Informativo Eletrônico n.º 1.104  -   Ano 05   -   Curitiba (PR), 16 de novembro de 2008.




Vermelho, 16 de novembro de 2008
Para Pochmann, só gasto público com juros deve ser reduzido
A desigualdade entre renda do trabalho e da propriedade no Brasil está pior hoje que em 1990, último ano da chamada “década perdida”. O presidente do Ipea, Marcio Pochmann, alertou que a alta dos juros no país e a crise mundial, provocada pelo vale-tudo dos mercados financeiros, podem piorar a situação. Justamente num período em que o país vinha se recuperando, e a renda do trabalho crescia desde 2004.

Segundo Pochmann, para reduzir os efeitos da crise no Brasil, é preciso tentar manter o nível de atividade. “Também sou favorável a reduzir o gasto público, mas o gasto com juros. Precisamos perguntar à população se ela está satisfeita com o serviço de saúde, se a educação atingiu um nível de qualidade que não precisa de mais recursos, construção de escolas... Todos defendem o corte dos gastos. Então pergunto: onde cortar?”, disse Pochmann, durante apresentação do estudo “Distribuição Funcional da Renda no Brasil”, na sede do Ipea, em Brasília.

“ Do ponto de vista da composição do gasto, o Estado gasta somas significativas com juros. São 7% do PIB que comprometemos anualmente. Juros é renda da propriedade, é uma contribuição para o aumento da desigualdade da renda”, argumentou.

Durante a entrevista coletiva na qual o estudo foi apresentado, em Brasília, o presidente do Ipea lembrou que a desigualdade diminuiu no que diz respeito à renda do trabalho, mas não na renda do país como um todo. “Quando fazemos uma análise por anos, percebemos que nos últimos 17 anos somente em sete anos houve melhora combinada na redução das desigualdades no índice de Gini – com a redução da desigualdade ou ampliação dos trabalhadores na renda nacional”, disse.

Questionado sobre o papel do mercado financeiro para a economia nacional, Pochmann defendeu que se deve dar prioridade ao mercado produtivo, que chega de verdade aos trabalhadores brasileiros. “O mercado financeiro representa 7% da renda dos trabalhadores. Temos que pensar no mercado produtivo, porque é a maior parte. A questão dos juros é importante no enfrentamento da inflação de demanda. Por que reduzir a demanda? Inflação de demanda é quando não se tem a capacidade de produção suficiente para atender o consumo”, afirmou.

Fonte: Ipea


Vermelho, 16 de novembro de 2008
Congresso vai enfrentar semana com obstruções
A Câmara dos Deputados e o Senado terão problemas para conseguir fazer a pauta de votações andar. Os deputados enfrentam a obstrução feita pelo DEM desde a última quinta-feira (13), por conta de a decisão de cassar o deputado Walter Brito Neto (PRB-PB) ainda não ter sido cumprida. Já o Senado tem a pauta trancada por conta de duas medidas provisórias (MPs) e um projeto de lei da Câmara (PLC).

Por conta da obstrução do DEM, a pauta da Câmara para o plenário ainda não foi formulada. Somente as comissões permanentes e provisórias têm suas previsões. Na semana passada, o vice-líder do DEM na Casa, Paulo Bornhausen (SC), afirmou que “o DEM entra em obstrução total até que o presidente da Câmara [Arlindo Chinaglia] faça cumprir a decisão do TSE. Isso é uma questão constitucional e a Câmara está diminuída diante de tal decisão judicial”, declarou Bornhausen.

Na manhã de quarta-feira (12), o TSE notificou a Mesa Diretora da Câmara pelo não-cumprimento do pedido de cassação de Walter Brito. O Tribunal pede que a Casa encaminhe explicações à Justiça num prazo de 10 dias. “O TSE perguntar ‘por que não se cumpriu’ é uma vergonha. Uma decisão judicial não se pergunta, se cumpre”, completou o vice-líder democrata.

Na semana passada, a Câmara votou e aprovou três matérias. A "MP Anticrise II", editada pelo governo para tentar reduzir os efeitos do abalo financeiro mundial e que permite que o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal comprem bancos, seguradoras e fundos de pensão com dificuldades de caixa, o PL 1167/07, que prevê prisão para quem adquirir ou receber imagens pornográficas ou cenas de sexo envolvendo crianças e adolescentes e a PEC da Juventude passaram pelo plenário.

