Congresso em Foco,
22 de novembro de 2008
Tião Vianna é o
candidato da oposição
Senador acreano do PT já teria
apoio do DEM e do PSDB para eleição de presidente
do Senado. Segundo Veja, oposicionistas querem minar grupo
de Renan Calheiros que pretende eleger o ex-presidente José Sarney.
Leia os destaques das revistas semanais:
Veja
A origem do prestígio
Circulam em Brasília teorias sobre a origem do prestígio
do delegado Paulo Lacerda, diretor da Agência Brasileira de Inteligência
(Abin), afastado do comando há quase três meses, desde
que se descobriu que seus espiões haviam se metido clandestinamente
em uma investigação policial, vigiando, fotografando
e grampeando ilegalmente telefones de autoridades. Lacerda tem dito
a amigos que sairá definitivamente, mas não pela porta
dos fundos. O presidente Lula, que admira o delegado, pretendia reconduzi-lo
ao cargo no fim das investigações que tentam identificar
os autores da interceptação clandestina de uma ligação
entre o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes,
e o senador Demóstenes Torres. Lula estava certo de que Lacerda
seria isentado de culpa no caso. Não é mais assim. O
presidente confidenciou a um assessor que a volta do delegado ao comando
da Abin não é mais possível diante da profusão
de ilegalidades que já foram descobertas no curso da chamada
Operação Satiagraha.
Está provado que a Abin, sob o comando de Lacerda, destacou
mais de oitenta espiões para fazer uma investigação
que deveria ser exclusiva da Polícia Federal. Na incursão,
que tinha o objetivo de pegar o banqueiro Daniel Dantas, eles manipularam
material protegido por segredo de Justiça e produziram relatórios
com base em escutas telefônicas – algumas legalmente autorizadas,
outras não. Os espiões também monitoraram os passos
do presidente do Supremo, grampearam seus telefones, vigiaram parlamentares
e produziram relatórios com base nesse material clandestino – tudo
dentro da Abin, com o conhecimento do delegado Paulo Lacerda. Há depoimentos
formais que comprovam que a legião de arapongas agiu acreditando
estar cumprindo uma "missão presidencial". Como Lula,
até onde se sabe, nada tem a ver com a operação,
fica óbvio que o nome do presidente foi indevidamente usado
para justificar ações ilegais – o que já seria
motivo mais que suficiente para, no mínimo, demitir os responsáveis.
Imagine se tudo o que foi descoberto realmente tiver origem em uma "missão
presidencial". Melhor nem imaginar.
Tudo por dinheiro
Em apenas seis dias, o ministro da Saúde, José Gomes
Temporão, migrou de um discurso virulento contra a farra realizada
pelo PMDB na Fundação Nacional de Saúde (Funasa)
para um silêncio sepulcral a respeito do tema. Em uma reunião
do Conselho Nacional de Saúde, Temporão afirmou sem meias
palavras que a gestão da Funasa era "de baixa qualidade
e corrupta". Foi uma resposta às críticas que recebeu
por ter enviado ao Congresso um projeto para retirar da fundação
uma de suas principais atribuições: a assistência à saúde
de 400 000 indígenas. Por esse motivo, Temporão passou
a ser alvejado pelos caciques do PMDB, partido ao qual é filiado
e responsável pela tal gestão "de baixa qualidade
e corrupta" da Funasa. Chegaram mesmo a pedir sua cabeça.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não cedeu a essa
pressão. Cedeu a outra. Orientou Temporão a fumar o cachimbo
da paz com os chefes do PMDB na última terça-feira. Simultaneamente,
injetou 1,6 bilhão de reais no Ministério da Saúde.
Enfim, deu ao PMDB e ao seu ministro o que todos, afinal, queriam de
verdade: mais dinheiro.
Tião, o candidato da oposição
Há dois anos, PT e PMDB fecharam um acordo que previa um rodízio
entre os dois partidos nas presidências da Câmara e do
Senado. Pelo acerto, a partir de fevereiro o petista Tião Viana
(AC) presidirá o Senado e o peemedebista Michel Temer (SP),
a Câmara. A combinação, porém, está ameaçada
desde que o senador Renan Calheiros, que renunciou à presidência
do Senado para escapar da cassação por crimes de corrupção,
tráfico de influência, lavagem de dinheiro, formação
de quadrilha, exploração de prestígio e sonegação
fiscal, decidiu retomar o comando do Congresso. Renan colocou de prontidão
seus seguidores dentro do PMDB – que não são poucos – para
minar a ascensão do candidato petista. Os argumentos contra
Viana revelam o grau de degradação que atingiu o Senado.
