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Agência Diap, 7 de setembro de 2008
Bolsa Família estimula
participação no mercado de trabalho
O Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea)
debate nesta semana as políticas de combate à fome e à desnutrição.
Nesta sexta-feira (5), a 4.ª plenária será a maior
já realizada, com cerca de duas mil pessoas. Esta será a
primeira vez que ocorrerá fora de Brasília, como forma
de homenagear o recifense Josué de Castro, patrono do Conselho,
referência internacional sobre o problema e suas causas. Suas idéias
foram revolucionárias para a época, como os primeiros conceitos
sobre o desenvolvimento sustentável.
O Consea foi criado em 2003 para articular Governo e sociedade civil
na proposição de diretrizes para as ações
na área da alimentação e nutrição.
O Conselho faz uma avaliação das políticas desenvolvidas
pelo Governo federal, como o Bolsa Família, que atende cerca
de 11 milhões de famílias. Duas pesquisas recentes apontam
bons resultados do programa.
Mercado de trabalho
O Bolsa Família estimula a participação no mercado
de trabalho e funciona como um microcrédito para pequenos empreendedores,
segundo um estudo do Centro Internacional de Pobreza, uma instituição
de pesquisa do Pnud das Nações Unidas, em parceria com
o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).
Publicado em inglês, o trabalho Programas de Transferência
de Renda Focados no Brasil (Targeted Cash Transfer Programmes in Brasil)
baseia-se em dados da Pnad 2004 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios,
do IBGE) para concluir que, para pessoas de uma mesma faixa de renda,
a presença no mercado de trabalho é maior entre os beneficiários
do Bolsa Família.
Os pesquisadores Marcelo Medeiros, Tatiana Britto e Fabio Veras Soares,
autores do estudo, observaram que, no grupo dos 10% mais pobres do
Brasil, a porcentagem de pessoas que trabalhavam ou procuravam trabalho
era de 73% entre os que recebiam o Bolsa Família e de 67% entre
os que não recebiam. Na parcela de 10% a 20% mais pobres, 74%
dos beneficiários pelo programa de renda eram economicamente
ativos, contra 68% entre os não-beneficiados.
No grupo seguinte (20% a 30% mais pobres), a taxa era de 76% para
atendidos e de 71% para não-atendidos. "A noção
de que programas de transferência são um desincentivo
ao trabalho é mais baseada em preconceito do que em evidências
empíricas. Dados recentes da PNAD mostram que indivíduos
vivendo em casas beneficiadas pelo Bolsa Família trabalham tanto,
senão mais, que indivíduos com renda per capita similar",
diz o texto.
A análise apresenta ainda números de um estudo publicado
em 2006 pelo Cedeplar (Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional
da Universidade Federal de Minas Gerais), que reforçam esse
ponto de vista: a taxa de participação no mercado de
trabalho de adultos em famílias atendidas pelo Bolsa Família é 3%
maior do que em famílias não-atendidas.
Esses resultados indicam que o dinheiro da transferência de
renda pode ser usado para superar obstáculos de entrada em alguns
mercados, como a necessidade de capital de giro e estoques para um
vendedor de rua. Nesse sentido, o autônomo teria comportamento
semelhante ao de empresários que recebem empréstimos.
Alimentação é prioridade
O Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas
(Ibase) entrevistou cinco mil titulares do Bolsa Família e constatou
que o recurso é utilizado, principalmente, na compra de alimentos.
Nestes domicílios, também aumentou de forma acentuada
o consumo de cereais, leite, carnes e frutas, principalmente nas regiões
mais pobres e locais onde a insegurança alimentar é maior.
De acordo com a pesquisa do Ibase, para 87% das famílias o
gasto com a alimentação é o principal destino
dos recursos do Programa. Em seguida, o dinheiro, segundo os beneficiários, é utilizado
na compra de material escolar (46%), vestuário (37%) e remédios
(22%).
A pesquisa "Repercussão do Programa Bolsa Família
na Segurança Alimentar e Nutricional das Famílias Beneficiárias" foi
aplicada nos meses de setembro e outubro de 2007 em 229 municípios
de todas as regiões brasileiras. O levantamento mostra que 94%
dos titulares do cartão são mulheres, 78% vivem na área
urbana, 65% são pretos ou pardos e 81% sabem ler e escrever.
Em 46% dos domicílios a renda mensal total é inferior
a um salário mínimo.
Em relação ao acesso a alimentos, cerca de 70% afirmaram
que a quantidade e a variedade dos produtos consumidos aumentaram.
Já 63% disseram que cresceu a compra de alimentos que as crianças
gostam. Além disso, 76% , 68% e 61%, respectivamente, declararam
que expandiu o consumo de cereais, leite e carnes. A quantidade de
alimentos elevou-se mais entre as famílias com insegurança
alimentar grave.
Departamento Intersindical de Assessoria
Parlamentar (Diap)
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Congresso em Foco,
7 de setembro de 2008
Os dragões e os periquitos
Sionei Ricardo Leão*
Os desfiles em comemoração ao 7 de Setembro terão
entre os protagonistas o 1º Regimento de Cavalaria, Dragões
da Independência, unidade sediada em Brasília, que alterna
com o Batalhão do Imperador a guarda do Palácio do Planalto.
