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Congresso em Foco, 3 de novembro de 2007
Prêmio abre polêmica sobre
utilidade do Congresso
Em comentários sobre o Prêmio
Congresso em Foco 2007, leitores revelam divergências sobre
a representatividade dos congressistas e a necessidade de se distinguir
quem é quem no Legislativo.
Premiação suscita debate sobre a representatividade
dos congressistas. Leitores divergem sobre qualidade dos parlamentares
Camilla Shinoda e Edson Sardinha
“Quais são os deputados e senadores que melhor representam
a população no Congresso?” A pergunta lançada
por este site aos seus leitores em 18 de setembro, quando começou
a segunda etapa do Prêmio Congresso em Foco 2007, reacendeu a polêmica
sobre a representatividade dos congressistas brasileiros e provocou debates
acalorados sobre a própria premiação em si.
As divergências vão muito além dos 150 mil votos
dados pelos internautas aos 16 senadores e 25 deputados que concorrem
ao título de parlamentar que melhor exerce o mandato na atualidade.
Elas também estão expressas nas dezenas de comentários
encaminhados todos os dias ao Congresso em Foco.
Instrumento de democracia
A maioria dos leitores manifesta apoio à premiação,
cujo objetivo é reconhecer o trabalho dos congressistas que se
destacam no cumprimento de suas obrigações neste ano e
estimular a população a analisar o desempenho individual
dos representantes eleitos.
“É exatamente quando o mar de lama é mais intenso
que se torna tão fundamental examinar quem se salva em meio à catástrofe.
O prêmio já está consolidado como um instrumento
fundamental da democracia. Os que de tudo reclamam e nada sugerem para
melhorar só contribuem para a situação permanecer
como se encontra hoje”, avalia Jorge Campos Félix, de Porto
Alegre.
Para Maria Regina Tauffer, de Campinas
(SP), a iniciativa é uma
chance para o eleitor analisar de forma mais contundente seus representantes: “Excelente
idéia porque os brasileiros precisam parar de ficar só reclamando
dos políticos e ao mesmo tempo elegendo apenas verdadeiras porcarias,
que depois de voltam contra os próprios eleitores. Vamos aprender
a analisar os parlamentares, como eles se comportam e verificando quem
está do lado e quem está contra”.
“Para o Brasil mudar, não é só os políticos
que têm que mudar, os eleitores precisam mudar também e
até a cobertura política da imprensa precisa mudar”,
defende Luiz Carlos de Almeida, de Pelotas.
Lista causa discórdia
Mas existem aqueles que, apesar de admitirem
dificuldade em apontar os melhores, ressaltam que há deputados e senadores que merecem
confiança. E elogiam a seleção dos 41 finalistas
feita por 188 jornalistas que cobrem o Congresso.
“Podemos fazer restrições a todos, absolutamente
todos dos 41 indicados, nenhum deles está isento de aspectos controversos
ou algumas críticas, em maior ou menor grau, mas a verdade é que
são de modo geral parlamentares muito superiores à media
do Congresso Nacional, em preparo, respeitabilidade, presença
no Congresso. Quem dera as pessoas só elegessem parlamentares
desse nível...”, declara Adriano Monteiro, de Brasília.
Entretanto, também há quem discorde da seleção
e questione os critérios adotados pelos jornalistas que elaboraram
a relação. “A relação não exprime
o real. Os citados são os mais badalados pelos jornalistas que ’selecionam’ seus
preferidos. Assim a opinião pública é apenas’dirigida’ pela
mídia. Tem gente melhor trabalhando melhor, mas sem aparecer na
mídia. É só observar e ver que os mais votados são
os que mais criticam e acusam. Não existe uma agenda positiva.
Só a negativa. Quem trabalha não aparece. Quem acusa, aparece.
A pesquisa é falsa”, acusa Sérgio Oliveira, também
de Brasília.
A crítica é rebatida de pronto por outro leitor, Heleno
Loureiro Machado, de Palmas, para quem, escolher os melhores parlamentares é um
gesto de cidadania. “O prêmio é uma iniciativa excelente,
por isso a votação é tão significativa. A
minoria que não vota e critica está mais atrasada que vocês.
Enquanto vocês estão trazendo a pamonha, eles estão
plantando o milho, não entenderam que enquanto não soubermos
identificar os melhores e os piores políticos seremos dominados
pela pior espécie de brasileiros que existe”, escreve o
leitor.
Embora a maioria elogie a iniciativa como
um instrumento de participação
democrática, ressaltando a importância de se diferenciar
quem é quem no Congresso, muitos revelam ter dificuldade para
escolher os melhores parlamentares, relembram os escândalos que
abalaram o país recentemente e confessam sua descrença
generalizada nos políticos.
“Fico triste de não ter pra quem dar meu voto, quem é de
confiança? Só dá marmelada e pizza”, lamenta
Mário Leopoldo Schuster, de Jaciara (MT). “Os mais votados
me fazem pensar, estarei eu na Terra ou os alienígenas invadiram
o Brasil?”, questiona ironicamente Richard Pereira, de Florianópolis.
Outros, no entanto, recorrem aos últimos acontecimentos políticos
para condenar a premiação. ”Num momento em que há registros
em todo o país de corrupção em todas as esferas,
Câmara, Assembléias e Congresso Nacional, vejo com maus
olhos este ‘prêmio’. É um momento inadequado
para se premiar político. A descrença é grande”,
critica Luciano Pimentel, de Passo Fundo (RS). “Acho muito difícil
premiar alguém no meio de tanta porcaria. É uma iniciativa
lamentável”, endossa Renato Wiehe, de Hannover, na Alemanha.
Em tom de ironia, alguns chegam a sugerir
que se inverta o sentido da premiação. “Agora está faltando escolhermos
os 20 políticos do Senado e da Câmara piores, que vendem
a alma para o diabo, em troca de privilégios, corrupções,
toma-lá-dá-cá, os piores políticos, os traidores
da pátria”, sugere Antonio Dagrella, de São Paulo.
