Congresso em Foco, 1 de
novembro de 2008
O “parecer Brilhante
Ustra” revela a face do governo Lula
Celso Lungaretti*
Se ainda havia dúvidas quanto ao lado para o qual
pendem as simpatias do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, estão dirimidas: entre os carrascos da
ditadura de 1964/85 e suas vítimas, ele prefere
os totalitários.
Isto já se depreendia de vários sinais emitidos
por Lula. Como quando insinuou que, se um cidadão
continua acreditando nos ideais de esquerda ao tornar-se
sexagenário, é porque tem miolo mole.
Ou quando ele aceitou passivamente a nota oficial emitida
pelo Alto Comando do Exército para contestar a posição
do Ministério da Justiça acerca dos assassinatos
de opositores políticos cometidos pelo regime militar,
expressa no livro Direito à Memória e à Verdade.
Lula, ademais, consentiu numa quebra de hierarquia, pois
o posicionamento dos comandantes colocara em xeque a autoridade
do titular da Defesa (foi a última vez em que Nelson
Jobim agiu verdadeiramente como ministro: percebendo que
dele se esperava apenas a submissão à caserna,
adequou-se rapidinho a tal papel).
Já o ministro da Justiça Tarso Genro, por
ingenuidade ou segundas intenções, provocou
novamente Lula a descer do muro, ao convocar, no final
de julho, uma audiência pública para se discutir
a punição dos torturadores dos anos de chumbo.
Forçado a tomar partido, o presidente o fez, como
sempre, ao lado dos militares, descartando peremptoriamente
qualquer iniciativa do Executivo no sentido da revogação
da Lei de Anistia. Mandou a esquerda honrar seus heróis
e mártires, em vez de ficar exigindo castigo para
quem torturou os heróis e executou os mártires.
Finalmente, semanas atrás, o ministro das Minas
e Energia, Edison Lobão, não teve pejo em
fazer rasgados elogios aos governos dos generais, colocando
até em dúvida se constituíam verdadeiramente
uma ditadura. Como ninguém o admoestou, presume-se
que estivesse autorizado a dizer o que disse.
Então, o caso da Advocacia Geral da União
(AGU) está longe de ser um episódio isolado. É apenas
uma expressão mais acintosa da guinada à direita
em curso no governo Lula.
O “parecer Brilhante Ustra”
Desconversas à parte, o que houve agora foi simplesmente
isto: a União assumiu a defesa dos ex-comandantes
do DOI-Codi/SP, Carlos Alberto Brilhante Ustra e Audir
dos Santos Maciel, no processo que lhes é movido
pelos procuradores federais Marlon Weichert e Eugênia
Fávero.
Os procuradores pleitearam a responsabilização
pecuniária desses militares da reserva pelas mortes
e sevícias ocorridas durante o período de
1970/76, quando estiveram à frente daquele centro
de torturas. Ou seja, que fossem declarados culpados pelos
crimes e práticas hediondas cometidos sob seu comando
e repusessem tudo que a União despendeu em reparações
a suas vítimas.
Dos 6.897 cidadãos que passaram pelas garras do
DOI-Codi/SP, a grande maioria sofreu as torturas de praxe
(espancamentos, choques elétricos, pau-de-arara,
afogamento, asfixia, etc.), acrescida de uma exclusividade
do local: a cadeira-do-dragão, cujos assentos e
encostos para os braços e cabeça eram revestidos
de metal, para aumentar a potência das descargas
que a vítima, amarrada, recebia. Vladimir Herzog
foi um mártir brasileiro bestialmente assassinado
na cadeira-do-dragão.
A União tinha três caminhos a escolher: entrar
no processo ao lado dos procuradores, permanecer neutra
ou tomar a defesa dos carrascos. Fez uma escolha inconcebível
e inaceitável, até porque contradiz frontalmente
toda a legislação internacional subscrita
pelo Brasil e as recomendações da ONU. O
Governo Lula nos tornou párias da civilização,
tanto que já fomos chamados a nos justificar perante
a OEA (como se fosse possível explicar o inexplicável!).
