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Agência Diap, 12
de outubro de 2008
O sindicalismo está em alta?
Por: Altamiro Borges*
Nas últimas décadas, o sindicalismo
brasileiro e mundial viveu a mais grave crise da sua história.
Alguns fatalistas chegaram a decretar o fim dos sindicatos e deram “adeus
ao proletariado”. Os donos do capital, avarentos por lucros,
festejaram o declínio da força dos trabalhadores.
Os fatos pareciam confirmar os maus presságios. No mundo
todo e no Brasil, os índices de sindicalização
despencaram, as assembléias se esvaziaram e as greves perderam ímpeto.
A crise, decorrente de fatores objetivos e subjetivos, afetou todas
as correntes que atuam nesta arena da luta de classes.
As taxas medíocres de crescimento da economia capitalista,
com seus recordes de desemprego, a ofensiva neoliberal de regressão
dos direitos trabalhistas, e o intenso processo de reestruturação
produtiva, com a introdução de tecnologias poupadoras
de trabalho vivo e de técnicas gerenciais de cooptação,
jogaram os trabalhadores na defensiva e enfraqueceram suas entidades
de classe. Num cenário tão desfavorável, muitas
direções sindicais se burocratizaram e abandonaram
a perspectiva da luta classista. A crise afetou inclusive centrais
antes combativas, como a CUT.
Sinais positivos de retomada
Agora, porém, surgem sinais de certa revitalização
da lutas sociais. O declínio do imperialismo ianque, que
afunda numa brutal crise econômica e padece na ocupação
militar do Iraque, dá novo impulso à resistência
dos povos. Já a fadiga do neoliberalismo, maior responsável
pelo desmonte do trabalho, impulsiona as lutas dos trabalhadores
contra o desemprego e a precarização. No caso do
Brasil, o tímido crescimento da economia gera o aumento
do emprego formal e da renda dos assalariados. O cenário
atual, aparentemente, torna-se mais favorável à luta
dos trabalhadores.
Alguns indicadores confirmam esta nova tendência. Os índices
de sindicalização no país voltam a crescer – de
16% nos anos 90 para quase 20% no ano passado. As greves ressurgem
nos setores privado e público. Com o crescimento da economia,
o poder de barganha dos sindicatos cresce – tanto que 87%
das categorias obtiveram aumento real de salário em 2007,
fato inédito nas duas últimas décadas. Até as
pesquisas de opinião apontam uma melhora da imagem do sindicalismo,
que subiu de 11º para 7º lugar entre as instituições
mais respeitadas pelos brasileiros.
Ousar lutar, ousar vencer
Diferentemente da trágica fase anterior, na qual só se
discutia a regressão dos direitos, a agenda sindical agora é mais
positiva. Entre outros temas, debate-se a redução
da jornada de trabalho, a restrição à terceirização,
a concessão de direitos as 6,3 milhões de empregadas
domésticas e a ratificação das convenções
151 (direito de negociação coletiva dos servidores)
e 158 (proibição da demissão imotivada) da
Organização Internacional do Trabalho. Também
já foram aprovadas medidas para a ampliação
da licença-maternidade e de limitação aos
abusos nos estágios.
Apesar das causas objetivas e subjetivas da crise do sindicalismo
não terem sido ainda superadas, o cenário hoje é mais
favorável às lutas sindicais. Se este diagnóstico
estiver correto, o momento agora é de intensificar as lutas
dos trabalhadores e fortalecer as organizações de
classe. É hora de ousar ainda mais nas reivindicações
e ações classistas, inclusive corrigindo as graves
distorções do passado recente. O “império
do mal” está em declínios e as idéias
neoliberais fatigaram, mas o capital não está parado.
Ele voltará à ofensiva contra o trabalho.
O sindicalismo não pode perder esta oportunidade mais favorável
para defender a ampliação dos direitos dos trabalhadores
e a própria superação do sistema de exploração
capitalista.
(*) Jornalista, editor da revista Debate Sindical
e autor do livro "As encruzilhadas do sindicalismo" (Editora
Anita Garibaldi, 2ª edição)
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Agência Diap, 12
de outubro de 2008
Velhice, fecundidade e previdência
Por: Vilson Antonio Romero*
Uma constatação governamental trouxe alento
aos defensores da previdência pública e de
qualidade. Ao revelar, no final de setembro, os números
do setor, o ministro da área afirmou que, se não
fosse considerada a antecipação do 13º salário
aos aposentados em agosto, “as contas da Previdência
Urbana teriam registrado superávit de R$ 181 milhões”.
Nos meses de fevereiro e julho deste ano, já se
havia repetido a situação, segundo dados
oficiais. Pois estes resultados vêm corroborar uma
realidade que temos procurado demonstrar exaustivamente
ao longo dos últimos anos: a previdência social
não é deficitária.