Votação
aberta
O leitor do Congresso em Foco tem até o próximo dia 18
para votar. Permite-se a cada internauta votar somente uma vez, escolhendo
até cinco senadores e no máximo dez deputados. Os votos
serão confirmados por meio de link que será encaminhado
automaticamente ao endereço eletrônico informado pelo “eleitor”.
Todos os 25 deputados federais e 16 senadores
pré-selecionados
receberão o Prêmio Congresso em Foco 2007, em cerimônia
que será realizada em Brasília, no dia 26 de novembro,
na churrascaria Porcão, no Lago Sul.
Eles receberão certificados atestando a boa atuação
que têm ou tiveram, conforme o julgamento daqueles que por obrigação
profissional devem acompanhar com profundidade e independência
as atividades do Legislativo federal.
Os três primeiros colocados na Câmara e no Senado receberão
um belo troféu, criado pela artista plástica paulista Suzana
Gouveia. Quem ficar entre a quarta e a décima colocação
em cada Casa legislativa (Câmara ou Senado) receberá placas
de homenagem.
Serão premiados ainda os deputados e senadores mais assíduos,
de acordo com a lista oficial de presença fornecida pelas Mesas
Diretoras da Câmara e do Senado.
Promovido pelo Congresso em Foco,
o prêmio tem o apoio da Associação
dos Magistrados Brasileiros (AMB), do Sindicato dos Jornalistas Profissionais
do Distrito Federal (SJPDF), da Associação dos Delegados
da Polícia Federal (ADPF), do Caderno Brasília Hoje, da
Porcão e do Clube do Choro de Brasília.
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Congresso em Foco, 3 de novembro de 2007
Que tal um terceiro mandato para Lula?
A possibilidade de o Congresso alterar
a Constituição para dar ao presidente da República
o direito de tentar uma nova reeleição é tema
das revistas semanais
Manchetes das revistas semanais
VEJA
Se colar, colou...!
O presidente Lula quer um terceiro mandato? É uma discussão "absolutamente
impertinente" e "não tem o menor cabimento", reage o
ministro da Justiça, Tarso Genro. Há alguma possibilidade de
aprovação de uma emenda prevendo um terceiro mandato? "A
chance é zero", sentencia o presidente da Câmara, o petista
Arlindo Chinaglia. O terceiro mandato não é uma boa idéia
para o PT e seus aliados? "É o caminho do pântano",
responde o deputado Aldo Rebelo, do PCdoB paulista, seguidor de primeira hora
de Lula, ao explicar que pântano é um lugar a que se sabe como
entrar mas do qual não se sabe como sair. Se a idéia de um terceiro
mandato é um tema tão impertinente, descabido, pantanoso e não
tem a menor chance de ser aprovado, por que o assunto está em permanente
evidência em Brasília? Por que parece seguir Lula do gabinete
aos palanques? Sempre cevada nas hostes petistas, a insistente discussão
sobre o terceiro mandato sugere que o problema é mais do PT do que propriamente
de Lula. Em 2010, será a primeira vez em sua história que o partido
vai para um pleito presidencial sem Lula – e vai dramaticamente decapitado.
Antes, havia José Dirceu, Antonio Palocci, José Genoíno,
mas todos foram abatidos pelos respectivos escândalos. Para o PT, não
ocupar a cabeça de chapa é um incômodo genético.
Com seu vício histórico da hegemonia, o partido não tem
em seu DNA o gene do compartilhamento do poder. Terá o gene da alternância
de poder? Parece que agora que experimentou a glória e a tragédia
de ficar lá em cima não quer largar o osso.
O PMDB volta à sua
mina
Há seis meses, a Polícia Federal descobriu que existia um consórcio
de fraudes operando no Ministério de Minas e Energia. Lobistas, funcionários
e empreiteiros agiam juntos para saquear dinheiro público. Quarenta
e seis pessoas foram presas, entre elas o chefe-de-gabinete do ministério,
Ivo Almeida da Costa. O então ministro Silas Rondeau perdeu o emprego,
depois de ser acusado de receber 100.000 reais de propina. Dá-se como
certo em Brasília que ele vai reassumir o cargo. Espera-se apenas a
manifestação oficial do procurador-geral da República
atestando sua inocência. O retorno de Rondeau é a demonstração
explícita da supremacia do interesse político sobre o interesse
público.
"Para mim, ética não é pose"
Se o objetivo das pessoas que espalharam no Congresso um dossiê contra
o senador Jefferson Péres era tentar intimidá-lo de alguma maneira,
a trama fracassou. Da tribuna do Senado, em um pronunciamento depois da reportagem
de VEJA que revelou a existência das falsas acusações contra
ele, o senador encerrou o caso com um recado direto e contundente: "Canalhas
de todos os matizes, eu não sou como vocês. Ética para
mim não é pose. Não é bandeira eleitoral".
O senador disse ter evidências sobre a origem do dossiê, mas não
quis revelar suas suspeitas. Limitou-se a ler uma carta do presidente licenciado,
senador Renan Calheiros, negando qualquer responsabilidade pela produção
ou difusão do vídeo em que Péres é mostrado como
envolvido numa fraude contra uma siderúrgica na década de 70.
Na semana passada, Jefferson Péres, encarregado de apurar se Renan Calheiros
feriu o decoro parlamentar ao participar de uma sociedade clandestina para
a compra de um grupo de comunicação em Alagoas, começou
a ouvir as testemunhas do caso.
À sombra de El Supremo
Para quem não tem a memória pessoal de ter vivido sob uma ditadura,
ouvir depoimentos de venezuelanos é uma experiência educativa – e
sufocante. O regime que o presidente Hugo Chávez está construindo
na Venezuela não apenas é autoritário como se propõe
a criar uma nação à imagem e semelhança de seu
governante. Nesse ponto, distante de ser a promessa de novidades "século
XXI", como proclama, Chávez é fiel à tradição
caudilhesca do continente. O estilo centralizador, a intolerância em
relação a opiniões divergentes e, sobretudo, o modo como
tenta transformar as instituições públicas em um apêndice
de sua vontade e idiossincrasias parecem saídos das páginas de
Eu O Supremo, a obra magistral do paraguaio Augusto Roa Bastos. O personagem
do título é José Gaspar Rodríguez de Francia, "ditador
perpétuo" do Paraguai no século XIX e protótipo do
perfeito déspota sul-americano.
