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Congresso em Foco, 26 de agosto de 2007
Quatro novas CPIs prometem esquentar
o Congresso
O sistema carcerário, o caso da
TVA, os possíveis grampos no Supremo Tribunal e as ONGs
são os temas a serem investigados em CPIs já criadas
ou na iminência de instalação.
Tá dominado
Além do julgamento no STF e da crise aérea, quatro novas
CPIs prometem esquentar a temperatura política nesta semana
Lúcio Lambranho
Primeiro enredo: crise na segurança pública com potencial
para gerar estragos na imagem do governador de Minas Gerais, Aécio
Neves (PSDB), tanto – segundo alguns – quanto o massacre
do Carandiru trouxe à biografia do ex-governador paulista
Fleury Filho. Segundo enredo: o contra-ataque do presidente do Congresso,
Renan Calheiros (PMDB-AL), à revista Veja, mirando na venda à Telefônica
da TVA, empresa de TV por assinatura do grupo Abril. Terceiro: investigação
sobre supostos grampos telefônicos nos gabinetes dos ministros
do Supremo Tribunal Federal (STF). Quarto: uma há muito prometida,
mas jamais realizada, devassa nos repasses federais para organizações
não-governamentais (ONGs).
Os quatro explosivos temas deverão elevar a temperatura política
nos próximos dias, quando três outros assuntos de impacto
permanecerão ecoando em Brasília: o prosseguimento
da primeira fase do julgamento da denúncia do mensalão
no STF; os trabalhos das CPIs da crise aérea da Câmara
e do Senado; e os desdobramentos do processo que pode levar Renan à cassação
(uma das CPIs que se anunciam é, aliás, uma decorrência
desse episódio).
No caso das ONGs, a CPI será criada pelo Senado para apurar
os repasses federais para essas entidades. Os governistas conseguiram,
só na semana passada, adiar por duas vezes a instalação
da comissão. A CPI do Sistema Carcerário, instalada
na última quarta-feira (22) pela Câmara dos Deputados,
já começou a trabalhar, tendo como preocupação
prioritária a recente morte de 25 presos na cadeia pública
de Ponte Nova (MG). Mesmo considerando que o setor tem problemas
semelhantes em todo o país, o caso parece ter acionado o sinal
de alerta no governador mineiro e sua bancada no Congresso.
Um dos integrantes da comissão disse ao Congresso em Foco
que Aécio já conversou pessoalmente com todos os deputados
da CPI. Argumenta que o problema é localizado e de fácil
apuração, mas demonstra nas conversas uma preocupação
evidente sobre possíveis estilhaços na sua imagem e
suas possibilidades de candidatura à Presidência da
República em 2010. De acordo com esse mesmo parlamentar, o
governador tucano teme criar contra si uma marca difícil de
apagar. As outras duas CPIs, ambas propostas na Câmara, dispõem
de número legal para funcionar, mas ainda não foram
instaladas.
Renan X Abril
A briga entre o presidente do Congresso e a revista Veja ganha novos
contornos políticos. Renan colocou seus aliados em campo na
Câmara e conseguiu assinaturas suficientes para abrir uma CPI
destinada a investigar a venda da TVA, do grupo Abril, que edita
a Veja.
Numa rápida articulação, o deputado Wladimir
Costa (PMDB-PA), próximo a Renan e ao ex-presidente do Congresso
e atual deputado federal Jader Barbalho (PMDB-PA), protocolou na
Câmara requerimento para abertura de CPI com 182 assinaturas,
11 a mais que as 171 exigidas. A Secretaria Geral da Mesa analisará se
foram preenchidos todos os pré-requisitos constitucionais
e regimentais para a abertura de mais uma comissão parlamentar
de inquérito.
O PT foi o partido que mais contribuiu com assinaturas, 59 no total,
segundo o jornal Folha de S.Paulo. Ao mesmo tempo, um parlamentar
do PT, o senador João Pedro (AM) promete entregar até a
final desta semana seu relatório sobre o caso Schincariol.
João Pedro aguarda uma resposta do próprio Renan para "formar
um juízo" sobre o caso, junto com o presidente do Conselho
de Ética do Senado, Leomar Quintanilha (PMDB-TO).
A Editora Abril reagiu divulgando texto em que afirma: “É uma
tentativa espúria de alguns poucos, dentro e fora do Parlamento,
para manipular a Câmara dos Deputados de modo a atingir a Abril
pelos fatos que Veja tem revelado sobre o senador Renan Calheiros”.
Em matéria sobre a criação da nova comissão,
na edição desta semana, Veja diz que "o negócio,
aprovado pela Agência Nacional de Telecomunicações
(Anatel) depois de minuciosa análise, não fere a lei
e é igual a outros fechados recentemente no país".
Grampos no STF
Uma reportagem da revista Veja pode dar origem a outra CPI, a dos
grampos telefônicos no STF. O deputado Marcelo Itagiba (PMDB-RJ)
conseguiu 191 assinaturas para criar a comissão na Câmara. "Quando
a mais alta corte do país se sente ameaçada e intimidada,
isso é uma coisa muita séria, que precisa de uma resposta
urgente", diz o deputado.
Além de tratar dos supostos grampos, a comissão poderia
discutir a adoção de nova legislação
sobre a nomeação dos ministros do STF. O assunto também
despertou o interesse de uma comissão permanente da Câmara,
a Comissão de Segurança Pública e Combate ao
Crime Organizado. Ela decidiu convidar ministros do Supremo a prestarem
depoimento para confirmar se de fato se vêem como possíveis
vítimas de escutas clandestinas.
Segundo Veja, três ministros confirmaram os grampos e os atribuem à “banda
podre da Polícia Federal”. A comissão aprovou
requerimento do deputado Raul Jungmann (PPS-PE), propondo que o convite
para depor seja feito aos ministros Marco Aurélio Mello, Gilmar
Mendes, Carlos Ayres Brito, Celso de Melo e ao ex-ministro Sepúlveda
Pertence (que se aposentou este mês).
Jungmann, também membro da CPI do Sistema Carcerário,
não vê com bons olhos, porém, a proliferação
de CPIs: "Há uma politização das CPIs,
não há dúvida. Isso tende a enfraquecer o Legislativo
e transforma o Congresso em delegacia de polícia", acredita
ele. Segundo o deputado, governo e oposição brigam
pelo fato novo nas CPIs, já que as "boas novas" têm
ficado restritas à aprovação em grande número,
no Congresso, de medidas provisórias (MPs).
