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Agência Diap, 31 de agosto de 2008
DIVERGÊNCIA
Paim quer arquivar projeto que pretende
promover inclusão de afro-brasileiros no mercado de trabalho
O senador Paulo Paim (PT/RS) pediu, nesta sexta-feira (29),
arquivamento do projeto de sua autoria que tem a finalidade de
evitar a discriminação racial nas relações
de emprego e de promover a inclusão de afro-brasileiros
no mercado de trabalho. O senador argumentou que a proposta, ao
ser aprovada pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação
Participativa (CDH), na última quarta-feira (27), ficou
diferente da sua vontade inicial, uma vez que não considerou
o percentual que essa parcela da população ocupa
em cada estado.
O projeto (PLS 235/08) recebeu parecer da CDH e já foi encaminhado à Comissão
de Assuntos Sociais (CAS) para análise em decisão terminativa.
Por isso, apesar de o próprio autor ter pedido o arquivamento
da matéria, o requerimento precisa ser examinado em Plenário,
seguindo determinações do Regimento Interno do Senado.
“Por erro de redação, o projeto acabou ficando
distorcido da vontade originária”, argumentou Paim.
A proposta original (PLS 235/08) prevê que toda empresa com
mais de 200 funcionários tenha em seus quadros 70% da proporção
de afro-brasileiros na população economicamente ativa
(PEA) do estado em que esteja instalada, ressalvados os casos em
que requisitos educacionais e de qualificação profissional
são indispensáveis ao desempenho da função.
Já o texto aprovado pela CDH, por meio de emenda do relator
da matéria, senador Papaléo Paes (PSDB/AP), assegura
que leis específicas poderão disciplinar a concessão
de incentivos fiscais às empresas que tiverem em seus quadros
46% das vagas ocupadas por afro-brasileiros - percentual, segundo
o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
ocupado pelos negros na população brasileira.
De acordo com Paim, a proporcionalidade de afro-brasileiros em cada
estado deve ser considerada, uma vez que há municípios,
especialmente no Sul do país, em que o número deles é pequeno.
Nessas localidades, ressaltou, as empresas não teriam como
cumprir a determinação legal.
O texto original de Paim prevê ainda que 20% dos cargos em
comissão do grupo de Direção e Assessoramento
Superiores (DAS) da Administração Pública deverão
ser reservados aos afro-brasileiros. Esse percentual seria aumentado
gradativamente até que os cargos fossem ocupados por afro-brasileiros
na mesma proporção em que eles aparecem na população
brasileira.
A emenda do relator apenas sugere aos estados, Distrito Federal
e municípios a instituição de normas para adoção
de políticas para preenchimento de cargos e empregos públicos
por afro-brasileiros. O texto aprovado na CDH também não
define percentual a ser reservado a esses brasileiros.
Paim lembrou que sua idéia era aprovar um projeto que alterasse
a lei que proíbe práticas discriminatórias para
efeitos de admissão ou de permanência da relação
jurídica de trabalho (Lei 9.029/95) e apresentasse medidas
opcionais às empresas. No entanto, por "erro de redação",
sua proposta acabou tendo um caráter impositivo.
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Agência Diap, 31 de agosto de 2008
ELEIÇÕES 2008
Calendário eleitoral: datas
importantes que antecedem o pleito
Oito datas importantes em setembro
e outubro antecedem o pleito de 5 de outubro próximo. Candidatos
e partidos precisam ficar atentos para não perder os prazos
e sofrer sanções dos tribunais eleitorais regionais.
Veja o calendário preparado pela assessoria do DIAP, com
base no calendário divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral
(TSE).
6 de setembro – sábado - data em que
os partidos políticos, as coligações e os candidatos
são obrigados, durante a campanha eleitoral, a divulgar, pela
rede mundial de computadores (Internet), relatório discriminando
os recursos em dinheiro ou estimáveis em dinheiro que tenham
recebido para financiamento da campanha eleitoral e os gastos que
realizarem, em sítio criado pela Justiça Eleitoral
para esse fim, exigindo-se a indicação dos nomes dos
doadores e os respectivos valores doados somente na prestação
de contas final.
15 de setembro – segunda-feira (20 dias antes)
- último dia para o Tribunal Superior Eleitoral apresentar
aos partidos políticos os programas de computador a serem
utilizados nas eleições.
20 de setembro – sábado (15 dias antes)
- data a partir da qual nenhum candidato poderá ser detido
ou preso, salvo em flagrante delito.
25 de setembro – quinta-feira (10 dias antes)
- último dia para o eleitor requerer a segunda via do título
eleitoral.
30 de setembro – terça-feira (5 dias
antes) - data a partir da qual e até 48 horas depois do encerramento
da eleição, nenhum eleitor poderá ser preso
ou detido, salvo em flagrante delito, ou em virtude de sentença
criminal condenatória por crime inafiançável,
ou, ainda, por desrespeito a salvo-conduto.
2 de outubro – quinta-feira (3 dias antes)
- último dia para a divulgação da propaganda
eleitoral gratuita no rádio e na televisão, em comícios
ou reuniões públicas e a realização de
debates.
3 de outubro – sexta-feira (2 dias antes)
- último dia para a divulgação paga, na imprensa
escrita, de propaganda eleitoral, no espaço máximo,
por edição, para cada candidato, partido político
ou coligação, de um oitavo de página de jornal
padrão e um quarto de página de revista ou tablóide. Último
dia para propaganda eleitoral em páginas institucionais na
Internet.
4 de outubro – sábado (1 dia antes)
- último dia para a propaganda eleitoral mediante alto-falantes
ou amplificadores de som, entre as 8 horas e as 22 horas, bem como
para a promoção de comício ou utilização
de aparelhagem de sonorização fixa, entre as 8 horas
e as 24 horas. Último dia para a promoção de
carreata e distribuição de material de propaganda política.
5 de outubro de 2008 – domingo - realização
das eleições. Das 8h às 17h.
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Agência Estado, 31 de agosto de 2008
Lula supera Serra e obtém
popularidade recorde em SP
Com 49% de aprovação em São Paulo, o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva atingiu popularidade recorde na cidade
e se mostra hoje um importante "cabo eleitoral" para sua
candidata à prefeitura da cidade, Marta Suplicy (PT). Entre
os eleitores que aprovam seu governo, 52% dizem que pretendem votar
na ex-prefeita, mostra pesquisa Datafolha realizada na sexta-feira.
No sábado, Lula participou pela primeira vez de um evento
de campanha de Marta, na zona leste, com desfile em carro aberto
e discurso em palanque. "Tem candidato do PSDB, do PFL (rebatizado
de Democratas), de todos os partidos adversários usando fotografia
minha como se eu os estivesse apoiando. Sou presidente de todos os
brasileiros, mas numa campanha política é importante
dizer que eu tenho lado, e o meu lado aqui em São Paulo é o
da companheira Marta", disse Lula aos presentes.
O governador paulista, José Serra (PSDB), também atingiu
a maior popularidade de seu governo na cidade, iniciado em 2007:
39%, dez pontos percentuais abaixo da do presidente. Mas só um
terço dos que aprovam a gestão tucana declaram voto
em seu colega de partido na sucessão municipal, o ex-governador
Geraldo Alckmin.
No comício na zona leste, tanto Marta quanto Lula retomaram
o discurso que opõe pobres e ricos, explorado pelo presidente
em sua campanha eleitoral, há dois anos.
" Em São Paulo, temos projetos bem distintos: de um lado, Marta,
Lula e o povo sofrido. De outro, partidos que trabalham para a elite", disse
a ex-prefeita, que, durante todo o seu discurso, listou promessas de parceria
com o governo federal do petista caso seja eleita.
Lula deve voltar a São Paulo até a realização
do primeiro turno, em 5 de outubro. No sábado, ele entrou
no clima eleitoral e relembrou os principais temas da campanha de
Marta. "Lembro de quando fui inaugurar o primeiro CEU (Centro
Educacional Unificado) em Guaianases", começou o presidente,
citando o período em que Marta Suplicy ainda comandava a cidade.
"Aquela escola era tão extraordinária que falei
para a Marta: algumas pessoas vão ficar com preconceito contra
você, porque você está fazendo para o pobre escola
melhor do algumas pagas que os ricos têm aqui em São
Paulo. E não deu outra: o preconceito foi mortal", completou
Lula.
Transferência
De acordo com o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, os números
indicam que neste momento Lula tende a influenciar mais o voto paulistano
do que Serra. "Pode-se dizer que Lula tende a transferir mais
votos — mas essa transferência não é automática,
depende de outros fatores."
A aprovação de Lula é maior entre os que têm
o ensino fundamental (58%) e entre os com renda de até dois
salários mínimos (52%), mesmo estrato em que Marta
alcança seus maiores índices de intenção
de voto. Dos que dizem aprovar a gestão do petista, apenas
15% declaram que pretendem votar em Alckmin, mesmo índice
dos que afirmam voto em Kassab.