CARTA CAPITAL
O oligarca do futebol
O anúncio oficial da Fifa, que confirmou o Brasil como sede da Copa
do Mundo de 2014, não foi surpresa. Até porque, graças
a um acordo sul-americano, não havia outro concorrente. Ganhar uma disputa
sem que haja concorrência é, no entanto, a menor das tortuosidades
do processo que mantém o futebol, e também o País, sempre
um passo atrás de suas potencialidades. Receber o Mundial de Futebol é uma
honra e também uma grande oportunidade de desenvolvimento econômico.
Mas, ao mesmo tempo, é capaz de mascarar e aprofundar problemas administrativos,
principalmente no que diz respeito ao trato com dinheiro público. Infelizmente,
este risco é real.A confirmação do Brasil como vencedor
de uma disputa que não ocorreu, na terça-feira 30, merece observações.
A começar pelo tamanho da comitiva, formada por 12 governadores, dois
deles presidenciáveis (Aécio Neves, de Minas Gerais, e José Serra,
de São Paulo), o deputado federal e presidenciável Ciro Gomes
(PSB-CE), três ministros (entre eles, Marta Suplicy, do Turismo e provável
candidata à prefeitura paulistana em 2008 ou ao governo do estado em
2010) e o presidente da República.
Reeleição à argentina
O jornalismo depende tanto da novidade que houve quem intitulasse ou
iniciasse matérias do gênero com “o que muda com Cristina”.
Um início curioso, considerando as dificuldades de se escrever mais
de um parágrafo sobre que diferença faria ter a Kirchner de saias
em vez do Kirchner de calças à cabeceira da mesa de reuniões
na Casa Rosada.O que se pode dizer é que, enquanto o marido é tido
como turrão, temperamental e disposto ao confronto, a esposa procurou
projetar uma imagem mais humilde e conciliadora. Assim, tanto os analistas
argentinos têm a esperança de que ela seja mais market-friendly
com o setor financeiro quanto os empresários brasileiros têm a
impressão de que seja mais “simpática” em relação
ao Brasil. Mesmo se os ministros forem os mesmos.
ISTO É
Lula mira o 3º mandato, o Brasil não
Na sexta-feira 26 de outubro, o presidente Lula visitou o Centro de
Pesquisas e Desenvolvimento da Petrobras, no Rio de Janeiro. Colocou óculos especiais
e assistiu a um filme sobre áreas de petróleo no fundo do mar.
As imagens eram projetadas em terceira dimensão, a técnica na
qual a platéia tem a ilusão de profundidade. No dia anterior,
Lula recebeu o deputado federal Devanir Ribeiro (PT-SP), seu amigo desde 1969
e secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos de São
Bernardo, quando Lula o presidia. A visita não deveria ter maior importância,
assim como o filme da Petrobras. Mas no gabinete presidencial do Palácio
do Planalto o que se desenrolava na tarde daquela quintafeira era mais uma
cena do enredo do momento em Brasília: o terceiro mandato do presidente
Lula.
O legislativo
que não legisla
No Brasil, o poder é exercido pelo Executivo, Legislativo e Judiciário.
Um sistema de pesos e contrapesos, de vigilância mútua. E, nesse
sistema, sempre que um dos poderes se fragiliza, os demais se sobrepõem
a eles. É o que vem acontecendo. Na segunda-feira 29, o governo do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva editou a sua Medida Provisória de número
400, que destina um crédito extraordinário de R$ 50 milhões
para a Presidência da República e para o Ministério da
Saúde. A marca lhe confere o ritmo de nada menos que uma medida provisória
a cada quatro dias. Nos últimos cinco anos, desde o início do
primeiro mandato do atual presidente, cerca de 80% de tudo o que é aprovado
pela Câmara ou pelo Senado é de iniciativa do Poder Executivo,
seja MP, seja projeto de lei. “O maior legislador do Brasil é o
presidente da República, e o Supremo Tribunal Federal trabalha de forma
acelerada para se tornar o segundo”, comenta o deputado Alceni Guerra
(DEM-PR).
"Nelson Jobim não
disse a que veio"
Após resistir diariamente e por três meses às críticas
do ministro da Defesa, Nelson Jobim, o presidente da Agência Nacional
de Aviação Civil (Anac), Milton Zuanazzi, finalmente deixou o
cargo na quarta-feira 31 – há um mês a sua substituta, Solange
Vieira, estava escolhida. Zuanazzi saiu e disparou pesado contra o ministro.
Numa entrevista coletiva insinuou que Jobim estaria mancomunado com os que “não
desejam ver pobre voando de avião”, referindo-se à crítica
que ele fizera à decisão das companhias aéreas de reduzirem
o espaço entre as poltronas de suas aeronaves. Em entrevista à ISTOÉ,
minutos antes de pisar o avião (confirmado no horário) que o
tiraria de Brasília, Zuanazzi voltou a criticar Jobim: “Não
quero ficar com uma pessoa cujos métodos, cujos pensamentos não
combinam com o meu. Jobim não disse a que veio até agora e nem
sequer conseguiu reunir o setor.”