Os líderes dos partidos da base e da oposição devem se reunir nesta segunda-feira para definirem a pauta de votações. Mesmo assim, ainda há a obstrução do DEM, que pode emperrar o andamento dos trabalhos nos próximos dias.

Um dos projetos que seria afetado negativamente seria a reforma tributária. O presidente da Comissão Especial de Reforma Tributária, deputado Antônio Palocci (PT-SP), manteve para a próxima semana a previsão de votação da proposta. Ele deu prazo de discussão até terça-feira (18).

Na semana passada, secretários de Fazenda de vários estados do país estiveram no Congresso para pedir o adiamento da votação até que suas sugestões para o texto fossem analisadas.

Entre as propostas, está a do estado de São Paulo de que a alíquota do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) cobrado nos estados produtores passasse de 2% para 4%. O relator, deputado Sandro Mabel (PR-GO), no entanto, não se mostrou disposto a adiar a votação.

Depois de aprovada na Comissão, a proposta seguirá para o plenário e, em seguida, para o Senado. A expectativa é que a matéria tenha sua tramitação concluída apenas no primeiro semestre do ano que vem.

Senado

Na próxima terça-feira (18) devem começar a ser votadas as medidas provisórias que trancam a pauta do plenário do Senado. A intenção dos senadores é liberar espaço para apreciar as medidas tomadas pelo governo para contornar a crise financeira internacional . No mesmo dia, o presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho, deve reunir-se com os líderes partidários para definir a pauta de votações do Plenário até o final do ano.

Obstruem a pauta duas MPs e um projeto de lei da Câmara. As MPs 440/08 e 441/08 concedem aumentos salariais para mais de 450 mil servidores, fruto em alguns casos de negociação entre sindicalistas e governo desde o ano passado. Algumas carreiras receberão aumentos substanciais, a serem pagos gradativamente até 2010, como é o caso dos auditores da Receita Federal e dos fiscais do Trabalho, que passarão a ganhar entre R$ 13.600 e R$ 19.451.

Votadas as duas MPs, o plenário do Senado deve examinar o Projeto de Lei da Câmara 130/2008, que tramita em regime de urgência. A matéria prevê a criação de aproximadamente 2,4 mil cargos em vários órgãos que executam as políticas sociais do governo federal. Só com a apreciação desses três itens é que os senadores poderiam, então, se voltar para a crise econômica que assola o mundo.

Os parlamentares terão as sessões de terça e quarta-feira para resolver o problema. O Projeto de Lei de Conversão 29/08 - o texto chegou e foi aprovado na Câmara como MP 442/08 - passa a trancar a pauta na quinta-feira (20). A proposta autoriza o Banco Central a aceitar como garantia carteiras de crédito de instituições financeiras que enfrentam falta de dinheiro (liquidez) e recorram à ajuda do BC.

Também pode começar a tramitar na próxima semana a segunda das medidas editadas pelo governo para combater a crise: o Projeto de Lei de Conversão (PLV) 30/08, originado na Medida Provisória (MP) 443/08, aprovada na quarta-feira (12) na Câmara. Ela autoriza o Banco do Brasil (BB) e a Caixa Econômica Federal a constituírem subsidiárias integrais ou controladas e a adquirirem participação em instituições financeiras sediadas no Brasil. (Mário Coelho)


 

Folha de S.Paulo, 16 de novembro de 2008
Com nova regra, PMDB mineiro dificulta entrada de Aécio na sigla
Resolução do diretório impede a filiação de políticos com mandatos eletivos

PAULO PEIXOTO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELO HORIZONTE

Embora o tucano Aécio Neves seja cortejado pelo PMDB nacional, resolução do partido em Minas dificulta eventual entrada do governador na sigla pelo diretório mineiro. Na última segunda, durante reunião da executiva estadual do partido, foi aprovada a resolução proibindo filiações de políticos com mandatos eletivos. A aprovação teve como base o texto da bancada estadual na Assembléia Legislativa.

