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Agência Diap, 21 de dezembro de 2008
MP 451: contribuintes economizarão
até 52% de IR em 2009
A aprovação da MP 451, que entre outros benefícios
fiscais criou mais duas alíquotas na tabela do Imposto de Renda
da Pessoa Física, dará um alívio substancial para
o bolso do contribuinte já em janeiro de 2009. Projeção
realizada pela VerbaNet Legislação Empresarial Informatizada
mostra que o desconto será maior para quem ganha menos.
Ou seja, no caso de um salário bruto de R$ 3 mil por mês,
em relação ao desconto sofrido em dezembro de 2008, o
IRRF do mês de janeiro será 52,51% menor. A redução
superou os 36% quando comparada à tabela que entraria em vigor
em 1º de janeiro de 2009, anteriormente à edição
da MP 451.
Já para quem tem renda bruta de R$ 5 mil por mês, por
se manter na última faixa de alíquota (27,5%), a redução
será menor – 17,85% em relação a dezembro
de 2008 e 14,19% em comparação à tabela de janeiro
de 2009, anterior à MP 451 – pois abrange apenas a aplicação
das alíquotas nas faixas anteriores e correspondem à diferença
verificada na parcela a deduzir.
“Quando olhamos individualmente a diferença em Reais,
o valor não parece tão significativo, porém em
termos percentuais são significativos e certamente terão
influência no volume de arrecadação assim como
poderão surtir algum efeito positivo na economia, até mesmo
pelo aspecto psicológico, uma vez que redução
de tributos é algo bastante raro no Brasil”, explica o
contador Ernesto Dias de Souza, autor do levantamento.
O reescalonamento das faixas da tabela do IRPF e do IRRF são
reivindicações antigas, assim como os valores de dedução
com escolas e dependentes. Atualmente, a dedução por
dependente no IRRF mensal de dezembro de 2008 é de R$ 137,99
e passará a ser de R$ 144,20 a partir de janeiro de 2009.
A dedução de gastos com instrução no IRPF
na declaração anual de ajuste, no exercício 2008,
ano-calendário 2007 era de R$ 2.480,66. “Com os preços
praticados pelas escolas particulares e os demais gastos incorridos
para se criar um filho ou cuidar adequadamente de um idoso, além
das despesas médicas que quando comprovadas são integralmente
dedutíveis na declaração anual, esses valores
chegam a ser uma afronta ao contribuinte”, argumenta o especialista.
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Vermelho, 21 de dezembro de 2008
Fang Gang: Pode a China crescer depressa
na crise?
A China vem crescendo ao ritmo anual médio
de 9,8% há três décadas. Os últimos três
meses, porém, foram acompanhados por desaceleração
nas exportações, no investimento doméstico,
na produção industrial e na receita tributária
da China. Um desaquecimento de grandes proporções parece
estar se configurando. Poderá o crescimento chinês rápido
persistir? Eu creio que sim.
Por Fang Gang, em Pequim*
Operário da construcão trabalha em arranha-céu
de Xangai A China vem crescendo ao ritmo anual médio de 9,8%
há três décadas. Durante a maior parte desse período
os mercados mundiais estiveram favoráveis, sem grandes crises
ou desaquecimentos econômicos ou financeiros. É verdade
que houve crises regionais como a do sudeste asiático em 1997-98,
o estouro da bolha habitacional do Japão em 1990 e da bolha
hi-tech americana em 2000. Mas nenhuma foi obstáculo sério
ao prolongado boom chinês.
Os últimos três meses, porém, foram acompanhados
por desaceleração nas exportações, no investimento
doméstico, na produção industrial e na receita
tributária da China. Um desaquecimento de grandes proporções
parece estar se configurando. Poderá o crescimento chinês
rápido persistir? Eu creio que sim.
A desaceleração atual da China se deve a causas em sua
maioria internas. Desde 2004, o governo vem procurando esfriar uma
economia superaquecida, reduzindo o índice de crescimento de
12% para um índice mais sustentável de 8% a 9%. Começou
a taxar as exportações para reduzir o superávit
comercial.
Se os responsáveis pela política econômica chinesa
pudessem ter previsto o que acontece agora na economia global, talvez
não tivessem se esforçado tanto para frear o crescimento.
