Congresso em Foco, 16 de
Outubro de 2008
Serraglio desafia caciques do PMDB
Deputado critica excesso de poder de grupo
de Temer, diz que partido precisa se oxigenar e que sua candidatura à presidência
da Câmara é irreversível
Eduardo Militão.
“Eu sou um pobre diabo no
mundo isolado.” É com um discurso de promessa de humildade,
companheirismo e novos tempos na Casa que o peemedebista Osmar Serraglio
(PR) quer trocar a primeira-secretaria pela presidência da Câmara
no próximo ano.
Para alcançar seu objetivo,
Serraglio desafia os caciques de seu partido, que lançaram a pré-candidatura
de Michel Temer (SP) na semana passada, contra a vontade da também
deputada Rita Camata (PMDB-ES).
Em entrevista ao Congresso em
Foco ontem (14), ele afirma que Michel Temer não tem no plenário
o apoio que diz ter. Lembra que a candidatura de Ciro Nogueira (PP-PI),
já dada como certa entre os deputados, também não
pode ser desprezada e representa uma ameaça ao PMDB.
“Quem disse que o Michel
tem essa facilidade no plenário? Uma coisa é dizer: ‘Ah,
eu tenho o apoio do líder tal’. Porque, olha, há um
caminho longo a ser percorrido. Por isso, é que eu não
atropelo nada”, alerta o deputado, numa crítica ao lançamento
da candidatura do colega em pleno segundo turno das eleições.
Segundo Serraglio, tudo foi feito
com “cartas marcadas”, de maneira “opressiva” e
sem dar chances aos demais companheiros de refletir melhor sobre o assunto. “Nós
precisamos oxigenar um pouco o PMDB, dando mais oportunidades a mais
pessoas”, reclama.
Como credenciais a seu favor,
o deputado paranaense aponta a simplicidade, a atuação
moderada como relator da CPI dos Correios – que apurou o escândalo
do mensalão – e a gestão na primeira-secretaria da
Câmara.
“Eu me conduzi de uma forma
séria na primeira-secretaria. Fui vigilante, procurei valorizar
os companheiros. Evidentemente, com essa atividade eu me cacifei quanto à credibilidade.
Alguém que tem condições de conduzir a Casa de forma
que ela seja valorizada”, lembra o parlamentar.
Na entrevista a seguir, o deputado
diz que o Congresso brasileiro legisla mal: as leis são mal feitas
e não há acompanhamento sistemático do cumprimento
delas. E declara apoio à posição do Senado em relação
ao nepotismo. “Nenhum direito é absoluto”, prega Serraglio,
contestando a versão noticiada pela imprensa ontem de que os senadores
encontraram uma “brecha” na legislação para
manter parentes empregados na Casa.
O peemedebista diz não
ter posição definida sobre a polêmica equiparação
do salário dos parlamentares com o dos ministros do Supremo Tribunal
Federal (STF), defendida por vários deputados. E, de olho em seus
eleitores do próximo ano, rebate as críticas de que o custo
de um deputado no Brasil é um dos mais altos do mundo. “Tudo
isso não é dinheiro do deputado”, ressalta, referindo-se à verba
de gabinete e outros gastos bancados com dinheiro público para
manter a Casa em funcionamento.
Leia a íntegra da entrevista
exclusiva:
Congresso em Foco – Por
que o senhor é pré-candidato à presidência
da Câmara?
Osmar Serraglio – Porque
eu acho que nós precisamos oxigenar um pouco o PMDB, dando mais
oportunidades a mais pessoas. O Michel tem todos os seus méritos,
mas já foi duas vezes [presidente da Câmara]. É presidente
do PMDB. Nós começamos com nossa oposição
aos métodos. Eu achei que continuar com essa história de
lista meio opressiva. Aí, assinou, vai colhendo assinaturas. O
líder vai colhendo assinaturas de apoio... Além dos métodos,
mais um: se você olhar sai por tudo que no dia só dois não
votaram [na reunião de escolher de Michel Temer]. Mas eu já tenho
oito nomes de pessoas que não estavam aí. Não estavam
em Brasília. Aí você pega todos e diz: “Só dois
não votaram nele”.