A mesma efeméride não fará qualquer menção,
no entanto, ao “sangue, suor e lágrimas” derramados
pelos integrantes do Batalhão dos Periquitos, composto por afrodescendentes
que em batalha expulsaram da então Província da Bahia
as tropas portuguesas que se recusavam a aceitar a autonomia da ex-colônia
em relação à sua metrópole.
Não será propósito desse artigo desdenhar o valor
simbólico do 1º Regimento de Cavalaria, como simbólica
foi a postura de Dom Pedro I, às margens do Ipiranga, mas questionar
dos porquês que, a exemplo dos periquitos, vigora no Brasil a
(i)memória de tantas contribuições da população
negra no passado militar do Brasil.
Os periquitos, além de despontarem na defesa da Independência,
na Bahia, protagonizaram, em 1824, um levante em favor do conceito
do federalismo, razão pela qual o Estado decidiu por desmobilizar
a unidade, distribuindo seus membros entre tropas pernambucanas, a
fim de retirá-los da política e da história.
Como argumenta o historiador Hendrik Kraay, autor de Race, State,
and Armed Forces in Independence-Era Brazil: Bahia, 1790s-1840, “as
autoridades removeram os ex-escravos (e também a maioria dos
soldados negros) da Bahia, dessa forma traçando mais explicitamente
a linha divisora entre escravos e soldados. O levante do Batalhão
dos Periquitos (outubro a novembro de 1824), percebido como uma revolta
de soldados negros e ex-escravos, urgiu essas medidas”.
Por assim dizer, como em outros momentos, a inserção
de negros livres e escravos nas tropas regulares era seguido de uma
celeuma para as autoridades, ou seja, como conviver com pessoas que
haviam conquistado a cidadania fardada, em meio a um regime escravista.
Essa dicotomia ocorreu por ocasião da insurreição
pernambucana contra os batavos de Maurício de Nassau, no século
17, com os lanceiros negros na Farroupilha (1835-1845) e com os “voluntários
da pátria”, na Guerra do Paraguai (1864-1870).
Em todos esses momentos, o país recorreu ao indivíduo
negro para embrenhar-se nos combates – personagens que encerrado
o conflito eram legados ao esquecimento e à exclusão.
Recorrendo uma vez mais aos escritos de Hendrik Kraay, depois da guerra
pela Independência, os senhores-de-engenho baianos se depararam
com essa situação, que foi recorrente nos séculos
passados, o desafio de restaurar a autoridade “sobre uma população
escrava que vira e ouvira muitas novidades, sobre um exército
cuja fileira continha um número apreciável de escravos
(cuja condição ainda não fora resolvida), e sobre ‘classes
de cor’ que ganharam nova consciência de sua importância
em conseqüência dos seus serviços na guerra”.
A solução nesses momentos foi basicamente a mesma, extirpar
o feito dos afrodescendentes da memória. Da mesma forma que
pouco se fala ou se conhece respeito dos periquitos, vige equivalente
absenteísmo quanto ao zuavos da Bahia, companhias compostas,
exclusivamente, por negros recrutados em Salvador para lutar na Guerra
do Paraguai, ou sobre os terços de henriques, organizados em
referência a Henrique Dias, ex-escravo e herói de Guararapes,
em 1694.
Essa prática, vale ressaltar, não se restringiu ao período
escravista, pois percebe-se a continuidade dela, ainda no século
20, por ocasião da Revolta da Chibata, do marinheiro João
Cândido, recentemente anistiado pelo Estado e na II Guerra Mundial,
assuntos que merecem análises à parte.
Nesta passagem pelo Dia da Pátria, contudo, fica o registro
dos brasileiros que, de fato, pegaram em armas para consagrar a ruptura
entre Brasil e Portugal, em terreno singular, haja vista, que a Bahia
década a década vem se cristalizando pela sua vertente
cultural afro-brasileira.
Importa, enfim, assinalar que a história de nosso país,
por vezes desdenhada, distorcida e estereotipada foi certamente erigida
nos sabres de tantos dragões como pelo sacrifício humano
de inumeráveis e anônimos periquitos.
*Sionei Ricardo Leão é jornalista e repórter da
Clicatv, do Jornal de Brasília. Dirigiu seis documentários,
entre eles, o Kamba'Race, que recebeu o Prêmio Palmares de Comunicação
(2005) do Ministério da Cultura. Integra a Comissão de
Jornalistas pela Igualdade Racial do Distrito Federal (Cojira-DF).
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STF, 7 de setembro
de 2008
Responsabilidade sobre obrigações
trabalhistas de tercerizados em julgamento no STF
Uma controvertida questão contratual e trabalhista, de interesse
tanto da União, quanto de estados e municípios, está na
pauta de julgamentos do Plenário do Supremo Tribunal Federal
(STF) desta quarta-feira (10). Trata-se da Ação Declaratória
de Constitucionalidade (ADC) 16, ajuizada pelo governo do Distrito
Federal com objetivo de ver confirmada a validade do parágrafo
1º do artigo 71 da Lei nº 8.666/1993, que tem tido a aplicabilidade
afastada por decisões do Tribunal Superior do Trabalho (TST).
