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JORNAL
FOLHA DE SÃO PAULO, 24 de setembro de 2007 | Brasil
MPs trancam 82% das sessões do
Senado
De 84 sessões deliberativas da
atual legislatura, 69 estiveram travadas, maior índice
desde que Lula chegou à Presidência | Pela Constituição,
as MPs travam votações na Casa porque ganham prioridade
na pauta caso não sejam analisadas em até 45 dias
FERNANDO BARROS DE MELLO
DA REDAÇÃO
O resumo do ano no
Senado não é dos mais animadores para o Palácio
do Planalto. Quando a CPMF chegar por lá, os governistas
deverão encontrar uma pauta trancada, o que pode obrigá-los
a abrir mão de medidas provisórias, como aconteceu
na Câmara.
Levantamento feito pela Folha mostra que, até o dia 13 de setembro,
de 84 sessões deliberativas da atual legislatura do Senado, 69 estiveram
trancadas por MPs (82,14%). Na opinião de cientistas políticos,
isso ocorreu em um ano marcado por dificuldade em votações e
ausência de aprovações importantes no plenário.
Por esse motivo, complementam os especialistas, a prorrogação
da CPMF no Senado torna-se o maior embate político do segundo governo
Lula até aqui.
As MPs normalmente travam as votações do Senado porque, pela
Constituição, ganham prioridade na pauta caso não sejam
analisadas em 45 dias, prazo que é esgotado quase sempre na Câmara,
por onde as MPs começam a tramitar.
O percentual de sessões trancadas no Senado é o maior desde que
Lula chegou à presidência, em 2003. De acordo com dados do relatório
da Presidência do Senado- documento que mostra a atividade da Casa a
cada ano-, em 2006, 56,6% das sessões deliberativas foram "sobrestadas
por medidas provisórias", enquanto, em 2005, foram 52,8%. Em 2004,
o percentual chegou a 39,4% e, no ano anterior, a 35,8%.
Para aprovar uma emenda constitucional -como no caso da CPMF-, são necessárias
votações em dois turnos na Câmara e no Senado, com aprovação
mínima de três quintos das duas Casas.
" Na Câmara, a oposição conta com pouco mais de cem
deputados. Por outro lado, a maioria governista no Senado é muito menos
confortável e está perdendo eficiência com a sucessão
de escândalos e a má condução de crises. Por isso,
a votação da CPMF encontrará dificuldades", diz o doutor
em ciência política pelo Iuperj José Luciano de Mattos Dias,
que acompanha o Legislativo na consultoria CAC.
Ele acredita que "o presidencialismo de coalizão está em
crise" porque "barganhas políticas", como indicações
para cargos e liberação de emendas parlamentares, estão
ficando cada vez mais "caras". "A pauta travada mostra a eficácia
declinante desse sistema."
Segundo dados do site do Planalto atualizados na última sexta-feira,
em 2006, foram 67 MPs enviadas e 61 convertidas em lei (algumas apenas em 2007).
Em 2005, foram 42 enviadas e 34 convertidas (algumas em 2006). Já em
2003, 57 das 58 MPs enviadas foram convertidas no mesmo ano ou no começo
de 2004.
Este ano, foram 52 MPs enviadas ao Congresso, das quais 30 foram convertidas
em leis ordinárias- votação por maioria simples e em um
turno nas duas casas. Na semana passada, três MPs foram revogadas para
destravar a pauta na Câmara dos Deputados, o que permitiu ao governo
votar a CPMF.
O cientista político Cristiano Noronha, que faz acompanhamento legislativo
na Arko Advise, afirma que "a quantidade de leis ordinárias aprovadas
este ano mostra que, apesar das crises, houve produção legislativa".
Porém, ele ressalta: "O problema é que as leis são
basicamente abertura de créditos extraordinários. São
leis meramente burocráticas".
Colaborou a Sucursal de Brasília
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CONTAS ABERTAS, 24 de setembro
de 2007
Emprego cresce e pagamento de seguro-desemprego
sobe 15% em 6 anos
Se por um lado o mercado de trabalho cresceu nos últimos anos, por outro,
paradoxalmente, os gastos do governo com o auxílio pago a pessoas dispensadas
sem justa causa aumentou de maneira explosiva. De acordo com a Pesquisa Nacional
por Amostra de Domicílio (Pnad/2006), do IBGE, no ano passado, o número
de trabalhadores aumentou 2,4%, enquanto que a quantidade de carteiras assinadas
cresceu 4,7%. A taxa de desemprego, por sua vez, caiu 0,9 pontos percentuais.
No entanto, os gastos do governo com o pagamento do seguro-desemprego também
cresceram cerca de 3,9% no mesmo período, já descontados os efeitos
da inflação e do salário mínimo.
Nos últimos seis anos,
os gastos com seguro-desemprego sofreram um aumento real de 15% (veja
tabela). No ano passado, a despesa da União com o benefício
atingiu R$ 11,7 bilhões, a maior marca dos últimos tempos,
em valores atualizados. Somente nos primeiros oito meses deste ano, R$
8,7 bilhões já foram concedidos aos desempegados, um recorde
para o período. O valor pago em 2007 para arcar com o benefício
obteve um aumento de 11,4% em relação ao mesmo período
do ano passado e, para se ter uma idéia, é maior do que
o dobro investido pelo governo federal em 2007 (valores pagos), no Programa
de Aceleração do Crescimento (PAC), R$ 3,5 bilhões.
Com o objetivo de verificar o andamento do Programa de Seguro-Desemprego,
o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) pretende contratar uma
empresa especializada para auditar o pagamento do auxílio.
A preocupação do
governo é verificar os resultados e os benefícios alcançados
pelo programa. A auditoria poderá investigar também eventuais
irregularidades cometidas no pagamento do benefício. A proposta
será analisada na próxima reunião do Conselho Deliberativo
do Fundo de Amparo ao Trabalhador (CODEFAT) e, se aprovada, deverá ser
executada por uma empresa especializada contratada pelo ministério.
O objetivo é apresentar diagnóstico crítico das
ações do Programa do Seguro-Desemprego e subsidiar a correção
de eventuais distorções dos objetivos iniciais do benefício,
a partir da identificação das causas do desempenho obtido.
A avaliação também tem como objetivo maximizar a
efetividade do programa e a eficiência na alocação
de recursos.
Segundo o boletim de análise
da conjuntura econômica brasileira publicado pelo Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) este mês, a evolução
do seguro-desemprego está relacionada ao aumento do salário
mínimo. De 2001 a 2007, o salário mínimo mais que
dobrou, saltando de R$ 151 para R$ 380. No entanto, mesmo desconsiderando
o impacto desse aumento, o crescimento dos gastos federais com o auxílio
permanece significativo. O Ipea informa também que a expectativa
para os próximos meses é de manutenção desse
cenário de expansão de emprego e, ainda que em menor escala,
dos rendimentos. A queda nas taxas de juros e o forte crescimento do
consumo das famílias devem garantir a criação de
novos postos de trabalho e a ampliação da demanda.
Segundo o documento, esse aquecimento
do mercado de trabalho, entretanto, deve ser compatível com uma
expansão da capacidade produtiva a fim de que eventuais pressões
inflacionárias possam ser anuladas. De acordo com o instituto,
a inserção de novos trabalhadores no mercado vem gerando
um forte crescimento da massa salarial habitual, cerca de 7,2%. O diretor
do Instituto de Economia da UFRJ, João Saboia, explica que com
a economia crescendo em um ritmo mais forte do que nos últimos
dois anos, a tendência é que isso gere impactos nos gastos
com o benefício. “Neste ano o crescimento deve atingir cerca
de 5%. Se persistir esse ritmo, devemos continuar verificando novas quedas
na taxa de desemprego nos próximos meses, reduzindo a pressão
sobre o seguro-desemprego”, afirma. No entanto, não é o
que indicam as previsões do governo. Pelas projeções
do Plano Plurianual (PPA), o custo do seguro-desemprego para os cofres
públicos deve subir ainda mais, atingindo os R$ 19,5 bilhões
em 2010, apesar da boa fase da economia.
O diretor do departamento de
emprego e salário do Ministério do Trabalho, Rodolfo Torelly,
admite que os gastos com o seguro-desemprego estão crescendo.
No entanto, Torelly explica que não é porque o aumento
de ocupados e de carteiras assinadas está aumentando que o benefício
deveria estar diminuindo. “Só este ano, por exemplo, mais
de oito milhões se desligaram de seus empregos. Cerca de 60% desses
recorrem ao benefício. Isso é uma média histórica
e faz com que os gastos com o seguro aumentem, mesmo com a entrada de
cerca de 10 milhões de pessoas no mercado”, diz.
Segundo Torelly, a alta rotatividade
do mercado brasileiro - estimulada, entre outras coisas, pela possibilidade
de saque do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço e pela perspectiva
de rápida recolocação no mercado de trabalho - também é um
dos motivos para o crescimento do montante pago com seguro-desemprego. “Hoje
há muita substituição de empregado devido à competitividade.
Há ainda o fato de que, depois de um determinado período
trabalhando em um local, o trabalhador vê a possibilidade de ganhar
muitos benefícios ao forçar uma demissão”,
afirma. O diretor destaca ainda que os segurados - os quais podem receber
até cinco parcelas do benefício - ganham em média
4 delas.
Para o economista do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES) José Roberto Afonso é no mínimo surpreendente
que as despesas com o seguro desemprego não diminuam no momento em que
a economia vai bem. Seria uma espécie de paradoxo do crescimento. Em
relação à alta rotatividade do mercado, alegada como motivo
pelo Ministério para o aumento do benefício, o economista pondera. “Nesse
caso, os saques do FGTS também deveriam explodir. Além disso,
por essa lógica, se o trabalhador foi despedido mas conseguiu emprego
novo, não deveria recorrer ao seguro-desemprego”.