Sistema carcerário
No próximo dia 1º de outubro, completará 15 anos
um episódio de triste memória: a briga de presos no
Pavilhão 9, do presídio de Carandiru, em São
Paulo, que resultou em intervenção policial e execução
de 111 detentos.
No caso das mortes ocorridas agora em Ponte Nova (MG), não
há dúvidas, também, de que ocorreu uma briga
entre presos. O que não se sabe ainda determinar é a
responsabilidade das autoridades pelo desfecho do conflito.
A CPI da Câmara e o próprio governo mineiro apuram
a suspeita de que policiais tenham facilitado a ocorrência
de uma chacina e, ainda, se foi usado combustível no incêndio
das celas. Ontem (25), os deputados da CPI do Sistema Carcerário
estiveram em Belo Horizonte para ouvir os legistas responsáveis
pelo trabalho de investigação sobre o incêndio
na cadeia de Ponte Nova.
O presidente da comissão, deputado Neucimar Fraga (PR-ES),
afirmou que agentes penitenciários e delegados já ouvidos
omitiram a informação de que dois presos encontrados
amarrados foram soltos antes do motim e conseguiram se salvar. Esses
detentos, segundo Neucimar, foram transferidos para Juiz de Fora
e ainda serão interrogados.
ONGs
Em outra trincheira política, governo e oposição
medem forças no Senado em torno da CPI das ONGs. A oposição
foi capaz de criá-la no papel, mas não de garantir
sua instalação. Enquanto não entra de fato na
rotina dos senadores, a comissão ainda é atropelada
pela disputa entre DEM e PSDB na Câmara pela liderança
da minoria da Casa.
O conflito provocou racha nas bancadas de oposição
no Senado. Como mostrou o Congresso em Foco na semana passada, o
DEM exige a preferência da presidência ou da relatoria
da comissão. Entretanto, os tucanos indicaram o nome da senadora
Lúcia Vânia (GO) para o cargo de presidente da futura
comissão.
No Senado, o DEM quer a preferência do cargo por ter sido o partido
do primeiro signatário do pedido de criação da
CPI, senador Heráclito Fortes (PI). Mas, na Câmara, o
Democratas quer tomar o lugar do PSDB na liderança da minoria,
antes ocupada pelo deputado tucano Júlio Redecker (RS), falecido
no mês passado.
Do outro lado, lideranças do PT e PMDB no Senado mantinham impasse
pelos cargos de presidente e relator da CPI das ONGs. O Tribunal de
Contas da União (TCU) tem aplicado punições pesadas
contra ONGs em atuação no Brasil. “Não sei
por que tanta demora na instalação dessa CPI”,
reclamou o senador Mário Couto (PSDB-PA) no plenário
da Casa na última semana. “Por que esse medo? Aqueles
que erraram devem ser punidos”, provocou o tucano.
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Gazeta do Povo, 26 de agosto de 2007
BRASIL | GEOGRAFIA
Brasil pode ganhar a Região
Noroeste
Nova macrorregião seria
composta por Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima
São Paulo – A divisão do país em cinco
grandes regiões – Norte, Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste –,
em vigor há 38 anos, está defasada e já não
funciona como instrumento eficaz de gestão de políticas
públicas. Esse é o diagnóstico de um estudo
do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), que
propõe a reformulação da parte norte do território
brasileiro, encravando ali uma terceira região, a Noroeste.
É a primeira vez que uma proposta de revisão das macrorregiões é apresentada
desde 1969, quando foi instituído o atual modelo pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O trabalho será debatido
no próximo mês no Encontro Anual da Associação
Nacional de Pós-Graduação em Geografia, em Niterói,
Rio de Janeiro.
O estudo “As regiões brasileiras pós-Tocantins:
ensaio para um novo arranjo” defende a divisão da Região
Norte em duas partes. De um lado, sob a liderança do Amazonas,
ficariam Acre, Rondônia e Roraima, que formariam o Noroeste.
No outro extremo, surgiria uma nova Região Norte, composta
por Pará, Amapá, Tocantins e o vizinho Maranhão,
hoje um dos nove estados nordestinos.
Ao sugerir essas mudanças, o autor do estudo, José Donizete
Cazzolato, usou como critério os vínculos sociais e
econômicos dos estados. “A estrutura urbana da Região
Norte, como está hoje, opera em nítida dicotomia. Há o
pólo de Manaus, que interage mais intensamente com Acre e
Roraima. Do outro, o pólo de Belém e Palmas. Embora
na mesma região, os dois pólos quase não interagem”,
explica Cazzolato.
No Maranhão, ele destaca, o maior parceiro está do
outro lado da fronteira do Nordeste. “Se as relações
do Maranhão, Tocantins e Pará acontecem mais intensamente
com a parte de fora do que a de dentro (das regiões), por
que não mexer nisso?”, questiona o pesquisador.
Geógrafo, Cazzolato busca nos discursos usados em 1969 para
a criação do Sudeste os argumentos para defender a
união de Tocantins, Pará, Amapá e Maranhão
num mesmo grupo. “O surgimento do Sudeste inaugurou uma nova
visão para a divisão regional do país. Mostrou
que ela estaria relacionada mais a critérios geoeconômicos,
como relação de negócios, fluxos de material
e circulação de pessoas, do que aos geofísicos”,
afirma o pesquisador. “Quando da criação das
atuais regiões, Tocantins, Pará e Maranhão eram
uma espécie de periferia de suas regiões. Hoje há nessa área
um vetor de crescimento forte que tem tudo para ser um novo nódulo
regional.”
O governo do Tocantins confirma o novo perfil do estado. “De
fato, nossas relações econômicas, sociais e políticas
são maiores com o Pará e o sul do Maranhão”,
afirma o diretor de Planejamento do Estado, Raimundo Casé.
Ele viu com bons olhos a proposta, sobretudo no viés político. “Isso
poderia ajudar na articulação de uma bancada na Câmara
que defenda os interesses da nossa região.”
O Maranhão, que enfrenta um movimento interno de divisão
do estado, não quis comentar o estudo.
Diferentemente da criação de estados, a mudança
nas macrorregiões tem um custo pequeno aos cofres públicos.
Os gastos são basicamente com a atualização
do material didático escolar distribuído gratuitamente
pelo governo federal. O estudo no entanto, não entrou nessa
questão.