O governador, que está em viagem oficial à Europa, tem dito que tem boas relações com o PMDB, mas que não é sua intenção deixar o PSDB. Diz, nos bastidores, que é no ninho tucano que tentará se tornar candidato a presidente em 2010. Presidente do PMDB em Minas, o deputado federal Fernando Diniz negou que seja uma resolução "anti-Aécio".

" Não tem nada a ver com Aécio", afirmou Diniz. É na bancada estadual que reside a maior resistência ao governador. No PMDB nacional, avalia-se que, com Aécio, a sigla poderia sustentar candidatura presidencial própria -tese defendida, sobretudo, por aqueles contrários a uma eventual candidatura da ministra Dilma Rousseff (PT).


 

Folha de S.Paulo, 16 de novembro de 2008
G20 lança ação coordenada contra crise
Grupo acerta 47 medidas para ampliar a transparência do mercado financeiro e a cooperação global e reformar instituições como o FMI

Cúpula aponta 28 medidas consideradas "imediatas", como a montagem de um "colegiado de supervisores" do mercado financeiro

FERNANDO CANZIAN
ENVIADO ESPECIAL A WASHINGTON

Reunidos em Washington, os chefes de Estado do G20 concordaram ontem em adotar um pacote de 47 medidas com o objetivo de aumentar a transparência dos mercados financeiros, reforçar seu sistema regulatório, elevar a cooperação internacional e reformar instituições multilaterais como o FMI e o Banco Mundial.

Das 47 medidas, 28 são "ações imediatas", a serem discutidas e eventualmente implementadas até 31 de março de 2009. As 19 restantes são "ações de médio prazo", sem data para implementação. A partir da cúpula de ontem, vários grupos de trabalho com representantes dos países participantes vão designar técnicos para elaborar as ações.

Ao final do encontro, o presidente dos EUA, George W. Bush, disse que a cúpula foi "um grande sucesso. "Estabeleceremos princípios para uma regulação compatível com o século 21, sem que o incentivo à inovação seja destruído. Diferentemente do histórico de reuniões entre líderes mundiais, o documento conjunto produzido e divulgado após a "Cúpula sobre os Mercados Financeiros e a Economia Mundial" é bastante completo.

As medidas procuram atacar os principais pontos identificados como estopins da atual crise internacional. Muitas das ações já vêm sendo ou são adotadas por alguns dos países participantes. A idéia é que mais mercados passem a contemplá-las daqui para a frente.

Por razões óbvias, as medidas não são mandatórias e respeitam a soberania de cada país. Mas a idéia é que regras de boa governança já adotadas por algumas economias sejam aperfeiçoadas, conhecidas e, se possível, estendidas a outros países de maneira mais uniforme e sistemática.

O plano prevê também a montagem de um "colegiado de supervisores" que deverá dividir entre si informações sobre instituições financeiras globais, e um planejamento para harmonizar as suas regras.

No conjunto das propostas, há medidas mais gerais, como aumentar de maneira coordenada os estímulos fiscais em cada economia e tentar reavivar a Rodada Doha de comércio internacional, e outras mais específicas, como regras para elevar os níveis de transparência no mercado e escrutinar melhor os critérios para o pagamento de salários e compensações a executivos de bancos.

Uma das medidas, por exemplo, prevê o aumento da fiscalização e da transparência nas operações com os chamados CDSs ("credit-default swaps") e a criação de câmaras de compensação para esse mercado, que inexistem nos EUA. Os "credit-default swaps" movimentam cerca de US$ 33 trilhões e são títulos que teoricamente protegem investidores e rendem prestação em troca da cobertura de eventuais perdas.

O documento também prevê um aperto nas regras para a elaboração e conteúdo de balanços de bancos e métodos mais transparentes para a divulgação, pelas instituições financeiras, de resultados e operações que hoje não figuram em suas prestações de contas.

Também de forma específica, o plano procura atacar, por meio de revisão de regras, a atuação das agências de classificação de risco, que proporcionam sistematicamente "notas" para a saúde de bancos e empresas. Muitas das instituições e títulos financeiros fortemente afetados pela crise atual não tiveram suas classificações rebaixadas pelas agências antes de apresentarem problemas.

