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FOLHA DE LONDRINA, 21 de
outubro de 2008 | Economia
Empresas e indústrias somam
prejuízos com a greve
Paralisação dos bancários
dificulta pagamento a fornecedores, além da falta de dinheiro
no mercado
A greve dos bancários está trazendo para o comércio e
indústria uma situação de calamidade econômica para
suas empresas. Essa é a opinião de líderes empresariais
do Paraná, que enfrentam há 14 dias a paralisação
dos bancos. Pagamentos de fornecedores, insumos, troco no caixa e falta de
capital estão emperrando o comércio e a indústria em
geral.
‘‘Já estamos
vivendo uma situação de calamidade, o governo necessita
intervir nesta questão’’, declarou Marcelo Cassa,
presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina
(Acil). Ele informou ontem que os prejuízos são incalculáveis
diante do movimento paredista. A Acil responde por 2 mil empresas, entre
indústria e comércio. ‘‘Os bancários
fazem uma greve justa. Os bancos precisam oferecer algo, até porque
tiveram resultados positivos nos últimos anos’’, ponderou.
Empresários estariam
fazendo verdadeiros malabarismos para fazer operações bancárias.
A falta de capital de giro para pagar e comprar, além de fornecer
troco para clientes, estaria impedindo a comercialização
de produtos e até de serviços. Cassa dá como exemplo,
o setor de venda de veículos, informando que as empresas já estariam
em dificuldades para fazer o financiamento de carros. ‘‘Com
o banco fechado, como financiar?’’, ironizou.
Os investimentos das empresas
estariam comprometidos em face do comércio não ter capital
para investimentos na compra de produtos. ‘‘As empresas estão
emprestando dinheiro de factoring (empréstimos de corretoras)
para poder funcionar’’, declara Amauri Donadon Leal, presidente
do Sindicato do Comércio Varejista de Maringá (Silvamar).
Ele explica que empréstimos nos bancos representam 2,5% de juros
ao mês, enquanto nas corretoras o valor sobe para até 6%. ‘‘A
situação é muito difícil, não bastasse
ainda tem a crise mundial’’, lembrou o líder empresarial,
ao ressalvar que este dinheiro não será repassado aos consumidores. ‘‘O
cliente não tem culpa’’, disse.
A região de Maringá possui
12 mil lojas, com 52 mil empregados. Donadon informou que devido à falta
de dinheiro no comércio, empresários estariam revendo a
contratação de mil funcionários para as vendas do
Natal.
Os lojistas de Curitiba e Região
Metropolitana também enfretam dificuldades com a greve dos bancários.
Segundo a presidente da Associação Comercial do Paraná (ACP),
Avani Slomp Rodrigues, uma das maiores dificuldades é para o pagamento
de duplicadas que só podem ser quitadas na ‘‘boca’’ dos
caixas e não no auto-atendimento. Como os lojistas não
conseguem pagar as faturas em dia, estão arcando com a incidência
de juros e multas.
Outro problema enfrentado é a
retirada de dinheiro nos caixas automáticos que têm valores
limitados a, no máximo, R$ 1 mil. No entanto, grande parte dos
lojistas, necessitam fazer saques com valores maiores, o que não
tem sido possível com a greve.
Edson Pereira Filho e Andréa
Bertoldi
Reportagem Local
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O ESTADO DO PARANÁ,
21 de outubro de 2008 | Economia
Especialistas afirmam que falta qualificação
aos pedreiros
Mara Andrich
Encontrar pedreiros para trabalhar não é tão difícil.
O problema, segundo os especialistas, é achar pessoas qualificadas para
a função, o que deixa muita gente desempregada. Um exemplo dessa
contradição é o que ocorre na Agência do Trabalhador,
em Curitiba.
A Agência encaminhou 17
mil trabalhadores para as cerca de 14.500 vagas ofertadas pelo setor
de janeiro a outubro desse ano. Mas desses 17 mil, apenas 5.048 foram
admitidos.
Para se ter uma idéia
do crescimento no número de postos de trabalho da área,
no mesmo período de 2007 foram ofertadas 13 mil vagas no setor.
Na época em que a construção civil não estava
tão bem assim, em 2006, a Agência ofertou nove mil vagas.
Para a coordenadora estadual
de Intermediação de Mão-de-Obra da Agência,
Angela Carstens, é o aquecimento da economia que contribui para
o cenário otimista. Porém, ela alerta que a qualificação
ainda deixa a desejar e tira muita gente do mercado de trabalho.
“O nível de escolaridade
do pedreiro ainda é muito baixo. Temos também outros motivos
que desanimam a pessoa, como o salário, que muitos acham pouco
atrativo, e também o local de trabalho, que às vezes é longe”,
comentou Angela. Um pedreiro ganha cerca de R$ 600, no mínimo,
mais vale-transporte.
A mesma opinião tem o
vice-presidente da Área Técnica da Comissão de Políticas
e Relações Trabalhistas do Sindicato da Indústria
de Construção Civil no Estado do Paraná (Sinduscon-PR),
Euclésio Finatti.
Segundo ele, o que falta é gente
qualificada. “Os trabalhadores antigos saíram do mercado,
ou por um processo natural ou porque foram para outros setores”,
observou.
Constatação semelhante
tem também quem trabalha diretamente na contratação,
mas mesmo assim, por conta da crise financeira, alguns empresários
já estão receosos, o que pode mudar o cenário tão
positivo da construção civil.
É o que diz a engenheira
da construtora e loja de materiais de construção Atenas,
Adriane Pansolin, de Curitiba. Ela disse que alguns empreendimentos já estão
sendo cancelados em Curitiba por conta da crise econômica.
“Faz 15 dias que não
vendemos quase nada”, contou. Segundo ela, a profissão de
pedreiro não é tão atrativa mais como era antigamente. “Está difícil
de achar profissionais qualificados. Os filhos dos pedreiros já não
querem mais seguir os passos do pai, preferem outras áreas, como
informática, por exemplo, que até tem cursos grátis”,
constatou.
Oportunidade
Por conta da estabilidade na
economia brasileira, e a aceleração das contratações
na construção civil, o governo federal criou o Plano Setorial
de Qualificação da Construção Civil (Planseq),
que visa especializar a mão-de-obra do setor, especificamente
daquelas famílias que estão inseridos no programa Bolsa
Família.
O Planseq já está na
fase em que as pessoas estão recebendo cartas do governo federal
em casa para se habilitar aos postos de trabalho. A habilitação é feita
no Sistema Nacional de Emprego (Sine).
A idéia é capacitar
cerca de sete mil trabalhadores no Paraná e 185 mil em todo o
país. Os recursos utilizados para o Planseq são do Programa
de Aceleração do Crescimento (PAC).
No Paraná, serão
investidos cerca de R$ 7,5 milhões, podendo chegar a R$ 12 milhões,
caso dê certo. “Nunca precisamos buscar esse tipo de programa,
mas agora somos a bola da vez. Acredito que tudo isso está acontecendo
pelo crescimento das linhas de crédito e a diminuição
nos juros”, analisou Finatti. Quem fizer o curso por meio do Planseq
terá 80 horas de treinamento.
* Se você tiver críticas
ou sugestões, envie para o e-mail: emprego@oestadodoparana.com.br
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Gazeta do Povo, 21 de Outubro
de 2008
Assistência social
Bolsa Família repassa R$
41 bi
Programa criado há exatos cinco
anos atende 11 milhões de famílias em todo o país.
Neste período, paranaenses já receberam R$ 1,5 bilhão
O programa Bolsa Família
completou ontem cinco anos de existência, com repasses no valor
de aproximadamente R$ 41 bilhões nesse período. De acordo
com levantamento da organização não-governamental
Contas Abertas, o Bolsa Família contempla atualmente cerca de
11 milhões de famílias de baixa renda, destinando R$ 700
milhões por mês aos beneficiados em todo o país.
O valor repassado, segundo a Ong, é maior que o orçamento
autorizado para as despesas do Ministério da Educação
neste ano – que é de R$ 40,6 bilhões.
Conforme a página na internet
do Contas Abertas, se for considerada uma média de quatro pessoas
por família, o programa deve contemplar aproximadamente 45,8 milhões
de brasileiros, o que representa 25% dos habitantes do país. De
acordo com a Ong, metade de todo o recurso gasto desde o lançamento
do programa foi repassado a estados da Região Nordeste.
A Bahia é o estado que
mais recebeu recursos do Bolsa Família nestes cinco anos (veja
tabela). Foram destinados cerca de R$ 5,5 bilhões para a população
baiana. O Paraná aparece em nono lugar entre os estados brasileiros
que mais receberam recursos do programa, sendo destinados à população
paranaense R$ 1,5 bilhão, no mesmo período.
O Bolsa Família é o
principal programa de assistência social do governo federal, implementado
pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome
(MDS). O programa consiste em transferir recursos diretamente para famílias
em situação de pobreza ou miséria e tem o objetivo
de garantir o direito à alimentação e o acesso à educação
e à saúde.
Na avaliação do
professor de Economia Robson Gonçalves, do Instituto Superior
de Administração e Economia da Fundação Getúlio
Vargas (ISAE-FGV), o fato de o Paraná estar em nono lugar não é motivo
de preocupação, se for levada em conta a população
do estado, que é de aproximadamente 10 milhões. “Os
estados do Sul tem uma distribuição de renda mais igualitária”,
afirmou Gonçalves. “O mapa regional do Bolsa Família
mostra que o programa cobre as áreas mais carentes.”
Segundo o economista, o
sucesso do Bolsa Família será medido pela velocidade
que, no futuro, se tornar desnecessário. “Se esse programa
tiver de ser mantido por muito tempo, isso vai significar que as famílias
não conseguiram quebrar o ciclo vicioso da pobreza.”

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Gazeta do Povo, 21 de Outubro
de 2008
Crédito
BC anuncia mais R$ 6,5 bi para
safra e construção civil
Construtoras terão financiamento
de até R$ 4 bilhões para continuar com plano de investimentos.
Objetivo das medidas também é ofertar
dinheiro a empresas e consumidores
O ministro da Fazenda, Guido
Mantega, e o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, anteciparam
ontem novas medidas para irrigar o mercado de crédito brasileiro.