O regime administrado pelo INSS, ao longo dos anos, se
transformou, isto sim, num gigantesco mecanismo de redistribuição
de renda, grande amortecedor social das mazelas deste país-continente.
Ao mesmo tempo, as reduções, isenções
e incentivos a setores econômicos também fizeram
da arrecadação previdenciária um instrumento
desenvolvimentista, ao utilizar a massiva renúncia
fiscal para catapultar segmentos sociais e empresariais.
Num cenário de evidente recuperação
da massa salarial, de recrudescimento na formalização
dos vínculos trabalhistas e de racionalização
na gestão previdenciária, os resultados tendem
a influir direta e positivamente nas contas previdenciárias.
Se o presente pode ser considerado tranqüilizador,
não exigindo providências e assustadoras reformas
constitucionais imediatas, alguns estudos de institutos
governamentais trazem preocupação ao futuro
do sistema de seguro social brasileiro.
A Síntese dos Indicadores Sociais, baseada na Pesquisa
Nacional por Amostras de Domicílios (Pnad), do IBGE,
mostra números de 2007 que afetam a previdência
social, sem sombra de dúvidas. As despesas com benefícios
previdenciárias serão pressionadas com a
tendência, mantida, de elevação da
expectativa de vida, potencializada concomitantemente pela
redução das taxas de natalidade. Trocando
em miúdos, os brasileiros, a cada dia, vivem um
pouco mais – 72,7 anos é a atual média – e
querem ter uma prole menor – a taxa de fecundidade
caiu de 2,54 para 1,95 filhos para cada mulher nos últimos
dez anos.
Uma outra projeção que acrescenta tormento
aos formuladores das políticas sociais brasileiras
se origina em estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea). Na mesma linha do IBGE,
até por ser baseada em projeções a
partir da PNAD, a análise do Ipea dá conta
que a população nacional está ficando
mais velha e, a partir de 2030, começará a
diminuir, espelhando uma realidade que já se constata
em países da Europa Ocidental, Rússia e Japão,
só para citar os casos mais evidentes.
Inexoravelmente, apesar de termos convicção
de que o regime hoje ainda é superavitário,
há que serem prospectados modelos de proteção
social que impeçam a explosão deste sistema
previdenciário que ainda é uma das mais importantes
políticas sociais do Ocidente.
São benfazejas medidas como as que o ministro da
Previdência anunciou, no sentido de um esforço
com o objetivo de assegurar a inclusão previdenciária
a cerca de 10 milhões de autônomos. O órgão
atua junto ao Senado para que votem lei específica – já aprovada
na Câmara dos Deputados - que busca atrair quem está na
informalidade.
Mas, como o futuro chega a passos largos, os números
escancaram a necessidade rever políticas, parâmetros,
indicadores e continuar na busca da consolidação
da teia social capaz de absorver o impacto dos preocupantes
estudos do IBGE e Ipea.
(*) Jornalista, diretor da Associação
Riograndense de Imprensa, da Associação Gaúcha
dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Agafisp)
e da Fundação Anfip de Estudos da Seguridade
Social – e-mail: vilsonromero@yahoo.com.br
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Agência Diap, 12
de outubro de 2008
SERVIDOR PÚBLICO
CDE define calendário
de atividades e repudia imposto sindical
O Conselho Deliberativo de Entidades (CDE) da Condsef
(Confederação dos Trabalhadores no Serviço
Público Federal) se reuniu na sede da entidade,
em Brasília, no último dia 9. Representantes
de dezenove estados – RJ, PR, RR, PI, MT, MS, AP,
SC, BA, RO, PE, PA, GO, MG, RS, PB, GO, SE e TO – participaram
da reunião que definiu um calendário de atividades
que será seguido pela Confederação.
Durante a reunião, os dirigentes sindicais das
entidades filiadas à Condsef, reagiram fortemente à publicação
da instrução normativa feita pelo ministro
do Trabalho, Carlos Lupi, que institui cobrança
de imposto sindical a todos os servidores públicos.
Representada no CDE pela diretora Lúcia Reis, a
CUT (Central Única dos Trabalhadores), também
contrária ao imposto, faz coro na luta para reverter
a situação.
