 |
Nova Central, 2 de setembro de 2007
Universidade não pode cobrar
mensalidades diferentes para calouros e alunos de outros anos
O vice-presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministro
Francisco Peçanha Martins, negou seguimento ao recurso com o qual
a Fundação Educacional Unificada do Oeste de Santa Catarina
(Unoesc) tentava que o Supremo Tribunal Federal (STF) revisse a decisão
que a obriga a reduzir o valor das mensalidades e devolver a quantia
paga a mais, retroativa a 1999, a um grupo de alunos do curso de Direito.
A decisão da qual a entidades educacional recorre foi tomada
pela Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que,
ao aceitar o recurso interposto por vários estudantes, modificou
o entendimento a que chegou o Tribunal de Justiça de Santa Catarina.
No recurso, os estudantes contestaram o valor de suas mensalidades,
as quais, afirmaram, era superior às cobradas dos alunos matriculados
em períodos mais adiantados do mesmo curso. O argumento do grupo é que
a cobrança de valores distintos para calouros e veteranos pela
prestação do mesmo serviço contraria o princípio
constitucional da isonomia e o Código de Defesa do Consumidor.
A conclusão seguiu o voto da relatora, ministra Nancy Andrighi,
para quem nenhum dos dispositivos da Lei nº 9.870/99 (Lei das
Mensalidades Escolares) autoriza diferenciar o valor das mensalidades
cobradas entre alunos do mesmo curso matriculados em períodos
distintos. Ela ressaltou, ainda, que a cobrança das mensalidades
dos alunos do mesmo curso só atenderá ao princípio
da isonomia se não houver distinção entre o valor
cobrado dos calouros e o dos veteranos.
A Unoesc recorreu dessa decisão, tentando levar o caso ao Supremo.
Para a entidade, a decisão da Terceira Turma ofende os princípios
da isonomia, da inafastabilidade do Poder Judiciário e da autonomia
universitária, expressos nos artigos 5° (caput, inciso XXXV)
e 207 da Constituição Federal. Esses dispositivos dispõem,
respectivamente, que “a lei não excluirá da apreciação
do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito” e
que “as universidades gozam de autonomia didático-científica,
administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão
ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e
extensão”.
Ao apreciar o pedido, o ministro Peçanha Martins entendeu que
o recurso é inadmissível porque a alteração
inserida no Código de Processo Civil pela Lei n. 11.418, de
19.12.2006, além de decisão recente daquele tribunal
determinam que deve ser demonstrada a existência de repercussão
geral para que o recurso extraordinário possa ser admitido,
o que não foi feito pela Unoesc.
|
Diário Vermelho, 2 de setembro de
2007
Presidente do PT defende abertura de
nova assembléia constituinte e a extinção do
Senado
O presidente do PT, Ricardo Berzoini (SP), defendeu ontem a abertura
de um debate sobre a convocação de uma nova assembléia
constituinte para discutir exclusivamente a reforma política.
Uma das propostas --que deve ser debatida no 3º congresso do PT--
prevê que o país tenha uma única Câmara Legislativa
e a extinção do Senado.
"O PT defende que o capítulo político [da Constituição]
seja discutido amplamente pela sociedade para corrigir alguns vícios
que a Constituição de 1988 estabeleceu em relação
ao sistema político", disse ele no congresso, que termina
domingo, em São Paulo.
Para Berzoini, o sistema único de representação
no Congresso corrige as desigualdades do atual sistema. "No nosso
entendimento, [a unicameralidade] é mais produtiva para a democracia.
Agiliza os processos e reproduz as vontades do povo. Hoje, os Estados
são representados de forma desigual. Na Câmara, um pouco
desigual. E no Senado, profundamente desigual."
A declaração inicial de Berzoini gerou polêmica
e, por meio de sua assessoria, ele recuou e disse depois que não
defende a extinção do Senado, mas sim o fim do poder
revisor da Casa.
No entanto, ao final da abertura do congresso, ele disse que falar
em extinção do Senado no país é sempre
complicado.
Segundo ele, a Câmara Única Legislativa existe como resolução
dentro do PT desde que o partido foi fundado. Berzoini afirmou que
há tendências internas do partido que discutem esse tema.
O presidente do PT afirmou que existem duas propostas em discussão
sobre o tema: uma prevê a extinção do Senado e
a outra a manutenção da Casa como fórum de decisões
federativas.
Reforma política
Entre as possíveis distorções citadas por Berzoini
no sistema político estão o financiamento privado de
campanhas eleitorais, fidelidade partidária e o sistema bicameral
--Câmara e Senado.
"Entendemos que o que representa a sociedade é a Câmara
dos Deputados com sua votação pelo povo com proporcionalidade
total. E não com a proporcionalidade limitada que temos hoje",
afirmou o presidente do PT.
Para ele, é preciso equilibrar os interesses dos Estados das
questões federativas. Berzoini disse que quer propor a discussão
para mobilizar a população e produzir uma vontade nacional
para uma nova constituinte. Ele não fixou data para essa constituinte. "Isso
seria precipitar um debate. Está só no debate."
|
STF, 2 de setembro de 2007
Decreto que limita despesas para programa
do seguro-desemprego é questionado no STF
Chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) uma Ação Direta
de Inconstitucionalidade (ADI 3950) contra o artigo 1º, parágrafo
1º, inciso IV do Decreto Federal 6.046/2007, que ao dispor sobre
a programação orçamentária e financeira do
Poder Executivo para 2007, teria limitado despesas para o programa do
seguro-desemprego. A ação, que tem como relator o ministro
Carlos Ayres Britto, foi ajuizada pela Confederação Nacional
dos Trabalhadores Metalúrgicos (CNTM).
O programa do seguro-desemprego foi estabelecido pela Constituição
Federal, em seu artigo 239, relata a confederação. Com
os contornos dados pela Lei 7998/90, o programa, que é custeado
com recursos do Fundo de Amparo do Trabalhador (FAT), inclui diversas
ações, prossegue a ADI, não se limitando apenas
ao pagamento do benefício financeiro temporário ao trabalhador
em condição de desemprego involuntário. Essas
ações, diz a Confederação, por serem obrigações
constitucionais, não podem ter suas despesas limitadas.
Contudo, contrariando a natureza constitucional do programa, ressalta
a CNTM, o decreto questionado limitou as dotações para
custeio das ações patrocinadas pelo fundo, não
as incluindo na relação de despesas que não serão
objeto de limitação de empenho.