Participaram do encontro todos os membros do G8 (EUA, Alemanha, Canadá, França, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia) mais Brasil, Argentina, México, China, Índia, Austrália, Indonésia, Arábia Saudita, África do Sul, Coréia do Sul, Turquia e União Européia. Holanda e Espanha também participaram, representando a UE.

 

Folha de S.Paulo, 16 de novembro de 2008
FMI pede mais gastos e menos impostos
Instado a ser mais atuante, Fundo sugere política fiscal "agressiva"

Para Strauss-Kahn, diretor-gerente, crise atual dará mais impulso às propostas de reformular a atuação da entidade e do Banco Mundial

SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON

Instado pelos membros do G20 a ter um papel mais ativo na solução da crise econômica mundial e na prevenção de futuras crises, o Fundo Monetário Internacional (FMI) apresentou ontem sua receita: para o primeiro caso, que os governos gastem mais e cortem impostos; para o segundo, um papel maior de supervisão global para a entidade multilateral.

O modelo foi apresentado por seu diretor-gerente, o francês Dominique Strauss-Kahn, que participou da reunião dos líderes ontem, em Washington. "Há algum lugar para política monetária em algumas partes do mundo, não em todas, e outra ferramenta tradicional é a política comercial", disse o francês em entrevista coletiva na sede do Fundo, na noite de ontem, sobre a crise. "Mas as duas não são suficientes, e a recuperação não virá sozinha."

Para que isso aconteça, recomendou DSK, como é chamado o diretor-gerente do FMI, é preciso uma utilização mais agressiva da política fiscal. "Se há um momento na história econômica moderna em que o estímulo fiscal deve ser utilizado é agora", afirmou. "A inflação está perto de zero no mundo hoje, alguns acham que há até risco de deflação, então não há riscos de usar política fiscal."

Pelos cálculos do FMI, cada pacote de estímulo fiscal de 1% do PIB (Produto Interno Bruto) resulta num crescimento igual da economia. "Alguns argumentam que quando você tem um estímulo fiscal desse tamanho, o crescimento da economia é menor", afirmou Strauss-Kahn. "Isso é verdade quando o estímulo acontece num só país. Se a ação é coordenada, o resultado pode ser muito maior."

É por isso que o Fundo está recomendando uma ação conjunta dos países, de implantar pacotes fiscais que combinem aumento dos gastos e corte nos impostos de até 2% do PIB. Se forem coordenados por região, resultarão num salto de 2% da economia, disse Strauss-Kahn.

"É claro que a questão não é só de estímulo, mas qual o tipo e qual é o mais efetivo", disse o diretor-gerente. "Não há um modelo único para todos os países."

Novo papel do FMI

Sobre o futuro da entidade, ele disse que prevê que "nosso papel de supervisão é um papel que certamente vai aumentar." A previsão chega num momento em que a necessidade de o FMI ser reformado e repensar seu papel na economia global foi citada pelo comunicado final do G20 e repetida por George W. Bush. "Nós deveríamos reformar as instituições financeiras internacionais", disse o presidente dos EUA.

Para Bush, entidades como o FMI e o Banco Mundial "são muito importantes, mas eram baseadas na ordem econômica de 1944. E nós concordamos que, para refletir melhor as realidades da economia global de hoje, deveriam modernizar as estruturas de governança."

Sobre isso, Strauss-Kahn mostrou-se parcialmente cético. "Muito tem sido dito sobre isso, comparações com Bretton Woods, mas confesso que ouço esse discurso há tempos, sem resultados concretos, como logo após a crise asiática" dos anos 90. A diferença agora, para Strauss-Kahn, é que o processo de reforma começou "enquanto estamos no meio da crise". Assim, ele acha que o processo tem mais chances de dar certo.


 

Folha de S.Paulo, 16 de novembro de 2008
Turbulência já faz cliente renegociar compra de imóvel
Incorporadoras facilitam pagamento de prestações

FÁTIMA FERNANDES
DA REPORTAGEM LOCAL

Consumidores que adquiriram imóveis de alto padrão na planta e dependiam principalmente de investimentos na Bolsa ou da rentabilidade de seus negócios para quitar as prestações começam a procurar construtoras para revender, trocar ou devolver os bens.