O artigo mencionado atribui, em seu caput, à empresa contratada
por órgão do setor público a responsabilidade
pelos encargos trabalhistas, previdenciários, fiscais e comerciais
resultantes da execução do contrato. E seu parágrafo
1º reforça esta norma, dispondo que “a inadimplência
do contratado, com referência aos encargos trabalhistas, fiscais
e comerciais, não transfere à Administração
Pública a responsabilidade por seu pagamento, nem poderá onerar
o objeto do contrato ou restringir a regularização e
o uso das obras e edificações, inclusive perante o Registro
de Imóveis.
Entretanto, além de vir sistematicamente contrariando esse
dispositivo, o TST chegou a editar a Súmula 331, em entendimento
diametralmente oposto ao da norma, responsabilizando subsidiariamente
a Administração Pública em relação
aos débitos trabalhistas, quando atuar como contratante de qualquer
serviço de terceiro especializado.
A mencionada Súmula 331 do TST dispõe, em seu item IV: “O
inadimplemento das obrigações trabalhistas, por parte
do empregador, implica a responsabilidade subsidiária do tomador
dos serviços, quanto àquelas obrigações,
inclusive quanto aos órgãos da administração
direta, das autarquias, das fundações públicas,
das empresas públicas, e das sociedades de economia mista, desde
que hajam participado da relação processual constem também
do título executivo judicial (artigo 71, da Lei nº 8.666/1993)”.
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O Estado do Paraná,
7 de setembro de 2008
Reafirmação da
unicidade sindical, sistema confederativo e custeio compulsório
Edésio Passos
A Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias
(CNTI), uma das mais antigas e tradicionais entidades sindicais brasileiras,
presidida por José Calixto Ramos, que também é presidente
da Nova Central Sindical dos Trabalhadores, através do seu Departamento
Profissional da Construção e do Mobiliário (Depacom),
realizou nos dias 13 a 15 de agosto de 2008, em Brasília, o XV
Congresso Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção
e do Mobiliário, evento que contou com a presença
de 225 entidades sindicais representativas da categoria e mais de 500
pessoas entre dirigentes sindicais, autoridades e convidados.
Na oportunidade, Geraldo Ramthun, presidente da Federação
dos Trabalhadores na Indústria da Construção e
do Mobiliário do Paraná, foi eleito presidente do Depacom,
e, em seu pronunciamento, destacou os desafios a serem enfrentados,
como a sustentabilidade do movimento sindical, mencionando a campanha
para o cancelamento do Precedente Normativo n.º 119 do TST e da
Súmula 666 do Supremo Tribunal Federal, que tratam das contribuições
assistenciais aos sindicatos.
Afirmou que se deve ter um olhar atento quanto a estabilidade dos
dirigentes sindicais, tendo em vista as diversas demissões,
com a aprovação do PLS 177/2008, do senador Paulo Paim,
que protege os dirigentes eleitos. Falou sobre a importância
da redução dos acidentes de trabalho na categoria, cobrando
dos órgãos responsáveis mais eficiência
na divulgação dos índices oficiais.
Demonstrou sua preocupação com o enquadramento sindical
e as constantes alterações de contrato social das empresas,
que dificulta o trabalho dos sindicatos. Reafirmou que a diretoria
do Depacom trabalhará para que a correção dos
saldos do FGTS seja pelos mesmos índices adotados pela caderneta
de poupança, e que não é mais possível
os trabalhadores continuarem perdendo dinheiro. Finalizou que lutará diuturnamente
para manter a unidade do movimento sindical, integrando dirigentes
e entidades de norte a sul deste país.
Carta de Brasília
Ao final do XV Congresso, os participantes aprovaram resoluções
que condensam os principais debates e reivindicações
da categoria profissional, afirmando que analisaram as questões
de interesse do movimento sindical e dos trabalhadores brasileiros,
especialmente os da construção e do mobiliário,
que desempenham papel estratégico no desenvolvimento do país,
que se expressam através da Carta de Brasília:
"1. Estrutura Sindical: - Reafirmação
dos princípios da unicidade sindical, do sistema confederativo
e do custeio compulsório. - Defesa da retirada do Congresso
Nacional da PEC 369/2005, uma ameaça à estrutura sindical
vigente
- Reedição imediata da Portaria 186/08, do Ministério
do Trabalho e Emprego, principalmente no tocante à pulverização
das entidades de nível superior (federações e confederações).
- Mobilização pela revogação imediata da
Súmula 666 do STF e do Precedente Normativo 119 do TST, instrumentos
utilizados pelo Ministério Público do Trabalho para comprometer
o custeio e o funcionamento das entidades sindicais em geral. - Intensificação
da campanha nacional de apoio ao PLS 248/06, do senador Paulo Paim (PT-RS),
para regulamentar a contribuição negocial, de forma compulsória
e universal. - Campanha de apoio ao PLS 177/07, do senador Paulo Paim,
para assegurar a estabilidade dos dirigentes sindicais, incluindo membros
dos conselhos fiscais, delegados e suplentes.
2. Legislação Trabalhista e Previdenciária: -
Apoio irrestrito à campanha pela redução da Jornada
de Trabalho para 8 horas diárias e 40 semanais, sem redução
de salário, com a aprovação de PEC no Congresso
Nacional e nova legislação nesse sentido. - Defesa da
ratificação imediata pelo Congresso Nacional da Convenção
158 da OIT, instrumento vital de combate às demissões
arbitrárias e imotivadas. - Luta pela aprovação
de legislação de combate às cooperativas fraudulentas
de trabalho e pela regulamentação das terceirizações,
especialmente nas atividades fins das empresas. - Campanha pelo fim
do banco de horas, nocivo aos trabalhadores e à geração
de mais empregos. - Intensificação de campanha pelo registro
do Contrato na Carteira de Trabalho, com a sua efetiva fiscalização.
