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REVISTA VEJA, 01 de outubro de 2007 |
Especial
Che
Há quarenta anos
morria o homem e nascia a farsa
"Não
disparem. Sou Che. Valho mais vivo do que morto." Há quarenta
anos, no dia 8 de outubro de 1967, essa frase foi gritada
por um guerrilheiro maltrapilho e sujo metido em uma
grota nos confins da Bolívia. Nunca mais foi lembrada.
Seu esquecimento deve-se ao fato de que o pedido de misericórdia,
o apelo desesperado pela própria vida e o reconhecimento
sem disfarce da derrota não combinam com a aura
mitológica criada em torno de tudo o que se refere à vida
e à morte de Ernesto Guevara Lynch de la Serna,
argentino de Rosário, o Che, que antes, para os
companheiros, era apenas "el chancho", o porco,
porque não gostava de banho e "tinha cheiro
de rim fervido".
Diogo Schelp e Duda Teixeira
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Foto
Antonio Nunez Jimenez/AFP

ÀS
VÉSPERAS DO GOLPE
Che em Caballete de Casas,
em Cuba, em 1958: exceto na revolução cubana, sua vida foi uma
seqüência de fracassos. Como guerrilheiro,
foi derrotado no Congo e na Bolívia
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Essa é a
realidade esquecida. No mito, sempre lembrado, ecoam as palavras
ditas ao tenente boliviano Mário Terán, encarregado
de sua execução, e que parecia hesitar em apertar
o gatilho: "Você vai matar um homem". Essas,
sim, servem de corolário perfeito a um guerreiro disposto
ao sacrifício em nome de ideais que valem mais que a própria
vida. Ambas as frases foram relatadas por várias testemunhas
e meticulosamente anotadas pelo capitão Gary Prado Salmón,
do Exército boliviano, responsável pela captura
de Che. Provenientes das mesmas fontes, merecem, portanto, idêntica
credibilidade. O esquecimento de uma frase e a perpetuação
da outra resumem o sucesso da máquina de propaganda marxista
na elaboração de seu maior e até então
intocado mito. Che tem um apelo que beira a lenda entre os jovens
dos cinco continentes. Como homem de carne e osso, com suas fraquezas,
sua maníaca necessidade de matar pessoas, sua crença
inabalável na violência política e a busca
incessante da morte gloriosa, foi um ser desprezível. "Ele
era adepto do totalitarismo até o último pêlo
do corpo", escreveu sobre ele o jornalista francês
Régis Debray, que por alguns meses conviveu com Che na
Bolívia.
Por suas convicções
ideológicas, Che tem seu lugar assegurado na mesma lata
de lixo onde a história já arremessou há tempos
outros teóricos e práticos do comunismo, como Lenin,
Stalin, Trotsky, Mao e Fidel Castro. Entre a captura e a execução
de Che na Bolívia, passaram-se 24 horas. Nesse período,
o governo boliviano e os americanos da CIA que ajudaram na operação
decidiram entre si o destino de Guevara. Execução
sumária? Não para os padrões de Che. Centenas
de homens que ele fuzilou em Cuba tiveram sua sorte selada em
ritos sumários cujas deliberações muitas
vezes não passavam de dez minutos.
VEJA conversou com historiadores,
biógrafos, antigos companheiros de Che na guerrilha e
no governo cubano na tentativa de entender como o rosto de um
apologista da violência, voluntarioso e autoritário,
foi parar no biquíni de Gisele Bündchen, no braço
de Maradona, na barriga de Mike Tyson, em pôsteres e camisetas.
Seu retrato clássico – feito pelo fotógrafo
cubano Alberto Korda em 1960 – é a fotografia mais
reproduzida de todos os tempos. O mito é particularmente
enganoso por se sustentar no avesso do que o homem foi, pensou
e realizou durante sua existência. Incapaz de compreender
a vida em uma sociedade aberta e sempre disposto a eliminar a
tiros os adversários – mesmo os que vestiam a mesma
farda que ele –, Che é, paradoxalmente, visto como
um símbolo da luta pela liberdade. Guevara é responsável
direto pela morte de 49 jovens inexperientes recrutas que faziam
o serviço militar obrigatório na Bolívia.
Eles foram mobilizados para defender a soberania de sua pátria
e expulsar os invasores cubanos, sob cujo fogo pereceram. Tendo
ajudado a estabelecer um sistema de penúria em Cuba, Che
agora é apresentado como um símbolo de justiça
social. Politicamente dogmático, aferrado com unhas e
dentes à rigidez do marxismo-leninismo em sua vertente
mais totalitária, passa por livre-pensador.
O regime policialesco
de Fidel Castro não permite que aqueles que conviveram
com Che e permanecem em Cuba possam ir além da cinzenta
ladainha oficial. Por isso, apesar do rancor que pode apimentar
suas lembranças, os exilados cubanos são vozes
de maior credibilidade. O movimento que derrubou o ditador
Fulgencio Batista, em 1959, não foi uma ação
de comunistas, como pretende Fidel Castro. Boa parte da liderança
revolucionária e dos comandantes guerrilheiros tinha
por objetivo a instauração da democracia em Cuba.
Mas foi surpreendida por um golpe comunista dentro da revolução.
Acabaram presos, fuzilados ou deportados. Desde o início,
Che representou a linha dura pró-soviética, ao
lado do irmão de Fidel, Raul Castro. Na versão
mitológica, Che era dono de um talento militar excepcional.
Seus ex-companheiros, no entanto, lembram-se dele como um comandante
imprudente, irascível, rápido em ordenar execuções
e mais rápido ainda em liderar seus camaradas para a
morte, em guerras sem futuro no Congo e na Bolívia.
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The
New York Times

A "MALDIÇÃO
DE SATURNO"
Com Fidel em Havana, em
1959: "Que esta
revolução não devore seus próprios
filhos", dizia Fidel. Ele fez o contrário.
As últimas transmissões de rádio
de Che na Bolívia foram ignoradas em Havana
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Huber Matos,
que lutou sob as ordens do argentino em Cuba, falou a VEJA sobre
o fracasso de Che como comandante: "A luta foi difícil
na primavera de 1958. A frente de comportamento mais desastroso
foi a de Che. Mas isso não o afetou, porque era o favorito
de Fidel, que nos impedia de discutir abertamente o trabalho
pífio de seu protegido como guerrilheiro". Pouco
depois do triunfo da guerrilha, ao perceber os primeiros sinais
de tirania, Huber renunciou a seu posto no governo revolucionário
e informou que voltaria a ser professor. Preso dois dias depois,
passou vinte anos na cadeia. Vive hoje em Miami. À moda
soviética, sua imagem foi removida das fotos feitas durante
a entrada solene em Havana, em que aparecia ao lado de Fidel
e Camilo Cienfuegos, outro comandante não comunista desaparecido
em circunstâncias misteriosas nos primórdios da
revolução.
Nomeado comandante da
fortaleza La Cabaña, para onde eram levados presos políticos,
Che Guevara a converteu em campo de extermínio. Nos seis
meses sob seu comando, duas centenas de desafetos foram fuzilados,
sendo que apenas uma minoria era formada por torturadores e outros
agentes violentos do regime de Batista. A maioria era apenas
gente incômoda.
Napoleon Vilaboa, membro
do Movimento 26 de Julho e assessor de Che em La Cabaña,
conta agora ter levado ao gabinete do chefe um detido chamado
José Castaño, oficial de inteligência do
Exército de Batista. Sobre Castaño não pesava
nenhuma acusação que pudesse produzir uma sentença
de morte. Fidel chegou a ligar para Che para depor a favor de
Castaño. Tarde demais. Enquanto dava voltas em torno de
sua mesa e da cadeira onde estava o militar, Che sacou a pistola
45 e o matou ali mesmo com balaços na cabeça. Em
outra ocasião, Che foi procurado por uma mãe desesperada,
que implorou pela soltura do filho, um menino de 15 anos preso
por pichar muros com inscrições contra Fidel. Um
soldado informou a Che que o jovem seria fuzilado dali a alguns
dias. O comandante, então, ordenou que fosse executado
imediatamente, "para que a senhora não passasse pela
angústia de uma espera mais longa".
Em seu diário
da campanha em Sierra Maestra, Che antecipa o seu comportamento
em La Cabaña. Ele descreve com naturalidade como executou
Eutímio Guerra, um rebelde acusado de colaborar com os
soldados de Batista: "Acabei com o problema dando-lhe um
tiro com uma pistola calibre 32 no lado direito do crânio,
com o orifício de saída no lobo temporal direito.
