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Vermelho, 16 de novembro de 2008
Para Pochmann, só gasto
público com juros deve ser reduzido
A desigualdade entre renda do trabalho e da propriedade no Brasil está pior
hoje que em 1990, último ano da chamada “década
perdida”. O presidente do Ipea, Marcio Pochmann, alertou que
a alta dos juros no país e a crise mundial, provocada pelo vale-tudo
dos mercados financeiros, podem piorar a situação. Justamente
num período em que o país vinha se recuperando, e a renda
do trabalho crescia desde 2004.
Segundo Pochmann, para reduzir os efeitos da crise no Brasil, é preciso
tentar manter o nível de atividade. “Também sou
favorável a reduzir o gasto público, mas o gasto com
juros. Precisamos perguntar à população se ela
está satisfeita com o serviço de saúde, se a
educação atingiu um nível de qualidade que não
precisa de mais recursos, construção de escolas...
Todos defendem o corte dos gastos. Então pergunto: onde cortar?”,
disse Pochmann, durante apresentação do estudo “Distribuição
Funcional da Renda no Brasil”, na sede do Ipea, em Brasília.
“ Do ponto de vista da composição do gasto,
o Estado gasta somas significativas com juros. São 7% do PIB
que comprometemos anualmente. Juros é renda da propriedade, é uma
contribuição para o aumento da desigualdade da renda”,
argumentou.
Durante a entrevista coletiva na qual o estudo foi apresentado,
em Brasília, o presidente do Ipea lembrou que a desigualdade
diminuiu no que diz respeito à renda do trabalho, mas não
na renda do país como um todo. “Quando fazemos uma análise
por anos, percebemos que nos últimos 17 anos somente em sete
anos houve melhora combinada na redução das desigualdades
no índice de Gini – com a redução da desigualdade
ou ampliação dos trabalhadores na renda nacional”,
disse.
Questionado sobre o papel do mercado financeiro para a economia
nacional, Pochmann defendeu que se deve dar prioridade ao mercado
produtivo, que chega de verdade aos trabalhadores brasileiros. “O
mercado financeiro representa 7% da renda dos trabalhadores. Temos
que pensar no mercado produtivo, porque é a maior parte. A
questão dos juros é importante no enfrentamento da
inflação de demanda. Por que reduzir a demanda? Inflação
de demanda é quando não se tem a capacidade de produção
suficiente para atender o consumo”, afirmou.
Fonte: Ipea
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Vermelho, 16 de novembro de 2008
Congresso vai enfrentar semana com
obstruções
A Câmara dos Deputados e o Senado terão problemas
para conseguir fazer a pauta de votações andar. Os
deputados enfrentam a obstrução feita pelo DEM desde
a última quinta-feira (13), por conta de a decisão
de cassar o deputado Walter Brito Neto (PRB-PB) ainda não
ter sido cumprida. Já o Senado tem a pauta trancada por
conta de duas medidas provisórias (MPs) e um projeto de
lei da Câmara (PLC).
Por conta da obstrução do DEM, a pauta da Câmara
para o plenário ainda não foi formulada. Somente as
comissões permanentes e provisórias têm suas
previsões. Na semana passada, o vice-líder do DEM na
Casa, Paulo Bornhausen (SC), afirmou que “o DEM entra em obstrução
total até que o presidente da Câmara [Arlindo Chinaglia]
faça cumprir a decisão do TSE. Isso é uma questão
constitucional e a Câmara está diminuída diante
de tal decisão judicial”, declarou Bornhausen.
Na manhã de quarta-feira (12), o TSE notificou a Mesa Diretora
da Câmara pelo não-cumprimento do pedido de cassação
de Walter Brito. O Tribunal pede que a Casa encaminhe explicações à Justiça
num prazo de 10 dias. “O TSE perguntar ‘por que não
se cumpriu’ é uma vergonha. Uma decisão judicial
não se pergunta, se cumpre”, completou o vice-líder
democrata.
Na semana passada, a Câmara votou e aprovou três matérias.
A "MP Anticrise II", editada pelo governo para tentar reduzir
os efeitos do abalo financeiro mundial e que permite que o Banco
do Brasil e a Caixa Econômica Federal comprem bancos, seguradoras
e fundos de pensão com dificuldades de caixa, o PL 1167/07,
que prevê prisão para quem adquirir ou receber imagens
pornográficas ou cenas de sexo envolvendo crianças
e adolescentes e a PEC da Juventude passaram pelo plenário.