Desta forma, por limitar dotações orçamentárias
do FAT relativas à obrigação constitucional do
Programa do seguro-desemprego, a confederação pede ao
Supremo que declare a inconstitucionalidade dos artigos 17 e 1º,
parágrafo 1º, inciso IV do Decreto Federal 6.046/2007.
|
Agência Brasil, 2 de setembro de 2007
Mato Grosso reverte multas por prática
de trabalho escravo à comunidades
Leandro Marins
Repórter da Rádio Nacional da Amazônia
Brasília - A Justiça do Mato Grosso tem usado penas
alternativas para reverter as multas cobradas de empresários
que exploram trabalho escravo. Até há alguns anos, as
multas eram enviadas ao Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Mas atualmente,
os benefícios são revertidos diretamente às comunidades
atingidas pelos casos de trabalho escravo.
É o exemplo do município de Nova Bandeirante, por exemplo,
uma escola construída com o dinheiro de uma multa paga por um
empregador que fez uso de trabalho escravo.
Em 2005, a Justiça do Trabalho reverteu em benefício
da comunidade dois terrenos e duas escolas, totalizando oitocentos
mil reais. Esse foi o valor da multa cobrada à Destilaria Gameleira,
localizada na cidade de Confresa, no Mato Grosso, por ter mantido mil
e três trabalhadores em escravidão.
O procurador do Ministério Público Erlan do Prado explica
que existem outros casos de condenações que foram revertidas
para o bem-estar da própria comunidade atingida pela escravidão. "Já revertemos,
por exemplo, também para aquisição de equipamentos
que pudessem incrementar a atuação de postos de saúde,
em municípios carentes, já houve inclusive a reversão
para a construção de um posto de saúde. Já houve
a construção de escola e firmado um convênio com
o município para que ele deslocasse professores para a zona
rural, onde seria construída a escola a partir de dano moral
coletivo".
O combate ao trabalho escravo no Brasil vem sendo combatido com sucesso.
Entre 1995 e 2002, cinco mil trabalhadores escravos foram libertados,
enquanto de 2003 até hoje, vinte e um mil escravos foram libertados.
O estado do Pará é o líder de casos de escravidão,
seguido pelo Mato Grosso e por Tocantins.
|

|
Gazeta do Povo,
2 de setembro de 2007
BRASIL | ENTREVISTA
Nova Licença-maternidade
pode chegar a seis meses
Projeto beneficia
trabalhadoras de empresas que aceitem benefícios
fiscais em troca dos dois meses de salários
por KAMILA MENDES MARTINS
Curitiba – O
projeto de lei que aumenta a licença maternidade
de quatro para seis meses está prestes
a ser analisado pela Comissão de Direitos
Humanos do Senado.
A proposta da senadora Patrícia Saboya (PSB-CE) não
pretende alterar a Constituição brasileira, que assegura
desde 1988 os 120 dias de afastamento do trabalho para a mãe
cuidar do recém-nascido, mas sim oferecer uma alternativa
ao empregador.
O projeto tem caráter voluntário e é voltado às
trabalhadoras de empresas que estejam dispostas a trocar os dois
meses excedentes de licença atual – relativos ao tempo
a mais em que a empregada ficará afastada – por incentivo
fiscal.
A senadora, que concedeu entrevista exclusiva à Gazeta do
Povo, defende que os seis primeiros meses de vida de uma criança
são fundamentais para seu desenvolvimento psicológico
e emocional.
Ela se baseia em dados da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP),
que mostram que é nessa fase que se completa o crescimento
do cérebro do ser humano, além da definição
da sua personalidade.
Do
Senado, o projeto segue para a Câmara,
onde passará por outras comissões
temáticas para ser votado no plenário
e depois ir para sanção do presidente
da República.
Veja a seguir os principais
trechos da entrevista
Quais são
os principais benefícios do seu projeto?
Em primeiro lugar é a garantia dos direitos dos nossos filhos,
das próximas gerações. Indiretamente, é o
direito da mulher estar ao lado dos filhos sabendo que esses seis
primeiros meses de vida serão determinantes para a criança.
Sabendo que o desenvolvimento físico, intelectual, emocional
dessa criança vai depender dos estímulos que ela
receber principalmente nesse período. Isso, para mim, já é motivo
suficiente para que essa licença seja estabelecida. Como
diz o próprio ministro da Saúde, o caso da ampliação
da licença maternidade para seis meses é um caso
de saúde pública.
Quais as vantagens
para o governo?
Diminuiríamos muito as internações de crianças
com menos de 1 ano de idade, porque o fortalecimento do vínculo
afetivo e o aleitamento materno são dois fatores decisivos
para evitar muitas doenças.
Posso dar como exemplo o levantamento que revela que o SUS hoje
gasta em torno de R$ 300 milhões por ano só em internação
de crianças com doenças respiratórias. Se
todas as micro, pequenas, médias e grandes empresas brasileiras
aderissem ao projeto, o Estado brasileiro teria de investir R$
500 milhões em incentivos fiscais. Eu falo investir porque
considero isso um investimento e não um gasto.
Além disso, o Unicef tem um relatório que mostra
que, se as crianças brasileiras pudessem ser amamentadas
até os 9 meses, isso reduziria em 10% a mortalidade infantil
em nosso país, o que reduziria em mais de 50% a mortalidade
infantil em um curtíssimo espaço de tempo.
Nesses seis primeiros meses de vida, quanto mais estímulo
a criança receber de contato físico, a voz, o aconchego,
o calor humano, tudo isso vai representar uma boa saúde
no futuro. Diminuir doenças alérgicas, cardíacas,
a obesidade. Doenças que matam.
A licença-paternidade
hoje é de apenas 5 dias. Há alguma
previsão de aumento no tempo de afastamento
do trabalho para os pais?
O projeto também prevê um mês de licença
paternidade para os homens. Essa é a maior reivindicação
das entidades que representam as mulheres porque é o momento
em que elas precisam do apoio do homem.
Como agora é o momento de criar uma nova cultura no país
da repartição das tarefas com a criança quando
ela nasce entre homem e mulher. É o início de uma
discussão.
Por isso que o projeto não trata do tema como emenda à Constituição
que estabelece para todas as mulheres, mas sim para a iniciativa
privada. Nossa intenção é primeiramente introduzir
uma nova cultura. Queremos cultivar esse debate no país.
Eu não queria simplesmente fazer uma emenda, que é muito
mais difícil de ser aprovada e que iria criar uma resistência
muito grande de segmentos da sociedade com alguns discursos de
que isso dificulta o acesso da mulher ao mercado de trabalho. Esse é o
mesmo discurso que nós ouvimos em 1988, na época
em que a licença passou a ser de quatro meses.