PT saudações
Depois de ser afastado da Casa Civil e de ter o mandato de deputado
federal cassado sob a acusação de liderar a quadrilha do mensalão,
o ex-ministro José Dirceu está perto de ver secar a sua última
fonte de poder: a capacidade de influenciar e definir os rumos do Partido dos
Trabalhadores. Em dezembro, através de eleições diretas,
petistas espalhados por 5.118 cidades brasileiras irão às urnas
para escolher as novas lideranças do partido, inclusive o novo presidente
nacional da legenda que abriga o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Há 15 dias, foi feita uma pesquisa com os petistas para saber quais
os caminhos que eles pretendem impor ao partido. ISTOÉ teve acesso ao
resultado dessa enquete que entrevistou 2.310 dos 917.297 filiados aptos a
votar e apresenta uma margem de erro de 3%. O resultado é um duro recado àqueles
que, como Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares, vêm controlando
a legenda desde a sua fundação, em 1980.
Agora vem o mais
difícil
Depois de uma campanha de 12 anos movida por governantes, cartolas
e esportistas, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, confirmou na terça-feira 30, em
Zurique, o Brasil como país-sede da Copa de 2014. Passada a euforia
pela conquista, é hora de encarar com firmeza os desafios que virão
pela frente. A tarefa é duríssima. Para que a organização
do torneio seja um sucesso, será preciso fazer várias obras monumentais,
como a construção de quatro estádios, além de melhorar
a infra-estrutura de transportes – em especial, nos aeroportos – e,
desafio dos desafios, garantir a segurança pública. O custo anunciado
para o evento, de US$ 6 bilhões, deverá crescer bastante. Presente à solenidade,
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostrou que está confiante. “A
Fifa pode estar certa de que faremos o dever de casa e em 2014 teremos um Mundial
para argentino nenhum botar defeito”, declarou, provocando os eternos
rivais.
ÉPOCA
"Nada impede
que o povo decida"
O deputado Devanir Ribeiro (PT-SP) é um velho amigo do presidente Lula.
Os dois integraram a mesma diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos do
ABC paulista nos anos 70 e ficaram presos juntos, depois da greve de 1980.
Aos 63 anos, Devanir cumpre o segundo mandato de deputado federal. Ele diz
que pretende apresentar uma proposta de emenda constitucional que daria ao
presidente o direito de convocar plebiscitos, hoje exclusividade do Congresso.
Segundo ele, o presidente poderia convocar um plebiscito para a população
decidir sobre um eventual terceiro mandato. Apesar da amizade antiga, Devanir
afirma ainda não ter discutido o assunto com Lula. “Eu sei que
ele não vai querer”, diz.
Que Copa veremos em 2014?
Último dos “emergentes” a ganhar um megaevento esportivo,
o Brasil precisa de planejamento para não transformar o triunfo em fiasco
histórico
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Agência Brasil, 3 de novembro de 2007
Copa do Mundo é oportunidade de "aquecer" construção
civil, afirma empresário
Alex Rodrigues
Repórter da Agência Brasil
Brasília - A realização da Copa do Mundo no Brasil
em 2014 vai possibilitar ao país não apenas reformar seus
estádios, mas aquecer alguns setores econômicos das cidades-sede,
principalmente a construção civil. A afirmação é do
presidente da Federação das Indústrias do Distrito
Federal (Fibra), Antônio Rocha, em entrevista à Rádio
Nacional.
“A construção civil será extremamente privilegiada,
já que será necessário fazer toda a reconstrução
dos estádios e equipamentos esportivos. Também os setores
de vestuário, alimentação e informática serão
contemplados”, defende Rocha.
Ele diz esperar que o governo do Distrito
Federal, a população
e os empresários se mobilizem para que Brasília seja uma
das cidades escolhidas para sediar a competição. “Essa
movimentação da economia será muito importante para
o Distrito Federal, porque vai permitir além de mais empregos,
a adequação da estrutura esportiva para outros eventos”.
Apesar de a Federação Internacional de Futebol (Fifa)
ter confirmado o Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014, tanto as
cidades onde serão disputados os jogos, quanto as 32 onde ficarão
hospedadas as seleções que vêm participar da disputa
só serão conhecidas em 2008.
Para sediar as partidas, a Confederação Brasileira de
Futebol (CBF) indicou 18 localidades. A intenção agora é convencer
a Fifa a escolher, entre elas, 12 e não apenas dez, conforme previsto.
A justificativa seria a grande dimensão territorial do país.
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Folha de São Paulo, 3 de novembro de
2007
Dado de emprego nos EUA alivia tensão
nos mercados
Criação de novos postos superou
a expectativa e diminuiu temor de recessão
Possível encontro no fim de semana do Citi
também animou investidores; Dow Jones subiu 0,2% e Nasdaq registrou
alta de 0,56%
Mike Groll/Associated Press

Trabalhador em andaime nos EUA; 166 mil postos foram criados
DA REDAÇÃO
Após um dia de perdas expressivas na quinta, os mercados nos
EUA tiveram uma leve recuperação ontem. Dados de criação
de empregos reduziram o temor de recessão na principal economia
mundial.
Números do governo americano mostraram que foram criados no mês
passado 166 mil empregos -mais que o dobro do esperado por analistas-, sugerindo
que o mercado de trabalho possa auxiliar a economia no momento em que a crise
imobiliária piora cada vez mais.
Esses dados, afirmam analistas, tornam mais improvável um novo corte
nos juros pelo Fed (Federal Reserve, o banco central americano) ainda neste
ano. Na reunião desta semana, a entidade reduziu em 0,25 ponto percentual
a taxa de juros básica, para 4,5%.
Apesar dos dados positivos, o índice Dow Jones, o principal da Bolsa
de Nova York, operou a maior parte do dia em pequena baixa, com os grandes
bancos continuando a ser o principal alvo das preocupações dos
investidores. No final do pregão, porém, a notícia de
que o Citigroup fará uma reunião de emergência no fim de
semana animou o mercado, e o índice terminou em alta de 0,2%.
A Nasdaq subiu 0,56%, e o S&P 500, 1,23%. A Bovespa não operou devido
ao feriado de Finados -na quinta-feira, ela tinha caído 1,94%.
Segundo o "Wall Street Journal", a reunião do Citigroup, um
dos maiores bancos do mundo, pode discutir até a saída do seu
presidente, Charles Prince. O ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos
Robert Rubin teria sido convidado para assumir o cargo interinamente, mas recusado.