Os líderes dos partidos da base e da oposição
devem se reunir nesta segunda-feira para definirem a pauta de votações.
Mesmo assim, ainda há a obstrução do DEM, que
pode emperrar o andamento dos trabalhos nos próximos dias.
Um dos projetos que seria afetado negativamente seria a reforma
tributária. O presidente da Comissão Especial de Reforma
Tributária, deputado Antônio Palocci (PT-SP), manteve
para a próxima semana a previsão de votação
da proposta. Ele deu prazo de discussão até terça-feira
(18).
Na semana passada, secretários de Fazenda de vários
estados do país estiveram no Congresso para pedir o adiamento
da votação até que suas sugestões para
o texto fossem analisadas.
Entre as propostas, está a do estado de São Paulo
de que a alíquota do Imposto sobre Circulação
de Mercadorias e Serviços (ICMS) cobrado nos estados produtores
passasse de 2% para 4%. O relator, deputado Sandro Mabel (PR-GO),
no entanto, não se mostrou disposto a adiar a votação.
Depois de aprovada na Comissão, a proposta seguirá para
o plenário e, em seguida, para o Senado. A expectativa é que
a matéria tenha sua tramitação concluída
apenas no primeiro semestre do ano que vem.
Senado
Na próxima terça-feira (18) devem começar a
ser votadas as medidas provisórias que trancam a pauta do
plenário do Senado. A intenção dos senadores é liberar
espaço para apreciar as medidas tomadas pelo governo para
contornar a crise financeira internacional . No mesmo dia, o presidente
do Senado, Garibaldi Alves Filho, deve reunir-se com os líderes
partidários para definir a pauta de votações
do Plenário até o final do ano.
Obstruem a pauta duas MPs e um projeto de lei da Câmara. As
MPs 440/08 e 441/08 concedem aumentos salariais para mais de 450
mil servidores, fruto em alguns casos de negociação
entre sindicalistas e governo desde o ano passado. Algumas carreiras
receberão aumentos substanciais, a serem pagos gradativamente
até 2010, como é o caso dos auditores da Receita Federal
e dos fiscais do Trabalho, que passarão a ganhar entre R$
13.600 e R$ 19.451.
Votadas as duas MPs, o plenário do Senado deve examinar o
Projeto de Lei da Câmara 130/2008, que tramita em regime de
urgência. A matéria prevê a criação
de aproximadamente 2,4 mil cargos em vários órgãos
que executam as políticas sociais do governo federal. Só com
a apreciação desses três itens é que os
senadores poderiam, então, se voltar para a crise econômica
que assola o mundo.
Os parlamentares terão as sessões de terça
e quarta-feira para resolver o problema. O Projeto de Lei de Conversão
29/08 - o texto chegou e foi aprovado na Câmara como MP 442/08
- passa a trancar a pauta na quinta-feira (20). A proposta autoriza
o Banco Central a aceitar como garantia carteiras de crédito
de instituições financeiras que enfrentam falta de
dinheiro (liquidez) e recorram à ajuda do BC.
Também pode começar a tramitar na próxima semana
a segunda das medidas editadas pelo governo para combater a crise:
o Projeto de Lei de Conversão (PLV) 30/08, originado na Medida
Provisória (MP) 443/08, aprovada na quarta-feira (12) na Câmara.
Ela autoriza o Banco do Brasil (BB) e a Caixa Econômica Federal
a constituírem subsidiárias integrais ou controladas
e a adquirirem participação em instituições
financeiras sediadas no Brasil. (Mário
Coelho)
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Folha de S.Paulo, 16 de novembro de 2008
Com nova regra, PMDB mineiro dificulta
entrada de Aécio na sigla
Resolução do diretório
impede a filiação de políticos com
mandatos eletivos
PAULO PEIXOTO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELO HORIZONTE
Embora o tucano Aécio Neves seja cortejado pelo PMDB nacional,
resolução do partido em Minas dificulta eventual entrada
do governador na sigla pelo diretório mineiro. Na última
segunda, durante reunião da executiva estadual do partido,
foi aprovada a resolução proibindo filiações
de políticos com mandatos eletivos. A aprovação
teve como base o texto da bancada estadual na Assembléia Legislativa.