- Apoio à aprovação de legislação
para o fortalecimento das Convenções Coletivas de Trabalho
com a inclusão do princípio da ultratividade. - Luta
pelo fortalecimento da Previdência Pública e contra sua
privatização. - Apoio à aprovação
do PLS 296/03, que extingue o famigerado Fator Previdenciário,
e defesa do reajuste diferenciado das aposentadorias e pensões
acima do salário mínimo. - Luta contra qualquer tipo
de discriminação da mulher no mercado de trabalho, principalmente à questão
trabalho igual, salário igual; apoio à sanção
presidencial do PL que amplia para seis meses a licença-maternidade
e desenvolvimento de campanhas contra o assédio moral às
mulheres nos locais de trabalho. O DEPACOM providenciará a unificação
da data base nas convenções coletivas do 3.º grupo
da CNTI.
3. Condições e Meio Ambiente de Trabalho: -
Defesa do meio ambiente e da melhoria da qualidade de vida da população,
bem como de uma política energética alternativa e da
Amazônia como patrimônio inalienável do Brasil.
- Intensificação das campanhas pela efetiva implementação
da NR 18 nos locais de trabalho e da política de integração
da CPN com as CPRs. - Luta pela ampliação de campanhas
educativas, junto ao governo e empresas, para a efetiva redução
dos acidentes de trabalho e das doenças profissionais e a intensificação
da fiscalização do trabalho. - Defesa dos direitos trabalhistas
e condições dignas de trabalho em áreas específicas,
principalmente quanto à segurança e saúde do trabalhador.
-Intensificação das campanhas nos locais de trabalho
contra as drogas, o fumo e o álcool.
4. Formação Profissional e Alfabetização: -
Defesa da ampliação dos programas governamentais de qualificação
e re-qualificação profissional nos setores da construção
e do mobiliário, bem como dos serviços oferecidos por
entidades como o Senai. - Intensificação das campanhas
contra o analfabetismo, principalmente nos locais de trabalho. - O
Depacom estimulará os sindicatos a apresentarem propostas de
projetos e mediará junto aos meios competentes a liberação
do numerário necessário".
Seminário Jurídico dos Rodoviários
A desembargadora federal do TRT.PR, dra. Marlene T. Fuverki Suguimatsu,
pronunciou a palestra inaugural do VI Seminário Jurídico
e de Dirigentes Sindicais Rodoviários do Estado do Paraná sob
o tema "Assédio Moral no Ambiente de Trabalho". O
evento, realizado pela Federação dos Trabalhadores em
Transportes Rodoviários do Estado do Paraná (Fetropar)
de 27 a 29 de agosto, em Guaratuba, PR, contou, ainda, com as palestras
do dr. Paulo Douglas, procurador do trabalho do Mato Grosso, sobre
a jornada de trabalho dos rodoviários e a ação
civil pública proposta pelo MPT, e do Ministro do TST dr. Fernando
Eizo Ono sobre o tema "Poder Normativo do TST após a EC
45". O advogado e professor Sandro Lunard Nicoladeli apresentou
questões sobre "Convenções e Resoluções
da Organização Internacional do Trabalho" e o advogado
e vereador André Passos analisou questões relativas a "Dissídios,
Convenções e Acordos Coletivos de Trabalho" na conjuntura
atual do Direito do Trabalho. Os advogados e dirigentes sindicais constituíram
plenária de debate sobre temas de interesse da categoria profissional
dos rodoviários, definindo rumos da ação sindical-jurídica.
Carta cidadã
Os Magistrados do Trabalho do Tribunal Regional do Trabalho da Terceira
Região Minas Gerais reunidos, juntamente com Advogados, Professores,
Acadêmicos, Servidores Públicos e Especialistas em Informática,
na cidade de Caxambu-MG, por ocasião do I Congresso Mineiro
Justiça Digital e Direito do Trabalho, em sessão plenária,
afirmam que:
1. O Direito do Trabalho continua a desempenhar uma função
institucional frente às novas tecnologias, para reequilibrar
juridicamente as assimetrias entre os sujeitos da relação
de emprego; 2. A qualificação do trabalhador para o manejo
das novas tecnologias deve ser uma responsabilidade conjunta do empregador
e do Estado; 3. As novas tecnologias e o tele-trabalho transformam,
mas não suprimem os elementos fático-jurídicos
próprios da relação de emprego; 4. Os mecanismos
de monitoramento eletrônico no ambiente de trabalho devem ser
implantados da maneira mais eficaz à proteção
dos direitos à intimidade e privacidade do trabalhador, com
observância do princípio da proporcionalidade no cotejo
dos valores constitucionais em questão; 5. O trabalhador não
perde sua condição de cidadão ao ingressar no
ambiente de trabalho, não podendo renunciar à sua dignidade
frente às novas tecnologias; 6. Os princípios processuais
não podem ser vislumbrados como obstáculos insuperáveis à implementação
concreta do processo eletrônico. O desafio a ser enfrentado é o
de adequação dos vetores principiológicos tradicionais à nova
realidade processual; 7. Em sede do processo eletrônico é imperiosa
a adequação do princípio da publicidade dos atos,
de forma a evitar mecanismos de discriminação do trabalhador
e a preservar sua intimidade; 8. A implementação do processo
eletrônico não pode obstar a plena concretização
da garantia constitucional de amplo acesso à justiça
de todo e qualquer cidadão, inclusive do eficaz exercício
do jus postulandi; 9. A segurança na transmissão de dados é condição
imprescindível à estabilidade dos atos processuais e à garantia
da intimidade e privacidade dos sujeitos do processo e 10. Urge a implementação
do processo eletrônico no âmbito da Justiça do Trabalho,
ainda que de forma gradual e com respeito às peculiaridades
e limitações de cada região.Caxambu, 23 de agosto
de 2008.