As ações, que envolvem cifras da ordem de R$ 6,5 bilhões,
vão beneficiar especialmente os setores da agricultura e construção
civil, mas também têm por objetivo garantir maior acesso
de empresas e consumidores ao dinheiro.
As medidas foram alinhavadas
em reunião convocada pelo presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, ontem, no escritório da presidência da República,
em São Paulo. Além de Mantega e Meirelles, participaram
do encontro os presidentes da Caixa, Maria Fernanda Coelho; do Banco
do Brasil, Antônio Francisco Lima Neto; e do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho.
Ao lado de Meirelles, Mantega
explicou que o governo deverá ampliar o crédito para a
agricultura em cerca de R$ 2,5 bilhões. Os recursos serão
originados a partir do aumento da parcela da poupança rural que
será direcionada à agricultura, de 65% para 75%.
O ministro lembrou que nas duas últimas
semanas o Banco do Brasil já liberou cerca de R$ 10 bilhões
ao setor de agronegócio “Portanto, não me parece
que haja razão para haver uma redução da safra 2008/2009. É claro
que poderá haver algum fator climático ou alguma deficiência
de crédito que ainda não identificamos”, ponderou
ele.
Outro setor que deve receber
tratamento especial é a construção civil. Nos últimos
anos, as empresas se capitalizaram por meio de lançamento de ações
na bolsa de valores, estabeleceram planos de investimento de longo prazo
e gastaram o dinheiro na compra de terrenos, disse Mantega. Agora não
conseguem capital de giro para tocar os projetos.
“Estamos montando um sistema
para dispor esse crédito, que deve somar entre R$ 3 bilhões
e R$ 4 bilhões para completar as obras”, disse Mantega.
Ele destacou que esse crédito poderá ser feito via BNDES,
que já apresentou uma proposta para o setor, ou Caixa, por meio
de participação acionária nas empresas. “Uma
das duas medidas será tomada nos próximos dias.”
Meirelles completou ainda que,
durante a reunião, foi feita uma revisão de todas as ações
dos bancos estatais até o momento na compra de carteira de outros
bancos e na concessão de crédito. As instituições
foram chamadas a se preparar para aumentar sua participação
nos empréstimos e financiamento no país, seja para pessoa
física, capital de giro para empresas e investimentos.
Leilão
O Banco Central informou que
vendeu US$ 1,620 bilhão no leilão de dólares montado
para financiamento do comércio exterior realizado na tarde de
ontem. O BC fixou em dez dias úteis a data limite para que os
bancos que adquiriram esses dólares repassem as linhas para os
exportadores. Esse foi o primeiro leilão com essa finalidade específica
feito pela autoridade monetária e que faz parte do pacote de medidas
anunciado para enfrentar a crise financeira internacional.
Meirelles
nega mudança no combate à inflação
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, negou que as
medidas recentes adotadas pela autoridade monetária sejam uma
mudança na sua estratégia de atuação. Ele
reafirmou que o compromisso do BC é com o regime de metas para
a inflação. “Engana-se quem vê nas medidas
adotadas pelo BC uma mudança na sua estratégia de atuação”,
afirmou.
Meirelles ressaltou, no entanto,
que a calibragem e o timing da atuação do BC levam em conta
o que está ocorrendo na economia, inclusive no que se refere à oferta
de crédito e às incertezas trazidas pela crise internacional,
além de outros fatores. “As decisões do Copom continuarão,
em suma, a serem condicionadas pelas nossas projeções para
a inflação e o balanço de riscos associados a essas
projeções, e levarão em conta todos os desenvolvimentos
recentes do mercado.”
O presidente do BC fez essas
afirmações durante a cerimônia de posse da nova diretora
da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid),
ontem, em São Paulo. No evento, Meirelles destacou que a atuação
do BC visa a mitigar o impacto da crise, mas sem artificialismos, que
podem gerar desequilíbrio que encerram riscos consideráveis
para a economia. No fim de semana, Lula já havia garantido que
o governo não adotará nenhum pacote econômico em
razão da crise.
Meirelles salientou que
a “pujança” da demanda doméstica, alicerçada
no mercado de trabalho, deve continuar sustentando a expansão
do PIB nos próximos meses, ainda que em ritmo mais modesto. “As
economias emergentes, cujo crescimento depende das exportações,
terão que fazer um ajuste mais rápido, sob pena de importarem
de forma mais intensa a desaceleração dos mais ricos.”
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Agência Brasil, 21 de Outubro de 2008
Caixa não vai alterar condições
de financiamento da casa própria
Bruno Bocchini
Repórter da Agência Brasil
São Paulo - A Caixa Econômica
Federal não vai alterar as condições de financiamento
imobiliário diante da crise econômica mundial. A posição é válida
tanto para contratos de pessoas físicas quanto jurídicas.
A informação é da superintendente nacional de Habitação
da Caixa, Bernadete Maria Pinheiro Coury.
“Com relação
especificamente a esse momento de crise, a orientação que
nós temos e que seguimos é que a Caixa manterá as
condições de financiamento. Não pretendemos aumentar
os juros ou mudar prazos e nem alterar a cota de financiamento. Os prazos
[continuam] de até trinta anos e as cotas de até 100%”,
afirmou ontem (20) em São Paulo, durante a quarta edição
do Fórum Nacional de Sustentabilidade da Construção.
De acordo com Coury, a instituição
financeira não verificou até o momento diminuição
no ritmo de fechamento de contratos de financiamento imobiliário
praticados pelo banco. “Até a semana passada, o ritmo de
contratação não foi alterado. Mas, a gente acredita
que se não houver um recrudescimento da greve [dos bancários],
isso pode ficar um pouquinho comprometido”, considerou.
A superintendente admitiu, porém,
que as construtoras podem eventualmente, no atual momento de crise, diminuir
a quantidade de imóveis lançados no mercado. “Os
empresários estão dizendo que, eventualmente, vão
reavaliar lançamentos. A Caixa vai agir sempre visando ao atendimento
do mercado. Se houver uma redução de oferta de unidades
habitacionais, a gente vai contribuir para que essa redução
não exista, mantendo a oferta de crédito”, disse.
Questionada se recomendaria às
pessoas fechar contratos de financiamento diante da atual conjuntura
econômica, Coury afirmou que “a qualquer momento” a
decisão de assumir um compromisso em longo prazo tem de ser avaliada
pela própria pessoa, de acordo com a condição dela.
“No momento atual, se ela
vier na Caixa buscar um crédito, qual a certeza que ela vai ter?
Que ela está assumindo um crédito com uma taxa de juros
que nós garantimos que, com certeza, está entre as mais
baixas do mercado. Se ela tiver condição, pode assumir
sem medo”, disse.
De acordo com a Empresa Brasileira
de Estudos sobre Patrimônio (Embraesp), os lançamentos residenciais
na cidade de São Paulo totalizaram 23.112 unidades no período
de janeiro a agosto deste ano, um crescimento de 37,7% em relação
ao mesmo período de 2007.
Empresários do setor também
ressaltaram que, por ora, não notaram diminuição
dos negócios e tampouco a fragilização das corporações
do setor, apesar da desvalorização das empresas de construção
na bolsa de valores.
“Em janeiro deste
ano, as ações da Cyrela valiam R$ 29. Na última
sexta-feira, fecharam em R$ 11. E eu posso assegurar que a empresa
hoje é muito melhor do que era em janeiro. A empresa só melhorou,
só cresceu, só ganhou dinheiro, só está mais
sólida. [A desvalorização] não afeta fluxo
de caixa, é uma relação acionista. Afetaria em
uma busca de capitalização futura da empresa, mas nós
não vamos fazer [capitalização] agora por uma
razão óbvia, nós não vamos vender ações
da empresa por R$ 11”, disse Ubirajara Spessotto, diretor-geral
da Cyrela Brazil Realty.
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Agência Diap, 21 de
Outubro de 2008
AUSÊNCIA DE DIÁLOGO
CUT compara governantes tucanos
a generais da ditadura
Em artigo divulgado nesta segunda-feira
(20), o presidente da CUT, Artur Henrique, comparou a truculência,
por parte dos governadores tucanos José Serra (SP) e Yeda Crusius
(RS), ocorrida na semana passada em repressão a manifestações
e greves dos movimentos socais, ao comportamento dos governos da ditadura.
“A ausência de diálogo
e a represália, marca registrada tucana, demonstram um comportamento
semelhante ao dos interventores da ditadura militar”, diz Artur.
Leia abaixo a íntegra
do artigo.
“A CUT tem lado: a classe
trabalhadora
A Central Única dos Trabalhadores
torna público seu repúdio à seqüência
de episódios antidemocráticos que, lamentavelmente, aconteceram
nos últimos dias. São demonstrações explícitas
da truculência dos governos tucanos e patrões neoliberais,
que podem ser comparadas às ocorridas durante o longo período
do regime militar em nosso país.
Os lamentáveis fatos que
ocorreram nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul, especialmente,
são um reflexo do tratamento que esses governos têm dado
aos trabalhadores brasileiros. A ausência de diálogo e a
represália, marca registrada tucana, demonstram um comportamento
semelhante ao dos interventores da ditadura militar.
A CUT, desde sua fundação
há 25 anos, tem como um de seus mais fortes princípios
a liberdade e autonomia sindical, e entende a organização
dos trabalhadores e a negociação coletiva como direitos
inalienáveis, sejam do setor público, privado, urbano,
rural, ativos ou aposentados.
Princípios como estes
guiam nossa Central e nos deixam à vontade para continuar a luta
contra àqueles que ferem a Constituição e que desrespeitam
esses direitos por meio de ataques aos trabalhadores e à dignidade
do povo brasileiro.
É inadmissível
que governos tucanos insistam em confundir a opinião pública
com artifícios fascistas, com o apoio de alguns meios de comunicação
que divulgam informações unilaterais com o intuito de discriminar
e criminalizar movimentos sociais.
Exemplos disso são as
represálias que empresários neoliberais e o tucanato têm
usado covardemente para fazer calar trabalhadores de diversas categorias.
As ações de interditos proibitórios contra os bancários
de todo o país, que estão em greve, é prova notória
de prática anti-sindical.