Estamos hoje na terceira versão oficial da divisão
regional do território brasileiro. A primeira ocorreu em 1942
e durou apenas três anos. Depois de 1945, a nova atualização
foi em 1969, que vigora até hoje.
Trâmite - Mudança
no arranjo regional depende de aprovação
no Congresso
Para entrar para os livros e mapas, qualquer mudança no arranjo
regional do Brasil depende de aprovação do Congresso.
Os trâmites são os mesmos para a criação
de um estado. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), que é o órgão federal responsável
por discutir e propor alterações no desenho dessas macrorregiões,
informou que, por enquanto, não está em estudo nenhuma
mudança no atual modelo, em vigor desde 1969. O instituto não
quis comentar a proposta do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
(Cebrap) de criação de uma nova região, a Noroeste.
Para o IBGE, a repartição do território tem
uma motivação técnica. Ela surgiu como instrumento
para facilitar a coleta de dados sociais, econômicos e políticos
sobre o país. As primeiras divisões, no início
do século 20, seguiam critérios estritamente geofísicos,
ou seja, o relevo, o clima e a vegetação. Hoje são
levados em consideração aspectos mais complexos, como
a economia e os fluxos migratórios.
Se chegar ao Congresso, a proposta de criação da Região
Noroeste vai se deparar com outras seis propostas que também
prevêem mudanças na divisão territorial do país.
Estas, no entanto, são ainda mais polêmicas, por representar
um alto custo para os cofres públicos.
Estão prontos para votação no Congresso projetos
que prevêem a criação de mais seis Estados, além
do Distrito Federal. Os novos estados em estudo são: Carajás
e Tapajós no Pará; Mato Grosso do Norte em Mato Grosso;
Rio São Francisco na Bahia; Maranhão do Sul no Maranhão
e Gurguéia no Piauí.
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Gazeta do Povo, 26 de agosto de 2007
ECONOMIA | MEIO AMBIENTE
Discussão sobre fim das sacolas
plásticas se espalha por todo país e atiça
polêmica
Tendência de substituição
de materiais deve pressionar a indústria
por PATRÍCIA KÜNZEL
Andi Yori/Gazeta do Povo

Uso de sacolas oxibiodegradáveis gerou polêmica em todo
país
O Brasil está declarando guerra às sacolas plásticas
e abrindo uma discussão sobre o comum descarte de produto feito
de fontes não-renováveis. Por todo o país, surgem
projetos de lei que propõem a substituição da
embalagem de compras. A proposta é de que sejam usadas sacolas
oxibiodegradáveis, que também são de plástico,
mas se desintegram em menos de um ano (as comuns levam séculos
para desaparecer). A solução recomendada por deputados
e vereadores virou polêmica, cheia de argumentos pró e
contra o material “desintegrável”. Mas a discussão é válida,
garantem os especialistas. “É o começo da corrida
para substituição do petróleo”, diz o coordenador
do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação
Getúlio Vargas (FGV), Mário Monzoni.
A campanha pela adoção das sacolas oxibiodegradáveis
teve sua primeira derrota no Paraná, há um mês.
O prefeito de Curitiba, Beto Richa, vetou uma lei aprovada por unanimidade
pelos vereadores que impunha a todo o comércio o novo modelo
de sacola. O veto trazia como motivo a inconstitucionalidade do projeto,
porque só o executivo pode propor leis que criem atribuições
a órgãos públicos (a prefeitura teria de fiscalizar
a substituição), mas também tem uma resposta
ambiental. “A proposição de todo o comércio
usasse a sacolinha elimina a possibilidade de substituição
por outros materiais. Além disso, não há consenso
científico de que as sacolas oxibiodegradáveis realmente
funcionem”, explica a assessora técnica coordenadora
de resíduos da Secretária Municipal do Meio Ambiente,
Marilza Oliveira Dias. Foi a repetição de decisões
já tomadas na cidade e estado de São Paulo.
O material degradável ainda pode se tornar obrigatório
no Paraná. Há três projetos de lei na Assembléia
Legislativa propondo a obrigatoriedade do modelo. A discussão
em torno da sacola alternativa trouxe à Assembléia
uma comitiva de representantes da indústria plástica
e petroquímica para fazer campanha contra a mudança.
Eles alegam que a desintegração da sacola pode contaminar
solo, água e ar, e não elimina o problema.
Mas é provável que motivos econômicos também
estejam por trás de tanto esforço. Apesar do plástico
não sair da composição da sacola, há agora
um movimento para eliminá-lo. “Seria anormal se eles
não reclamassem. Vamos sair do carvão e do petróleo
para bio alguma coisa e a indústria já está se
preparando para isso. Mas, se conseguirem jogar as mudanças
para sempre, mais tempo eles vão ganhar”, diz Monzoni.
Para o engenheiro agrônomo, especialista em gestão
ambiental e territorial, Cícero Bley Júnior, material
oxibiodegradável não é a melhor saída. “Não
elimina o uso do plástico, que seria o ideal. Melhor seria
o uso de materiais não descartáveis.” Usando
uma sacola de pano e comprando sacos plásticos para o lixo,
o consumidor jogaria menos plástico fora, acredita Bley.
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Folha de Londrina, 26 de agosto de 2007
Tolerância com a corrupção
está vinculada à baixa escolaridade
Postura se confunde com aceitação
do ‘jeitinho’. Segundo estudo, 57% de brasileiros
que têm até o ensino fundamental são
mais autoritários e revelam menos valores democráticos
Arquivo Folha/06-11-03
O Brasil deve investir maciçamente em educação
para mudar a sua pirâmide social: classe média majoritária é barreira
contra corrupção
São Paulo - Quanto mais baixa a escolaridade, maior a tolerância
do brasileiro com a corrupção, que não existe,
portanto, por culpa exclusiva de uma elite política perversa,
mas é aceita por amplos segmentos da sociedade. A explicação
está no livro ''A cabeça do brasileiro'', do sociólogo
Alberto Carlos Almeida, escrito a partir de uma pesquisa que captou
os ''core values'' (valores enraizados) da sociedade brasileira.
O livro mostra que a educação é o grande corte
social e ético do Brasil: os 57% de brasileiros que têm
até o ensino fundamental são mais autoritários,
mais estatistas e revelam menos valores democráticos; à medida
que a escolaridade aumenta, os valores melhoram - o que, prova, segundo
o autor, que a educação é a principal matriz
a transmitir valores republicanos às pessoas.