O senhor e a Rita Camata?
Sim. Mas foi por aclamação.
Lá não estavam muitos. Na hora, não tinha nem a
metade. Mas eles não vieram a Brasília. E todas as coisas
que passam no jornal: “Só dois que não vieram”.
Também não estavam Asdrúbal [Bentes (PA)], Jader
[Barbalho (PA)], o [Odílio] Balbinoti [PR], o Cézar Schirmer
[RS], o [Darcísio] Perondi [RS], o Mauro Mariani [SC], Hermes
Parcianello [PR] e Osmar Serraglio. Eu até posso reconhecer que é bom
lançar com certa antecipação, mas não como
foi, porque nós estamos em plena campanha. Vê só.
Não deram oportunidade mínima a que se fizesse uma certa
abordagem dos parlamentares. Eles marcaram para dois ou três dias
após as eleições do primeiro turno. Impediram as
pessoas que quisessem eventualmente de participar. Sequer tiveram oportunidade.
E quem estava no segundo turno? Eu falei para eles: mas todo mundo mal
saiu de uma eleição, de cabeça semi-quente, porque
ninguém ganhou tudo. Todos os que saíram das eleições
saíram alegres com a vitória de fulano e fulano e tristes
com fulano e fulano. Então, todo deputado veio meio atordoado.
Foi muito forçado?
Foi tudo um jogo de cartas marcadas.
Nós já tivemos esse episódio quando eu me elegi
primeiro-secretário. Tudo cartas marcadas. Eu saí contra
o sistema [o candidato do PMDB era Wilson Santiago (PB)]. E, naquela
ocasião, em que eles trouxeram o prato feito, foi acertado...
E daí porque foi aceita a escolha. Eu não contesto o Henrique
Eduardo [Alves (RN), líder do partido na Câmara], ele, pessoa.
Eu contesto o seguinte: nós aceitamos que haveria revezamento
na liderança. Já correu este ano, já deveria estar
com novo líder, já correu lista.
Acertou com quem isso?
Foi no plenário. Nós
tivemos uma reunião. Quando o Henrique Alves foi escolhido, ele
assumiu o compromisso do revezamento.
A liderança é definida
internamente pelo partido. Mas a Executiva do partido pode interferir?
É a bancada. Não
tem Executiva, não tem ninguém. É a bancada que
tem de ver.
E a bancada não
se mobiliza?
Alguém teria que mobilizar.
Eu sou uma formiguinha que está começando a mostrar que
nós precisamos de uma abertura maior no PMDB.
Tem mais gente disposta
a ser uma formiguinha como o senhor?
A Rita. E por trás de
nós... Evidentemente, nenhum de nós está sozinho.
Mas ninguém sai gritando por aí contra líder, contra
presidente de partido nem contra ninguém.
O senhor acha que tem
um bom contingente de insatisfeitos?
Tem, tem. A prova foi a minha
eleição.
Dá pra ganhar?
Essas imposições
nós estamos vendo lá em Belo Horizonte. Um bom candidato,
um apoio, mas é a forma, né? Prato feito. Não se
faz isso.
O senhor tem o apoio
do Ciro Nogueira?
Não. Nem ele o meu. Cada é um
por si. Nós somos candidatos, cada um está buscando seu
espaço.
O senhor poderia fazer
algum acordo com ele numa candidatura contra o Michel Temer, num eventual
segundo turno?
Eu não posso pensar nisso.
Primeiro, porque não cheguei no segundo turno. E outro aspecto é que
há um espírito partidário. A minha intenção
não é implodir o Michel. É evidenciar ao PMDB que
esse método pode levar a que percamos as eleições
da Câmara. Quem disse que o Michel tem essa facilidade no plenário?
Uma coisa é dizer: ‘Ah, eu tenho o apoio do líder
tal’. Porque, olha, há um caminho longo a ser percorrido.
Por isso é que eu não atropelo nada.
O que precisa para convencer
o restante da bancada e o líder disso?