A truculência da PM para
impedir a manifestação da CUT e dos movimentos sociais
no Rio Grande do Sul, ordenada pela governadora Yeda Cruisis e a irresponsabilidade
de José Serra em São Paulo, em não receber os policiais
civis em greve para negociar, colocaram em risco a segurança da
população.
Porém, fatos reais, deixam
de ser divulgados. “O outro lado da notícia”, tem
como protagonistas bancários, policiais civis, servidores da saúde,
da educação e de outras categorias de trabalhadores que
realizam manifestações para reivindicar direitos – para
que haja negociação.
Este é o lado da CUT:
o da classe trabalhadora, que é o lado do trabalho decente, digno
e de uma sociedade justa. A CUT é a favor do desenvolvimento com
distribuição de renda e valorização do trabalho
e vai continuar a luta em defesa da garantia e ampliação
dos direitos de todos os trabalhadores.
Não vamos nos calar frente às
ameaças, pois queremos que os governos façam valer o direito à negociação
de todos os trabalhadores brasileiros. Nós temos esse direito!
Somos fortes, somos CUT.
Artur Henrique
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Congresso
em Foco, 21 de Outubro de 2008
TSE errou ao usar “ficha-suja”,
diz Ayres Britto
Para o presidente do TSE, uso da expressão
misturou candidatos com pendências isoladas com políticos de “vida
suja”
Responsável pela condução
das eleições deste ano em todo o país, o presidente
do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Carlos Ayres Britto, avalia que o
TSE errou ao referendar o uso da expressão “ficha-suja” para
qualificar candidatos com processos na Justiça. Para o ministro,
o emprego do termo prejudicou “a pureza do movimento” por eleições
limpas ao misturar, em uma mesma lista, candidatos com pendências
judiciais isoladas com políticos com “vida suja”.
“Confundiu um singelo passivo
eleitoral com a vida pregressa desabonadora eticamente. E a nossa intenção
foi não impedir o questionamento de registro de candidatura por
parte de quem responde a uns dois ou três processos isoladamente.
Não foi isso. Nosso propósito foi analisar a biografia social,
a vida toda do candidato”, afirmou nesta entrevista exclusiva ao
Congresso em Foco.
Mesmo assim, Ayres Britto, considerado
um dos ministros mais progressistas do TSE e do Supremo Tribunal Federal
(STF), mantém o otimismo. Para ele, apesar da “aparente derrota”,
o movimento encabeçado contra a candidatura de políticos
com problemas judiciais produziu importantes avanços.
“O eleitor hoje foi devidamente
informado que tem o direito, a que corresponde o dever da Justiça
eleitoral, de conhecer a vida pregressa do candidato. A compreensão
de que, primeiro, voto esclarecido pressupõe conhecimento da vida
pregressa do candidato. Segundo: o voto é o filtro. Essa compreensão
de que o voto é um filtro ganhou em densidade nesta eleição”,
considerou.
Outro ponto positivo desencadeado
pela campanha encabeçada por entidades como a Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Associação dos Magistrados
Brasileiros (AMB), segundo ele, foi a retomada da discussão de 23
propostas que tramitam no Congresso que visam a endurecer as regras para
a concessão de registros de candidaturas.
Prestação de contas
O adjetivo progressista pode ser
usado também para definir sua atuação no comando do
TSE. Em setembro, Ayres Britto perdeu uma batalha que apertaria ainda mais
o cerco contra candidatos que não têm cuidado com dinheiro
público. Na oportunidade, os ministros decidiram que somente vereadores
e deputados podem julgar as contas dos chefes de Executivo.
“Ali foi uma decisão,
do ponto de vista técnico, ao meu sentir, redondamente equivocada.
Mas como nos colegiados prepondera o majoritário, a maioria decidiu,
assim está decidido. A verdade jurídica será restabelecida
pelo Supremo Tribunal Federal”, disse o ministro. Também nesse
caso, otimismo não lhe falta. “A tendência da Justiça
eleitoral é apertar o cerco na matéria da prestação
de contas”, acrescentou.
Além de qualificar como
um equívoco o uso da expressão “ficha-suja”,
Ayres Britto também admite outro erro do TSE na condução
do processo eleitoral deste ano. Na avaliação dele, as restrições
impostas à internet foram excessivas. “Na minha opinião
sim, houve excesso de rigor, que é preciso abrandar e afastar de
todo”, disse.
Doutor em direito constitucional
pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São
Paulo, Ayres Britto foi indicado pelo presidente Lula em julho de 2003
para assumir uma cadeira no STF, no lugar de Ilmar Galvão. Em seu
segundo biênio como titular do Tribunal Superior Eleitoral, assumiu
a presidência da corte em maio deste ano.
Leia a íntegra da entrevista:
Congresso em Foco – O
TSE estabeleceu nos últimos dias o entendimento de quem não
cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) não vai ter o registro
de candidatura aprovado pela Justiça eleitoral (leia mais). É uma
tendência apertar cada vez mais o cerco contra candidatos que não
tiverem zelo pelas contas públicas?
Carlos Ayres Britto – Sim, é uma
tendência. O tribunal exige cada vez mais apego à legislação,
no plano ético, no plano da eficiência administrativa, nesse
plano do cumprimento dos deveres em matéria financeira, em matéria
de dispêndio de dinheiro público, de verbas públicas.
Porque isso se reflete na prestação de contas. Prestação
de contas é um princípio constitucional, republicano por
excelência. A República exige dos governantes, dos administradores
responsabilização pessoal. Monarquia não. Governante
governa e quem responde pelos erros dele são os ministros. A Constituição
Brasileira de 1824 dizia assim: a figura do imperador é sagrada,
inviolável e juridicamente irresponsável. República é outra
proposta. Os governantes são pessoalmente responsáveis pelo
exercício do cargo. Cada vez mais esse postulado republicano se
reflete na justiça eleitoral.
Durante as sessões do TSE, é possível
perceber que esse tema é muito caro para o senhor, principalmente
por causa da sua origem [Ayres Britto foi procurador do Ministério
Público de Contas junto ao Tribunal de Contas de Sergipe]. Em setembro,
houve uma discussão acalorada sobre quem tem atribuição
de aprovar as contas do chefe do Executivo (leia aqui e aqui). O senhor
na época defendeu que, em cidades pequenas, muitas vezes o prefeito
manipula as contas.
Ali foi uma decisão, do
ponto de vista técnico, ao meu sentir, redondamente equivocada.
Mas, como nos colegiados prepondera o majoritário, a maioria decidiu
assim está decidido. A verdade jurídica será restabelecida
pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O procurador-geral da República,
Antonio Fernando de Souza, recorreu extraordinariamente da decisão.
Então o tema será reaberto no Supremo. Porque é o
seguinte pela Constituição: a Câmara de Vereadores
julga o prefeito no plano da prestação das contas anuais.
E ainda assim julga a partir de um parecer técnico dos tribunais
de contas. Parecer que só pode ser rejeitado com 2/3 dos votos da
Câmara municipal. Quando o prefeito não presta contas anuais,
porém, presta contas específicas, administrando uma rubrica
orçamentária, ele é julgado pelo Tribunal de Contas.
O TC é ponto de partida e ponto de chegada. Quando as contas são
anuais, o tribunal é ponto de partida, não é de chegada.
Mas quando a prestação é pontual, é específica,
quando o prefeito aparece como gestor do recurso público, ele pessoalmente
ordenou a despesa, ele não vai ser julgado pela câmara municipal.
Até o ministro Marcelo
Ribeiro, em uma sessão recente, afirmou que essa eleição
tem se caracterizado pela quantidade de recursos e questionamentos tendo
prestações de contas como origem. O senhor compartilha
essa visão? Está acontecendo uma vigilância maior
em cima das contas dos candidatos?
Está. Esse momento da prestação
de contas tende a ser o momento de atenção máxima
por parte da Justiça Eleitoral. Porque prestar contas é um
dever de todo o gestor de coisa pública. No caso dos políticos,
eles prestam contas duas vezes. Prestam contas como autoridades e prestam
contas como destinatários do Fundo Partidário. Os recursos
do Fundo Partidário são públicos. E, por isso, são
geridos pelos administradores públicos em geral: prefeitos, vereadores,
secretários municipais, dirigentes de autarquias. A tendência
da Justiça eleitoral é apertar o cerco na matéria
da prestação de contas.
De acordo com o último
balanço do tribunal, 6 mil recursos chegaram nesta campanha ao
TSE, mas ainda faltavam julgar aproximadamente 2,5 mil (leia mais). O
senhor tem uma idéia de quantos destes recursos envolvem prestações
de contas?
Não, mas como você está percebendo,
uma boa parte é. Sem falar no seguinte: quando a origem do financiamento
de campanha é ilícita, é espúria, está presente
o caixa 2. E o caixa 2 é o início da corrupção.
Quem financia pelo caixa 2 uma campanha política, no fundo, está fazendo
um investimento, uma aplicação financeira. Visa o retorno
do capital empregado. O eleito, eventualmente, com financiamento espúrio,
mediante caixa 2, ele já chega ao poder comprometido até a
raiz dos cabelos com os financiadores. Qual o modo de pagar os financiadores? É administrando
espuriamente, obscenamente, desonestamente a coisa pública. Ele
vai pagar o financiador sob a forma de superfaturamento de compras, sob
a forma de cessão ou concessão de serviço público
com dispensa de licitação. Ou o fracionamento de despesa
para evitar licitação. Ou nomeação para cargos
de confiança. Um novo processo de corrupção começa
no caixa 2
Na campanha para a prefeitura
do Rio de Janeiro, o candidato Fernando Gabeira (PV) liberou, em seu
site oficial – http://www.gabeira43.com.br, o nome e o valor dos
seus doadores, assim como os gastos, de toda a campanha. Quem colabora
acaba tendo um viés de apoiador e deixa de ser financiador. Essa
iniciativa poderia ser implantada para dar mais transparência ao
processo eleitoral?
Eu diria que sim. É um desafio
nosso regulamentar esse tipo de financiamento, conhecer na plenitude os
financiadores e os destinatários de financiamento. A quantia financiada,
o modo pelo qual se deu o financiamento, o futuro aponta para essa direção.
O senhor é a favor
do financiamento público de campanha?
