fim de substituir importações,
ganhos de produtividade do setor privado e uma política
fiscal mais austera eram outros fatores que impulsionaram
o crescimento e que estão na pauta do dia hoje. "Não
houve milagre. Os governos é que trabalhavam mais,
por isso o país crescia muito mais. O mundo também
estava em expansão, e tínhamos feito as reformas
fundamentais. Tínhamos, na verdade, produzido uma
Constituição bastante adequada do ponto de
vista econômico. E, na verdade, despertamos o espírito
animal dos empresários, que tinham um tratamento
benigno do governo", diz o economista Delfim Netto,
ministro da Fazenda no período, parafraseando o
atual ministro, Guido Mantega, que também quer estimular
o espírito animal do empresariado.
De 1964 a 1965, reformou-se o setor público (é desse
período a regra segundo a qual não se pode
criar gasto sem contrapartida na receita), criou-se um
regime tributário com a eliminação
de impostos em cascata e houve revisão da legislação
trabalhista. O sistema financeiro foi reorganizado, originando
o mercado de capitais. Resultado: a poupança financeira
foi de 3,6% para 13,6% do PIB entre 1971 e 1972. Para João
Paulo dos Reis Velloso, ministro do Planejamento em 1973,
as reformas foram fundamentais para preparar o país
para o crescimento médio de 11,1% no período
do "milagre" -de 1968 a 1973. Delfim cita ainda
a menor carga tributária: "Era menor que 20%.
Hoje, é de 38% do PIB".
Reis Velloso ressalta que havia maior capacidade de planejamento,
o que levou ao crescimento econômico no período
de 1950 a 1980. Ele reconhece, no entanto, que o controle
do Congresso e o regime ditatorial facilitaram a aprovação
de reformas e medidas. "O país tinha, digamos,
condições de laboratório na economia
para fomentar o crescimento", avalia Fabio Giambiagi,
economista do Ipea.
Para Jaques Kerstenetzky, professor de história
econômica da UFRJ, a ausência de democracia
facilitou o trabalho: "Era mais fácil escolher
e decidir o que fazer, quais projetos tocar". Delfim
discorda: "O desenvolvimento não depende do
regime, se é democrático ou autoritário.
Os democráticos até tendem a crescer mais.
Isso está na teoria econômica". Na ânsia
de crescer, os governos da época recorreram ao endividamento
externo. "O país se endividou num momento de
crédito abundante e juros baixos sem olhar para
a possibilidade de a situação mudar. Daí,
surgiu a dificuldade dos anos 80", diz Kerstenetzky.
Aos críticos, Delfim reage: "O país
não se endividou coisa nenhuma. As pessoas não
conseguem ler uma estatística. Em 1974, o país
tinha uma dívida de US$ 12 bilhões, a relação
dívida/exportações era mais do que
virtuosa. As coisas pioraram depois, com a crise do petróleo".
E foi justamente a crise do petróleo, a primeira
de 1973, que enterrou o "milagre". Na fase pós-milagre,
o endividamento, antes usado para investir, converteu-se
em dívida para consumir -bancar as importações
de petróleo. Nem bem a economia mundial se recuperou
e, em 1979, um novo choque do petróleo tornou a
situação insustentável.
"Geisel, que assumiu em 1974, cometeu um erro ao
promover um plano muito ousado e desproporcional de investimento
público", diz Delfim. Acertou, porém,
ao manter o déficit alto e não cortar o consumo
de petróleo, diz. "Geisel tinha de decidir:
ou parava o Brasil ou endividava o país. O mundo
inteiro achava que a crise [do petróleo] passaria
depressa. A escolha foi correta. Se fizesse racionamento,
como queria a oposição, o Brasil seria hoje
um Bangladesh." Reis Velloso lembra que o então
ministro Mário Henrique Simonsen sugeriu ao general
João Baptista Figueiredo, ainda em 1979, conter
o consumo e o crescimento para impedir a crise da dívida
que se avizinhava. O presidente não aceitou, e a
economia entrou em colapso.
O Brasil decretou moratória no governo Sarney,
conviveu com a hiperinflação -solucionada
com o Plano Real, mas que também não dinamizou
o crescimento. Nos "anos perdidos" de 80, 90
e na primeira metade dos 2000, o crescimento médio
ficou em 2,2%. A julgar pelo primeiro trimestre do ano,
o PIB se acelera: cresceu 4,3% ante 2006. Muito longe do "milagre",
mas melhor do que a média recente.
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Folha de São Paulo,
17 de junho de 2007
CARGA PESADA
Brasileiro culpa jornada de trabalho por desequilíbrio na vida
pessoal
22% dos trabalhadores
têm jornada excessiva, diz OIT
Renato Stockler/Folha Imagem

O empresário Rodrigo Pimenta, que diz controlar horários
dos funcionários
ANDRESSA ROVANI
DA REPORTAGEM LOCAL
Trabalhar mais do que gostaria é reclamação
recorrente no ambiente corporativo. O que antes era percepção,
no entanto, já pode ser mensurado: 1 em cada 5 pessoas
tem jornadas laborais excessivas -22% dos profissionais
dedicam mais de 48 horas semanais ao trabalho. No mundo
todo, esses trabalhadores somam 614 milhões de pessoas,
segundo aponta um estudo global elaborado pela OIT (Organização
Internacional do Trabalho), que analisou 50 países
em desenvolvimento ou em transição.