A Condsef vai encaminhar ofício ao Ministério
do Planejamento e reforçar o pedido de audiência
com o ministro Lupi no MTE, a fim de debater a instrução
normativa. Também no CDE, foram definidas datas
para encontros de setores da base da Condsef. O calendário
de atividades está pré-agendado até a
primeira quinzena de novembro. (Fonte: Condsef)
Veja calendário de atividades:
23/10 - Seminário de reestruturação
do Incra
Local: sede da Condsef
24/10 - Seminário de reestruturação
do Iphan
Local: Rio de Janeiro (Sintrasef)
25/10 - Encontro da Cultura
Local: Rio de Janeiro (Sintrasef)
05/11 - Encontro AGU
Local: Brasília (Condsef)
Encontro MTE/SRTs
Local: Brasília (Sindsep-DF)
14/11 - Encontro Agricultura (Mapa)
Local: Brasília (Condsef)
Encontro Dnocs
Local: Recife (Sindsep-PE)
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Vermelho, 12 de outubro
de 2008
Crise pode levar milhões à pobreza
A desaceleração da economia vinculada à crise
financeira poderia consumir na pobreza dezenas de milhões
de africanos, disse neste sábado em Washington o
titular do Banco Central da África do Sul, Tito
Mboweni.
" A economia global foi debilitada significativamente
pela crise financeira derivada da escassa regulação
das instituições financeiras dos países
desenvolvidos", disse Mboweni na reunião anual
do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Esta desaceleração e outros fatores, como
os altos preços das matérias-primas e a crise
do crédito, "ameaçam sufocar nossas
conquistas na última década, com o risco
de deixar dezenas de milhões de pessoas abaixo do
umbral da pobreza".
Mboweni falou ante o Comitê Monetário e
Financeiro Internacional (CMFI), órgão de
direção do FMI, em nome de 21 países
africanos.
Da redação, com
agências
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Congresso em Foco, 12 de
outubro de 2008
A produtividade na construção
civil
Osvaldo Martins Rizzo *
Ainda que empiricamente, o alto nível de crescimento registrado
pela economia chinesa no último decênio parece contrariar
o modelo macroeconômico neoliberal, quando postula ser impossível
a obtenção de altas taxas de crescimento econômico
descasada do respectivo aumento da formação de poupança
doméstica financiadora dos investimentos. O processo virtuoso
chinês baseia-se, principalmente, na implementação
de ajustes microeconômicos que, eliminando distorções
localizadas, estimulam a elevação da produtividade de fatores
de produção que se encontram em estágios atrasados
de desenvolvimento.
Segundo relatório do Fórum Econômico Mundial (WEF),
uma das fraquezas da economia brasileira é a lentidão do
crescimento da produtividade da mão-de-obra, com o destaque negativo
para a da construção habitacional.
Em rigorosa análise sobre o assunto, intitulada “Produtividade:
a chave do desenvolvimento acelerado no Brasil”, a consultoria
McKinsey constatou, há alguns anos, que a produtividade da mão-de-obra
do segmento da construção habitacional brasileira, no geral,
representava apenas 35% da norte-americana, chegando a pífios
20% nas obras de casas populares. Pesquisas comparativas também
mostram a construção civil como um dos poucos ramos de
atividade que registrou aumento do número de empregados por produção
a preços constantes.
O processo nocivo é cíclico. E se auto-alimenta dos fracos
resultados financeiros obtidos pelas construtoras com a prestação
de serviços de baixa especialização, que as obriga
a pagar salários baixos, que leva à falta de interesse
no treinamento da mão-de-obra, que conduz ao comportamento do
funcionário de encarar o emprego como temporário até que
surja outro melhor, que dificulta o desenvolvimento de habilidades individuais,
e que, ao desestimular o investimento em inovação tecnológica,
reforça a baixa produtividade, que ajuda a causar os fracos resultados
das empresas.
A baixa produtividade da mão-de-obra constitui-se em uma das causas
do alto custo das moradias populares (assim como a alta carga tributária,
entre outros fatores). Isso se reflete na grande inadimplência
registrada nos contratos de financiamento, gerando enormes estoques de
crédito ilíquidos de difícil recuperação.
Para ilustrar: o volume de créditos podres que a Caixa Econômica
Federal (CEF) repassou para a empresa estatal recuperadora de crédito
imobiliário (Emgea) – que acumula prejuízos de R$
10 bilhões desde 2001, quando foi criada – daria para financiar
o total dos investimentos necessários do setor de saneamento básico.
Instituições públicas e privadas calculam o atual
déficit habitacional brasileiro em quase 12 milhões de
unidades. Nesse número, inclui-se a inexistência de mais
de 6 milhões de moradias e outras tantas que possuem condições
totalmente inadequadas, como as que estão em áreas de risco.
O déficit está fortemente concentrado (mais de 90% do total)
na faixa da população de baixa renda (famílias com
renda mensal menor que cinco salários mínimos). Está espalhado
em 75% dos municípios, segundo uma pesquisa do IBGE. Só na
região metropolitana da Grande São Paulo, estima-se que
existam quase 400 mil barracos, 23 mil cortiços e cerca de 2.500
loteamentos irregulares.