Almeida apurou que a tolerância à corrupção
se confunde com a aceitação do ''jeitinho'': ''O 'jeitinho' é a
ante-sala da corrupção'', afirma ele. O diagnóstico é que,
para ampliar seus valores, ter mais democracia e se tornar um País
mais liberal (não no sentido ideológico, mas nos valores
republicanos), o Brasil deve investir maciçamente em educação
para mudar a sua pirâmide social: ''Uma classe média
majoritária será a maior barreira contra a corrupção'',
diz Almeida.
Pirâmide de valores - Essas constatações explicam,
por exemplo, por que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
foi reeleito, apesar de fustigado por escândalos no ano da
eleição. Almeida, no entanto, desvincula a pesquisa
de situações conjunturais e diz que ela diagnostica
um problema estrutural que explica os ''Brasis'' do passado, do presente
e do futuro.
A pesquisa mostra que em todas as questões que envolvem valores
cívicos as posições mais modernas são
constatadas no topo da pirâmide (os que têm ensino superior)
e se degradam gradualmente, até chegar aos índices
preocupantes recolhidos entre os analfabetos.
O ''Brasil arcaico'', que Almeida localiza na baixa escolaridade,
tem peculiaridades que revelam seu distanciamento dos valores republicanos:
apóia o jeitinho; é hierárquico, patrimonialista
e fatalista; não confia nos amigos; não tem espírito
público; defende a lei do talião; é contra o
liberalismo sexual; apóia o intervencionismo do Estado na
economia; é a favor da censura; e, por fim, é tolerante
com a corrupção. A grande inflexão nos valores
se dá na passagem do ensino fundamental para o ensino médio
- no qual os valores já se aproximam dos que têm ensino
superior -, o que faz Almeida sugerir que o País aposte todas
as fichas na universalização do ensino médio.
Com esse modelo de valores, concorda Almeida, não há surpresas
quando o eleitorado brasileiro ignora denúncias de corrupção
contra um presidente ou um partido: ''Não é que os
eleitores esquecem as denúncias. É que, para eles,
elas não são importantes'', observa.
A grande solução brasileira, diz ele, é investir
pesado em educação para favorecer a agregação
de valores republicanos: ''Com uma multidão que respeita a
lei, que abomina o jeitinho e não tolera a corrupção,
haverá menos pessoas a punir'', diz.
Carlos Marchi
Agência Estado
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O Estado do Paraná, 26 de agosto
de 2007
Direito e Justiça
O espírito democrático
Redação
Geraldo Serathiuk
Ao me desligar do cargo de Delegado Regional do Trabalho um grupo
de amigos do Conselho Estadual do Trabalho fez um jantar de homenagem
e me perguntaram como estava analisando a realidade depois de uma
experiência de mais de quatro anos. Contei a eles uma história
e meu olhar após minha passagem pela DRT. Contei que quando
era criança eu ia ao cinema e quando aparecia o leão
da Metro eu começava a chorar. Meus irmãos não
agüentavam mais ter que voltar para a casa para me levar. Acharam
uma solução, colocaram-me para ser o trocador de gibi
na porta do cinema. E virei um leitor de gibi. Num tempo em que o
meu professor de português obrigava a declamar um poema decorado
de no mínimo 3 estrofes todo sábado sem poder repetir.
Trabalhando pesado no campo, lia gibi e poesia, para aliviar o imaginário
de criança.
Com meus doze anos visitava meus irmãos no presídio.
Onde me indicavam livros. Foram embora e deixaram muitos lá em
casa. Lia buscando uma explicação.
Aos dezessete, vim para Curitiba e me encontrei com pessoas que
me tratavam como se os irmãos fossem, pois os meus estavam
longe pela prisão e pelo exílio imposto pelos que os
perseguiam. Pessoas de nível intelectual, que passaram a ser
referência, e que me instigavam a continuar lendo e estudando,
para ter o privilégio de estar com elas.
Trabalhando fora, fiz o curso de Direito, me tornei um autodidata,
e ainda dava tempo para lutar pela democracia, pela anistia, diretas
e constituinte. Neste tempo os que combateram desenvolveram dentro
da estrutura psicologia a percepção do conflito, natural
aos que vivem a perseguição e o embate. E tenho um
lamento deste tempo que me emociona até hoje. O fato de meu
pai não ter podido esperar para ver seus filhos voltarem,
depois de 10 anos de prisão e exílio. Morreu triste
num tempo escuro que deixou avarias psicológicas em muitos
dos meus, o que me dá a certeza que o arbítrio deixou
seus fantasmas lá em casa para continuar a assombrar.
Por isto aprendi com a realidade o tamanho da animalidade humana.
Passando a ver as pessoas, não pelo cargo que ocupam e sim
com o ser humano que significam. Aprendendo a enxergar as pessoas,
seus afetos, sofrimentos, inseguranças e desejos. Pois independente
de governo e de sistema aprendi que o arbítrio é uma
chaga que tem raízes mais profundas.
Li, fiz os amigos lerem e continuo sendo um passador de livros e
textos para que possamos melhorar. E nos últimos tempos li
o livro “O Horror Econômico”, da escritora francesa
Viviane Forrester, que retrata as mudanças no setor produtivo
e os impactos sobre os trabalhadores. Li o contraditório,
com a publicação do livro “O Horror Político”,
do escritor francês Jacques Généreux, que aborda
o significado da descontinuidade democrática que levou a desqualificação
dos sistemas políticos e por conseqüência os políticos,
que perderam a visão nacional e de longo prazo. Pensando no
aqui e agora e no curral. Li Allan Bloom, que nos mostra a reforma
de ensino feita no mundo tecnificando e desumanizando o saber, acoplado
a implantação de uma sociedade de consumo através
dos meios de comunicação de massa.
Mas disse aos meus amigos que estou esperançoso. Afinal o
longo período de democracia continuada faz o liberal Maílson
da Nóbrega dizer que o futuro chegou em seu livro recente.
Pois os controles públicos e democráticos estão
melhorando as políticas públicas. Acrescida da visão
do prêmio Nobel da economia, Joseph Stiglitz, que ganhou seu
prêmio mostrando que só há desenvolvimento com
a popularização do crédito, ou como, Douglas
North que nos mostra que os países que mais se desenvolveram
foram os que construíram sistemas e instituições
jurídicas democráticos, e isto tudo está acontecendo
aqui. Esperançoso também porque o liberal Friedrich
Hayek me ensinou a ver que mesmo com a concentração
da mídia na mão de poucos o mais importante é o
sistema de comunicação através dos preços.