Eu compartilho ao menos como rito
de passagem necessário. Agora, enquanto não houver, é possível
trabalhar com financiamento via internet, porém com plena identificação
dos doadores, dos destinatários, o modo pelo qual a quantia foi
doada e a prestação de contas.
Qual o balanço que
o senhor faz da eleição até agora?
O saldo é altamente positivo.
Boas novidades, como a fisionomia e o nome todo do vice-prefeito na urna,
a eleição biométrica em Santa Catarina, Rondônia
e Mato Grosso do Sul, a liberação da imprensa escrita, impressa,
para entrevistas sem nenhuma censura de conteúdo, a possibilidade
de a mídia impressa apoiar um candidato, a comprovação
da extrema eficiência da urna eletrônica, que refletiu na rapidez
da apuração. Também a vitoriosa coalizão de
forças no Rio de Janeiro para assegurar a legitimidade do processo
eleitoral.
Na atuação das forças
armadas, tivemos a situação em Benedito Leite (MA), onde
a eleição chegou a ser cancelada por causa dos tumultos.
Lá o contingente das Forças
Armadas foi insuficiente. Mas reagiram, resistiram, pelo menos impediram
que o juiz e o filho fossem trucidados.
Mas lá a situação
toda ocorreu por conta de decisões polêmicas do próprio
juiz eleitoral da cidade.
Dizem que sim.
Até o ministro Eros Grau
chegou a defender a punição do juiz eleitoral (leia mais)...
Ele por sinal foi afastado da direção
do processo.
No começo do processo eleitoral
deste ano, teve a polêmica envolvendo a Resolução 22.178,
de 2008, que, entre outras coisas, tratava da internet e era extremamente
restritiva sobre a eleição na rede mundial de computadores.
Foi outro salto positivo. Nós
ampliamos o uso da internet aos partidos políticos, abrindo páginas
específicas, próprias, não só dos candidatos,
abrimos para os partidos e coligações. E hoje deveremos tomar
uma decisão muito importante, liberando os jornais ter na internet
a mesma liberdade de informação e opinião que desfrutam
na sua mídia impressa. [NR: Na sessão da última sexta
(17), o TSE confirmou a previsão que o presidente havia dado ao
Congresso em Foco, leia aqui.)
Os outros sites também
seriam liberados?
A tendência é essa.
A tendência é a liberação das possibilidades
da internet para fins de campanha eleitoral. Em verdade, é uma mídia
que maximiza a interatividade. O informado dialoga com a fonte da informação
em tempo real. Há um diálogo. E se o informante se sentir
assediado, ele deleta a mensagem. Se se sentir seduzido, ele retransmite
a mensagem. Você caminha para um estado de plenitude de informação.
Houve um excesso de rigor no começo,
ministro? Até o ministro Joaquim Barbosa defendeu, após a
edição da Resolução 22.178, que cada caso deveria
ser julgado separadamente.
Na minha opinião sim, houve
excesso de rigor, que é preciso abrandar e afastar de todo.
Ministro, nunca se divulgou
tanto relação de candidatos com problemas na Justiça.
Entretanto, vemos ainda vários candidatos com vários processos
concorrendo a cargos eletivos. Muitos deles se elegendo. Que avaliação
o senhor faz desse quadro?
Foi uma aparente derrota. Porque
se “ficha-suja” não significa necessariamente condição
de elegibilidade, mas entrou na pauta das grandes preocupações
nacionais, nos grandes debates, nas reflexões. O eleitor hoje foi
devidamente informado que tem o direito, a que corresponde o dever da Justiça
eleitoral, de conhecer a vida pregressa do candidato. A compreensão
de que, primeiro, voto esclarecido pressupõe conhecimento da vida
pregressa do candidato. Segundo: o voto é o filtro. Essa compreensão
de que o voto é um filtro ganhou em densidade nesta eleição.
Porque você precisa conhecer da vida pregressa do candidato para
fazer do voto um filtro. Outra compreensão que resultou mais clara
nesse processo eleitoral é de que o ideal na qualificação
da vida política se atinge pela eleição popular. Não
há outro momento.
Agora, essa aparente derrota,
como o senhor qualificou, pode ser a origem de uma legislação
mais dura?
Dizem que 23 projetos de lei estão
tramitando no Congresso Nacional. Surgiram dois grandes movimentos nacionais.
Um liderado pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil),
com a coleta de assinaturas para a proposição de um projeto
de lei sobre a vida pregressa do candidato. E outro da AMB (Associação
dos Magistrados Brasileiros), que divulgou listas e que incitou um movimento
que faz parte desse saldo positivo que nós podemos fazer da eleição.
Quase duas mil audiências públicas foram realizadas no Brasil
em uma parceria do TSE com a AMB.
O senhor aponta algum equívoco
na condução do processo eleitoral pelo TSE?
Sim, a expressão “ficha-suja” prejudicou
a pureza do movimento. Porque confundiu um singelo passivo eleitoral com
a vida pregressa desabonadora eticamente. E a nossa intenção
foi não impedir o questionamento de registro de candidatura por
parte de quem responde a uns dois ou três processos isoladamente.
Não foi isso. Nosso propósito foi analisar a biografia social,
a vida toda do candidato. Porque, quando você diz “ficha-suja”,
quem tem um processo ou dois, embora seja uma pessoa decente, já se
colocou contra. Isso foi ruim. Quem usou uma expressão correta foi
a jornalista Dora Kramer quando ela disse “vida suja”. Aí sim.
Nós queríamos ir atrás das pessoas, não a que
tem ficha suja eventual, mas sim [aqueles com] vidas sujas.
Voltando à quantidade
de recursos, a que se deve esse grande volume? É uma maior fiscalização,
mais conscientização dos eleitores?
São muitas as explicações.
Uma sociedade que se democratiza, que se pauta pela visibilidade, pela
transparência, pela liberdade de expressão, a litigiosidade
aumenta. É curioso isso, porque as pessoas cobram mais das pessoas.
As pessoas querem se informar, se inteirar. Sabem de coisas que antes passavam
por debaixo dos panos. Hoje as coisas vêm a público. O financiamento
espúrio de campanha, um transporte enrustido de eleitores, uma compra
de voto. Não basta que litigiosidade aumente. Para que ingresse
no campo jurídico, é preciso confiar na Justiça. Porque
se você não confiar na Justiça você tende a resolver
seus problemas nos planos dos fatos. Se você confia na Justiça,
você sai do plano dos fatos e vai para o jurídico. O Judiciário
está mais abarrotado porque há mais confiança nele.
Sobretudo na Justiça Eleitoral. Ela encurta duas distâncias.
A primeira entre a postulação judiciária e a resposta.
Segundo encurtamento de distância: entre a resposta judiciária
e a sua execução.
Qual o grande desafio da
Justiça eleitoral para as próximas eleições?
O grande desafio começa
com a informatização do formulário do pedido de
registro de candidatura. Nós devemos bolar um formulário
a transcrever todos os dados de seu passivo processual. Quem sabe daqui
a dois anos teremos. É preciso avançar na implantação
da identificação biométrica do eleitor. Vamos acabar
de vez com as candidaturas clandestinas. Suplentes de senador, vice-governador,
vice-presidente... temos vários mecanismos de aperfeiçoamento
para o futuro. E essa eleição serve como um grande ponto
de partida.
|
Congresso em Foco, 21 de Outubro de 2008
O neoliberalismo dançou
Márcia Denser*
Sei que estou devendo até a
alma¹ para os meus leitores, mas não posso deixar de prestar
este grande serviço a todos vocês, representado por esta
pesquisa das grandes e sábias vozes a interpretar o que realmente
está acontecendo por aí, o que fatalmente sinaliza o começo
do fim do neoliberalismo, a política cruel que durante trinta
anos castiga o planeta. Lá vai, pessoal:
O desmoronamento de Wall Street é comparável,
no âmbito financeiro, ao que representou, no geopolítico,
a queda do muro de Berlim. Uma mudança de mundo e um giro copernicano.
Quem o afirma é o Nobel de Economia, Paul Samuelson: “Esta
débâcle é para o capitalismo o que a queda da URSS
foi para o comunismo”. Termina o período aberto em 1981
com a fórmula de Ronald Reagan: “O Estado não é a
solução, é o problema.” Durante trinta anos,
os fundamentalistas do mercado repetiram que este tinha razão,
que a globalização era sinônimo de felicidade, e
que o capitalismo financeiro edificava o paraíso terreno para
todos. Equivocaram-se.
A “idade de ouro” de Wall Street acabou. E também acabou
um período de exuberância e esbanjamento representada por uma
aristocracia de banqueiros de investimento, “amos do universo” denunciados
por Tom Wolfe em “A Fogueira das Vaidades” (1987). Possuídos
pela lógica da rentabilidade de curto prazo. Pela busca dos lucros exorbitantes.
Dispostos a tudo para obter mais lucros: vendas abusivas no curto prazo, manipulações,
invenção de instrumentos opacos, titulação de ativos,
contratos de cobertura de riscos, fundos Hedge. A febre do proveito fácil
contagiou a todo o planeta. Os mercados se sobreaqueceram, alimentados pelo
excesso de financeirização que facilitou a alta dos preços.
A globalização conduziu a economia mundial a tomar a forma de
uma economia de papel, virtual, imaterial. A esfera financeira chegou a representar
mais de 250 trilhões de euros, ou seja, seis vezes o montante de riqueza
real mundial. E, de chofre, essa gigantesca “bolha” explodiu. O
desastre é de proporções apocalípticas. Mais de
200 bilhões de euros derreteram. A banca de investimento foi varrida
do mapa. As cinco maiores entidades desmoronaram: Lehman Brothers na bancarrota;
Bear Stears foi comprado com a ajuda do Federal Reserve, por Morgan Chase;
Merril Lynch foi adquirido pelo Bank of America; e dois dos últimos,
Goldman Sachs e Morgan Stanley (em parte comprado pelo japonês Mitsubishi
UFJ), reconvertidos em bancos comerciais.
Toda a cadeia de funcionamento do aparato financeiro colapsou. Não só a
banca de investimento, mas os bancos centrais, os sistemas de regulação,
os bancos comerciais, as caixas econômicas, as companhias de seguros,
as agências de qualificação de risco (Standard&Poors,
Moody's, Fitch) e até as auditorias contábeis (Deloitte, Ernst&Young,
PwC).