Algumas providências poderão contribuir, de forma rápida,
para o desenvolvimento econômico e social do país ao propiciar
condições de moradia mais dignas para uma parcela maior
da população. Uma delas é incentivar, de forma mais
eficaz, as ações das construtoras, objetivando o aumento
da produtividade da mão-de-obra empregada através do Programa
Brasileiro de Qualidade e Produtividade no Habitat (PBQP-H).
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Congresso em Foco, 12 de
outubro de 2008
Pauta da Câmara permanecerá trancada
esta semana
Mesmo sob os apelos do presidente da Câmara,
Arlindo Chinaglia (PT-SP), para que se tenha um entendimento
em torno na votação do PL 3.674/08, que cria
o fundo soberano, a pauta do plenário da Casa deve
permanecer trancada nesta semana. Cinco medidas provisórias
e quatro projetos com urgência constitucional estão
para ser votados, mas nada andará enquanto oposição
e base não chegarem a um consenso.
O líder do PSDB na Câmara, José Aníbal
(SP), afirma que a oposição só vai
liberar a pauta se a base do governo retirar a urgência
constitucional do projeto que cria o fundo, deixando, portanto,
a votação da matéria para outro momento.
O líder do PT, deputado Maurício Rands (PE),
diz que os governistas vão priorizar a votação
do projeto e, sobretudo, sensibilizar os demais partidos
aliados para aprovarem a proposta.
“ Vamos continuar o diálogo. Mas vamos defender que não se
retire a urgência e que se vote. A política é assim mesmo.
Corre o risco de a pauta continuar trancada. Com a oposição obstruindo,
todo o momento fica mais difícil”, avaliou Rands.
Em seu discurso, a oposição contrapõe o governo.
Diz que o projeto do fundo soberano “não têm relevância
do ponto de vista da atual crise financeira mundial”. “Queremos
que o governo retire a urgência desse projeto, para que se possa
partir para outras matérias mais importantes e varrer a pauta
até chegar a MP 442”, disse Aníbal ao Congresso
em Foco.
A MP 442, que ainda está nas comissões e entra na pauta
do plenário a partir de 28 de outubro, facilita o auxílio
a instituições bancárias de pequeno porte e a
abertura de crédito para exportadores, por meio do Banco Central
(BC).
“É uma postura propositiva da oposição. Apesar do
presidente [Lula] ter essa postura que maquia, as bolsas estão despencando,
o Brasil não tem crédito. Temos a responsabilidade de limpar a
pauta para chegar à MP 442. Se houver acordo, votamos todas demais as
matérias”, argumenta o líder dos tucanos.
Pauta
Primeiro item da pauta da Câmara, a MP 436 muda o regime de tributação
das bebidas frias. Já a MP 438 isenta de PIS/Pasep e Confins
as doações em espécie recebidas por bancos federais.
Terceiro item, a MP 439 autoriza a União a conceder crédito
de até R$ 15 bilhões ao Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES). Por sua vez, a MP 440 trata do reajuste
salarial das carreiras de auditoria da Receita Federal e do Ministério
do Trabalho. Em quinto lugar na ordem de medidas a ser apreciadas no
plenário, está a MP 441 que regula o reajuste e reestruturação
das carreiras de oficial de chancelaria e outros.
Além delas, os deputados precisam apreciar o projeto de lei
3.674, que cria o Fundo Soberano do Brasil (FSB); o PL 3.776, que determina
que a atualização do piso salarial dos professores da
educação básica seja feita pelo INPC; o PL 3.775,
que implanta os Institutos Federais de Educação, Ciência
e Tecnologia; e o PL 3.430, que cria cargos em comissão no Ministério
da Integração Nacional, na Superintendência do
Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), na Superintendência do
Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) e no Departamento Nacional
de Infra-Estrutura de Transporte (DNIT). Todos os projetos estão
sob regime de urgência constitucional. (Renata
Camargo)
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Gazeta do Povo, 12 de outubro
de 2008
Legislação
Reforma política. Agora
vai?
Governo busca viabilizar mudanças
com projetos idênticos aos derrubados pelos parlamentares
no ano passado
Brasília - O Poder Executivo encaminhará ao
Congresso Nacional em novembro um novo projeto de reforma
política. A proposta é similar à maioria
das mudanças discutidas e rechaçadas pelos
parlamentares nas últimas duas décadas. As
apostas para evitar mais um fiasco são o apadrinhamento
do presidente Lula, a ressaca pós-eleitoral e um
possível envolvimento da sociedade.
Três temas são considerados primordiais – voto
em lista fechada nas eleições proporcionais
(o eleitor escolheria o partido e não o candidato),
financiamento público de campanha e a regulamentação
da fidelidade partidária. A reforma também
tentará acabar com a coligação partidária
nas eleições proporcionais, a candidatura
dos fichas-sujas e a implantação da cláusula
de barreira (mais detalhes no infográfico ao lado).