Ele arquejou um pouco e estava morto. Seus bens agora me pertenciam".
Em outro momento, Che decidiu executar dois guerrilheiros acusados
de ser informantes de Batista. Ele disse: "Essa gente, como é colaboradora
da ditadura, tem de ser castigada com a morte". Como não
havia provas contra a dupla, os outros rebeldes presentes se
opuseram à decisão de Che. Sem lhes dar ouvidos,
ele executou os dois com a própria pistola. Essa frieza
e a crueldade sumiram atrás da moldura romântica
que lhe emprestaram, construída pelos mesmos ideólogos
que atribuíram a ele a frase famosa – "Hay
que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás".
Frase criada pela propaganda esquerdista.
Como o jovem aventureiro
que excursionou de motocicleta pelas Américas se tornou
um assassino cruel e maníaco? O jornalista americano Jon
Lee Anderson, autor da mais completa biografia de Che, escreveu
que ele era um fatalista – e esse fatalismo aguçou-se
depois que se juntou aos guerrilheiros cubanos. "Para ele,
a realidade era apenas uma questão de preto e branco.
Despertava toda manhã com a perspectiva de matar ou morrer
pela causa", afirma Anderson.
Ernesto Guevara Lynch
de la Serna nasceu em 14 de maio de 1928, em uma família
de esquerdistas ricos na Argentina. Sofreu de asma a vida inteira.
Antes de se formar em medicina, profissão que nunca exerceu
de fato, viajou pela América do Sul durante oito meses.
Depois de terminada a faculdade, saiu da Argentina para nunca
mais voltar. Encontrou-se com Fidel Castro no México,
em 1955, onde aprendeu técnicas de guerrilha. No ano seguinte,
participou do desembarque em Cuba do pequeno contingente de revolucionários.
Depois de dois anos de combates na Sierra Maestra, Fidel tomou
o poder em Havana. Che ocupou-se primeiro dos fuzilamentos e,
depois, da economia, assunto do qual nada entendia. José Illan,
que foi vice-ministro de Finanças antes de fugir de Cuba,
contou a VEJA que o argentino "desprezava os técnicos
e tratava a nós, os jovens cubanos, com prepotência".
No comando do Banco Central e depois do Ministério da
Indústria, Che começou a nacionalizar a indústria
e foi o principal defensor do controle estatal das fábricas. "Che
era um utópico que acreditava que as coisas podiam ser
feitas usando-se apenas a força de vontade", diz
o historiador Pedro Corzo, do Instituto da Memória Histórica
Cubana, em Miami. Como resultado de sua "força de
vontade", a produção agrícola caiu
pela metade e a indústria açucareira, o principal
produto de exportação de Cuba, entrou em colapso.
Em 1963, em estado de penúria, a ilha passou a viver da
mesada enviada pela então União Soviética.
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AFP

CASADO COM SI PRÓPRIO
Che com sua segunda mulher, Aleida
March, no dia de seu casamento, em Havana, em 1959. Elas
não podiam competir com o "chamado
da aventura"
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Não havia
mais o que Che pudesse fazer em Cuba. Era ministro da Indústria,
mas divergia de Fidel em questões relativas ao desenvolvimento
econômico. De maneira simplista, ele acreditava que incentivos
morais tinham maiores probabilidades de estimular o trabalho.
Che também se tornou crítico feroz da União
Soviética, da qual o regime cubano dependia para sobreviver.
Não por discordar do Kremlin, mas porque julgava os soviéticos
tímidos na promoção da revolução
armada no Terceiro Mundo. Para se livrar dele, Fidel o mandou
como delegado à Assembléia-Geral das Nações
Unidas em 1964. No ano seguinte, Che foi secretamente combater
no Congo, à frente de soldados cubanos. Ali, paralisado
por incompreensíveis rivalidades tribais, derrotado no
campo de batalha e abatido pela diarréia, Che propôs
a seus comandados lutar até a morte. Mas foi demovido
do propósito pela soldadesca, que não aceitou o
sacrifício numa guerra sem sentido.
Daí em diante
o argentino tornou-se uma figura patética. Em Havana,
Fidel divulgara a carta em que ele renunciava à cidadania
cubana e anunciava sua disposição de levar a guerra
revolucionária a outras plagas. Pego de surpresa pela
leitura prematura do documento, Che ficou no limbo, sem ter para
onde voltar. "Sua vida foi uma seqüência de fracassos",
disse a VEJA o historiador cubano Jaime Suchlicki, da Universidade
de Miami. "Como médico, nunca exerceu a profissão.
Como ministro e embaixador, não conseguiu o que queria.
Como guerrilheiro, foi eficiente apenas em matar por causas sem
futuro." Na falta de opções, Che escolheu
a Bolívia para sua nova aventura guerrilheira. Ele lutaria
em território montanhoso e inóspito, imerso na
selva, sem falar o dialeto indígena dos camponeses bolivianos.
O plano original era adentrar, pela fronteira, a província
argentina de Salta. Mas um contigente exploratório foi
aniquilado rapidamente pelo exército daquele país.
A missão boliviana era, de todos os pontos de vista, suicida.
Ainda assim, Fidel a apoiou, a ponto de designar alguns soldados
de seu exército para o destacamento guerrilheiro. O ditador
cubano também equipou e financiou a expedição,
com a qual manteve contato até que seu fracasso se tornou
evidente.
Além da falta
de apoio do povo boliviano, que tratou os cubanos chefiados por
Che como um bando de salteadores, a expedição fracassou
também pela traição do Partido Comunista
Boliviano. VEJA perguntou a um de seus mais altos dirigentes
dos anos 60, Juan Coronel Quiroga: "O PCB traiu Che Guevara?".
Resposta de Quiroga: "Sim". A explicação? "Nosso
partido era afinado com Moscou, onde a estratégia de abrir
focos de guerrilha como a de Che estava há muito desacreditada." Quiroga
era amigo pessoal do então ministro da Defesa da Bolívia
e conseguiu que as mãos do cadáver de Che Guevara
fossem decepadas, mantidas em formol e entregues a ele. "Por
anos guardei as mãos de Che debaixo da minha cama em um
grande pote de vidro. Um dia meu filho deparou com aquilo e quase
entrou em pânico", conta Quiroga. Anos mais tarde,
coube a Quiroga a missão de entregar o lúgubre
pote com as mãos de Guevara à Embaixada de Cuba
em Moscou.
A morte de Che foi central
para a estabilização do regime cubano nos anos
60, de acordo com o polonês naturalizado americano Tad
Szulc, na sua celebrada biografia de Fidel. O fim do guerrilheiro
argentino ajudou o ditador a pacificar suas relações
com Moscou e ainda lhe forneceu um ícone de aceitação
mais ampla que a própria revolução. O esforço
de construção do mito foi facilitado por vários
fatores. Quando morreu, Che era uma celebridade internacional.
Boa-pinta, saía ótimo nas fotografias. A foto do
pôster que enfeita quartos de milhões de jovens
foi tirada num funeral em Havana, ao qual compareceram o filósofo
francês Jean-Paul Sartre – que exaltou Che como "o
mais completo ser humano de nossa era" – e sua mulher,
a escritora Simone de Beauvoir. A foto de 1960 só ganhou
divulgação mundial sete anos depois, nas páginas
da revista Paris Match. Dois meses mais tarde, Che foi morto
na selva boliviana e Fidel fez um comício à frente
de uma enorme reprodução da imagem, que preenchia
toda a fachada de um prédio público cubano. Nascia
o pôster.
Três fatos ajudaram
a consolidar o mito. O primeiro foi a morte prematura de Che,
que eternizou sua imagem jovem. Aos 39 anos, ele estava longe
de ser um adolescente quando foi abatido, mas a pinta de galã lhe
garantia um aspecto juvenil. O fim precoce também o salvou
de ser associado à agonia do comunismo. A decadência
física e política de Fidel Castro, desmoralizado
pela responsabilidade no isolamento e no atraso econômico
que afligem o povo cubano, dá uma idéia do que
poderia ter acontecido com Che, que era apenas dois anos mais
jovem que o ditador.
