Congresso em Foco, 27 de
setembro de 2008
O show da política
na urna eletrônica
De ex-BBBs a astros do cinema
pornô, passando por ex-jogadores de futebol, há de
tudo entre os candidatos a vereador país afora
Mário Coelho
O artista plástico Andy Warhol costumava dizer que, no futuro,
todos seriam famosos por 15 minutos. Hoje, nos tempos de cultura massificada
e da arte distribuída por veículos de massa, algumas
dessas celebridades não desejam apenas a fama: elas querem poder.
Assim, estão nas ruas atrás de votos para conseguir um
mandato e se transformar em representantes do povo nas mais diversas
câmaras municipais espalhadas pelo país.
Se todos fossem eleitos e estivessem na mesma Câmara, seria
possível formar diversas bancadas. Teria o grupo defendendo
os interesses das pessoas que já participaram do programa Big
Brother Brasil, dos jogadores de futebol e até dos atores pornôs.
Tem de tudo um pouco nas eleições municipais de 2008.
Esse fato, na opinião no cientista político da Universidade
de Brasília (UnB) Leonardo Barreto, voltou com força
após a última eleição estadual, em 2006,
quando figuras públicas como o estilista Clodovil e o cantor
de forró Frank "Cãozinho dos Teclados" Aguiar
conseguiram se eleger deputado federal.
Bancada da bola
Uma das principais áreas com candidatos famosos nasceu dos
gramados. Vários jogadores de futebol buscam um mandato de vereador
pelo país. Um deles é Túlio Maravilha, o artilheiro
da Série B deste ano. Como revelou ontem (26) o Congresso em
Foco (leia
mais), os planos dele não são pequenos. Para o jogador
do Vila Nova (GO), ser governador é o objetivo máximo. "O
jogador quer ganhar títulos, ser artilheiro do campeonato, ser
convocado para a seleção e jogar uma Copa do Mundo. Política é a
mesma coisa; primeiro vereador, depois deputado estadual até chegar
a governador", adianta.
Túlio espera que as torcidas dos dois principais clubes goianos,
o Vila Nova e o Goiás, votem em peso nele. A estratégia
gol e voto não é exclusividade dele. Em São Paulo,
o ex-jogador e ídolo do Corinthians Claudinei Alexandre Pires,
o Dinei, 39 anos, quer colar sua imagem de político aos torcedores
corintianos. "Não vou ser vereador de bairro. Vou ser vereador
para fiscalizar o Corinthians", afirmou Dinei, que é candidato
pelo PDT, à imprensa paulista.
Em sua página na internet,
fica clara essa intenção. As duas imagens dentro da página
principal ligam o ex-jogador à equipe paulistana. Em uma ele
usa na cabeça uma faixa "Eu nunca vou te abandonar",
frase criada pelos torcedores para incentivar o Corinthians na campanha
da Série B.
Na outra, Dinei está dentro de campo, com a camisa de jogo,
vibrando para a torcida. O texto que acompanha a imagem é categórico: "É o único
jogador da história do Corinthians que conquistou os três
títulos brasileiros". Outro ídolo do clube junta-se
a ele na disputa: o ex-lateral esquerdo Wladimir, um dos craques da
democracia corintiana. Wladimir, entretanto, não tenta se vincular
tanto ao clube quanto Dinei.
Ademir da Guia, 66 anos, é um caso à parte. Um dos maiores ídolos
do Palmeiras, ícone da época da "Academia",
quer se reeleger vereador na cidade de São Paulo. Ele entrou
na política em 2003, depois de receber um convite do deputado
federal Aldo Rebelo, e se filiou ao PCdoB. Eleito com 27.541 votos
em 2004, "Divino", como é conhecido, desligou-se do
partido no ano seguinte e, desde 2006, está no PR.
Outro craque que concorre a um cargo importante é Carlos Alberto
Torres, o eterno “capitão do Tri”, ídolo
da seleção, do Fluminense, do Santos e do Botafogo, entre
outros clubes. Candidato a vice-prefeito pelo PDT no Rio, na chapa
encabeçada pelo também pedetista Paulo Ramos, o ex-jogador
diz que aceitou o convite para entrar na política com o objetivo
de atrair a atenção das crianças e dos jovens
para a prática esportiva.
BBBs
A casa mais famosa do país, como diz Pedro Bial, apresentador
do Big Brother Brasil, agora "exporta" candidatos a vereador
pelo país. Pelo menos três participantes das oito edições
do programa estão concorrendo a um mandato de vereador.
