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BEM PARANÁ, 30 de
setembro de 2008 | Economia
Bolsas
Crise mundial ameaça vendas
e empregos do Natal
Economista aconselha consumidor a não
fazer compras a prazo
Ana Ehlert
A confusão do mercado financeiro mundial, aturdido com a derrota do
governo Bush pelo veto ao pacote de ajuda financeira de US$ 700 bilhões
feito pela Câmara de Deputados norte-americanos, no Brasil deve afetar
o Natal e, consequentemente, as contratações de fim de ano geralmente
mais acentuadas em outubro. A conclusão é do economista Gilmar
Mendes Lourenço, Coordenador do Curso de Ciências Econômicas,
e Editor da Revista “Vitrine da Conjuntura” da UNIFAE - Centro
Universitário Franciscano do Paraná – FAE Business School,
que aponta uma grande redução do dinheiro disponível para
crédito (consumo) e para as linhas comerciais (investimentos empresariais
e no futuro, emprego).
Ele aconselha a evitar compras
a prazo, assim como a compra de dolares e a venda de posições
no mercado de capitais. “Quem tiver ações deve ficar
quieto e, se tiver de mexer nas aplicações que invista
na poupança, nos títulos do Tesouro Nacional, caso vá precisar
do dinheiro no curto prazo, ou no mercado imobiliário (interno)”,
aponta.
Lourenço lembra que o
déficit habitacional é de mais de 7 milhões de moradias
no Brasil, mercado, segundo ele, para mais de 10 anos. “Os títulos
são bons investimentos porque têm boa liquidez e uma das
menores taxas de administração do mercado”, argumenta.
O economista aponta ainda a tendência de alta da taxa Selic, que
controla os juros básicos da economia brasileira atualmente em
13,75% ao ano, como favorável aos títulos.
“Embora eu não concorde
com a severidade do governo em relação à inflação,
o governo já sinalizou que irá manter a política
de reajustar a taxa de juros para controlar os preços internos”,
relata. Como argumento à posição, Lourenço
cita o fato de que a crise mundial já está afetando a oferta
de crédito no mercado e, por conseqüência, deve haver
um desaquecimento da demanda por produtos e serviços.
Bovespa — Ontem, a quedas
das bolsas mundiais foi generalizada. Entre os países emergentes,
o Brasil liderou o tombo do mercado acionário com um recuo de
9,36% do Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa)
no fechamento. Mas o pregão chegou a ficar suspenso por meia hora,
após registrar uma queda superior a 10% no início da tarde,
quando o sistema de segurança (circuit breaker), para evitar quedas
bruscas, foi acionado.
Com isso o dólar apresentou
uma valorização de 6% — um dos maiores recordes registrados
desde 2002 — e terminou cotado a R$ 1,96, com previsão de
começar 2009 acima de R$ 2,50. Lourenço, explica que essa
variação tem como base a corrida das empresas ao mercado
para tentar reduzir as perdas. “As empresas vendem as ações
na Bolsa para tentar transformá-las em dólar e enviar às
sedes a fim de cobrir as perdas, daí essa movimentação
do mercado”, diz Lourenço.
O pacote de ajuda financeiro
ao mercado dos EUA não foi aprovado por conta dos Republicanos,
partido do presidente George W. Bush. “Isso mostra que o governo
Bush acabou antes do fim do mandato”, explicou Lourenço.
“ Essa derrota política foi a maior surpresa do mercado e aponta
o surgimento de dúvidas sobre a capacidade de negociação
do governo Bush”, segundo a ex-ministra da Economia Dorothéa Werneck
em entrevista ao canal Bloomberg.
Dorothéa também defende a urgência do mercado por um pacote
de ajuda financieora. “Quanto mais demorar, maior será a crise
e mais díficil será para que consigamos sair do buraco”,
diz.
O estrago da crise nas Bolsas
mundiais
Dow Jones/Nova York -6,98
S&P 500 (*) -8,79%
Nasdaq Composite (**) -9,14
DAX/ Frankfurt -4,22
FTSE -100/Londres -5,30
CAC 40/ Paris -5,04%
Merval/ Buenos Aires -8,68
Xangai -0,00
Nikkei 225/ Japão -1,25
(*) Das 500 maiores empresas
de NY
(**) Tecnologia
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Agência Diap, 30 de
setembro de 2008
PESQUISA
Prestígio pessoal de Lula é ainda
maior que o do seu Governo, revela CNI/Ibope
A semana começa com uma
boa nova para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva: a pesquisa
CNI/Ibope divulgada nesta tarde, que mostrará Lula com uma aprovação
recorde desde que tomou posse em 2003.
Aos números: 69% dos brasileiros acham o seu governo "bom" ou "ótimo".
Nas duas pesquisas anteriores, publicadas em março e em junho, este
percentual era de 58%. Outros 23% responderam que consideram o governo "regular".
Não chega a um dígito quem cravou "ruim" como resposta.
Prestígio pessoal ainda maior
O prestígio pessoal de Lula é ainda maior do que o do seu governo.
Cerca de 80% dos brasileiros o avaliam positivamente. Em junho, eram 72%. São
números parecidos, mais ligeiramente superiores, aos que a pesquisa
CNT/Sensus tornou públicos no dia 22.
A pesquisa do Ibope ouviu 2002 pessoas na terceira semana de setembro. A margem
de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
A campanha ajuda
O que explica a popularidade recorde? Além do bom desempenho da economia
(e do discurso "essa crise do Bush não nos atingirá"),
a campanha eleitoral: Lula nunca foi tão bem falado. Os candidatos da
base governista o endeusam e os oposicionistas o preservam de qualquer crítica.
Perto de Sarney
Comparado aos presidentes do período pós-redemocratização,
Lula ainda perde para José Sarney quando se cotejam as melhores avaliações
de cada presidente.
Sarney atingiu 72% de "ótimo/bom" em setembro de 1986, no
auge do Plano Cruzado — foi, entretanto, uma glória muito mais
efêmera que a de Lula, que há mais de um ano bate recorde sobre
recorde.