Caso o projeto
não sofra alterações e seja
aprovado pela Câmara, em quanto tempo a
nova lei deve entrar em vigor?
Nós acreditamos votar a lei no Senado em setembro, mas é difícil
fazer uma previsão de quanto tempo ela vai permanecer na
Câmara.
Vai depender da prioridade de ela entrar em pauta. Mas pretendemos
acionar a Frente Parlamentar dos Direitos da Criança e do
Adolescente, da qual sou coordenadora no Senado, e propor isso
como uma reivindicação da frente para que o projeto
entre logo em regime de urgência.
Eu acredito que isso vai facilitar o trâmite, mas a previsão é muito
complicada de se ter.
Então, pode
levar anos?
Não. Eu não espero que tanto não. Eu vou me
empenhar muito para isso. Vou usar a bancada do meu estado. Vou
me esforçar para aprovar esse projeto porque acho que esse
interesse não é só meu. Aliás, o projeto
não é meu.
O projeto foi feito e entregue nas minhas mãos pela Sociedade
Brasileira de Pediatria.
Hoje nós já temos mais de 400 mil assinaturas recolhidas
no Brasil todo pela OAB e pela Sociedade Brasileira de Pediatria
em favor da proposta. Quer dizer que é um movimento muito
mais da sociedade do que um movimento de um parlamentar.
Há uma contradição muito grande. O governo
brasileiro faz propaganda na televisão, a Organização
da Saúde estimula a mulher a amamentar até o seis
meses de idade, mas, na verdade, a legislação só permite
quatro meses. É uma incoerência.
Mas isso cria mais
chances de o preconceito em relação à contratação
de mulheres crescer?
Eu acho que não. E nós tomamos muito cuidado com
esse discurso. Porque, na verdade, eu acredito que é o mesmo
discurso que nós mulheres vivenciamos em 1988, quando tivemos
um direito nosso assegurado na Constituinte, que são os
quatro meses de licença maternidade.
Portanto nós estamos preparados para isso. Tanto é que
o projeto é autorizativo. Quer dizer: criar uma nova cultura
de responsabilidade social das empresas. Até porque algumas
delas no Brasil já utilizam a licença maternidade
mais prolongada sem nenhum tipo de incentivo fiscal.
Como o público-alvo,
ou seja, as empresas brasileiras, tem se manifestado
em relação à proposta?
Nós já levamos para audiências públicas
alguns exemplos de empresas que conseguiram se recuperar da falência
porque adotaram uma nova forma de gestão, levando em conta
as diferenças de gênero, a questão da criança,
a questão dos deficientes físicos.
É
uma nova forma, uma nova cultura empresarial. Tanto é que
as empresas que participaram das audiências
não levantaram motivações
contra o projeto. Eu chamei a Fiesp, a Confederação
Nacional do Comércio, a Fundação
Abrinq.
A Nestlé, por exemplo, que é a maior interessada
em vender o leite em pó, declarou sua adesão ao projeto
em uma audiência pública. A proposta já está pronta
para ser votada há muito tempo, mas eu insisti que precisavávamos
debater com a sociedade.
Isso não deve ser uma briga, mas uma conquista de uma mudança
de uma cultura que respeite as mulheres. Nós somos 52% da
população, os outros 48% são nossos filhos.
Está na hora de se enxergar e respeitar isso.
O desemprego e
a informalidade no Brasil podem atrapalhar a
aprovação da Lei ou até mesmo
impedir a adesão de um grande número
de empresas?
Eu acredito que não. Desde que isso não seja compreendido
como uma obrigação a mais da empresa, mas como uma
forma de investimento na sociedade.
Quando você tem essa nova maneira de pensar, isso não
passa a ser um desgaste para a mulher, mas algo muito importante
para o currículo dela. Ela se torna uma pessoa até mais
responsável.
Seis meses afastada
da empresa não podem prejudicar o futuro
profissional da mulher?
Eu não acho que dois meses a mais vão tirar uma mulher
do mercado de trabalho. Ela não estará parada. Ela
vai estar amamentando, o que é muito importante para evitar
o câncer de mama. Ela vai estar cuidando de si em um momento único.
Isso não deve criar problemas, e, se criar, está na
hora de mudarmos isso.
|
|
O Estado do Paraná, 2 de setembro
de 2007
Direito e Justiça
Emenda 3, veto ao vento
Charles W. McNaughton
Jorge Pedro da Silva Jr.
Primeiro foram as investigações sobre o presidente do
Senado, Renan Calheiros, agora retomadas depois das discussões
sobre o caos aéreo, potencializado depois da queda do vôo
3054 da Tam. E, em meio a todos esses fatos, o veto à Emenda
3 foi relegado a segundo plano. Mas o assunto continua atual e importante.
Para tanto, vale situá-la no contexto atual. A mencionada emenda
foi proposta em junho de 2005 pelo então senador Ney Suassuna,
no Projeto de Lei da Super-Receita, que deu origem, neste ano, à Secretaria
da Receita Federal do Brasil, nada mais que a fusão da Secretaria
da Receita Federal com a Secretaria da Receita Federal Previdenciária.
O texto da Emenda 3 proibia os auditores fiscais da Receita Federal
de autuar ou fechar empresas prestadoras de serviços formadas
por uma só pessoa, quando entendessem que a relação
de prestação de serviços com outra empresa era
relação trabalhista, sem a decisão judicial anterior.
Como já foi dito, ela foi vetada pelo Presidente Luís
Inácio Lula da Silva, que cedeu às pressões de
sindicatos, dos fiscais e de outros setores da sociedade.
Não faltaram argumentos a respeito de tal dispositivo. De um
lado, fez-se coro que ele prejudicaria o trabalhador ao conceder aos
empregadores uma inapropriada liberalidade e repassar a fiscalização
do trabalho ao Poder Judiciário. De outro, fez-se ouvir que
ao Fisco não poderia ser concedido “super-poderes”.
Porém, poucos atentaram e adentraram aos aspectos técnico-jurídicos
que pairam sobre a questão.
Cabe aqui, lembrar alguns conceitos. O Direito Brasileiro é um
conjunto de normas jurídicas, todas construídas sob o
pilar constitucional, sem o qual não haveria parâmetros
para um sistema jurídico-político. E entre os dispositivos
previstos na Constituição da República está o
primado da legalidade.
A legalidade condiciona toda atividade da administração
pública, o que é um imperativo para a configuração
do Estado de Direito, ou seja, “a vontade do príncipe” não
se sobrepõe à “vontade do povo”. Ela também
anda junto com princípios como os da impessoalidade, moralidade,
entre outros de igual importância.