Mas uma razão pela qual a China vem conseguindo manter seu crescimento
nos últimos 30 anos é que ela iniciou intervenções
macroeconômicas contrárias aos ciclos do momento nas épocas
de boom, em lugar de esperar por um colapso. O governo chinês
nunca acreditou que deve deixar apenas o mercado decidir o que vai
acontecer na economia. Quando não existe grande bolha, não
há necessidade de preocupar-se com uma grande crise.
Base sólida
Outra razão pela qual o crescimento forte provavelmente continuará é que
suas bases econômicas são sólidas. Os fatores que
o incentivam continuam firmes: mão-de-obra de custo baixo, educação,
alto índice de poupança, infra-estrutura que vem melhorando
e urbanização acelerada. Ademais, a posição
fiscal da China está entre as melhores do mundo. A razão
entre endividamento do governo e PIB é de cerca de 20%, contra
mais de 80% nos EUA, 160% no Japão e entre 60% e 90% na Europa.
A política monetária vem sendo prudente, e a ameaça
de inflação foi reduzida pela queda recente nos preços
do petróleo e das commodities. A balança de pagamentos
internacionais continua em superávit, e ainda há um fluxo
líquido de capitais entrando no país, apesar do arrocho
global do crédito. As reservas oficiais em divisas chegarão
em breve a US$ 2 trilhões. Assim, os responsáveis pela
política econômica terão ampla margem de manobra
no caso de algo dar errado.
O recente pacote de estímulo fiscal de US$ 568 bilhões – que
será gasto com expansão do sistema ferroviário,
construção de metrôs, programas habitacionais de
baixo custo, sistemas de irrigação, seguridade social
rural e saúde – vai acrescentar alguns pontos percentuais
ao crescimento nos próximos dois anos. Com a política
monetária e alguns controles administrativos sobre investimentos
e gastos locais abrandados, o desaquecimento deve ser breve.
Mas nem tudo são boas notícias para a economia chinesa.
O baixo consumo ainda é ponto fraco. O consumo das famílias
foi responsável por apenas 34% do PIB, e o consumo total não
chegou a 50% do PIB em 2007. Essa fraqueza, porém, é institucional
e não poderá ser corrigida facilmente no curto prazo.
Então, com a economia doméstica basicamente segura,
existe algo que a China possa fazer para ajudar a economia mundial?
Se o país mantiver seu crescimento real em 8% por ano nos próximos
dois anos, os mercados emergentes talvez possam crescer 4% ao ano.
Isso pode impedir a economia mundial de cair em recessão. A
impressão que se tem é que a China poderá ter
o papel de ''âncora do crescimento''.
Capacidade limitada
Não se deve, entretanto, esperar que ela faça muito
mais que isso. A ação chinesa para a estabilização
financeira mundial, por exemplo, é limitada.
A China teve pouca participação nos mercados globais
de derivativos e não tem muitos títulos de crédito
podres a limpar, nem bancos a resgatar. Talvez a China devesse usar
suas reservas de US$ 1,9 trilhão para comprar mais dívida
estrangeira, mas esse enorme pool de ativos já está carregado
de títulos soberanos de outros países.
É improvável que a China esteja em condições
de exercer papel central na reforma do sistema financeiro e monetário
global em 2009, porque ainda não liberalizou plenamente suas
contas de capital e seu sistema financeiro. Por isso, Pequim preferiu
ser coadjuvante nas questões ligadas ao controle de riscos e à regulamentação.
Mas é provável que a China aumente sua participação
em uma questão: o status do dólar como moeda global de
reserva. O país foi criticado no passado por não valorizar
sua moeda tanto quanto os EUA exigiam.
A China talvez aprecie emendas ao mandado do FMI ou o acréscimo,
na agenda do fundo, de um ''capítulo'' que discipline a disponibilidade
de moeda dos EUA e o acúmulo de sua dívida. Na visão
da China, não basta exigir que outros se adaptem à desvalorização
do dólar. Com renda per capita de US$ 2.500 e 35% da força
de trabalho ainda na agricultura, os problemas domésticos chineses
ainda são enormes. Assim, o desenvolvimento vai continuar a
ser sua maior prioridade.
A boa notícia é que a China reconhece quanto se beneficiou
da abertura dos últimos 30 anos. Não há mais volta
em seu caminho rumo ao envolvimento pleno no mercado global. O verdadeiro
desafio da China será encontrar maneiras de lidar com o crescente
protecionismo global, à medida que a crise financeira e a recessão
onerarem cada vez mais a fundo seus principais mercados externos.