A pesquisa Datafolha foi feita com 1.082 eleitores e tem margem
de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos.
Ela foi registrada no Tribunal Regional Eleitoral com o número
02100108-SPPE.
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Agência Brasil, 31 de agosto de 2008
Riqueza do pré-sal acabará com
pobreza, diz Lula
O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse neste sábado
(30) à noite, ao discursar em comício do candidato do
PT à prefeitura de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho,
que a riqueza descoberta pela Petrobras em reservas gigantescas de
petróleo na camada pré-sal será usada para acabar
com a pobreza e solucionar o problema da educação no
País, que é uma dívida do Estado com a sociedade.
" Por isso, vamos reformular a lei do petróleo, porque
não queremos ficar pagando 62% de tudo o que a Petrobras ganha
hoje em dividendos para a Bolsa de Nova York", disse Lula, numa
alusão à distribuição de dividendos no
exterior referentes às negociações com ADRs
da Petrobras na bolsa norte-americana. "Queremos passar a pagar
esses 62% nas bolsas do nosso País", declarou. "Essa
grande descoberta da Petrobras não é para ser vendida
como em outros países."
Lula afirmou também que o governo não pretende exportar
o petróleo bruto, mas sim com valor agregado. "Vamos
refinar aqui, e vamos vender óleo diesel e gasolina de qualidade",
declarou o Presidente. Ele também destacou o papel importante
das descobertas da Petrobras na recuperação da indústria
naval do País, que passou de 1.600 trabalhadores em 2000 para
40 mil neste ano, depois de ter sido a segunda maior do mundo na
década de 70. Lula lembrou ainda que as plataformas marítimas
da Petrobras já utilizam 75% de componentes fabricados no
Brasil, e que até mesmo as 38 sondas de alta tecnologia que
serão contratadas pela estatal para tirar o petróleo
do pré-sal serão feitas no País. Além
disso, 200 navios que a Petrobras terá de contratar até 2014
serão feitos no Brasil, anunciou. "Queremos aproveitar
a riqueza gerada pelas descobertas da Petrobras, e recuperar a indústria
petrolífera brasileira", afirmou.
Lula aproveitou o comício de Luiz Marinho para anunciar a
construção da Universidade Federal de São Bernardo
e Santo André, cuja licitação deve sair em setembro,
prometeu. Em outubro de 2009, Lula pretende inaugurar a universidade
no ABC. "De preferência no dia 27 de outubro, que é meu
aniversário", brincou. Lula lembrou que a melhor universidade
do país, a USP, está atualmente em 115º lugar
entre as melhores do mundo, e espera que a Universidade do ABC esteja
entre as 100 melhores do mundo em dez anos. "Não é justo
que o ABC, uma das regiões mais ricas do País e um
pólo industrial, não tenha uma universidade federal
e não tenha um hospital das clínicas."
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Congresso em Foco, 31 de agosto de 2008
Derrota governamental à vista
Osiris Lopes Filho*
A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 233/08, que institui a
reforma tributária, é de baixa qualidade técnica.
Entre as insuficiências, há duas claras demonstrações
de que se desdenhou da importância do Legislativo, como fonte
de legalidade e legitimidade da tributação, e do papel
específico do Senado, na Federação e na avaliação
do sistema tributário nacional.
Historicamente, o Estado de Direito tem suas raízes na Magna
Carta da Inglaterra, de 1215. Foi lá que se iniciou a sujeição
do Estado às regras que ele edita. E isso ocorreu justamente
na instituição do tributo.
Nessa proposta de reforma tributária, valorizou-se em excesso
o papel do Conselho de Política Fazendária (Confaz), órgão
composto pelos secretários de Fazenda ou de Finanças
dos estados e do Distrito Federal, na produção de normas
em matéria do Imposto sobre Circulação de Mercadorias
e Serviços (ICMS). Na prática, isso significa uma hipertrofia
burocrática e o apequenamento do Poder Legislativo.
A fragilidade extrema na tramitação da proposta governamental
revela-se no desprezo ao Senado que ela encerra. Cutucou-se o Senado
com vara curta. Afinal, foi ele que enterrou a pretensão do
governo de arrecadar neste ano cerca de R$ 40 bilhões, ao
decretar a morte da Contribuição Provisória
sobre Movimentação Financeira (CPMF) em dezembro de
2007. O Senado, ao contrário da Câmara, não tem
sido vaquinha de presépio às propostas do Executivo.
Além disso, o Senado tem função constitucional
explícita em matéria tributária. Diz o art.
52, inciso XV, da Constituição Federal: “Compete
privativamente ao Senado avaliar periodicamente a funcionalidade
do Sistema Tributário Nacional em sua estrutura e seus componentes
e o desempenho das administrações tributárias
da União, dos Estados e do Distrito Federal e dos Municípios”.
O Senado, nas várias Constituições promulgadas
após a ditadura militar, sempre teve função
importante na determinação das alíquotas do
antigo ICM, hoje ICMS. Fixava as alíquotas máximas,
atualmente fixa as alíquotas mínimas. A PEC em apreciação
dá-lhe papel institucional ridículo.
Vale dizer que o Senado estabelecerá as alíquotas
e fixará os seus percentuais. No entanto, segundo a proposta
de reforma tributária, o órgão que define as
mercadorias e serviços a que essas alíquotas se aplicam é o
Confaz. E o Senado poderá apenas aprovar ou rejeitar esses
enquadramentos. Não pode alterá-los. Função
decorativa, para compor paisagem, colocada explicitamente na PEC
233/08.
A indigência da proposta do governo levou o Senado, com base
no referido art. 52, XV da Constituição, a instituir
uma subcomissão temporária da reforma tributária,
que inclusive já produziu relatório preliminar, de
autoria do senador Francisco Dornelles (PP-RJ). A análise é densa
e correta, e as soluções são abertas ao diálogo.
Obra de mestre. E dá antecipadamente conhecimento das dificuldades
para a aprovação dessa PEC, para tranqüilidade
dos bolsos dos cidadãos-contribuintes e dos caixas das empresas. É esperar
para ver.
* Advogado, professor de direito na Universidade
de Brasília (UnB) e ex-secretário da Receita Federal.
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Gazeta do Povo, 31 de agosto de 2008
Igualdade de sexos
“A mulher se masculiniza quando
assume o poder”
Entrevista com a catedrática
espanhola em Direito Civil Rosario Valpuesta
A sociedade precisa dar mais espaço para a perspectiva feminina
de poder. A opinião é da catedrática espanhola
em Direito Civil, Rosario Valpuesta. Segundo ela, quando assume o
poder, a mulher é levada à masculinização.
Ela abordou o assunto em congressos de que participou durante sua
passagem pelo Brasil, na semana passada. Rosario também aproveitou
para denunciar o grande número de assassinatos de mulheres
na Espanha e falou sobre as vitórias obtidas na área.
Primeira reitora da Universidade Pablo de Olavide, de Sevilha, onde
ocupou o cargo por sete anos, Rosario é autora de vários
livros e artigos na área de Direito. Confira os principais
trechos da entrevista concedida à Gazeta do Povo:
Como uma estudiosa da história da mulher, quais são,
na sua opinião, os desafios que ainda são enfrentados
pelas mulheres?
O desafio é transformar a sociedade em uma sociedade feminina,
porque quando a mulher assume o poder, ela se masculiniza. Tem que
haver espaço para a perspectiva feminina de poder. O masculino é mais
hierárquico, menos transparente e o feminino é aberto,
delega, é onde existe maior horizontalidade. Há diferença
entre machismo e masculinidade. O machismo é um pensamento
de exclusão das mulheres e a masculinidade não exclui
as mulheres a princípio, mas exige que elas se masculinizem,
que haja uma renúncia das mulheres de seu próprio desenvolvimento
pessoal. E isso é o que mais importa à mulher, o seu
desenvolvimento interior. Ao homem importa o trabalho, o trabalho
e o trabalho. A masculinidade é o teto de cristal das mulheres.
Em que fase da vida a mulher sente mais os efeitos desse
mundo masculinizado?
A jovem não tem consciência da situação
da mulher enquanto está se dedicando aos estudos, porque,
até então, ela tem uma vida igual à dos homens
jovens. É por isso que as mulheres não querem saber
do feminismo. Quando elas terminam os estudos e vão se dedicar
ao trabalho, é que descobrem que o mundo do trabalho é masculinizado
e não está preparado para aceitar aquelas que querem
ser mães. Essa conscientização acontece por
volta dos 30 anos.
Quando isso acontece, como a mulher reage?