Eu não acredito que eu
convença. Eles só vão perceber disso se eles fizerem
pesquisa interna lá, muito proximamente. Eu nem comecei minha
campanha. Como também da outra vez, não tinha nada disso.
Nós temos ainda... A campanha mesmo se desenvolve em dezembro,
mais ainda em janeiro. O Gustavo [Fruet (PSDB-PR), candidato à presidência
em 2007] saiu a dez dias da eleição, nem isso. Eu me conduzi
de uma forma séria na primeira-secretaria. Fui vigilante, procurei
valorizar os companheiros. Evidentemente, com essa atividade, eu me cacifei
quanto a credibilidade. Alguém que tem condições
de conduzir a Casa de forma que ela seja valorizada.
O senhor diz não
saber se o Temer tem esse apoio no plenário. O senhor tem esse
apoio?
Ontem eu fui lá nos servidores.
Saí aqui e chegou um cara de expressão de um importante
partido. Chegou assim para mim, meu irmão: “Osmar, vá em
frente. O voto é secreto”. Agora, hoje pela manhã fui
tomar café da manhã num hotel com um prefeito. Chega um
deputado e me abraça, que não é do meu partido,
e me diz: “Olha, você é o meu candidato”. Então,
isso aí, devagarinho, vai costurando. Eu não estou pedindo
nada para ninguém. Eu apenas estou dizendo: “Olha, eu sou
candidato”.
O que precisa ser feito
para melhorar a Câmara? Quais as prioridades?
Prioridade na Casa, eu vejo quanto à atividade
legislativa, não quanto à administração.
Venho participando, comecei, fiz palestra inclusive no STJ [Superior
Tribunal de Justiça] sobre legística. O que é legística? É a
arte de fazer boas leis. Nós não fazemos boas leis, lamentavelmente.
Boas leis significam leis que perdurem, que tenham... Que não
suscitem, mal editadas, já questionamentos.
Ações diretas
de inconstitucionalidade....
Adins, percebe? Hoje você faz
uma lei, mas não sabe porque amanhã tem uma Adin, uma liminar,
suspende tudo, pronto. Cadê a nossa produção legislativa?
O mundo tem isso. Aliás, está aqui: [toma um livro sobre
atividade dos Parlamentos]: ”Legística e desenvolvimento
da qualidade... no quadro de otimização de uma melhor legislação.
Elaboração racional e tal. A qualidade da legislação...
Fatores internos da Câmara”.
O senhor defende então
que os deputados façam curso de legística?
Não. Que nós tenhamos
um quadro específico que faça o quê? O que é a
legística? É procurar com que tenhamos normas que, de fato,
solucionem o problema. Porque, quando se faz uma regra, é porque
você tem um determinado escopo.
Com menos regulamentação
e um pouco mais objetiva?
Eu não diria mais ou menos. Eu diria objetiva, sim. Eu tenho um objetivo
e essa lei tem que cabalmente conduzir a que eu atinja esse objetivo. Mas não é só produzir
a lei. Primeiro, eu tenho que ter simulações. Saber: se eu fizer
isso, o que vai acontecer? Eu dou vários exemplos sobre isso. Quando
nós fazemos essas leis de royalties, muitos reclamam: “Poxa, mas
tem uns municípios que estão ganhando demais”. Agora mesmo
tem estados, como o de São Paulo, brigando porque o Rio ganha demais...
Então, nós não tivemos simulações para saber,
quando nós fizemos as leis. Essa proliferação que houve
aí... nós não estamos com esse problema de municípios
que estão criados e o Supremo [Tribunal Federal] está determinando
que nós legislemos sobre isso? Por quê? Porque nós fechamos.
Mas nós fechamos...
...porque não
fizeram simulação?
Antes disso. Quando se fez a
distribuição do FPM [Fundo de Participação
dos Municípios] abriu uma porta enorme para a criação
de municípios. Simples. O município que tivesse 20 mil
habitantes entrava numa escala, por exemplo de 0,10 do FPM. E o mínimo é 0,06.
Então, um município de 20 mil, se você dividisse
em cinco municípios de 4 mil habitantes, são 5 vezes 0,06.