O governador, que está em viagem oficial à Europa, tem
dito que tem boas relações com o PMDB, mas que não é sua
intenção deixar o PSDB. Diz, nos bastidores, que é no
ninho tucano que tentará se tornar candidato a presidente em
2010. Presidente do PMDB em Minas, o deputado federal Fernando Diniz
negou que seja uma resolução "anti-Aécio".
" Não tem nada a ver com Aécio", afirmou Diniz. É na
bancada estadual que reside a maior resistência ao governador. No PMDB
nacional, avalia-se que, com Aécio, a sigla poderia sustentar candidatura
presidencial própria -tese defendida, sobretudo, por aqueles contrários
a uma eventual candidatura da ministra Dilma Rousseff (PT).
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Folha de S.Paulo, 16 de novembro de 2008
G20 lança ação
coordenada contra crise
Grupo acerta 47 medidas para ampliar
a transparência do mercado financeiro e a cooperação
global e reformar instituições como o FMI
Cúpula aponta 28 medidas consideradas "imediatas",
como a montagem de um "colegiado de supervisores" do mercado
financeiro
FERNANDO CANZIAN
ENVIADO ESPECIAL A WASHINGTON
Reunidos em Washington, os chefes de Estado do G20 concordaram ontem
em adotar um pacote de 47 medidas com o objetivo de aumentar a transparência
dos mercados financeiros, reforçar seu sistema regulatório,
elevar a cooperação internacional e reformar instituições
multilaterais como o FMI e o Banco Mundial.
Das 47 medidas, 28 são "ações imediatas",
a serem discutidas e eventualmente implementadas até 31 de março
de 2009. As 19 restantes são "ações de médio
prazo", sem data para implementação. A partir da
cúpula de ontem, vários grupos de trabalho com representantes
dos países participantes vão designar técnicos
para elaborar as ações.
Ao final do encontro, o presidente dos EUA, George W. Bush, disse que
a cúpula foi "um grande sucesso. "Estabeleceremos
princípios para uma regulação compatível
com o século 21, sem que o incentivo à inovação
seja destruído. Diferentemente do histórico de reuniões
entre líderes mundiais, o documento conjunto produzido e divulgado
após a "Cúpula sobre os Mercados Financeiros e a
Economia Mundial" é bastante completo.
As medidas procuram atacar os principais pontos identificados como
estopins da atual crise internacional. Muitas das ações
já vêm sendo ou são adotadas por alguns dos países
participantes. A idéia é que mais mercados passem a contemplá-las
daqui para a frente.
Por razões óbvias, as medidas não são mandatórias
e respeitam a soberania de cada país. Mas a idéia é que
regras de boa governança já adotadas por algumas economias
sejam aperfeiçoadas, conhecidas e, se possível, estendidas
a outros países de maneira mais uniforme e sistemática.
O plano prevê também a montagem de um "colegiado
de supervisores" que deverá dividir entre si informações
sobre instituições financeiras globais, e um planejamento
para harmonizar as suas regras.
No conjunto das propostas, há medidas mais gerais, como aumentar
de maneira coordenada os estímulos fiscais em cada economia
e tentar reavivar a Rodada Doha de comércio internacional, e
outras mais específicas, como regras para elevar os níveis
de transparência no mercado e escrutinar melhor os critérios
para o pagamento de salários e compensações a
executivos de bancos.
Uma das medidas, por exemplo, prevê o aumento da fiscalização
e da transparência nas operações com os chamados
CDSs ("credit-default swaps") e a criação de
câmaras de compensação para esse mercado, que inexistem
nos EUA. Os "credit-default swaps" movimentam cerca de US$
33 trilhões e são títulos que teoricamente protegem
investidores e rendem prestação em troca da cobertura
de eventuais perdas.
O documento também prevê um aperto nas regras para a elaboração
e conteúdo de balanços de bancos e métodos mais
transparentes para a divulgação, pelas instituições
financeiras, de resultados e operações que hoje não
figuram em suas prestações de contas.
Também de forma específica, o plano procura atacar, por
meio de revisão de regras, a atuação das agências
de classificação de risco, que proporcionam sistematicamente "notas" para
a saúde de bancos e empresas. Muitas das instituições
e títulos financeiros fortemente afetados pela crise atual não
tiveram suas classificações rebaixadas pelas agências
antes de apresentarem problemas.