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Reuters

PARA IMPRESSIONAR "IKE"
Guevara e Fidel em jogo-treino de golfe
para disputar uma partida, que nunca houve, com Eisenhower
em Washington: "Fidel ganhou, mas Che
o deixou ganhar"
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O segundo fato
foi a ajuda involuntária de seus algozes. Preocupados
em reunir provas convincentes de que o guerrilheiro célebre
estava morto, os militares bolivianos mandaram lavar o corpo
e aparar e pentear sua barba e seu cabelo. Também resolveram
trocar sua roupa imunda. Tudo isso para poder tirar fotos em
que ele fosse facilmente identificado. O resultado é um
retrato com espantosa semelhança com as pinturas barrocas
do Cristo morto de expressão beatificada. A terceira contribuição
recebida pelos esquerdistas na construção do mito
veio do contexto histórico. Che morreu às vésperas
dos grandes protestos em defesa dos direitos civis, da agitação
dos movimentos estudantis e da revolução de costumes
da contracultura – turbulências que marcaram o ano
de 1968. Era um personagem perfeito para ser símbolo da
juventude de então, que se definia pela "determinação
exacerbada e narcisista de conseguir tudo aqui e agora",
como escreveu o mexicano Jorge Castañeda, em sua biografia
de Che. A história, no entanto, mostra que o homem era
muito diferente do mito. Mas quem resiste? Neste mês, nos
Estados Unidos, o cubano Gustavo Villoldo, chefe da equipe da
CIA que participou da captura do guerrilheiro, vai leiloar uma
mecha de cabelo de Che.
Se houve um ganhador
da Guerra Fria, foi Che Guevara. Ele morreu e foi santificado
antes que seu narcisismo suicida e os crimes que decorreram dele
pudessem ser julgados com distanciamento, sob uma luz mais civilizada,
que faria aflorar sua brutalidade com nitidez. Pobre Fidel Castro.
Enquanto Che foi cristalizado na foto hipnótica de Alberto
Korda, ele próprio, o supremo comandante, aparece cada
dia mais roto, macilento, caduco, enquanto se desmancha lentamente
dentro de um ridículo agasalho esportivo diante das lentes
das câmeras da televisão estatal cubana. O método
de luta política que Guevara adotou já era errado
em seu tempo. No rastro de suas concepções de revolução
pela revolução, a América Latina foi lançada
em um banho de sangue e uma onda de destruição
ainda não inteiramente avaliada e, pior, não totalmente
assentada. O mito em torno de Che constitui-se numa muralha que
impediu até agora a correta observação de
alguns dos mais desastrosos eventos da história contemporânea
das Américas. Está passando da hora de essa muralha
cair.
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A
FRASE MAIS FAMOSA ATRIBUÍDA A GUEVARA É...
" Há que
endurecer-se, mas sem jamais perder a ternura."
...OUTRAS
MENOS CONHECIDAS REVELAM SUA REAL PERSONALIDADE:
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"Estou
na selva cubana, vivo e sedento de sangue."
Carta à esposa, Hilda Gadea, em janeiro de 1957
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Keystone/Getty
Images
"Fuzilamos
e seguiremos fuzilando enquanto for necessário.
Nossa luta é uma luta até a morte."
Discurso na Assembléia-Geral da ONU, em 11 de dezembro de 1964
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" O ódio intransigente ao inimigo
(...) converte (o combatente) em uma efetiva, seletiva e
fria máquina de matar. Nossos soldados têm de
ser assim."
Revista cubana Tricontinental, em maio de 1967
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| O
mundo tomou outro rumo |
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CUBA
Apesar de tentar exportar sua revolução, a ilha tornou-se
a vitrine de seu fracasso. Sem liberdade política nem econômica,
o país é um museu de prédios, carros e dirigentes
decrépitos, onde comida, combustíveis e energia são
racionados.
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BOLÍVIA
O foco guerrilheiro de Guevara foi derrotado pela população
pobre da Bolívia, que negou ajuda e ainda delatou o grupo.
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CONGO
Guevara e um contingente de cubanos lutaram ao lado do chefe tribal Laurent
Kabila contra o coronel Mobutu. Em 1997 Kabila finalmente derrubou Mobuto,
mas foi assassinado em 2001. Em seu curto governo, 3 milhões de
pessoas foram mortas em guerras tribais.
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CHINA
A ideologia de Mao Tsé-tung, que Guevara citava como modelo de
comunismo, foi sepultada pelos chineses.
COMUNISMO
Depois da queda do Muro de Berlim, a ideologia será lembrada sobretudo
como a responsável pela morte de 100 milhões de pessoas.
VIETNÃ
Na frase famosa, Guevara propôs criar "dois, três, muitos
Vietnãs". Acertou. A globalização da economia
está criando Vietnãs pelo mundo – países adeptos
da economia de mercado, com rápido crescimento econômico
e aliados dos Estados Unidos.
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"A
ordem de execução veio pelo rádio"
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Fotos
divulgação
 
O ÚLTIMO DIA DO
GUERRILHEIRO
Maltrapilho e sujo, Guevara posa com os soldados que
o capturaram na vila de La Higuera, onde seria morto.
A seu lado, assinalado, está o
agente da CIA Felix Rodríguez. À direita, Felix hoje, em
Miami
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Felix
Rodríguez foi uma das últimas pessoas a conversar
com Che Guevara. Mais do que isso, foi ele quem recebeu e transmitiu
a ordem para que o guerrilheiro fosse executado. Cubano exilado
nos Estados Unidos, ele era o operador de rádio enviado à Bolívia
pela CIA para auxiliar na caçada e, também, para
ajudar a identificar Guevara. Veterano da fracassada invasão
da Baía dos Porcos, em 1961, Rodríguez vive hoje
em Miami, aos 66 anos. Ele falou ao repórter Duda Teixeira.
COMO CHEGOU A
ORDEM PARA MATAR CHE?
As instruções que recebi nos Estados Unidos eram para poupar
sua vida. A CIA sabia da divergência de idéias entre Che
e Fidel e acreditava que, a longo prazo, ele poderia cooperar com a agência.
A ordem para sua execução veio por rádio, de uma
alta autoridade boliviana. Era uma mensagem em código: "500,
600". O primeiro número, 500, significava Guevara. O segundo,
que ele deveria ser morto. Tentei em vão convencer os militares
bolivianos a permitir que ele fosse levado para ser interrogado no Panamá.
Eles negaram meu pedido e me deram um prazo. Eu deveria entregar o corpo
de Guevara até as 2 horas da tarde. Perto das 11h30, uma senhora
aproximou-se de mim e perguntou quando iríamos matá-lo,
pois ouvira no rádio que Che havia morrido em combate. Naquele
momento compreendi que a decisão de executá-lo era irrevogável.
COMO FOI SUA ÚLTIMA
CONVERSA COM ELE?
Fui até o local de seu cativeiro e disse a ele que lamentava,
mas eram ordens superiores. Che ficou branco como um papel. "É melhor
assim. Eu nunca deveria ter sido capturado vivo", falou. Tirou o
cachimbo da boca e me pediu para que o desse a um dos soldados. Ofereci-me
para transmitir mensagens à sua família. "Diga a Fidel
que esse fracasso não significa o fim da revolução,
que logo ela triunfará em alguma parte da América Latina",
ele falou em tom sarcástico. Aí lembrou da esposa. "Diga
a minha senhora que se case outra vez e trate de ser feliz." Foram
suas últimas palavras. Apertou a minha mão e me deu um
abraço, como se pensasse que eu seria o carrasco. Saí dali
e avisei a um tenente armado com uma carabina M2, automática,
que a ordem já tinha sido dada. Recomendei a ele que atirasse
da barba para baixo, porque se supunha que Che havia morrido em combate.
Eram 13h10 quando escutei o barulho de tiros. Che Guevara tinha sido
morto.
COMO FOI O SEU
PRIMEIRO CONTATO COM CHE GUEVARA?
Cheguei a La Higuera de helicóptero em 9 de outubro, um dia depois
da captura de Che Guevara. Eu o encontrei com os pés e as mãos
amarrados, ao lado dos corpos de dois cubanos. Sangrava de uma ferida
na perna. Era um homem totalmente arrasado. Parecia um mendigo.
COMO FORAM SUAS
CONVERSAS COM CHE?
Nós nos tratamos com respeito. Eu o chamava de comandante. Falamos
de Cuba e de outras coisas, mas ele permanecia calado quando as perguntas
eram de interesse estratégico. Houve momentos em que não
consegui prestar atenção ao que ele dizia. Ao olhar aquele
homem derrotado, vinha-me à mente sua imagem no passado, sempre
altiva e arrogante.