Em relação a próxima
reunião do CODEFAT, que consta na pauta discussão sobre
a contratação de uma empresa para realizar uma auditoria
sobre o programa, Torelly afirma que é uma atitude normal. "A
avaliação servirá para verificar a integração
das ações do programa de seguro-desemprego. Claro que eventuais
fraudes poderão ser descobertas", afirma. O diretor nega
que a iniciativa para se realizar a avaliação esteja baseada
no aumento de gastos com o benefício. "É um panorama
geral sobre o programa. Além disso, a CGU e o TCU já realizam
auditoria para verificar o andamento dos trabalhos", conclui.
Como funciona o seguro-desemprego
O Programa do Seguro-Desemprego,
conforme definido no Artigo 2° da Lei 7.998, de 11 de janeiro de
1990, tem por finalidade prover assistência financeira temporária
ao trabalhador desempregado em virtude de dispensa sem justa causa. Além
disso, auxilia os trabalhadores requerentes ao seguro-desemprego na busca
de novo trabalho, podendo ainda promover a sua reciclagem profissional.
O valor varia de acordo com a faixa salarial, sendo pago de três
a cinco parcelas, conforme a situação atual do beneficiário.
O benefício pode ser requerido
por todo trabalhador dispensado sem justa causa e por aqueles cujo contrato
de trabalho foi suspenso em virtude de participação em
curso ou programa de qualificação oferecido pelo empregador.
Também pode ser solicitado por pescadores profissionais durante
o período em que a pesca é proibida, devido à procriação
das espécies e por trabalhadores resgatados da condição
análoga à de escravidão.
Leandro Kleber
Do Contas Abertas
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CONTAS ABERTAS, 24 de setembro
de 2007
Inflação pode chegar
a 5% até 2010 se gastos públicos não diminuírem,
diz Ipea
No ritmo em que andam, os gastos
da administração pública podem gerar sérios
impactos na taxa de inflação do país. O alerta
foi feito no boletim do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
(Ipea), que faz uma avaliação da atual conjuntura
econômica brasileira e traça perspectivas para os
próximos anos. Só nos primeiros sete meses de 2007,
as despesas do Governo Central cresceram 9,4% em relação
ao mesmo período do ano passado. Segundo os especialistas,
caso a taxa de variação real do gasto público
não diminua no ano que vem, o país corre um sério
risco de ter que conviver com uma inflação da ordem
de 5% entre 2009 e 2010.
No boletim deste mês, o
Ipea também reviu ligeiramente para cima a projeção
de crescimento da economia brasileira em 2007, que aumentou de 4,3% (em
junho) para 4,5% na análise de setembro. A revisão está associada
a uma melhora da projeção de crescimento de investimento
(de 9,0% para 10,0%) e do consumo privado (de 5,7% para 6,2%). O Grupo,
no entanto, destaca a necessidade da política monetária
ser cautelosa, diante da recente alta da inflação. Também
ressalta a importância do crescimento real do gasto público
ser contido no futuro, em relação à forte expansão
da variável verificada em 2006 e 2007.
A análise feita pelo Grupo
de Acompanhamento Conjuntural (GAC) na atual situação da
economia brasileira verificou que existe no país uma “modesta
aceleração inflacionária em curso”, que provavelmente
vai se manter durante todo o próximo ano. Segundo expectativas
do GAC, a taxa de inflação deverá aumentar cerca
de 3 pontos percentuais em 2008. “Embora não seja grave
e seja consistente com as metas de inflação já traçadas, é importante
que essa aceleração seja controlada”, alertam os
pesquisadores do instituto.
A elevação dos
preços, que atinge em cheio o bolso dos consumidores, costuma
ser influenciada pela variação do câmbio e das taxas
de juros. Nos últimos tempos, no entanto, uma outra variável
colaborou para este crescimento, o que preocupa os economistas: a intensidade
do aumento do gasto público. O problema é que, desde 2004,
os chamados gastos primários do poder público (que não
incluem despesas financeiras, com a rolagem da dívida, por exemplo)
cresceram a taxas reais de quase dois dígitos, movimento este
que tem sido reforçado recentemente.
Para se ter uma idéia,
só nos primeiros sete meses de 2007, as despesas federais primárias
chegaram a R$ 238,6 bilhões, ou seja, R$ 27,2 bilhões maior
do que no mesmo período do ano passado. A diferença, daria
para arcar, por exemplo com praticamente todos os gastos previstos para
o Ministério da Educação em 2007 (R$ 27,5 bilhões).O
aumento ocorreu de forma generalizada, o que indica não se tratar
de um fenômeno restrito a uma rubrica específica.
Tamanho crescimento, segundo
o estudo, pode ser atribuído, entre outros fatores, ao incremento
do salário mínimo, que acaba afetando outras despesas vinculadas,
como os benefícios associados à Lei Orgânica da Assistência
Social, à previdência social e ao seguro desemprego. Isso
sem contar com a reestruturação de carreiras no Executivo
federal e a própria expansão do Programa Bolsa Família.
As despesas classificadas no
jargão econômico como de “custeio e de capital”,
que incluem os gastos não obrigatórios do Governo Central – entre
os quais os investimentos – também contribuíram significativamente
para elevar as despesas do poder público nos primeiros meses de
2007. Embora, costumeiramente, gastos dessa natureza sejam intensificados
apenas no segundo semestre do ano, desta vez, o governo resolveu pisar
no acelerador já no início do novo mandato. Segundo o Ipea,
o esforço do governo de fazer engrenar o Programa de Aceleração
do Crescimento (PAC), tende a levar os investimentos a um patamar ainda
mais elevado até o dezembro.
O impacto da ascensão
dos gastos públicos acabou atenuado pela alta igualmente expressiva
da receita proveniente dos impostos. Em termos reais, este ano, a arrecadação
de tributos até julho atingiu os R$ 335,6 bilhões, superando
em 10% a do mesmo período de 2006. O incremento resultou, sobretudo,
do crescimento econômico e da melhoria nas importações.
Com esse quadro, segundo o Ipea, o setor público alcançará com
folga a meta de 3,80% do Produto Interno Bruto (PIB) prevista para 2007
na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).
No entanto, os pesquisadores
explicam que, mesmo conservando um superávit primário expressivo,
a política fiscal poderá injetar uma dose adicional de
demanda na economia. “Em função disso e para evitar
que a alta esperada da inflação em 2007 e 2008 origine
expectativas de aceleração dos preços para a segunda
metade do atual governo, é importante que a taxa de variação
real do gasto público diminua no ano que vem”, ponderam
os especialistas.
No âmbito da receita, observa-se
uma expectativa de aumento de sete pontos percentuais na carga tributária
para 2008 em relação ao PIB. Como contrapartida desse aumento,
as despesas não obrigatórias – que incluem além
dos investimentos, despesas com limpeza, vigilância, viagens, etc.
- cresceriam cerca de 10,4% em 2008, atingindo cerca de R$ 129,6 bilhões.
Mariana Braga
Do Contas Abertas
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CONSULTOR JURÍDICO,
24 de setembro de 2007
Perseguição e troco
Demissão após processo
trabalhista gera indenização
Um empregado da Infraero demitido depois de ajuizar reclamação
trabalhista contra a empresa obteve o direito de receber indenização
por danos morais, mas não conseguiu ser reintegrado ao emprego. A falta
de prequestionamento do tema impediu que a 2ª Turma do Tribunal Superior
do Trabalho conhecesse do Recurso de Revista movido pelo empregado.
O empregado foi admitido na Infraero,
em janeiro de 1992, por concurso, para trabalhar como fiscal aeroportuário.
Fazia taxiamento de aeronaves no pátio de manobras, cobrança
de tarifas aeronáuticas, embarque e desembarque de passageiros
e fiscalização de chegada e partida de aviões. Entre
junho de 1998 e fevereiro de 1999, ajuizou três reclamações
trabalhistas, junto com outros colegas, pedindo adicional de quebra de
caixa e periculosidade. Contou que passou a ser perseguido e ameaçado
por seu superior e, em abril de 1999, foi demitido sem justa causa.
Desempregado, ajuizou nova reclamação
trabalhista pedindo a declaração de nulidade da dispensa
com a conseqüente reintegração ao emprego por dispensa
discriminatória, e indenização por danos morais
no valor de cem vezes a sua última remuneração,
que era, na época de dispensa, de R$ 614,85. Disse que, por ser
servidor estável, concursado, de empresa pública, não
poderia ser demitido de forma imotivada.
A Infraero, em contestação,
alegou que o pedido de estabilidade e reintegração não
tem apoio na legislação e que o direito de rescindir o
contrato de trabalho com o empregado faz parte do poder de direção
da empresa. Quanto ao dano moral, disse que não praticou ato ilícito
passível de indenização.
A primeira instância foi
favorável ao trabalhador. Declarou nula a rescisão, mandou
reintegrar o empregado no prazo de 48 horas e concedeu indenização
por danos morais no valor de cem vezes o salário mínimo.
A Infraero recorreu. Pediu a improcedência da ação
ou, em caso de condenação, que a indenização
fosse fixada em até 10 salários mínimos.
O Tribunal Regional do Trabalho
da 14ª Região (Rondônia e Acre) manteve a decisão
quanto à motivação da dispensa, considerando correta
a condenação em danos morais. Porém, quanto ao pedido
de reintegração e nulidade da despedida, reformou a sentença. “O
empregado de empresa pública pode ter seu contrato de trabalho
unilateralmente rescindido, sem motivação, por se tratar
de órgão que, em matéria de direito do trabalho,
se rege pelas normas de direito privado”, destacaram os juízes.
O empregado entrou com Recurso
de Revista, mas não obteve sucesso. O ministro Vantuil Abdala,
relator, destacou que, quanto ao julgamento da validade da dispensa,
não há no acórdão recorrido nenhum fundamento
que leve em conta a discriminação ocorrida, faltando, assim,
o indispensável prequestionamento da matéria.