FHC, no primeiro mandato, alcançou 56% em março de 1997, também
quando o Plano Real estava no auge do seu sucesso.
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Vermelho, 30 de setembro
de 2008
La Jornada: FMI, o fim de uma era
O diretor-gerente do Fundo
Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, afirmou
ontem, sobre a grave situação originada na crise do setor
hipotecário dos Estados Unidos, que "é necessário" reformar
o sistema financeiro mundial e "regulamentar detalhadamente as
instituições e os mercados". Na mesma linha e de
modo surpreendente, disse também que "o mercado não
controla o mercado" e condenou "a irresponsabilidade de um
sistema que se desenvolve sem uma relação com a economia
real".
Em uma circunstância
diferente da atual, seria quase impossível supor que os trechos
acima poderiam vir de um funcionário como Dominique Strauss-Kahn,
conhecido por uma orientação econômica profundamenta
neoliberal, e muito menos de um organismo como o FMI, que defendeu
historicamente – sobretudo desde sua adesão ao chamado
Consenso de Washington, na década de 80 – todo o contrário
do que agora evocam as declarações de seu dirigente:
a liberalização dos capitais, a desregulação
financeira e a condução do Estado por meio de privatizações
e a redução do orçamento estatal em áreas
sociais.
A partir dessa perspectiva,
a reação do dirigente do FMI diante da crise atual é um
indicador contundente de que o mundo assiste ao fim de uma etapa histórica
e ao colapso do modelo econômico neoliberal, paradoxalmente como
conseqüência da aplicação de seus próprios
preceitos ideológicos.
Por outro lado, as afirmações
do funcionário deixam de esconder pelo menos uma profunda incongruência
em relação ao que têm sido as práticas recentes
do organismo que encabeça. Ao insinuar a necessidade de uma
revisão das diretrizes vigentes no manejo da economia mundial,
Dominique Strauss-Kahn omite que o FMI fez todo o contrário
quando as mesmas normativas causaram severas catástrofes econômicas,
sociais e políticas nas regiões do "mundo periférico",
como a América Latina.
De fato, ante as agitações
financeiras nos chamados países em desenvolvimento, o FMI não
teve outra receita a não ser sacrificar os setores majoritários
da população, perseguir a tranqüilidade dos investidores,
reduzir o setor público e empreender ações anti-populares
como o congelamento de salários e a liberalização
dos preços.
Com freqüência,
os Estados Unidos se dão ao luxo de não atender às "recomendações" do
FMI, sem o temor de sofrer represálias – algo que os países
do terceiro mundo não podem fazer –, além de seu
poder de veto no que diz respeito às decisões estratégicas
do organismo. Em conjunto, esses elementos confirmam o alinhamento
dessa instituição com os interesses do mundo industrializado
ocidental, interesses esses que, normalmente, se chocam com as necessidades
de desenvolvimento das chamadas economias emergentes e do conjunto
de países mais pobres.
Em suma, a magnitude da crise
financeira atual evidenciou, de fato, as fraquezas de um modelo econômico
que deve ser submetido à revisão. Para isso, no entanto,
teria que começar pela reorientação do papel dos
organismos financeiros internacionais, que como o próprio FMI,
jogaram um papel central no avanço mundial de uma visão
fundamentalista de livre-mercado que hoje parece ter se enfraquecido.
Fonte: La Jornada (Editorial)
Tradução: Fernando Damasceno
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Congresso em Foco, 30 de
setembro de 2008
Congresso poupa bandido rico, aponta
pesquisa
Das 646 propostas de combate à criminalidade
apresentadas na última legislatura, só duas eram contra
corrupção e crimes de colarinho branco
Lúcio Lambranho
A legislatura que entrou para a história como a que envolveu o maior
número de parlamentares em escândalos, entre 2003 e 2007, também é autora
de outra proeza até hoje pouco conhecida. Como se não bastasse
o envolvimento direto com o mensalão e a máfia das ambulâncias,
deputados e senadores apresentaram apenas dois projetos contra crimes do colarinho
branco ou de combate à corrupção durante os quatro anos
da legislatura passada.
Esse descaso em relação aos crimes que envolvem, em geral, criminosos
de grande poder aquisitivo contrasta com o elevado número de iniciativas
apresentadas que pretendiam endurecer as penas previstas para os demais crimes.
Das 646 propostas relacionadas ao combate à criminalidade, naquele período,
626 tinham o objetivo de agravar penas e regimes de reclusão, endurecendo
a legislação penal.
O levantamento faz parte do livro "Quem mandamos para a prisão – Visões
do Parlamento Brasileiro sobre a Criminalidade", que será lançado
no dia 15 de outubro em Brasília, pela socióloga Laura Frade.
Base de sua tese de doutorado em Sociologia na Universidade de Brasília
(UnB), o estudo também revela como os congressistas vêem os criminosos. “O
outro”, “pouco instruído” e “doente” foram
os principais adjetivos utilizados por deputados e senadores, em entrevistas
colhidas pela pesquisadora, para qualificar os criminosos.
Esquecidos
Dos dois projetos mapeados por Laura contra os crimes de colarinho branco,
apenas um ainda tramita no Congresso. Trata-se do Projeto de Lei 209/2005,
de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS). O senador gaúcho quer acabar
com a possibilidade de pagamentos de fiança ou decretação
de liberdade provisória para os crimes de corrupção ativa
e passiva.
Apesar da relevância, o projeto ainda aguarda, desde fevereiro deste
ano, parecer do relator na Comissão de Constituição e
Justiça do Senado, senador Valter Pereira (PMDB-MS).
A outra proposição, o Projeto de Lei 1489/2003, do ex-deputado
Carlos Nader (RJ), foi parar no arquivo da Câmara. O deputado pretendia
penalizar, nos crimes de colarinho branco, os membros de conselhos das instituições
financeiras. E estendia essa mesma responsabilidade penal ao presidente da
República, aos ministros de Estado, aos governadores e aos prefeitos
que tivessem interferência política nessas instituições
financeiras estatais.