Sistema de preços que manda mensagens se um governo é bom
para o povo ou não, independentemente das difamações
dos que defendem interesses de poucos. Mas dissetambém que
se sou esperançoso compreendo que precisamos trabalhar muito.
Afinal a experiência me ensinou que para gerar trabalho decente
não basta fiscalizar. Precisamos de um movimento sindical
forte e representativo como nos ensina a metodologia da OIT, que
diz que a primeira observação para ver se o trabalho
dentro de uma empresa é decente, é ver se os sindicatos
têm liberdade lá dentro, seguido de outros quesitos.
Por isto a reforma sindical tem acontecer para que os trabalhadores
possam ter representação no seu local de trabalho.
Mas também para gerar trabalho decente precisamos crescer.
Pois só o crescimento com mais investimento em ciência,
tecnologia e educação está permitindo que o
trabalho formal com melhores salários, com proteção
previdenciária e outras proteções de saúde
e segurança cresçam, a exemplo do que acontece com
a compra de maquinas modernas com mais proteção. E
com isto, aumenta o recolhimento do FGTS, fundo de poupança
dos trabalhadores, que continuará permitindo mais políticas
de crédito e investimentos em nosso país. O que nos
livra de ser meros exportadores de commodities. Mas precisamos avançar
institucionalmente com reformas como a tributária, política,
da representação tripartite de trabalhadores, empresários
e governo, junto ao Banco Central e a implantação de
uma política industrial.
E é com este olhar que vou continuar a trabalhar pela democracia
e pela consolidação do espírito democrático.
Afinal o filósofo Friedrich Nietzsche disse que o saber está muito
próximo ao conflito democrático, pois ele desenvolve
a nossa percepção. Por isto manter a vivência
democrática me dá a garantia pela teoria do conhecimento
de Friedrich Nietzsche que cada vez mais teremos um país mais
justo com governantes mais preparados e humanos, extirpando de vez
o espírito do arbítrio, da ignorância e do egoísmo.
Afinal os que o sustentam tem base no espírito da concentração
da renda, da propriedade da terra, dos meios de produção
e de comunicação, que ainda vivem entre nós.
Geraldo Serathiuk é advogado, especializado
em Direito Tributário pelo IBJE.
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O Estado do Paraná, 26 de agosto
de 2007
Direito e Justiça
Análise dos
tratados internacionais, Itaipu e homenagem a Sussekind
e Délio Maranhão
Redação
Edésio Passos
A Itaipu Binacional realizou dias 17 e 18 de agosto, em Foz do Iguaçu,
o “Ciclo de Conferências em face de tratados internacionais.
A experiência Binacional do Projeto Itaipu”, oportunidade
para a análise teórico-prática dos tratados
internacionais à luz da legislação do trabalho
e, em especial, dos tratados relacionados com a Itaipu Binacional,
marco da inovação jurídico-legal, servindo como
paradigma nas relações de trabalho de órgãos
e empresas supranacionais. Na oportunidade, foram homenageados os
professores Arnaldo Sussekind e Délio Maranhão (in
memoriam), responsáveis pela elaboração dos
Protocolos de Direito do Trabalho de Itaipu. O ministro da Justiça
Tarso Genro presidiu a mesa inaugural dos trabalhos, além
de, em seu pronunciamento, abordar aspectos da atualidade do Direito
do Trabalho. O diretor-geral de Itaipu, dr. Jorge Miguel Samek, salientou
a importância do encontro, possibilitando o conhecimento mais
direto da construção jurídica da entidade e
os seus reflexos positivos em face a iniciativas do mesmo teor. A
oração sobre os homenageados coube ao ministro do TST
Vantuil Abdalla, destacando a obra fundamental de Arnaldo Sussekind
na legislação laboral brasileira desde a CLT até a
atualidade. A conferência de abertura, pelo ministro Arnaldo
Sussekind, hoje com 90 anos de idade e um dos autores da CLT de 1943
(quando tinha 21 anos de idade), abordou o tema “Ordenamento
jurídico laboral do Brasil e do Paraguai Tratado de Itaipu
e seus Protocolos Histórico”. As palestras sobre a temática
dos tratados internacionais e o Direito do Trabalho foram pronunciadas
pelos professores Amauri Mascaro Nascimento e Estêvão
Mallet. A conferência de encerramento coube ao ministro do
TST José Luciano de Castilho Pereira, coordenador científico,
destacando a oportunidade do evento, tendo em vista o crescimento
de parceria e acordos entre Estados soberanos, lembrando que “o
Brasil está formulando tratados com países vizinhos,
como a Bolívia, e, no âmbito do Mercosul, vários
acordos estão em andamento”. A coordenação
geral foi de responsabilidade do diretor jurídico da Itaipu
Binacional dr. João Bonifácio Cabral Junior. A especificidade
do Tratado de Itaipu e de seus Protocolos no direito internacional é relevante,
pois são exemplos de atos legais que oferecem garantias mais
abrangentes aos trabalhadores. Nascido de um acordo preliminar de
22/6/1966 entre Brasil e Paraguai, evoluiu para a criação
de uma comissão mista brasileiro-paraguaia em 12/2/1967, seguindo-se
o convênio de cooperação entre a Comissão
e a Eletrobrás e a Ande em 10/4/1970 e culminando com a Declaração
de Assunção sobre o aproveitamento de rios internacionais
em 3/6/1971. Finalmente, em 26/4/1973, é assinado o Tratado
de Itaipu entre Brasil e Paraguai para o “aproveitamento hidrelétrico
dos recursos hídricos do rio Paraná, pertencentes em
condomínio aos dois países, desde e inclusive o Salto
Grande de Sete Quedas ou Salto de Guaíra até a Foz
do Rio Iguaçu”, posteriormente aprovado e promulgado
pelos Parlamentos dos dois países. No que concerne à legislação
do trabalho, foram firmados na mesma época os Protocolos sobre
(1) Relações de Trabalho e Previdência Social,
de 11/2/1974 (2) Contratos de Trabalho dos Trabalhadores, dos Empreiteiros
e Subempreiteiros de Obras e Locadores e Sublocadores de Serviços,
de 10/9/1974, assim como os Acordos Administrativos sobre serviços
médicos e higiene e segurança do trabalho. Pelo Tratado
de Itaipu foi criada a Itaipu Binacional, constituída pela
Eletrobras e pela Ande, com a finalidade de realizar o aproveitamento
hidrelétrico. A usina hidrelétrica construída é a
maior do mundo em produção de energia, com potência
instalada de 14.000 MW(megawatts), com 20 unidades geradoras, suprindo
95% da energia elétrica do Paraguai e 24% de toda a demanda
do mercado brasileiro (informações www.itaipu.gov.br).