Especula-se também que o banco possa anunciar novos prejuízos
com o mercado de crédito imobiliário americano.
O banco já perdeu mais de 20% do seu valor de mercado desde 12 de outubro,
um dia antes de anunciar que teve uma queda de 57% em seu lucro no terceiro
trimestre ante o mesmo período de 2006, devido a perdas com títulos
lastreados em hipotecas "subprime" (de alto risco) nos EUA. As ações
do Citi caíram 2,03% ontem.
As fortes quedas nas Bolsas mundiais na quinta foram provocadas,
principalmente, pelo rebaixamento da nota do Citigroup por parte
da consultoria CIBC World
Markets, do Credit Suisse. E o Morgan Stanley rebaixou o Citi e outras grandes
instituições.
Os bancos continuaram ontem a ser alvo das preocupações dos investidores.
As ações do Merrill Lynch se desvalorizaram em 7,9% depois que
reportagem do "Wall Street Journal" mostrou que a instituição
pode ter realizado manobras financeiras para esconder as suas perdas com o
mercado "subprime". Bear Stearns, Morgan Stanley e Goldman Sachs
também registraram perdas expressivas.
Na Europa, a principal notícia do dia foi o rebaixamento, pelo UBS,
da nota do Fortis -banco que adquiriu o ABN Amro ao lado de Santander e RBS.
Segundo o UBS, o banco belga foi menos transparente sobre os problemas com "subprime" que
outras instituições. A Bolsa de Londres teve queda de 0,84%,
Frankfurt caiu 0,40%, e Paris, 0,18%.
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Revista Consultor Jurídico, 3 de novembro
de 2007
Atos anti-sindicais
Convenção 98 da OIT
não é respeitada por sindicatos
por Claudio Santos da Silva
O presente artigo pretende comentar recente
e importante decisão
da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que objetiva
combater a prática de atos anti-sindicais em um de seus países-membro.
Trata-se de recentes recomendações feitas ao Brasil tendo
em vista a demissão de dirigentes sindicais e que conduzem a alguns
breves apontamentos sobre a necessidade de o Brasil coibir a prática
de ato anti-sindical.
Desde a sua criação pelo Tratado de Versalhes em 1919,
passando pela Declaração da Filadélfia em 1944,
e da sua conversão em organismo especializado da Organização
das Nações Unidas (ONU), pelo acordo assinado em 30 de
maio de 1946, que disciplinou as relações jurídicas
entre as duas entidades, a OIT exerce um papel importante na universalização
das normas do trabalho, zelando pela observância de um patamar
mínimo e decente na relação entre capital e trabalho.
Dentre os princípios e as normas internacionais do trabalho,
encontram-se dois direitos fundamentais sociais que merecem especial
atenção da OIT. Trata-se da liberdade sindical, inscrita
na sua Convenção 87, aprovada na 31ª Sessão
da Conferencia Internacional do Trabalho, em 1948, e a proteção à organização
sindical, prevista na Convenção 98, aprovada na 32ª Sessão
da Conferencia Internacional do Trabalho, em 1949.
A literatura jurídica assinala que as regras da Convenção
87 destinam-se às relações entre as entidades sindicais
e o Estado na medida em que afasta toda e qualquer possibilidade de ingerência
e controle das atividades sindicais. Já a Convenção
98, de seu turno, fixa normas que protegem os trabalhadores e suas organizações
sindicais da intervenção patronal, inclusive no que concerne à punição
pelo afazer sindical cotidiano: participação nas atividades
sindicais. O Brasil ratificou apenas a Convenção 98 (aprovada
pelo Decreto Legislativo 49, de 27.8.1952, e publicada pelo Decreto 42.288,
de 19.9.1957).
A matéria é de tamanha importância que ambas as
convenções integram a Declaração dos Princípios
e Direitos Fundamentais no Trabalho da OIT, aprovada em 1998[1], e possuem
um sistema de controle peculiar, exercido pelo Comitê de Liberdade
Sindical. Trata-se de um órgão que foi criado em novembro
de 1951, de composição tripartite, com nove membros, e
igual numero de suplentes, indicados pelo Conselho de Administração
da OIT — três representantes por grupo (governos, empregadores
e trabalhadores) e um presidente (independente); detém competência
para apreciar queixas sobre liberdade sindical e suas decisões
são tomadas por consenso.
O Conselho de Administração da OIT, em sua 299ª Reunião,
realizada em junho de 2007, aprovou as recomendações feitas
pelo Comitê de Liberdade Sindical em face da representação
aviada pelo Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições
de Ensino Superior (Andes) pela prática de atos anti-sindicais
por alguns estabelecimentos particulares de ensino superior. As determinações
ao governo brasileiro integram o 346º Informe do Comitê de
Liberdade Sindical e recomendam a adoção de “medidas
necessárias para modificar a legislação, a fim de
permitir aos trabalhadores a criação de organizações
sindicais ao nível de empresa, se assim o desejarem”[2],
assim como o “Comitê pede ao governo que tome medidas para
que se realize sem demora uma investigação para determinar
os motivos e os fatos concretos que provocaram as demissões dos
dirigentes sindicais em questão e se for constatado que os mesmos
se produziram pelo exercício de atividades sindicais legítimas,
tendo em conta o contexto nacional e as circunstâncias específicas
deste caso, tome medidas para que sejam reintegrados em seus postos de
trabalho”[3].
A primeira recomendação destina-se à aprovação
da Convenção 87 e a conseqüente instituição
da pluralidade sindical. Especificamente sobre a prática de atos
anti-sindicais — conteúdo da segunda recomendação —,
fica patente o desconforto e o constrangimento do Brasil pelo fato de
até hoje, na segunda metade da primeira década do Século
XXI, não dispor de mecanismos concretos e eficazes para coibir
práticas que remontam ao início da Revolução
Industrial do final do Século XVIII!