* Professor de Economia na Universidade de
Pequim e na Academia Chinesa de Ciências Sociais, diretor do
Instituto Nacional de Pesquisas Econômicas; artigo distribuído
pelo Project Syndicate e tomado da Folha de S. Paulo
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Prensa Latina, 21 de dezembro de 2008
Desemprego no México é o
maior deste século
A taxa de desemprego no México subiu para 4,47%, a mais alta
dos últimos oito anos. A informação é do
Instituto Nacional de Estatística e Economia (Inegi). O resultado
superou as expectativas, que se situavam em torno de 4%.
O aumento do desemprego é atribuído às demissões
na indústria automobilística, o fechamento de empresas
e a paralisação de projetos no setor da construção
civil.
Analistas mexicanos prevêem que a situação se
agrave nos primeiros meses de 2009, devido à crise econômica
global.
O Banco do México redefiniu sua expectativa para o crescimento
econômico do país no ano que vem. A previsão agora é de
0,11% negativo. A entidade prevê que serão criados apenas
81 mil postos de trabalho no país durante os próximos
12 meses.
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Vermelho, 21 de dezembro de 2008
Obama e sindicatos endossam pacote
de Bush
O pacote de socorro às montadoras automobilísticas General
Motors e Chrysler, anunciado nesta sexta-feira (19) pelo presidente George
W. Bush, obteve um apoio condicionado e cauteloso de dois personagens
decisivos em sua implementação: o presidente eleito, Barack
Obama: e o líder do sindicato da categoria – chamada a aceitar
cortes nos salários e condições de trabalho.
Obama divulgou imediatamente uma curta declaração,
com palavras cuidadosamente medidas.
" As ações de hoje são um passo necessário
para ajudar a evitar um colapso na nossa indústria automobilística,
que teria consequências devastadoras para nossa economia e nossos
trabalhadores ... As empresas automobilísticas não devem
desperdiçar esta oportunidade de reformar as práticas
de má gestão e dar início à reestruturação
de longo prazo que é absolutamente necessária para salvar
essa crítica indústria.
Mais tarde, ao apresentar os quatro nomes que completam sua equipe
econômica (três deles republicanos), o presidente eleito
fez mais comentários. "Por mais assustadores que os desafios
que herdamos possam ser, estou convencido de que a nossa equipe e ao
povo americano estão preparadas para enfrentá-los",
disse.
" Vai levar mais tempo do que qualquer um de nós gostaria,
anos, e não meses. Vai piorar antes que fique melhor, mas será melhor
se estivermos dispostos a agir rapidamente e sem vacilar", agregou.
" Como pe merguntam como meço a força da economia
americana, a minha resposta é simples: empregos e salários",
disse ele. Mas adiante agregou que "haverá alguns passos
dolorosos que terão de ser dados".
A declaração do sindicato
O sindicato da indústria automobilística dos EUA, UAW
(United Auto Workers) divulgou uma declaração do seu
presidente, Ron Gettelfinger, logo depois que a Casa Branca anunciou
empréstimos de emergência para a General Motors e a Chrysler.
Gettelfinger diz "alegrar-se" com as medidas; considera "injustas" as
condições que "penalizam os trabalhadores",
mas sua declaração refere-se a uma "partilha" dos
sacrifícios entre "todas as partes interessadas".
Veja a íntegra:
" Alegra-nos que a administração Bush tenha agido
atendendo a uma necessidade urgente, ao fornecer empréstimos-ponte
de emergênciaàs empresas automobilísticas dos EUA
e ao perseguir um processo de reestruturação que não
seja a falência. Isto irá manter abertas as portas das
fábricas americanas, manter os americanos trabalhando e prevenir
as devastadoras consequências econômicas, para milhões
de americanos e milhares de negócios, que resultariam da liquidação
das operações de uma ou mais empresas automobilísticas.
Todas as partes interessadas - administração, diretores,
acionistas, fornecedores, comerciantes e trabalhadores - terão
de participar na partilha de sacrifícios para ajudar a indústria
a avançar. Os membros UAW já fizeram sacrifícios
significativos para ajudar a tornar as empresas automotivas domésticas
mais competitivas.
Enquanto valorizamos que o presidente Bush tenha tomado as necessárias
medidas de emergência para ajudar as empresas do automóvel
americanas a enfrentar a atual crise financeira, estamos decepcionados
por ele ter acrescentado condições injustas que penalizam
os trabalhadores. Estas condições não estavam
incluídas na legislação bipartidária endossada
pela Casa Branca, que passou a Câmara dos Representantes e obteve
o apoio da maioria dos senadores.