Justiça do Trabalho: “A Justiça
do Trabalho no Brasil é conhecida por alguns estigmas. Entre
eles, que os brasileiros se apropriam da lei para tirar vantagem
e que as mesas dos juízes estão cada vez mais abarrotadas
de processos. Não é o que diz o estudo de Ivan César
Ribeiro e Brisa Ferrão, pesquisadores em Direito e em Economia.
De acordo com o levantamento, o desrespeito à legislação
e ao contrato de trabalho é a principal motivação
para as ações na Justiça. Se o que está no
papel fosse cumprido, menos trabalhadores teriam de recorrer aos
tribunais. De acordo com o cruzamento dos dados, o desrespeito ao
contrato ou à legislação varia de 39% a 55%
do total de ações trabalhistas nos estados brasileiros.
Para as empresas, afirma o pesquisador, acaba por ser vantajoso não
atender a determinadas cláusulas contratuais e depois tentar
um acordo na Justiça. “Sai mais barato”. Normalmente
o acordo sai por menos do que o valor devido. É fato também
que os juros cobrados de uma empresa pelo banco são bem menores
do que aqueles pagos pelo correntista comum. “Quanto mais a
ação demora a ser julgada, mais prejuízo tem
o ex-funcionário”, opina. Além disso, lembra,
nem todos os empregados que passaram pela situação
de ter um contrato descumprido procuram a Justiça. Ainda há o
receio de que esse tipo de iniciativa influencie negativamente numa
contratação futura” (Carta Capital e Diap, 15/8/07)
Direito Sindical: O corregedor-geral da Justiça
do Trabalho, ministro João Oreste Dalazen, determinou a suspensão
de reunião marcada pela Federação das Indústrias
do Estado de São Paulo (FIESP) para a continuidade do processo
de eliminação de seus quadros do Sindicato da Micro
e Pequena Indústria do Tipo Artesanal do Estado de São
Paulo (SIMPI), acolhendo pedido de liminar em reclamação
correicional. O ministro, em seu despacho, observou que, diante do
prazo de apenas três dias entre o ajuizamento da ação
e a data marcada para o início do processo de exclusão, “incumbiria à juíza
apreciar, de imediato, o pedido, sob pena de total ineficácia
da medida intentada.” Como isso não ocorreu, o corregedor-geral
entendeu que, embora escape à competência da Corregedoria-Geral
da Justiça do Trabalho o exame de suposta irregularidade na
exclusão do sindicato do quadro da FIESP, são visíveis
os prejuízos decorrentes da manutenção do despacho
que encaminhou o processo à Presidência do TRT, retardando
sua solução. “Julgo prudente, assim, determinar
a suspensão da reunião, bem como ordenar ao TRT que
processe e julgue o mais prontamente possível a ação
cautelar”, concluiu”. (TST RC 184740/2007-000-00-00-2)
Comissão de Conciliação Prévia: Pedido
de vista do ministro Joaquim Barbosa suspendeu o julgamento de duas
medidas cautelares, ADIs 2139 e 2160, relativas às Leis 9.957
e 9.958,de 2000, sobre procedimento sumaríssimo (art.152B,II,CLT)
e as comissões de conciliação prévia
(art.625-D,CLT). Quanto ao artigo 625-D, há afronta ao direito
público subjetivo do cidadão de submeter à apreciação
do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito
decorrente da relação de emprego (artigo 5.º,
XXXV, CF). Além de limitar a liberdade de escolha da via mais
conveniente, condiciona a admissão da reclamação
trabalhista à juntada de certidão do fracasso da tentativa
conciliatória ou da impossibilidade de observância desse
rito prévio. Violado, ainda, o parágrafo primeiro do
artigo 114, da Constituição Federal, segundo o qual
a eleição de árbitros ocorre somente quando
frustrada a negociação coletiva e não de forma
antecipada como prescreveria o dispositivo atacado. Em relação à vedação
de citação por edital nas reclamações
enquadradas no procedimento sumaríssimo, invocado o princípio
da igualdade considerada a utilização do edital como
uma das formas de citação no Processo Civil. O ministro
Sepúlveda Pertence apresentou seu voto-vista, observando,
apesar da ADI 2148 versar sobre o tema da Comissão de Conciliação
Prévia, não foi incluída no julgamento por não
haver pedido cautelar. “Tanto o ministro Gallotti (relator)
quanto o ministro Marco Aurélio (divergência) louvam
a intenção da norma questionada de incentivar a solução
dos conflitos diretamente pelos titulares dos direitos envolvidos
na relação jurídica, ponto no qual também
não divirjo”, disse Pertence.que o desacordo dos dois
votos está na possibilidade de o procedimento por ela (CLT)
previsto significar verdadeira condição prévia
do processo que impeça o exercício do direito de ação
desses titulares antes do esgotamento da frustração
dessa nova fase. No caso, citou observação de Gallotti,
segundo o qual a redação do artigo 625-A sugere a natureza
facultativa do ato de instituição das comissões
de conciliação prévia. No entanto, Pertence
considerou que “o caráter imperativo do caput do artigo
625-D torna ao extremo de dúvidas a submissão de qualquer
demanda de natureza trabalhista à comissão por ventura
instituída no âmbito da empresa ou do sindicato da categoria” e
que “há determinação expressa de que a
sujeição da demanda à comissão de conciliação
prévia configure novo pressuposto processual do ajuizamento
da reclamação trabalhista”. Esse entendimento,
conforme ele, estaria evidenciado nos parágrafos 2.º e
3.º, os quais exigem que sejam declarados na petição
inicial da eventual ação perante a Justiça do
Trabalho, respectivamente, a tentativa conciliatória frustrada
ou o motivo relevante que teria impossibilitado a adoção
do procedimento. “Parece-me que a norma impugnada - e realço
que o julgamento é de pedido cautelar - impede ainda que de
maneira velada a opção de imediato acesso à Justiça
do Trabalho da titulada pretensão substancial”. Assim,
Pertence acompanhou o ministro Marco Aurélio para deferir
em parte a medida cautelar contra o artigo 625-D introduzido pela
Lei 9958 à CLT e assegurar, com relação aos
dissídios individuais de trabalho, o livre acesso ao Judiciário,
independentemente de instauração ou da conclusão
do procedimento perante a Comissão de Conciliação
Prévia. Do mesmo modo da divergência, iniciada com o
ministro Marco Aurélio, votaram a ministra Cármen Lúcia
Antunes Rocha e o ministro Ricardo Lewandowski. O julgamento da ação
foi suspenso tendo em vista pedido de vista do ministro Joaquim Barbosa” (STF).