O mesmo município vai levar 0,30 em lugar de 0,10 do FPM. Então,
qualquer distritozinho se emancipava. Até fazendas lá no
nordeste se emancipava para receber FPM. Que simulação
a gente fez? Daí, quando viram que criaram municípios demais,
aí fechou. Mas como fechou? É essa a saída? Então,
não cria mais? Mas claro que não, percebe? É um
tudo ou nada. Nós precisamos melhorar nossa produção
legislativa enquanto instrumento de alcance de objetivo.
Pra isso, o senhor defende
um quadro específico de pessoal?
Eu defendo métodos. Eu
não diria quadro de pessoal. Nós precisamos de uma instrumentalização,
de métodos que simulem, que hipotetizem. E mais do que isso. Depois,
quando a norma é editada, que nós tenhamos o acompanhamento.
Se você pegar, se não me engano na Constituição
da Bélgica, tem isto: a obrigatoriedade de o legislador acompanhar
o cumprimento da lei. Há uma comissão de acompanhamento
para saber se os resultados foram alcançados.
O senhor acha que o Michel
Temer é do grupo que manda no PMDB, já que não
está havendo essa consulta?
Mas é evidente, ele é o
presidente. Como assim?
Uma cúpula que decide
o contrário do que deseja a maioria da bancada.
Não estou dizendo que é ao
contrário. Mas é uma cúpula que decide. “Ah,
não, mas nós chamamos as pessoas”. Sim, mas chamaram
no dia seguinte às eleições.
Não foi dado tempo
de ninguém raciocinar sobre isso?
Quando eles convocaram isso?
Pouquinho antes depois do recesso branco, agora depois de julho, quando
já não tinha mais... Não sei se foi depois de julho.
Mas, enfim, quando eles solicitaram já era evidente que a gente
ia ter dois ou três dias no máximo aqui com deputados.
Foi antidemocrático?
Não sei se a expressão é essa,
mas, enfim, foi uma medida impositiva.
O senhor prevê um
embate polarizado entre dois candidatos ou entre vários candidatos?
Eu vejo a possibilidade de o
Ciro Nogueira e o Michel Temer serem contendores e a coisa ir se avolumando.
E sempre tem o tertius, que vai mostrando que tem condições
de surpreender.
O senhor é o tertius?
Eu acho. O Ciro já tem
um trabalho de praticamente dois anos que ele já vem em campanha.
Não se pode... É bobagem achar, menoscabar. Dizer: “Nós
já temos nosso candidato e já tem o apoio de fulano, fulano
e fulano”. Eu escrevi na minha carta. Lembra aquela história
lá do Garrincha? “Vocês já combinaram com os
russos?”
Ciro ganharia do Temer? É um
risco o PMDB ficar sem a Presidência?
Eu não digo que ganharia,
mas os dois têm amplas possibilidades de chegar.
O governo vai trabalhar
contra sua candidatura por conta de sua atuação como
relator da CPI dos Correios?
Acho que não, porque ele
sabe que eu não persegui ninguém. Eu fiz exatamente o que
teria que ser feito. Não beneficiei nem prejudiquei. Não
ataquei, não bati. Não usei. Poderia ter usado os holofotes.
Nenhuma vez alguém poderia dizer: “Ele criou uma situação
para aparecer”. Nunca. Eu nunca criei nenhuma situação,
nem notícia, nem fato, nada. Ao contrário. Eu corri atrás
quando algum sub-relator falava alguma coisa que eu ainda não
tinha, eu dizia: “Isso eu ainda não tenho”.
Mas houve redução
na liberação de emendas parlamentares do senhor. Isso
não se refletiria na eleição?
Eu acho que não. Eu nunca
me senti prejudicado.
O senhor acha que no
governo não tem pessoas capazes disso?
Não. Algumas pessoas podem
estar, mas aí são muito pontuais, que não têm
a força de impedir minha candidatura. Até porque o que
eles vão avaliar? Se o presidente é alguém que dá credibilidade à Casa,
se é alguém que é acessível, que é companheiro.
Que é aberto, que não é dono da verdade, que não
impõe, que sempre ouve, que não é de grupos.