Sem consciência
Além desse levantamento inédito, Laura confirma que o casuísmo é regra
quando se tenta regular a segurança pública no Brasil por meio
de novas leis. É que, apesar dos inúmeros estudos produzidos
pelas universidades brasileiras sobre o assunto, os parlamentares preferem
se pautar por fatos chocantes relatados pela imprensa na hora de legislar. "O
que eu acho mais grave é que isso não é uma coisa deliberada.
Acho que é uma coisa automática. Os parlamentares não
têm consciência dessas representações", revela.
Nesta entrevista ao Congresso em Foco, Laura Frade explica como pensam os parlamentares
conhecidos como especialistas em criminalidade e que acabam ditando o comportamento
dos colegas no Congresso. Segundo a socióloga, são três
as linhas de visão desses especialistas. "Tem gente que acha que
o crime é genético, que é uma questão espiritual
ou que está ligado à questão social", diz.
Com a experiência de quem acompanha há mais de dez anos o Congresso,
Laura, que também é mestre em Ciência Política e
especialista em assessoria parlamentar, avalia que a doutrina conhecida como “tolerância
zero” tem muita força entre os congressistas. E que a visão “geneticista” do
problema revela uma inclinação em favor da pena de morte.
" Patologias podem desencadear uma tendência ao crime. Essa visão
extrapola isso. É a visão de que bandido bom é bandido morto.
Porque ele não tem cura, não tem salvação e é geneticamente
mau", explica.
Os três Ps
Como já mostrou este site (leia mais), uma ação na Justiça
Federal contesta o desvio de mais de R$ 1 bilhão do Fundo Penitenciário
Nacional (Funpen) para o pagamento de juros da dívida.
O autor da ação, o procurador da República, Wellington
Divino Marques de Oliveira, diz com todas as letras no seu texto ao juiz o
que a população repete sobre a situação da Justiça
brasileira: “No Brasil, só vão para a cadeia pretos, pobres
e putas”.
Laura Frade aponta o mesmo caminho do procurador em seu levantamento. "É na
produção legal, nas propostas de lei dos parlamentares, que mais
se confirma a crença dos Ps", confirma a pesquisadora.
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista com Laura Frade:
Congresso em Foco – A sua tese de doutorado, que agora será lançada
em livro, confirma o pensamento de que no Brasil só vão mesmo
para cadeia os pretos, os pobres e as putas, o chamado três Ps?
Laura Frade – O trabalho acaba confirmando a história dos Ps.
Funciona como uma sinapse, pois o cérebro põe no automático
a maior parte das coisas que ele pode. E da mesma maneira que ele põe
no automático gestos e a maneira como se dirige, por exemplo, põe
também visões de mundo. Crenças são coisas automatizadas,
representações sociais. Então, a idéia de que a
gente tem do criminoso acaba se transformando em algo automatizado. E foi exatamente
isso que eu fui buscar levantar no Congresso. É na produção
legal, nas propostas de lei dos parlamentares, que mais se confirma a crença
dos Ps. Nas falas, você ainda vê visões mais humanitárias
e que poderiam ajudar a transformar essas crenças. Mas quando chega
na hora de fazer a lei sempre é para endurecer. Foram mais de 600 projetos
apresentados na legislatura passada. Só dois se referiam a crime do
colarinho branco, que estavam voltados para a elite. O restante era para agravar
a pena ou o processo, que é o correspondente da doutrina vigente do
Tolerância Zero.
Por que a senhora escolheu mapear a legislatura passada?
Porque foi a legislatura que mais teve escândados envolvendo os próprios
parlamentares. Eu pensei que, teoricamente, naquela legislatura os parlamentares
deveriam se ver no mínimo como objeto de alguma criminalidade. Até se
falou um pouco sobre isso, mas não havia nenhum projeto a esse respeito.
Nada diferente.
Na época da produção da sua tese,
o Brasil estava sob os ataques do PCC e depois tivemos a morte
do menino João Hélio no Rio de Janeiro. A produção
de leis para endurecer os crimes comuns é sempre casuística?
Os projetos são produzidos casuisticamente. Isso fica muito claro toda
vez que acontece alguma coisa na sociedade, como os ataques do PCC e do menino
que foi arrastado. Aí tivemos um aumento na apresentação
de projetos para conseguir mais verbas. O debate é casuístico.
E é, muitas vezes, uma resposta à ação da imprensa.
O que eu acho mais grave é que isso não é uma coisa deliberada.
O parlamentar não acorda de manhã cedo imaginando como ele vai
fazer isso. Acho que é uma coisa automática. Os parlamentares
não têm consciência dessas representações.
O assunto nunca é debatido na profundidade que ele merecia ter. O que
me deixou mais chocada na fala deles – e eles reconhecem – é que
não falta recurso, mas vontade política.
A falta de vontade política é na aplicação correta
do dinheiro nesta área?
Não. Mas falta fazer uma discussão que possa tratar da questão
da criminalidade, porque, do jeito que está, a gente continua repetindo
automaticamente a mesma coisa. A gente não pára para perguntar
se isso está resolvendo a questão da segurança pública.
Não está. Está se gastando muito dinheiro e estamos só replicando
aquilo que gera a própria violência. Essa dissociação
e a falta de coesão social. Essa separação entre rico
e pobre.
Como a senhora avalia os projetos do Executivo nesta área?
Eu não fiz uma avaliação dos projetos do governo. Isso
seria outra tese. Mas o que eu acho é que a gente tem excelentes intenções.
Temos um problema grave, mas não damos a resposta real. É como
medicina tradicional e medicina preventiva. No fundo, a gente está respondendo
ao que já ocorreu. Quando a lei deveria se antecipar a essas questões.
Os parlamentares se informam por meio da imprensa sobre essas questões.
Temos milhões de trabalhos de pesquisas que tratam da questão
da segurança, mas dificilmente um parlamentar chega a acessar isso.