Participaram do encontro todos os membros do G8 (EUA, Alemanha, Canadá,
França, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia)
mais Brasil, Argentina, México, China, Índia, Austrália,
Indonésia, Arábia Saudita, África do Sul, Coréia
do Sul, Turquia e União Européia. Holanda e Espanha também
participaram, representando a UE.
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Folha de S.Paulo, 16 de novembro de 2008
FMI pede mais gastos e menos impostos
Instado a ser mais atuante, Fundo sugere
política fiscal "agressiva"
Para Strauss-Kahn, diretor-gerente, crise atual
dará mais impulso às propostas de reformular a atuação
da entidade e do Banco Mundial
SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON
Instado pelos membros do G20 a ter um papel mais ativo na solução
da crise econômica mundial e na prevenção de
futuras crises, o Fundo Monetário Internacional (FMI) apresentou
ontem sua receita: para o primeiro caso, que os governos gastem mais
e cortem impostos; para o segundo, um papel maior de supervisão
global para a entidade multilateral.
O modelo foi apresentado por seu diretor-gerente, o francês Dominique
Strauss-Kahn, que participou da reunião dos líderes ontem,
em Washington. "Há algum lugar para política monetária
em algumas partes do mundo, não em todas, e outra ferramenta
tradicional é a política comercial", disse o francês
em entrevista coletiva na sede do Fundo, na noite de ontem, sobre a
crise. "Mas as duas não são suficientes, e a recuperação
não virá sozinha."
Para que isso aconteça, recomendou DSK, como é chamado
o diretor-gerente do FMI, é preciso uma utilização
mais agressiva da política fiscal. "Se há um momento
na história econômica moderna em que o estímulo
fiscal deve ser utilizado é agora", afirmou. "A inflação
está perto de zero no mundo hoje, alguns acham que há até risco
de deflação, então não há riscos
de usar política fiscal."
Pelos cálculos do FMI, cada pacote de estímulo fiscal
de 1% do PIB (Produto Interno Bruto) resulta num crescimento igual
da economia. "Alguns argumentam que quando você tem um estímulo
fiscal desse tamanho, o crescimento da economia é menor",
afirmou Strauss-Kahn. "Isso é verdade quando o estímulo
acontece num só país. Se a ação é coordenada,
o resultado pode ser muito maior."
É por isso que o Fundo está recomendando uma ação
conjunta dos países, de implantar pacotes fiscais que combinem aumento
dos gastos e corte nos impostos de até 2% do PIB. Se forem coordenados
por região, resultarão num salto de 2% da economia, disse Strauss-Kahn.
"É claro que a questão não é só de estímulo,
mas qual o tipo e qual é o mais efetivo", disse o diretor-gerente. "Não
há um modelo único para todos os países."
Novo papel do FMI
Sobre o futuro da entidade, ele disse que prevê que "nosso
papel de supervisão é um papel que certamente vai aumentar." A
previsão chega num momento em que a necessidade de o FMI ser
reformado e repensar seu papel na economia global foi citada pelo comunicado
final do G20 e repetida por George W. Bush. "Nós deveríamos
reformar as instituições financeiras internacionais",
disse o presidente dos EUA.
Para Bush, entidades como o FMI e o Banco Mundial "são
muito importantes, mas eram baseadas na ordem econômica de 1944.
E nós concordamos que, para refletir melhor as realidades da
economia global de hoje, deveriam modernizar as estruturas de governança."
Sobre isso, Strauss-Kahn mostrou-se parcialmente cético. "Muito
tem sido dito sobre isso, comparações com Bretton Woods,
mas confesso que ouço esse discurso há tempos, sem resultados
concretos, como logo após a crise asiática" dos
anos 90. A diferença agora, para Strauss-Kahn, é que
o processo de reforma começou "enquanto estamos no meio
da crise". Assim, ele acha que o processo tem mais chances de
dar certo.
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Folha de S.Paulo, 16 de novembro de 2008
Turbulência já faz cliente
renegociar compra de imóvel
Incorporadoras facilitam pagamento de prestações
FÁTIMA FERNANDES
DA REPORTAGEM LOCAL
Consumidores que adquiriram imóveis de alto padrão
na planta e dependiam principalmente de investimentos na Bolsa ou
da rentabilidade de seus negócios para quitar as prestações
começam a procurar construtoras para revender, trocar ou devolver
os bens.