“Não basta que o
fato a respeito do qual se questiona o direito esteja admitido para que
se configure o necessário prequestionamento a ensejar o exame
da matéria. Necessário seria que o Colegiado anterior tivesse
manifestado tese jurídica a respeito dessa circunstância
relacionada à validade da dispensa”, ressaltou o ministro.
RR-68.910/2002-900-14-00.7
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ÂMBITO JURÍDICO,
24 de setembro de 2007
Ruptura unilateral de contrato de
representação atrai ônus da prova
A ruptura do contrato de representação comercial por iniciativa
do empregador atrai para ele a incumbência de apresentar provas de que
a culpa foi do empregado, nos termos do artigo 333, II, do CPC, pelo qual “o ônus
da prova incumbe ao réu, quanto à existência de fato impeditivo,
modificativo ou extintivo do direito do autor”. Foi com base neste fundamento
que a 4ª Turma do TRT-MG, acompanhando voto do desembargador Julio Bernardo
do Carmo, negou provimento a recurso ordinário de uma empresa, condenada
em 1ª Instância a pagar indenização a um ex-empregado,
representante comercial, por ter rescindido o contrato de representação
que havia entre eles.
Em sua defesa, a reclamada negou
que o contrato de representação tenha sido extinto por
ela e que nunca dispensou os serviços do reclamante. Ao contrário,
segundo a reclamada, foi o próprio reclamante quem rescindiu o
contrato por conta própria ao deixar de visitar os clientes e
emitir os pedidos de vendas. Mas o desembargador ressaltou que, ao alegar
abandono de serviço, a reclamada atraiu para si o ônus de
provar suas alegações, na forma do art. 333, II, do CPC.
E desse ônus não se desincumbiu. A própria testemunha
arrolada pela reclamada não conseguiu esclarecer de quem foi a
iniciativa de colocar fim ao contrato de representação
comercial ou qual o período certo em que o fato ocorreu. Por isso,
a Turma manteve o entendimento de que a ruptura do contrato de representação
se deu sem justo motivo, por iniciativa da empresa.
Como o contrato foi firmado por
prazo indeterminado e a rescisão unilateral e não antecedida
de aviso prévio, o reclamante faz jus à indenização
na forma do artigo 27, j, e 34 da Lei 4.886/65. Assim, ele irá receber
indenização correspondente a 1/12 do total dos seus rendimentos
durante o tempo em que exerceu a representação e também,
a título de aviso prévio, o equivalente a 1/3 do total
das comissões auferidas nos três meses anteriores à data
da rescisão.
( RO nº 00019-2007-071-03-00-1
)
Fonte: TRT
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ÂMBITO JURÍDICO,
24 de setembro de 2007
Responsabilidade subsidiária
de tomador de serviços pode ser discutida em ação à parte
Pelo entendimento expresso em decisão recente da 5ª Turma do TRT-MG, é perfeitamente
possível ajuizar reclamação trabalhista apenas contra
a empresa de terceirização de mão-de-obra e, em momento
posterior, interpor outra ação contra o tomador dos serviços,
visando à sua responsabilização subsidiária pelo
pagamento dos créditos trabalhistas deferidos no processo anterior.
A Turma, acompanhando o voto do desembargador José Roberto Freire Pimenta,
manteve a sentença que condenou subsidiariamente um condomínio
comercial a arcar com as verbas trabalhistas deferidas em outro processo a
um reclamante, que lhe prestava serviços como porteiro. É que,
como a real empregadora do reclamante (uma empresa de administração
e conservação) não honrou essa obrigação,
ele entrou com nova ação, desta vez contra o condomínio
tomador de serviços, requerendo sua responsabilização
subsidiária.
Em seu recurso, o condomínio
alegou ofensa à coisa julgada, pois foi condenado subsidiariamente
a pagar verbas deferidas em processo anterior, do qual não foi
parte, e que já transitou em julgado. Sustentou também
a tese de ofensa aos princípios do contraditório e da ampla
defesa, uma vez que não lhe foi proporcionada oportunidade de
se opor aos pedidos do autor naquele processo. Porém, o desembargador
ressaltou que “só existe coisa julgada material quando se
reproduzem, em nova ação, as mesmas partes, a mesma causa
de pedir e o mesmo pedido de ação anteriormente ajuizada
(tríplice identidade), e sobre a qual já se proferiu sentença
de mérito, transitada em julgado”. Ou seja, uma vez que
a sentença só faz coisa julgada entre as partes que a compuseram,
os efeitos daquela primeira ação não se estendem
ao recorrente, que nela não foi parte. Dessa forma, na nova ação
(oposta a outro réu e com causa de pedir diversa), o reclamado
poderia ter apresentado sua defesa quanto aos pedidos formulados na ação
anterior.
O desembargador esclarece ainda
que o autor não estava obrigado a incluir o tomador de serviços
na primeira reclamação, já que a hipótese é de
litisconsórcio facultativo (caso em que se pode incluir, ou não,
no processo outros envolvidos na demanda). “Incontestável é que,
no atual recurso, o reclamado deveria ter manifestado seu inconformismo
com a condenação, ter apresentado defesa quanto aos fatos
ali narrados e se defender plenamente, requerendo, até mesmo,
a realização de provas das suas alegações” -
frisa o relator.
Assim, ainda que os pedidos tenham
sido julgados procedentes na ação anterior, transitada
em julgado (não mais passível de recurso), o tomador de
serviços, que não participou daquela relação
processual, poderia, por força do artigo 48 do CPC c/c o artigo
769 da CLT, apresentar defesa contra todos os pedidos formulados e exigir
a realização de nova instrução processual.
Mas, como se limitou a insistir na caracterização da coisa
julgada, segundo o relator, tornaram-se incontroversos os fatos alegados
pelo reclamante e, com isso, o recorrente atraiu contra si a procedência,
de forma subsidiária, dos pedidos formulados.
Por esses fundamentos, o condomínio
teve o seu recurso julgado improcedente e deverá arcar subsidiariamente
com todas as verbas deferidas no processo anterior.
( RO nº 01240-2006-111-03-00-0
)
Fonte: TST
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ÂMBITO JURÍDICO,
24 de setembro de 2007
TST mantém liminar que manda
Bradesco readmitir gerente
Em decisão unânime, a Seção Especializada em Dissídios
Individuais (SDI-2) do Tribunal Superior do Trabalho rejeitou mandado de segurança
do Banco Bradesco contra liminar concedida pelo juiz da 1ª Vara do Trabalho
de Salvador (BA), que determinou a readmissão de um gerente, dispensado
ao apresentar atestado médico.
Depois de trabalhar durante quase
20 anos para o banco, o gerente passou a apresentar problemas de saúde,
o que o levou a se ausentar do trabalho. Obteve a indicação
médica para se afastar por 14 dias, em função de
hipertensão arterial. Antes mesmo de completar esse prazo, licenciou-se
por seis meses, obtendo do INSS auxílio-doença a partir
do diagnóstico de bursite, tendinite e outros males nos ombros,
braços e punhos. Ocorre que, ao receber o atestado referente ao
primeiro período, a empresa o demitiu.
Com base em laudo do INSS que
atestou ser portador de doença ocupacional, ele ajuizou ação
contra o banco alegando que, nessa condição, não
poderia ser despedido. Pleiteou o pagamento da complementação
do auxílio doença e indenização por danos
morais e materiais no valor de R$ 1 milhão, assim como diferenças
salariais em relação ao valor recebido na rescisão
do contrato. E requereu sua imediata readmissão, por liminar,
até o julgamento do mérito das demais questões.
A juíza da 1ª Vara
do Trabalho de Salvador (BA) concedeu a liminar determinando a nulidade
da dispensa e a suspensão do contrato, até o julgamento
final da demanda. Logo depois, atendendo solicitação do
empregado, expediu despacho esclarecendo que, como conseqüência
jurídica, sua decisão implica o restabelecimento da relação
do emprego com todas as suas garantias e deveres, inclusive o direito
ao plano de saúde.
O banco entrou com mandado de
segurança alegando que a decisão seria ilegal e abusiva,
por ferir o direito líquido e certo da empresa de rescindir o
contrato de trabalho, mas o pedido foi rejeitado pelo Tribunal Regional
da 5ª Região (BA), sob o fundamento de que a liminar foi
concedida a partir do livre convencimento da juíza de que a demora
na tramitação do processo poderia causar prejuízo
ao empregado que, licenciado por auxílio-doença, se viu
sem a assistência médica necessária ao seu tratamento.
Após exaurir suas tentativas
de reformar a decisão no âmbito regional, o Bradesco apelou
ao TST contra o reconhecimento da estabilidade no emprego e insistindo
na tese de que houve ofensa ao seu direito líquido e certo de
demitir. Salientou a inexistência dos elementos necessários
para a concessão de liminar. Entre outros fundamentos, sustentou
que o INSS não teria reconhecido a existência de doença
profissional e assegurou que sempre submetera o empregado a exames periódicos
de saúde, além de ter implantado programa de prevenção
de acidente do trabalho, relacionado, especificamente, com os fatores
de risco ergonômico.
O relator da matéria,
ministro Barros Levenhagen, entretanto, posicionou-se pela rejeição
do recurso do empregador. Em seu voto, ele ressalta que, ao contrário
do que sustentou a defesa da empresa, ficou claro que a decisão
do Regional levou em conta a existência dos pressupostos que autorizam
a concessão da liminar. Levenhagen acentuou que, ainda que o benefício
previdenciário tenha sido concedido no período do aviso
prévio, o empregado é favorecido pela verossimilhança
do seu direito à estabilidade provisória prevista em lei,
considerando a concessão do auxílio-doença acidentário
por prazo superior a 15 dias.