Vamos trabalhar com a administração Obama e o novo
Congresso para assegurar que estas condições injustas
sejam removidas; assim como nos reuniremos nos próximos meses
com todas as partes interessadas em criar um futuro viável para
a indústria automobilística os EUA."
Da redação, com agências
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Congresso em Foco, 21 de dezembro de 2008
Um infeliz 2009 para os banqueiros
Ednarte Mirelo*
Meu amigo é abonado gerente de um grande banco. Bom pra ele,
bom ainda mais pro patrão a quem ele serve. Mas ai de nós,
clientes. O amigo-gerente diz que sou exigente e chato – e tem
razão –, mas a verdade é que, com os banqueiros
que temos no país, só me resta torcer para essa raça
ter um 2009 extremamente infeliz. Só assim os pobres clientes
teriam um pouco mais de sossego.
Peço licença para gastar sua paciência e mostrar
como os banqueiros merecem sofrer muito neste ano que se inicia. E
o exemplo sou eu mesmo, num desabafo em que prometo abrir o coração
e até o bolso, se, até o final da escrita, os bancos
não levarem minha última moeda.
Como não desejar um 2009 trágico para o setor financeiro
se, mesmo não sendo um exímio devedor do cheque especial,
sempre arranjam um jeito de me tomar mais um? Lembram-se daquele incrível
plano de redução das taxas bancárias, anunciado
com pompa pelo governo e lançado em março do ano que
se foi?
Pois não é que inventaram um jeito de compensar a diminuição
no número de tarifas? Olhe você mesmo, como eu olhei no
meu extrato: a cada seis meses aparece a chamada “tarifa de manutenção
de cadastro”. Se eu já pago uma tarifa mensal, o que seria
isso?
Sentado num ônibus, telefonei para famigerada instituição
financeira em que mantenho a conta ao menos para receber o salário.
Depois de argumentar bastante com o atendente para entender o que
seria aquela estranha cobrança, conseguimos chegar a uma conclusão
objetiva. A tarifa de manutenção de cadastro é o
aluguel semestral que eu pago ao Banco “A” [droga! por
razões contratuais com meus patrocinadores do mercado financeiro,
sou proibido de revelar o nome dos espertinhos] para manter algumas
folhas de papel com meu nome, endereço, telefone e xerox do
RG ocupando alguma prateleira na agência.
Tão simples quanto tão justo! Afinal, se eu pago R$
16 por mês ao banco, por que não haveria de dar mais R$
22,50 a cada seis meses ao banco? Viva a mão invisível
do mercado.
E eu que não ouse pensar que isso me dá direito a fazer “operações
extravagantes”, como emitir um DOC ou abusar da boa fé dos
banqueiros, sacando meu dinheiro mais de quatro vezes por mês.
Para tudo isso, uma cobrança extra, claro.
* * *
Pensei que apenas meu banco fosse ruim, mas descobri que a concorrência
também faz a clientela gemer. Caí na bobagem de exigir
de volta R$ 700 que eu e meu pai havíamos pago a um consórcio
de automóveis anos atrás. E o bendito consórcio
pertencia a um banco.
– Fica tranqüilo, seu Zizo, porque, se o senhor desistir
do consórcio, daqui a quatro anos pode requerer tudo de volto.
Isso está na lei e é garantido – disse o vendedor
ao meu pai. Ah, se fosse fácil!
Como disse, caí na bobagem e pedi a devolução
do dinheiro pago quatro anos atrás. Imaginei que, com a correção
monetária e algum eventual desconto, iria receber o mesmo valor.
O pilantrinha do Banco “B” [droga de contrato!] me repassou
míseros R$ 180.
Inconformado, fiquei pendurado à toa nos ineficientes 0800 oferecidos
para suposto “atendimento” ao cliente. Sem solução,
apelei ao chamado Juizado Especial Cível – que deveria ser
mais rápido que a Justiça Comum. Oito meses depois, eis
a sentença. A juíza mandou o banco a devolver-me R$ 500.
Fiquei feliz igual criança com doce na mão em 12 de
outubro. Ainda que o valor fosse pequeno, havia dado uma “surra” no
sistema capitalista opressor, que pensa poder tudo. A Justiça
eles não dobram, imaginei, ingênuo.