Na colônia naturista: das mais de cem pessoas
que viviam na colônia naturista em Taquara(RS), apenas sete
participaram das filmagens contratadas com o grupo Sílvio
Santos, em 1999. No contrato, estava previsto a exibição
das cenas de “uma forma respeitosa e não sensacionalista,
de modo a preservar o movimento naturista”. Foi o que aconteceu
no SBT Repórter. Mas, em seguida, apesar da proibição
contratual, as cenas foram ao ar nas edições do programa
do Ratinho, de modo jocoso e ultrajante aos integrantes da colônia.
Os sete ingressaram com ação de indenização
na 10.ª Vara Cível de Porto Alegre contra o SBT SP/RS,
condenados, inicialmente, no valor de cem salários mínimos
a cada um dos sete autores. No final, após recursos ao TJRS
e ao STJ, a condenação restou calculada em R$2.767.492,00,
valor já recebido (in Espaço Vital, 10/8/07).
Fundamento do Direito do Trabalho: Nosso Tempo?
Este o estudo da dra. Magda Barros Biavaschi que integra o livro “As
transformações no mundo do trabalho e os direitos dos
trabalhadores” (LTR,novembro,2006), publicação
conjunta da LTR com a Unicamp-Cesit e a Ematra XV, desenvolvido a
partir de uma pesquisa realizada entre o CESIT e o Departamento Intersindical
de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos DIEESE “sobre
a modernização tecnológica e seus impactos nas
relações de trabalho, negociações coletivas
e sindicalismo no setor terciário”. Por sua vez, o estudo
da dra. Magda Barros Biavaschi é a síntese parcial
de sua tese de Doutora em Desenvolvimento Econômico da Unicamp
com o título “O Direito do Trabalho no Brasil 1930/1942:
construindo o sujeito de direitos trabalhistas”. O texto apresenta
análise sobre os tempos liberais do século XXI, os
tempos liberais do século XIX (capitalismo, grande indústria
e Direito do Trabalho), os princípios fundamentais do Direito
do Trabalho, o Direito do Trabalho em um Brasil de 1930. Nas suas
considerações finais, a autora retorna ao século
XXI, “reencontrando-se a realidade quer provocou o desejo de
resgatar os fundamentos dos direitos sociais do trabalho que parecem
sucumbir à força bruta de um capitalismo desumano,
em tempos de globalização neoliberal”.
“Este é tempo de partido/ Tempo de homens partidos.
Em vão percorremos volumes/ viajamos e nos colorimos./ A hora
pressentida esmigalha-se em pó na rua./Os homens pedem carne.
Fogo. Sapatos./As leis não bastam. Os lírios não
nascem da lei./Meu nome é tumulto e escreve-se na pedra”(...)/
(“Nosso Tempo”, Carlos Drummond de Andrade).
Edésio Passos é advogado
e foi deputado federal na Legislatura 91/94 (PT-PR).
E-mail: edesiopassos@terra.com.br
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Folha de São Paulo, 26 de agosto
de 2007
Sistema S registra arrecadação
recorde
Com expansão da folha de
pagamento das empresas, entidades como Sebrae, Senac e
Sesi prevêem repasse de R$ 11 bilhões em 2007
Valor equivale ao projetado pelo governo para
obras prioritárias; TCU aponta barreiras para fiscalizar as
contas das entidades
JULIANNA SOFIA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
A expansão recorde do mercado de trabalho formal e o conseqüente
aumento da arrecadação sobre a folha de salários
das empresas abarrotará os cofres do Sistema S até o
final do ano. No primeiro semestre, só a receita recolhida
via Previdência Social cresceu 30% acima da inflação
em relação a igual período de 2006. A previsão
do sistema é encerrar 2007 com um total de R$ 11 bilhões
em caixa -alta de 10% em relação aos R$ 10 bilhões
de 2006.
O volume de recursos supera o orçamento do Bolsa-Família
(R$ 8,3 bilhões) e equivale a praticamente todo o investimento
em projetos prioritários que o governo federal espera fazer
neste ano. O chamado PPI (Projeto Piloto de Investimento) é orçado
em R$ 11,3 bilhões.
O sistema inclui nove entidades ligadas à indústria (Sesi,
Senai), ao comércio (Sesc, Senac), à agricultura (Senar),
aos transportes (Senat, Sest), às cooperativas (Sescoop) e às
micro e pequenas empresas (Sebrae). A Constituição garante às
entidades a receita de contribuições compulsórias
dos empregadores sobre a folha de salários.
São as chamadas contribuições "parafiscais",
porque os recursos são públicos, mas as entidades beneficiadas
são privadas. E o nó da questão está aí.
As contas são fiscalizadas pelo TCU (Tribunal de Contas da União)
e pela CGU (Controladoria Geral da União), que têm dificuldades
em rastrear o caminho do dinheiro.
A tarefa fica ainda mais complicada quando se trata dos recursos recolhidos
diretamente das empresas. Cerca de 65% da arrecadação
do Sesi e do Senai, por exemplo, vêm de contribuições
sociais pagas diretamente por empresas, não passando pelo caixa
da Previdência.
" A caixa-preta está nessa parcela. As informações
que temos sobre essa arrecadação vêm das próprias
entidades. O Ministério do Planejamento não sabe quanto é.
Isso não passa pelo Siafi [Sistema Integrado de Administração
Financeira]", diz o ministro Marcos Bemquerer, do TCU.
O coordenador do Fórum do Sistema S e presidente do Conselho
Nacional do Sesi, Jair Meneguelli, rebate: "É mentira.