COMO FORAM AS
RELAÇÕES DE CHE COM A POPULAÇÃO
NA BOLÍVIA?
Para sobreviver, é essencial que uma força guerrilheira
conte com o apoio da população local. A aventura de Che
na Bolívia foi um caso único em que uma guerrilha não
conseguiu recrutar um único morador da área onde atuou.
Só um agricultor ganhou a confiança dos guerrilheiros,
e mesmo esse acabou por passar informações que permitiram
ao Exército armar uma emboscada. Os poucos bolivianos que participaram
da guerrilha eram dissidentes do Partido Comunista. Nenhum camponês.
POR QUE
O SENHOR FOI ENVIADO À BOLÍVIA?
O Exército boliviano estava totalmente despreparado para enfrentar
uma guerrilha. A maior parte dos soldados trabalhava na construção
de estradas e provavelmente jamais dera um tiro de fuzil. Nos primeiros
embates, os guerrilheiros aprisionavam os soldados, tiravam suas roupas
e os soltavam. Foi então que o governo boliviano pediu ajuda aos
Estados Unidos.
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| Limparam
Che para a foto |
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No
dia de sua morte, amarrado ao esqui de um helicóptero militar,
Che Guevara foi levado do local da execução para
um vilarejo chamado Vallegrande. A brasileira Helle Alves, repórter,
e o fotógrafo Antonio Moura, então trabalhando para
o Diário da Noite, de São Paulo, viram a chegada
do corpo, que foi levado para a lavanderia do hospital local (acima).
Ali, Moura foi o único jornalista a fotografar o corpo de
Guevara ainda sujo, vestido de trapos e calçado com o que
sobrou de uma botina artesanal de couro (abaixo). Moura conseguiu
fotografar o corpo antes da limpeza e da arrumação. "Che
usava um calço em um dos calcanhares, provavelmente para
corrigir uma diferença de tamanho entre uma perna e outra",
lembra Helle. Ela contou pelo menos dez marcas de tiro no corpo
do argentino. "Os moradores tinham raiva dele e invadiram
a lavanderia, mas, quando viram o corpo, passaram a dizer que ele
parecia Jesus Cristo." Começara o mito.
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Fotos
Antonio Moura


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| Ele
está em toda parte |

Fotos Mauricio Lima/Jonathan Utz-AFP e Alfredo Tedeschi-File-Reuters
O retrato de Che feito por Alberto Korda em 1960 é agora uma imagem
de múltiplos significados: é pop no biquíni da Cia.
Marítima vestido por Gisele Bündchen e uma manifestação
de truculência e mau humor nas tatuagens de Maradona e Mike Tyson
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ESTADÃO.COM / SÃO PAULO, 01 de
outubro de 2007 | Economia
Conta de telefone fica mais cara
a partir desta segunda
Reajustes, autorizados pela Anatel em julho,
valem tanto nos planos de assinatura básica quanto nos de
minuto
SÃO PAULO - Começam a valer nesta segunda-feira, 1º, os
reajustes nas tarifas de telefonia fixa de todo o País, autorizados
pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) no dia
17 de julho. As novas tarifas serão aplicadas tanto nos planos de assinatura
quanto nos de minuto.
Os porcentuais autorizados foram de 1,8321% para a Telemar; 2,1385% para a
BrasilTelecom; 2,2054% para a Telesp (Telefônica); 2,1692% para a CTBCTelecom;
2,2054% para a Sercomtel; e reajuste negativo de 1,4811% para a Embratel.
Para as chamadas de Longa Distância Nacional (LDN) e Longa Distância
Internacional (LDI), o reajuste máximo permitido pela Anatel foi de
8,06%. Já o valor do crédito para utilização dos
telefones públicos, único em todo o território nacional,
sofrerá reajuste de 2,16% e passa a ser R$ 0,1185, com impostos.
As regras contratuais estabelecem para o cálculo do reajuste a variação
do Índice de Serviços de Telecomunicações (IST)
de maio de 2006 a maio de 2007 e a aplicação de um fator de transferência
que permite o compartilhamento de ganhos econômicos e representa um redutor
de tarifas calculado pela Anatel.
Segundo a Anatel, os índices aprovados foram inferiores aos registrados
pelos principais índices inflacionários adotados no País.
O IST registrou a menor variação no período considerado
(de maio de 2006 a maio de 2007), apresentando uma variação de
2,91%, seguido pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA,
3,18%) e Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC, 3,57%).
O Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI), índice
adotado nos contratos de concessão que vigoraram até 2005 registrou
uma variação de 4,38% no período.
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ESTADÃO.COM / SÃO PAULO, 01 de
outubro de 2007 | Economia
Analfabetismo cai 46% nas micro
e pequenas empresas
Estudo feito pelo Dieese no período
de 2001 a 2005 revela que o comércio tem as maiores quedas
Pedro Henrique França, da Agência
Estado
SÃO PAULO - Estudo realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística
e Estudos Socioeconômicos (Dieese), encomendado e divulgado nesta sexta-feira,
28, pelo Sebrae, revela que o índice de analfabetismo dos trabalhadores
brasileiros empregados nas micro e pequenas empresas caiu 46% no período
de 2001 a 2005. Os dados constam do Anuário do Trabalho na Micro e Pequena
Empresa 2007, fruto da parceria entre Sebrae e Dieese.
Por segmentos, o estudo aponta que o setor de comércio registrou as
principais quedas no nível de analfabetismo tanto nas micros, com declínio
de 61,5%, quanto nas pequenas empresas, onde a baixa foi de 60%. O levantamento
inédito mostra ainda que cresceu o número de funcionários
com segundo grau de instrução completo. No período analisado,
segundo o Dieese, o avanço foi de 65,4%, com acréscimo de pouco
mais de 1,723 milhões de trabalhadores.
Tendência já verificada no mercado, as mulheres também
vem conquistando espaço nas micro e pequenas empresas. Segundo o Dieese,
de 2001 a 2005, a ala feminina cresceu 23,5%, enquanto os homens avançaram
menos - 16%.
Em números absolutos, entretanto, a parte masculina continua mais forte.
No período analisado, o número de mulheres empregadas nas micro
e pequenas empresas subiu de 1,958 milhão para algo em torno de 2,419
milhões. Já os homens, passaram de 3 milhões para 3,494
milhões.
Com relação aos rendimentos, o levantamento aponta pouca alteração
na distribuição da massa salarial entre os setores analisados
- comércio, indústria, construção civil e serviços.
Segundo o Dieese, em 2005 o comércio concentrava 66,7% da massa total
de remuneração do setor. O dado é explicado, de acordo
com o estudo, "pela grande concentração do emprego setorial
nos estabelecimentos deste porte".
O comércio é seguido pela construção civil, com
45,7% da massa de remuneração setorial, serviços (32,9%)
e indústria (29,6%).
Já com relação à remuneração, o levantamento
informa que, em 2005, as microempresas do setor de construção
civil pagavam, em média, R$ 675. É seguido por serviços,
com remuneração de R$ 668, indústria (R$ 663) e comércio
(R$ 537). Na pequena empresa, os salários mostram-se um pouco mais elevados
- de R$ 695, em comércio, a R$ 985, em serviços.
Por regiões do País e considerando todos os setores, o anuário
observa que os salários são mais altos no Sudeste, com remuneração
média de R$ 663,50. Na seqüência, aparecem as regiões
Sul (R$ 646,50), Centro-Oeste (R$ 581), Norte (R$ 503,50) e Nordeste (R$ 466).
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UOL ECONOMIA, 01 de outubro
de 2007
Com mais importações,
saldo comercial do país cai 22,3% em um ano
Da Redação
Em São Paulo
O Brasil registrou em setembro um superávit comercial de US$ 3,471 bilhões.
Isso significa uma queda de 22,3% em relação ao mesmo mês
do ano passado, quando o saldo foi de US$ 4,468 bilhões. A causa da
redução no superávit foi um aumento das importações.
No acumulado do ano, 2007 também
está pior do que 2006: até setembro agora, a balança
comercial tem saldo positivo de US$ 30,947 bilhões. No mesmo período
de 2006, o saldo acumulado era de US$ 34,214 bilhões, o que representa
uma redução de 9,5% neste ano.