O naufrágio não pode surpreender a ninguém. O escândalo
das “hipotecas lixo” era conhecido de todos. Assim como o excesso
de liquidez orientado para a especulação, e a explosão
delirante dos preços do custo de vida. Tudo isso foi denunciado há tempo.
Sem que ninguém se mexesse. Porque o crime beneficiava a muitos. E se
seguiu afirmando que a empresa privada e o mercado solucionavam tudo.
A administração do presidente George W. Bush teve de renegar
esse princípio e recorrer, maciçamente, à intervenção
do Estado. As principais entidades de crédito imobiliário, Fannie
Mae y Freddy Mac, foram nacionalizadas. Também o foi o American International
Group (AIG), a maior companhia de seguros do mundo. E o secretário do
tesouro, Henry Paulson (ex-presidente do banco Goldman Sachs) propôs
um plano de resgate de ações “tóxicas” procedentes
das “hipotecas lixo” (subprime) por um valor de uns 500 bilhões
de euros, que o Estado também adiantará, quer dizer, os contribuintes.
Prova do fracasso do sistema, essas intervenções do Estado – as
maiores, em volume, da história econômica – demonstram que
os mercados não são capazes de se regularem por si mesmos. Se
autodestruíram por sua própria voracidade. Ademais, confirma-se
uma lei do cinismo neoliberal: privatizaram os lucros mas se socializaram as
perdas. Os pobres têm de arcar com as excentricidades irracionais dos
banqueiros, e se lhes ameaça, em caso de não quererem pagar,
com o seu maior empobrecimento.
As autoridades norte-americanas dedicam-se ao resgate dos “banksters” (“banqueiro
gângster”), às expensas dos cidadãos. Há alguns
meses o presidente Bush se negou a assinar uma lei que oferecia uma cobertura
médica a nove milhões de crianças pobres por um custo
de 4 bilhões de euros. Considerou um gasto inútil. Agora, para
salvar aos rufiões de Wall Street, nada lhe parece suficiente. Socialismo
para os ricos e capitalismo selvagem para os pobres.
Este desastre ocorre num momento de vazio teórico das esquerdas, que
não têm um “plano B” para tirar proveito do descalabro.
Em particular as da Europa, asfixiadas pelo choque da crise, quando seria tempo
de refundação e de audácia.
Quanto durará a crise? “Vinte anos se tivermos sorte, ou menos
de dez se as autoridades agirem com mão firme”, vaticina o editorialista
neoliberal Martin Wolf (1). Se houvesse alguma lógica política,
este contexto deveria favorecer a eleição do democrata Barack
Obama (em não sendo assassinado) para a presidência dos Estados
Unidos no 4 de novembro próximo. É provável que, como
D. Roosevelt, em 1930, o jovem presidente lance um novo “New Deal”,
baseado no neokeynesianismo que confirmará o retorno do Estado à esfera
econômica. E que trará, por fim, mais justiça social aos
cidadãos. Vai se caminhar para um novo Bretton Woods. A etapa mais selvagem
e irracional da globalização terá terminado.
Ignácio Ramonet, jornalista, ex-editor
do Le Monde Diplomatique
Entupiu o sistema circulatório do capitalismo. É preciso
agir rápido, antes que ocorra a trombose.
As autoridades monetárias de todo o mundo
têm que intervir rápido, antes que se forme a pior das bolhas,
a de pânico, que é essa que está em curso.
Na crise de 1929 o crédito também
refluiu, mas isso se deu na esteira da desaceleração da
atividade econômica, que foi brutal, caiu mais de 25% nos EUA.
A recessão então é que diminuiu a demanda por financiamento.
Hoje não. A economia não está em recessão – exceto
talvez no Japão e engatinha na Europa. Mas é justamente
esse paradoxo que mata o sistema: não existe crédito para
a atividade econômica em curso. Pára tudo – e de repente:
daí o pânico”
O Brasil tem algumas vantagens importantes em
relação a outros emergentes. E o governo Lula deverá saber
usá-las. Primeiro, nós não somos exportadores de
petróleo e metais – nesse sentido a crise pega a Venezuela
e o Chile de frente. Vão ter problemas sérios porque as
cotações despencam. Nós vendemos comida e isso deve
se manter em bom nível. Segundo: temos, graças a Deus,
três fortes bancos estatais, o que dá ao governo instrumentos
para intervir fortemente no mercado. Mais ainda, temos pelo menos três
grandes empresas públicas de peso, um trunfo que conseguimos salvar
do ciclo de privatizações desfechado pelo governo anterior.
O que é preciso é agir com rapidez
e contundência. Desentupir o sistema de crédito. Por exemplo?
O Banco Central deve obrigar os bancos a repassarem de fato os recursos
liberados do compulsório para irrigar a economia (NR: uma das
medidas já tomadas foi a redução do percentual de
recolhimento de depósitos à vista no BC). Eles têm
que emprestar a quem precisa. O governo fez a sua parte, deu a cenoura
para os grandes bancos repassarem liquidez. Se eles insistirem em segurar
recursos o governo deve impor uma penalização forte sobre
o volume retido. Já demos a cenoura – se a mula empaca é hora
do stick (o porrete)”.
Maria Conceição Tavares,
economista
É preciso deixar de lado a esperança
liberal de que os bancos vão agir em benefício da sociedade
e do desenvolvimento. O governo tem que injetar crédito direto
na veia do setor produtivo e demais instituições. A palavra
que falta dizer é: estatização do crédito.
Lembro que os fatos caminham à frente
das idéias também neste caso. Como decorrência da
desregulação geral das finanças, desde os anos 70,
os bancos sofreram uma mutação em todo mundo. Eles renunciaram à condição
original de emprestadores finais, aqueles que geram o crédito
e carregam o risco até a liquidação dos contratos:
tornaram-se meros corretores das finanças. O banco continua a
originar o empréstimo, mas securitiza a operação,
revendendo-a no mercado de forma a dividir os riscos.
O problema é que esse mecanismo de defesa
degenerou-se.
Assumiu a forma de imensas pirâmides de ativos securitizados, em diferentes
versões de derivativos que turbinaram os circuitos especulativos das
finanças desreguladas. Sua essência desestabilizadora – são
pirâmides invertidas cujo ponto de apoio em valor real se esfumou - só foi
reconhecida pelos neoliberais urbi et orbi quando a casa caiu nos EUA, na explosão
da bolha imobiliária.
Luiz Gonzaga Belluzzo, economista, professor-titular
do Instituto de Economia da Unicamp e presidente do Centro Internacional
Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento.
As medidas nacionalizantes de ações
e bancos anunciadas pelo primeiro ministro Gordon Brown, do mesmo Labour
Party de Blair, tiveram um poder eletrizante em relação
aos demais governantes dos países diretamente envolvidos com as
causas da crise, nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia. As medidas,
elogiadas de imediato pelo novo ganhador do Prêmio Nobel de Economia,
Paul Krugman, conhecido crítico das políticas econômicas
e externas de Bush, foram profundas e cortantes, equivalendo, em alguns
aspectos, a aplicação de uma lei marcial nas instituições
Larry Eliot, editor de economia do The Guardian,
comentou em vídeo gravado na página do jornal, que chegara “a
hora da esquerda”. É claro que “esquerda” neste
contexto londrino, quer dizer algo diferente do que em Caracas ou mesmo
no Rio de Janeiro. Quer dizer a defesa de uma melhor e mais profunda
regulamentação dos mercados, coisa com que todos, no momento
(na página da CBN vi comentário até do Arnaldo Jabor
neste sentido!!) parecem concordar. Parecem? Vejamos.
A reação da The Economist é muito
sintomática neste sentido. A revista é uma publicação
seriíssima, aberta ao debate político e econômico
de uma multiplicidade de correntes, mas com uma posição
editorial declarada e assumida em defesa do livre mercado (por isso mesmo,
por sua posição ser aberta e declarada, é dos jornais
mais confiáveis, daqueles que ainda procuram distinguir fato de
opinião).
Em artigo de 9/10 (“Saving the System”),
depois de assinalar que, só em setembro, 159 mil trabalhadores
norte-americanos perderam o emprego, e que o custo da empreitada já está chegando
nos Estados Unidos a 1 trilhão de dólares, duas vezes o
custo da guerra no Iraque, diz o jornal: “A direção
da globalização vai mudar”. Esse processo está sendo
revertido de três modos:
1) As finanças do Ocidente voltarão
a ser regulamentadas.
2) O equilíbrio entre o Estado e o Mercado
está mudando em outras áreas, além da de finanças.
Exemplo: o do preço dos alimentos, onde vários governos
estão tomando medidas estritas de controle de preços, de
limitação de exportações e outras, em escala
mundial.
3) Os Estados Unidos estão perdendo a
sua posição de vanguarda econômica e a sua autoridade
intelectual, em favor de nações que mantém uma posição
forte quanto à capacidade de crédito, como a China. Aqui
The Economist cita a frase do premiê chinês sobre serem os
países do Ocidente os “mestres” e os outros os “discípulos” em
matéria de economia: “parece que os mestres estão
em dificuldade”.
Flávio Aguiar, editor da Carta Maior
A liberalização financeira teve
efeitos para muito além da economia. Há muito que se compreendeu
que era uma arma poderosa contra a democracia. O movimento livre dos
capitais cria o que alguns chamaram um “parlamento virtual” de
investidores e credores que controlam de perto os programas governamentais
e “votam” contra eles, se os consideram “irracionais”,
quer dizer, se são em benefício do povo e não do
poder privado concentrado. Os investidores e credores podem “votar” com
a fuga de capitais, com ataques às divisas e com outros instrumentos
que a liberalização financeira lhes serve de bandeja. Essa é uma
das razões pelas quais o sistema de Bretton Woods, estabelecido
pelos EUA e pela Grã-Bretanha depois da II Guerra Mundial, instituiu
controle de capitais e regulou o mercado de divisas.