Algumas conseguem conviver, mas com algum sofrimento. Outras terminam
por aceitar. Há uma aceitação da realidade e
hoje temos uma falta de ideologia. A mulher aceita e se masculiniza.
Ao se masculinizar, há a renúncia do seu próprio
desenvolvimento pessoal. O preço que a mulher está pagando
pela sua liberdade é a morte. Hoje na Espanha, morrem mais
mulheres pela violência dos ex-namorados, ex-maridos do que
pelo terrorismo – uma por semana. E o terrorismo é tido
como um grande problema no país. Mas a Lei Integral contra
a Violência é um avanço.
E o mesmo acontece no restante da Europa?
A Espanha está na média. Me parece que o país
mais violento para as mulheres é a Noruega, ou a Finlândia.
Isso ocorre justamente em países mais desenvolvidos porque
neles há mais mulheres querendo ser livres. As mulheres que
buscam a sua liberdade sofrem por causa do sentimento de posse do
marido, do ex. Por isso é tão importante a Lei Integral
de Sobrevivência de Gênero, que agrava as penas por lesões
e ameaças quando o agressor é o homem. As mulheres
maltratadas recebem indenizações e auxílio para
conseguir uma nova moradia e voltar ao trabalho. Quando a mulher é maltratada
pelo homem, quando não há morte, é um crime,
mas quando é o contrário é apenas uma falta,
um delito e não leva à prisão.
Como fica a questão da mulher incorporada no mundo
das organizações e com responsabilidades familiares?
Para a mulher, ser mãe é um inconveniente para o trabalho.
Eu acho que a licença-paternidade tinha de ter o mesmo período
que a licença-maternidade, que na Espanha é de quatro
meses, e ser obrigatória. Com isso, o pai poderia ficar mais
próximo da família e também acabaria com a discriminação
em relação à mulher. É uma pequena medida,
mas que é revolucionária.
A senhora vê a extensão da licença-paternidade
como uma medida possível?
Temos que lutar por isso. Mas a mulher tem que mudar sua mentalidade
também e compartilhar seus filhos. Algumas consideram o filho
como um patrimônio seu. É preciso que seja reconhecida
a capacidade que o homem tem de cuidar de um filho. O pai pode ter
a mesma função, o mesmo apego, pode dar o mesmo afeto.
O afeto é construído, não é biológico
e não tem a ver com o sexo. Os homens jovens, que já tiveram
a experiência de cuidar dos filhos pequenos, querem. Quando
o homem tem essa experiência de doação ao filho,
não quer renunciar. Na Espanha, cada vez mais os homens têm
obtido a guarda dos filhos. E hoje há a guarda compartilhada,
que é uma situação justa para os homens.
Há mulheres que afirmam que não querem trabalhar
fora, mas ficar em casa cuidando de serviços domésticos
e dos filhos. É uma tendência?
É uma tendência entre as mulheres burguesas. Na Espanha,
só a mulher burguesa age assim. Elas viram sua mãe
trabalhar muito fora de casa e muito em casa. Então ela pensa: “Eu
não quero sofrer como a minha mãe”. Mas a mulher
que fica em casa, dependendo de um marido, renuncia à sua
liberdade.
Como a senhora vê esse comportamento?
Vejo como uma traição a todo o movimento das mulheres
anteriores. O trabalho para uma mulher é a liberdade, no presente
e no futuro. A luta do feminismo foi pelo direito ao voto, pelo direito
ao estudo, conquistamos isso. Hoje nas universidades a maioria dos
alunos são mulheres, mas o homem continua ganhando 22% mais.
Como é possível mudar isso?
Por meio de leis de proteção, de promoção
das mulheres. Hoje a mulher está no espaço público,
não porque o homem permitiu, mas porque outras mulheres lutaram
muito por isso. Com a Lei de Igualdade entre Homens e Mulheres, de
2007, o Parlamento da Espanha tem hoje 43% de mulheres trabalhando.
Pela Lei esse número deveria estar entre 40 e 60%. Os direitos
não são dados de presente, eles devem ser conquistados.
O feminismo pode existir sem que entrar em conflito com
a igualdade entre os gêneros?
Sou uma feminista, mas sou a favor da igualdade entre os sexos.
O movimento feminista, como qualquer outro movimento social, não é uniforme, único,
possui estridências. Existe o feminismo liberal de direita,
socialista de esquerda, de igualdade, de diferenças. A diferença
entre os gêneros é uma formação social
e não um resultado da biologia.
A senhora veio ao Brasil para participar de diversas conferências
e um dos temas abordados foi os modelos familiares do futuro. Como
a senhora vê essas novas famílias?
Não sabemos como serão, mas acredito que estejam mais
ligadas ao afeto e à liberdade de ir e vir. Serão mais
estáveis e com maior participação dos homens.
Haverá certamente uma maior diversidade de modelos familiares:
monoparentais, de um pai, uma mãe, pais heterossexuais, homossexuais.
A Espanha é um dos países em que é permitido
o casamento homossexual. Lá, 67% da população é a
favor e cerca de 50% também é a favor da adoção
pelos casais homossexuais.
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Gazeta do Povo, 31 de agosto de 2008
Preços
Alimentos devem aliviar inflação
em 2009
Com menos pressão do mercado
interno, especialistas esperam altas menores para os produtos
alimentícios, em relação às
apresentadas neste ano
Rio de Janeiro - Depois de serem os principais responsáveis
pela disparada de preços neste ano, os alimentos devem conceder
um alívio para a inflação em 2009. Embora admitam
uma imprevisibilidade latente no comportamento dos preços
do setor, especialistas apostam em crescimento menor dos preços
dos itens alimentícios para o ano que vem, em relação à forte
elevação de preços registrada em 2008.
As expectativas são de redução de consumo,
tanto no mercado interno, quanto no mercado internacional – o
que deve reduzir a demanda por esses itens no próximo ano.
A economista da Brascan Gestão de Ativos (BGA), Mônica
Oliveira, prevê aumento de 5% para os preços dos alimentos
no varejo em 2009, menos da metade da taxa de inflação
projetada para o setor ao término deste ano (10,80%). “O
fator fundamental para a pressão dos alimentos na inflação
deste ano foi um descasamento entre a oferta e a demanda, potencializado
pelo aumento nos preços das commodities.”
Na análise da especialista, esse cenário deve mudar
a partir do ano que vem, quando o consumo no mercado interno arrefecer,
influenciado por efeitos da atual política monetária,
de elevação na taxa básica de juros (Selic).
A desaceleração na economia mundial também é um
fator que pode ajudar a manter os preços dos alimentos em
um nível menos elevado do que o apurado este ano, segundo
o economista-chefe da Ativa Corretora, Arthur Carvalho Filho. Ele
observa que mensurar uma tendência para os preços dos
alimentos é algo delicado, visto que o comportamento destes,
principalmente dos itens in natura, é muito volátil. “O
problema é que atualmente os estoques (dos alimentos) estão
muito baixos, então, qualquer oscilação de demanda
gera uma correção de preços muito elevada.”
Entretanto, embora comente que os preços dos alimentos podem
registrar taxas de elevação significativas no ano que
vem, o economista não acredita em uma pressão de aumento
de preços como a apurada em 2008. Em sua análise, o
mundo está caminhando para um nível de desaceleração
econômica, o que deve puxar para baixo o consumo e diminuir
o apetite por commodities.
Para o coordenador do núcleo econômico da Fecomércio-RJ,
João Carlos Gomes, os preços das commodities têm
subido de uma forma “perturbadoramente absurda” nos últimos
dois anos. Porém, atualmente, as commodities não estão
apontando para possibilidades de choques de aumentos de preços.
Assim como a analista do Brascan, ele lembrou ainda que o consumo
no mercado interno pode ter um recuo em 2009, refletindo o impacto
da política monetária do Banco Central.
“É claro que, no caso dos alimentos, não dá para
ter garantias, pois a situação pode mudar de uma hora
para outra. Mas pelo está se observando atualmente, é possível
um cenário de inflação baixa em alimentos, para
2009”, afirmou. Por sua vez, o economista Fábio Romão,
da LCA Consultores, comenta que o Brasil não deve ficar de
fora, no âmbito do processo de desaceleração
da economia mundial. “Nossa projeção para o Produto
Interno Bruto (PIB) deste ano é de 4,6%; e para o PIB de 2009,
de 3,4%”, afirmou.
Embalada por um crescimento menos intenso, a demanda interna pode
dar sinais de arrefecimento, puxando para baixo os preços
dos alimentos. De acordo com o analista, a LCA prevê um cenário
de produtos agrícolas em desaceleração para
o ano que vem. Essa conclusão ajudou a projetar o Índice
Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2009 em 4,6%,
abaixo da estimativa da consultoria para o fechamento do índice
este ano, de 6,7%.