O resultado de setembro agora
também está abaixo de agosto, quando a balança comercial
brasileira teve um saldo positivo de US$ 3,534 bilhões, numa redução
de 1,8%. As informações são do Ministério
do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
O superávit ou saldo da
balança comercial ocorre quando um país exporta mais do
que importa. Quando o fluxo é inverso e há mais importações
do que exportações, fica caracterizado o déficit
comercial. O saldo é o resultado de uma conta de subtrair entre
as exportações e as importações.
A redução contínua
da cotação do dólar pode prejudicar o desempenho
da balança comercial do país, pois os produtos brasileiros
ficam mais caros lá fora.
Houve um aumento maior das importações
em setembro, que subiram 31,9%, de US$ 8,109 bilhões para US$
10,695 bilhões. As exportações subiram menos que
a metade das importações, apenas, 12,6, indo de US$ 12.577
bilhões para US$ 14,166 bilhões
Analistas consultados pelo Banco
Central estimam que, neste ano, a balança comercial do país
termine com superávit de US$ 42 bilhões.
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CORREIO DA BAHIA, 01 de outubro de 2007
Males da visão afetam 40%
dos trabalhadores noturnos
Conclusão é de estudo realizado
em Campinas (SP) com 617 operários
Alan Rodrigues
O trabalho noturno, aliado a hábitos de vida inadequados, pode ser um
fator de predisposição a problemas de visão e até mesmo
a cegueira. A conclusão é baseada numa pesquisa desenvolvida
em Campinas (SP) com operários que trabalham no turno da noite. O estudo
verificou a incidência de algum distúrbio na percepção
visual em pelo menos 40% de um total de 617 pesquisados. Os problemas mais
comuns são a falta de lubrificação ocular, que provoca
ardência, e perda de foco.
O médico responsável pela pesquisa, o oftalmologista Leôncio
Queiroz Neto, do Instituto Penido Burnier, lista uma série de situações
que podem favorecer o aparecimento de distúrbios visuais entre os trabalhadores
noturnos. Luminosidade inadequada, falta de ventilação e excesso
de refrigeração. Com o boom da informática, também é comum
para os operários trabalharem em frente aos monitores de computador. “Quando
olhamos para um monitor, piscamos 20 vezes menos e isso diminui a lubrificação
da retina, provocando ressecamento”, explica Queiroz Neto.
Com a redução na produção lacrimal, começa
a ocorrer a perda de foco, que é agravada pela idade. “A partir
dos 38, 39 anos, a pessoa começa a sentir dificuldade para enxergar
de perto”, alerta o médico, referindo-se ao que comumente se classifica
de “vista cansada”; para os oftalmologistas, o termo usado é presbiopia.
O “cansaço” é provocado também pelo enfraquecimento
da musculatura ciliar, que confere ao cristalino (uma das partes do olho) a
capacidade de focar e desfocar. A principal causa desse enfraquecimento é a
produção de dois hormônio _ cortisol e adrenalina _, que
pode ocorrer durante o estado de vigília.
Aliado a isso, está a falta de repouso apropriado. É durante
o sono que ocorre a secreção da melatonina, um hormônio
antioxidante duas vezes mais potente que a vitamina E, e responsável
pelo retardamento dos efeitos do envelhecimento ocular. “Normalmente,
quem trabalha à noite, quando chega em casa, encontra outra rotina,
todos já estão acordados e, muitas vezes, ele tem outro emprego
ou precisa aproveitar o dia para resolver coisas, como ir ao banco”,
esclarece o especialista.
Dicas - Para minimizar os efeitos do trabalho noturno
e manter uma boa visão por mais tempo, o médico orienta
um sono de, no mínimo, seis horas diárias, e oferece algumas
dicas: escurecer ao máximo possível o quarto de dormir
e reduzir a ingestão de café _ muito utilizado por quem
precisa se manter acordado à noite. Queiroz Neto aconselha também
incluir na alimentação laticínios, nozes, gergelim
e tofu _ que contêm triptofano, precursor da melatonina _, aumentar
o consumo de frutas cítricas, ricas em vitamina C, e praticar
exercícios físicos.
Além disso, é importante procurar um médico ao primeiro
sinal de distúrbio na visão. “A maioria dos trabalhadores
não procura o serviço médico das empresas, evita o uso
de óculos e o problema acaba sendo diagnosticado apenas quando afeta
a produtividade no trabalho”, conclui o especialista.
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JORNAL
FOLHA DE SÃO PAULO, 29 de setembro de 2007 | Mundo
Governo Chávez erra cálculo
ao propor jornada de seis horas
Para completar as 36 horas semanais previstas
na reforma constitucional, trabalho aos sábados teria de ser obrigatório|
Artigo terá de ser revisto, mas matemática dificulta nova
fórmula; para partido da oposição, proposta visa
eclipsar reeleição indefinida
FABIANO MAISONNAVE
DE CARACAS
Apresentada como o principal
benefício à classe trabalhadora da reforma constitucional
proposta pelo presidente Hugo Chávez, a redução
da jornada de trabalho de oito horas para seis horas diárias
e de 44 horas para 36 horas por semana se transformou num grande estorvo
para o governo.
O motivo é que, por um erro básico de cálculo, a mudança
tornaria obrigatório o trabalho aos sábados.
A proposição chavista reza que "a jornada diurna não
excederá seis horas diárias nem 36 horas semanais", em substituição às
atuais 44 horas semanais. Caso a proposta entre em vigor sem alterações,
os trabalhadores serão obrigados a cumprir uma jornada completa de seis
horas também aos sábados, para somar 36 horas.
Hoje, uma parte significativa dos venezuelanos não trabalha aos sábados.
Questionado até pelos sindicatos aliados, o governo não esclareceu
como resolverá o imbróglio, mas negou a intenção
de que se trabalhe seis dias por semana. "Para que fique claro ao país,
ninguém está propondo que os que trabalham de segunda a sexta
trabalhem agora aos sábados", disse anteontem o ministro do Trabalho,
José Ramón Rivero.
Rivero, no entanto, admitiu que, para evitar a jornada aos sábados,
a Assembléia Nacional terá "de fazer alguns ajustes".
A reforma constitucional terá de passar por uma terceira discussão
no Legislativo, dominado pelos chavistas. Após a última aprovação,
será realizado um referendo, provavelmente no início de dezembro.
Recentemente, Rivero propôs que a jornada semanal de 36 horas seja dividida
em oito horas diárias de segunda a quinta-feira e apenas quatro na sexta-feira.
Na Assembléia, um deputado chavista sugeriu sete horas diárias
de segunda a sexta, reduzindo a jornada semanal para 35 horas.
Para a oposição, o erro é mais uma evidência de
que a reforma constitucional tem como objetivo principal aprovar a reeleição
indefinida. Os críticos de Chávez afirmam ainda que a mudança
na carga horária pode ser feita até por decreto, sem a necessidade
de alterar a Carta de 1999. "É uma proposta para disfarçar
o conteúdo de fundo, feita para vender melhor a reforma da Constituição",
disse à Folha Gerardo Blyde, secretário-geral do partido Um Novo
Tempo, oposicionista.
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JORNAL
FOLHA DE SÃO PAULO, 01 de outubro de 2007 | Brasil
Partidos da coalizão de Lula estarão
rachados em 2008
Base aliada contraria pedido do presidente para
repetir aliança em disputas municipais | Mesmo os tradicionais
parceiros deverão ocupar palanques opostos e lançar candidaturas
próprias nas grandes cidades do país
CATIA SEABRA
DA REPORTAGEM LOCAL
Apesar dos apelos do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva para reprodução da aliança
nacional na disputa municipal, a ampla base de sustentação
do governo periga ruir nas eleições do ano que vem. Dispostos
a ganhar musculatura para as eleições de 2010 -a primeira
sem Lula desde 1989-, os partidos aliados investem no lançamento
de candidaturas próprias nas grandes cidades.
Até os tradicionais parceiros do PT duvidam das chances de a composição
se repetir em todo o país. Na maior parte das cidades, PT e aliados
deverão ocupar palanques opostos.
Prova disso está no chamado bloquinho de esquerda, que tem o deputado
Ciro Gomes (PSB-CE) como potencial candidato à Presidência. Integrantes
do bloco, PC do B, PSB e PDT adotaram como norma para 2008 o lançamento
de candidatos nas cidades com mais de cem mil habitantes (200 mil, no caso
do PDT).