Pode ser que a paixão pela campanha não
seja uma coisa universalmente compartilhada, mas quase todo mundo pode
perceber a ansiedade desencadeada pela execução hipotecária
de um milhão de residências, assim como a preocupação
com os riscos que correm os postos de trabalho, as poupanças e
os serviços de saúde. As propostas iniciais de Bush para
lidar com a crise fediam a tal ponto a totalitarismo que não tardaram
a ser modificadas. Sob intensa pressão dos lobbies, foram reformuladas “para
o claro benefício das maiores instituições do sistema...
uma forma de desfazer-se dos ativos sem necessidade de fracassar ou quase”,
segundo descreveu James Rickards, que negociou o resgate federal por
parte do fundo de cobertura de derivativos financeiros Long Term Capital
Management em 1998, lembrando-nos de que estamos caminhando em terreno
conhecido. Como era previsível, as medidas tomadas a esse respeito
incrementaram a frequência e a profundidade dos grandes reveses
econômicos, e agora estamos diante da ameaça de que se desencadeie
a pior crise desde a Grande Depressão. Os EUA têm efetivamente
um sistema de um só partido, o partido dos negócios, com
duas facções, republicanos e democratas. Há diferenças
entre eles. Larry Bartels mostra que durante as últimas seis décadas “a
renda real das famílias de classe média cresceu duas vezes
mais rápido sob administração democrata que republicana.
Os eleitores deveriam tê-las em conta,
mas sem ter ilusões sobre os partidos políticos, e reconhecendo
o padrão regular que, nos últimos séculos, vem revelando
que a legislação progressista e de bem-estar social sempre
foram conquistas das lutas populares, nunca presentes dos de cima.
Noam Chomsky, professor emérito de lingüística no MIT – Massachussets
Institute of Technology
O tempo foi passando, passando, a situação
do mundo complicando-se cada vez mais, e a esquerda, impávida,
continuava a desempenhar os papéis que, no poder ou na oposição,
lhes haviam sido distribuídos. Eu que, entretanto, tinha feito
outra descoberta, a de que Marx nunca havia tido tanta razão como
hoje, imaginei, quando há um ano rebentou a burla cancerosa das
hipotecas nos Estados Unidos, que a esquerda, onde quer que estivesse,
se ainda era viva, iria abrir enfim a boca para dizer o que pensava do
caso.
Já tenho a explicação: a esquerda não pensa, não
age, não arrisca um passo. Passou-se o que se passou depois, até hoje,
e a esquerda, cobardemente, continua a não pensar, a não agir,
a não arriscar um passo. Por isso não se estranhe a insolente
pergunta do título: “Onde está a esquerda?” Não
dou alvíssaras, já paguei demasiado caras as minhas ilusões.
José Saramago, escritor.
Bom, a notinha mais fraca é, para variar,
por conta do Saramago, que se queixa tolamente da “esquerda”,
tal qual alguém “sem nenhum poder” a culpar “alguma
instância superior”, porquanto, mais acima, Chomsky esclarece: “a
legislação progressista e de bem-estar social sempre foi
conquista das lutas populares, nunca presente dos de cima”.
Não só das lutas populares, meu
amigo, mas do próprio capitalismo selvagem que nos fez o favor
de se suicidar. De forma que aqui, agora, esta noite, a liberdade!
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¹ A
Morte da Alma Nacional by myself.
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BEM PARANÁ, 21 de
outubro de 2008 | Política
Eleições
TSE aperta o cerco contra o “caixa-dois”
Justiça vai cruzar informações
de fornecedores com as prestações de contas
Abraão Benício
Jonas Oliveira
Cenas de campanha: TSE quer ajuda de empresas para descobrir quem gastou a
maisO Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com base em um cruzamento dos dados
fornecidos pelos candidatos e comitês financeiros com informações
prestadas por comerciantes e fornecedores de de material publicitário,
vai fiscalizar as prestações de contas de campanha em busca de
possíveis irregularidades, como o “caixa-dois”. Em iniciativa
inédita, a Justiça Eleitoral está encaminhando correspondência
oficial aos fornecedores de políticos e partidos pedindo que alimentem
a página oficial do TSE na internet com informações sobre
vendas e serviços prestados aos candidatos e legendas no período
de campanha.
De acordo com o TSE, cada correspondência
contém identificação personalizada de usuário
e senha de acesso ao banco de dados. A legislação eleitoral
prevê que os candidatos que disputaram o primeiro turno têm
até o próximo dia 4 para entregar a prestação
de contas final da campanha. Por lei, os eleitos só tomam posse
depois de terem suas respectivas contas julgadas e aprovadas pela Côrte
do Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Para agilizar o processo e cumprir
o prazo, os juízes eleitorais priorizam o julgamento das receitas
e despesas dos eleitos. Em Curitiba, a diplomação está prevista
para o próximo dia 19 de dezembro, no Teatro Positivo.
Os candidatos que estiverem envolvidos
no segundo turno têm prazo de até 30 dias depois da disputa
para entregarem a prestação de contas. No Paraná,
apenas em Londrina – Antonio Belinati (PP) e Luiz Carlos Hauly
(PSDB) – e Ponta Grossa – Wosgrau (PSDB) e Sandro Alex (PPS) – a
disputa prossegue. Esta é a primeira vez na história que
a entrega pode ser feita pela internet, em um sistema semelhante ao utilizado
pela Receita Federal.
Parcial – No
início de setembro, os candidatos entregaram a segunda prestação
de contas parcial da campanha 2008. Na ocasião, os oito candidatos à prefeitura
de Curitiba já haviam gasto juntos R$ 5,98 milhões - o
que significa um gasto médio de R$ 99,7 mil por dia. A soma das
arrecadações dos comitês financeiros já ultrapassava
R$ 7,2 milhões.
Os números da época
revelavam que Gleisi Hoffmann (PT), que terminou a disputa em segundo
lugar com pouco mais de 18% dos votos, tinha a maior receita (R$ 3,2
milhões) e despesas (R$ 2,2 milhões.
Em segundo lugar na arrecadação
aparecia o prefeito reeleito Beto Richa (PSDB), com R$ 2,9 milhões – dos
quais R$ 2,4 milhões são doações. No entanto,
o tucano era campeão nas despesas - R$ 2,5 milhões, gastos
em sua maior parte na produção dos programas para a TV.
Naquele momento, o candidato
mais barato era Ricardo Gomyde (PCdoB), que declarou ter arrecado pouco
mais de R$ 13,3 mil e, mesmo assim, continuava com crédito na
conta, já que havia gasto cerca de R$ 7,1 mil. O segundo mais
modesto era Bruno Meirinho (PSOL), com arrecadação de R$
22,75 mil e gastos R$ 20,6 mil.
Vermelho – A
segunda prestação de contas mostrava o candidato apoiado
pelo governador Roberto Requião, Carlos Moreira (PMDB), assim
como aconteceu na primeira parcial, com as contas no vermelho. A coordenação
da campanha de Moreira informou que, na época, a campanha havia
custado pouco mais de R$ 1,065 milhão, mas a arrecadação
foi de apenas R$ 894 mil. Portanto, a dívida de R$ 37.716,72 verificada
na primeira parcial aumentou para R$ 171 mil na segunda.
O candidato do PTB, Fábio Camargo, também apresentava déficit,
já que tinha arrecadado R$ 98,3 mil e gasto R$ 99,2 mil.
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Agência Senado, 21 de Outubro de 2008
Alvaro Dias propõe uso de
cartão de crédito em doação para campanhas
eleitorais
Encontra-se na Comissão
de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) projeto
de lei que visa permitir a doação de recursos financeiros
para campanhas eleitorais por meio de cartões de pagamento. A
proposta é de autoria do senador Alvaro Dias (PSDB-PR) e aguarda
a designação do relator na CCJ, onde receberá decisão
terminativa.
A proposta (PLS 373/08) altera
a lei que estabelece normas para eleições (Lei 9.504/07)
com a finalidade de permitir que doações sejam realizadas
também por meio de cartões de crédito ou de débito.
De acordo com a legislação em vigor, as doações
podem ser feitas mediante cheques nominais e cruzados ou por transferência
eletrônica de depósitos, bem como por meio de depósito
em dinheiro, desde que identificado. Tais doações, determina
ainda a lei vigente, devem ser depositadas em conta aberta pelo partido
e pelos candidatos especificamente para registrar o movimento financeiro
da campanha eleitoral.
Como a lei não prevê a
utilização de cartões em doações para
campanhas eleitorais, ressaltou o autor na justificação
da proposta, os candidatos brasileiros deixam de utilizar o potencial
da Internet para arrecadar recursos. Na opinião de Alvaro Dias,
não há razão para esse impedimento, uma vez que
os cartões de pagamento também permitem a identificação
do doador, como ocorre nos demais instrumentos permitidos pela lei.
Os candidatos à Presidência
dos Estados Unidos, observou o senador pelo Paraná, usam de
forma intensiva a Internet para arrecadação de fundos.
No Brasil, afirmou, os candidatos usam a rede de computadores apenas
para apresentar suas propostas e dialogar com os eleitores, e não
para pedir doações ou divulgar a relação
de contribuições e doadores.
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Agência Diap, 21 de Outubro de 2008
TERCEIRIZAÇÃO
PL 4.302/98: alterações
não tiram caráter precarizador do projeto
Marcos Verlaine*
Aprovado com cinco alterações
na Comissão de Trabalho da Câmara, o PL 4.302/98 não
perdeu seu caráter precarizador das relações de
trabalho. As alterações, em alguns casos, dão com
uma mão e tiram com a outra. Antes de analisar cada uma das “mudanças” inseridas
no substitutivo do Senado, em forma de destaque, é preciso fazer
um alerta ao movimento sindical.
Uma força desconhecida
impede a votação da Mensagem presidencial 389/03, do presidente
Lula, que pede o arquivamento do projeto. Os quatro presidentes, da base
aliada, que ocuparam o cargo na Câmara – João Paulo
Cunha (PT/SP), Severino Cavalcanti (PP/PE), Aldo Rebelo (PCdoB/SP) e
Arlindo Chinaglia (PT/SP) – não conseguiram colocar em pauta
a mensagem.
Diante disso é preciso
reconhecer que essa força desconhecida tem capacidade de influenciar,
pois não só consegue bloquear a votação da
mensagem de arquivamento do projeto, mas também se movimenta e
faz o projeto avançar na Câmara.