Assim, a atividade de desconsideração de atos dos contribuintes,
mesmo que para a cobrança de impostos, envolve enorme gama de
subjetividade. A linha divisória entre decisões arbitrárias
e adequadas é muito tênue. E quando pensamos que no pagamento
de tributos há transferência de propriedade do particular
ao Estado, nota-se o quão grave se torna essa circunstância.
Eis, então, por que caberia ao Congresso Nacional regulamentar
o tema, prevendo um procedimento a ser seguido pelos auditores fiscais
para atos de tal calibre. Com isso, obter-se-ia mais segurança
jurídica, tanto para os contribuintes, como para o Fisco e os
próprios trabalhadores.
O que não se pode é admitir a desconsideração
antes que essa Lei venha a ser instituída. Sobre isso, o artigo
116, parágrafo único, do Código Tributário
Nacional determina que a desconsideração de negócios
jurídicos feitos pelos contribuintes deve ser efetivada mediante
procedimento previsto em lei. Daí porque, ante a inexistência
da Lei em questão, verifica-se a impossibilidade de o Fisco
assim proceder.
O que leva à conclusão que a Emenda 3 pouco inovava,
acrescentando uma proibição já implícita
no sistema. Por isso que o veto presidencial, em si, não trouxe
conseqüência jurídica de peso. Quando muito, contribui
para acarretar insegurança jurídica, o que se tornou
ainda mais acentuado pelos tipos de discussões travadas em diversos
diálogos da sociedade, gerando mais confusão do que esclarecimento. É hora
de observar um pouco mais o que prevê nosso Direito Positivo.
Charles W. McNaughton é advogado tributarista.
Jorge Pedro da Silva Jr. é acadêmico de Direito
|
O Estado do Paraná, 2 de setembro
de 2007
Direito e Justiça
Luta pela moradia, consciência
ambiental e a organização social dos trabalhadores
Edésio Passos
No núcleo do Direito do Trabalho há uma idéia-força:
a de que a questão social deve ser tratada como questão
de justiça social. Sustentado pelas lutas sociais, ao redor
desse núcleo básico desenvolveram-se as bases da construção
democrática. Na evolução desse conceito, e na
afirmação prática da ação transformadora,
a tutela individual não era suficiente, projetando-se como necessária
a tutela coletiva. E, para tanto, a organização dos trabalhadores
política, econômica, social, sindical - serve como ponte
indispensável para a consecução desse objetivo
mais amplo. Na operacionalização desses campos, congregam-se
trabalhadores de segmentos variados, mas todos identificados por visões
humanistas. Mas os trabalhadores gradativamente entenderam que não
lhes bastava ter a visão de um rumo definido. Sucessivas derrotas
ensinaram-lhes os caminhos. E também concluíram ser insuficiente
o simples domínio dos mecanismos jurídicos, ou da organização,
ou das esferas sociais de atuação. Havia necessidade
de um processo integrador quando o Direito funde-se com ciências
afins no campo social, econômico, cultural e, especialmente,
político, sedimentando a teoria libertadora de uma prática
solidária e de transformação. Dentro deste pensamento
criativo, um grupo de professores, advogados, arquitetos, estudantes,
assistentes sociais, líderes comunitários e representantes
de outros segmentos reuniu-se, em encontros para reflexão crítica
e consciência da realidade, visando uma mudança de postura
e comportamento sócio-político, em um momento então
decisivo para nosso povo. Era o final dos anos 70, aguçava-se
a luta de resistência contra a ditadura militar. E entenderam
que as armas organizativas e jurídicas em geral eram frágeis
diante do poderio político-militar daquele momento de dominação.
Somente a força do número de um grande número
poderia mover a roda em direção a um novo tempo.
Em 1977, fui procurado por um líder comunitário, Jairo
Graminho de Oliveira, que buscava advogado que pudesse defender alguns
trabalhadores em inquérito policial. Ele, seus amigos, familiares,
viviam em uma favela. O aglomerado de barracos havia sido cercado por
arame farpado, como se gado fosse, por quem se dizia proprietário
do terreno ocupado. Apenas por uma pequena passagem as pessoas podiam
entrar e sair do local. O crime de que os trabalhadores eram acusados
foi ter rompido a cerca de arame. Chamada a polícia, detidos,
estavam à mercê de seus perseguidores. Além de
defendê-los da acusação, adotei as medidas jurídicas
necessárias contra a violência cometida pelo pretenso
proprietário em cercar as pessoas e impedi-las de livre circulação.
E fui além: reunida a comunidade, expliquei-lhes as noções
básicas do direito de ir e vir, da posse sobre o imóvel,
a necessidade de defender o direito de moradia e de sua regularização,
e de conseguir melhorias básicas de vida, direitos à água,
luz, saneamento, educação, saúde. A melhor forma
de defesa de seus direitos individuais e coletivos era a organização
de uma entidade. Daí surgiu a associação dos moradores
e amigos dos bairros, dispostos à luta de resistência
e ação transformadora nas áreas periféricas
de Curitiba destituídas de mínimas condições
de vida. O movimento evoluiu, novas associações foram
criadas, as reivindicações foram levadas ao poder público
municipal e estadual, lideranças firmaram-se, construindo-se
um forte, compacto e extenso sistema associativo popular em defesa
da moradia. Em decorrência da época, o movimento expandiu-se
para contornos políticos na luta contra a ditadura militar e
a favor da anistia ampla e irrestrita. Sempre atuando com respaldo
na legitimidade da forma organizativa, como nas ações
de defesa e justa reivindicação de direitos, o movimento
uniu capacitação jurídica, unidade social e força
política. Após a anistia de 1979 e a reconstituição
político-partidária, as lideranças comunitárias
integraram-se nos partidos de oposição, em especial o
PMDB e o PT, passando a atuar no campo institucional. Esse movimento
levou à primeira eleição do hoje governador Roberto
Requião, em 1982, a deputado estadual, e respaldou minha candidatura
a governador do Estado, no mesmo ano. Várias lideranças
integraram-se nas oposições sindicais e conseguiram expressivas
vitórias nas eleições das entidades sindicais
de trabalhadores, tornando-se combativos dirigentes até os dias
atuais.
No dia 24 de agosto último, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva homenageou a Jairo Graminho de Oliveira, hoje com 80
anos e presidente da União Geral de Bairros de Curitiba e Região
Metropolitana, durante as solenidades de divulgação do
Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no bairro
de Guarituba, em Piraquara, região metropolitana de Curitiba.