20 anos depois...
O XXX Congresso Nacional dos Advogados Trabalhistas será aberto
no próximo dia 10 de setembro pelo presidente da entidade, o
advogado paranaense Luiz Salvador, com conferência de abertura
do ministro do TST Mauricio Godinho Delgado. A temática "20
anos depois... e a efetividade dos direitos fundamentais?" destaca
os debates sobre os vinte anos da Constituição Federal
de 5 de outubro de 1988. O advogado Reginald Felker, do Rio Grande
do Sul, receberá homenagens como o patrono nacional do evento.
O congresso se estenderá até dia 12 de setembro, em Goiânia,
sendo encerrado pelo presidente da OAB Cezar Britto (informações:
www.abrat.adv.br).
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Folha de S.Paulo,
7 de setembro de 2008
ELEIÇÕES 2008 / EFEITO
LULA
Base de Lula lidera
em 20 das 26 capitais
Aumento da avaliação
positiva do governo federal transforma presidente em cabo eleitoral
disputado por aliados e oposição
Uso da imagem do petista em propaganda da TV gera
pelo menos 15 casos de embates na Justiça; PT quer prioridade
do apoio de Lula
ADRIANO CEOLIN
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Integrantes da base aliada e da oposição têm travado
disputas, na Justiça e nos bastidores, para se vincular à imagem
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta campanha eleitoral.
Isso tem uma razão: em 20 das 26 capitais em que há eleição,
candidatos que apóiam o Palácio do Planalto aparecem
mais bem colocados que oposicionistas em pesquisas de opinião.
Em 2004, no segundo ano do seu primeiro mandato, apenas 11 aliados de
Lula saíram vencedores no pleito municipal. Este ano, com o aumento
da avaliação positiva do governo e também dos partidos
que integram a base aliada no Congresso, há pelo menos 15 casos
de embates para ter ou, pelo menos, evitar o apoio explícito de
Lula na propaganda eleitoral.
O deputado federal Sarney Filho (PV-MA) atuou nos últimos 15 dias
para convencer Lula a não ir à Natal, onde, até agora,
Micarla Souza (PV) aparece na frente de Fátima Bezerra (PT), segundo
pesquisa do Ibope divulgada em 29 de agosto.
Apesar de contar com o apoio do líder oposicionista no Senado,
José Agripino (DEM-RN), Micarla gosta de lembrar que é candidata
da base de Lula. "Ela não quer confronto entre o governo
e a oposição. No Nordeste, qualquer candidatura contrária
a Lula leva desvantagem", afirmou Agripino.
Prováveis adversários de Agripino em 2010, a governadora
Wilma Faria (PSB) e o atual presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho
(PMDB), apelaram para Lula ir à Natal tentar levantar a candidatura
de Fátima. "Foi difícil, mas conseguimos fechar uma
data no dia 19", diz Garibaldi.
Em Aracaju, o senador Almeida Lima (PMDB-SE) trabalha contra a ida de
Lula à capital, onde ele disputa a prefeitura contra Edvaldo Nogueira
(PC do B-PT). " Lula sabe que, no Senado, ele conta com 20 senadores
do PMDB enquanto o PC do B só tem um", disse Almeida Lima.
Oposição
Até mesmo candidatos de oposição buscam se vincular à imagem
de Lula. Líder nas pesquisas em Cuiabá, o atual prefeito
Wilson Santos (PSDB) escalou uma irmã do presidente para pedir
votos para ele. "Wilson e Lula são trabalhadores que pensam
e trabalham para o povo. Então é 45 na cabeça",
disse Ledinalva da Silva dos Santos no programa tucano.
Questionado, o presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra (PE),
não desaprovou a estratégia. "Não vejo problema
algum. Bom para ele [Santos']", disse. Guerra, porém, prefere
não supervalorizar a força do presidente Lula. "Tem
caso que influencia e tem caso que não faz diferença",
disse.
Prioridade
O PT comemora, mas prefere que o presidente dê prioridade aos candidatos
do partido, e não da base como um todo. "Por conta dos bons
resultados do governo, tem muito candidato querendo aparecer do lado
do presidente Lula", disse Gleber Naime, secretário de Comunicação
do PT.
Outro tucano que usou a imagem de Lula em campanha foi o atual prefeito
de Teresina, Silvio Mendes, que tenta a reeleição. Nesse
caso, porém, o PT, cujo candidato é o deputado Nazareno
Fonteles, resolveu acionar a campanha do tucano na Justiça Eleitoral.