E quem domina essa questão no Congresso?
São os especialistas, aqueles que têm formação jurídica,
que conhecem estabelecimentos prisionais ou que já foram secretários
de segurança pública. Que conhece essa realidade, mas são
os que têm uma ideologia sobre o tema. Ai vai repetindo e não
se muda nada. Não se abrem janelas no Congresso para uma discussão
mais arejada sobre o tema.
Em que partidos essas duas visões – mais humanista
e de tolerância zero – estão mais presentes?
O tema não é uma questão partidária, nem estadual. É uma
questão para esses especialistas. É uma característica
da política brasileira. Não há uma correlação
desses dois pensamentos com os partidos. São basicamente três
linhas de visão desses especialistas. Tem gente, entre esses especialistas,
que acha que o crime é genético, que é uma questão
espiritual ou que está ligado à questão social.
Como essa visão espiritual sobre o crime é tratada pelos parlamentares?
Está crescendo muito a bancada dos evangélicos e mesmo a dos
católicos que tratam a questão da criminalidade como a falta
de Deus no coração, para usar uma expressão dos parlamentares
a respeito disso. Essas seriam pessoas que precisam ser salvas. Eu até acho
sinceramente que eles têm uma excelente intenção, mas foi
uma coisa que surpreendeu a academia, mas que não me surpreende. Pois
as bancadas estão crescendo e essa é uma visão que tende
a se estender mais ainda dentro do Legislativo, não só em relação
a criminalidade.
E como é esse conceito dos que acham que o crime é genético?
Está restrito à idéia de que existem mesmo
sociopatias e que essas são doenças genéticas?
Patologias podem desencadear uma tendência ao crime. Essa visão
extrapola isso. É a visão de que bandido bom é bandido
morto. Por que ele não tem cura, não tem salvação
e é geneticamente mau.
Faz muito tempo que não surge no Brasil uma proposta
de pena de morte que tenha força política para ser
aprovada no Congresso. Por que essa idéia não vai
adiante, considerando-se que a idéia sai da boca do povo
toda vez que é cometido um crime hediondo? Essa visão é preponderando
no Parlamento brasileiro?
A última proposta de pena de morte foi feita antes da revisão
constitucional na década de 80. Esse grupo não é majoritário,
mas é importante porque está entre os especialistas em segurança
pública. Não são muitos, mas é um grupo que pode
se expandir. Entre os adjetivos usados para definir os criminosos pelos parlamentares
mapeados pela tese o primeiro é de que eles têm baixa instrução,
ou seja, o criminoso é burro. Doente é o segundo adjetivo associado.
E quando você vê que esse adjetivo é o segundo, certamente
tem gente no meio dessas pessoas que acha que o crime é uma doença
incurável. E que o criminoso não está relacionado com
a elite porque a elite não tem baixa instrução.
Mas por que a tese da pena de morte não vinga no Brasil?
Existem, sim, pessoas que pensam dessa maneira. Ela não vinga porque,
de certa maneira, isso é feio num mundo de hoje, onde se fala de idéias
de meio ambiente e de humanização. Também é difícil
você assumir publicamente essa tese. Eu não digo que a idéia
não teria apoio, pois grande parte da população até pensaria
nisso. Mas o ambiente institucional e o mundo jurídico não tornam
mais fácil uma tese dessa natureza. Isso, de alguma maneira, desestimulou
essa visão.
A questão da criminalidade e da violência está associada
com o tráfico de drogas, principalmente no Rio de Janeiro. É possível
resolver o problema com a legislação que temos no Brasil? É solução
descriminalizar as drogas?
Houve apenas uma entrevista entre os parlamentares – e que não
estou dando nome, pois meu compromisso foi manter isso sob sigilo – que
foi muito interessante. O parlamentar disse que sobre criminalidade não
tinha novidade nenhuma. E que todo mundo propõe a mesma coisa há milênios.
Mas dizia que a solução era descriminaliza as drogas. Mas todo
vez que ele defendia isso, só apanhava, era vaiado ou ninguém
dava bola para ele. Foi a única idéia diferente que eu ouvi em
todas as entrevistas que fiz no Congresso.
Como pesquisadora, a senhora é a favor da descriminalização
das drogas?
Sou a favor de qualquer coisa que possa reverter essa situação.
Acho que é um novo paradigma. Não sei qual seria o procedimento,
nem estou defendendo a descriminalização. Mas tem muita gente
ganhando dinheiro legal e ilegalmente com isso. Se privatizarmos uma penitenciária,
tem alguém ganhando com isso. A coisa precisa virar uma discussão
séria nacionalmente. E não vira porque tem muita gente ganhando
dinheiro com essa situação. E se o seu filho é pego com
drogas, você vai fazer o impossível para que ele não seja
preso. A lei é para todo mundo? É, mas mais ou menos. Claro que,
se tiver um bom advogado, você terá uma probabilidade muito mais
alta de não ir para a prisão. Ou, se tiver curso superior, irá para
uma prisão especial. Então a própria lei contribui para
diminuir a coesão social. A própria lei gera a base para a criminalidade.
E o que mudou no combate aos crimes de colarinho branco desde que a senhora
terminou seu trabalho?
A sociedade também pensa que o bandido é só pobre. Mas
algumas coisas mudaram quando a gente vê as mulheres todas chiques levando
quentinhas de comida fina para os maridos na prisão. Rico na cadeia é uma
mudança. Se eu vejo aquilo, começo a acreditar que juiz também
pode ser bandido e que político também. Na verdade, o Judiciário
tem nas mãos a capacidade de fazer as coisas mudarem. Mas o nosso Direito é baseado
em códigos. E se essas leis são feitas dessa forma, às
vezes, o Judiciário pode ficar engessado para fazer essas mudanças.
O fato de o presidente Lula, sem entrar nas questões partidárias,
chegar à Presidência faz diferença. Pois o menino pobre
da favela pensa que também pode. A mudança de crença é ver
coisas que mudam as imagens que se tem automatizadas na cabeça.