Assim, o movimento sindical precisa
acionar uma força ainda maior de modo a pressionar os deputados
a votar o pedido de Lula pelo arquivamento do nefasto projeto de terceirização
que tramita na Casa há 10 anos. E esse movimento precisa ser já,
pois a matéria está na Comissão de Constituição
e Justiça, que não votará o mérito da proposição,
mas o substitutivo aprovado na Comissão de Trabalho.
A votação simbólica
na Comissão de Trabalho, com uma abstenção do deputado
Paulo Pereira da Silva (PDT/SP), caracteriza que houve acordo. O texto
foi aprovado por 26 dos 27 deputados presentes à sessão.
Diante deste fato, os deputados em plenário poderão entender
que se a principal comissão de mérito sobre o projeto o
aprovou sob acordo, então o tema está pacificado e não
há problemas para votá-lo de forma conclusiva e enviá-lo
para sanção presidencial.
Este projeto tem um caráter
semelhante à Emenda 3. Pela experiência acumulada, não
dá para diante desses impasses pedir para o Presidente sempre
arbitrar em favor dos trabalhadores. Ele pode até fazê-lo,
mas as forças que pressionam o Congresso a votar a favor do texto
também irão pressionar Lula para sancionar o texto, caso
seja aprovado pela Câmara. A luta contra o projeto tem que ser
já, na CCJ, e no plenário, para que votem a mensagem de
arquivamento.
São duas frentes de batalha,
que exigem decisão rápida, vigorosa e contundente do movimento
sindical.
Destaques
Não faz mal lembrar, que
todos os cinco destaques aprovados pela Comissão foram assinados
pelos vice-líderes partidários que compõem o colegiado.
E, segundo o deputado Roberto Santiago (PV/SP), não houve alternativa – isto é,
o movimento pela aprovação do PL 4.302 se antecipou e impôs
a aprovação do texto.
Uma das alterações
aprovadas prevê que “o contrato de trabalho temporário
pode versar sobre o desenvolvimento de atividades-meio e atividades-fim
a serem executadas na empresa tomadora de serviços”. Com
isto, sem citar quais são as atividades-fim, o projeto cria precedentes
para terceirizar tudo numa empresa.
Outra determina que “a
empresa contratante é solidariamente responsável pelas
obrigações trabalhistas e previdenciárias referentes
ao período em que ocorrer a prestação de serviços”.
Com os salários aviltantes que os terceirizados recebem, esta
alteração não passa de uma alegoria.
Uma terceira determina que “é proibida
a contratação de trabalho temporário pra a substituição
de trabalhadores em greve”. Mas como não há nenhuma
norma contra a demissão arbitrária, os trabalhadores em
greve podem ser demitidos e novos terceirizados podem ser contratados
em substituição aos grevistas. Ou seja, troca-se seis por
meia dúzia.
Foi suprimido do texto o parágrafo
2º do artigo 19, que anistiava dos “débitos, das penalidades
e das multas” as empresas que vinham contratando irregularmente,
antes da eventual mudança.
Por fim, a quinta alteração
suprimiu do texto aprovado no Trabalho, o artigo 4º B, inciso III,
que estabelecia parâmetros para a terceirização no
que diz respeito à quantidade de empregados e capital mínimo.
Fim do vínculo empregatício
Seguramente, a aprovação
do PL 4.302 representa o fim do vínculo empregatício. Ele
poderá até existir no papel, mas dificilmente será adotado
pelas empresas. Entenda por quê:
1) O projeto generaliza a contratação
terceirizada em caráter permanente e para qualquer atividade,
urbana ou rural, inclusive do mesmo grupo econômico. A empresa
poderá ter 100% dos seus funcionários por terceirização
ou até mesmo quarteirização (esta possibilidade
também está prevista na proposição).
2) O projeto assegura não
haver “vínculo empregatício entre os trabalhadores
ou sócios das empresas prestadoras de serviços (...) e
a empresa contratante”. Ora, isso legaliza aquela situação
em que a empresa “propõe” ao seu empregado a abertura
de uma empresa ou a adesão a uma pseudocooperativa. Um prato cheio
para a Super-Receita analisar...
Afinal, quem são os “sócios” se
não os funcionários que passaram a condição
de “prestador de serviços”, cooperados ou não??.
Esse é o grande “pulo do gato”. Livra a empresa do ônus
de contratar, promovendo, simultaneamente as reformas trabalhista e tributária.
3) Ainda que exista vínculo
do empregado com a empresa prestadora de serviço, uma coisa é certa:
ao contratar “serviços” e não mais pessoas,
a empresa estará livre de cumprir as regras estabelecidas por
convenções coletivas dos empregados agora substituídos
por “terceirizados”.
4) A nova modalidade instituída
pelo projeto não vale para as empresas que já vinham contratando
irregularmente (as mesmas que serão anistiadas). Para essas, os
contratos “poderão adequar-se à nova lei”,
mediante contrato entre as partes.
Além de introduzir a terceirização
como norma legal, o PL 4.302 altera as regras de contratação
temporária, também por empresa interposta. Entre outras
medidas, um trabalhador poderá permanecer em uma empresa como “temporário” por
até 270 dias ou prazo ainda maior, se constar de acordo ou convenção
coletiva.
Ao final do contrato, sai da
empresa com uma mão na frente e outra atrás... A proposta
também cuida de assegurar que não existe vínculo
empregatício entre o empregado temporário e a empresa contratante.
A aprovação do
PL 4.302/98 na Comissão de Trabalho demonstra um descaso com a
mensagem presidencial que pede o arquivamento do projeto e configura
um ato de irresponsabilidade e má fé.
(*) Analista político
e assessor parlamentar do Diap; com colaboração de Sílvia
Barbára, professora e diretora da Fepesp
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Agência
Senado, 21 de Outubro de 2008
Professor de escola pública
poderá receber 14º salário
A Comissão de Educação,
Cultura e Esporte (CE), analisa proposta do senador Cristovam Buarque (PDT-DF)
que determina a concessão de 14º salário aos professores
de escolas públicas de educação básica do Distrito
Federal, dos estados e municípios que conseguirem elevar o Índice
de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de sua
escola em pelo menos 50%.
De acordo com a proposta (PLS 319/08),
o pagamento desse salário-extra deverá ser efetuado até o
final do semestre subseqüente ao da publicação do resultado
da avaliação de desempenho. Os profissionais de educação
de base das escolas que apresentarem Ideb igual ou superior a 7 receberão,
automaticamente, o benefício.
Na justificação do
projeto, Cristovam argumenta que a literatura empresarial demonstra ser
o incentivo salarial um eficiente estimulador de produção.
Segundo ele, estados como Pernambuco e Minas Gerais já adotam, com
bons resultados, uma bonificação por produtividade para profissionais
de ensino.
Para Cristovam, somente por meio
da satisfação financeira dos educadores e do seu aperfeiçoamento
profissional, "o Brasil poderá dar o salto de qualidade que
precisa para ingressar no seleto grupo de países que priorizam a
educação e são aclamados como desenvolvidos".
A proposta tramita na CE,
com a relatoria a cargo do senador Marconi Perillo (PSDB-GO). Depois
de aprovada, precisará passar, também, pelas Comissões
de Assuntos Econômicos (CAE) e de Assuntos Sociais (CAS) - nesta última,
receberá decisão terminativa.
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Agência Diap, 21 de
Outubro de 2008
AVAREZA PATRONAL
CE: Diário do Nordeste e
O Povo oferecem reajuste abaixo da inflação para jornalistas
A inflação do período
que antecede a data-base dos jornalistas de impresso do estado do Ceará ficou
em 7,15%, segundo o Departamento Intersindical de Estatísticas
e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Mas a proposta de reajuste
apresentada pelos jornais Diário do Nordeste e O Povo na rodada
de negociação com o sindicato da categoria, realizada na última
sexta-feira (17), ficou em 5,5%.
Além de oferecer reajuste
abaixo da inflação, os dois principais jornais de Fortaleza
não aceitaram nenhuma das novas reivindicações apresentadas
pelos trabalhadores, tais como unificação dos pisos salariais
dos jornalistas de mídia impressa e eletrônica (R$ 1.360,42),
reajuste de 13% para salários acima do piso, e as cláusulas
do Seguro, da Reportagem Especial, do Vale Refeição, do
Adicional de Veiculação, da Campanha de Sindicalização
e do Fundo de Formação Profissional.
As empresas querem ainda modificar
a cláusula da Estabilidade na Pré-Aposentadoria, que impede
os jornais de demitirem jornalistas dois anos antes de sua aposentadoria.
Os veículos tentam limitar o direito somente àqueles trabalhadores
que comunicarem oficialmente à empresa sobre sua intenção
de se aposentar e gozar o referido benefício.
“Ao invés de reconhecer
e valorizar os jornalistas com mais tempo de casa, os jornais de Fortaleza
querem mudar a cláusula da estabilidade para se livrar com maior
facilidade dos cabelos brancos e dos salários mais altos nas redações”,
avalia a presidente do Sindicato dos Jornalistas no Ceará (Sindjorce),
Déborah Lima.
Trabalhadores
rejeitam proposta patronal
A Comissão de Negociação do Sindjorce recusou a proposta
dos jornais e manteve a pauta inicial de reivindicações dos trabalhadores. “O
sindicato laboral mantém todas as cláusulas tendo em vista a
justeza da reivindicação dos jornalistas. Aguardaremos a apresentação
de uma proposta persuasiva por parte das empresas para que possamos submetê-la à apreciação
da categoria”, afirmou Déborah.
Presidente eleito do Sindicato
das Empresas Proprietárias de Jornais e Revistas do Ceará (SEPJREC)
e advogado do jornal O Povo, Mauro Sales negou que a proposta patronal
seja uma tentativa dos jornais de impor uma derrota ao sindicato laboral.
Manifestando o compromisso de "estreitar
os laços com o sindicato laboral", "abrir canais de
negociação" e "discutir a flexibilização
da proposta patronal", o novo presidente do SEPJREC se comprometeu
a apresentar uma proposta melhor para os trabalhadores na próxima
rodada de negociação, marcada para 31 de outubro, às
8h30, na Superintendência Regional do Trabalho (SRTE).