No Rio de Janeiro, Marcelo Crivela (PRB) também foi contestado
judicialmente por usar imagem de Lula. O candidato petista à prefeitura,
Alessandro Molon, ganhou o direito exclusivo de explorar o presidente
em seu programa eleitoral.
Candidata pelo PDT em Fortaleza, a senadora Patrícia Saboya apareceu
no seu primeiro programa ao lado de Lula e de seu ex-marido, o deputado
federal Ciro Gomes (PSB-CE). A atual prefeita, Luizianne Lins (PT), de
cuja coligação o PSB faz parte, também ingressou
na Justiça para impedi-la de usar as imagens de Lula e Ciro.
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Folha de S.Paulo,
7 de setembro de 2008
Petrobras desiste de se opor
a nova estatal
Petrolífera avança
nas negociações para aumentar seu capital por
meio da incorporação de áreas ainda
não leiloadas próximas a Tupi
Petrobras se convence de que empresa a teria como
parceira e vai priorizar entendimentos para garantir exploração
em áreas nas quais é majoritária
VALDO CRUZ
LEANDRA PERES
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
A Petrobras não resiste mais à idéia de criação
de uma nova estatal para gerir a riqueza do petróleo e avança
nas negociações para um aumento de seu capital por meio
da incorporação de áreas ainda não leiloadas
próximas ao campo de Tupi, na bacia de Santos.
Depois de um início tenso de conversas com o governo, a Petrobras
se convenceu de que a futura empresa a teria como sua parceira estratégica
e decidiu priorizar, no curto prazo, entendimentos para garantir a exploração
das seis áreas da camada do pré-sal em que é majoritária
na bacia de Santos.
O aumento da tributação nos poços que já foram
leiloados também está sendo reavaliado pelo governo. A
elevação da chamada participação especial,
segundo cálculos da área técnica, não garantiria
mais dinheiro para a União, uma vez que os recursos têm
que ser repartidos com Estados e municípios. E, quanto mais aumentar
a participação especial, menor será o lucro, prejudicando
também a arrecadação de Imposto de Renda.
Ainda não há decisão final do Palácio do
Planalto sobre os campos em poder da União, mas a área
jurídica já analisa como a capitalização
da Petrobras poderia ser colocada em vigor. Dentro do governo, há quem
avalie até que a operação só poderia ser
feita por decreto presidencial, não sendo necessário alterar
a legislação.
É que a Constituição diz que a "União poderá contratar" empresas
estatais ou privadas para explorar campos de petróleo nas condições
previstas em lei. Como o texto constitucional diz que "poderá",
há quem avalie que a União, como dona das reservas, poderia também
decidir transferir essas reservas diretamente para uma empresa controlada por
ela.
Mas, como a Constituição destaca "nas condições
previstas em lei", alguns assessores jurídicos têm
outra interpretação, a de que seria necessária mudar
a Lei do Petróleo.
Quantificar reservas
Para viabilizar tal operação, o governo terá de
quantificar as reservas de petróleo do pré-sal no pólo
de Tupi, que engloba, além do campo que leva esse nome, outros
como Iara, Júpiter, Caramba e Guará. Apenas no de Tupi
a estimativa é de uma reserva de 5 bilhões a 8 bilhões
de barris de óleo.
Especialistas avaliam que, em todo o pólo, incluindo as áreas
ainda não leiloadas, as reservas podem chegar a mais de 50 bilhões
de barris. Depois de quantificadas, o passo seguinte seria avaliá-las,
para então decidir que parcela seria incorporada ao capital da
Petrobras para capitalizar a estatal e dar a ela condições
financeiras para bancar a exploração.
O governo acredita que esse possa ser o caminho mais rápido para
garantir o início da produção comercial do pré-sal,
em 2014 -afinal, ali será necessário fazer o processo de
unitização, já que as pesquisas indicam a existência
de um reservatório único na região.
Com a unitização, é definido quanto cada campo pode
explorar. Atualmente, sete blocos do pré-sal já foram leiloados.
Em seis a Petrobras é majoritária. No sétimo, a
Exxon é a que detém maior participação. Em
volta desses campos, as áreas ainda são da União.
Defensor dessa proposta, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) quer ainda
que as outras áreas do pré-sal, fora de Tupi, sejam transferidas
para a nova estatal, cabendo a ela gerenciar essas riquezas no sistema
de partilha de produção.
Descapitalização
De acordo com Mercadante, o governo está inclinado a não
leiloar no curto prazo esses demais blocos para evitar descapitalizar
a Petrobras, já que, para ela disputar essas novas áreas,
teria que desviar recursos destinados hoje para investimentos.
" Eleitoralmente, seria até interessante, o governo arrecadaria recursos
com os leilões para gastar agora, mas assim estaríamos prejudicando
a Petrobras, que ficaria descapitalizada", disse Mercadante.
Quanto aos estudos sobre a revisão no aumento da tributação,
ela teria que ser acompanhada de uma nova repartição dos
recursos com governadores e prefeitos. Atualmente, eles ficam com metade
do que é cobrado a título de participação
especial.
Aumentando o percentual do imposto, a União perderia parte do
dinheiro na repartição. Além disso, a mudança
teria impacto negativo nos lucros da Petrobras, fazendo com que o governo
recolhesse menos IR (Imposto de Renda) sobre o resultado da empresa e
também recebesse menos dividendos. Feitas todas as contas, o ganho
para o governo federal seria muito baixo para justificar a medida.