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Gazeta do Povo, 31 de agosto de 2008
Legislação
Lei do aprendiz ainda é pouco
cumprida no Brasil
Se a regra fosse cumprida à risca,
1,3 milhão de jovens estariam empregados no país.
Nos Senais, por exemplo, número de alunos inseridos
em programas de aprendizagem nas empresas não passa
de 40%
Criada com a intenção de promover o primeiro emprego
e aproximar o jovem do mercado de trabalho, a Lei do Aprendiz garante
vagas de trabalho para estudantes em pequenas e médias empresas.
Contudo, cálculos do governo apontam que, se a lei fosse cumprida à risca,
1,3 milhão de aprendizes estariam empregados em todo o Brasil.
Nesse sistema se enquadra a contratação de jovens,
com idade entre 14 e 24 anos, que estejam matriculados em cursos
técnicos. O emprego de adolescentes entre 14 e 16 anos é proibido
fora desse regime.
O decreto que regulamenta a Lei do Aprendiz é de 2005 e foi
redigido com base na Consolidação das Leis do Trabalho
(CLT). Dessa forma, garante salário mínimo aos contratados,
jornada máxima de seis horas diárias, fundo de garantia
e férias, explica Marcelo Jugend, advogado trabalhista. “O
empregador ainda tem a obrigação de zelar pela formação
prática do aprendiz e garantir que ele continue cursando o
ensino fundamental, caso não tenha concluído.”
O problema é que tudo isso acaba se tornando oneroso para
a empresa e desestimula a contratação. Mas a lei é muito
clara: empresas de médio e grande porte devem contratar aprendizes
em número equivalente a 5% no mínimo e 15% no máximo
do seu quadro de funcionários, cujas funções
demandem formação profissional. Pequenas e micro empresas
não são obrigadas, mas nada as impede de fazê-lo,
contribuindo com a formação profissional dos jovens.
É importante ainda separar aprendizado de estágio,
pois o segundo não vale para cumprir a cota de contratação
(veja quadro nesta página). “Estágio está vinculado
com instituições de ensino regular (fundamental, médio
e superior) e aprendizado está vinculado com escolas de formação
técnica-profissional”, diz Jugend.
As indústrias podem recorrer ao Serviço Nacional de
Aprendizagem Industrial (Senai) para suprir sua cota de contratação
de aprendizes. A instituição é uma das mais
tradicionais do país na formação técnica-profissional,
e registra cerca de 100 mil matrículas por ano. Porém,
apenas 30% ou 40% desses alunos estão inseridos em programas
de aprendizagem dentro de empresas. No Paraná, dos cerca de
7 mil matriculados, aproximadamente 3 mil trabalham como aprendizes,
conta Marco Secco, diretor de operações do Senai-PR.
Para ele, o que impede que mais jovens sejam absorvidos pelo mercado
de trabalho é que alguns empresários encaram a contratação
como um ônus. “O aprendiz tem direito a um salário
mínimo, o mesmo que outros profissionais, então o empresário,
por conta da lei, demite o pai para contratar o filho”, afirma
Secco. “A empresa é obrigada a recolher somente 2% do
Fundo de Garantia dos aprendizes (e 8% para outros empregados), mas
isso não é suficiente. Falta ainda oferecer mais incentivo
fiscal por parte do governo”, complementa.
As empresas interessadas podem selecionar candidatos na comunidade
e encaminhar para o Senai, ou contratar quem já é aluno
da instituição.
Um deles é Delyel da Silva Ventre, 19 anos, que estuda Mecânica
Geral no Senai e faz o contraturno na Bosch. Ele conta que aprova
o sistema de aprendizagem, que alia teoria e prática – são
quatro horas no Senai e outras quatro na empresa. “Para o jovem, é um
excelente começo. Ele já sai com uma experiência
profissional e entende como funciona o mercado de trabalho”,
diz Ventre.
Além do Senai, as empresas podem buscar as outras instituições
de ensino técnico que formam o chamado Sistema S: Senac, Senar,
Senat e Sescoop.
Programa
Em Itaipu, iniciação
ao trabalho
A formação prevista na Lei do Aprendiz não é necessariamente
de nível industrial. É o caso de Alessandra Maeva Favaro
Silva, 16 anos, que trabalha como auxiliar administrativo. “Considero
uma oportunidade única, principalmente trabalhando dentro de
uma empresa grande como essa.” Ela se refere à Itaipu
Binacional, que desenvolve desde 1998 o Programa de Iniciação
e Incentivo ao Trabalho (Piit). Durante esse tempo, 520 jovens participaram
na modalidade Adolescente Aprendiz. A empresa mantém atualmente
85 aprendizes nesse sistema, em Foz do Iguaçu e em Curitiba.
Marcos Castro de Araújo, coordenador do programa em Foz,
conta que muitos deles conseguem colocação na própria
empresa. Nos últimos dois anos, 21 ex-participantes continuaram
no Programa de Estágio Curricular da Itaipu e outros cinco
foram aprovados no concurso público. “O fator determinante
para que os adolescentes oriundos de famílias menos privilegiadas
tenham este crescimento é a orientação e apoio
que recebem de seus supervisores”, diz Araújo. (HS)
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Folha de Londrina, 31 de agosto de 2008
SEU DIREITO
LICENÇA MATERNIDADE
Por que o INSS não está ressarcindo
o dinheiro pago pela licença maternidade à empregada
doméstica?
A licença maternidade é concedida à gestante
em virtude do nascimento do filho, num total de 120 (cento e vinte)
dias, concedidos 28 dias antes e 92 dias após o parto, período
este em que a gestante faz jus ao recebimento do 'salário
maternidade'.
Para a empregada doméstica, o pagamento do salário
maternidade é pago diretamente pela Previdência Social
somente às empregadas em situação regular de
emprego, no valor equivalente ao recolhimento de seu último
salário de contribuição. Em outras categorias,
o pagamento é feito diretamente pelas empresas, que são
ressarcidas posteriormente pela Previdência Social através
de um sistema de compensação. Para tanto, o benefício
deve ser requerido no período entre 28 dias antes do parto
e até 90 dias após o parto, no Posto de Benefícios
da Previdência Social mais próximo da residência
da empregada doméstica. O início do afastamento do
trabalho é determinado por atestado médico fornecido
pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Assim, durante o período de afastamento por licença
maternidade, o empregador doméstico não será responsável
pelo pagamento do benefício, mas apenas pelo recolhimento
de sua contribuição patronal, ou seja, apenas 12% sobre
o salário de contribuição. Diante disto, caberá exclusivamente
ao INSS a responsabilidade pelo pagamento do salário maternidade
do empregado doméstico, inexistindo a hipótese de ressarcimento
para a empregada doméstica. Isto porque quem paga o salário
maternidade da empregada doméstica em estado de gestação é a
própria Previdência Social e não o empregador
doméstico. Este não tem obrigação nenhuma
de pagar a licença maternidade da funcionária, que
fica inteiramente a cargo do INSS, cabendo à empregada doméstica
o recebimento do valor correspondente no próprio posto de
benefícios.
Gustavo Vissoci Reiche, advogado | servico@folhadelondrina.com.br
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O Estado do Paraná, 31 de agosto
de 2008
Após 120 anos da abolição,
trabalho escravo persiste
Durante esta semana, o Paraná teve mais uma prova de que situações
análogas a de trabalho escravo persistem bem próximas
de todos. O exemplo veio com a atuação do Grupo de Fiscalização
Móvel para Erradicação do Trabalho Escravo e Degradante
na Região Sul, realizada em São Mateus do Sul, região
sul do Paraná, a segunda do ano no Estado. Enquanto as denúncias
aumentam e Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e Ministério
Público do Trabalho (MPT) mostram serviço no combate à situação
de trabalho degradante, parlamentares parecem não se preocupar
em levantar a mesma bandeira.
No Senado, dentro da Comissão de Direitos Humanos, existe
uma Subcomissão Temporária de Combate ao Trabalho Escravo.
Pelo menos no papel. Documentos registrados no site do Senado mostram
que a última reunião sobre o tema ocorreu em setembro
de 2007. Não há qualquer proposição tramitando
na comissão.
Sem a aprovação de leis mais rígidas para empregadores
que submetem seus trabalhadores a situações degradantes,
que não oferecem equipamentos, moradia ou alimentação
adequada, a fiscalização fica defasada.
Exemplo disso é a Proposta de Emenda Constitucional (PEC)
438, há anos emperrada no Congresso. A proposta prevê o
confisco de terras de quem for flagrado utilizando trabalho escravo. “A
sociedade brasileira já deu mostras suficientes de que não
tolera trabalho escravo. Mesmo assim, os parlamentares teimam em
não ouvir e em não transformar em atos legislativos
essa vontade popular”, cobra o assessor de Políticas
Públicas do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade
Social, Caio Magri.