Onde não for possível, vão costurar alianças dentro
do próprio bloco. "Só na impossibilidade disso, vamos tentar
com os partidos da esquerda da base de apoio do governo. Aí, o PT",
explica o vice-presidente do PSB, Roberto Amaral.
Plano
para 2010
Para o presidente nacional do PC do B, Renato Rabelo, "se o bloco crescer
e se consolidar, tende a ser uma força importante na cena política".
Lembrando que o bloquinho tem quase o mesmo tamanho que o PT na Câmara,
Rabelo admite que a eleição pode ser uma ferramenta para 2010.
" Sempre as eleições municipais são um instrumento
de força para 2010, seja para eleição de senadores, deputados,
governadores e até de presidente", afirmou.
Já o PMDB não só lançará candidatos próprios
como articula alianças com os partidos de oposição. No
Rio e em Campo Grande, por exemplo, deverá compor com o DEM.
" A realidade local é que dita a aliança em eleição
municipal", afirma o presidente do PMDB, Michel Temer, segundo quem "é complicado" negociar
alianças com o PT nos Estados.
Amaral reconhece que "o PT e o PSB têm estratégias diferentes". "Cada
um quer eleger o maior número possível de candidaturas. Onde
eles lançarem candidatos e nós também, não vai
ter acordo. E o fato de eles lançarem candidato não é inibidor
do PSB", avisa.
O presidente nacional do PDT, o ministro Carlos Lupi (Trabalho), reconhece
as dificuldades para a costura de alianças, independentemente das pretensões
dos partidos para 2010. "A aliança é heterodoxa e a realidade
local muito diferente. Há muitas disputas nos municípios",
ponderou.
Ainda assim, o secretário-geral do PDT, Manoel Dias, não chega
a descartar a hipótese de o PT apoiar candidato de outro partido de
2010. "Eles só têm o Lula. Vão ter que apoiar quem
o Lula indicar". Amaral duvida: "O PT apoiar o Ciro? No primeiro
turno? Não. É natural que o PT lance candidato, como é natural
que o PSB tenha candidato próprio", disse.
Decididos a lançar candidato nos grandes centros, os petistas sabem
dos obstáculos para preservação da aliança nas
principais cidades.
" Vamos tentar reproduzir onde for possível. Mas não é sangria
desatada", frisou o secretário-adjunto de organização
do PT, Jorge Coelho.
O problema não está apenas nas capitais. "Até em
Campinas, teremos de suar para garantir o apoio a dr. Hélio (prefeito,
do PDT)."
Os aliados estarão em campo adversário até em São
Bernardo do Campo, domicílio eleitoral de Lula. Lá, o bloquinho
deve apoiar o PSB, contra o PT.
Oposição
A rivalidade entre aliados não é exclusividade do governo. Em
muitas cidades, PSDB, DEM e PPS deverão estar em palanques adversários.
Segundo o presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), há chances
de aliança com os tucanos em três das 26 capitais do país:
Fortaleza, Goiânia e São Paulo.
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JORNAL
FOLHA DE SÃO PAULO, 01 de outubro de 2007 | Dinheiro
CGU vê irregularidades na administração
do Sistema S
Relatório aponta que quase 90% de 172
entidades fiscalizadas têm contas irregulares
| Em três unidades, CGU constata gestão irregular, e em outras 148,
problemas como falhas em compras e contratação de pessoal
Caio Guatelli - 13.fev.07/Folha Imagem

Aluna do Senai, que ajuda na capacitação de profissionais, em
SP
JULIANNA SOFIA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Relatório da CGU
(Controladoria Geral da União) com base em 370 ações
fiscais realizadas no Sistema S mostra que praticamente 90% das entidades
não conseguem passar no pente-fino do órgão
de controle. O levantamento, obtido pela Folha, detalha as auditorias
feitas em 172 unidades do sistema, das quais só 21 tiveram
suas contas consideradas regulares.
Em três unidades do sistema, a CGU conclui que houve gestão irregular,
enquanto em outras 148 foram constatados problemas e a fiscalização
indicou ressalvas na avaliação das contas. O sistema é composto
por nove entidades bancadas a partir de recursos da folha de salário
das empresas.
No diagnóstico da controladoria, as principais falhas estão localizadas
nas compras de produtos e serviços e na contratação de
pessoal -"conseqüência de controles internos administrativos
deficientes".
A partir de denúncias encaminhadas à CGU, as auditorias também
confirmaram irregularidades no gerenciamento dos recursos em quatro unidades
do Sistema S. Nelas, os auditores apuraram sobrepreço em contratos de
obras e serviços e conflitos de interesse em licitações.
Havia casos em que o contratante era sócio na empresa contratada.
Nesse grupo, a fiscalização ainda levantou pagamento de serviços
em duplicidade, prestação de serviços sem contratos, compra
de produtos com dispensa de licitação e por preços acima
de mercado, além de desrespeito a prazos para manutenção
de documentos que provam pagamentos feitos.
As três unidades com contas irregulares, segundo a CGU, são: Senar
(agricultura) de São Paulo e o Senar e o Senai (indústria) de
Sergipe. Para a controladoria, nesses casos, houve malversação
de recursos públicos e os casos aguardam julgamento do TCU (Tribunal
de Contas da União). Já as unidades auditadas por irregularidades
de gerenciamento são o Sesi de Santa Catarina e a unidade de Rondônia
e o Sesc/Senac (comércio) do Espírito Santo.
O Sistema S vem sendo alvo reiterado de críticas. No Legislativo, parlamentares
e ministros do TCU afirmam que as contas das entidades são uma caixa-preta,
já que o sistema é bancado com recursos parafiscais. No Executivo,
o Ministério da Fazenda estuda "garfar" uma parcela da receita
do setor na proposta de desoneração da folha de salários
das empresas.
O acúmulo de cargos na alta direção das entidades também é apontado
como motivo de preocupação pela CGU. Não são raras
as situações em que o presidente de uma federação
ou confederação acumula o cargo de presidente de conselho nacional
de uma unidade com a de diretor de outra. Embora a sobreposição
de funções não seja ilegal, isso acaba dando superpoderes
a dirigentes.
" Isso tem contribuído sensivelmente para decisões que mais
traduzem atos unilaterais de interesse pessoal", afirma a CGU. A Folha apurou
com técnicos que atuaram nas auditorias que denúncias de uso da
máquina do sistema em campanhas eleitorais chegaram a ser investigadas,
mas a controladoria não conseguiu encontrar provas concretas. A lista
de falhas e irregularidades do relatório foi apurada em 2006. Neste ano,
já foram feitas mais 200 ações nas entidades, de acordo
com a CGU.
As entidades fiscalizadas foram as ligadas à indústria (Sesi
e Senai), ao comércio (Sesc e Senac), à agricultura (Senar),
ao transporte (Senat e Sest) e às cooperativas (Sescoop).
A controladoria afirma que 44% das ressalvas apontadas no relatório
de 2006 referem-se a impropriedades na compra de bens e serviços. Nessa área,
destacam-se os problemas de formalização de contratos (30%) e
contratos sem licitação (27%). Na gestão e contratação
de pessoal está a segunda área com maior índice de ressalvas.
" Nem o Congresso nem o Executivo exercem um acompanhamento dos recursos
do Sistema S, pois essa é a única receita pública que não
transita pelo Orçamento", diz o deputado federal e relator do PPA
(Plano Plurianual) 2008-2011, Cláudio Vignatti (PT-SC). Na votação
da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias), ele chegou a apresentar
uma proposta para incluir no Orçamento essas receitas, mas sem sucesso.
Segundo ele, houve lobby de setores do sistema para barrar a proposta. Já o
ministro Marcos Bemquerer, do TCU, diz que a caixa-preta reside principalmente
nas entidades em que o recolhimento da contribuição sobre a folha
ocorre sem passar pela Receita Federal.
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JORNAL
FOLHA DE SÃO PAULO, 01 de outubro de 2007 | Dinheiro
Para Sesi e Senai, não há irregularidades
Políticos com cargos nas entidades não
comentaram relatório da CGU; para diretor do Sesi, não
houve danos ao erário | CNA afirma que falhas apontadas pelos
auditores da CGU costumam ser esclarecidas antes que o TCU julgue os
relatórios
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
A Folha tentou ouvir representantes
de peso político do Sistema S sobre o relatório da CGU,
mas a cúpula das entidades evitou dar entrevistas sobre o assunto.
O presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria),
deputado Armando Monteiro (PTB-PE), que também é presidente
do conselho nacional do Senai, alegou problemas de agenda e delegou
a tarefa a terceiros.
O sindicalista Jair Meneguelli, escolhido pelo presidente Lula para ocupar
a presidência do conselho nacional do Sesi, foi procurado pela reportagem
duas vezes e não se manifestou sobre o assunto. O diretor-superintendente
do Sesi, Antonio Maciel, afirmou por e-mail que, na análise da prestação
de contas de 2006, não foi detectada nenhuma irregularidade em qualquer
unidade do Sesi ou do Senai que pudesse "importar dano ao erário".
Ressalvas, acrescenta ele, "podem advir de diferenças interpretativas
de uma dada situação. Raramente contas são aprovadas sem
que haja, pelo menos, recomendações ou ressalvas de ordem formal",
disse Maciel. Ele contestou que tenha havido malversação de recursos
públicos no Senai de Sergipe, conforme aponta o relatório da
CGU.
" O atual modelo de prestação de contas é altamente
transparente e participativo, o que não quer dizer que o modelo atual
não esteja sujeito a aprimoramentos", afirmou.
Senar
Na CNA (Confederação Nacional da Agricultura), a escalada para
responder à Folha foi a representante do departamento jurídico,
Letícia Tamer, que afirmou que as falhas apontadas pelos auditores da
CGU costumam ser esclarecidas antes do julgamento administrativo dos relatórios
pelo TCU (Tribunal de Contas da União).
Tamer afirmou que não dispunha de dados específicos sobre as
suspeitas de malversação de recursos identificadas nas unidades
de São Paulo e de Sergipe do Senar. Mas ressaltou que indícios
localizados pela CGU não constituem culpa, uma vez que o julgamento
cabe ao TCU e, "na maioria das vezes", o que são irregulares
nas auditorias terminam virando ressalvas do tribunal na aprovação
das contas.
O Senar de SP foi procurado, mas não respondeu à reportagem.
O Senai de Sergipe e o Sesc/Senac do Espírito também não
responderam. No Sesi de Rondônia, ninguém foi localizado. Com
relação às contas do Sesi de Santa Catarina, a assessoria
da entidade informou, por e-mail, que o parecer da CGU é pela regularidade.
A única ressalva encaminhada ao TCU refere-se à recomendação
de implantação de um cadastro de pesquisa de preços para
embasar as compras. A entidade concordou com a recomendação e
toma as providências.
A assessoria de imprensa do Sest e do Senat afirmou que as entidades foram
citadas no relatório como pendentes de ressalvas, o que de forma nenhuma
conota irregularidade.
O auditor-chefe do conselho fiscal do Senac, Claudecir Silva, afirmou que as
unidades do Senac são as que têm os maiores índice de aprovação
por parte dos órgãos de controle. Com relação ao
Sesc/Senac do Espírito Santo, afirmou que a controladoria busca comparar
a gestão das entidades com o setor público.
Afirmou ainda que as avaliações dos auditores representam apenas "um
ponto de vista", não impedindo que as contas sejam aprovadas pelo
TCU.
(JULIANNA SOFIA)
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JORNAL FOLHA DE SÃO
PAULO, 01 de outubro de 2007 | Dinheiro
Entidade em SP foi contestada por
cobrar taxa
DA REDAÇÃO
A gestão de entidades
do Sistema S já havia sido contestada em outro episódio
no início do ano. Em março, metalúrgicos da CUT
entraram com representação no Ministério Público
Federal de São Paulo contra a cobrança de uma taxa escolar
em 211 unidades do Sesi do Estado de São Paulo.
Iniciada neste ano, a cobrança da taxa escolar atinge 125 mil alunos
no Estado. No ensino infantil, cerca de 6.000 alunos pagam R$ 700 anuais, em
dez parcelas. Não houve ainda decisão da Justiça sobre
a cobrança.
Para o sindicato dos metalúrgicos do ABC, a cobrança é indevida
porque o Sesi recebe verba federal, além de ser uma entidade sem fins
lucrativos.
O Sesi São Paulo diz que os recursos são investidos para ampliar
a qualidade e os serviços aos alunos.
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JORNAL FOLHA DE SÃO
PAULO, 01 de outubro de 2007 | Dinheiro
Entidades preferem não revelar
a remuneração dos dirigentes
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
A despeito das críticas
de falta de transparência nas unidades que compõem o Sistema
S, as maiores entidades do setor preferem guardar segredo sobre os salários
pagos à sua cúpula. Desde o ano passado, o TCU (Tribunal
de Contas da União) acabou com o limite de remuneração
para os funcionários das instituições, que tinham
como teto o salário de ministro do STF (Supremo Tribunal Federal)
-atualmente de R$ 24.500.
A Folha requisitou às entidades ligadas à indústria, Sesi
e Senai -que respondem pela maior parte da arrecadação do sistema-,
a lista das remunerações de seus principais dirigentes. As entidades
responderam que, por se tratarem de instituições privadas, os
números não seriam divulgados.
De acordo com o diretor-superintendente do Sesi, Antonio Carlos Maciel, que
falou também em nome do Senai, os conselhos nacionais das duas entidades
(instâncias consultivas e normativas) não têm funções
remuneradas. A exceção vale para o presidente do conselho nacional
do Sesi, que é um cargo cuja nomeação é feita pelo
presidente da República. Atualmente, essa posição é ocupada
pelo sindicalista Jair Meneguelli.
Maciel afirmou que os conselheiros só recebem diárias e passagens
para as datas de reunião, que ocorrem três vezes por ano. Não
há sequer pagamento de jeton (pagamento por sessão), de acordo
com o diretor. Os conselheiros são os presidentes das 28 federações
da indústria.
Salário de mercado
No caso dos órgãos executivos das duas entidades, Maciel afirma
que existe o pagamento de salários, que são balizados pelos preços
de mercado. Segundo ele, a média é feita com base nos salários
dos executivos de mais de 700 empresas brasileiras.
" Não podemos informar esses valores porque vamos ficar expostos
no mercado, que já vem "roubando" nossos melhores quadros",
afirmou o diretor-superintendente. Ele rebateu as críticas de que o Sistema
S é uma caixa-preta, afirmando: "É a caixa-preta mais aberta
que eu conheço".
Para acabar com o teto salarial para o sistema S, o TCU argumentou que os serviços
sociais são autônomos, não estando, portanto, no universo
da administração direta nem indireta, embora administrem recursos
parafiscais.
O TCU definiu que os limites remuneratórios devem acompanhar o mercado.
(JS)
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JORNAL FOLHA DE SÃO
PAULO, 01 de outubro de 2007 | Dinheiro
Sistema S tem arrecadação
de R$ 10 bi por ano
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Financiado com a receita
de contribuições sobre a folha de salários das
empresas, o Sistema S reúne nove instituições:
Sesi e Senai (indústria), Sesc e Senac (comércio), Senar
(agricultura), Sescoop (cooperativas), Senat e Sest (transportes) e
Sebrae (micro e pequenas empresas). Recentemente o governo incluiu
duas entidades na lista dos beneficiados com os recursos das contribuições:
Apex (Agência de Promoção de Exportações)
e ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial).
No ano passado, segundo informações do Fórum Nacional
do Sistema S, as entidades arrecadaram R$ 10 bilhões, e a previsão é fechar
2007 com uma receita de R$ 11 bilhões. Os recursos vêm de contribuições
parafiscais, de mensalidades de associados, de receitas financeiras e de aluguel
de imóveis.
As contribuições são chamadas parafiscais porque têm
natureza tributária, mas são destinadas a entidades privadas.
Por atuarem em cooperação com o Estado nas tarefas de serviço
social e de formação profissional, tais entidades, que são
vinculadas ao sistema sindical, recebem as contribuições, que
estão garantidas nos artigos 149 e 240 da Constituição.
Os ministérios do Trabalho, do Desenvolvimento Social e do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio atuam na supervisão do sistema, que
tem suas contas fiscalizadas pelo TCU (Tribunal de Contas da União)
e pela CGU (Controladoria Geral da União). Embora as entidades não
estejam sujeitas à lei de licitações ou à realização
de concursos para admissão de pessoal, os órgãos de controle
vêm cada vez mais definindo regras para o sistema similares às
do setor público.