Leia ainda:
Muitos
escândalos, pouca punição
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Folha de S.Paulo, 30 de setembro
de 2008
ELEIÇÕES 2008 / COLIGAÇÕES
PT e PSDB são aliados em
mais de 1.000 municípios
Dobradinha PT-DEM registra o maior crescimento
em relação a 2004, 41,9% | Na eleição municipal,
petistas estão aliados com PSDB, DEM e PPS, partidos de oposição
a Lula, em 41,2% das 5.563 cidades
FERNANDA ODILLA
ALAN GRIPP
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O PT marcha de mãos dadas com ao menos um dos três partidos de
oposição ao governo Lula (PSDB, DEM e PPS) em 41,2% dos municípios
do Brasil -2.292 das 5.563 cidades. O número é 13,9% maior do
que em 2004, uma prova de que o tensionamento da política federal vem
sendo deixado de lado em nome de questões locais.
A Folha analisou todas as 30.847 coligações válidas, registradas
no Tribunal Superior Eleitoral em 2008 e 2004.
As alianças que unem as quatro legendas numa única chapa subiram
36% em relação às eleições anteriores, passando
de 89 para 121 neste ano.
A dobradinha PT-DEM, impensada em nível nacional, foi a que registrou
maior crescimento em relação à eleição passada:
41,9%. Em 2004, os partidos estiveram juntos em 674 cidades. Agora, são
957.
Com o PSDB, possivelmente o maior rival na campanha da sucessão de Lula,
o PT selou 1.095 alianças -20,9% a mais do que há quatro anos
(905).
Com o PPS, satélite democrata-tucano, as parcerias ficaram no mesmo
patamar -de 1.105 para 1.129 (a maior das alianças entre PT e pelo menos
um dos partidos da oposição em números absolutos). O dado
novo é que ela acontece em quatro capitais: Manaus (AM), João
Pessoa (PB) e Palmas (TO), além de Aracaju (SE).
As alianças em que o pragmatismo local prevaleceu sobre a política
nacional não ocorreram apenas em cidades minúsculas e longe de
Brasília.
As quatro siglas estão unidas, por exemplo, em municípios como
São João de Meriti (RJ), com 462 mil habitantes, e São
Vicente (SP), com 323 mil.
Entre os acertos formais, o mais significativo ocorreu em Aracaju. Lá,
ao contrário de Belo Horizonte -onde o PT bateu pé, obrigando
o prefeito Fernando Pimentel (PT) e o governador Aécio Neves (PSDB)
a formarem uma aliança branca em torno da candidatura de Márcio
Lacerda (PSB)-, o casamento é de papel passado.
Na capital sergipana, o comunista Edvaldo Nogueira tenta novo mandato com o
apoio de petistas, tucanos e também do PPS.
Há casos em que o PT se uniu à oposição para reassumir
o comando da prefeitura. Em Paraty (RJ), o petista Carlos José Gama
Miranda, o Casé, encabeça a chapa formada por PSDB, DEM e PPS
e outras quatro legendas para tentar impedir a reeleição do prefeito
José Carlos Porto Neto (PTB).
E há ainda municípios em que o PT se aliou à oposição
para manter outra força política na prefeitura, como em Campinas.
Na última eleição, Dr. Hélio (PDT) se elegeu prefeito
somente com o apoio do PMDB e do DEM. Este ano, a chapa ganhou mais nove partidos,
entre eles o PT e o PC do B. "As questões ideológicas permanecem,
mas os embates não invadiram a administração", disse
Hélio.
A "trégua" entre PT e oposição ocorreu principalmente
no Paraná e em Minas Gerais. No primeiro Estado, os petistas estão
juntos com os três partidos de oposição em 19 municípios.
Em São Paulo,as dobradinhas PT-DEM saltaram de 79 para 119, aumento
de 51%. Em Minas, petistas e democratas também se aproximaram. Hoje,
estão juntos em 175 coligações ante as 143 de 2004.
" O PT passou a existir em municípios em que não estava presente,
o que facilitou novas alianças. Mas sempre em torno de questões
locais", disse o senador Sérgio Guerra, presidente nacional do PSDB.
Para Guerra, PT e PSDB são mais fortes juntos. "A tendência é crescer
mais", avaliou. Em 2004, petistas e tucanos elegeram 54% dos candidatos
apoiados pelas duas siglas.
Em Nova Iguaçu (RJ), a chapa que elegeu Lindberg Farias (PT) em 2004
contava com PSDB e DEM. Os tucanos abandonaram a coligação este
ano, mas os democratas permaneceram.
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O ESTADO DO PARANÁ,
30 de setembro de 2008 | Política
33% ainda não escolheram candidato
a prefeito
Agência Estado
A pesquisa CNI/Ibope realizada neste mês revelou que 33% dos entrevistados
ainda não escolheram um candidato a prefeito em quem votar nas eleições
do próximo dia 5 de outubro. Segundo a sondagem, 13% afirmaram que se
decidirão na última semana da campanha eleitoral, 17% disseram
que tomarão uma decisão apenas no dia da eleições,
e 3% responderam que simplesmente ainda não sabem qual será seu
candidato.
Entre os que já se decidiram,
52% informaram que escolheram o candidato antes do início da propaganda
eleitoral na televisão e no rádio, e 11% disseram que fizeram
a opção depois do início da propaganda eleitoral
na mídia eletrônica. A pesquisa mostra que os eleitores
em geral acreditam que honestidade, competência e conhecimento
dos problemas do município são as qualidades mais importantes
que o candidato deve ter.
Ao responderem pergunta sobre
os fatores que mais influenciam na definição do voto, os
entrevistados pela pesquisa CNI/Ibope mencionaram: as propostas do candidato,
a experiência anterior do político em cargos públicos
e as suas qualidades pessoais.