Aquele local sintetiza a luta pela moradia com consciência ambiental,
ou seja, a ocupação localizada em área de preservação,
onde vivem 12 mil famílias. As obras de urbanização
e regularização fundiária receberão recursos
federais e estaduais, garantindo a preservação ambiental
da região, responsável pelo abastecimento de água
de 75% da população da Grande Curitiba, incluindo a transferência
das famílias que ocupam a região de mananciais, em um
amplo projeto urbanístico. Jairo, símbolo da luta pela
moradia, sintetiza, de modo simples e objetivo, a ação
dos trabalhadores, ao afirmar: “Isto vem se batendo até hoje,
a reivindicação continua”, no sentido de que, mesmo
acumulando vitórias parciais, a classe trabalhadora ainda tem
uma longa jornada a percorrer rumo a uma sociedade justa, fraterna
e igualitária.
Nos atos públicos, tanto em Curitiba, como em Porto Alegre,
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por ser o dia da morte
de Getúlio Vargas, relembrou a obra do Presidente e assinalou: “Inegavelmente
se Getúlio Vargas não tivesse feito nada neste país,
além da Consolidação das Leis do Trabalho, ele
teria sido o presidente da República que tirou uma nação
do estágio de semi-escravidão para torná-los cidadãos
com direitos”. Marcante, ainda, nos pronunciamentos, as obras
destinadas à população pobre, ao frisar: “Tem
no Brasil um tipo de gente que não gosta que a gente faça
coisas para os pobres. E é tão fácil ajudar os
mais pobres, porque quando um rico entra no Palácio do Planalto
ele quer logo crédito de um bilhão, quando o pobre entra
ele que mil, quinhentos reais...”.
MP 385: A MP 385 (DOU 23/8) garante aos trabalhadores
rurais eventuais, sem vínculo empregatício, o direito
de requerer aposentadoria por idade até julho de 2008, homens
aos 60 anos e mulheres aos 55 anos, valor de um salário mínimo,
desde que comprovado o efetivo exercício da atividade rural,
ainda de que forma descontinuada *** O INSS lançou o Plano de
Ações Prioritárias assegurando que os benefícios
sejam concedidos no prazo legal de 45 dias a partir de 2008. Neste
ano, a meta é resolver todos os processos em andamento ate´dezembro,
estando previsto, ainda, a redução do tempo entre o agendamento
e a realização das períciais médicas.
Direitos Humanos: A Convenção dos
Direitos das Pessoas com Deficiência, da Organização
das Nações Unidas, já conta com a adesão
de 101 países, devendo ser encaminhada pelo governo federal
ao Congresso Nacional para, em forma de emenda constitucional, possa
ser incorporada aos direitos humanos fundamentais. Atualmente, está em
debate na Câmara dos Deputados o projeto de lei do Estatuto
das Pessoas com Deficiência *** 20 mil câmeras de vigilância
da polícia estão sendo instaladas nas ruas de Shenzhen,
China, que reconhecerão automaticamente fisionomias de pessoas
suspeitas da polícia, que já possui 180 mil câmeras
de circuito fechado, internas e externas, de empresas e agências
do governo, A maior parte dos 12,4 milhões de habitantes da
cidade receberão cartões de residência equipados
com chips de computador programado pela mesma empresa norte-americana
responsável pelo projeto, com todos os dados pessoais,até mesmo
o histórico reprodutivo. Ativistas de direitos humanos denunciam
a violação do direito de privacidade inserto na Convenção
Internacional sobre Direitos Políticos e Civis.
TRT4: A 7.ª Turma do TRT/RS decidiu que o prazo
prescricional relativo às ações de indenização
por dano moral e material decorrente de doença ocupacional é o
contido no Código Civil, por não se tratar de crédito
trabalhista, mas sim de reparação civil. Segundo o Tribunal,
a indenização pretendida não deflui diretamente
de obrigação trabalhista original, sendo que o crédito
daí derivado é atípico, com origem na responsabilidade
civil resultante de ato ou omissão (TRT RS RO 02667 2005 404
04 00 6).
TRT9: “Assédio moral. Conduta agressiva.
Metas de difícil alcance. O abuso do poder diretivo, pela conduta
agressiva e constrangedora do superior hierárquico, configura
assédio moral, da mesma forma que a exigência de metas
de extrema dificuldade, com o claro intuito de solapar a auto-estima
do empregado que, frustrado pelo insucesso no cumprimento das ordens,
aceita ou mesmo pede desligamento. Não se cogita de eximir a
empresa de responsabilidade porque o dano foi causado pelo preposto.
Ao lado da responsabilidade pelo fato próprio, a responsabilidade
por fato de outrem atende às necessidades impostas pela complexidade
da vida social moderna. Não se trata de responsabilidade sem
culpa, mas de responsabilidade pelo fato de outrem, porém por
culpa própria, porque as pessoas que respondem a esse título
terão sempre contribuído para o fato danoso, a exemplo
do empregador, nos termos do art. 1.521 do Código Civil de 1916,
com redação apenas atualizada no Novo CCB. Recurso a
que se nega provimento para manter a decisão que reconheceu
a ocorrência de assédio moral” (TRT PR 15788 2003
012 09 00 0 Ac.10305/2007, 2.ª Turma, DJPR 24/4/2007).
TST: “Recurso de embargos. Prescrição.
Trabalhador rural. Emenda Constitucional n.º 28/2000. Ajuizada
a ação em 18.04.2001, dentro do prazo de cinco anos contados
da vigência da Emenda Constitucional n.º 28/2000 e do biênio
posterior à extinção do contrato, operada em 13.11.2000,
tem o empregado garantida a imprescritibilidade dos direitos oriundos
do vínculo de emprego. Embargos não conhecidos” (TST
E ED RR 200/2002 900 18 00 8 Ac. SBDII, relator ministro Aloysio Corrêa
da Veiga, DJU 29/6/2007).
Direito Internacional Privado: “Normas Imperativas
de Direito Internacional Privado (lois de police)” (Editora
Fórum) é o livro da professora de Direito Internacional
da UFPR Dra. Tatyana Scheila Friedrich, lançado durante o
5.º Congresso Brasileiro de Direito Internacional, realizado
em Curitiba. A obra trata de um tema jurídico inédito
no Brasil ao fazer estudo sobre regras nacionais impositivas que
não podem ser afastadas ao se solucionar um caso envolvendo
questões privadas internacionais, sendo de aplicação
imediata. Os direitos humanos previstos na Constituição
Federal ou em tratados internacionais devem assim ser considerados
e aplicados, ou seja, qualificados como normas imperativas de modo
a prevalecer sempre o princípio da dignidade da pessoa humana.