Pressões da bancada ruralista e falta de interesse no tema
são algumas das respostas para a proposta não ser aprovada. “De
tempos em tempos, a PEC sai da gaveta para ser usada como moeda de
troca. A PEC já foi votada em primeiro e segundo turnos no
Senado, depois em primeiro turno na Câmara. Só falta
votar pela segunda vez na Câmara, mas não há interesse”,
lamenta Magri.
Para o presidente da subcomissão no Senado, o senador José Nery
(PSOL-PA), a confusão de conceitos sobre o tema é a
principal arma contra as ações de combate ao trabalho
escravo. “O termo ‘análogo à escravidão’ tornou-se
um inimigo a combater. Aceitam que as condições encontradas
em fazendas sejam caracterizadas como ‘irregularidades trabalhistas’ ou
como ‘trabalho degradante’, mas rechaçam o termo
análogo à escravidão”, escreveu o senador
em artigo publicado semanas atrás.
A razão disso, segundo o senador, é a divulgação
pelo MTE da chamada lista suja de empregadores. “Ter o nome
incluído entre os empregadores que se utilizam dessa prática
significa ter dificuldades para obter financiamento público,
para vender os produtos a determinados compradores que já se
aliaram à luta contra a escravidão e representa também
o risco de ter o produto rejeitado no mercado internacional. Ou seja,
dói diretamente no bolso, que em geral é a parte mais
sensível desses empresários com os pés no século
XVIII”, acusa Nery.
Discussão no PR inexiste
Na Assembléia Legislativa do Paraná, a discussão
de combate ao trabalho escravo também é praticamente
inexistente. Após a constatação da situação
em São Mateus do Sul, o presidente da Comissão de Direitos
Humanos da Casa, deputado Francisco Buhrer (PSDB), pretende reunir
os membros da comissão na próxima terça-feira.
“Vamos apresentar a proposta de formar um grupo de deputados
para acompanhar a questão mais de perto”, planeja. Por
enquanto, a casa tem se mostrado ausente na discussão. “Não
há repercussão de constatações como esta
de São Mateus por aqui.
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O Estado do Paraná, 31 de agosto
de 2008
Emprego formal cresce mais que a
população
Lyrian Saiki
Átila Alberti
O emprego com carteira assinada cresceu 6,83% nos últimos 12
meses em Curitiba, com 38.110 vagas; já a população
aumentou 1,7% neste mesmo período, passando de 1,797 milhão
para 1,828 milhão - incremento de 31 mil pessoas -, conforme
estimativa divulgada ontem pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística).
“Em Curitiba, o emprego está crescendo mais do que
a população. É sinal de que a economia está de
fato aquecida, estamos vivendo um momento muito bom”, destacou
o economista Cid Cordeiro, do Dieese-PR (Departamento Intersindical
de Estatística e Estudos Socioeconômicos, regional Paraná).
Só em julho, foram criados 3.184 empregos em Curitiba - o
melhor saldo no mês desde 1999 -, representando crescimento
de 0,55%. A maior parte das oportunidades surgiu no setor de serviços,
com 1.189 vagas, seguida por construção civil (680),
comércio (680) e indústria de transformação
(554).
“O que mais nos surpreendeu foi a manutenção
do crescimento do emprego no segundo semestre”, apontou o secretário
municipal do Trabalho e Emprego, Raul D’Araujo. Com a elevação
da taxa básica de juros (Selic) pelo Banco Central, a expectativa
era que o crescimento do nível de emprego diminuísse
em julho, o que não ocorreu.
Segundo Cid Cordeiro, em algum momento, porém, a alta da
taxa de juros vai impactar nas contratações. “O
emprego deve continuar crescendo, mas não com recordes como
estava até então”, comentou.
Entre os fatores que vêm contribuindo com o aumento do emprego
formal estão a expansão do crédito e da renda
e investimentos por parte das empresas. “O empresariado está mais
confiante no País”, acredita o secretário.
Na comparação com outras capitais, Curitiba ficou
na quinta posição com relação ao saldo
de empregos em julho (3.184) e na sexta posição quanto à variação
(0,55%).
No acumulado do ano (janeiro a julho), o nível de emprego
cresceu 4,68% em Curitiba, com a criação de 25.836
postos de trabalho. Em relação ao saldo de empregos,
o setor de serviços foi o que mais contratou (12.522 pessoas),
seguido pelo comércio (5.155) e pela construção
(4.647).
Porém, quanto à variação, a construção
civil foi a que apresentou o maior crescimento este ano: expansão
de 19,57%, bem acima do segundo colocado, o setor de serviços,
com índice de 4,46%. Em Curitiba, o estoque de trabalhadores
com carteira assinada é estimado em 577.351.
Mapa de oportunidades
Conforme o Mapa de Oportunidades traçado pelo Observatório
do Trabalho de Curitiba - formado pelo Dieese-PR e pela secretaria
municipal do Trabalho e Emprego -, as atividades que mais contrataram
este ano em Curitiba foram como servente de obras - com 2.829 empregos
e salário médio de admissão de R$ 558,47 -,
auxiliar de escritório -1.718 vagas e salário inicial
de R$ 595,26 -, assistente administrativo - 1.321 vagas e salário
inicial de R$ 921,02 -, operador de telemarketing ativo - 1.312 vagas
e salário inicial de R$ 390,54 -, vigilante - 877 vagas e
salário de R$ 802,75 - e faxineiro, com 763 vagas e salário
inicial médio de R$ 438,17.
Três setores concentram os melhores salários
Com base no Mapa de Oportunidades, os melhores salários pagos
em Curitiba estão concentrados em três setores: informática,
engenharia e mercado financeiro. “São os que oferecem
as melhores oportunidades salariais”, destacou o secretário
municipal Raul D’Avila.
No topo do ranking está o cargo de diretor de serviços
de informática, com salário médio inicial de
R$ 19,3 mil. Em seguida, aparece a função de diretor
de operações de obras públicas e civis, com
salário inicial médio de R$ 15.066,50; gerente de operações
de correios e telecomunicações (R$ 15.055,00), supervisor
de ensino (R$ 13.772,19), pesquisador em ciências da computação
e informática (R$ 12 mil), diretor comercial (R$ 11,9 mil),
diretor de mercado de capitais (R$ 11 mil), pesquisador de engenharia
civil (R$ 11 mil), diretor administrativo e financeiro (R$ 9.845,92),
diretor financeiro (R$ 9.529,89), especialista em calibrações
metrológicas (R$ 9.187,00), diretor de redação
(R$ 8.654,83). Na 19.ª posição, o atleta profissional
de futebol tem salário médio inicial de R$ 6.476,85.
“É a primeira vez que esse dado aparece. Significa
a formalização do vínculo de trabalho”,
apontou Cid Cordeiro, do Dieese-PR, referindo-se aos jogadores de
futebol.
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O Estado do Paraná, 31 de agosto
de 2008
O debate público
sobre o alcance da Lei da Anistia (2)
Edésio Passos
“O juiz espanhol Baltasar Garzón ficou mundialmente conhecido em
1998 ao ordenar a prisão do ditador chileno Augusto Pinochet por crimes
contra a humanidade. Foi a mais notória decisão do magistrado que
construiu uma carreira baseada no combate à impunidade dos torturadores
de cidadãos da Espanha na América Latina, em especial no Chile
e na Argentina.
A pressão externa de Garzón engrossou o caldo de cultura
que permitiu a esses dois vizinhos do Brasil levar aos tribunais
militares acusados de tortura e assassinatos durante as respectivas
ditaduras”. Esta a introdução à entrevista
concedida pelo magistrado espanhol ao jornalista Daniel Pinheiro,
da Carta Capital.
Garzón esteve no Brasil participando do seminário
Direito à Memória e à Verdade, realizado em
São Paulo no dia 18 de agosto, sob patrocínio da revista
Carta Capital e da Secretaria Especial de Direitos Humanos do governo
federal, além de ter sido recebido no Congresso Nacional e
pronunciado palestra na Universidade de Brasília. Eis a entrevista
publicada na revista:
CartaCapital: O Brasil, ao contrário de vizinhos próximos,
ainda não abriu os arquivos do regime militar nem levou a
julgamento acusados de tortura. O que o senhor pensa a respeito?
Baltasar Garzón: Eu creio que a história é recorrente.
Quando não são tomadas as decisões necessárias,
apoiadas na verdade, na memória, para se estabelecer o que
realmente aconteceu no passado, o país tem um problema a resolver.
Entendo que o mais acertado, o mais humano, o mais positivo, é que
esses arquivos sejam abertos e os culpados responsabilizados, e não
se tomar a atitude de “nada acontece, porque é assim
mesmo”. Há países que demoram muito para fazer
isso, como a Espanha, que levou 70 anos, mas que mesmo assim conseguiu
resolver alguns casos e determinar responsabilidades.