Segundo o diretor de Relações
Institucionais da CNI, Marco Antonio Guarita, os apoios do governador
e/ou do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não são
preponderantes na escolha do voto. Apenas 6% disseram que o apoio do
governador do seu Estado é importante na hora de definir a escolha
do candidato a prefeito, e 8% indicaram o apoio do presidente Lula.
A pesquisa CNI/Ibope foi
realizada de 19 a 22 de setembro e ouviu 2.002 entrevistados, em 141
municípios do País. A margem de erro é de dois
pontos porcentuais, para baixo ou para cima.
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O ESTADO DO PARANÁ,
30 de setembro de 2008 | Política
Senadores com mais gastos têm
familiares envolvidos nas eleições
Redação
Levantamento da ong Transparência Brasil, mostra que os três senadores
que apresentaram mais gastos de verbas indenizatórias em transporte
e estadias este ano têm familiares na disputa das eleições.
Enquanto em média os demais
senadores têm, até agora, gastos de R$ 39 mil em transporte
e estadias, Romeu Tuma (PTB-SP), Mão Santa (PMDB-PI) e Jayme Campos
(DEM-MT) têm despesa média de R$ 101 mil.
Tuma, que gastou R$ 105
mil, é pai de Robson Tuma, candidato a vereador em São
Paulo; Mão Santa, (R$ 104,7 mil), tem a mulher, Adalgisa de
Moraes Sousa, candidata a prefeita de Parnaíba, no Piauí;
e Jayme Campos, (R$ 94,9 mil), é irmão do candidato a
prefeito de Várzea Grande, Julio Campos.
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Folha
de S.Paulo, 30 de setembro de 2008
Fracasso político para aprovar pacote
nos EUA aprofunda crise nos mercados
Base governista se revolta, e pacote é rejeitado;
Bush se diz "frustrado" | Bolsa de NY tem pior perda em pontos
num dia; Bovespa pára pregão, volta e cai 9,36%
SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON
TONI SCIARRETTA
DA REPORTAGEM LOCAL
A rejeição ao pacote do governo Bush de socorro aos mercados
derrubou as Bolsas pelo mundo e revelou um fracasso de liderança política
de dimensões quase tão grandes quanto a crise econômica.
Apesar do apoio do governo, dos líderes democratas e republicanos no
Congresso e dos principais candidatos à Presidência, o projeto
com ajuda de até US$ 700 bilhões às instituições
financeiras caiu na Câmara com 228 votos contra e só 205 a favor.
O histórico fracasso político aconteceu mesmo após um
acordo entre as cúpulas dos partidos Democrata e Republicano, costurado
durante o final da semana e que recebeu o apoio expresso dos candidatos democrata
Barack Obama e republicano John McCain.
O índice Dow Jones da Bolsa de Nova York recuou 6,98% e teve a pior
queda de sua história em pontos num único dia.
No Brasil, a baixa foi de 9,36% na Bovespa, após a Bolsa desabar 10,16%
e acionar o "circuit break", sistema que interrompe os negócio
por meia hora. Foi a primeira vez que isso ocorreu desde 14 de janeiro de 1999, época
da desvalorização do real. O dólar quase bateu em R$ 2,00,
mas fechou a R$ 1,966, com alta de 6,21%.
O petróleo caiu 9,84% e voltou a US$ 96,37 em Nova York, arrastando
as demais commodities e levando à baixa de até 15% nas ações
da Petrobras.
O Fed (BC dos EUA) decidiu dobrar para US$ 620 bilhões o volume de dinheiro
disponível para noves BCs de Europa, Austrália, Canadá e
Japão. Também triplicou para US$ 225 bilhões os recursos
disponíveis para os bancos.
Base governista
Na Câmara, a rejeição surpreendente ao pacote partiu principalmente
da base governista, de olho nas eleições para a renovação
da Casa em novembro. Surpresos também ficaram os líderes democratas,
maioria no Congresso, que anunciaram horas antes que havia um acordo.
" Estou desapontado com a votação. Fizemos um plano que era
grande porque temos um grande problema", disse o presidente Bush. O secretário
do Tesouro, Henry Paulson, disse que os instrumentos à disposição
do governo "eram significativos mas insuficientes" e repetiu várias
vezes que era preciso "fazer algo" e "rápido".
Dos 435 votos do Congresso, 140 democratas e 65 republicanos votaram a favor
do plano, ante respectivamente 95 e 133 que votaram contra. A Câmara
só deve voltar a se reunir na quinta, e o Senado, amanhã, devido
ao Ano Novo judaico, hoje. Uma das hipóteses que as lideranças
estudavam era que o Senado (onde o apoio ao pacote parece ser mais forte) votasse
o projeto antes, colocando ainda mais pressão nos deputados.
As Bolsas asiáticas abriram hoje com forte queda. O índice Nikkei,
de Tóquio, recuava 4,64%, e Taiwan tinha queda de 6,04%. Em Hong Kong,
a desvalorização era de 5,47%.
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Agência Câmara,
30 de setembro de 2008
Proposta isenta auxílio-reclusão
de Imposto de Renda
Edson Santos
Os valores recebidos a título
de auxílio-reclusão - pagos pela Previdência
Social aos dependentes do segurado preso - podem ficar isentos de
Imposto de Renda. É o que estabelece o Projeto de Lei 3801/08,
apresentado pela deputada Rita Camata (PMDB-ES). A proposta altera
o artigo 48 da Lei 8.541/92, que já isenta os rendimentos
recebidos como seguro-desemprego, auxílio-natalidade, auxílio-doença,
auxílio-funeral e auxílio-acidente.
Ao apresentar a proposta, Rita
Camata esclareceu que a medida evitará prejuízos aos dependentes
que, por vezes, aguardam durante anos o pagamento do benefício
pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e, ao receber o montante
correspondente ao período de espera, são obrigados a pagar
Imposto de Renda. "Sabemos que o auxílio-reclusão é concedido
apenas aos dependentes de segurados de baixa renda que estariam isentos
do pagamento de parcela ao imposto de renda caso o benefício fosse
percebido normalmente", acrescentou.