Veja-se, a propósito, a seguinte passagem: “no que diz
respeito às alegações segundo as quais na legislação
nacional não se reconhece a figura de atos anti-sindicais em prejuízo
de filiados, não havendo, por conseguinte, nenhum mecanismo de
proteção para evitar a discriminação dos
trabalhadores por sua filiação a uma organização,
o Comitê pede ao governo que tome medidas para que se modifique
a legislação para pô-la em conformidade com os princípios
da liberdade sindical e que o mantenha informado da evolução
legislativa das propostas de reforma sindical a que se refere o governo
que inclui esta questão”[4].
É de ressaltar-se que o próprio texto da Convenção
98 — que é norma jurídica vigente no Brasil com status
de lei ordinária — assegura aos trabalhadores dos Estados
signatários a proteção contra “atos de discriminação
com relação ao seu emprego”, especialmente aqueles
tendentes “a causar a demissão de um trabalhador ou prejudicá-lo
de outra maneira por sua filiação a um sindicato” (art.
1º, § 2º, “b”). Portanto, existe norma jurídica
que prevê a prática de atos anti-sindicais. O Brasil permite
que, em seu território, haja descumprimento de uma Convenção
que espontaneamente foi incorporada ao seu ordenamento jurídico
ainda na década de 50 do Século passado.
Apesar de a liberdade sindical haver sido
consagrada por todas as organizações
internacionais as quais o Brasil integra (Declaração Universal
dos Direitos Humanos, de 1948, art. XIII, parágrafo 4; Declaração
Americana dos Direitos e Deveres do Homem da Organização
dos Estados Americanos, de 1948, art. XXII; os Pactos Internacionais
sobre Direitos Civis e Políticos e dos Direitos Econômicos,
Sociais e Culturais, de 1966; a Convenção Americana sobre
Direitos Humanos, art. 16), a realidade das relações sindicais
brasileiras apontam para uma sistemática violação
desse princípio e direito fundamental, o que leva ao constrangimento
de ser “condenado” na OIT.
E mesmo tendo o Brasil ratificado a Convenção 98, esses
princípios e normas que alicerçam o Direito do Trabalho
continuam a ser desrespeitados em nosso país. Ur ge, por via de
conseqüência, que adentremos pela porta da frente no cenário
internacional com a aprovação de outras normas que inibam
e combatam a prática de atos anti-sindicais e que os empregadores
tenham consciência que a Convenção 98 da OIT está plenamente
em vigor.
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[1] A referida declaração objetiva proporcionar
o caminhar paralelo entre o progresso social e o progresso econômico
e o desenvolvimento, segundo se extrai de seus considerandos (disponível
em: <http://www.oit.org.br/info/download/declarac_port.pdf> acesso
em 28 junho de 2007). Trata-se de um instrumento promocional em que os
princípios fundamentais consagrados na Constituição
da OIT são reafirmados. A Declaração compromete
os Estados Membros a respeitar e a promover os princípios e direitos
compreendidos em quatro categorias, que disciplinam os seguintes assuntos:
a liberdade de associação e a liberdade sindical e o reconhecimento
efetivo do direito de negociação coletiva; a eliminação
do trabalho forçado ou obrigatório; a abolição
do trabalho infantil; e a eliminação da discriminação
em matéria de emprego e ocupação.
[2] Disponível
em <http://www.ilo.org/public/spanish/standards/relm/gb/docs/gb299/pdf/gb-4-1.pdf>,
p. 86, acesso em 7 agosto de 2007.
[3] Disponível
em <http://www.ilo.org/public/spanish/standards/relm/gb/docs/gb299/pdf/gb-4-1.pdf> p.
87, acesso em 7 agosto de 2007.
[4] Disponível
em <http://www.ilo.org/public/spanish/standards/relm/gb/docs/gb299/pdf/gb-4-1.pdf> p.
87, acesso em 7 agosto de 2007.
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Folha
Online, 3 de novembro de 2007
Governo quer substituir seis impostos por
dois
Um será cobrado pela União; o
outro pelos Estados
O ministério da Fazenda começou a delinear a proposta
de reforma tributária que pretende divulgar até o final
de novembro. Voltaram à prancheta idéias esboçadas
no início do ano. Algumas delas já foram parcialmente
expostas a governadores e prefeitos. Prevêem, por exemplo, a
junção de seis tributos em dois. Ambos teriam o mesmo
nome: IVA (Imposto sobre Valor Agregado). Com a diferença de
que um seria Federal e outro Estadual.
O IVA-F incorporaria quatro tributos:
ICMS, IPI, PIS, Cofins e Cide. Teria de ser aprovado pelas duas Casas
legislativas do Congresso. Sob
o IVA-E, seriam fundidos outros dois impostos: ICMS e ISS. Neste caso,
o novo tributo seria referendado apenas pelo Senado, depois de acordo
firmado pelas 27 unidades da federação no Confaz (Conselho
Nacional de Política Fazendária).
Uma vez aprovados, os novos tributos
não entrariam em vigor
imediatamente. Haveria uma fase de transição, que poderia
levar de dois a três anos para o IVA-F e até cinco anos
para o IVA-E. No caso do tributo estadual, a idéia é que
as regras sejam uniformes para todos os Estados. Os governadores teriam
autonomia para modificar as alíquotas de um número limitado
de produtos. Assim mesmo dentro de faixas pré-estabelecidas.
A proposta prevê uma outra novidade incômoda para Estados
como São Paulo e Minas Gerais, que têm grandes parques
industriais. Nas transações comerciais interestaduais,
o IVA-E passaria a ser apropriado pelos Estados de destino. Hoje, o
ICMS engorda os cofres dos Estados de origem, onde os produtos são
fabricados.
Para evitar a sonegação, o projeto do governo prevê que
o IVA-E continuaria sendo recolhido no Estado de origem. Mas o fruto
da coleta teria de ser repassado aos Estados de destino, onde estão
assentadas as empresas compradoras. Como? Haveria uma “câmara
de compensação” entre os Estados.