Em sua defesa dos algozes, a AGU invocou a anistia autoconcedida
pela ditadura no ano de 1979, que nada mais representou
do que um habeas-corpus preventivo para quem sabia ter
incidido em assassinatos em massa (incluindo as mortes
durante as sessões de tortura e a execução
a sangue-frio de prisioneiros que estavam sob a guarda
do Estado), sevícias as mais brutais, seqüestros
(até de crianças!), estupros, ocultação
de cadáveres e outras abominações.
Segundo a AGU, aquela lei colocou uma pedra definitiva
sobre o assunto, nada mais havendo a se fazer. É um
arrazoado que, obviamente, servirá como munição
jurídica para os torturadores, em todos os tribunais
a que forem conduzidos.
Talvez seja o caso de o denominarmos “parecer Brilhante
Ustra”, assim como um casuísmo da ditadura
militar para favorecer o pior dos torturadores do Deops/SP
recebeu o apelido de Lei Fleury...
Tortura era regra, não exceção
Essa decepcionante evolução dos acontecimentos
está longe de ser inesperada, vindo ao encontro
do que escrevi quando Genro e o secretário especial
de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, promoveram aquela
malsinada audiência pública.
Depois que Lula se manifestou claramente contra a revogação
da anistia de 1979, Genro tentou maquilar a derrota como
vitória, propondo que fossem abertas na Justiça
ações contra os ex-torturadores, sob a acusação
de terem cometido crimes comuns. Segundo ele, as atrocidades
não se tipificavam como crimes políticos
e, portanto, ficavam de fora do guarda-chuva protetor da
Lei de Anistia.
De imediato, eu adverti que:
* a tortura nunca fora um excesso cometido por
meia-dúzia de aloprados nos porões, mas
sim uma política de Estado que, embora não
assumida formalmente, nem por isso deixara de ser menos
efetiva, tendo sido implementada com a concordância
ou a omissão de toda a cadeia de comando;
* que o atalho proposto por Genro impediria a
responsabilização dos mandantes, permitindo
apenas o enquadramento dos executantes;
* que daria aos acusados uma forte arma de defesa,
pois eles argumentariam exatamente que estavam apenas
cumprindo ordens;
* que não representaria a verdadeira justiça,
ficando-se longe de passar o período realmente
a limpo; e
* que o caminho judicial seria tão longo
e os recursos protelatórios à disposição
dos réus, tantos, que poucos deles (ou nenhum)
acabariam recebendo a sentença definitiva em vida.
Audir dos Dantos Maciel morreu nesse meio-tempo. Brilhante
Ustra, septuagenário, já sofreu crises cardíacas.
E as tentativas de contornar-se à Lei da Anistia,
doravante, terão como adversária a União,
que oficializou sua posição de endosso à impunidade
dos carrascos.
Isto, claro, se não houver um recuo tático
do governo, em razão do ultimato de Vannuchi (que
deixará sua Pasta se a AGU não retirar o
parecer) e das várias manifestações
de repúdio que estão pipocando.
Mas nada impedirá que, dentro de semanas, estejamos
novamente nos chocando com a hostilidade de Lula aos ideais
e valores da esquerda.
Então, já passou da hora de compenetrarmo-nos
que nossas bandeiras não são assumidas pelo
atual governo nem serão por ele ou dentro dele viabilizadas.
Se quisermos justiça e respeito, teremos de lutar
por ambos. Junto à sociedade, não nos gabinetes
palacianos.
Bem melhor do que mobilizarmo-nos para derrubar um parecer
da AGU, servindo como peões na luta interna do Planalto,
seria agirmos de forma autônoma e contra um alvo
de primeira grandeza: o entulho autoritário atrás
do qual o inimigo está abrigado. A anistia de 1979
tem de ser revogada, em nome das vítimas da ditadura
mais brutal que o Brasil já conheceu e de nosso
auto-respeito como Nação.
Que se levante a bandeira correta, justa e necessária,
de uma vez por todas!
* Celso Lungaretti, 58 anos, é jornalista
e escritor. Mantém os blogs O Rebate, em que disponibiliza
textos destinados a público mais amplo; e Náufrago
da Utopia, no qual comenta os últimos acontecimentos.