Tramitação
O projeto tramita em caráter conclusivo e será analisado pelas
comissões de Seguridade Social e Família; de Finanças
e Tributação; e de Constituição e Justiça
e de Cidadania.
Íntegra da proposta:
- PL-3801/2008
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Agência Diap, 30 de
setembro de 2008
FUNDO DE GARANTIA
FGTS em ações da Petrobras
pode prejudicar mercado imobiliário, segundo Pochmann
Em longa e esclarecedora
entrevista à revista IHU On-Line, o economista Marcio Pochmann,
presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada),
manifesta preocupação com a idéia de utilizar
recursos do FGTS no mercado acionário brasileiro, ainda que
seja para comprar ações de uma empresa sólida
e lucrativa como a Petrobrás.
Na opinião do economista, isto "dará maior instabilidade" ao
financiamento nos segmentos de habitação e saneamento. "Não
há dúvidas de que a Petrobrás é uma empresa consolidada
e que tem oferecido aos acionistas ao longo do tempo benefícios em termos
de rentabilidade superior a aplicações em outros mercados de
renda variável", observa o economista.
Poupança forçada
" No que diz respeito ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço",
acrescenta, "é preciso ser lembrado que ele, ao ser constituído,
na segunda metade dos anos 1960, tinha por objetivo permitir uma maior facilidade
na demissão e contratação de trabalhadores, e de outro lado
constituir um fundo, uma ‘poupança forçada’ para contribuir
no financiamento de toda a parte relativa a saneamento e habitação".
" Com base nesses recursos, nessa ‘poupança’, o Brasil
avançou relativamente bem no que diz respeito a saneamento e habitação",
continua. "Sabemos que estamos longe do ideal, especialmente na parcela
mais pobre da população que não tem acesso suficientemente
ao crédito habitacional".
" Por conta disso eu penso que a possibilidade de transitar os recursos
do FTGS para o mercado acionário, mesmo para uma empresa consolidada e
tão importante como a Petrobrás, dará maior instabilidade
no que diz respeito ao financiamento desse segmento habitacional e de saneamento.
Como temos enormes carências nessa área, não imagino ser
adequada uma decisão dessa natureza", conclui.
O que é classe média?
Na entrevista, o presidente do Ipea também aborda outros temas de grande
relevância para a classe trabalhadora e o movimento sindical. Entre eles,
o suposto crescimento da média brasileira, propalado sem muito rigor
pelos meios de comunicação. O conceito de classe média
fundado apenas no nível de renda dos indivíduos é estreito
e deve ser encarado com cautela e espírito crítico, embora seja
lugar comum na mídia.
" Nós, do Ipea, estamos fazendo uma série de investigações
sob o ponto de vista da mensuração das mudanças sociais
que estão em curso no Brasil", informa Pochmann. "Achamos temerário
usar o termo ‘classe média’, porque a definição
de classe social implica uma avaliação bem mais ampla, não
apenas do ponto de vista da renda das pessoas, mas certamente considera também
a sua forma de inserção no mercado de trabalho, sua participação
em termos de propriedade e até mesmo seus hábitos de consumo e
status social".
Melhorou a distribuição
da renda?
Outra controvérsia relevante diz respeito à distribuição
da renda nacional. Não existem indicações de que a distribuição
funcional da renda, entre capital e trabalho (ou capitalistas e trabalhadores),
tenha melhorado ao longo dos últimos anos, sendo inclusive mais provável
uma evolução negativa neste aspecto. As estatísticas indicam
uma melhoria da distribuição da renda entre os próprios
trabalhadores, o que (embora seja positivo) não é a mesma coisa,
conforme assinala Pochmann.
" Não temos uma indicação que nos permita dizer que
há uma redução na desigualdade do ponto de vista da distribuição
funcional da renda, e sim, no que diz respeito à distribuição
da renda pessoal do trabalho", comenta o economista, lembrando que a renda
do trabalho corresponde aproximadamente a 40% da renda nacional, os 60% restantes
são apropriados pelos capitalistas e pelo governo.
Decadência dos EUA
O presidente do IPEA também comenta os efeitos da crise internacional
sobre o mundo e a economia brasileira, salientando que a crise realça
a decadência da economia americana, em contraste com a ascensão
da Ásia, e desperta a necessidade de uma nova ordem econômica
internacional.
" A manifestação dessas crises é uma característica
de uma situação mais ampla que diz respeito ao sistema monetário
internacional", afirma. "A impressão que tenho é que
o resultado da crise norte-americana aprofundará ainda mais o grau de
decadência daquele país em termos de capacidade de exercício
da hegemonia mundial”.
E emenda: “De um lado, possivelmente estamos transitando de um país
que sua moeda é de uso recorrente em termos internacionais, para uma
realidade em que haverá mais moedas em circulação no mundo,
num ambiente de pluralidade monetária. Um outro aspecto a ser ressaltado
diz respeito à maior rapidez na transição do centro dinâmico
do mundo dos Estados Unidos para a Ásia".
Clique aqui e
leia a íntegra da entrevista.
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Notícias do Tribunal
Superior do Trabalho
30/09/2008
Liberação da multa por atraso
na rescisão só é cabível em casos excepcionais
Um soldador com vínculo
reconhecido pela Justiça do Trabalho do Rio Grande do Sul teve
decisão favorável da Sexta Turma do Tribunal Superior do
Trabalho para receber de sua empregadora a multa por atraso no pagamento
das verbas rescisórias. A empresa alegou que a relação
de emprego era uma questão controvertida: no seu entendimento,
seria apenas uma prestação eventual de serviços,
e, por essa razão, deveria ser dispensada da multa do artigo 477,
parágrafo 8º, da CLT. Porém, para o ministro Maurício
Godinho Delgado, relator do agravo de instrumento da Diresul Equipamentos
Indústria e Comércio Ltda., independentemente de a relação
de emprego ter sido espontaneamente formalizada pelo empregador ou reconhecida
judicialmente, a multa relativa ao atraso no pagamento das parcelas rescisórias é devida.