Essa situação não é generalizada, é pontual,
mas revela a preocupação de quem comprou uma casa ou
um apartamento financiado de não conseguir arcar com o valor
das prestações daqui para a frente. Para evitar que esse
temor se alastre e atinja também quem adquiriu imóveis
de padrão mais popular, incorporadoras e construtoras estão
tomando algumas medidas com o objetivo de tranqüilizar o consumidor,
o que significa até deixar de reajustar o imóvel pelo
INCC (Índice Nacional da Construção Civil) enquanto
o empreendimento estiver em construção.
A Folha apurou com imobiliárias e construtoras que quem quer
renegociar imóveis neste momento são principalmente profissionais
liberais e pequenos e médios empresários que adquiriram
casa ou apartamento na faixa de R$ 1 milhão a R$ 2 milhões.
" Quem apostou no mercado de ações e viu a Bolsa desabar ficou
com medo de assumir altas prestações. A mesma situação
ocorre com pequenos e médios empresários que prevêem queda
na rentabilidade de suas companhias. Essas pessoas começam a rever a compra
de imóveis, mas não é algo generalizado", afirma Emir
Martins, consultor que trabalha com imóveis de alto padrão.
A Tecnisa, incorporadora e construtora, que comercializa imóveis
de R$ 250 mil a R$ 1 milhão, relata que alguns clientes procuraram
a empresa para renegociar os imóveis adquiridos na planta.
" As pessoas estão com medo de perder o emprego e de não poder
pagar a prestação do imóvel. Mas são cerca de cinco
casos até agora na nossa empresa em uma carteira de cerca de 4.000 clientes.
Estamos estudando medidas para que o cliente não desista da compra",
diz Fábio Villas Boas, diretor de engenharia da Tecnisa. Entre essas medidas,
consta a possibilidade de o cliente ter um seguro e, em caso de perda de emprego,
poder postergar o pagamento das prestações.
Há cerca de um mês a Goldfarb optou pela venda sem correção
do INCC nas parcelas mensais no período de construção
de suas obras, que duram, em média, dois anos. As parcelas anuais
já serão corrigidas. A empresa também se compromete
a devolver 100% do valor pago do imóvel (hoje geralmente o consumidor
recebe 75% do valor), caso o cliente comprove que não terá mais
condição de pagar a propriedade.
Haruo Ishikawa, vice-presidente do SindusCon-SP, diz que quem está revendo
a compra de imóveis são os clientes que adquiriram apartamentos
na faixa de R$ 1 milhão. " Esse consumidor pagou R$ 200
mil de entrada do apartamento só que agora tem de pagar cerca
de 20 parcelas de R$ 40 mil por mês. Se era investidor da Bolsa,
por exemplo, tem agora que repensar essa compra. O fato é que,
por causa da crise, vai haver um ajuste no mercado da construção
civil."
Os lançamentos de empreendimentos deverão ser revistos
para o ano que vem, principalmente devido à restrição
ao crédito e ao aumento dos juros. "Os lançamentos
de novos empreendimentos na faixa de alto padrão serão
segurados por pelo menos dois meses", afirma Eduardo Zaidan, diretor
do SindusCon-SP.
A Embraesp, empresa de consultoria especializada no setor imobiliário,
estima que neste ano serão lançados 560 empreendimentos
com cerca de 60 mil unidades na região metropolitana de São
Paulo. "Esse número será menor em 2009", afirma
Luiz Paulo Pompéia, diretor da Embraesp. Na sua avaliação,
os imóveis na faixa de R$ 600 mil a R$ 1,5 milhão serão
os mais afetados neste momento, já que foram adquiridos por
consumidores que se aventuraram nos investimentos e agora sofrem conseqüências
imprevistas.
Os imóveis na faixa de R$ 300 mil a R$ 600 mil, na sua avaliação,
poderão ser afetados na medida em que o crédito fique
mais restrito. Os imóveis de até R$ 300 mil já estão
mais garantidos, já que, segundo Pompéia, a demanda é maior
do que a oferta e existe financiamento da Caixa Econômica Federal
e de bancos de até R$ 150 mil. "Esse segmento da construção
deve sustentar o mercado imobiliário até que ele se recupere
do baque novamente", afirma Pompéia.
A Haruo Ishikawa Engenharia e Construções, que trabalha
com imóveis de até R$ 500 mil, diz que não houve
ainda procura de clientes para renegociar imóveis. "Isso
acontece quando há desemprego no meio do caminho", diz
Ishikawa.