Os peemedebistas alegam que o petista não pode ser presidente
porque, no ano passado, ao assumir interinamente o cargo, ele teria
criado terríveis constrangimentos para os colegas ao determinar
a transparência nos gastos dos parlamentares, além de
impedir o uso da máquina para salvar o mandato de Renan Calheiros.
Diante de argumentos tão republicanos, o PMDB quer o senador
José Sarney como o próximo presidente do Congresso.
A manobra de Renan Calheiros fragilizou a candidatura de Tião
Viana, mas ainda não conseguiu inviabilizá-la por completo.
Ao contrário, produziu um fato inédito no Congresso Nacional
na era Lula: está se materializando uma curiosa aliança
entre o PT e a oposição. Um grupo de senadores encabeçado
por Demóstenes Torres, do DEM de Goiás, Tasso Jereissati,
do PSDB do Ceará, e Jarbas Vasconcelos, do PMDB de Pernambuco,
já fechou questão em torno da candidatura do petista.
Os senadores continuam na oposição, votam e discursam
contra o governo Lula, mas consideram que a volta de Renan Calheiros
e sua tropa ao comando do Parlamento seria um retrocesso sob todos
os aspectos, principalmente em relação à já tão
desgastada imagem da Casa. Resume o senador Demóstenes Torres: "Tião
Viana, nesse contexto, acaba sendo uma noiva charmosa. Ele é criticado
por suas virtudes. Entre ele e esse pessoal do PMDB que todo mundo
conhece, não há dúvida".
Isto é
Chinaglia, o autoritário
O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), é considerado
autoritário e explosivo por muitos de seus pares. Na quinta-feira
13, ele mais uma vez fez jus à fama que carrega. Diante da decisão
tomada um dia antes pelo STF de ratificar a posição do
Tribunal Superior Eleitoral em favor da fidelidade partidária,
o presidente do TSE, ministro Ayres Britto, reiterou uma determinação
que já havia feito por mais de uma vez para que a Câmara
cassasse o mandato do deputado paraibano Walter Brito Neto, que trocou
o DEM pelo PRB. Uma determinação mais do que natural,
uma vez que o TSE decidiu pela perda do mandato de Brito Neto em março.
Como resposta, Chinaglia não apenas resistiu a cassar o deputado
infiel como atacou Ayres Britto e o Poder Judiciário de forma
bem mais explosiva do que se pode esperar de um parlamentar. “Quero
dizer ao ministro Ayres Britto que Sua Excelência não
preside um Poder, Sua Excelência preside o TSE. Se eu quiser
cobrar publicamente do ministro Ayres Britto processos em que Sua Excelência
ficou determinado tempo sem deliberar, posso fazê-lo publicamente
também”, reagiu Chinaglia. E emendou dizendo saber que
há ministros que “sentam” em cima de processos.
Ayres Britto entra assim para a longa lista de vítimas das
explosões do presidente da Câmara. “Ele sempre foi
duro, sincero, nunca foi de dourar a pílula. Mas reconheço
que, às vezes, ele se excede”, avalia o deputado Chico
Alencar (PSOL-RJ), um dos principais amigos de Chinaglia no Parlamento.
Na quarta-feira 12, no meio do plenário, atrás do microfone
de apartes, o deputado Francisco Rodrigues (DEMRO) ficou vermelho como
um pimentão. É que, do alto de sua cadeira, o presidente
Chinaglia bradava a plenos pulmões na direção
do deputado: “O senhor se ausenta das votações
e depois acha que pode vir aqui atrapalhar os trabalhos? Não
vou aceitar isso de maneira alguma. Não venha me criar problemas.” Rodrigues
tinha perdido a votação de um dos destaques de uma MP
e queria às pressas se justificar e manifestar qual seria seu
voto. Com isso, acabou interrompendo outro parlamentar. Diante dos
gritos de Chinaglia, Rodrigues respondeu: “O senhor é quem
cria problemas com todo mundo.”