Para concluir, o ministro refuta
as alegações do banco, destacando o posicionamento firmado
pela Orientação Jurisprudencial 142 da SDI-2 do TST de
que não há direito líquido e certo a ser oposto
contra ato de juiz que, antecipando a tutela jurisdicional, determina
a reintegração do empregado até a decisão
final do processo, quando demonstrada a razoabilidade do direito, em
casos específicos – entre eles, o de portador de doença
profissional. (ROMS 717/2005-000-05-00.7)
(Ribamar Teixeira)
Fonte: TST
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JORNAL GAZETA DO POVO, 24
de setembro de 2007 | Economia
Indústria
Móveis exigem mais painéis
por CRISTINA RIOS
A capacidade da indústria
de painéis de madeira (MDF, chapas de fibra e aglomerado), hoje
em 6 milhões de metros cúbicos por ano, deve aumentar 40%
até 2012, segundo a Associação Brasileira da Indústria
de Painéis (Abipa). Os projetos de expansão em todo o país
somam investimentos de US$ 800 milhões nos próximos três
anos, de acordo com Rosane Donati, superintendente executiva da associação.Os
projetos de investimento vêm no embalo do crescimento da indústria
de móveis – que só nesse ano deve crescer 10% – e
no aumento do uso de painéis de MDF em outras aplicações,
como molduras na construção civil. Parte da produção
das novas plantas de painéis também deve ir para a exportação.
A Abipa estima que entre
2006 e 2009 o faturamento do setor salte de R$ 4,1 bilhões para
R$ 6,3 bilhões. As vendas, na mesma base, devem passar de 4,4
milhões de metros cúbicos para 5,2 milhões. Praticamente
todas as fábricas de painéis já divulgaram intenção
de construir novas fábricas. E empresas que não atuavam
no segmento, como as paranaenses Guararapes e Rossoni, vão ingressar
nesse mercado. O Paraná concentra boa parte da produção
do setor, com fábricas da Masisa, Berneck, Tafisa e Arauco.
Em 2006, foram 4,4 milhões de metros cúbicos produzidos
no país, volume 12,8% maior do que em 2005.
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JORNAL
GAZETA DO POVO, 24 de setembro de 2007 | Brasil
Combustível
Trabalho duro e mortes precoces
Estudo de universidade em Araraquara (SP) mostra que “vida útil” do
cortador de cana-de-açúcar é de 15 anos
por VIVIANE FAVRETTO
Osmar Nunes

Ana Paula e o marido, Edvaldo: juntos, eles recebem R$ 1,5 mil por mês.
Curitiba – No fim da manhã do dia 11 de setembro, a reportagem da
Gazeta do Povo entrou em contato com a professora aposentada da Universidade
Estadual Paulista (Unesp) Maria Aparecida de Moraes e Silva. Há 30 anos
ela acompanha o trabalho dos cortadores de cana-de-açúcar. Naquele
dia, ela recebeu, da Pastoral do Migrante, a informação de que
mais um trabalhador havia morrido.
Edílson de Jesus Andrade, de 28 anos, era de
Tapiramutá (Bahia) e morava em Guariba, na região de Ribeirão
Preto. Nas estatísticas, ele foi o 22.º cortador de cana que morreu
entre 2004 e este ano. É a quinta morte em 2007 suspeita de excesso
de esforço. Edílson começou a trabalhar no corte de cana
com 17 anos e há 10 vivia em Guariba com a mulher e as filhas de 2 e
4 anos.
O atestado de óbito aponta como
causa da morte uma doença rara chamada púrpura trombocitopênica
idiopática. O paciente fica mais suscetível a hemorragias e por
isso são aconselhados a evitar esforço físico e contato
com objetos cortantes.
Osmar Nunes

Edson e Laudenir cortam 32 toneladas de cana-de-açúcar por dia.
Mais leve
Segundo a professora Maria Aparecida,
que vive em São Carlos (SP), aproximadamente 700 mil pessoas atuam no
corte de cana em todo o país. A maioria é homem e tem entre 18
e 30 anos de idade. Os cortadores trabalham, pelo menos, das 7 às 17
horas, com uma folga semanal. Muitos trabalham nos dias de folga, ressalta
a professora, quando recebem o dobro do valor pago normalmente por tonelada
colhida. “É um artifício das usinas para fazer com que
o trabalhador não pare”, critica Maria Aparecida.
De acordo com ela, são pagos
R$ 2,50 por tonelada colhida. Os bóias-frias têm uma meta a cumprir:
cortar de 12 a 15 toneladas por dia. Ela lembra que esta carga de trabalho
vem crescendo. Na década de 90, conta, eram exigidas 10 toneladas diárias
e na década de 80, de 5 a 8 toneladas.
E tem um detalhe, aponta a professora.
Com o tempo, a cana ganhou mais sacarose e perdeu água. Então,
ficou mais leve. Segundo ela, há cálculos que mostram que hoje
o trabalhador tem de cortar três vezes mais cana do que na década
de 80 para obter a mesma quantidade.
“Vida útil”
De acordo com a Pastoral do Migrante,
um estudo da Unesp de Araraquara mostra que a “vida útil” dos
cortadores de cana no estado de São Paulo é de 15 anos. Muitos
começam aos 18 anos e aos 34 anos não podem trabalhar mais, nem
mesmo em outras profissões, devido ao esforço feito nos canaviais.
Maria Aparecida diz que as condições
de trabalho são muito ruins. Os trabalhadores cortam a cana queimada,
aspiram fuligem e acabam tendo problemas respiratórios. Também
trabalham sob calor de até 40 graus, lembra a professora, ficam expostos
ao sol e muitos têm câncer de pele.
Apesar de tudo isso, a professora afirma
que as condições de trabalho em São Paulo, que concentra
dois terços da produção de cana-de-açúcar
do país, são melhores do que em outras regiões porque
a fiscalização é intensa. Fazendeiros e usineiros acabam
oferecendo aos trabalhadores os equipamentos necessários para que eles
trabalhem com segurança. “Em estados do Nordeste ainda tem bóia-fria
cortando cana descalço”, lamenta a professora.
Para ela, a função
do cortador de cana-de-açúcar pode desaparecer. Maria Aparecida
diz que uma lei estadual, em São Paulo, determina que as queimadas
nas plantações de cana terminem em 2017. A tendência,
com isso, é a mecanização cada vez mais freqüente.
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JORNAL GAZETA DO POVO, 24
de setembro de 2007 | Brasil
Combustível
Bóias-frias surgem na década de
60
A professora aposentada da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Maria Aparecida
de Moraes e Silva explica o contexto histórico que levou os cortadores
de cana-de-açúcar a um sistema de trabalho que pode ser comparado
ao escravo. Segundo ela, o marco na história destes trabalhadores é a
década de 60, quando houve um processo violento de expulsão de
trabalhadores rurais para as cidades.
Naquela época, desaparecem
os colonos e surgem os bóias-frias. No início, eram trabalhadores
da própria região. Eles passam a trabalhar desprovidos
de direitos e de segurança. Perambulam de uma propriedade para
outra e as fazendas e empresas contratam as pessoas nesta condição
de “volantes”.
Para Maria Aparecida, a desqualificação
começa aí. Com a ampliação do cultivo de
cana-de-açúcar e a abertura de usinas, surgem os migrantes,
principalmente do Nordeste do Brasil e do Norte de Minas Gerais, conta
a professora, mas também aparecem muitos paranaenses expulsos
das fazendas de café.
Atualmente, em São Paulo,
200 mil cortadores de cana (dois terços do total) são migrantes.
A oferta de mão-de-obra só aumenta e a remuneração
do trabalhador cai, lamenta a professora.
Para piorar a situação,
diz ela, na década de 80 tem início o processo de mecanização
do corte da cana-de-açúcar, que foi se intensificando.
Mas o plantio também cresceu. Hoje, em algumas regiões,
a mecanização atinge até 45% da colheita. (VF)
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JORNAL
GAZETA DO POVO, 24 de setembro de 2007 | Brasil
Combustível
Famílias inteiras estão nos canaviais
por OSMAR NUNES
Umuarama – O cortador de cana-de-açúcar
Edson da Silva, 28 anos, acorda às 5 horas todos os dias,
mas a mulher dele se levanta às 4 horas para preparar o almoço
e o lanche da tarde. Às 5h30 ele embarca no ônibus que
vai levá-lo à lavoura. O facão é afiado
e começa a cortar as primeiras plantas às 7 horas,
quando o dia ainda está clareando. Daí em diante, o
esforço é para superar os limites do corpo e encerrar
o dia, às 15h50, com uma média de 16 toneladas de cana
cortadas, o que rende a ele uma média salarial de R$ 1,2 mil.
Edson Silva é um dos 1.900 cortadores
de cana-de-açúcar da Usina de Açúcar
Santa Terezinha, de Ivaté, na Região Noroeste do
Paraná. Ele também é um dos campeões
na quantidade de cana cortada diariamente. Trabalha sempre ao lado
de outro campeão, Laudenir da Silva, 29 anos. Eles trabalham
seis dias e folgam um. “Quando a gente chega em casa, tudo
o que quer é descansar, mas no dia seguinte o corpo está pronto,
de novo”. Os trabalhadores só param uma hora para
almoçar e meia hora para o café da tarde.
O calor de 40 graus e a
jornada longa não afastam do canavial Valdivino Pereira
Mendes, que no dia 30 de outubro vai completar 65 anos, 20 dos
quais trabalhados em usinas. Junto estão cinco filhos e
três noras. Um dos filhos, Edvaldo Pereira Mendes, 32 anos,
corta cana ao lado da mulher Ana Paula Paiva, 24 anos. Casados
há 11 anos, têm uma filha de 7 anos que fica com uma
prima durante o dia. “A gente vai dar estudo para ela e torce
para ter a sorte de arrumar um emprego melhor”, comenta Edvaldo.