Todas as questões já foram discutidas mais
de uma vez entre os congressistas, a partir da promulgação
da Constituição, em 1988. O primeiro pacote
de mudanças foi sugerido em 1994, pelo ex-senador
Sérgio Machado (PMDB-CE), mas nunca avançou.
No ano passado, o presidente da Câmara dos Deputados,
Arlindo Chinaglia (PT-SP), conseguiu mobilizar o plenário
durante todo o mês de junho para votar as alterações.
Só a adoção das listas fechadas foi
votada – e derrotada por 252 votos a 181.
Distorções
O que faria o Parlamento mudar de idéia menos de
um ano e meio depois? “As eleições
mais uma vez mostraram muita coisa errada. O sistema eleitoral
brasileiro é uma fraude, o eleitor vota no candidato,
mas acaba mesmo escolhendo o partido”, diz o secretário
de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça,
Pedro Abramovay.
Ele citou como exemplo a disputa para a Câmara de
Vereadores de São Paulo, na qual o PT teve a maioria
dos votos, mas elegeu 11 nomes, contra 12 do PSDB. Em Curitiba,
42 candidatos a vereador não-eleitos tiveram mais
que os 2.593 votos que deram a Dirceu Moreira (PSL) a última
das 38 cadeiras na Câmara Municipal. As distorções,
segundo o secretário, ainda vão permanecer
por algum tempo vivas na memória do eleitor e dos
derrotados.
É na pasta de Abramovay, e sob a tutela pessoal
do ministro Tarso Genro, que a proposta passa pelos últimos
ajustes. Antes de definir a redação final,
os dois trabalham para reunir apoios. No dia 27 de agosto,
Genro enviou o projeto em linhas gerais para Chinaglia
e para o presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN).
Além disso, mobilizou a Ordem dos Advogados do Brasil
(OAB), que respaldou todas as sugestões.
Abramovay admite que o principal desafio é convencer
os parlamentares de que é necessário mudar
as regras do jogo – sendo que foram as “regras
antigas” que garantiram o acesso e permanência
de muitos deles ao Congresso. “É necessário
colocar isso como uma grande pauta de transformação,
um anseio da sociedade, ou as coisas não andam.”
O governo, porém, promete ser maleável.
Alguns tópicos foram pensados de acordo com a cabeça
da maioria dos congressistas. As alterações
valeriam apenas para as eleições municipais
de 2012, o que daria fôlego para a implementação
das propostas sem mexer na disputa de 2010.
Além disso, alguns pontos polêmicos seriam
suavizados. O Executivo propõe, por exemplo, uma “janela
de infidelidade” de seis meses antes das eleições
para os candidatos com mandato. Após a decisão
do Supremo Tribunal Federal que instituiu a fidelidade
partidária em outubro de 2007, um político
só pode concorrer à reeleição
por outro partido se renunciar ao cargo.
Problemas
Especialistas na análise do Poder Legislativo prevêem
dificuldades na tramitação da reforma. O
diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar
(Diap), Antonio Augusto de Queiroz, é pessimista,
mas diz que a idéia de mudança está mais
forte em comparação às tentativas
do passado. “Um projeto patrocinado pelo governo
tem uma força quase impositiva sobre sua base. O
presidente não tomaria essa iniciativa se já não
tivesse articulado minimamente essas idéias com
os partidos aliados.”
Queiroz também acredita no esforço pessoal
de Chinaglia e Garibaldi, cujos mandatos acabam em fevereiro. “Eles
precisam deixar algum legado, já que não
conseguiram patrocinar qualquer reforma.”
Por outro lado, o cientista político da Universidade
de Brasília (UnB), Leonardo Barreto, duvida do empenho
real de Lula. “É pura conversa fiada. O governo
vai jogar a reforma sabendo que não conta nem com
a maioria do PT para votá-la, só para provocar
mais um constrangimento para deputados e senadores, que
tradicionalmente nunca votam qualquer proposta que possa
prejudicá-los.”
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Gazeta do Povo, 12 de outubro
de 2008
Cenário político
PMDB deve continuar na sombra
em 2010
Partido com maior bancada no Congresso
Nacional e que conquistou o maior número de prefeituras
na eleição deste ano não tem lideranças
nacionais fortes e deve ficar sem candidatura própria à Presidência
da República
Ele foi vitorioso nesta eleição municipal
em 1.201 cidades brasileiras e ainda disputa o segundo
turno em outros nove municípios, está no
comando de sete governos estaduais e conta com 111 parlamentares,
formando a maior bancada do Congresso Nacional. Esse gigante é o
PMDB, que apesar do tamanho e da importância na política
brasileira, aparece como um coadjuvante no cenário
político nacional atual. Herdeiro direto do MDB,
o partido de Ulisses Guimarães há muito tempo
não tem um nome com projeção suficiente
que consiga torná-lo um protagonista e essa situação
não deve mudar para 2010.