Sindical: As centrais sindicais, em reunião
com o presidente da Câmara dos Deputados, provaram agenda de
projetos de lei de interesse dos trabalhadores, visando priorizar o
debate e votação de proposições fundamentais,
quer relativas ao movimento sindical, como a legalização
das Centrais e a regulamentação das contribuições
assistenciais, ou sobre direitos individuais e coletivos dos trabalhadores
*** A Coordenação das Federações de Trabalhadores
do Paraná reuniu-se com técnicos da Secretaria de Educação
do governo do Paraná para analisar a participação
das entidades sindicais nos planos de alfabetização e
elevação da escolaridade dos trabalhadores *** No primeiro
semestre deste ano, os trabalhadores, através de acordos e convenções
coletivas de trabalho, obtiveram ganhos reais em 87,5% nos instrumentos
normativos, de 1 a 2% acima dos índices inflacionários,
melhor resultado nos últimos onze anos, segundo o Dieese. Ainda
de janeiro a julho foram criados 1,22 milhão de empregos com
carteira assinada, 13% superior a 2006. Para 2008, serão aplicados
959 milhões do Fundo do Amparo ao Trabalhador em cursos de capacitação
para setores onde há falta de determinados profissionais, valor
nove vezes maior em relação ao ano em curso.
Juca Pato: O embaixador e secretário-geral
do Ministério de Relações Exteriores Samuel Pinheiro
Guimarães foi proclamado o “Intelectual do Ano de 2006”,
recebendo o troféu “Juca Pato” da União Brasileira
de Escritores, em especial pela publicação da obra “Desafios
Brasileiros na Era dos Gigantes” (Editora Contraponto), excelente
análise do atual cenário internacional e da posição
do Brasil nas complexas relações exteriores. Pinheiro
Guimarães se notabilizou, em especial, pela sua obra “Quinhentos
Anos de Periferia” (Editora Contraponto, 5.ª edição).
“O Brasil pode contribuir para a preservação da
paz, para o desenvolvimento econômico e social, para a construção
da democracia na esfera internacional, de tal forma que cada sociedade,
observados os preceitos fundamentais de autodeterminação
e não-intervenção inscritos na Carta da ONU, possa
prosseguir em sua evolução histórica. Um mundo
melhor será aquele em que as promessas de desarmamento se realizem;
em que os preceitos do Direito Internacional sejam obedecidos pelas
grandes potências; em que as diferenças econômicas
entre os Estados se reduzam; em que o meio ambiente seja preservado;
em que os direitos humanos, políticos, econômicos e sociais
sejam respeitados; em que a pobreza e a miséria sejam abolidas;
em que cada indivíduo possa desenvolver todo o seu potencial.
Com esses objetivos, o presidente Lula e o ministro Celso Amorim têm
defendido a democratização das instâncias internacionais
de decisão, como o Conselho de Segurança da ONU e o G8” (Samuel
Pinheiro Guimarães)
Edésio Passos é advogado e
ex-deputado federal (PT/PR).
edesiopassos@terra.com.br
|
Folha de São Paulo, 2 de setembro
de 2007
Lula deve apostar em Ciro para sucedê-lo,
diz cientista política
Rachel Meneguello, livre-docente da Unicamp,
avalia que PT não tem candidato para disputar Presidência
em 2010
Estudiosa do partido afirma que ele somente conseguiu
sobreviver ao escândalo do mensalão porque ainda tinha
o apoio de suas bases
MAURICIO PULS
DA REDAÇÃO
A cientista política Rachel Meneguello, 48, acredita que o
PT hoje não tem um candidato capaz de vencer a eleição
presidencial de 2010 e que só Ciro Gomes (PSB) seria capaz de
levar adiante o projeto nacional de Lula: "Ciro provavelmente
seria o único que pudesse dar seqüência a uma certa
proposta do Lula de reversão da política brasileira para
o Nordeste". Autora de "PT - A Formação de
um Partido" (1989) e de "Partidos e Governos no Brasil Contemporâneo" (1998),
Meneguello é professora livre-docente do Departamento de Ciência
Política da Unicamp. Leia a seguir trechos da entrevista:
FOLHA - O PT se estruturou nos anos 80 como um partido
baseado nos chamados núcleos de base, mas nos anos 90 eles entraram
em declínio: em 1995, dos 700 mil filiados, só 100 mil
participaram da campanha de refiliação. Hoje o PT tem
mais de um milhão de filiados. Mas como o partido está organizado?
RACHEL MENEGUELLO - Um momento importante
da transformação do PT ocorre quando ele começa
a ganhar cargos no Parlamento e cresce o número de assessores.
Até então você tinha um partido de massas,
mas com um funcionamento muito limitado, baseado no trabalho
voluntário. Quando ele começa a obter postos,
esse processo de institucionalização do PT muda
seu funcionamento. Com isso ele não está descobrindo
nada novo, está seguindo o caminho dos partidos de esquerda
na Europa. É a mesma evolução. É isso
que lhe permite almejar postos de outra natureza na cena pública,
sobretudo no Executivo. Em 2002, quando o PT ganha as eleições
para a Presidência, surge outro ponto de mudança,
com a perda de muitos quadros para o governo federal. O partido
tem que se reestruturar e perde um pouco daquela dinâmica
democrática.
Quando um partido de esquerda entra num governo, isso tem impacto profundo
na sua estrutura: suas lideranças estão em outra dimensão,
não têm mais relação com as bases. Hoje os
núcleos de base talvez influenciem muito pouco o partido. O partido
se ressente disso.
FOLHA - O partido se ressente de ter chegado ao poder?
MENEGUELLO - Ele não dá conta de manter
sua estrutura interna: num governo partidário, o partido precisa
povoar a administração. O partido tem seus institutos
de formação, mas não consegue formar tantos
quadros. Além disso, o PT sofre internamente devido ao choque
cultural imposto por uma dinâmica de negociações,
de troca de cargos. Depois você tem a crise de 2005, que afetou
as principais lideranças do PT.
FOLHA - Como a legenda sobreviveu ao escândalo
do mensalão?
MENEGUELLO - Ela conseguiu ultrapassar os seus piores
momentos graças à sua estruturação interna
mesmo. Você teve mil trocas na direção, suas
lideranças foram amplamente afetadas. O que segurou o PT na
crise foram as suas bases. Se o partido tivesse prestado mais atenção
aos movimentos sociais, teria sofrido menos. Ele sobreviveu por causa
dessa estrutura que ainda permanecia.
FOLHA - Hoje o PT defende a redistribuição
de renda, a ampliação do mercado interno e a eliminação
da miséria. É uma social-democracia adaptada ao Terceiro
Mundo?