Ao mesmo tempo em que alguns clientes revêem a compra de imóveis
por conta da crise, outros estão atrás deles como forma
de investimento, segundo o consultor Martins. "O que vemos é que
muitas pessoas compraram imóveis de alto padrão sem solidez
financeira. O que deve ocorrer agora é que as vendas terão
mais qualidade e pode voltar para esse mercado o investidor que deseja
proteger o investimento", diz.
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Gazeta do Povo, 16 de novembro de 2008
Automóveis
Crise da GM pode respingar aqui
Rentável, filial brasileira não
deve escapar ilesa à possível concordata da matriz
nos EUA
A General Motors do Brasil, fabricante dos veículos Chevrolet,
dará uma entrevista coletiva nesta semana para explicar como
as dificuldades de sua matriz, nos Estados Unidos, poderão
afetar (ou não) a operação brasileira. É bom
que os executivos do Brasil sejam bastante claros, uma vez que, em
meio à onda de rumores dos últimos dias, até mesmo
consultores tarimbados da indústria automobilística
prevêem tempos difíceis para a subsidiária tupiniquim – hoje
a terceira maior vendedora de veículos do país.
Nos EUA, a concordata é um instrumento que protege a empresa
de ações movidas por credores enquanto tenta se reestruturar – em
caso de fracasso, a etapa seguinte é a falência. Nesse
sentido, a semana pode ser decisiva para a GM e suas colegas, uma
vez que o Congresso norte-americano deve analisar um pacote de salvação
ao setor. E bote salvação nisso: no último trimestre,
a GM reportou mais um de seus já tradicionais prejuízos
bilionários, desta vez de US$ 2,5 bilhões, que elevou
para quase US$ 60 bilhões o saldo negativo de seu patrimônio
líquido (diferença entre o valor dos ativos e o das
dívidas). Seus executivos têm dito que, se o governo
não ajudar, em questão de meses a empresa não
terá caixa nem para honrar as despesas mais urgentes.
A GM ostenta o maior rombo entre as montadoras norte-americanas,
que passam por apuros consideráveis desde 2007. As vendas
caem há 12 meses, e 2008 pode chegar ao fim com o pior resultado
desde a década de 70. “As vendas nos EUA devem fechar
o ano em 12,5 milhões de veículos, o que representa
uma queda de 20% em relação a 2007. As três grandes
[GM, Ford e Chrysler] estão drenando cerca de US$ 1 bilhão
de seus caixas por mês, e tendem a drenar ainda mais, porque
as perspectivas são muito ruins”, avalia David Wong,
vice-presidente da consultoria Kaiser Associates. Brasil
Enquanto as matrizes rumavam ao brejo, as subsidiárias brasileiras
da GM e da Ford cresciam no embalo do mercado nacional, enviando
alguns milhões de dólares América acima para
reduzir o rombo nos EUA. O problema é que a crise global já desacelera
as vendas também no Brasil – o que fez a GM anunciar
programas de demissão voluntária e convocar férias
coletivas em todas as suas fábricas.
Para Wong, problemas lá fora significam menos investimentos
da matriz por aqui. E, ainda que a GM do Brasil continue gerando
lucro, terá de encaminhá-lo à matriz, sem poder
aplicá-lo em seus próprios projetos. Recentemente,
a companhia garantiu a continuidade da construção da
fábrica de motores de Joinville (SC), mas os funcionários
estão incertos sobre a aplicação, prometida
em junho, de US$ 500 milhões para a produção
de um novo carro em São José dos Campos (SP).
Embora o mercado especule sobre a possibilidade de a GM vender sua
filial brasileira para formar caixa, o consultor vê essa hipótese
como improvável. “É pouco vantajoso comprar apenas ‘um
pedaço’ de uma montadora.”
Olivier Girard, diretor da Trevisan Consultoria, não crê que
a GM brasileira possa ser fechada em caso de concordata da matriz. “Mas
a filial pode, sim, demitir funcionários, principalmente na área
administrativa. E reduzir sua capacidade de produção,
fechando um turno ou, em caso extremo, uma fábrica. Isso é algo
que, dada a desaceleração do mercado brasileiro, poderia
ocorrer independentemente do que se passa nos EUA.”