Ana Paula também é uma
campeã e chega a cortar em média 14 toneladas por
dia, o dobro de muitos homens. Com isso, ela e o marido ganham
cerca de R$ 1,5 mil ao mês. “É puxado, mas não
tem outra opção de emprego na região pra gente
ganhar esse tanto”. Depois de passar o dia na roça,
o casal chega em casa e ainda cuida dos afazeres doméstico. “A
gente divide as tarefas: um lava roupa, outro limpa a casa e faz
comida”.
O supervisor administrativo
da Usaçucar, em Ivaté, Clayton Perin, designado pela
empresa para acompanhar a reportagem, diz que a usina tem uma visão
humanista e vai além da lei para garantir uma série
de benefícios aos funcionários. A lista inclui 19
itens entre fornecimento de medicamento, uma dose de sorinho (energético)
ao dia para cada trabalhador, convênio com creche e fornecimento
de 250 casas só em Ivaté, onde o funcionário
recebe a moradia em comodato e paga somente a água e luz.
Em Ivaté, a Usaçucar não utiliza colheita
mecânica e diz que enquanto existir mão-de-obra suficiente
na região pretende manter os empregos.
Segundo Perin, a
média salarial é de R$ 700, mas há quem
ganhe R$ 1,6 mil ao mês. O piso da categoria é R$
418. A maior parte dos trabalhadores é efetiva, segundo
a empresa. Quando termina a colheita, eles vão trabalhar
no plantio e limpeza das lavouras.
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REVISTA ISTO É, 24 de
setembro de 2007
Vem aí nova Reforma da Previdência
O governo está fechando um pacote que vai permitir reduzir a pensão
dos atuais segurados do INSS (isso mesmo) e estender para o setor privado a
idade mínima para aposentadoria - 60 anos para as mulheres e 65 para
os homens, com o mínimo de 30 de trabalho. Isso vai vigorar de imediato
para quem está na ativa. O governo espera contar com o silêncio
das centrais sindicais. Já foram amaciadas por uma lei que permite que
recebam 10% do imposto sindical.
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JORNAL
FOLHA DE SÃO PAULO, 24 de setembro de 2007 | Brasil
Base do governo faz arrastão de
filiações
Partidos que apóiam Lula se lançam
em caravana para arregimentar congressistas, deputados estaduais,
prefeitos e vereadores | Pelo menos 21 senadores e deputados
negociam mudança nesta semana; siglas buscam nomes para
eleição municipal de 2008
RANIER BRAGON
FÁBIO ZANINI
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Grandes partidos
da base de sustentação do governo Lula deflagraram
uma caravana de filiações de congressistas,
deputados estaduais, prefeitos e vereadores. Só na
Câmara e no Senado ao menos 21 parlamentares negociam
esta semana a mudança de legenda.
O festival do troca-troca ocorre em duas frentes: 1) no Congresso, os governistas
devem minguar ainda mais o DEM, principal partido de oposição,
que corre o risco de perder oito deputados e senadores; 2) nas principais cidades,
lideranças dos governistas PMDB, PR, PTB e PP saíram em arrastão
no final de semana filiando candidatos às eleições municipais
do ano que vem (o prazo para o registro acaba no dia 5).
Nem mesmo o julgamento em que o STF (Supremo Tribunal Federal) pode decretar
a perda do mandato de quem mudou de legenda, no dia 3, parece arrefecer ânimos.
O líder da bancada do PR na Câmara, Luciano Castro (RR), passou
o final de semana percorrendo Estados. "Estamos trazendo prefeitos de
cidades médias." Na sexta-feira, ele passou no Rio; no sábado,
no Paraná; hoje vai a Tocantins.
O PR, resultado da fusão do PL com o Prona, é um dos mais beneficiados
pelo troca-troca. Elegeu 25 deputados federais em outubro, conta hoje com 41
e chega amanhã a 43 -com Clodovil (SP), ex-PTC, e Rodovalho (DF), ex-DEM.
Praticamente acertou com o senador César Borges (DEM-BA). "Em Araripina,
filiamos o prefeito, o vice e sete vereadores. Em Arco Verde, o prefeito. O
de Escada também. Vereador então tem sido todo dia", conta
o deputado Inocêncio Oliveira sobre investidas em Pernambuco.
Lideranças do PTB também passaram o final de semana em caravana,
como narra o líder da bancada na Câmara, Jovair Arantes (GO). "Estamos
filiando bastante candidatos a prefeito e vereador. Aqui em Goiás, segunda
[hoje] vamos filiar o prefeito de Jaraguá. Depois, será o de
Itumbiara", diz.
O PTB também busca engordar sua bancada, já que elegeu 22 deputados
e tem hoje 20. "Há possibilidade de o Luiz Bittencourt [PMDB-GO].
Estamos namorando o Mussa Demes [DEM-PI] e o Júlio César [DEM-PI]",
afirma Jovair.
O PP teve filiações expressivas na Bahia. "O xadrez aqui
mudou muito desde a morte do Antonio Carlos Magalhães. A procura pelo
PP é muito grande, já que é um partido que não
tem dono", diz o deputado Mário Negromonte (BA), líder da
bancada. Ele esteve em festa de filiações em Valença,
no sábado. O partido espera filiar já o deputado Cláudio
Cajado (DEM-BA). O PP elegeu 41 deputados; hoje tem 40.
O PMDB, que saiu de 89 deputados eleitos para 93, espera fechar com três
deputados: Manoel Salviano (PSDB-CE), Sérgio Brito (PDT-BA) e Geraldo
Thadeu (PPS-MG). O PDT anuncia José Aristodemo Pinotti (DEM-SP). Paulo
Rubem Santiago (PE), ex-PT, também pode acertar, além da senadora
Patrícia Saboia (PSB-CE).
" Nossas perdas são relativas a quem já não vota com
o partido. Confiamos que o STF irá estabelecer a fidelidade e que vamos
recuperar os mandatos", diz o presidente do DEM, Rodrigo Maia. O senador
Demóstenes Torres (DEM-GO) diz que sai se a legenda negar a candidatura
ao Senado.
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CONGRESSO EM FOCO, 24 de
setembro de 2007
Projeto de lei do governo reconhece
centrais sindicais
Antônio Augusto de Queiroz*
O presidente Lula, passados nove
meses da rejeição pela Câmara dos Deputados da MP
293, encaminhou no início deste mês ao Congresso projeto
de lei, em regime de urgência constitucional, destinado ao reconhecimento
das centrais sindicais. O projeto, além de reconhecimento, também
destina parcela do imposto sindical às centrais.
Segundo o projeto, central sindical – associação
de direito privado composta por organizações sindicais
de trabalhadores – é a entidade de representação
geral dos trabalhadores, constituídas em âmbito nacional,
com atribuições e prerrogativas de representação
dos trabalhadores, por meio das organizações sindicais
a ela filiadas.
Além da representação
geral, de acordo com o texto, é prerrogativa de central sindical
participar de negociações em fóruns, colegiados
de órgão públicos e demais espaços de diálogo
social e composição tripartite, nos quais estejam em discussão
assuntos de interesse geral dos trabalhadores.
A participação
nas negociações, nos colegiados dos órgãos
públicos e nos espaços de diálogo social e composição
tripartite, que se dará de modo proporcional ao índice
de representatividade, medida pelo número de trabalhadores filiados,
dependerá do cumprimento dos seguintes requisitos pelas centrais,
aferido pelo Ministério do Trabalho e Emprego:
i) filiação de,
no mínimo, cem sindicatos distribuídos nas cinco regiões
do país;
ii) filiação em
pelo menos três regiões do país de, no mínimo,
vinte sindicatos em cada uma;
iii) filiação de
sindicatos em, no mínimo, cinco setores de atividade econômica,
e
iv) filiação de
trabalhadores aos sindicatos integrantes de sua estrutura organizativa
de, no mínimo, sete por cento do total de empregados sindicalizados
em âmbito nacional.
No período de transição,
fixado em dois anos, contados da publicação da lei, o índice
de sindicalização exigido, de 7%, será reduzido
para 5%, e a central que não atingir esse percentual, desde que
atendidos os demais, poderá somar os índices de sindicalização
dos sindicatos a ela filiados para atender a esse quesito.
A participação
no rateio da contribuição sindical, tal como a participação
nos órgãos colegiados, depende do preenchimento de todos
os requisitos legais.
Segundo o texto, o sindicato
deverá indicar ao Ministério do Trabalho tanto a federação
e a confederação a que estiver vinculado, quanto a central
a que estiver filiado, para efeito de crédito da contribuição
sindical. Os sindicatos ficarão com 60%, as federações
com 15%, as confederações com 5%, as centrais com 10%,
e os demais 10% irão para a "Conta Especial Emprego e Salário" do
Ministério do Trabalho. No caso de sindicato sem filiação
a central, os 10% que seriam destinados a ela irão para a "Conta
Especial Emprego e Salário" do Ministério do Trabalho.
O projeto tramitará em regime de urgência constitucional, o que
significa que só poderá ser emendado durante as cinco primeiras
sessões após sua leitura em plenário. As emendas, para
serem aceitas, terão que contar com o apoio de 171 parlamentares, líder
ou vice-líder que represente esse número. Significa, também,
que passados 45 dias sem deliberação, o projeto passará a
bloquear a pauta da Câmara, não podendo ser votada nenhuma outra
matéria antes de sua apreciação.
Um projeto com essas características,
provavelmente, será distribuído para tramitar simultaneamente
nas comissões de Trabalho, Administração e Serviço
Público; de Finanças e Tributação; e de Constituição,
Justiça e Cidadania. Como seu prazo nas comissões será de
apenas cinco sessões, coincidente com o período destinado à apresentação
de emendas, dificilmente haverá deliberação no âmbito
desses colegiados, hipótese em que o relator será designado
diretamente no Plenário da Câmara, que votará conclusivamente
a matéria.