O reajuste conquistado
pelos jornalistas de impresso do Ceará na mesa de negociação
da campanha salarial 2008/2009 será retroativo à data-base
de 1º de setembro. O mesmo índice será utilizado
para a correção do piso salarial dos jornalistas em assessoria
de imprensa.
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Notícias do Tribunal
Superior do Trabalho
21/10/2008
Justa causa: e-mail corporativo e
gravações são considerados provas válidas
O Tribunal Superior do
Trabalho, em processo julgado pela Primeira Turma, rejeitou agravo
de instrumento de um ex-alto funcionário do Sheraton Rio Hotel & Towers,
do Rio de Janeiro contra decisão que considerou válidas
provas retiradas do conteúdo de um CD-ROM (gravações
de diálogos) e e-mail corporativo, em processo envolvendo justa
causa por acusação de assédio sexual. Embora o
assédio não tenha sido caracterizado, as provas foram
aceitas para confirmar a má conduta capaz de justificar a demissão.
O caso começou quando
a empresa demitiu seu gerente de manutenção sob acusação
de assédio sexual, mau procedimento profissional e incontinência
de conduta no serviço. Sentindo-se injustiçado e ultrajado,
ele entrou com ação trabalhista pretendendo anular a justa
causa e obter o conseqüente pagamento de verbas indenizatórias,
dentre as quais aviso prévio com base no maior salário
recebido (60 mil reais), férias, décimo-terceiro salário,
FGTS, horas extras, além do custeio de sua mudança, juntamente
com a família, para o Peru, seu país de origem. Requereu,
também, indenização por danos morais, alegando que
a empresa o humilhou publicamente no ato de demissão, referindo-se
ao fato de que foi obrigado a deixar o hotel imediatamente, levado por
seguranças até sua sala e, de lá, até o ponto
de táxi, na frente de muitos de seus ex-colegas e subordinados.
Para defender-se, o hotel apresentou,
como provas, transcrições de mensagens e reproduções
de imagens (fotos e ilustrações) do e-mail corporativo
utilizado pelo gerente, de conteúdo pornográfico. Também
anexou declaração assinada pela suposta vítima e
gravações feitas por ela de conversas com o engenheiro
e com outra funcionária, secretária dele, que teria atuado
como intermediária do assédio sexual. Na transcrição
dos diálogos, gravados em apartamentos do hotel, ele a convida
para dançar, tenta convencê-la a fazer “fotos sensuais”,
diz para ela “fechar as cortinas” para ficarem a sós,
afirma que tem vontade de “apertá-la”, faz menção
a fantasias sexuais, insinua que eles devem fazer “inspeção
nos quartos”, testar o banheiro, as camas, os lençóis
e o carpete. Em vários trechos, ela rejeita as investidas. Nos
diálogos com a secretária, há revelações
de que o engenheiro pagaria uma espécie de “mesada”,
no valor de R$ 3 mil, para as funcionárias que concordassem em
ser amantes dele e permanecessem em silêncio.
Todas as provas foram contestadas
pelo autor da ação. Em relação ao conteúdo
do correio eletrônico, alegou invasão de privacidade e intimidade,
e destacou que as mensagens reproduzidas no processo, com conteúdo
erótico, não foram enviadas, apenas recebidas por ele.
Em relação às outras provas, defendeu-se afirmando
que a suposta vítima se insinuava, criando uma situação
para, “maldosa e maliciosamente”, gravar as conversas. Além
disso, seriam provas ilícitas, na medida em que as gravações
foram feitas de maneira clandestina.
A empresa retrucou, afirmando
que a autenticidade das provas não sofreu qualquer impugnação
válida. Solicitou a reconvenção do processo (defesa
em que a parte busca inverter sua condição de réu
e ser reconhecida como virtual credora – e não devedora – dos
direitos em questão). Tendo atendido seu requerimento neste sentido
pelo juiz da 51ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro, a empresa contra-atacou,
requerendo indenização por danos morais causados à sua
imagem.
Ao julgar o mérito da
questão, a juíza de primeiro grau decidiu a favor do ex-empregado.
Entendeu não estar configurado o assédio sexual e, por
essa razão, considerou nula a demissão por justa causa.
Determinou o pagamento parcial das verbas rescisórias e estabeleceu
indenização por danos morais, em favor do gerente, no valor
de 40 vezes sua remuneração (R$ 1,2 milhão). Entre
outros fundamentos, a sentença considerou não haver elementos
que pudessem enquadrar o caso no conceito jurídico de assédio
sexual, ou seja, “constranger com o intuito de obter vantagem ou
favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente de sua condição
de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício
do emprego, cargo ou função”. A juíza também
considerou irrelevantes as alegações de que as gravações
foram feitas sem autorização e conhecimento do gerente,
por se tratarem de provas produzidas pela testemunha (suposta vítima
de assédio), que beneficiam o autor da ação.
Ao avaliar o conteúdo
das gravações, a magistrada reconheceu que havia conversas
levadas para o lado íntimo, “mas sem ofensas, constrangimentos
ou ameaças, podendo significar, quando muito, uma cantada indireta
dirigida àquela bela mulher”. Acrescentou que a funcionária
instigava o engenheiro que, “como bom latino, de sangue ‘caliente’”,
haveria de interpretar suas frases como uma abertura para cantadas. Da
mesma forma, considerou que os e-mails recebidos não indicavam
qualquer comportamento que o incriminasse.
As duas partes contestaram: a
empresa, visando anular a sentença, revalidar a dispensa por justa
causa e, conseqüentemente, livrar-se da condenação;
e o ex-empregado buscando a elevação do valor da indenização
por danos morais, de R$ 1,2 milhão para R$ 1,5 milhão.
O TRT reformou a sentença em favor da empresa, convalidando a
dispensa por justa e a exclusão do pagamento de indenização
por danos morais. Entre os fundamentos utilizados, a decisão considerou
que, embora não estivesse configurado o assédio sexual,
restou plenamente caracterizada a má conduta do gerente, “que
agiu de forma grosseira, inconveniente e incompatível com sua
condição de gestor”.
O autor da ação
tentou interpor recurso de revista ao TST, cujo seguimento foi negado
pelo TRT. Em agravo de instrumento, defendeu a tese de cerceamento de
sua defesa, pois não houve pronunciamento sobre a alegada ilicitude
na obtenção de provas a partir do conteúdo de seus
e-mails e das gravações feitas sem seu conhecimento ou
autorização.
O relator da matéria,
ministro Vieira de Mello Filho, refutou ambas as argumentações.
Em relação à primeira, destacou que o entendimento
consolidado no TST é no sentido de que o e-mail corporativo é considerado,
juridicamente, ferramenta de trabalho fornecida pelo empregador ao empregado,
que, por essa razão, deve usá-lo de maneira adequada, visando à eficiência
no desempenho dos serviços.
Quanto ao segundo ponto, Vieira
de Mello disse que a empregada gravou as conversas e entregou seu conteúdo à diretoria
da empresa, a fim de comprovar o assédio sexual que afirmou sofrer. “Assim,
tendo em vista que a empregada se valeu de tal conduta para repelir comportamento
ilícito do reclamante, entregando as referidas gravações
a quem detinha o poder de impedir a reiteração de tal prática,
fica caracterizado o exercício regular de direito, o que afasta
a ilicitude aventada pelo reclamante”, concluiu o ministro, citando
precedentes do Supremo Tribunal Federal e do TST. ( AIRR 1640/2003-051-01-40.0)
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21/10/2008
Vendedor obtém reconhecimento de
natureza salarial de veículo
Um propagandista vendedor da
Pharmácia Brasil Ltda., de Duque de Caxias (RJ conseguiu na Justiça
do Trabalho do Rio de Janeiro o direito a acréscimo de 20% ao
salário, pelo reconhecimento da natureza salarial da utilização
de veículo da empresa. A Oitava Turma do Tribunal Superior do
Trabalho rejeitou o recurso de revista da empregadora, ficando mantida
a condenação.
A empresa alegava que o veículo
era indispensável para a execução do trabalho do
funcionário, e não contraprestação por serviços
prestados, e, por esse motivo, não poderia ser considerado salário
indireto. O Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (RJ),
porém, em julgamento de recurso contra sentença da 6ª Vara
do Trabalho de Duque de Caxias, entendeu que, embora o veículo
tenha sido fornecido ao autor para o trabalho, a empresa admitiu, também,
que o vendedor permanecia na posse do automóvel após a
jornada e em férias, conjugando “o útil ao agradável,
sem nenhuma despesa”. O Regional destacou, ainda, explicação
da empresa de que o funcionário gozava de total liberdade de locomoção
e horário. Para o TRT, essas afirmações foram suficientes “para
evidenciar que se trata, de fato, de salário-utilidade, fornecido
gratuitamente e pelo trabalho”.
No TST, ao analisar o recurso
de revista, a ministra relatora, Maria Cristina Peduzzi, explicou que
a Súmula nº 367, item I, do TST não caracteriza como
salário-utilidade o fornecimento de veículo quando este é indispensável à realização
do trabalho, ainda que o empregado tenha disponibilidade sobre ele nos
fins de semana. No entanto, o acórdão regional registrou
apenas que o funcionário utilizava o veículo para o trabalho
e também para atividades particulares. Segundo a ministra Peduzzi,
não há, na decisão do TRT/RJ, “elementos que
permitam concluir que o automóvel fornecido era indispensável às
atividades desempenhadas pelo vendedor”. Assim, não há como
modificar o entendimento, pois isso implicaria novo exame fático-probatório,
o que é impedido pela Súmula nº 126 do TST.
Contratado em janeiro de 1988
pela Monsanto do Brasil Ltda. - posteriormente sucedida pela Pharmácia
Brasil -, o propagandista vendedor foi dispensado em maio de 1997. Na
ação trabalhista, pleiteou horas de sobreaviso, porque
utilizava pager e notebook ligado diretamente ao computador da empresa
e por isso estaria à disposição da Pharmácia
durante 24 horas, e o salário in natura pela concessão
pela empresa de veículo que utilizava não somente no trabalho,
mas também para fins particulares, tornando-se um salário
indireto. ( RR – 69.397/2002-900-01-00.2)
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