Essa situação não é generalizada, é pontual, mas revela a preocupação de quem comprou uma casa ou um apartamento financiado de não conseguir arcar com o valor das prestações daqui para a frente. Para evitar que esse temor se alastre e atinja também quem adquiriu imóveis de padrão mais popular, incorporadoras e construtoras estão tomando algumas medidas com o objetivo de tranqüilizar o consumidor, o que significa até deixar de reajustar o imóvel pelo INCC (Índice Nacional da Construção Civil) enquanto o empreendimento estiver em construção.

A Folha apurou com imobiliárias e construtoras que quem quer renegociar imóveis neste momento são principalmente profissionais liberais e pequenos e médios empresários que adquiriram casa ou apartamento na faixa de R$ 1 milhão a R$ 2 milhões.

" Quem apostou no mercado de ações e viu a Bolsa desabar ficou com medo de assumir altas prestações. A mesma situação ocorre com pequenos e médios empresários que prevêem queda na rentabilidade de suas companhias. Essas pessoas começam a rever a compra de imóveis, mas não é algo generalizado", afirma Emir Martins, consultor que trabalha com imóveis de alto padrão.
A Tecnisa, incorporadora e construtora, que comercializa imóveis de R$ 250 mil a R$ 1 milhão, relata que alguns clientes procuraram a empresa para renegociar os imóveis adquiridos na planta.

" As pessoas estão com medo de perder o emprego e de não poder pagar a prestação do imóvel. Mas são cerca de cinco casos até agora na nossa empresa em uma carteira de cerca de 4.000 clientes. Estamos estudando medidas para que o cliente não desista da compra", diz Fábio Villas Boas, diretor de engenharia da Tecnisa. Entre essas medidas, consta a possibilidade de o cliente ter um seguro e, em caso de perda de emprego, poder postergar o pagamento das prestações.

Há cerca de um mês a Goldfarb optou pela venda sem correção do INCC nas parcelas mensais no período de construção de suas obras, que duram, em média, dois anos. As parcelas anuais já serão corrigidas. A empresa também se compromete a devolver 100% do valor pago do imóvel (hoje geralmente o consumidor recebe 75% do valor), caso o cliente comprove que não terá mais condição de pagar a propriedade.

Haruo Ishikawa, vice-presidente do SindusCon-SP, diz que quem está revendo a compra de imóveis são os clientes que adquiriram apartamentos na faixa de R$ 1 milhão. " Esse consumidor pagou R$ 200 mil de entrada do apartamento só que agora tem de pagar cerca de 20 parcelas de R$ 40 mil por mês. Se era investidor da Bolsa, por exemplo, tem agora que repensar essa compra. O fato é que, por causa da crise, vai haver um ajuste no mercado da construção civil."

Os lançamentos de empreendimentos deverão ser revistos para o ano que vem, principalmente devido à restrição ao crédito e ao aumento dos juros. "Os lançamentos de novos empreendimentos na faixa de alto padrão serão segurados por pelo menos dois meses", afirma Eduardo Zaidan, diretor do SindusCon-SP.

A Embraesp, empresa de consultoria especializada no setor imobiliário, estima que neste ano serão lançados 560 empreendimentos com cerca de 60 mil unidades na região metropolitana de São Paulo. "Esse número será menor em 2009", afirma Luiz Paulo Pompéia, diretor da Embraesp. Na sua avaliação, os imóveis na faixa de R$ 600 mil a R$ 1,5 milhão serão os mais afetados neste momento, já que foram adquiridos por consumidores que se aventuraram nos investimentos e agora sofrem conseqüências imprevistas.

Os imóveis na faixa de R$ 300 mil a R$ 600 mil, na sua avaliação, poderão ser afetados na medida em que o crédito fique mais restrito. Os imóveis de até R$ 300 mil já estão mais garantidos, já que, segundo Pompéia, a demanda é maior do que a oferta e existe financiamento da Caixa Econômica Federal e de bancos de até R$ 150 mil. "Esse segmento da construção deve sustentar o mercado imobiliário até que ele se recupere do baque novamente", afirma Pompéia.

A Haruo Ishikawa Engenharia e Construções, que trabalha com imóveis de até R$ 500 mil, diz que não houve ainda procura de clientes para renegociar imóveis. "Isso acontece quando há desemprego no meio do caminho", diz Ishikawa.