Qual nada! O pilantrinha do Banco “B”, que lucrara R$
7 bilhões em 2007 recorreu de uma sentença de R$ 500.
Haja murrinhagem. Pior que isso: ligou três vezes para minha
casa para me oferecer um cartão de crédito daquele banco,
como se nada houvesse acontecido. Pagar o que me devem...
O processo aguarda decisão da Turma Julgadora. Há seis
meses. Minha raiva agora é dom ?o Judiciário.
***
E o que dizer daqueles que deveriam nos ajudar a comprar uma casa
própria? Deixamos de pagar aluguel, garantimos alívio
nas contas, chamamos os amigos para comer churrasco e galinhada com
pequi em casa e, de quebra, movimentamos a economia aquecendo o mercado
da construção civil, o emprego de pedreiros, serventes
e engenheiros e jurinhos dos banqueiros-santinhos...
Para tudo isso, deveria haver o chamado crédito facilitado. Quem
tem o nome limpo pode pegar o dinheiro porque vai pagar, certo? Hummmmm...
Fui iniciar minha obra. Fui ao Banco “C” [eu vou rasgar
esse contrato imbecil um dia!], onde os juros deveriam ser menores.
Sabe o que os malandrinhos me disseram? Que mesmo que eu tivesse espaço
no orçamento, não poderia pegar o dinheiro porque eu
deveria ter todas – repito: todas! – as minhas despesas
principais contidas em 30% da minha renda.
Ah, claro! Se eu tivesse com 70% do meu salário livre não
precisaria de empréstimo. Eu mesmo tocava a obra.
O gerente me deu duas soluções: arranjar um contracheque
maior (!) ou antecipar minhas dívidas que ainda não tinham
vencido. Quis chamar um advogado, mas estava tudo na legislação
do Banco “C”. É, camaradas, ao inimigos, a lei.
Desisti e obedeci ao gerente. Vendi as bugigangas lá de casa,
fiz bicos, cobrei dinheiro que tinha emprestado e arranjei uma graninha,
uns R$ 2 mil. Com ela, paguei todas as prestações do
meu carro que só iam terminar em julho de 2009. Só isso?
Depois, recorri a amigos e parentes. Arranjei mais R$ 2 mil e paguei
todas as mensalidades de 2008 que a faculdade da mulher ainda nem havia
cobrado.
Afinal, depois de muita espera, saiu meu empréstimo. Mas o
Banco “C” [patrocinadores cruéis, morrei!] disse
que só poderia me liberar o dinheiro se eu abrisse uma conta
lá. “Tudo bem”, respondi. “E tem que fazer
um cartão de crédito para você e para sua esposa
também”, disse o gerente.
O quê? Queriam acabar com minhas dívidas com os outros,
sim, mas para eu me endividar com eles. Aí é fácil,
Genésio! Aí é mole, Genésio! Até eu,
Genésio! Até eu!
* * *
Mas agora é ano novo, vida nova e, com essa fusão entre
os bancos, tudo vai ser diferente. Disso eu tenho certeza. Vou quebrar
meu cartão de crédito que me obrigaram a fazer. Também
vou jogar no lixo os outros cartões que me mandaram pelo Correio.
E vou continuar desconfiado dessas pessoas que fazem a gente sofrer,
mesmo quando rejeitamos viver endividados no cheque especial ou no crédito
consignado – uma modus vivendi que só beneficia os banqueiros
e ainda tira a nossa credibilidade.
Ah, eu paguei o empréstimo que tomei com os amigos. Valeu, décimo-terceiro.!
E que em 2009 nós, os cidadãos com vergonha na cara,
sejamos muitos felizes.
E que os banqueiros baixem as portas de suas biroscas, todos falidos.
Observação: As assessorias de imprensa
dos bancos não-citados neste texto foram procuradas, mas nenhuma
quis me responder. Ótimo!
*Ednarte Mirelo, resmungão e jornalista,
não está pendurado no cheque especial ou no crédito
consignado, mas, mesmo assim, se sente indignado
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Gazeta do Povo, 21 de dezembro de 2008
Trabalho
Desemprego é a cara da crise
no Paraná
Durante quase a metade de sua vida, Daniel Cremoneze, 48 anos,
trabalhou na fábrica de autopeças da Bosch, na Cidade
Industrial de Curitiba. Um colega dele, João Tavera de Oliveira,
47 anos, passou mais de 14 na empresa. Para eles, e outras quase
mil pessoas, este Natal não será dos melhores. Todos
foram incluídos nos cortes promovidos pelas empresas paranaenses
desde o início de dezembro.