Daí a conclusão de que será preciso, de qualquer
maneira, discutir com governadores e prefeitos uma nova partilha para
os recursos do pré-sal. A avaliação do governo é que
o dinheiro hoje é malgasto e ainda muito concentrado em uns poucos
beneficiários.
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Folha de S.Paulo,
7 de setembro de 2008
ENTREVISTA NOURIEL ROUBINI
EUA e Europa já estão
em recessão, e crise vai piorar
Analista que previu estouro da bolha
imobiliária espera "severa desaceleração" no
Brasil
DENYSE GODOY
DA REPORTAGEM LOCAL
Foi em 7 de setembro de 2006 que Nouriel Roubini, 50, deu o alerta:
recessão à vista. Ele previa que o estouro da bolha no
mercado imobiliário doméstico levaria os Estados Unidos
a uma de suas piores crises. Naquela ocasião, a platéia
de economistas que assistia à sua palestra na sede do FMI (Fundo
Monetário Internacional), em Washington, não o levou
a sério.
No entanto, quando as suas profecias se realizaram, Roubini passou a
ser aclamado como um dos grandes analistas contemporâneos -com
um aposto, o de pessimista convicto. Referem-se a ele como "Doctor
Doom" (doutor catástrofe) e "permabear" ("bear
permanente", sendo "bear" o investidor no mercado financeiro
que só vê perdas). Ao longo da entrevista abaixo, que Roubini
concedeu na sexta-feira à Folha por telefone do seu escritório
em Nova York, será possível entender o motivo.
Nascido na Turquia, filho de iranianos, mudou-se para Teerã ainda
bem pequeno. Graduou-se em economia pela universidade italiana Luigi
Bocconi em 1982 e obteve o doutorado em 1988, pela Universidade Harvard,
com orientação de Jeffrey Sachs. Naturalizado norte-americano,
atualmente é professor da Universidade de Nova York e dirige sua
consultoria, a RGE Monitor.
Roubini afirma que a retração da economia norte-americana
-a mais grave desde a Grande Depressão- ainda vai durar um ano
e está se espalhando por todo o mundo, pegando com mais força
as nações desenvolvidas. Os países emergentes, como
o Brasil, sofrerão menos, embora não possam se dar ao luxo
de se afirmarem "descolados".
FOLHA - Como é ser chamado diariamente de profeta
do apocalipse?
NOURIEL ROUBINI - Não me importo
que usem o apelido "Doctor Doom" para se referirem
a mim. Infelizmente, mais do que um "permabear",
eu sou realista, porque consegui identificar primeiro todas
essas vulnerabilidades econômicas e financeiras que
acabaram explodindo. Provou-se que quem se mostrava otimista
demais estava errado.
FOLHA - Sobre as suas previsões, quanto delas é informação,
quanto é "feeling" a partir da sua experiência?
O senhor não usa modelos matemáticos para detectar
as probabilidades de recessão, correto?
ROUBINI - Escrevi livros sobre modelos matemáticos
por 20 anos. Utilizo análises econômicas científicas,
estatísticas, conceitos acadêmicos e de política
econômica e conhecimento de mercado. Quando falo com
clientes, não uso fórmulas, prefiro explicar
com palavras minha avaliação a partir de todas
essas ferramentas, mas ela possui uma base rigorosa.
FOLHA - Faz dois anos que o senhor falou àquela platéia,
no Fundo Monetário Internacional, sobre a crise que se avizinhava.
Por que o Federal Reserve (banco central dos EUA) e o governo americano
não fizeram nada para evitar o pior?
ROUBINI - Suas análises estavam erradas.
O Fed ficou falando que haveria uma recessão curta no
mercado imobiliário, que não contaminaria o resto
da economia, quando na realidade estava também no segmento
comercial do mercado imobiliário, nos cartões
de crédito, nos empréstimos estudantis, no mercado
de títulos emitidos por empresas. A bolha de crédito
generalizada que está estourando foi mal-entendida.
Existia, ainda, uma espécie de pensamento mágico,
uma esperança segundo a qual as coisas acabariam bem.
Não é um problema econômico menor, é a
mais severa crise econômica e financeira em décadas,
isso está muito claro.
FOLHA - E as próprias instituições financeiras
não se deram conta do perigo?
ROUBINI - Ah, você sabe como é,
tem dinheiro fácil, não há regulação
ou um acompanhamento apropriado do sistema financeiro e de
crédito. O setor é guiado pela ganância
e não se preocupa com o risco. Claro, nos bons momentos,
os gestores ganham dinheiro, dão lucro para as instituições
financeiras e recebem bônus; nos tempos ruins, eles estão
perdendo o dinheiro dos outros, que captaram para aplicar e,
no máximo, ficam sem receber seus bônus.
Tudo bem com a ganância, mas ela deveria ser equilibrada com o
medo dos prejuízos. Juntando isso à falta de supervisão
e regulação, inventaram umas modalidades de hipoteca e
outras formas de crédito malucas.
O mercado financeiro sempre vivencia esses períodos de manias,
de bolhas, de excessos, que viram uma loucura e explodem. Na verdade,
existe uma distorção na maneira como o mercado financeiro
funciona, com as instituições correndo risco demasiado,
e aí as pessoas ficam eufóricas, o que leva à bolha,
que leva à crise financeira, que leva à depressão.