Uma parcela expressiva das contribuições é arrecadada
para os "Ss" pela Receita Federal. Algumas entidades, no entanto,
podem arrecadar diretamente as contribuições, desde que tenham
autorização legal para isso. As entidades da indústria
atualmente recebem recursos diretos de mais de 4.500 grandes empresas.
No primeiro semestre deste ano, a Receita arrecadou R$ 2,865 bilhões
para o sistema, o que significa um aumento real de 30% em relação
ao mesmo período de 2006. Cada uma das entidades tem uma alíquota
de contribuição que varia, na maior parte dos casos, de 1% a
1,5% sobre a folha. (JS)
|
JORNAL
FOLHA DE SÃO PAULO, 01 de outubro de 2007 | Brasil
Bolsa Família vira "moeda" em
comércio
Em pelo menos 15 cidades, comerciantes retêm
dos seus clientes o cartão do benefício como garantia de
pagamento de débitos | Lojistas recebem senha e fazem o saque
em bancos; esquema, considerado criminoso, é investigado pela
CGU e Polícia Federal
FELIPE BÄCHTOLD
DA AGÊNCIA FOLHA
Cartões do programa
Bolsa Família estão substituindo as cadernetas de dívidas
em lojas e mercados de pequenas cidades do país. Comerciantes
têm retido os cartões de beneficiários do programa
e os utilizado como garantia para o pagamento de débitos ou
de prestações nos estabelecimentos.
A prática já foi detectada em pelo menos 15 cidades de dez Estados.
Em agosto, a proprietária de uma loja no interior do Pará foi
presa sob acusação de reter cartões.
O esquema funciona da seguinte maneira: um beneficiário do Bolsa Família,
em dívida com o proprietário de um estabelecimento, deixa o cartão
do programa e a senha com o comerciante para quem deve. Ao final de cada mês,
o próprio comerciante é quem saca o benefício em uma instituição
bancária ou no posto de recebimento. O valor retirado é informalmente
descontado da quantia em débito.
Em uma variante da prática, um cliente, ao fazer uma compra em prestações,
entrega o cartão e senha ao lojista como garantia de que irá honrar
as parcelas seguintes.
Os dois modelos são considerados crime.
Recebem o benefício famílias com filhos de até 16 anos
incompletos e com renda mensal de até R$ 120 por pessoa. O número
de filhos e a renda determina o valor do pagamento. A média é de
R$ 72 por mês. O programa atende a mais de 11 milhões de famílias.
Dinheiro
certo
Em Concórdia do Pará (PA), cidade de 24 mil habitantes, uma comerciante
foi encontrada com 54 cartões de beneficiários do programa há um
mês, segundo o Ministério Público do Estado. Ela chegou
a ser presa e deve responder processo por crime de apropriação
indébita, que prevê pena de um a quatro anos de reclusão.
A promotora de Justiça Fábia Mussi, que detectou o problema na
cidade, compara a retenção de cartões com as cadernetas
de dívidas usados em mercearias. "Antigamente [o costume era pedir]:
anota aí para mim, pendura. Agora a coisa é mais organizada."
Mussi diz que a prática é disseminada pela cidade. "O risco
para o proprietário do estabelecimento é zero. É um dinheiro
certo", afirma.
Na cidade do Pará, a situação passou a ser investigada
após o Conselho Tutelar local tomar conhecimento do caso de uma agricultora
de 35 anos que entregou o documento como garantia de pagamento de dívidas.
Ela tem seis filhos.
Índios
Em Barra do Garças (MT), o proprietário de um restaurante reteve
cartões de índios xavantes para quitar dívidas, segundo
uma investigação da Polícia Federal. Além de documentos
do Bolsa Família, também foram apreendidos em março no
local cartões de previdência. O suspeito deve responder processo
por estelionato.
Entre as cidades onde o problema foi detectado, Rancharia (504 km de SP) tem
o maior número de estabelecimentos que se beneficiaram da prática
-quatro. Lojas de móveis e de confecções retinham cartões
do programa como garantia para o pagamento de prestações.
A Secretaria de Assistência Social do município diz que repreendeu
os comerciantes no ano passado, o que provocou a extinção da
prática.
Fiscalizações da CGU (Controladoria Geral da União) sobre
a aplicação de recursos do governo federal em municípios
encontraram o problema em pelo menos outras dez cidades de seis Estados nos últimos
três anos. Em três cidades, segundo a CGU, os comerciantes suspeitos
também administravam o posto onde os benefícios do programa são
sacados.
Em Cruz das Almas, na Bahia, o dono de uma padaria suspeito de reter cartões
disse aos fiscais que "a prática é comum" na região.
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Notícias do Tribunal
Superior do Trabalho
01/10/2007
Contrato nulo não dá direito
a multa do FGTS
A nulidade da contratação
de empregado por não ter sido aprovado em concurso público
dá direito apenas ao pagamento do salário combinado entre
as partes e aos valores referentes aos depósitos do FGTS, mas
não à indenização de 40% deste ou a outras
verbas indenizatórias. Este entendimento, consolidado na Súmula
363 do Tribunal Superior do Trabalho, fundamentou decisão da Segunda
Turma do TST que restringiu condenação imposta à Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e ao Departamento de Trânsito
do Estado do Rio de Janeiro (Detran-RJ) pela Justiça do Trabalho
da 1ª Região (RJ).
O processo foi movido por uma
trabalhadora contratada pela UERJ em junho de 1996, por meio do Núcleo
Superior de Estudos Governamentais (NUSEG) da Universidade, para prestar
serviços como aferidora de CRV (Código de Registro de Veículos)
para o Detran-RJ. Segundo informou na inicial, a UERJ-NUSEG não
cumpriu com suas obrigações trabalhistas: não assinou
a carteira de trabalho e não pagou verbas rescisórias quando
a demitiu, em 1999. Acionou então tanto a UERJ quanto o DETRAN,
invocando responsabilidade solidária deste.
A UERJ, na contestação,
disse ter celebrado convênio com o Detran para prestação
de serviços temporários, com contratações
de caráter provisório por excepcional interesse público.
Não haveria, portanto, violação da exigência
de concurso público prevista na Constituição Federal, “porque
as pessoas não estavam sendo investidas em cargos ou empregos
públicos e, ainda que se juridicamente fosse possível a
declaração da relação de emprego, a direção
e a subordinação do empregado ficaram a cargo do Detran.” Este,
por sua vez, argumentou que a trabalhadora assinou com a UERJ termo de
compromisso em que ficava evidente a inexistência de emprego entre
as partes, uma vez que o primeiro requisito para a participação
no projeto desenvolvido pela UERJ era ser universitário, e a remuneração
era uma bolsa-auxílio.
O juiz da 4ª Vara do Trabalho
do Rio de Janeiro constatou a existência, nos autos, de documento
em que a trabalhadora teria firmado com a UERJ termo de compromisso de
estágio sem a intermediação da Faculdade da Cidade,
onde fazia curso de tecnólogo em processamento de dados. Mas descartou
a tese de que se tratava de contrato de estágio pela ausência
de participação da instituição de ensino
em que estava matriculada, e considerou totalmente irregular a contratação,
porque, não sendo estagiária, não poderia ser contratada
pela UERJ sem a aprovação em concurso público. Sem
reconhecer o vínculo de emprego, deferiu, a título de indenização,
verbas como o aviso-prévio, décimo-terceiro salário
e férias proporcionais e depósito e multa de 40% do FGTS,
e condenou o Detran, subsidiariamente, pelos créditos reconhecidos.
A sentença foi mantida
integralmente pelo TRT/RJ, que negou provimento aos recursos ordinários
de ambas as partes. A UERJ e o Detran recorreram então ao TST,
alegando que a verba indenizatória não é devida
em contrato nulo, e o deferimento dos depósitos do FGTS aos contratados
sem concurso público constituiriam ofensa à Constituição
Federal.
O relator da matéria,
ministro José Simpliciano Fernandes, observou que, de acordo com
a jurisprudência do TST, a contratação de servidor
público, após a Constituição Federal de 1988,
sem aprovação em concurso público só lhe
confere o direito “ao pagamento da contraprestação
pactuada, em relação ao número de horas trabalhadas,
respeitado o valor da hora do salário mínimo, e dos valores
referentes aos depósitos do FGTS”. Por unanimidade, a Segunda
Turma deu provimento parcial ao recurso para limitar a condenação
ao recolhimento dos valores do FGTS (uma vez que a reclamação
não dizia respeito a diferenças salariais). (RR 1556/1999-004-01-00.7)

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