O projeto, apesar de seu conteúdo
ser muito parecido com o da MP 293, que foi rejeitada, não corre
maiores riscos de ser derrubado. O máximo que poderá ocorrer
será um pequeno atraso na apreciação, mas dificilmente
haverá uma oposição sistemática ao texto.
A conjuntura de nove meses atrás, tanto em termos sindicais, inclusive
com o surgimento de novas centrais, quanto em relação ao
papel dessas entidades, que estavam sendo reconhecidas para integrar
o Conselho Nacional de Relações de Trabalho, objeto da
MP 294, também rejeitada, mudou completamente.
*Antônio Augusto de Queiroz é jornalista,
analista político e diretor de Documentação do
Diap.
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JORNAL
FOLHA DE SÃO PAULO, 24 de setembro de 2007 | Dinheiro
Renda na Grande SP cresce abaixo da média
do Brasil
Rendimento do trabalho avança 1,8% na
região em 2006, ante 6,8% na média do país | Grande
SP se beneficia menos do aumento do mínimo por concentrar os maiores
salários, afirmam especialistas
PEDRO SOARES
DA SUCURSAL DO RIO
O mercado de trabalho na Grande
São Paulo viveu um 2006 pior do que o restante do Estado e do
país e apresentou indicadores de rendimento abaixo da média,
revelam dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios)
do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) obtidos
pela Folha.
A renda do trabalho cresceu, em média, 4,5% no conjunto do Estado mais
rico do país e era estimada em R$ 1.139. O desempenho foi melhor do
que na região metropolitana, onde a remuneração subiu
1,8% (em média, R$ 1.235) em 2006.
Em ambos os casos, a renda cresceu numa velocidade menos intensa do que a média
nacional -alta de 6,8% em 2006. No entanto, o valor da renda média em
São Paulo ainda está bastante acima da média do país,
de R$ 888.
Pelos dados do IBGE, foram criados, em 2006, 725.674 empregos em todo o Estado.
A alta ficou em 3,8% ante o ano anterior 2005 -acima da variação
média nacional, de 2,4%.
Mais uma vez, a região metropolitana teve um desempenho mais modesto:
o emprego aumentou 2,7% ante 2005, próximo à média do
país. De 2005 a 2006, a Grande São Paulo registrou um acréscimo
de 246.436 postos de trabalho.
Em todo o Brasil, foram criados, em 2006, 2,1 milhões de empregos -8,7
milhões no acumulado do primeiro governo Lula (2003-2006).
Especialista em mercado de trabalho, Claudio Dedecca, professor do Instituto
de Economia da Unicamp, diz que, diferentemente de regiões de renda
menor, São Paulo não se beneficiou na mesma proporção
dos ganhos reais do salário mínimo no período.
É que no Estado, diz, o impacto do reajuste real de 13,3% em 2006 foi
limitado em razão do perfil de rendimento mais alto, especialmente da
região metropolitana, que concentra os mais altos salários do país
e o maior nível de produtividade.
Em outras palavras, relativamente, existem menos pessoas que se beneficiam
do reajuste do mínimo em São Paulo do que em outras regiões.
"Sem dúvida, o aumento do salário mínimo, em escala
nacional, foi o principal fator de aumento da renda, especialmente nas camadas
mais pobres. E vemos que a maior parte dos empregos gerados é com salários
mais baixos, que guardam uma relação com o mínimo",
diz a economista Lena Lavinas, da UFRJ.
Negociações
Segundo o Dedecca, dois outros fatores, porém, são historicamente
decisivos para ampliar a renda em São Paulo: o crescimento econômico
e as negociações de reajuste salariais das categorias profissionais
-que, em geral, não acompanham o aumento do salário mínimo.
Os dissídios na Grande São Paulo subiram, em média, 1%
acima da inflação, uma proporção muito menor à correção
do mínimo.
"Para o emprego e o rendimento crescerem com mais força em São
Paulo, é preciso uma expansão mais duradoura da economia. Como
a renda já é mais alta, há uma elasticidade menor para crescer
na região metropolitana", diz Dedecca.
Há ainda um fator estrutural: o emprego na região metropolitana
migra cada vez mais para o setor de serviços. Além disso, atividades
de maior dinamismo também se concentram mais fora da Grande São
Paulo, a exemplo do que ocorre com a indústria do açúcar
e do álcool.
Essa perda relativa de empregos e a concentração em serviços
de alto valor são uma tendência histórica já vivida
em outras grandes metrópoles, como Nova York e Londres, afirma Dedecca.
A expansão da oferta de trabalho no Estado de São Paulo assegurou
uma queda da taxa de desemprego -de 11,5% em 2005 para 10% em 2006. Ainda assim,
era a terceira mais alta do país, atrás apenas do Rio de Janeiro
(11,8%) e do Distrito Federal (11,5%).
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JORNAL FOLHA DE SÃO
PAULO, 24 de setembro de 2007 | Dinheiro
Miséria diminui em menor ritmo
na região
DA SUCURSAL DO RIO
Se em todo o Brasil a pobreza
caiu aos menores níveis históricos em 2006, as ações
do governo e o ambiente econômico não foram tão favoráveis
para a região metropolitana de São Paulo, e a miséria
atingia 11,8% da população no ano passado.
O número supera o de 1995, quando os efeitos benéficos da estabilidade
trazida pelo Real fizeram a miséria chegar a 9,4% -a menor marca desde
1992, primeiro ano da série da pesquisa da FGV (Fundação
Getulio Vargas) sobre pobreza. Em 2005, a proporção era de 13,1%.
No maior aglomerado metropolitano do país, a miséria também
diminuiu com menos intensidade de 2005 para 2006 -2,4 pontos percentuais. Na
média do país, cedeu 3,4 pontos -de 22,7% em 2005 para 19,3%
em 2006. Em 1995, era 28,8%.
É considerado miserável quem vive em famílias com renda
per capita inferior a R$ 125, a preços de São Paulo. Em números
absolutos, 2,32 milhões de pessoas estavam nessa condição
na Grande São Paulo no ano passado. Em 2005, eram 2,535 milhões
-ou seja, 215 mil pessoas a menos de um ano para o outro.
Já em todo o Estado de São Paulo, a proporção de
miseráveis passou de 10,6% em 1995 para 9,9% em 2006. Em 2005, o percentual
era de 11,3%.
Os dados ilustram bem a crise do mercado de trabalho nas metrópoles,
que afetou especialmente São Paulo desde o final dos anos 90.
Áreas
rurais
Sem ganhos significativos de emprego e renda, as metrópoles viram a
pobreza e a indigência crescerem, enquanto nas áreas rurais a
queda sempre foi contínua e robusta, segundo a economista Sônia
Rocha, do Iets (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade). No pico da crise
do emprego metropolitano, a pobreza chegou a 17,7%, em 2003, na Grande São
Paulo.
Em São Paulo, o impacto do aumento do salário mínimo -que
tem subido sistematicamente acima da inflação nos últimos
anos- sobre o mercado de trabalho é menor, segundo Claudio Dedecca,
economista da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).
Para Rocha, as metrópoles ficaram totalmente esquecidas pelo governo,
que sempre focou suas ações para reduzir a miséria no
campo. O resultado é a crescente percepção da miséria
nos grandes centros, onde as pessoas precisam de mais serviços e gastam
mais para ter acesso a eles.
" Nos tempos de FHC, convivemos com crises internacionais e com uma grande
crise das metrópoles, que são as caixas de repercussão dos
eventos nacionais", diz Marcelo Neri, coordenador do Centro de Políticas
Sociais da FGV.
Segundo a FGV, a miséria nas principais regiões metropolitanas
do país saltou de 15,1% em 1995 para o pico de 21,3% em 2003. Desde
então ela vem caindo e ficou em 14,1% da população em
2006.
Já nas áreas rurais, a proporção de miseráveis
se manteve mais alta, mas o ritmo de queda foi mais intenso. Era de 56,5% da
população em 1995, baixando até 41% no ano passado.
" O empobrecimento das metrópoles é um problema grave. O resto
do Brasil, a área rural, foi muito bem, obrigado. Não subiu a pobreza
em nenhum ano e a melhora foi muito grande. Nas áreas rurais, a pobreza
foi reduzida mais fortemente. E por muitas razões: pelo desenvolvimento
rural mesmo ou pelo fato de os benefícios [sociais e previdenciários]
de valores nacionais terem mais impacto na área rural", diz Rocha.
Diante da crise, diz Neri, o governo federal ficou imobilizado, sem desenhar
política específica para combater o problema: "Pelo governo,
nada foi feito para resolver a crise metropolitana. Há uma inércia".
Rocha concorda: "Não existe a figura metropolitana para o governo
federal. Existiu nos anos 70, mas foi perdida".
Só mais recentemente o Bolsa Família chegou aos grandes centros
urbanos, embora ainda numa escala reduzida.
Na contramão
Em outros grandes conglomerados urbanos, a pobreza regressou aos níveis
registrados no início do Real. A exceção foi Belém.
Lá, o total de miseráveis representava 23,2% da população
em 2006 -em 2005, ficara em 26,4%. Em 1995, o percentual era de 20,1%.
No Rio, a miséria baixou de 13,1% em 2005 para 11,5% em 2006. No primeiro
ano completo do Real, havia sido de 12,7%.
A região metropolitana de Curitiba registrou a mais baixa taxa: 7% da
população era miserável em 2006. O percentual havia sido
de 9,5% em 2005. Em 1995, ficara em 10,2%. Recife registrou os percentuais
mais elevados -28,3% em 2006, contra 32,2% em 2005. Em 1995, eram 32%. (PS)
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JORNAL FOLHA DE SÃO
PAULO, 24 de setembro de 2007 | Opinião
Canteiro de obras
Governo não consegue acelerar obras
do PAC e, pior, inibe participação de capitais privados
em ações de infra-estrutura
INFELIZMENTE , a transformação
do país em um "canteiro de obras públicas e privadas",
como deseja a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, permanece distante.
