VERMELHO, 09 de setembro de
2008 | Brasil
Lula: ''Vou eleger meu sucessor e é possível
que seja mulher''
Em entrevista ao jornal argentino
Clarín, publicada nesta segunda-feira (8) por motivo de sua
visita da presidente Cristina Kirchner a Brasilia, o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva assegurou que elegerá o seu sucessor
''porque o Brasil vai estar muito bem em 2010''. Previu que será uma
mulher, sem citar o nome de Dilma Rousseff. E declarou-se ''convencido
de que nos próximos dez ou vinte anos a Argentina e o Brasil
terão mudado de nível na relação com o
mundo''. Veja a entrevista.
Lula fala ao 'Clarín':
vergonha de não dançar tango Clarín: A quem imagina
como seu sucessor?
Luiz Inácio Lula da Silva:
Com muita humildade, digo-lhe que vou eleger meu sucessor. Não
posso dizer quem é, mas posso até assegurar que há muitas
possibilidades de que seja uma mulher.
Clarín: Mas por
que tanta segurança?
Lula: Porque o Brasil vai estar
muito bem em 2010. Tudo que tem de acontecer em 2010, afora a política,
já está programado. Não esqueça que o Programa
de Aceleração do Crescimento (PAC) programou o Brasil até 2010.
E vamos ter de planejar, no início de 2009, a Copa do Mundo de
2014. Especialmente na área da mobilidade urbana – o metrô,
as rotas, os corredores especiais de transporte. Eu creio que vamos chegar
a 2010, ano da eleição presidencial, numa situação
muito confortável.
Clarín: E o próximo
presidente não pode ser um homem?
Lula: Penso que vamos abrir
esta discussão no partido (PT) no próximo ano. Mas estou
seguro de que temos todas as possibilidades de ganhar as eleições.
Vamos estar com uma economia em crescimento, uma renda per capita em
aumento, os trabalhadores melhorarão, os pobres serão menos
pobres. Isso é o que garante uma eleição.
Clarín: Como
vê os seus colegas sul-americanos?
Lula: Creio que nós criamos
uma nova classe dirigente na América do Sul. Uns terão
um discurso mais de esquerda, outros mais de direita e outros mais ao
centro. Porém é essa diversidade política e ideológica
que permite construir os consensos. Sempre digo a meus amigos presidentes
da América do Sul: precisamos olhar nossa história para
valorizar os avanços que já tivemos.
Eu estabeleci um vínculo
de amizade com os presidentes da América do Sul. Não é só uma
relação de Estado para Estado. No dia em que eu não
for mais presidente e em que Hugo Chávez também não
for, vamos ser amigos. Sou amigo de Kirchner, embora ele já não
seja presidente. Sou amigo de Nicanor (Duarte Frutos, do Paraguai), independentemente
de que tenha perdido as eleições. Afinal de contas, são
mais de cinco anos de relações que você tem e eu
preservo isto. Tenho como valor fundamental minha relação
de amizade. A amizade não é algo que sai da natureza, é algo
que se constrói. E isto pesa. Não esqueço que quando
se construiu Itaipu os militares brasileiros e argentinos falavam em
construir uma bomba atômica.
Clarín: E também
a bomba hídrica que seria Itaipu. Dizia-se que o Brasil poderia
inundar Buenos Aires com essa represa.
Lula: E, vejam só! Hoje
estamos pensando em construir conjuntamente uma hidrelétrica.
Ou seja, há um avanço político de nosso continente
e precisamos dar valor a ele. Quero mais empresas brasileiras investindo
na Argentina e mais empresas argentinas que invistam no Brasil. Quero
mais associações entre empresários argentinos e
brasileiros; quero mais atividade cultural entre Argentina e Brasil. É uma
vergonha, por exemplo, que eu não saiba dançar tango. E
os argentinos talvez não saibam dançar samba. Precisamos
nos engrenar. Quantos jornalistas do Clarín sabem sambar?
Clarín: Não
devem ser mais de quatro. Os brasileiros sabem bailar o tango mais
que os argentinos dançar samba. E mais, poucos argentinos dançam
tango.
Lula: Teríamos de inventar
outro ritmo, o ''tango-samba''.
Clarín: Presidente,
gostou do pagamento da Argentina ao Clube de Paris?
Lula: Olhe, creio que é muito
importante. É uma decisão acertada da presidente Cristina
Kirchner. Creio que há momentos para tomar posições
duras, tempos de radicalizar as posturas e há momentos para fazer
negociações.
No ano em que cheguei ao governo,
chamei o ministro da Fazenda e perguntei quanto devíamos ao FMI,
ele me disse que eram US$ 16 bilhões. Aí ordenei: vamos
pagar. E eles, do Fundo, não queriam. O titular do FMI, que era
o espanhol Domingo Rato, me dizia: Lula, não, não precisa
nos pagar, não necessitamos. E eu respondi a eles: Sim, eu quero
pagar e vou pagar. Então, no caso do Clube de Paris, foi uma decisão
correta da presidente Cristina. Certamente ela só pôde pagar
porque a Argentina hoje tem uma condição muito melhor do
que a que Kirchner egou no começo.
Clarín: O Brasil
tem extraordinárias reservas de petróleo, recentemente
descobertas e chamadas de camada ''pré-sal''. O que vai acontecer
com a grande renda saída de sua exploração? Esse
dinheiro irá para a educação e saúde, que
são dívidas sociais?
Lula: Primeiro, nós queremos
criar uma fortíssima indústria naval. Segundo, precisamos
aproveitar esse petróleo para não exportá-lo em
bruto mas exportar derivados. Vamos construir em São Luís
do Maranhão uma refinaria de 600 mil barris diários para
produzir gasolina premium e vamos criar outra refinaria de 300 mil barris
diários para produzir diesel da melhor qualidade, para vender
na Europa e nos EUA. A última refinaria que se constriu no Brasil
foi em 1980. Agora contratamos cinco novas refinarias. Duas estão
em obras e três serão licitadas no ano que vem.
A outra coisa é que precisamos
pagar a dívida para com a educação brasileira.Queremos
criar um fundo com essem petróleo da pré-sal que seja de
todos os brasileiros. E para que possamos fazer investimentos na educação.
Ao mesmo tempo, uma parte desse fundo será para cuidar dos brasileiros
pobres. Queremos aproveitar esses recursos para diminuir a pobreza neste
país.
Clarín: Mas então
não será uma nova empresa e sim um fundo.
Lula: Ainda não temos
uma decisão. Em 19 de setembro vou receber uma proposta do grupo
de trabalho que criamos para buscar a melhor opção. A idéia
de criar uma empresa também é uma coisa simples. Seria
uma holding. A da Noruega, por exemplo, tem apenas 60 funcionários.
Mas isto decidiremos no final do ano.
Para terminar, só quero
dizer: sou um homem que crê em Deus. E por esta crença que
tenho estou convencido de que nos próximos dez ou vinte anos a
Argentina e o Brasil terão mudado de nível na relação
com o mundo. Se olharmos o que acontece neste momento, e espero estar
vivo para ver o que se passará em vinte anos, nossas relações
serão muito maiores e será muito forte a integração
política, cultural e comercial. Eu trabalho com esta visão
e tenho a certeza de que o meu sucessor também trabalhará com
esta visão.