Muitas vezes, aponta o relatório, o excesso de
horas trabalhadas está ligado às condições
de informalidade nas relações de emprego,
situação que atinge metade de toda a população
ocupada nos países em desenvolvimento. No Brasil,
segundo outro levantamento mundial, este feito pelo instituto
de pesquisa Market Analysis, a carga horária de
trabalho é empecilho para que 66% dos trabalhadores
mantenham equilibrada a relação entre vida
profissional e pessoal.
O estudo radiografou, no fim de 2006, a satisfação
de 13 mil pessoas em relação ao emprego.
No ranking dos mais contentes, porém, o Brasil surpreende:
92% dos respondentes se dizem satisfeitos com o equilíbrio
entre as duas esferas. A consultora Mariá Giuliese,
da Lens & Minarelli, diz que o cenário real é menos
positivo. Para ela, cresce o número de profissionais
que, por não conseguirem estabelecer um equilíbrio
entre o escritório e a casa, sucumbem ao sofrimento. "Hoje,
o mundo corporativo gera muito sofrimento pela expectativa
que alimenta e não consegue atender", aponta.
Longe do céu
Folgas, longos almoços ou hora fixa para deixar
o escritório não fazem parte do cotidiano
de Mauricio Catelli, 40, sócio-diretor da CAS Tecnologia.
Ainda assim, ele se diz satisfeito com o tempo dedicado
ao trabalho, mesmo que o número de horas diárias
no escritório avance a casa dos dois dígitos.
Para "refrescar", conta, ele voa, diariamente,
cerca de uma hora -algo como ir de São Paulo ao
Rio de Janeiro. Há um ano, Catelli comprou um simulador
de Boeing 737-700, de onde "pilota", e o instalou
no quarto em que, por coincidência, antes ficava
seu escritório. "Assim consigo "desligar"."
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Folha de São Paulo,
17 de junho de 2007
CARGA PESADA
Motivações externas como filhos ou doenças podem
inspirar mudanças
Atingir equilíbrio
depende de organização no trabalho
DA REPORTAGEM LOCAL
Eleita entre os cinco funcionários que melhor gerenciam
seu próprio bem-estar, Stella de Almeida, analista
de RH da Medial Saúde, diz que é a rigidez
no controle dos horários de trabalho que a permite
cuidar com equilíbrio da saúde, do trabalho
e das filhas pequenas. Aos 31 anos, a analista conta que
otimizar o tempo no escritório a libera para sair
pontualmente às 17 horas todos os dias, sem deixar
trabalho para trás.
"Os colegas até brincam, dizendo: "Deu
5 horas, Stella!"." E explica: "Há gente
que sai muito tarde do trabalho e nunca tem tempo para
nada. Quero buscar minhas filhas na escola, levá-las
ao médico, brincar". Como para Almeida, boa
parte dos brasileiros diz que a solução para
ter mais qualidade de vida está, em primeiro lugar,
em otimizar as ferramentas de trabalho, item eleito por
85% dos profissionais consultados pela Market Analysis.
O segundo ponto mais citado pelos profissionais brasileiros
consultados foi a tentativa de permanecer mais tempo com
a família e com os amigos, opção escolhida
por 70% deles. Não atingir um equilíbrio
entre casa e escritório, no entanto, não
significa que não haja qualidade de vida. Para a
consultora Mariá Giuliese, da Lens & Minarelli,
o desequilíbrio é inerente ao trabalho. E
mais: não deve ser visto negativamente, e sim com
cuidado. "O equilíbrio é algo conseguido
momentaneamente. Todo movimento, natural no trabalho, gera
desequilíbrio. É preciso competência
para lidar com ele", indica Giuliese.
Mudança
Foi esse desequilíbrio que fez a vida de Sérgio
Padovan mudar. Depois de trabalhar por 20 anos na área
de informática, chegando a ocupar o cargo de diretor
de marketing de uma grande consultoria, ele abandonou a área
técnica e partiu para um campo pouco convencional
para um executivo.
A notícia de que estava com uma síndrome
grave, que poderia evoluir para um quadro cancerígeno,
foi o impulso para a mudança. "Há dez
anos, eu me transformei em tarólogo e terapeuta
metafísico", conta. "Alcancei um sucesso
respeitável, além de uma qualidade de vida
incomparável", emenda ele, que adotou o nome
de Ahran.
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Folha de São Paulo,
17 de junho de 2007
Firma limita horário
e uso da internet
DA REPORTAGEM LOCAL
Em uma empresa que fabrica relógios de ponto, responsáveis
pelo controle de acesso de funcionários, os próprios
trabalhadores sofriam com rotinas pouco produtivas. Há cinco
anos, focada na melhoria da produtividade de seus empregados,
a empresa decidiu bloquear o uso de programas de mensagens
instantâneas e determinou que assuntos pessoais deveriam
ser tratados fora do horário de expediente.
"Temos de dar o exemplo", destaca o diretor-executivo
Rodrigo Pimenta, 28. Hoje, as luzes do escritório
se apagam às 19 horas. Segundo Pimenta, algumas
pessoas chegavam a perder 30% do seu dia com distrações
na internet. "Foi um processo de reflexão.
Quando o funcionário está aqui, deve estar
dedicado ao trabalho."
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