Consumidor
José Rinaldo Caporal Filho, diretor da Megadealer, consultoria
especializada em varejo automotivo, não crê que o consumidor
brasileiro venha a evitar a compra de um Chevrolet por conta do noticiário
que vem dos EUA. “O brasileiro vê a GM como uma empresa
brasileira. A crise da matriz é algo muito distante dele”,
argumenta. Mas Wong, da Kaiser Associates, avalia que o cliente pode,
sim, fazer algum tipo de associação. “É possível
que ele se pergunte: por que vou comprar um carro de uma empresa
que está em concordata nos EUA?”
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Folha de Londrina, 16 de novembro de 2008
Futuros prefeitos ganharão
mais que Lula
Em Sertanópolis, Câmara
aprovou reajuste que eleva subsídio de R$ 9 mil
para R$ 18 mil; em Apucarana, valor saltou dos atuais R$
18 mil para R$ 20 mil
Se por um lado assumirão os mandatos em janeiro de 2009
com uma possível lista de demandas da população
que os elegeu, por outro, os futuros prefeitos de Sertanópolis
(40 km ao norte de Londrina) e Apucarana não poderão
reclamar das remunerações que as respectivas Câmaras
de Vereadores lhes aprovaram antes da eleição de outubro.
Com um aumento que passou dos pouco mais de R$ 9,1 mil para aproximadamente
R$ 18 mil, o agricultor Reinaldo Ramos Reis (PSDB), em Sertanópolis,
será um dos chefes de Executivo mais bem pagos dos municípios
paranaenses. Ele administrará uma cidade de 15 mil habitantes
abalada, recentemente por uma onda de violência que contabililiza
15 homicídios no ano. Acima de Reis, porém, está o
prefeito eleito de Apucarana, João Carlos de Oliveira (PMDB).
Graças a atual composição do legislativo local,
o contador vai ver o salário de R$ 18 mil saltar para cerca
de R$ 20 mil, em seu mandato.
Ambos os casos superam com folga a remuneração do
presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva,
que recebe R$ 13,8 mil. O mesmo valor bruto é recebido em
Londrina pelo prefeito Nedson Micheleti (PT) que vai se manter congelado,
por decisão da Câmara, pelos próximos quatro
anos.
No caso de Sertanópolis, onde o atual prefeito, Luis Oporto
(PMDB), detém maioria na Câmara e não conseguiu
se reeleger (perdeu por 5.537 votos a 4.941), o reajuste foi considerado
''natural'' pela presidente da Câmara, vereadora Regina Célia
Rafaeli (PPS). ''Pois é de quatro em quatro anos'', justifica.
Questionada como se chegou a um valor mais de 100% maior que o atual,
para o futuro gestor, ela explicou que outra vereadora fez uma espécie
de ''levantamento externo''. ''Ela consultou gerência de bancos,
empresas, e chegou a um consenso que, pelo fato de o prefeito receber
autoridades até mesmo em sua casa, ele tem que ter uma condição
melhor, até mesmo a nível de (sic) não se corromper'',
explanou.
Por outo lado, a parlamentar fez questão de frisar: ''Ainda
apresentei uma emenda diminuindo esse valor de R$ 18 mil para R$
13 mil, pois, descontado o imposto de renda, cairia para os R$ 9
mil mensais que são hoje o salário bruto'', explicou.
A emenda foi rejeitada, e a proposta original passou por unanimidade.
Por que votou a favor, se defendia a redução? ''Porque
sempre a gente chega a um consenso - e a maioria achou que era bom,
foi antes da eleição, e, puxa, prefeito precisa. Mas
fomos ao Tribunal de Contas consultar, antes, e não teve problemas
de legalidade''.
Sobre a moralidade da medida, a vereadora admitiu: ''Acho complicado,
ainda mais se levarmos em consideração o valor do salário
mínimo. É uma vergonha. Mas é também
uma questão de consenso, de não ilegalidade... mesmo
contrariada, a gente acaba dizendo 'tá tudo bem''', comentou.
Em seguida, pediu para a reportagem corrigir o que ela própria
dissera, instantes antes: ''Não é que seja uma vergonha,
mas ficou desagradável, a comunidade ficou muito chateada
com isso, que não foi nenhum crime: o que houve foi um erro
de cálculo. Deveríamos ter estudado um pouco mais a
região para comparar''.
Janaina Garcia
Reportagem Local
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