A guerra de todos contra todos
A advogada Heloísa Garcia, 31 anos, esposa do delegado Protógenes
Queiroz, diz que jamais vai esquecer as cenas de pavor que viveu quando
quatro policiais armados com pistolas Glock, com uniforme de guerra,
entraram em seu apartamento, na madrugada da quarta-feira 5. "Tive
de abrir a porta de camisola", diz Heloísa. "Meu sentimento
foi de invasão, como se tivesse sido violentada." Não
lhe permitiram usar o telefone. Seu filho de sete anos ficou traumatizado. "Isso
para mim é ditadura", diz a advogada. Os policiais abriram
sua bolsa e levaram o pen drive, computador pessoal, chip da máquina
fotográfica e celular. No mesmo dia que invadiu a casa de Protógenes,
a PF também revistou a sede da Abin em Brasília e as
subsedes no Rio de Janeiro e São Paulo. Os responsáveis
pela Operação Satiagraha passaram de investigadores a
investigados. Depois que ISTOÉ revelou a presença do
espião do extinto SNI Francisco Ambrósio do Nascimento
dentro da PF, a apuração de vazamento e grampo ilegal
identificou 70 agentes da Abin que participaram do inquérito,
abrindo uma grave crise nos órgãos de inteligência.
O mistério de Dina
Conhecida como Dina, a geóloga Dinalva Oliveira dos Santos
tinha 29 anos em 1974, quando desapareceu durante a guerrilha do Araguaia.
Ela foi a única mulher, entre os guerrilheiros do Partido Comunista
do Brasil (PCdoB) que enfrentaram o Exército, a comandar um
destacamento militar insurgente. Segundo seus companheiros e até alguns
militares, Dina era valente, atemorizava os soldados com sua audácia
e saiu ilesa de vários combates. Seu desaparecimento é um
dos maiores mistérios do Araguaia. Há versões
de que ela morreu em combate; outras garantem que Dina foi executada
pelos militares. Seus restos mortais jamais foram encontrados. Agora,
um documento do Exército obtido por ISTOÉ com exclusividade
revela que a guerrilheira foi presa e interrogada antes de desaparecer.
As provas do depoimento de Dina estão no telex nº 191-E2.1,
datado de 12 de junho de 1990, enviado ao Estado-Maior do Comando Militar
do Oeste, aos cuidados do então capitão Aurélio
da Silva Bolze, hoje, coronel e chefe de comunicação
do Comando Militar Sul. Segundo os relatos dos sargentos José Albérico
da Silva e Paulo Eduardo do Carmo Cunha e do soldado Marcelino Nobre
de Oliveira, Dina teria admitido aos oficiais que a interrogaram sua
participação numa tocaia a uma patrulha militar próximo
a Bacaba, uma das duas bases militares perto de Marabá (PA). "Presa
e interrogada, ela declarou ter desistido da emboscada 'a uma patrulha
militar' em face da maior potência de fogo da tropa regular",
atestam os militares. A patrulha que Dina cercou era comandada pelo
então sargento José Vargas Jiménez, hoje tenente
da reserva. O telex faz parte de uma investigação interna
do Exército para a concessão da Medalha do Pacificador
ao sargento Vargas, que na última semana revelou à ISTOÉ que
os militares tinham ordem de exterminar os guerrilheiros no Araguaia.
Carta Capital
E Lula assinou
Na quinta-feira 20, o presidente Lula assinou o decreto que altera
o Plano Geral de Outorgas (PGO). É o sinal verde para que a
Oi, sócia de seu filho Fábio na Gamecorp, incorpore a
Brasil Telecom.
Quem defende a idéia argumenta que a mudança contempla
a atual tendência do mercado mundial de telecomunicação,
de concentração. E que a união dará ao
Brasil uma empresa nacional capaz de competir internacionalmente. Os
detalhes político-policiais prefere-se esquecer.
Sob o comando do delegado Protógenes Queiroz, a Operação
Satiagraha, que tantas dores de cabeça trouxe ao governo, a
ponto de provocar uma guerra interna na Polícia Federal e entre
esta e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), iria
redundar inevitavelmente nas articulações que levaram à fusão
agora autorizada pelo presidente. Basta reler o relatório de
Queiroz para encontrar o fio da meada a unir os anseios particulares
e políticos encobertos sob o manto do interesse público.
O delegado, vê-se, está sendo bombardeado. Confia-se
que seu substituto, Ricardo Saadi, não desperdiçará as
linhas de investigação. De qualquer maneira, o doutor
Queiroz produziu durante quatro anos farto material, suficiente para
explicar parte essencial das relações de poder no Brasil.
E a fusão entre a Oi e a BrT é um capítulo recente
e importante.