O segundo balanço do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento)
revelou um ritmo bastante lento na execução das obras. O empenho
de recursos do Orçamento da União -reserva para o gasto- atingiu
45% do total previsto para o ano. Mas o valor efetivamente gasto foi de apenas
9,3% até agosto. Foram desembolsados R$ 3,4 bilhões de de R$
14,7 bilhões previstos.
Os principais problemas persistem concentrados em áreas ligadas à infra-estrutura,
especialmente energia e transportes, que são estratégicas para
assegurar a atração de investimentos privados e sustentar o crescimento
do país pelos próximos anos.
No setor de rodovias, hidrovias e portos, as obras que receberam o selo vermelho
-que significa sérios atrasos- saltaram de 60 para 144 entre abril e
agosto. Na infra-estrutura energética, que inclui construção
de hidrelétricas, gasodutos e linhas de transmissão, os projetos
e estudos de investimentos com problemas saltaram de 17 para 37.
Durante anos, os investimentos públicos federais vieram sendo sacrificados
nos ajustes fiscais. Nem o governo FHC nem a gestão Lula tomaram a iniciativa
de extrair das chamadas despesas correntes (gastos de manutenção
do Estado) a poupança necessária para evitar o descontrole das
contas públicas. Fizeram-no sempre à custa do contribuinte, pela
escalada tributária, e das despesas de capital.
Mesmo a modesta margem para ações de infra-estrutura com recursos
do Orçamento -aberta após três anos de crescimento econômico
mais acelerado e ainda assim debitada do superávit primário-
esbarra na burocracia. Há quase cinco anos no poder, não há iniciativa
sistemática do governo petista para acelerar os trâmites do investimento
público, a fim de que ele possa responder com tempestividade às
necessidades da economia.
Mais grave, somada essa lentidão com as limitações financeiras
do erário, é o governo não ter aberto mais oportunidades
para o investimento privado em infra-estrutura. O leilão de sete lotes
de rodovias federais de grande fluxo, entre elas a Fernão Dias e a Régis
Bittencourt, já demora quase dez anos para sair do papel. Se não
houver nenhum novo contratempo, o país conhecerá os consórcios
vencedores das concessões em 15 dias.
É um atentado à lógica econômica que, por conta desse
tipo de negligência, a rodovia interligando São Paulo e Belo Horizonte
(dois dos principais centros de negócios do país) tenha levado
12 anos para ser duplicada e esteja hoje entregue à deterioração.
Mas conceder tais rodovias à iniciativa privada é muito pouco diante
do que poderia ser feito.
Todo o setor de logística no Brasil -estradas, portos, aeroportos e
entrepostos- ainda está à espera de uma abertura ao capital privado
destinada a romper com o empreguismo, a ineficiência e a carência
crônica de investimentos que restringem o crescimento da economia brasileira.
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VERMELHO, 24 de setembro de 2007
PAC tem 80% das obras dentro do cronograma
O segundo balanço quadrimestral do andamento do Programa de Aceleração
do Crescimento (PAC), apontou que, desde a primeira avaliação,
em maio, o Programa cresceu em volume de recursos, execução financeira
e na quantidade de ações monitoradas.
Divulgado pelo governo federal na quinta-feira (20), o levantamento mostra
que, em abril, o Orçamento Geral da União (OGU) dispunha de R$
9,5 bilhões para o PAC. Com a aprovação da Lei 11.477/07
(que alterou os dispositivos para a elaboração da Lei de Orçamento
Anual), esta dotação orçamentária subiu para R$
14,7 bilhões, ou seja, uma elevação de 54%. A execução
também ganhou velocidade, com um aumento de 249% nos volume de recursos,
passando de R$ 1,9 bilhão no final de abril para R$ 6,7 bilhões
até 18 de setembro - o que representa 45% do orçamento total.
“ Há mais de 20 anosnão se investia em projetos tão
importantes para o País”, afirmou a ministra-chefe da Casa Civil,
Dilma Rousseff, acrescentando que "a iniciativa privada é protagonista
do PAC. E este é um processo de equipe, e se conseguimos bons resultados é porque
ele é um trabalho de equipe”, declarou a ministra, que fez a apresentação
do balanço ao lado dos ministros da Fazenda, Guido Mantega, e Paulo Bernardo,
ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão.
Obras
No primeiro balanço, o PAC acompanhava 1.646 ações, mas,
entre maio e agosto, algumas delas foram desmembradas, o que hoje totaliza
2.014 ações. Em 31 de agosto, 60% delas estavam no estágio
de obras, enquanto 40% se encontravam na fase de projeto, licenciamento ou
licitação. O resultado de hoje é que 90,3% (em termos
de quantidade) e 94,1% (considerando valores) das ações revelam
prosseguimento satisfatório.
Levando-se em consideração a quantidade de projetos, 79,9% das
ações do governo estão em ritmo adequado. Outros 10,4%
merecem atenção, enquanto 9,7% foram julgadas como preocupantes.
Para concretizá-las, cada uma das ações monitoradas envolve
a participação de vários órgãos públicos
e de agentes privados; precisa atender exigências técnicas e legais;
além de observar cronogramas previamente definidos.
Controle
As obras consideradas com andamento adequado subiram de 52,5%, em abril, para
79,9%, em agosto. No mesmo período, aquelas classificadas em amarelo
- estão em estado de atenção porque embora com cronograma
em dia, há risco de atraso - diminuíram de 39,1% para 10,4%.
Apenas as distribuídas na classe de preocupantes, que receberam o carimbo
vermelho, sofreram ligeiro aumento, passando de 8,4% para 9,7%.
Com o objetivo de solucionar problemas no andamento dos projetos, o governo
montou uma estrutura de gestão composta de diferentes funções
e níveis. Esse sistema de acompanhamento e tomada de decisão
tem o objetivo de garantir o fluxo das obras. Por isso, as 2.014 ações
são monitoradas por Comitês Gestores dos ministérios e
por equipes de técnicos distribuídos em 11 Salas de Situação
temáticas. Esses grupos controlam todas as etapas do cronograma de ações,
com atenção especial para a identificação de possíveis
riscos ao bom fluxo.
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JORNAL O ESTADO DE SÃO
PAULO, 24 de setembro de 2007
Alento à construção
civil
Estudo da FGV Projetos estima que o setor imobiliário crescerá entre
7,9% e 9,3% em 2007, contra os 4,6% apurados em 2006. Justificam as projeções
as informações apuradas sobre a recuperação da
construção civil, cujos efeitos positivos se refletem em setores
direta ou indiretamente ligados à moradia, como os de materiais de construção,
móveis e eletrodomésticos.
Entre 1995 e 2005, observa o
economista Fernando Garcia, da FGV, o PIB cresceu, em média, 2,38%
ao ano e a participação da construção civil
foi de 0,2 ponto porcentual - índice que a partir deste ano deverá triplicar,
atingindo 0,6 ponto porcentual, semelhante ao que foi observado entre
1975 e 1985 e compatível com o de outros países emergentes,
como a Coréia.
Além de estimular as transações
com terrenos para edificação, as atividades de escritórios
de arquitetura e projetos, empresas de comercialização
e, principalmente, as contratações de operários
num segmento de mão-de-obra intensiva, as incorporações
imobiliárias demandam materiais em grande escala.
As vendas de vergalhões,
insumo básico para a construção, avançaram
9,3% entre os primeiros semestres de 2006 e 2007. O consumo aparente
de cimento cresceu 15,1% no período de janeiro a julho de 2007,
em relação aos mesmos meses de 2006. Nesta mesma base de
comparação, o faturamento total da indústria de
material de construção cresceu 7,5% e o emprego, 7%.
Outro estudo da FGV, encomendado
por uma associação de classe, mostrou o impacto positivo
da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI)
em dezenas de itens de materiais de construção, estimada
em mais de R$ 500 milhões, valor que acaba retornando aos cofres
públicos em decorrência do aumento da atividade, ou seja,
da incidência de um tributo com alíquota menor sobre um
volume muito maior de bens comercializados.
Ao mesmo tempo, a oferta de crédito
imobiliário alcança níveis próximos aos do
início dos anos 80, quando mais de 200 mil imóveis eram
financiados por ano pelo Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo
(SBPE), que capta recursos via cadernetas de poupança.
Em 2007, até agosto, 117
mil unidades foram financiadas pelo SBPE. Mantido o ritmo mensal de 17
mil a 18 mil unidades financiadas, que foi o do último bimestre,
os financiamentos deste ano poderão superar a casa dos 185 mil,
número inferior apenas aos do triênio 1980/1982. Para isso
não faltam recursos, pois a captação líquida
via cadernetas atingiu R$ 11 bilhões nos primeiros oito meses
do ano. Nos últimos 12 meses, até agosto, o saldo dos depósitos
de poupança aumentou R$ 33 bilhões, 24,5% acima dos 12
meses anteriores.
O fortalecimento do mercado imobiliário
produz efeito positivo sobre fabricantes de móveis, geladeiras
e fogões, que registram taxas de crescimento anual elevadas, entre
10% e 30%. A indústria de mobiliário, em especial, está reagindo
depois de ter sido fortemente atingida pelo crescimento das importações,
estimuladas pela desvalorização do dólar. E, a partir
deste ano, uma prática comum em mercados imobiliários desenvolvidos
está chegando ao País: mediante acordos feitos antes da
conclusão do imóvel entre construtoras e fornecedores de
armários embutidos e equipamentos básicos, é possível
a entrega de unidades semimobiliadas, quase prontas para serem habitadas.
A expansão do setor imobiliário
deve-se ao aumento da renda das famílias, à diminuição
do desemprego e a um conjunto de medidas legais adotadas nos últimos
anos, que reduziram os custos de transação, ampliaram a
segurança jurídica dos contratos de financiamento e diminuíram
a tributação incidente sobre as operações
de compra e venda e os materiais de construção.