Em conversas que já manteve com entidades que representam os
municípios, o governo detectou uma resistência à acomodação
do ISS sob o guarda-chuva do IVA Estadual. Hoje, o ISS é recolhido
pelas prefeituras. Em 2006, representou 18% dos cerca de R$ 42 bilhões
amealhados pelos Tesouros municipais. Para contornar o problema, o
governo vai sugerir a criação de um outro tributo: o
IVV (Imposto Sobre Vendas no Varejo).
A alíquota seria de 1,5% sobre o valor das mercadorias. Os
prefeitos teriam autonomia para reduzir a alíquota em até um
ponto percentual. O governo se comprometerá a compensar eventuais
quedas de arrecadação dos municípios com parte
do que recolherá com o IVA-F.
Pretende-se, de resto, juntar num único imposto o IR das Pessoas
Jurídicas e a CSLL (Contribuição Sobre o Lucro
Líquido). Na cabeça do governo, o seu projeto de reforma
tributária inclui um quindim capaz de amolecer as resistências
dos governadores.
Hoje, de todas as contribuições e impostos arrecadados
pela União, apenas o IPI, o IR e a Cide são partilhados
com os Estados. Com o IVA-F e com o novo tributo resultante da fusão
do IRPJ com a CSLL, a base de cálculo da partilha aumentaria.
Poderia ser tonificada até mesmo pela CPMF, hoje integralmente
apropriada pela União.
Há, porém, uma dose de veneno no açúcar.
O governo não tem a intenção de aumentar o volume
de recursos que repassa atualmente aos Estados. Ou seja, para manter
a conta nos valores atuais, os percentuais das transferências
seriam lipoaspirados. Argumenta-se, porém, que os governadores
já não poderiam acusar a União de diminuir apenas
as alíquotas dos impostos compartilhados nos instantes em que
decide adotar medidas de desoneração tributária.
Afora a pretensão de simplificar a vida do contribuinte, em
especial das empresas, o grande objetivo do governo com sua reforma é o
de coibir a chamada guerra fiscal. Transferindo-se a arrecadação
do IVA-E para o destino, em vez da origem, os Estados já não
teriam razões para oferecer vantagens tributárias a empresas
com o objetivo de atrair plantas industriais para os seus territórios.
A idéia do ministério da Fazenda é convalidar,
por meio de acordos negociados no Confaz, as mumunhas tributárias
já efetivadas até aqui. Como estímulo adicional
para o fim da guerra fiscal, o governo implementaria uma política
de desenvolvimento regional. Prevê-se, por exemplo, a criação
de fundos alimentados com verbas federais para investimentos em infra-estrutura
nos Estados.
Como em ocasiões anteriores, o projeto de reforma tributária,
lindo no papel, ganha feições de mostrengo quando exposto
ao debate em praça pública. Há uma penca de interrogações
pendentes de resposta. Por exemplo: Se o IPI for extinto, como fará o
governo para financiar os fundos alimentados com parte da arrecadação
desse tributo (fundo de participação de Estados e municípios
e fundo de compensações de exportações)?
O que fazer com a Zona Franca de Manaus, que atrai investidores seduzindo-os
com isenções de IPI?
Mais: extinguindo-se o PIS, como a União fará para financiar
o seguro-desemprego, que tem esse tributo como fonte de financiamento?
Como se vê, a acomodação do mundo real num calhamaço
de folhas de papel é mais difícil do que parece.
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Gazeta do Povo, 3 de novembro de 2007
PARANÁ | TRABALHO
Cobradores têm de pagar por dinheiro
levado em assalto
Desconto mascarado na folha como “adiantamento
extra” revela prática questionável
por POLLIANNA MILAN
Os cobradores de ônibus de Curitiba e região metropolitana estão
sendo submetidos a uma prática que os têm deixado bastante incomodados – e
com o salário menor no fim do mês. João Soares foi assaltado
quando voltava para a garagem da empresa com o dinheiro recolhido no trabalho
e, além de ter tido uma arma apontada contra si, ainda teve de pagar à empresa
o dinheiro levado pelos assaltantes.
Adolfo Silva estava numa estação-tubo quando o ladrão
pediu para que passasse o dinheiro, também ressarcido à empresa.
O desconto vem mascarado na folha de pagamento como “adiantamento
extra”.
Os dois cobradores serão identificados nesta reportagem com nomes
fictícios, para evitar represália, mas a história
deles expressa a realidade de muitos colegas de profissão. Os
R$ 1.755 levados de Soares foram integralmente descontados em 15 parcelas
de R$ 117 no pagamento do cobrador, que recebe piso salarial de R$ 590
mensais. De Adolfo, o assaltante levou R$ 480. Em um segundo assalto
já haviam levado R$ 83, mas ele devolveu só R$ 56 porque
a empresa descontou o valor de 27 passagens, quantidade de dinheiro com
a qual os cobradores teriam de trabalhar para fazer o troco. O restante
deve ficar no cofre.
Após a queixa dos cobradores, a reportagem percorreu diversas
estações-tubo e algumas linhas de ônibus para comprovar
o desconto na folha de pagamento. Todos os entrevistados confirmaram
que precisam pagar os assaltos que excedem 27 passagens. A prática
do desconto ficou evidente após a análise de um boletim
de ocorrência (BO) aberto pelos cobradores na Delegacia de Furtos
e Roubos. No BO consta o valor roubado e, em seguida, essa mesma quantia
aparece descontada nos meses seguintes nos holerites dos entrevistados.
Ora o desconto é à vista, ora vem parcelado.
Segundo o presidente do Sindicato dos Motoristas
e Cobradores nas Empresas de Transporte de Passageiros de Curitiba
e Região Metropolitana
(Sindimoc), Denílson Pires, consta na convenção
coletiva da categoria que os cobradores terão o valor do assalto
descontado na folha se o montante ultrapassar 27 passagens. “Isso
ficou estabelecido para a própria segurança dos cobradores.