CC: O principal argumento dos que são contra a abertura dos
arquivos e a abertura de ações judiciais é que
isso causaria instabilidade política...
BG: Sempre, em todos estes casos, quando chegamos ao ponto em que é pedida
a abertura (dos arquivos), há esta polêmica, que considera
que ela só pode ser feita se houver um ataque ao sistema.
Mas muitas pessoas, e eu me incluo entre elas, conseguem mostrar
que isso não é verdade, que a abertura não tem
nada a ver com o risco ao sistema político, e sim com a aplicação
prática da Justiça, com a recuperação
da memória. Não se pode fechar definitivamente a porta
em relação aos atos cometidos durante a ditadura, cuja
impunidade é um caso de muita gravidade. É preciso
que cada país encontre a sua maneira de fazer justiça,
e eu acho que isso pode perfeitamente acontecer no Brasil.
CC: Em que medidas as leis de anistia em países como Argentina,
Chile e Brasil não se contrapõem à legislação
internacional sobre crimes de tortura, assassinatos e desaparecimentos
forçados?
BG: A existência dessas leis locais de anistia, que concedem
perdão aos acusados, não foi um obstáculo para
a Justiça espanhola em relação aos casos chileno
e argentino, porque, se o fato aconteceu fora do país em que
a investigação é realizada, é aplicado
o princípio da justiça penal universal. Ele estabelece
que crimes cometidos contra a humanidade são imprescritíveis.
A Corte Interamericana de Direitos Humanos proferiu uma sentença
muito importante no caso Barrios Altos (chacina que matou quinze
pessoas em Lima, no Peru, em 1991, cometida por paramilitares ligados às
Forças Armadas), pelo qual Alberto Fujimori (presidente do
Peru à época) está sendo investigado. Ela determinou
a abolição da lei de anistia do Peru, que impedia até então
a investigação.
Portanto, está claro que uma lei de anistia não pode
impedir a investigação de crimes de lesa-humanidade.
CC: Embora tardia, a discussão sobre o julgamento de torturadores
no Brasil começa a tomar corpo. Quais devem ser os próximos
passos desse movimento aqui?
BG: Eu não conheço a realidade brasileira, nem alguma
eventual comissão que pretenda resgatar a memória histórica
desse período, sobre todos os atos cometidos pelo regime,
como o desaparecimento de pessoas. Mas digo que é necessário
procurar saber se há jurisprudência, se há uma
atuação uniforme dos promotores e juízes em
relação aos casos existentes. Só assim é possível
saber se o País está em um momento de debate sobre
todos os casos do período, e é necessário alcançar
este momento. Sobretudo, para fortalecer a democracia, porque o fato
de não ter havido apuração dos crimes até agora
não significa que eles devem ficar impunes. Somente assim
acontecerá a recuperação da memória e
da Justiça.
CC: Por que foi conseguido sucesso nesse sentido na Argentina, no
Chile, no Uruguai e não no Brasil?
BG: Não tenho conhecimentos concretos sobre o caso do Brasil,
e que iniciativas foram tomadas. Porém, nos casos da Argentina
e do Chile, tenho uma relação direta, porque fui o
responsável pelas ações internacionais direto
da Espanha. Elas começaram em 1996, e o ponto alto foi a detenção
de Augusto Pinochet, que serviu para ativar todos os mecanismos de
Justiça internacional e nacional e para finalmente poder julgar
aqueles que cometeram crimes, tanto no Chile como, sobretudo, na
Argentina. Esta é a única maneira de fechar as feridas
causadas pelo passado mal-resolvido.
CC: Esses crimes são realmente considerados imprescritíveis?
Os Estados sul-americanos têm a obrigação de
punir os responsáveis por esses crimes?
BG: Sabe-se que em países como Chile e Argentina já se
estabeleceu que sim, a Corte Interamericana de Direitos Humanos também
disse que sim, do meu ponto de vista, também. O Chile foi
o primeiro caso em que a prescrição existia no sistema
penal, mas sempre há de se levar em conta que são crimes
internacionais, por serem de lesa-humanidade. Portanto, conforme
prevê o direito consuetudinário internacional, é obrigatório
que este tipo de crime seja combatido e investigado, mesmo que tenha
transcorrido um certo tempo, que seria suficiente para caracterizar
a prescrição nas leis locais de cada país.
CC: Em caso de omissão estatal, como isso pode ser revisto
em cortes internacionais? O Brasil pode receber punições
por não levar à Justiça os torturadores e militares
em geral envolvidos nesses crimes?
BG: Este é um assunto bastante complicado. É preciso
observar se, passado o período da ditadura, as leis que possibilitaram
a instituição da democracia permitem barrar as investigações
de atos do regime anterior. Creio ser necessária uma interpretação
conjunta com as normas internacionais, quando se trata de crimes
contra a humanidade, o que permitiria investigar os atos passados
da ditadura, não tanto em relação à omissão
e, sim, em relação às conseqüências
que esses atos tiveram.
CC: Se os crimes cometidos pela ditadura brasileira são contra
a humanidade, por que esses delitos não foram tratados assim
no País até agora?
BG: Seria necessário ver as decisões que a Justiça
brasileira tomou em relação a isso, e eu desconheço
qualquer tipo sobre a qualificação desses crimes (cometidos
pela ditadura) como de lesa-humanidade. Em todo caso, aqueles crimes
que foram cometidos sistematicamente a partir das estruturas de poder,
ou por organizações amparadas por essas estruturas,
contra determinados setores da população, em razão
de suas crenças e idéias políticas, são
considerados crimes contra a humanidade. Então seria necessário
estudar e entender o caso do Brasil e, a partir desse ponto, decidir
pela adoção da doutrina que prevê os crimes de
lesa-humanidade nos tribunais brasileiros.
CC: Há informações de que o senhor teria dito
a autoridades brasileiras que pretende investigar crimes da ditadura
aqui no Brasil. O senhor confirma essa informação?
Pretende mesmo investigar crimes no Brasil?
BG: Não, não há nenhum procedimento aberto
na Espanha sobre crimes brasileiros, os procedimentos que estavam
abertos se referiam ao caso chileno, em que havia vítimas
brasileiras, e era isso que estava sendo investigado, não
os crimes que foram cometidos no Brasil. Repito que não há nenhum
procedimento aberto na Espanha e nem houve a intenção
em nenhum momento.
CC: Há um caso específico de um cidadão espanhol,
Miguel Sabat Nuet, preso no Brasil pelo DOI-Codi em 1973 e que até hoje
consta como desaparecido. Um mês e meio depois ele morreu numa
cela, segundo denúncias. O Ministério Público
do Brasil investiga no momento a morte de Nuet. O senhor está acompanhando
esse caso? O governo e a Justiça espanhóis estão
fazendo alguma coisa? Qual medida pode ser tomada por parte da Espanha?
BG: Desconheço a existência deste caso e não
sei se ele está seguindo os trâmites diplomáticos,
mas a mim não me consta tenha sido iniciado algum tipo de
ação internacional, e se houvesse, teria de ser tomada
por algum organismo internacional. Em todo caso, como está sendo
investigado pela Justiça brasileira, seria necessário
esperar o resultado deste processo de investigação.
Se for uma desaparição forçada, entra no rol
dos crimes internacionais contra a humanidade, não há prescrição, é um
delito permanente, e que precisa ser investigado. Se não fosse
investigado no Brasil, teria que se investigar na Espanha.
CC: A Justiça da Espanha pode responsabilizar o governo brasileiro
pela morte do cidadão Miguel Nuet? O senhor mesmo poderia
encaminhar ação nesse sentido?
BG: Eu creio que temos que esperar o que decide a Justiça
Brasileira, já que você me disse que o caso está sendo
investigado aí. É preciso que a investigação
seja concluída, seria leviano e temerário que qualquer
autoridade fale em culpabilidade antes do fim do processo.
CC: Na Espanha, chegou-se à conclusão que juízes
do país poderiam investigar casos de abusos mesmo se o cidadão
vitimado não for espanhol, por tratar-se de crime contra a
humanidade. O que o senhor achou da decisão?
BG: Na Espanha existe o principio de justiça penal universal
e a lei do poder judicial, de 1985, se aplicou nos casos argentinos,
e em outros casos que ainda tramitam na Espanha, como o caso de Salomón
e o caso de Sahara, o Tribunal Constitucional Espanhol, em uma sentença
de setembro de 2005, reiterada por outras sentenças, estabeleceu
que o princípio de justiça penal universal permite
que a investigação seja feita quando se trata de crimes
de lesa-humanidade, mesmo que a vítima não seja espanhola,
o que seria uma espécie de cláusula conta a impunidade.