O crescimento da construção
civil tem tudo para ser sustentável. Ainda que as condições
macroeconômicas viessem a se tornar menos favoráveis,
o nível de endividamento com habitação das famílias é moderado
e o governo tem espaço para estimular a oferta de crédito,
favorecendo, por exemplo, o segmento de securitização
das dívidas imobiliárias, ampliando o mercado secundário
de recebíveis imobiliários e criando, assim, um mercado
adicional de oferta de crédito à moradia.
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JORNAL FOLHA DE SÃO
PAULO (OLN LINE), 24 de setembro de 2007
Justiça determina distribuição
de vale-transporte aos desempregados de SP
A Justiça determinou que a Prefeitura de São Paulo forneça
vale-transporte aos desempregados da cidade. Estimativas do Dieese (Departamento
Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) apontam
que a Grande São Paulo tem 2 milhões de pessoas sem trabalho.
A decisão foi publicada na quinta-feira (20) no "Diário
Oficial" do Estado.
As entidades Força Sindical
e o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo entraram com
mandado de segurança para que o prefeito Gilberto Kassab (DEM)
implante a distribuição dos vales-transporte imediatamente,
segundo os sindicatos.
O presidente da Força
Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, solicitou nesta sexta-feira
uma reunião com Kassab para definir como será a distribuição
do benefício.
A Folha Online procurou
a assessoria de imprensa da prefeitura, que informou que deve se manifestar
sobre a decisão ainda hoje.
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CONSULTOR JURÍDICO,
23 de setembro de 2007
Medida oportuna
Decisão do STF acabará com
grevismo abusivo
Ao retomar o julgamento de dois mandados de injunção, um impetrado
por professores da rede de ensino básico da Paraíba e outro por
policiais do Espírito Santo, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu
que, enquanto o Congresso não aprovar um projeto de lei complementar
disciplinando as greves no setor público, o funcionalismo terá de
se submeter aos mesmos limites impostos aos trabalhadores da iniciativa privada.
O julgamento havia sido suspenso em abril, quando o ministro Ricardo Lewandowski
afirmou que a corte não poderia interferir na competência do Congresso.
Mas ele mudou de posição e o caso só não foi concluído
essa semana porque o ministro Joaquim Barbosa pediu vista do processo. Ainda
têm de se manifestar os ministros Marco Aurélio Mello e Ellen
Gracie.
Assim, o STF está prestes
a adotar uma medida que porá fim ao grevismo abusivo do funcionalismo,
além de cobrar maior empenho do Legislativo na aprovação
de leis. “Não mais se pode tolerar este estado de continuada
e inaceitável inércia. A omissão dos congressistas
traduz incompreensível sentimento de desapreço pela autoridade,
valor e significado do direito de greve”, disse o decano da corte,
Celso de Mello. “Essa é uma contribuição que
a corte dá ao processo para o aumento da eficiência administrativa
do poder público”, endossou o ministro Ayres de Brito.
Até esse julgamento, a
corte entendia que, sendo os Poderes independentes, não cabia
ao Judiciário obrigar o Congresso a cumprir suas funções
legislativas. Essa posição começou a mudar há alguns
meses, quando o ministro Gilmar Mendes emitiu seu voto, afirmando que
o mandado de injunção não tem mero “caráter
declaratório”. Previsto pela Constituição,
o instrumento legal permite ao STF determinar as regras a serem aplicadas
quando “a falta de norma regulamentadora torne inviável
o exercício dos direitos e liberdades constitucionais”.
É o que ocorre com a falta
de uma regulamentação das greves na máquina estatal,
quando os direitos dos usuários dos serviços públicos
são acintosamente desprezados pelos grevistas. Entre 2003 e 2004,
as greves do funcionalismo representaram 28 mil horas paradas. Em 2006,
só no primeiro semestre foram 15 mil horas paradas. Com as últimas
greves nas universidades federais, nos museus e na rede médico-hospitalar,
envolvendo cerca de 100 mil servidores, a estimativa é que em
2007 o total de horas paradas seja superior a 30 mil. O que há de
comum em todas essas greves em áreas tão distintas da administração
pública é a tranqüila certeza de que, ao contrário
do que ocorre na iniciativa privada, não há riscos para
os grevistas, como os de desconto por falta e de reposição
de dias parados.
É por isso, afirmou o
ministro Gilmar Mendes, que a última instância da Justiça
pode, por “analogia”, sujeitar o funcionalismo às
mesmas regras impostas aos trabalhadores das empresas particulares. Não é a
medida ideal, mas é a saída legal mais adequada para evitar
que os servidores da administração direta transformem o
sofrimento da população em meio de pressão para
obter a satisfação de seus interesses corporativos, disse
ele. “O STF não pode se abster de reconhecer que, assim
como se estabelece o controle judicial sobre a atividade do Legislativo, é possível
atuar também nos casos de inatividade ou omissão do Poder” (no
caso, os Poderes Legislativo e Executivo), concluiu.
Quando o Supremo finalmente concluir
esse julgamento, os servidores que quiserem cruzar os braços terão
de agir com base na Lei 7.783, de 1989. Com isso, não mais poderão
interromper totalmente a prestação de serviços públicos à população,
terão de negociar antes de iniciar a greve, precisarão
informar previamente as autoridades sobre a possibilidade de paralisação
e não poderão constranger nem ameaçar colegas que
não aderirem à greve.
Como o presidente Lula
não cumpriu a promessa que fez de mandar para o Legislativo
um projeto de lei disciplinando a greve no setor público, e
os congressistas jamais deram prioridade a essa matéria, a decisão
do STF não poderia ser mais oportuna.
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Notícias do Tribunal
Superior do Trabalho
24/09/2007
Ainda com LER, empregada readaptada foi
demitida e não será reintegrada
A Quinta Turma do Tribunal Superior
do Trabalho julgou improcedente o pedido de reintegração
de industriária portadora de Lesões por Esforços
Repetitivos (LER) demitida após ser readaptada em outra função,
compatível com seu estado de saúde. Ao acompanhar o voto
do ministro Brito Pereira, relator da revista, a Quinta Turma reformou
entendimento do Tribunal Regional do Trabalho da 17ª Região
(ES) e a sentença da 7ª Vara do Trabalho de Vitória,
que declarara a nulidade da dispensa e determinava a reintegração.
A industriária foi contratada
pela Chocolates Garoto S.A. em outubro de 1990 como acondicionadora.
Em seu histórico médico na empresa, há registro
de escoliose e tenossinovite desde 1992. Na perícia médica,
a trabalhadora disse que amarrava 1.440 ovos de páscoa nº 9
por dia, quando trabalhava no setor de artigos de época. Após
três cirurgias, foi afastada pelo INSS em 1995 com tendinite nos
ombros e tenossinovite no punho esquerdo. Readaptada em 1996 em nova
função, como responsável pelo controle de qualidade,
ficou assintomática por dois anos e oito meses.
Após ser demitida em dezembro
de 1998, a trabalhadora ajuizou reclamatória na 7ª Vara do
Trabalho de Vitória e pediu a nulidade da demissão, com
base no artigo 9º da CLT. Alegou que o artigo 169 da CLT manda a
empresa expedir a comunicação de acidentes de trabalho
(CAT) toda vez que houver simples suspeita de ocorrência de doença
ocupacional. Discordou do resultado do exame demissional feito por médico
do trabalho da empresa que a considerou apta para o trabalho, o que não
condiz com seu estado de saúde.
A empresa sustentou, na contestação,
que o exame médico demissional teve como parâmetro a nova
função por ela exercida. Embora a empregada possuísse
seqüelas consolidadas de sua antiga lesão, encontrava-se
apta para exercer a função na qual foi readaptada e, assim,
entendia estar correto o exame médico demissional, sem necessidade
de emissão de CAT.
A sentença foi favorável à industriária
e declarou a nulidade da demissão. A juíza salientou os
resultados das duas perícias a que foi submetida a trabalhadora
e o descaso da empresa com a saúde dos empregados ao citar resultado
de inspeção da Delegacia Regional do Trabalho do Espírito
Santo. O médico inspetor relatou ter encontrado registro de 113
empregados que passaram por processo de reabilitação profissional
perante o INSS ou portadores de deficiência física. O relatório
informou ainda que, “ao contrário do que determina a lei,
o médico do trabalho da referida empresa não emite CAT
em casos suspeitos, apenas emite este documento em casos confirmados,
o que vem acarretar prejuízo aos trabalhadores”.
A Chocolates Garoto S.A. recorreu
ao TRT da 17ª Região, que negou provimento ao apelo. O Regional
considerou que a reintegração está fundamentada
na nulidade da demissão. E finalizou: “Se a reclamante continua
portadora da mesma moléstia, é fácil concluir que
o exame médico demissional não poderia jamais considerá-la
apta, não podendo, assim, ser desligada da empresa, devendo mantê-la
readaptada em outra função até sua aposentadoria,
já que dificilmente encontrará emprego em outra empresa”.
Para o relator, o exame demissional é nulo porque a demissão
do empregado não pode ocorrer sem que o ele esteja apto para o
trabalho.
A empresa buscou reforma
da decisão regional no TST e teve sucesso. O relator, ministro
Brito Pereira, conheceu do recurso por considerar que houve violação
ao artigo 5º, inciso II, da Constituição da República,
no qual “ninguém será obrigado a fazer ou deixar
de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”. Para o
ministro Brito Pereira, a demissão ocorreu somente após
ter passado o período de estabilidade. Concluiu, em seu voto,
seguido pelos ministros da Quinta Turma, que o exame demissional é válido
ante a aptidão para o exercício da nova função
em que a empregada foi readaptada. (RR-648/1999-007-17-00.1)
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