Tatiane Franklin Nascimento Barbosa, a Taty Pink, 28 anos, está no
meio da turma. Depois de ficar em 5º lugar no BBB 5, ela tentou
a vida artística no Rio por dois anos. Mas ela diz que não
se sentia à vontade para atuar, já que não era
atriz. Em 2007, recebeu um telefonema do deputado estadual em Pernambuco
Augusto Coutinho (DEM), convidando-a para entrar no partido e participar
da eleição.
Ela acredita que a fama conquistada no programa pode lhe render votos
suficientes para conquistar uma vaga de vereadora. Por isso, capricha
na marca registrada e encheu a capital Recife de rosa, sua cor predileta. "Quero
trabalhar pela educação, ajudar a gerar empregos, fazer
alguma coisa também para ajudar as cabeleireiras", diz.
Outros dois ex-participantes do BBB estão no páreo.
Adriano Luiza Ramos de Castro, o "Didi Brother", 39 anos,
que participou da primeira edição do programa, é candidato
em Salvador (BA). Já Alberto Pimentel Baptista, o Arnaldo Cowboy,
32, concorre em Belo Horizonte (MG). Ele ficou conhecido como o vilão
da 7ª edição do BBB.
Em comum, além de terem participações no programa,
eles têm o fato de serem candidatos pelo mesmo partido, o DEM. "Essas
figuras pitorescas acabam recebendo incentivos dos partidos para participarem
das eleições. Seja para receberem votos de protesto ou
dos fãs", comenta o cientista político da UnB.
O especialista aponta outro fator para as celebridades instantâneas
se candidatarem. Cada partido pode inscrever até 150% da quantidade
de cadeiras disponíveis na eleição como candidatos. "Existe
um grande número de vagas nos partidos a serem preenchidas.
Além disso, os votos dessas pessoas contam para o coeficiente
eleitoral", explica.
Entretenimento adulto
Dono de um patrimônio de R$ 76,6 milhões, segundo sua
declaração ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Oscar
Maroni Filho, auto-proclamado "o mais bem sucedido empresário
do erotismo do país", também quer entrar para a
política. Para isso, filiou-se ao PTdoB e vem trabalhando na
campanha a vereador desde o ano passado.
Ele é dono da famosa boate Bahamas, situada próxima
ao Aeroporto de Congonhas. Possui também outros hotéis
e empresas. É o detentor ainda dos direitos de distribuição
de versões brasileiras de revistas eróticas, entre elas
a Penthouse e a Hustler.
Maroni foi preso em agosto de 2007 pela Polícia Civil, acusado
pelo Ministério Público Estadual (MPE) de formação
de quadrilha, tráfico de mulheres, exploração
de prostíbulo e favorecimento à prostituição.
Mesmo respondendo a vários processos, teve sua candidatura deferida
pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de São Paulo.
Maroni não é o único que trabalha com sexo que é candidato.
Outro que busca uma cadeira na maior Câmara de Vereadores do
país é Clóvis Basílio dos Santos, o Kid
Bengala, 53 anos. Ator pornô desde a época do cinema da
Boca do Lixo, Kid diz que é candidato pelo PPS "por estar
frustrado de ver as desigualdades sociais". Caso eleito, quer
proporcionar educação, arte e lazer, principalmente,
aos jovens da periferia. E também trabalhar para "manter
o emprego dos cobradores e dos motoristas de ônibus da cidade".
De cantora de "Conga La conga" a atriz pornô, vem
Maria Odete Brito de Miranda, a Gretchen, 49 anos, que disputa a eleição
majoritária em Itamaracá (PE) pelo PPS, mesmo partido
de Kid Bengala. A ex-chacrete Rita de Cássia Coutinho, a Rita
Cadillac, 54, também quer mandato. Está na disputa para
vereador em Praia Grande (SP).
"Alguns buscam destaque dentro da comunidade. Outros uma forma
de conseguir emprego ou de aparecer publicamente", comenta o professor
da UnB.
Um outro grupo que possui representatividade entre os famosos são
os músicos e artistas de televisão. O pagodeiro Netinho
de Paula, 38 anos, é candidato a vereador em São Paulo
pelo PCdoB. Ademir Rodrigues de Araújo, o Ovelha, também
quer uma cadeira, assim como Sérgio "Glu-glu" Mallandro.
Ambos são candidatos pelo PTB.
Já Agnaldo Timóteo (PR) quer se reeleger em São
Paulo. Polêmico, o cantor já teve duas passagens pela
Câmara dos Deputados. Em 1982, com mais de 500 mil votos, ele
se elegeu deputado federal pelo PDT, de Leonel Brizola, e representou
o Rio de Janeiro em Brasília por quatro anos. Em 1994, voltou à Casa,
mas por lá permaneceu após dois anos. Preferiu voltar
para o Rio, onde exerceu o mandato de vereador.