MENEGUELLO - A social-democracia define-se
pela relação com o trabalho -ela estabelece uma
saída para a relação capital-trabalho.
Quando você monta a campanha de 2002 com o José Alencar,
um representante do capital nacional que tinha se dado muito
mal no governo anterior, essa associação capital-trabalho é uma
fórmula social-democrática.
FOLHA - O partido é um herdeiro do projeto
nacional-desenvolvimentista de Getúlio Vargas?
MENEGUELLO - Acho que ele é mais moderno
do que isso, porque a proposta varguista era muito populista.
Como proposta de desenvolvimento nacional unindo capital e
trabalho, ela parece muito com isso, mas certamente não é o
varguismo.
FOLHA - O PT já enfrentou várias cisões
(que originaram o PCO, PSTU, PSOL), mas até agora nenhuma delas
parece ter demonstrado vocação para criar outro partido
de massa.
MENEGUELLO - Essas cisões de esquerda
não têm a intenção de virar partidos
de massa. Esse é o limite delas -é o limite de
se transformar cisões internas em pequenos partidos
de esquerda. É a natureza delas: PCO, PSTU, PSOL não
avançam na relação com o eleitorado. Não é que
elas não conseguem fazer isso: elas não querem
fazê-lo.
FOLHA - Por enquanto não há perspectiva
de substituição do PT por outra legenda de esquerda?
MENEGUELLO - Não. No cenário
nacional hoje não há nenhum outro partido com
a mesma natureza de massa que o PT.
FOLHA - Quais são as perspectivas do partido
sem Lula concorrendo?
MENEGUELLO - Hoje o PT não tem candidato à Presidência.
Não vejo com muito dificuldade que o Lula mesmo vá atrás
de Ciro Gomes. Ciro provavelmente seria o único que pudesse
dar seqüência a uma certa proposta do Lula de reversão
da política brasileira para o Nordeste. Pois o Lula fez isso
com a política nacional: trouxe o Nordeste para a cena política.
|
Folha de São Paulo, 2 de setembro
de 2007
ONGs sindicais recebem R$ 42
mi sob Lula
Dinheiro foi pago por União,
Petrobras e Sebrae entre 2003 e 2007 a 4 entidades ligadas
a CUT e CGTB, que apóiam petista
Entre 1996 e dezembro de 2002, no governo FHC, o
repasse de recursos para as mesmas quatro instituições
foi de apenas R$ 866 mil
RUBENS VALENTE
DA REPORTAGEM LOCAL
O governo federal, a estatal Petrobras e o Sebrae destinaram, entre
2003 e 2007, R$ 41,8 milhões para organizações
não-governamentais ligadas a duas das centrais sindicais que
apóiam o governo, a CUT (Central Única dos Trabalhadores),
controlada pelo PT, e a CGTB (Central Geral dos Trabalhadores do Brasil),
dirigida por integrantes do grupo peemedebista MR-8 e do PMDB quercista.
O valor, que não inclui os repasses feitos às centrais,
equivale à soma de seis receitas anuais da CUT e da CGTB. Os recursos
foram destinados à ADS (Agência de Desenvolvimento Solidário), à Escola
Sindical de São Paulo e à cooperativa Unisol Brasil, relacionadas à CUT,
e ao Instituto do Trabalho Dante Pellacani, vinculado à CGTB.
Os convênios, segundo as entidades, têm por objetivo ações
de alfabetização de trabalhadores e de formação
de mão-de-obra.
Entre 1996 e 19 de dezembro de 2002 (governo FHC), o repasse de recursos
para as mesmas quatro entidades foi de apenas R$ 866 mil. Em 20 de dezembro
do último ano do segundo mandato de FHC, o Sebrae assinou convênio
de R$ 5,2 milhões com a ADS - a gestão do Sebrae já ocorria, à época,
sob orientação de um acordo PT-PSDB pelo qual o presidente
eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, havia apoiado o nome de Silvano
Gianni. Os recursos do convênio foram liberados entre 2003 e 2004.
A partir de 2003, o governo passou a reduzir o repasse direto às
centrais sindicais, após uma decisão do TCU (Tribunal de
Contas da União) que questionou certas linhas de financiamento.
Ao mesmo tempo, aumentou o repasse às entidades ligadas às
centrais.
Além do apoio indireto às ONGs sindicais, o governo enviou à Casa
Civil, em junho, um projeto de lei pelo qual elas serão legalizadas
e passarão a usufruir de estimados R$ 120 milhões anuais.
Por ano, a União recebe cerca de R$ 240 milhões descontados
do imposto sindical, e abrirá mão de metade disso para
as centrais.
Hoje, somadas, as receitas anuais das cinco principais centrais não
ultrapassam R$ 12 milhões, segundo estimativas do setor. O projeto
prevê a criação de um conselho nacional de "relações
do trabalho".
" Essa medida que foi negociada pelo governo, pela CUT e pela Força
Sindical se trata de uma operação de compra e venda. O governo
legaliza e dá dinheiro às centrais, e elas abrem mão dos
direitos dos trabalhadores", disse José Maria de Almeida, coordenador
da Conlutas (Coordenação Nacional de Lutas) e ex-candidato à Presidência
pelo PSTU.
Fiscalização
A entidade ligada à CGTB é o ITDP (Instituto do Trabalho
Dante Pellacani) -o presidente do instituto é indicado pela central,
o atual é Carlos Alberto Pereira, secretário-geral da CGTB.
No ano passado, a CGU (Controladoria Geral da União) fez uma inspeção
em projeto mantido pelo ITDP em Belford Roxo (RJ).
A conclusão indicava uma fraude: "Dos 40 alunos da amostra:
16 nomes não existem, 13 alunos não possuem telefone, 3
alunos residem em outros municípios, 1 aluno tem muitos homônimos
e 7 alunos possuem telefone. Dos 7 alunos que possuem telefone, 3 confirmaram
que não participaram do programa e 4 não foram localizados.
De outro lado, também não foi possível localizar
nenhuma das quatro alfabetizadoras nas suas residências, as quais
coincidem com os endereços das suas respectivas turmas",
diz o relatório da CGU.