Ao mesmo tempo em que alguns clientes revêem a compra de imóveis por conta da crise, outros estão atrás deles como forma de investimento, segundo o consultor Martins. "O que vemos é que muitas pessoas compraram imóveis de alto padrão sem solidez financeira. O que deve ocorrer agora é que as vendas terão mais qualidade e pode voltar para esse mercado o investidor que deseja proteger o investimento", diz.

 

Gazeta do Povo, 16 de novembro de 2008
Automóveis
Crise da GM pode respingar aqui
Rentável, filial brasileira não deve escapar ilesa à possível concordata da matriz nos EUA

A General Motors do Brasil, fabricante dos veículos Chevrolet, dará uma entrevista coletiva nesta semana para explicar como as dificuldades de sua matriz, nos Estados Unidos, poderão afetar (ou não) a operação brasileira. É bom que os executivos do Brasil sejam bastante claros, uma vez que, em meio à onda de rumores dos últimos dias, até mesmo consultores tarimbados da indústria automobilística prevêem tempos difíceis para a subsidiária tupiniquim – hoje a terceira maior vendedora de veículos do país.

Nos EUA, a concordata é um instrumento que protege a empresa de ações movidas por credores enquanto tenta se reestruturar – em caso de fracasso, a etapa seguinte é a falência. Nesse sentido, a semana pode ser decisiva para a GM e suas colegas, uma vez que o Congresso norte-americano deve analisar um pacote de salvação ao setor. E bote salvação nisso: no último trimestre, a GM reportou mais um de seus já tradicionais prejuízos bilionários, desta vez de US$ 2,5 bilhões, que elevou para quase US$ 60 bilhões o saldo negativo de seu patrimônio líquido (diferença entre o valor dos ativos e o das dívidas). Seus executivos têm dito que, se o governo não ajudar, em questão de meses a empresa não terá caixa nem para honrar as despesas mais urgentes.

A GM ostenta o maior rombo entre as montadoras norte-americanas, que passam por apuros consideráveis desde 2007. As vendas caem há 12 meses, e 2008 pode chegar ao fim com o pior resultado desde a década de 70. “As vendas nos EUA devem fechar o ano em 12,5 milhões de veículos, o que representa uma queda de 20% em relação a 2007. As três grandes [GM, Ford e Chrysler] estão drenando cerca de US$ 1 bilhão de seus caixas por mês, e tendem a drenar ainda mais, porque as perspectivas são muito ruins”, avalia David Wong, vice-presidente da consultoria Kaiser Associates. Brasil

Enquanto as matrizes rumavam ao brejo, as subsidiárias brasileiras da GM e da Ford cresciam no embalo do mercado nacional, enviando alguns milhões de dólares América acima para reduzir o rombo nos EUA. O problema é que a crise global já desacelera as vendas também no Brasil – o que fez a GM anunciar programas de demissão voluntária e convocar férias coletivas em todas as suas fábricas.

Para Wong, problemas lá fora significam menos investimentos da matriz por aqui. E, ainda que a GM do Brasil continue gerando lucro, terá de encaminhá-lo à matriz, sem poder aplicá-lo em seus próprios projetos. Recentemente, a companhia garantiu a continuidade da construção da fábrica de motores de Joinville (SC), mas os funcionários estão incertos sobre a aplicação, prometida em junho, de US$ 500 milhões para a produção de um novo carro em São José dos Campos (SP).

Embora o mercado especule sobre a possibilidade de a GM vender sua filial brasileira para formar caixa, o consultor vê essa hipótese como improvável. “É pouco vantajoso comprar apenas ‘um pedaço’ de uma montadora.”

Olivier Girard, diretor da Trevisan Consultoria, não crê que a GM brasileira possa ser fechada em caso de concordata da matriz. “Mas a filial pode, sim, demitir funcionários, principalmente na área administrativa. E reduzir sua capacidade de produção, fechando um turno ou, em caso extremo, uma fábrica. Isso é algo que, dada a desaceleração do mercado brasileiro, poderia ocorrer independentemente do que se passa nos EUA.”