E o senhor tem essas
características?
Eu acho. Eu não sou de
grupos. Eu sou um pobre diabo no mundo isolado. Aqui, olha, está faltando
combinar com os russos [pega sua carta enviada aos deputados, criticando
o movimento pró-Michel Temer]: “Lamento antecipar que não
me submeterei a essa engenhosa esperteza que lembra Lampeduza: ‘Più cambia,
più è La stessa cosa’”.
Como um pobre diabo pode
ser presidente da Câmara?
Pobre diabo no sentido de um
cidadão humilde, simples, que briga não por ambição.
Nunca mostrei ambição por nada. Já exerci tantos
cargos. Nunca alguém disse: “Puxa, o cara está dono
do mundo agora porque tem o cargo tal”. Eu sou o primeiro-secretário
e o pessoal bota no jornal o supra não-sei-o-quê?
Super prefeito...
É. Alguém alguma
vez viu um ato meu que indicasse minimamente essa... Ao contrário,
sou companheiro dos funcionários e de todo mundo.
Essas pessoas contrárias
ao senhor no governo, por conta da CPI dos Correios, não têm
força?
O que dá força
para mim, inclusive, para a presidência é a minha condução
na CPI dos Correios. É isso que me valoriza perante o plenário.
Vão dizer: “Esse é um cidadão sério,
não é pizzaiolo, não é de holofote”.
Deve haver uma combinação
com o Senado para essa eleição na Câmara? O Temer
diz que tem que ter a harmonia com o Senado. Em termos de eleição,
a costura é possível?
É.Isso é uma coisa
que eu não posso negar que a presidência da Câmara
não é igual à primeira-secretaria, que é apenas
gestão. A presidência da Casa é um poder político
muito expressivo. É evidente que isso passa por uma concepção
de trabalho conjunto, com o presidente do Senado, que também é presidente
do Congresso.
Mas no caso eleição
da Câmara, tem de haver uma combinação com a eleição
da Mesa do Senado?
Não necessariamente.
Pode ser dispensado esse
acordo entre PT e PMDB?
Esse acordo PT e PMDB é um
acordo que eu pessoalmente desconheço. Claro, desconheço
em que termos eles foram estabelecidos. Eu sei que houve um acordo. Um
acordo que, na época eu censurei, porque o PMDB abriu mão
da presidência.
Por que era um acordo
pró-Michel?
Eu sou o primeiro-secretário,
mas nunca fui candidato a primeiro-secretário. Eu era candidato
ao segundo cargo, porque o primeiro era presidente e eu não era
candidato a presidente. Eu mandei carta, bilhete, para todo mundo. Eu
sou candidato ao segundo cargo, porque nós temos a presidência.
De repente, negociaram a presidência. A meu ver, não houve
acordo com o Senado. Houve acordo com o PT aqui.
E esse acordo não
precisa ser cumprido?
São Casas independentes.
Lá tem uma dificuldade. Se for costurada a base, e eu sou da base, é muito
interessante que se faça no conjunto. Porque, como eu disse, uma
coisa é eleger um cargo na Mesa, outra é eleger o presidente.
Os presidentes da Câmara e do Senado necessariamente têm
interlocução direta e permanente com os outros Poderes.
Para finalizar, a eleição
da Mesa Câmara deve ser arranjada com a do Senado?
Não necessariamente. Porque
se eu admitir que isso depende, o Senado também vai dizer: “Nós
dependemos da Câmara”. Se eu acho que nós aqui necessariamente
devemos... Aí, o Senado também... eu estou antecipando
uma situação. Não existe isso. Isso é um
ajuste político que se fez e essas negociações têm
um certo parâmetro, porque, se você avançar demais
nas negociações, você termina com a negociação
feita e sem o voto. Você precisa saber que precisa de votos no
plenário.
Ponto a ponto: o que
Osmar Serraglia pensa sobre nepotismo?
Defendo o cumprimento da norma
do STF.
Sem interpretações?
Sem brechas?