Em entrevista na sede da CGTB, Pereira negou as irregularidades e disse
que houve um "mal-entendido já esclarecido". Além
dos repasses a instituições ligadas às centrais,
a CUT recebeu R$ 25 milhões diretos do governo entre 2004 e 2006,
e a Força Sindical, R$ 23 milhões. No governo FHC, esses
valores foram até 60% superiores - situação que
mudou após a manifestação do TCU que viu problemas
em alguns modelos de convênios com as centrais.
|
Folha de São Paulo, 2 de setembro
de 2007
CONGRESSO:
Governo vai mandar projeto para regularizar
centrais
O governo enviará projeto de lei ao Congresso para legalizar as
centrais sindicais e, assim, destinar a elas cerca de R$ 120 milhões
anuais. A proposta -preparada pelo Ministério do Trabalho e enviada à Casa
Civil- opõe, de um lado, as cinco maiores centrais que apóiam
o governo, e, de outro, a Conlutas, dirigida por integrantes do PSTU
e do PSOL.
|
Folha de São Paulo, 2 de setembro
de 2007
Economia forte valoriza elite
do emprego
Empresas disputam mão-de-obra
qualificada com atrativos como ações, período
sabático fora do país, bônus altos, carros
e moradia
Sem dispor desse profissional em abundância,
companhias têm preferido manter mais empregados a ficar só com
os estritamente necessários
CRISTIANE BARBIERI
DA REPORTAGEM LOCAL
O aquecimento da economia está valorizando o "passe" de
profissionais de várias áreas e fazendo as empresas disputarem
mão-de-obra qualificada com atrativos como ações,
períodos sabáticos fora do país, planos de saúde
de primeira linha, bônus altos, carros e moradia. E salários
maiores.
O "downsizing", termo que esteve na moda desde os anos 1990,
saiu do vocabulário das empresas, ao menos por enquanto. Sem dispor
de mão-de-obra qualificada em abundância, muitas companhias
preferem manter mais profissionais em seus quadros a ficar só com
os estritamente necessários.
" A economia aquecida tem feito as empresas evitarem o efeito sanfona de
contratar e demitir", diz Fábio Pereira, gerente da empresa de recrutamento
de executivos Michael Page. "As companhias preferem ter uma certa gordurinha
para não ficar na mão, numa hora em que os profissionais são
disputados a tapa."
Pode parecer exagero, principalmente quando as taxas de desemprego superam
os 10% em algumas regiões do país. Esses profissionais,
no entanto, estão na categoria dos que não só tiveram
excelente formação como contam com vários anos de
experiência. "É até difícil dizer qual área
está mais aquecida, porque está tudo aquecido", diz
Flávio Kosminsky, sócio da empresa de busca de executivos
Korn Ferry.
Entre os setores em alta, estão financeiro, agronegócios,
tecnologia, engenharia, logística, advocacia e até recursos
humanos e "headhunting", o dos caçadores de talentos. "Vivemos
um dos momentos mais aquecidos no mercado de busca de executivos",
diz Renata Fabrini, vice-presidente e sócia da Fesa Global Recruiters. "Exatamente
por isso os caçadores estão virando caça."
A demanda em alta tem reflexo nos contracheques. No setor financeiro,
por exemplo, houve aumento de 25% a 30% nos salários em relação
a 2005.
" As empresas têm de ser muito criativas para trazer e segurar profissionais
dessa área", diz Gijs zan Delft, gerente da área de finanças
da Michael Page. "Se um diretor de relações com investidores
ganhava R$ 25 mil mensais há dois anos, hoje eles não recebem menos
de R$ 28 mil a R$ 30 mil."
Benefícios
Isso sem contar com remuneração variável relacionada
a metas e opções em ações, geralmente ligadas
a processos bem-sucedidos de abertura de capital. Segundo Delft, somados,
os benefícios variam de R$ 400 mil a R$ 2 milhões. A área
financeira é a que mais impressiona, mas o quadro repete-se em
outras carreiras. Pereira, da Michael Page, conta o caso de um especialista
em barragens de hidrelétricas, cujo salário passou de R$
11 mil a R$ 18 mil em duas semanas. "Ele teve uma oferta de uma
empresa, com um aumento salarial de 20%", diz.
"Na semana seguinte, outra companhia o convidou e aí veio o verdadeiro
salto."
O setor de "supply chain", que reúne especialistas em
logística, compras e transporte, também sofre com a falta
de mão-de-obra qualificada. Segundo as empresas de busca de executivos,
o salário de um gerente sênior, que em 2006 variava de R$
8.000 a R$ 10 mil, hoje é de R$ 12 mil a R$ 15 mil.
De acordo com os "headhunters", também é difícil
para as empresas contratarem profissionais de TI (tecnologia da informação),
já que a maioria deles ganha mais prestando serviços de
consultoria e não se importa com carreiras de longo prazo. Para
ocupar vagas em recursos humanos, muitas empresas têm preferido
trazer profissionais de outros setores, como administradores, engenheiros
e advogados. "Há uma demanda por profissionais de RH que
conheçam o negócio", diz Kosminsky. "Muitos profissionais
não perceberam isso."
|
Consultor Jurídico, 2 de setembro
de 2007
Horas de sobreaviso devem ser pagas
para evitar regime de prontidão
Havendo cláusula coletiva que determina o pagamento de horas de
sobreaviso, sem qualquer ressalva quanto ao fato de o empregado ser obrigado
ou não a ficar em casa, basta a prova de que permanecia em regime
de prontidão para que este faça jus à parcela.
Com este entendimento, a 7ª Turma do TRT (Tribunal Regional do
Trabalho) da 3ª região (Minas Gerais), acompanhando voto
do desembargador Paulo Roberto de Castro, deu provimento a recurso
ordinário de um reclamante que pleiteava o pagamento do adicional
de horas de sobreaviso por ter ficado à disposição
da empresa através do telefone.
Apesar de o uso do BIP (ou celular) pelo empregado, por si só,
não caracteriza o regime de sobreaviso, pois o empregado não
permanece em sua residência aguardando a convocação
para o serviço, a cláusula da convenção
coletiva da categoria prevê expressamente que aos empregados
em regime de sobreaviso e à disposição da empresa
deverá ser pago o percentual de sobreaviso de 1/3 sobre a hora
normal.
A empresa contestou a alegação de que o empregado permanecia à sua
disposição, todos os dias e por 24 horas, através
de telefone celular ou residencial, pronto a solucionar problemas a
qualquer hora. A empresa alegou que o uso do celular não cerceia
a liberdade de locomoção do reclamante e que este, quando
foi efetivamente chamado, recebeu o pagamento devido, acrescido do
adicional de sobreaviso previsto em norma coletiva.
Mas o desembargador frisou que, “havendo norma coletiva que
determina o pagamento da parcela, sem qualquer ressalva quanto ao fato
de o empregado ser obrigado ou não a permanecer em casa, como
os ferroviários, não cabe ao Juízo criar obstáculo
ao deferimento da parcela”.
|