As negociações em Brasília e a situação
do PMDB indicam que a legenda dificilmente terá candidatura
própria para a Presidência da República,
mesmo sendo – numericamente– um dos partidos
mais poderosos atualmente. “Os números desta
eleição fazem o PMDB sair fortalecido, mas
não o suficiente para lançar um candidato.
Apesar do tamanho, o PMDB é um partido estadualizado,
sem nomes de projeção nacional. O mais provável é que
ele venha com um vice em uma aliança com o PT”,
avalia a professora de Ciências Políticas
da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Maria
do Socorro Braga.
O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral,
o senador Jarbas Vasconcelos (PE) e o governador do Paraná,
Roberto Requião, são nomes cotados dentro
da legenda para serem os candidatos dessa possível
aliança. Pelos corredores de Brasília, ainda
se fala na possibilidade do governador de Minas Gerais,
Aécio Neves, ir para o PMDB na tentativa de concorrer à Presidência
em uma dobradinha com o PT. “Isso vai depender de
como o Aécio sairá desta eleição
municipal e como fica a situação dele dentro
do PSDB. Além disso, também depende do PT
aceitar ficar com o vice, o que eu acho bem difícil”,
comenta Maria do Socorro.
Para a professora, o mais certo é que o partido
continue em uma situação semelhante a de
hoje: um coadjuvante da disputa política nacional.
Papel que não agrada a muitos peemedebistas, como
o senador Pedro Simon. “Eu venho ao longo do tempo
pedindo uma candidtaura própria, mas lamentavelmente
o comando do partido resolveu abrir mão disso em
troca de cargos no governo”, comenta o parlamentar.
A troca de apoio por cargos, criticada por Simon, tem
mantido o PMDB vivo e presente – em qualquer que
fosse o governo – . Durante o comando de Fernando
Henrique, ele foi aliado do PSDB e agora está com
Lula e o PT. “Com as maiores bancadas na Câmara
e no Senado, o PMDB é indispensável para
a governabilidade. Assim, não tem quem esteja no
poder e dispense seu apoio”, diz a cientista política
Luciana Veiga, da Universidade Federal do Paraná.
Sobre a possível falta de ideologia do partido,
Luciana explica que ela é compreensível se
considerada a história do PMDB. “Ele veio
do MDB, que surgiu na época da ditadura militar
como o único partido de oposição autorizado
pelo governo. Isso significou reunir em apenas uma legenda
todos os partidos que existiam na época e que eram
contra o governo militar. Em sua origem o PMDB já foi
um grande misto de ideologias”.
História
Fruto do MDB, o partido teve em seu quadro nomes importantes da história
política nacional.
Tancredo Neves
Foi eleito pelo Colégio Eleitoral o primeiro presidente
civil após duas décadas de ditadura militar.
Tancredo conseguiu a indicação do PMDB para
se candidatar à presidência após disputa
interna com Ulysses Guimarães, mas não chegou
a assumir o cargo, pois morreu antes da posse. Tancredo
Neves foi deputado federal pelo PSD em 1950 e 1953. Após
o golpe de 1964, ingressou no Movimento Democrático
Brasileiro (MDB), o partido de oposição ao
regime na época e berço do PMDB.
Ulisses Guimarães
Principal nome da história do partido, Uiysses
Guimarães foi presidente do MDB e, posteriormente,
do PMDB. Em 1987, comandou a Assembléia Constituinte,
sendo um dos principais articuladores do texto constitucional.
Foi candidato à Presidência da República
em 1989 pelo PMDB, mas não foi eleito. Ulysses Guimarães
morreu no Rio de Janeiro, em 12 de outubro de 1992, em
um acidente de helicóptero.
José Sarney
Assumiu a Presidência da República após
a morte de Tancredo Neves, que foi eleito pelo Colégio
Eleitoral em 1988, e permaneceu no cargo até 1990.
Nos anos em que esteve no comando do Executivo Federal,
o país passou por uma crise econômica grave.
Na avaliação de alguns analistas, o período
de crise de Sarney é um fator que dificulta a volta
do PMDB ao comando nacional. Hoje, Sarney é senador
pelo Amapá, embora seu berço político
seja o Maranhão.
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Gazeta do Povo, 12 de outubro
de 2008
Cenário político
Em crise no Paraná,
partido nega fim da era Requião
Enquanto nacionalmente o PMDB é um coadjuvante
de peso, no Paraná o partido passa por uma crise.
O resultado da eleição municipal indicou
uma redução no número de votos dados
ao partido – embora a legenda tenha conquistado mais
municípios –, que ficou fora do comando das
principais cidades do estado. Em Curitiba, a derrota foi
esmagadora, com o candidato do governador alcançando
menos de 2% dos votos.