Partindo deste princípio, de que a aplicação
correta é prevista pelo Tribunal Constitucional, assim é que
aplicamos nos casos em que investigamos.
Gabriel Cavallo
O ex-juiz argentino Gabriel Cavallo foi responsável por decisões
pela inconstitucionalidade das leis Obediência Devida e Ponto
Final e aos indultos concedidos aos militares. Também concedeu
entrevista à Carta Capital, da qual extraímos alguns
tópicos:
CartaCapital: A exemplo do Brasil, a Argentina tinha leis e indultos
que não permitiam o julgamento de crimes praticados por militares
e altos funcionários da ditadura argentina. Como foi o processo
que derrubou essas garantias e permitiu a detenção
de centenas de acusados por assassinatos, torturas e seqüestros
durante a chamada “guerra suja”?
Gabriel Cavallo: Tudo começou no governo de Raul Alfonsín,
quando acontecem os primeiros julgamentos dos crimes cometidos pelos
militares da Junta. Porém, a promulgação das
leis Obediência Devida e Ponto Final paralisa o processo.
Posteriormente, o presidente Carlos Menem completa o marco de impunidade
com a concessão de indultos aos comandantes condenados. Da
canetada de Menem ao momento do decreto que torna essas leis inconstitucionais
passam-se 12 anos. Durante esse período houve grande pressão
de governos estrangeiros, principalmente europeus, para que os autores
desses delitos fossem julgados.
Toda vez que um presidente argentino viajava ao exterior enfrentava
manifestações de ativistas e organismos de defesa dos
direitos humanos pedindo a abertura de processos contra os torturadores.
Isso provocava um problema político internacional imenso para
o governo. Ao mesmo tempo, havia uma série de mandatos de
prisão expedidos por cortes internacionais contra militares
do Cone Sul, como o caso clássico da prisão do Pinochet
na Inglaterra. Havia então um ambiente favorável para
a derrubada dessas leis.
CC: Qual o argumento jurídico utilizada pelo senhor para
torná-las inconstitucionais?
GC: Acompanhei as sentenças judiciais expedidas pelos juízes
europeus. Essas decisões eram baseadas na legislação
internacional para crimes contra a humanidade e direitos humanos.
Esse tipo de doutrina se aplica, por exemplo, aos criminosos nazistas
da Segunda Guerra Mundial. Realizei um estudo de tudo que estava
se passando no direito internacional e comecei a projetar como isso
poderia ser adaptado na Argentina. Fiz isso em 2001. Quatro anos
depois a Suprema Corte ratificou meu despacho e permitiu a reabertura
desses processos.
CC: No Brasil há uma discussão sobre a abertura de
processos contra os acusados de prática de crimes durante
a ditadura. O ministro da Justiça, Tarso Genro, defende que
os delitos cometidos durante o período sejam julgados como
crimes comuns. Como o senhor analisa essa proposta?
GC: Na minha avaliação é um erro. Se você julga
um crime contra a humanidade como crime comum você permite
ao acusado todas as prerrogativas de defesa garantidas por lei para
esse tipo de delito. A primeira coisa que irá se alegar é que
muitos desses crimes já prescreveram. Um crime previsto pelo
direito internacional, por exemplo, nunca prescreve. Por isso até hoje
se persegue os criminosos nazistas pelo mundo. Outro fato importante é que
os condenados nessa categoria não têm direito a indulto,
anistia, nada. O que não aconteceria no caso de um julgamento
comum. Por isso é importante que esses julgamentos sejam regidos
pelas leis do direito internacional.
CC: O senhor tem acompanhado os debates sobre a possível
mudança da Lei da Anistia no Brasil?
GC: Acompanho esporadicamente. Estou informado que há movimentos
nesse sentido. Mas é sempre uma questão delicada, complexa,
que demanda tempo e habilidade para ser discutida. Aqui na América
do Sul tivemos grandes progressos no Chile, que viveu uma situação
muito parecida com a da Argentina. Mas esse tema não avançou
no Uruguai. Lá foi realizado um plebiscito para referendar
a lei que anistiava os militares suspeitos de crimes durante o regime
militar. O povo uruguaio achou por bem não levar adiante essa
questão. É uma decisão soberana. Eu particularmente
acredito que nenhum país deveria deixar impunes seus criminosos.
Mas respeito outros pensamentos.
Edésio Passos é advogado e ex-deputado
federal (PT/PR). edesiopassos@terra.com.br
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Folha de S.Paulo, 31 de agosto de 2008
Sem discriminar domésticas,
custo dobra
Maior categoria do país,
com 6,8 milhões de trabalhadores, pode ter jornada
de trabalho por lei, hora extra e FGTS obrigatório
Proposta de emenda constitucional que amplia
direitos e está em estudo no governo deve chegar ao Congresso
até o final do ano
CLAUDIA ROLLI
FÁTIMA FERNANDES
DA REPORTAGEM LOCAL
O governo federal prepara uma PEC (proposta de emenda constitucional)
para acabar com a discriminação que consta há 20
anos na Constituição Federal contra os trabalhadores
domésticos, a maior categoria profissional do Brasil. A proposta
permitirá a equiparação dos direitos de 6,8
milhões de empregados domésticos que existem no país
-segundo dados do IBGE- com os dos demais trabalhadores.
Cinco ministérios -Trabalho, Previdência Social, Casa
Civil, Fazenda e Planejamento- trabalham na mudança na legislação,
que está em estudo no governo Lula e deve chegar ao Congresso
até o final do ano. Se a alteração na Constituição
for aprovada, o doméstico terá direito a jornada de trabalho
estabelecida em lei, hora extra, adicional noturno, salário-família
e FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) obrigatório
-desde 2000, esse benefício é opcional.
Com a ampliação dos direitos ao trabalhador doméstico,
o custo dos encargos trabalhistas deverá ao menos dobrar, nos
cálculos de advogados, especialistas em mercado de trabalho
e representantes de empregadores e trabalhadores domésticos
do Estado de São Paulo.
Quem paga um salário mínimo a sua empregada (R$ 415),
por exemplo, terá de desembolsar ao mês mais 8% de FGTS
(R$ 33,20), além de hora extra, quando a jornada exceder as
44 horas semanais permitidas pela Constituição. "Se
trabalhar à noite, tem adicional. Fora a multa de 40% sobre
o total do saldo depositado no fundo, se o empregado for demitido sem
justa causa", diz o consultor Mario Avelino, fundador do site
Doméstica Legal. Se a doméstica não for registrada,
o empregador terá de incluir no cálculo 12% de contribuição
previdenciária (nesse caso, mais R$ 49,80 mensais considerando
o salário mínimo).
" O que o governo quer é apagar essa mancha de discriminação
que está presente na Constituição. A idéia é mandar
ainda neste ano, quando comemoramos 20 anos da Constituinte, uma PEC para resolver
essa questão e ampliar os direitos dessa categoria que é a maior
do país", diz a ministra Nilcéa Freire, da Secretaria Especial
de Políticas para as Mulheres -subordinada à Presidência.
Além dos 6,8 milhões de empregados domésticos
que trabalham por mês, há 2,3 milhões que trabalham
como horistas, caso das faxineiras ou das diaristas. Somados, são
9,1 milhões de trabalhadores ou 5% da população
brasileira.
Casa-grande e senzala
" A Constituição é discriminatória com essa
categoria. A legislação que trata dos domésticos está vencida
e foi inspirada nas relações entre a casa-grande e a senzala. É resíduo
cultural da época da escravidão", diz Luís Carlos Moro,
advogado da área trabalhista.
Dos 6,8 milhões de trabalhadores domésticos, 27,1% possuem
vínculo formal de trabalho definido pela CLT (Consolidação
das Leis do Trabalho), segundo Marcio Pochmann, presidente do Ipea.
Dos 2,3 milhões de empregados que trabalham como horistas, nem
10% contribuem para a Previdência Social, o que lhes garante
direito à aposentadoria.
A precariedade nas relações entre patrões e empregados
domésticos é identificada pela Justiça do Trabalho.
De janeiro até a semana passada, 9.284 empregados domésticos
entraram com ações contra seus patrões na capital
paulista, segundo o Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região.
Esse número deve chegar a 15 mil.
"É preciso implantar um novo regime contratual que permita estruturar
a organização do setor empregador e valorizar a mão-de-obra.
O trabalho doméstico deveria ser terceirizado e organizado por empresas",
diz Pochmann.
O crescimento da economia já modificou, na análise de
especialistas, a relação entre patrão e empregado
doméstico. Já não é tão comum um
empregado dormir no emprego. Em 1992, cerca de 635 mil empregados domésticos
moravam nas residências. Em 2006, eram 295 mil, segundo o IBGE.