O ciclo se repete, em parte, porque não controlamos eficientemente
as instituições financeiras. Só se ouve falar de
mercado livre, de laissez-faire, enquanto precisamos de regras, de disciplina.
Não dá para esperar que o mercado se regule. Auto-regulação
significa não-regulação, e disciplina do mercado
significa falta de disciplina. É um nonsense.
FOLHA - Pode-se dizer que as autoridades americanas aprenderam
uma lição? O senhor espera mudanças nos sistemas
regulatórios?
ROUBINI - Esta é a crise mais profunda
desde a Grande Depressão e deve causar perto de US$
2 trilhões em perdas no mercado de crédito.
Se isso não levar a mais regulações,
o ciclo de excessos no crédito vai começar
de novo. Não tenho certeza, porém, de que vai
ensinar uma lição às pessoas. Muitos
investidores e instituições já se safaram
sem punição. Vamos ver o quanto vai melhorar
a fiscalização, porque, quando a crise está em
curso, fala-se muito nisso; depois que ela acaba, todo mundo
esquece sem que tenha sido feito o bastante.
FOLHA - Nos últimos meses, um grupo de economistas
disse que o pior já passou, mas esta semana [a passada] foi
muito ruim, com bastante mau humor no mercado. Por quanto tempo esse
clima vai durar?
ROUBINI - Na minha visão, as coisas
vão piorar e piorar nos próximos 12 a 18 meses.
Já estamos em recessão nos EUA, na zona do euro
e em todas as outras economias avançadas, o que vai
afetar o PIB [Produto Interno Bruto] global. Nos países
emergentes, as pessoas se iludem pensando que vão escapar
da recessão, que haverá um descolamento. Não
vai. Teremos uma severa desaceleração do crescimento
no Brasil, na Rússia, na Índia, na China. Não
vai ser uma recessão global, esses países em
desenvolvimento não vão entrar em recessão,
mas sentirão uma forte diminuição do ritmo.
Não vejo luz no fim do túnel -a única
que vejo é a de outro trem vindo de encontro.
FOLHA - Qual será o tamanho dessa desaceleração
no Brasil?
ROUBINI - O Brasil tem crescido por volta
de 4,8% ao ano -o que é, aliás, muito menos do
que países como Rússia, Índia e China,
que avançam entre 8% e 10%. Acho que a previsão
de que o país crescerá entre 3% e 3,5% é muito
otimista, eu acredito em 2%.
FOLHA - Apesar dos recentes avanços, o Brasil não
consegue crescer o tanto que quer e precisa. Por quê?
ROUBINI - Há sérios impedimentos
estruturais ao crescimento que persistem, como a falta de infra-estrutura,
falta de uma boa educação para a força
de trabalho, há tributação excessiva e
gastos do governo elevados demais. Em resumo, foram feitas
reformas macro e financeiras, agora o país precisa de
reformas micro. Não acho que o atual presidente progredirá nessas
reformas, vamos ver o próximo.
FOLHA - A economia americana cresceu 3,3% no segundo trimestre.
Essa taxa o surpreendeu?
ROUBINI - Pelos indicadores de produção,
renda, gastos e empregos, os EUA entraram em recessão
no primeiro trimestre. No segundo, o governo lançou
o pacote de estímulo de US$ 100 bilhões, que
artificialmente impulsionou o crescimento. Teremos números
negativos no terceiro trimestre, no quarto e nos meses seguintes
até o meio do ano que vem.
Há menos consumo, menos poupança, petróleo caro,
emprego caindo, confiança do consumidor piorando, altas taxas
de endividamento, derrocada no crédito. Dê o nome que quiser, é um
desastre.
FOLHA - A Bolsa de Valores brasileira já caiu 18,7%
desde o início do ano. O senhor acha que há espaço
para recuar ainda mais?
ROUBINI - Minha visão é que,
apesar das condições domésticas, o que
conta mesmo é o cenário global. No mundo inteiro,
há uma queda de pelo menos 20% dos preços das
ações, tanto nas economias avançadas quanto
nas emergentes. Creio que, dada a recessão mundial,
os preços dos papéis podem cair ainda mais uns
10%. O horizonte é bem pessimista para o mercado financeiro
em todos os lugares, incluindo a América Latina, incluindo
o Brasil.
FOLHA - Como o senhor imagina um governo Obama e um governo
McCain? Eles teriam condições de resolver esse nó na
economia?
ROUBINI - O crescimento econômico
dos EUA sempre foi maior nos governos democratas do que nos
republicanos, enquanto quase todas as recessões dos últimos
50 anos se deram sob gestões republicanas. Parece
que McCain não entende a severidade dessa crise econômica,
financeira e de hipotecas; acredito que Obama tem idéias
mais sensíveis para lidar com isso, e precisamos de
um presidente que compreenda o problema e tenha as políticas
corretas. Acho que Obama faria um trabalho muito melhor do
que McCain.
FOLHA - O senhor ainda presta assessoria para os democratas?
ROUBINI - Não, não estou envolvido
em política. Sou professor em tempo integral e ainda administro
a minha consultoria.
Não estou envolvido e não tenho planos de voltar a ser
no curto prazo.
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