Acompanhando esses resultados ruins, vêm os baixos índices
de aprovação ao governador Roberto Requião,
principal nome do partido no Paraná. Tantos resultados
negativos estão sendo interpretados por muita gente
como sinais do fim do "requianismo".
No entanto, na avaliação do presidente do
Conselho Político do partido, o deputado estadual
Alexandre Curi, a situação não seria
assim tão grave. "Escuto essa história
do fim do requianismo há muito tempo, mas nunca
aconteceu. O que estamos vivendo agora é apenas
o desgaste natural de quem está no comando do Executivo
há muitos anos. A popularidade também vem
acompanhada pela rejeição", avalia.
A cientista política Luciana Veiga, da Universidade
Federal do Paraná, também não acredita
que a história de Requião na política
paranaense esteja chegando ao fim. "Ele está desgastado
pela presença no Executivo, mas isso não
significa o seu fim. Acho a situaçaõ do Requião
bem parecida com a de Íris Rezende, em Goiânia.
Acho que seria interessante para o Requião passar
um tempo no Legislativo", diz. É exatamente
esse o caminho que Requião deve seguir. A previsão
mais provável é que em 2010 ele dispute uma
vaga para o Senado.
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Folha de S.Paulo, 12 de
outubro de 2008
Mercado está "à beira
do derretimento", afirma FMI
Fundo diz que Bolsas podem cair mais
20% nos próximos dias; governo Bush cogita novo pacote
Casa Branca quer fim do recesso de congressistas
para aprovar pacote superior a US$ 150 bilhões e estimular
diretamente o consumo
FERNANDO CANZIAN
ENVIADO ESPECIAL A WASHINGTON
O FMI (Fundo Monetário Internacional) vê o
sistema financeiro global "à beira do derretimento" e
afirma que os mercados podem desabar mais 20% nos próximos
dias. Já o governo dos Estados Unidos está cogitando
propor ao Congresso -que está em recesso- um novo
pacote bilionário para estimular o consumo no país.
O colapso no sistema financeiro de crédito nos EUA está derrubando
rapidamente as vendas no comércio, aumentando o risco de forte
recessão. " A preocupação com a solvência
de um grande número de instituições nos EUA e
na Europa empurrou o sistema financeiro global para a beira de um derretimento
sistêmico", afirmou ontem Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente
do FMI, na reunião anual do órgão, em Washington.
Pela manhã, o presidente norte-americano, George W. Bush, reuniu-se
com os ministros das Finanças do G7 (Estados Unidos, Japão,
Alemanha, Reino Unido, França, Canadá e Itália)
na Casa Branca e pediu urgência na aplicação das
cinco medidas aprovadas pelos países na sexta-feira para combater
a crise financeira.
" Precisamos trabalhar de maneira rápida, coordenada e em colaboração.
Nenhum país vai ganhar nada ao prejudicar a sorte de outro. Estamos nisso
juntos e vamos sair disso juntos", disse Bush em rápido pronunciamento
na Casa Branca. Entre as ações acordadas pelo G7, a principal é a
compra pelo Estado de pedaços de bancos em dificuldades e de títulos
dessas instituições, visando sua capitalização e
a reativação do mercado de crédito a empresas e consumidores.
Na semana passada, os mercados acionários mundiais perderam,
em média, 20% (mais de US$ 6 trilhões). Isso fez aumentar
rapidamente o risco e o temor de uma forte recessão em nível
global. O economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, estimou em 50%
as chances de o mundo entrar em recessão.
" No pior cenário, os governos ainda vão precisar de algumas
semanas para corrigir as medidas que estão sendo tomadas, e os mercados
podem cair outros 20% antes de se recuperarem", disse Blanchard.
O governo Bush também cogita pedir o fim do atual recesso aos
congressistas para aprovar um pacote superior a US$ 150 bilhões
para estimular diretamente o consumo, especialmente em pequenas cidades,
onde a situação fiscal dos governos municipais está se
deteriorando rapidamente.
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Folha de S.Paulo, 12 de
outubro de 2008
Cresce pressão por "novo
comando" global
Alemanha propõe nova gerência
mundial, incluindo Brasil; autoridades vêem falhas
na forma como planeta é governado
Especialistas em comércio e finanças
afirmam que os organismos internacionais não estão
preparados para encarar crises como a atual
CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A MADRI
O governo alemão, pela palavra de seu ministro
de Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier,
propôs ontem uma reforma ampla na maneira como o
mundo é gerenciado financeiramente, incluindo o
Brasil na nova direção. " Necessitamos
de um grupo financeiro mundial, um G8 ampliado, para tratar
de um novo ordenamento das relações financeiras
globais", disse Steinmeier à revista "Der
Spiegel".