Consumidor

José Rinaldo Caporal Filho, diretor da Megadealer, consultoria especializada em varejo automotivo, não crê que o consumidor brasileiro venha a evitar a compra de um Chevrolet por conta do noticiário que vem dos EUA. “O brasileiro vê a GM como uma empresa brasileira. A crise da matriz é algo muito distante dele”, argumenta. Mas Wong, da Kaiser Associates, avalia que o cliente pode, sim, fazer algum tipo de associação. “É possível que ele se pergunte: por que vou comprar um carro de uma empresa que está em concordata nos EUA?”

 

Folha de Londrina, 16 de novembro de 2008
Futuros prefeitos ganharão mais que Lula
Em Sertanópolis, Câmara aprovou reajuste que eleva subsídio de R$ 9 mil para R$ 18 mil; em Apucarana, valor saltou dos atuais R$ 18 mil para R$ 20 mil

Se por um lado assumirão os mandatos em janeiro de 2009 com uma possível lista de demandas da população que os elegeu, por outro, os futuros prefeitos de Sertanópolis (40 km ao norte de Londrina) e Apucarana não poderão reclamar das remunerações que as respectivas Câmaras de Vereadores lhes aprovaram antes da eleição de outubro. Com um aumento que passou dos pouco mais de R$ 9,1 mil para aproximadamente R$ 18 mil, o agricultor Reinaldo Ramos Reis (PSDB), em Sertanópolis, será um dos chefes de Executivo mais bem pagos dos municípios paranaenses. Ele administrará uma cidade de 15 mil habitantes abalada, recentemente por uma onda de violência que contabililiza 15 homicídios no ano. Acima de Reis, porém, está o prefeito eleito de Apucarana, João Carlos de Oliveira (PMDB). Graças a atual composição do legislativo local, o contador vai ver o salário de R$ 18 mil saltar para cerca de R$ 20 mil, em seu mandato.

Ambos os casos superam com folga a remuneração do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que recebe R$ 13,8 mil. O mesmo valor bruto é recebido em Londrina pelo prefeito Nedson Micheleti (PT) que vai se manter congelado, por decisão da Câmara, pelos próximos quatro anos.

No caso de Sertanópolis, onde o atual prefeito, Luis Oporto (PMDB), detém maioria na Câmara e não conseguiu se reeleger (perdeu por 5.537 votos a 4.941), o reajuste foi considerado ''natural'' pela presidente da Câmara, vereadora Regina Célia Rafaeli (PPS). ''Pois é de quatro em quatro anos'', justifica. Questionada como se chegou a um valor mais de 100% maior que o atual, para o futuro gestor, ela explicou que outra vereadora fez uma espécie de ''levantamento externo''. ''Ela consultou gerência de bancos, empresas, e chegou a um consenso que, pelo fato de o prefeito receber autoridades até mesmo em sua casa, ele tem que ter uma condição melhor, até mesmo a nível de (sic) não se corromper'', explanou.

Por outo lado, a parlamentar fez questão de frisar: ''Ainda apresentei uma emenda diminuindo esse valor de R$ 18 mil para R$ 13 mil, pois, descontado o imposto de renda, cairia para os R$ 9 mil mensais que são hoje o salário bruto'', explicou. A emenda foi rejeitada, e a proposta original passou por unanimidade. Por que votou a favor, se defendia a redução? ''Porque sempre a gente chega a um consenso - e a maioria achou que era bom, foi antes da eleição, e, puxa, prefeito precisa. Mas fomos ao Tribunal de Contas consultar, antes, e não teve problemas de legalidade''.

Sobre a moralidade da medida, a vereadora admitiu: ''Acho complicado, ainda mais se levarmos em consideração o valor do salário mínimo. É uma vergonha. Mas é também uma questão de consenso, de não ilegalidade... mesmo contrariada, a gente acaba dizendo 'tá tudo bem''', comentou. Em seguida, pediu para a reportagem corrigir o que ela própria dissera, instantes antes: ''Não é que seja uma vergonha, mas ficou desagradável, a comunidade ficou muito chateada com isso, que não foi nenhum crime: o que houve foi um erro de cálculo. Deveríamos ter estudado um pouco mais a região para comparar''.


Janaina Garcia
Reportagem Local