Não há caixa-preta". Segundo ele, os recursos recordes
arrecadados pelo sistema neste ano serão distribuídos
para todos os Estados, e as entidades regionais têm autonomia
para definir onde serão aplicados.
" Só o Sesi e o Senai irão investir nos próximos dois
anos R$ 5 bilhões em formação profissional e educação
fundamental. Todo o dinheiro que entra é reinvestido em formação,
no caso do Senai, e em serviços sociais, no caso do Sesi", declara.
Meneguelli foi alçado ao cargo de presidente do conselho do
Sesi pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A posição
tradicionalmente era ocupada por representantes do empresariado. Além
dele, Lula emplacou o amigo Paulo Okamoto na presidência nacional
do Sebrae. "São dois, apenas dois nomes [de sindicalistas
indicados pelo presidente], em dezenas de cargos", ironiza Meneguelli,
lembrando que, na maior parte das presidências do sistema, o
comando está nas mãos dos próprios presidentes
das federações e confederações.
Rateio
Na avaliação do ministro Bemquerer, as dificuldades na
fiscalização das contas das entidades não param
nas verbas arrecadadas diretamente. São recorrentes os processos
no tribunal apontando para problemas no rateio de receitas e despesas
de entidades do Sistema S e organizações sindicais.
Por exemplo, em muitas situações o prédio onde
funciona uma unidade regional do Sesi é o mesmo da federação
da indústria local. Na hora de pagar as despesas, o dinheiro
público acaba bancando as instalações para a entidade
das empresas. "É o mesmo prédio, são os mesmos
veículos e equipamentos. Eles usam verbas públicas para
custear despesas das federações ou confederações
de empresas", relata Bemquerer.
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Folha de São Paulo, 26 de agosto
de 2007
ESCOLHA DESIGUAL
Disputa por trabalho abre
brecha para segregação
Nos últimos 7 anos, MPT
instaurou 920 ações para apurar denúncias
CRISTIANE ALVES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Humilhação. Esse é o sentimento provocado por
oportunidades negadas àqueles que foram alvo de discriminação
no ambiente de trabalho.
Nos últimos sete anos, o Ministério Público do
Trabalho da 2ª Região instaurou 920 procedimentos que buscam
apurar denúncias de discriminação.
Um deles foi estabelecido a partir de denúncia feita pela professora
Maria Aparecida da Silva Oliveira, 36, que, em 2003, foi aprovada em
um concurso para professora efetiva da rede pública estadual
de São Paulo, mas ainda não ocupou o cargo porque foi
considerada inapta pelo exame admissional.
" A médica falou que eu estava muito gorda, [questionou] por que
eu não fazia uma cirurgia de redução de estômago",
conta Oliveira, que diz não sentir necessidade de passar pela cirurgia. "Ela
me reprovou e colocou na ficha médica que o motivo [da inaptidão
para o cargo] era que eu me recusava a fazer a cirurgia", diz ela, acrescentando
que sequer foi pesada durante a consulta médica.
Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, responsável
pelo exame, a profissional "foi julgada inapta por ter obesidade
mórbida, considerada doença pela Organização
Mundial de Saúde, além de problemas vasculares e hipertensão
arterial."
A advogada trabalhista Sonia Mascaro explica, porém, que obesidade
não é critério de inaptidão para a profissão. "Se
a obesidade não a impede de exercer a atividade, como escrever
no quadro ou falar por muito tempo, considero a não-contratação
dela um ato discriminatório", afirma Mascaro.
Justiça
A grande oferta de trabalhadores é, para Clóvis de Barros
Filho, professor de ética da USP e coordenador de pós-graduação
da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), um dos motivos
para que a discriminação ganhe espaço no mercado
de trabalho.
" Como a mão-de-obra é abundante, muitas vezes há candidatos
com possibilidades de trabalho semelhantes. Nesse caso, é muito recorrente
que as preferências estéticas, étnicas e culturais sejam
decisivas para sua contratação", explica.
Mas a ação não atinge apenas aqueles em busca
de emprego. Para Paulo (nome fictício), 40, por exemplo, a relação
com o chefe mudou depois que ele descobriu ser portador do vírus
HIV em 1998. Paulo conta ter sofrido com o descaso da empresa multinacional
em que trabalhava havia sete anos.
" O gerente fazia reuniões e me deixava isolado, me mandava calar
a boca", relata. Depois de dois anos e meio, conta, o gerente o demitiu. "Ele
alegou que, com a minha idade e "o que eu era", não serviria
para nada."
A empresa possuía ouvidoria, mas suas denúncias não
foram verificadas. Hoje Paulo está aposentado por invalidez
e aguarda o resultado do processo que move contra a firma.
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Folha de São Paulo, 26 de agosto
de 2007
Assédio moral exclui
trabalhador
COLABORAÇÃO PARA
A FOLHA
De janeiro a junho deste ano, a DRT-SP (Delegacia Regional do Trabalho)
recebeu 205 denúncias de trabalhadores que disseram sofrer
discriminação. Um de seus tentáculos, apontam
os dados, revela-se por meio de assédio moral -o que motivou
190 denúncias no período.
São casos como o da telefonista M.A.R., 47, que ficou afastada
do trabalho por 18 meses devido a uma tendinite adquirida no trabalho
em uma metalúrgica de Embu das Artes, na Grande São Paulo.
Ao retornar, a empresa determinou que ela organizasse o arquivo morto,
localizado em um galpão desativado. "Havia fezes de rato,
ninho de pombo, muita poeira. Colocaram-me para trabalhar na sujeira",
descreve ela, que conta ter sido afastada dos demais funcionários. "Não
podia ir à fábrica nem para levar documentos", lembra
a telefonista, que move ação contra a empresa.
No Estado de São Paulo, houve 69.558 admissões de pessoas
com deficiência entre 2001 e julho de 2007. Apesar disso, esses
trabalhadores ainda convivem com discriminação no trabalho
-às vezes, antes de iniciá-lo. A bancária Márcia
(nome fictício), 46, não enfrentou problemas na hora
da contratação, mas, desde que foi admitida, não
pode trabalhar em condições apropriadas.
Ela tem visão parcial em somente um dos olhos e espera há meses
que o banco compre um programa para facilitar a leitura no computador. "Fui
contratada só para cumprir cotas", afirma ela, que está com
artrose por ter que ficar muito próxima do monitor. "Sinto
que não estão nem aí", desabafa. (CA)
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