Para ser aprovada, a mudança na Constituição terá de
ser analisada em duas votações no Senado e duas votações
na Câmara dos Deputados -três quintos dos votos precisam
ser favoráveis. "Esse tema enfrentará resistência.
Porque o empregador terá de arcar com mais custos. Mas a medida é justa.
Não pode haver dois tipos de trabalhador no Brasil, um de primeira
categoria e outro de segunda", diz Cláudio Montesso, presidente
da Anamatra, que reúne juízes do trabalho.
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Folha de S.Paulo, 31 de agosto de 2008
Governo gera falsa expectativa com
pré-sal
Especialistas vêem produção
relevante só a partir de 2014 e possível
uso eleitoral do petróleo na campanha de 2010
Para governo, prioridade é definir
situação de áreas já leiloadas para
que empresas comecem a investir imediatamente
HUMBERTO MEDINA
VALDO CRUZ
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Especialistas em petróleo alertam de que o governo pode estar
gerando uma falsa expectativa em relação à camada
de pré-sal de olho na campanha política de 2010. Segundo
eles, só haverá produção relevante nos
campos a partir de 2014 e, mesmo assim, ela estará garantida
apenas se o governo definir um modelo que atraia investidores externos.
Para isso, eles defendem que o melhor caminho é manter as
regras atuais.
Do lado do governo, ministros envolvidos na discussão dizem
reconhecer que no mandato de Lula não entrará praticamente
nada de recursos do pré-sal no caixa do Tesouro, mas contestam
os especialistas afirmando que a economia já sentirá os
efeitos desse petróleo nos próximos dois anos.
Motivo: as empresas petroleiras terão de investir forte em 2009
e 2010 para garantir a exploração dos campos em 2011
e 2012, já no mandato do sucessor de Lula. Daí porque
o governo avalia que a prioridade agora é definir claramente
como ficará a situação das áreas já leiloadas,
para que as empresas invistam imediatamente.
Para obter recursos de investimento para o governo e para a Petrobras,
por exemplo, o Ministério da Fazenda estuda lançar títulos
recebíveis no exterior lastreados na receita futura do petróleo.
Mas só para investimentos. A idéia inicialmente discutida
de antecipar receita para gasto corrente em educação,
por exemplo, foi descartada por Lula. Ele avalia que seria acusado
de gastar hoje uma verba ainda não certa.
Política
" O governo está com uma plataforma eleitoral. É extemporâneo,
estamos a seis ou sete anos de uma produção significativa. Não é hora
de falar o que fazer com o dinheiro", disse o pesquisador Giuseppe Bacoccoli,
da Coppe/UFRJ.
Na avaliação do pesquisador, ainda há várias
incógnitas a respeito da produção na camada pré-sal:
custo dos poços, como aproveitar o gás e se haverá disponibilidade
física de equipamento para a produção. Bacoccoli
disse que, por conta dessas incertezas, é difícil estimar
o custo total de produção, mas fez uma projeção
de que poderá ficar entre US$ 200 bilhões e US$ 300 bilhões.
O pesquisador reconhece, porém, que, mesmo que o preço
do barril de petróleo caia, dificilmente a exploração
do pré-sal deixará de ser vantajosa. "O preço
do petróleo deve cair, mas não tanto. Não cai
muito abaixo dos US$ 100 [por barril]. Certamente vai ser econômico." Ele
avaliou que o pré-sal é economicamente viável
com petróleo na casa de US$ 50 ou US$ 60 por barril -atualmente
está cotado a cerca de US$ 115.
" Politizou-se muito a questão. Não está mais ligada à dinâmica
do processo, são razões políticas", disse o professor
Saul Suslick, do Cepetro (Centro de Estudos do Petróleo), da Unicamp. "Essa
politização pode complicar, porque pode atrapalhar o fluxo de investimentos
no setor", afirmou.
De acordo com a avaliação de Suslick, só depois
dos testes que serão realizados pela Petrobras a partir de fevereiro
do ano que vem é que se poderá ter uma idéia de
como será a extração de óleo no pré-sal.
Para o professor, a exploração no pré-sal seria
viável com o barril de petróleo cotado a até US$
80.
"Lobby"
Na última semana, o governo evitou comentar publicamente os
estudos sobre o novo modelo de exploração do petróleo
no país. Reservadamente, no entanto, ministros contestam os
especialistas lembrando que pelo menos no complexo da bacia de Santos
há estimativas seguras de que existe um reservatório
que pode girar entre 50 bilhões e 70 bilhões de barris
de petróleo, bem acima das reservas brasileiras atuais, de 14
bilhões de barris.
Além disso, avaliam que simplesmente manter as regras atuais
seria entregar a riqueza do pré-sal às empresas petrolíferas,
em detrimento do interesse da população brasileira. "Nesse
lobby não vamos cair", disse um ministro.
Para a advogada Sônia Agel, do escritório Schmidt, Valois,
Miranda, Ferreira & Agel, o governo precisa ter muita cautela na
discussão. "Estão tratando de forma simples um tema
que é bastante complexo", avalia Agel, ex-procuradora da
ANP (Agência Nacional do Petróleo). "E o pior é que
isso tudo está acontecendo em um momento que o atual modelo
está dando certo", disse.
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Folha de S.Paulo, 31 de agosto de 2008
Informação de ficha
que hóspede preenche em hotel não é usada
Cadastro criado na ditadura se
perde antes de chegar ao Ministério do Turismo
VERENA FORNETTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Criadas durante a ditadura militar para controlar o fluxo de pessoas
no país, as fichas que os hóspedes preenchem quando
chegam aos hotéis sobrevivem até hoje, mas as informações
reunidas no documento se perdem antes de chegar ao Ministério
do Turismo.
A Ficha Nacional de Registro de Hóspedes combina informações
como meio de transporte usado, motivo da viagem, última cidade
visitada e próximo destino. A responsabilidade de tabular as
informações é das secretarias estaduais de Turismo,
mas só Paraná, Pará e Amazonas repassam regularmente
dados atualizados ao ministério.
A maioria dos outros Estados só informa a taxa de ocupação
do hotel e quantas noites os hóspedes passaram no estabelecimento,
reunidas em outro relatório, chamado de BOH (Boletim de Ocupação
Hoteleira). Segundo a Embratur, ligada ao Ministério do Turismo,
24 das 27 unidades federativas repassam esses números.
Mesmo as informações que estão disponíveis
ainda não são analisadas . A Embratur começou
a preparar uma série histórica da taxa de ocupação,
em parceria com a Fundação Getulio Vargas, que deve ser
divulgada no início do ano que vem. José Francisco de
Salles Lopes, diretor de estudos e pesquisas da Embratur, diz que o órgão
já monitora informações sobre perfil, gastos e
origem dos turistas em pesquisas bianuais. Lopes diz que a ficha de
registro dos hóspedes será analisada em uma segunda fase
do trabalho. A Embratur descarta, por enquanto, o fim da ficha ou mudanças
no formato.
" Queremos que as fichas sejam preenchidas eletronicamente, mas isso depende
de lei e não se faz de uma hora para outra", afirma Lopes.
Atualmente, os hotéis encaminham uma cópia do documento
aos órgãos competentes e mantêm outra nos estabelecimentos
para que a Polícia Civil possa consultá-las. Até cerca
de dez anos atrás, os registros eram copiados em um livro, que
era encaminhado à polícia.
Políticas públicas
O tratamento científico dos dados poderia fundamentar políticas
públicas para o setor. "É um dado simples, que as
pessoas não valorizam, mas poderia mostrar os fluxos turísticos
dentro do país", diz Alexandre Panosso Netto, professor
do curso de lazer e turismo da Universidade de São Paulo.
Segundo a Abih (Associação Brasileira da Indústria
de Hotéis), alguns Estados preferem nem receber as fichas porque
falta espaço para armazená-las.
Outro problema é que nem todos preenchem a ficha. Pousadas e
hotéis de pequeno porte não pedem as informações
aos hóspedes. "Não nos interessa saber só sobre
o turista que fica em hospedagens caras. Queremos informações
sobre os que têm poucos recursos e viajam no país, que é a
maioria da população", diz o professor.
O número de hotéis e pousadas também é controverso.
No Estado de São Paulo, a estimativa é que existam cerca
de 5.920 meios de hospedagem -nesse total, entretanto, são contabilizados
até estabelecimentos que funcionam, de fato, como casas de prostituição.
A confusão ocorre, segundo Alexandre Sampaio, diretor financeiro
da Abih, porque o número é definido a partir da CNAE
(Classificação Nacional de Atividades Econômicas),
que identifica as unidades produtivas no Brasil. "Por essa identificação, é possível
ter um número maior de estabelecimentos que se declaram como
meio de hospedagem, mas que não estão no Cadastur, do
Ministério do Turismo, porque não preenchem os requisitos."
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