O relator explicou, em seu voto,
que a lei prevê uma única exceção para a exclusão
da multa: o fato de o próprio empregado ter causado o atraso.
A jurisprudência (Orientação Jurisprudencial nº 351),
por sua vez, admite uma segunda possibilidade de exclusão: a circunstância
de o julgador ter tido fundada, consistente e séria dúvida
quanto à própria existência da obrigação
cujo descumprimento gerou a multa (no caso, a existência ou não
da relação de emprego).
Com relação ao
caráter controverso da relação de emprego alegado
pela empresa, o relator diz que a “fundada controvérsia” de
que trata a OJ n° 351 do TST é uma situação
de exceção, e que este critério “deve ser
observado à risca”, caso contrário a Justiça
do Trabalho poderia estar “conferindo salvo-conduto ilegítimo
a todas as alegações patronais de inexistência de
relação empregatícia, bastando serem mencionadas
na defesa pela empresa, para que se caracterizasse a situação
de dúvida que levaria à exclusão da sanção”.
Outro problema seria a geração de situação
de desigualdade de tratamento entre o empregador que paga as verbas rescisórias
com pequeno atraso, com a multa, e o que só o faz em juízo,
normalmente anos após a dispensa do trabalhador, e, ainda assim,
alegando, sem nenhum respaldo, a inexistência de vínculo
empregatício, que seria eximido da multa.
O processo
Contrato de trabalho ou de prestação
de serviços eventuais? Após trabalhar por oito anos para
a Diresul, o soldador foi demitido em fevereiro de 2000. No entanto,
a partir do dia seguinte, continuou prestando serviços para a
mesma empregadora, sem ter a carteira de trabalho assinada. Segundo a
empresa, ele estaria prestando serviços eventuais, de forma autônoma.
Dispensado novamente em 30 de maio de 2000, o ex-funcionário pleiteou
na Justiça do Trabalho a declaração de vínculo
empregatício no período de fevereiro a maio de 2000.
Segundo o Tribunal Regional do
Trabalho da 4ª Região (RS), a relação, após
a demissão, foi de vínculo de emprego, pois o soldador
continuou prestando serviços até maio de 2000, numa freqüência
de dois ou três dias por semana, no mesmo horário, exercendo
a mesma função e recebendo o pagamento mensal correspondente
ao último salário recebido na vigência do contrato.
O Regional observou, inclusive, o depoimento de testemunha da própria
empresa confirmando que o serviço prestado era não-eventual.
O quadro retratado no acórdão do TRT/RS, observou o relator,
retratava “uma clara situação de informalidade”.
Diante do reconhecimento do vínculo
no primeiro grau, o TRT manteve também a multa por atraso no pagamento
das verbas rescisórias, contra a qual a empresa vem se insurgindo
desde então. Ao negar provimento ao agravo da Diresul, o relator
concluiu que “a simples recusa de cumprir a lei, pelo empregador,
mantendo seu empregado na informalidade, ou a alegação
frágil de eventual justa causa ou outro fator congênere
não têm o condão de favorecer o inadimplente, desonerando-o
da multa imperativa da CLT”.( AIRR - 106399/2003-900-04-00.6)
(Lourdes Tavares)
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30/09/2008
TST isenta CEF de dívida trabalhista
de empreiteira de programa habitacional
A Segunda Turma do Tribunal Superior
do Trabalho retirou a responsabilidade subsidiária da Caixa Econômica
Federal pelos créditos trabalhistas de um pedreiro de uma empresa
responsável pela construção de casas populares do
projeto governamental Fundo de Arrendamento Residencial – FAR,
gerido pela instituição. A condenação havia
sido imposta pela Justiça do Trabalho da 15ª Região
(Campinas/SP). “A CEF atua na qualidade de simples gestora do programa,
e não na condição de tomadora de serviços
terceirizados”, afirmou o relator do processo, ministro Vantuil
Abdala, ao reverter a decisão.
Para a execução
do projeto nas cidades de Pirajuí, Uberlândia e Bauru, a
CEF contratou a Romano Gonçalves Engenharia e Comércio
Ltda. que, por sua vez, contratou o trabalhador, entre fevereiro a agosto
de 2002, quando o dispensou sem pagar as devidas verbas rescisórias.
Em dezembro do mesmo ano, o empregado reclamou seus direitos na 3ª Vara
do Trabalho de Bauru contra a construtora Romano Gonçalves, a
Bort Incorporadora e Empreendimentos Imobiliários e a Caixa Econômica.
As empresas foram condenadas como devedoras principais e a Cef como responsável
subsidiária.
Com a decisão mantida
pelo Tribunal Regional, a Caixa recorreu ao TST. Tal como a instituição
financeira, o ministro Vantuil Abdala entendeu que ela “atua como
mera gestora do sistema de construção de moradias populares
e subsidia a obra de cuja construtora o pedreiro foi empregado”.
O ministro ressaltou que, “como gestora do fundo, a empresa pública
não pode ser confundida com a figura do tomador de serviços,
pois ausentes o benefício direto e o controle fiscalizador da
prestação de trabalho”. A CEF, no caso, atua simplesmente
como “agente financeiro, administrador do fundo subvencionador
da construção dos imóveis residenciais, ao qual
foi confiada a propriedade apenas fiduciária de seus frutos”.
O relator destacou que, uma vez
que dá possibilidade “ao trabalhador de baixa renda usufruir
de um programa barato de aquisição de moradia, mediante
o pagamento de parcelas simbólicas, a título de arrendamento”,
a atuação da Caixa é de relevante valor social nesse
caso, de modo que não se pode deduzir que ela aufere alguma lucratividade
ou benefício do trabalho realizado nas obras e que tenha culpa
na contratação da empresa, tendo em vista que está dispensada
da observância do procedimento licitatório, na implementação
daquele programa. ( RR-1576-2002-090-15-00.8)
(Mário Correia)
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