Eles têm um cofre onde devem depositar todo o dinheiro que ultrapassa
o valor das 27 passagens. Se não o fizerem, acabam atraindo os
assaltantes”, explica. Mas grande parte prefere trabalhar com o
cofre aberto.
“Eu tive o desconto na folha porque estava com o cofre aberto,
e vou continuar fazendo isso porque não quero morrer. Um amigo
foi baleado porque não quis abrir o cofre. Lá dentro tinha
apenas R$ 20”, relata Adolfo. Já Soares teve de pagar o
assalto porque voltava para a garagem da empresa para entregar as passagens,
mas foi abordado antes. “Peguei uma carona com um motorista da
empresa. Ele desviou a rota para comprar leite e nesse momento uma pessoa
apontou o revolver e levou tudo”, conta.
Cada caso é analisado individualmente, diz o presidente do Sindimoc.
Mas se o cobrador trabalhar com o cofre aberto ou desviar a rota para
a garagem, terá o valor do assalto descontado. Porém, a
questão não é tão simples. Nas estações-tubo
onde o movimento é mais intenso, torna-se inviável trabalhar
só com o troco de 27 passagens. Por isso o Sindimoc estuda aumentar
esse limite. “Agora, se o cobrador é assaltado no trajeto
até a garagem, sem desviar o caminho, não pode ser penalizado
pelo roubo. Isso também vale para quem está abrindo o cofre
na troca de turno. Ninguém deve pagar por uma fatalidade”,
afirma.
Contudo, entre provar que não teve culpa no roubo e ter o dinheiro
descontado no salário, o cobrador provavelmente será enquadrado
no segundo caso. Para comprovar a inocência, precisa entrar como
uma ação judicial ou procurar o Ministério Público.
Até que se prove o contrário, paga pelo assalto. No entanto,
a prática do desconto na folha de pagamento é considerada
abusiva no meio jurídico. Consta na Consolidação
das Leis do Trabalho (CLT) que é a empresa que deve assumir os
riscos da atividade econômica que desenvolve e, assim, o empregado
nunca deve arcar com os prejuízos.
O tema é questionável mesmo que na convenção
coletiva da categoria esteja estipulada a quantia de passagens com a
qual o cobrador deve trabalhar. “A empresa não pode colocar
a norma das 27 passagens e apenas exigir que os cobradores a cumpram.
Essas empresas estão dando condições para que isso
ocorra? Existe um cofre seguro? Há o recolhimento periódico
de grandes quantias de dinheiro nas estações-tubo?”,
questiona o advogado especialista em Direito do Trabalho José Affonso
Dallegrave Neto. Para ele, outro ponto incoerente é o fato de
o cobrador ser o responsável por levar o montante das passagens
recebidas no turno para a garagem da empresa.
“Caberia ao sindicato estipular qual o valor máximo que
os cobradores deveriam se responsabilizar e, para isso, também
deveria existir um adicional de periculosidade, como uma compensação
salarial, pelo fato desses profissionais desempenharem uma função
perigosa. Mas na prática, muitas vezes isso não ocorre”,
diz.
* Começa hoje na capital o 2.° Fórum Transporte Curitiba.
Entre os assuntos, modelos de concessão pública, mobilidade
urbana e meio ambiente, carga tributária e gratuidade de tarifas,
planejamento de gestão do transporte, remuneração
de custos e gestão do transporte metropolitano. Amanhã terá palestra
com o ex-ministro Delfim Netto e debate entre os juristas Romeu Bacellar
Filho e Marçal Justen Filho.
Roubo simulado preocupa empresas
De acordo com o gerente de tráfego da empresa Redentor, Claudio Mariano
Cordeiro Filho, o desconto dos assaltos na folha de pagamento dos empregados
acontece quando existe a dúvida se o assalto aconteceu de fato ou se
foi simulado. “Analisamos cada caso, inclusive o histórico do
cobrador. Agora, se na polícia ele diz que foram roubados R$ 50 e na
empresa fala que foram R$ 150, já é um motivo para termos desconfiança.
Só na maneira como o cobrador conta o incidente, se está nervoso
ou não, já dá para perceber se o fato é real ou
falso”, diz.
Segundo o titular da Delegacia de Furtos
e Roubos de Curitiba, Rubens Recalcatti, é difícil saber quantos assaltos a ônibus
e estações-tubo são simulados.
“Não temos disponíveis informações
suficientes para apurar bem cada caso”, diz Recalcatti. Um exemplo
de assalto simulado é quando o cobrador combina com um parente
ou amigo para passar no final do dia no local de trabalho para levar
o dinheiro do turno. Esse cobrador finge estar sendo assaltado, mas depois
reparte o valor das passagens com o comparsa.
Os cobradores entrevistados pela Gazeta
do Povo confirmam a existência
do assalto falso. “Mas nós não deveríamos
ser punidos porque há uma parcela de cobradores que estão
aplicando esse golpe. Também não é justo sermos
como um caixa-forte sem receber nada a mais por isso”, fala o cobrador
João Soares.
Na empresa Cristo Rei há uma pessoa responsável por passar
durante os três turnos (manhã, tarde e noite) para recolher
o valor acumulado em cada estação-tubo.
“Isso foi importante porque conseguimos reduzir o número
de assaltos”, diz o gerente-operacional Irineu Jucke. Ele demonstrou
surpresa ao ser questionado sobre o fato dos cobradores deixaram o cofre
aberto por medo de assaltos. “A orientação é sempre
deixar fechado, porque se o ladrão levar a quantidade superior à recomendada
para o troco, eles podem ter o valor descontado do salário.”
Na empresa Viação do Sul, o gerente de tráfego
Oloir Soares da Silva diz que os cobradores pagam tudo o que ultrapassar
o valor estipulado para o troco e for levado em assalto. “Existe
o cofre para o depósito e essa norma deve ser cumprida. Não
obrigamos ninguém a trabalhar. É um serviço de risco
e se a pessoa não estiver satisfeita, deve mudar de ramo”,
afirma. (PM)
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