As provas não foram para o ralo
O Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou, na quinta-feira 20, a
legalidade das provas obtidas numa investigação da Polícia
Federal sobre um esquema de venda de sentenças judiciais em
favor de donos de casas de bingo e jogos de azar. Resultado da Operação
Furacão, o inquérito tem 40 mil horas de gravações,
feitas por meio de grampos e escutas ambientais.
O Ministério Público Federal denunciou dois juízes,
um procurador-regional da República, o ministro do Superior
Tribunal de Justiça (STJ) Paulo Medina e o irmão do magistrado,
o advogado Virgílio Medina, pelos crimes de corrupção
passiva, prevaricação e formação de quadrilha.
Gravações da PF mostram Virgílio negociando por
1 milhão de reais a concessão de uma liminar que autorizava
o funcionamento de 900 máquinas caça-níqueis em
Niterói, no Rio de Janeiro. O julgamento do caso será retomado
na próxima quarta-feira 26.
Os réus tentaram, sem sucesso, anular essas provas, sob a justificativa
de que as prorrogações das escutas telefônicas
foram ilegais. Em setembro, o STJ anulou uma investigação
da Polícia Federal que usou quase dois anos de interceptações
telefônicas contra o Grupo Sundown, do Paraná, com base
nesse mesmo argumento. Desta vez, oito ministros do Supremo consideraram
que as prorrogações foram legais. Somente o ministro
Marco Aurélio divergiu. Joaquim Barbosa e Carlos Alberto Menezes
não participam do julgamento.
O araponga agitado
Desde o afastamento do delegado Paulo Lacerda da direção-geral
da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), em 1º de
setembro, o oficial de inteligência Nery Kluwe não perde
uma oportunidade para dizer sempre a mesma coisa: Lacerda não
pode voltar. Em entrevistas a jornalistas, em conversas com superiores
e na Comissão Parlamentar de Inquérito das Escutas Telefônicas
Clandestinas, a CPI dos Grampos, ele mantém o discurso monocórdio:
Lacerda não pode voltar. A posição de Kluwe, presidente
da Associação de Servidores da Abin (Asbin), é semelhante à da
defesa do banqueiro Daniel Dantas, baseada na “contaminação” das
provas pela participação de espiões da agência
na Operação Satiagraha. Mas os motivos são outros.
Isso porque a volta de Lacerda poderá encerrar a carreira de
Kluwe.
Ao assumir o comando da Abin, em setembro de 2007, Lacerda fez um
movimento de aproximação com Kluwe ao definir uma política
de aumento salarial, festejada dentro da categoria. Mas acabou por
arrumar, em seguida, um inimigo poderoso dentro da instituição
ao criar a Corregedoria-Geral da agência, nos moldes da existente
na Polícia Federal.
Na Abin, Lacerda notou que não havia nenhum mecanismo formal
de investigação interna. No máximo, instauravam-se
comitês de sindicância, sem autonomia nem método,
que nada investigavam. Muitos dos processos, simplesmente, desapareciam
sem jamais ser concluídos. Para o cargo de corregedora-geral
foi designada a delegada Maria do Socorro Tinoco, ex-chefe de gabinete
de Lacerda na PF, policial com fama de ser linha-dura. Lá, ela
trabalha com outros dois delegados federais.
No ano passado, a Controladoria-Geral da União (CGU) encaminhou à Corregedoria-Geral
da Abin uma denúncia contra Kluwe. O presidente da Asbin foi
acusado de advocacia administrativa, por usar informações
secretas da agência para atuar em causas particulares (ele é advogado). É crime
passível de demissão a bem do serviço público,
o que certamente vai acontecer com Kluwe, dadas as informações
disponibilizadas à delegada Maria do Socorro.
Ao contrário da PF, no entanto, o cargo de corregedor da Abin
não tem mandato, ou seja, o titular pode ser demitido a qualquer
momento. Por isso Kluwe corre contra o tempo e insiste no afastamento
imediato de Lacerda e, ato contínuo, na nomeação
de um servidor da Abin para o cargo. Dessa forma, ele pode apressar
a demissão da delegada Maria do Socorro, a extinção
da Corregedoria (que estaria “contaminada” pela presença
de policiais federais) e o arquivamento do processo – ou, como
nos velhos tempos, contar com o sumiço da papelada. A Corregedoria
descobriu, ainda, que ele faltava ao trabalho sob alegação
de cumprir agenda de atividades da associação de servidores,
mas, na verdade, usava os horários para comparecer a audiências
de clientes particulares.