Esse novo G8 incluiria, segundo o ministro, "potências econômicas
emergentes como Brasil, Índia e China, com os mesmos direitos
e obrigações, e talvez algum país árabe".
A proposta de Steinmeier dá caráter concreto a uma enxurrada
de avaliações de que fracassou a maneira de gerir a economia
mundial.
O primeiro a pedir nova gerência foi Robert Zoellick, presidente
do Banco Mundial e ex-chefe do comércio internacional americano,
o que lhe conferiu papel relevante nas negociações no âmbito
da Organização Mundial do Comércio. O Banco Mundial
e a OMC são dois dos três pés em que está assentada
a governança global na área econômica.
Diz Zoellick que é preciso criar "uma nova moldura multilateral".
Completa: "A crise global mostrou que os líderes mundiais
precisam adotar um enfoque mais flexível e inclusivo para gerenciar
a economia". O G7, o clubão dos sete países mais
ricos do mundo, "não está funcionando", fecha
Zoellick. "Precisamos de um grupo melhor para um tempo diferente."
Passe-se agora ao terceiro pé da governança global, o
Fundo Monetário Internacional. "Está claro que a
comunidade internacional precisa trabalhar conjuntamente para fechar
os muitos buracos na arquitetura regulatória global que permitiu às
instituições financeiras minimizar seu capital ao mesmo
tempo em que concentravam riscos", diz Dominique Strauss-Kahn,
seu diretor-gerente.
Visto do lado de fora do mundo oficial, "o grande problema para
essas instituições é que algumas delas estão
se tornando irrelevantes", disse Anne-Marie Slaughter, reitora
da Universidade Princeton.
Mesmo entre autoridades, há crescente reconhecimento não
da irrelevância, mas das carências institucionais. "Não
estamos suficientemente preparados para enfrentar crises de entidades
supranacionais", admite Joaquín Almunia, comissário
europeu de Economia, referindo-se à coordenação
na Europa, justamente o continente que construiu, até agora,
o mais amplo e bem-sucedido modelo de instituição supranacional
(a União Européia e seus 27 países, 15 deles com
moeda única).
Mesmo o chefe de Almunia, José Manuel Durão Barroso,
presidente da Comissão Européia, reconhece que "não
foi satisfatório o nível de cooperação
entre os 27 países da UE".
De novo, quem está fora do mundo oficial é bem mais crítico.
Caso de Ángel Ubide, colunista do jornal "El País,
para quem "o escasso olfato político de Paulson [Hank Paulson,
secretário americano do Tesouro], a miopia do Congresso dos
EUA e o penoso espetáculo europeu, com anúncios, contra-anúncios
e recriminações, criaram uma perigosíssima sensação
de vazio de poder".
Quem já teve funções de governo e hoje está afastado
da política, mas ativo na análise do mundo, resume a
situação em uma única frase: "O problema é que
temos poderes locais e problemas globais", afirma Felipe González,
que passou 12 anos como presidente do governo espanhol e aparece sempre
na lista de possíveis futuros dirigentes dessas instituições.
Se é fácil resumir o problema, infinitamente mais difícil é estabelecer
como será a nova gerência global, se é que acabará mesmo
por se impor após a crise ter produzido seus efeitos. A única
proposta concreta é a de ampliar o G7. Mesmo assim, nada indica
que será uma solução, posto que, como o FMI e
o Banco Mundial, o G7 mostrou-se irrelevante na crise.
Em grande medida, a culpa é dos Estados Unidos, pelo menos na
visão de Adam Posen, vice-diretor do Instituto Peterson para
a Economia Internacional, de Washington. Sua análise é muito
mais política e cultural do que propriamente econômico-financeira. "O
que me preocupa é que os EUA perderam a liderança intelectual
ou de estabelecedores de modelo na economia global. Em grande parte,
merecemos perdê-la porque ficamos frouxos com nossa regulação
e supervisão, fomos demasiado arrogantes com os outros, e pouco
fizemos para submeter nossas próprias políticas às
instituições internacionais."
Não está claro, no entanto, quem tem poder para substituir
os EUA ou dividir com ele a liderança. Há quem insinue
a China ou mais amplamente os países emergentes. Caso de Jean-Pierre
Petit, economista-chefe do banco francês BNP Paribas, em entrevista
ao jornal "Le Monde": "Os países emergentes,
a China à frente, são os grandes ganhadores da década.
Assiste-se a uma transferência de poder econômico, financeiro
e político e até de tecnologia [para esses países]".
Mas essa é uma visão só economicista. Liderança
intelectual e política é algo imensamente maior. Por
enquanto, prevalece a "sensação de vazio de poder" citada
pelo colunista Ángel Ubide. Que, por sua vez, é um dos
principais componentes do pânico que domina os mercados.
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