Interpretação,
sim. Sinceramente, eu vi a imprensa censurando o Senado como se tivesse
aberto uma brecha. Isso não é abrir brecha. Pelo amor de
Deus, é interpretar a Constituição, não precisa
nem interpretar o ato do STF. Nenhum direito é absoluto. Quando
você está censurando, preservando a moral administrativa
e impedindo o nepotismo, isso não é absoluto. Um cidadão
está há quinze anos aqui dentro trabalhando e, agora, o
tio dele se elegeu. Um não tem nada a ver com o outro. Ele trabalha
lá no gabinete de um deputado e não tem nada a ver. Ele
vai ser prejudicado? O direito evidentemente não agasalha isso.
Isso não é brecha. É a interpretação
da lei: nenhum direito é absoluto.
Ponto a ponto: reajuste de parlamentares.
O reajuste de parlamentares...
eu diria primeiro que nós não vivemos mais em um período
de inflação para que venha tendo reajustes...
... de quatro em quatro
anos, como prevê o regimento?
Não, até de quatro
em quatro anos provavelmente, porque sempre permanece um residual de
inflação. Mas não é uma concepção
que eu tenha ainda formado. Não acho que seja algo prioritário
de um presidente começar a discutir salário de deputado.
E a proposta de aumentar
o salário dos parlamentares para equipará-lo com a remuneração
do Supremo?
A equiparação,
eu acho que o equívoco tem que ser desconstruído no próprio
Judiciário. Porque hoje nós eliminamos a gradação
que deveria haver dentro do Judiciário, com relação às
diversas entrâncias. Hoje, alguém entra como juiz federal
e já ganha quase igual a ministro. Tinha que ser assim: vai evoluindo,
vai crescendo.
Os juízes que
ganham demais ou os deputados que ganham de menos?
É difícil avaliar.
Quando entra, o juiz ganha demais. Não faz sentido, você pegar
um ministro do Supremo ganhando igual a quem está entrando hoje,
saindo da universidade. Hoje, virou um prêmio.
E o teto? O deputado
deve ganhar igual ao ministro do Supremo?
É difícil isso,
porque nós temos algumas coisas que terminam com dificuldade de
você interpretar, se é remuneração, se é indenização.
Por exemplo, o auxílio-moradia. Como é que fica isso? Você recebe
auxílio-telefone, postal, passagem e blá-blá-blá.
Agora, também acho um equívoco quando você diz que
um deputado ganha ou custa R$ 100 mil.
Ou R$ 50 mil, tirando a verba
de gabinete...
Isso é a mesma coisa quando
se cria uma vara numa cidade. Vai ter um juiz. Você cria 20 cargos.
Então o juiz não ganha os R$ 20 mil dele, ele ganha os
R$ 100 mil. Ah, mas a folha de pagamento é dos funcionários.
Sim, mas, para nós, aqui os funcionários sempre são
passados [à opinião pública] como se fossem o nosso
dinheiro. Como se o deputado recebesse R$ 50 mil. Por que esse viés?
Excluídos os funcionários,
as despesas são de R$ 50 mil por deputado. O senhor também
considera errado utilizar-se verba indenizatória, passagens e
etc?
Tudo isso não é dinheiro
do deputado.
Então o senhor é contra
a equiparação?
Eu acho difícil a equiparação
enquanto nós tivermos essas situações paralelas.
Fundo soberano.
O fundo soberano precisa ser
mais esclarecido. Uma coisa era quando se concebeu e outra é o
momento atual. Hoje, no mundo, qual a melhor estratégia para as
reservas? Daqui a pouco nós vamos precisar usar essas reservas
de fundo soberano.
Reforma tributária.
Sou a favor. Fui relator da reforma
tributária na CCJ [Comissão de Constituição
e Justiça]. Acho que o Lula formatou uma proposta de reforma excepcional,
só que, toda vez que você propõe reforma tributária,
você mexe com interesses ou de grupos econômicos ou de grupos
políticos ou regionais. Tem gente que insiste na guerra fiscal,
porque numa guerra alguém ganha e alguém perde. Então,
tem gente ganhando.
Em termos de propostas
de legislação, quais as prioridades para a Câmara
para 2009 e 2010?
Eu não tenho meu
programa ainda.