Pode-se dizer que são a cara da crise financeira internacional
no Paraná: pessoas que, muitas vezes, trabalhavam há vários
anos na mesma empresa e acreditavam na estabilidade de seus empregos.
Agora, olham para 2009 como um ano de grandes desafios. Será preciso
buscar uma nova colocação, ou, ao menos, se preparar
para isso.
O ex-almoxarife Daniel Cremoneze conta que atravessou diversas crises
econômicas durante os 22 anos em que trabalhou na Bosch. Desta
vez, pensou que não seria diferente. “Quando começam
a falar em crise, é natural ficar preocupado, mas, como das
outras vezes, acreditei que poderia me manter empregado fazendo meu
trabalho conforme as necessidades da empresa. Confesso que fui pego
de surpresa”, lamenta o funcionário, um dos 200 demitidos.
Cremoneze recebia cerca de R$ 3 mil mensais – entre salário,
gratificações e horas-extras – e acredita que a
remuneração, considerada acima da média para a
função, foi crucial para a inclusão de seu nome
na lista de demitidos. “Não sou de chorar, mas na hora
[da demissão] não tive como segurar.”
Assim como ele, o metalúrgico Itamar Aparecido de Lima, 36
anos, nem sequer imaginava a possibilidade de ser demitido: havia sido
efetivado há pouco, após um ano com contrato temporário
na Case New Holland (CNH), fabricante de tratores, máquinas
e equipamentos agrícolas na Cidade Industrialde Curitiba. Na
segunda-feira passada, recebeu a notícia de que fora demitido,
junto com outros 59 colegas do setor. Ao todo, a CNH dispensou350 funcionários.
“Na realidade, não imaginava que a crise fosse nos atingir.
Três meses atrás houve uma reunião da empresa em
que nos disseram que a agricultura não seria afetada pela crise
e que não precisávamos nos preocupar, pois não
haveria demissões. Minha contratação, inclusive,
foi efetivada em outubro para suprir a demanda”, conta.
Com a mudança brusca de cenário e a perda do emprego,
Lima se viu obrigado a suspender seus planos de reformar a casa e trocar
o carro no início de 2009. Ele conta que não tem um “plano
b”, mas estipulou como meta conseguir um novo trabalho, na mesma área
em que atuava, até março do ano que vem. “Sei que
não vai ser fácil e que o momento é preocupante,
já que todas as indústrias são afetadas ao mesmo
tempo. Mas, se for o caso, estou até disposto a mudar de cidade
para conseguir trabalho”, afirma.
Para Daniel Cremoneze, o futuro é uma incógnita. “Pode
até ser falha minha, mas depois de tanto tempo trabalhando,
nunca me preparei para esse momento.” Com parte do dinheiro que
recebeu com a rescisão, ele quitou suas dívidas e, com
o restante, abriu uma conta-poupança, que pretende manter como
um seguro caso sua recolocação no mercado ultrapasse
o tempo em que receberá o seguro desemprego.
Também na Bosch, o operador da linha de produção
João Tavera de Oliveira diz ter sido pego de surpresa. “Quando
a crise estourou falavam em cortes, mas, como sofro de problemas de
saúde, não imaginei que poderia ser demitido. Mas aconteceu
justamente o contrário: depois de 14 anos, 4 meses e 10 dias
trabalhando na Bosch, fiquei desempregado”, lamenta.
Além do salário de R$ 1.780, o trabalhador também
perdeu o plano de saúde da empresa, que lhe garantia o tratamento
para os problemas cardíacos, na coluna e de artrite que sofre.
Faltando pouco mais de 3 anos para se aposentar, ele se diz preocupado
com o futuro e acredita que sua idade de 47 anos, somada ao fato de
se locomover com auxílio de muletas, pode limitar as possibilidades
de uma nova contratação. “Vai ser difícil
encarar [a situação] daqui pra frente”, diz.
Na fabricante de ônibus e caminhões Volvo, que demitiu
430 trabalhadores, o clima de festas de fim de ano deu lugar à preocupação
com novas demissões que podem ocorrer até março
de 2009. “Até agora a medida só afetou a produção,
mas o clima é ruim e a expectativa é de que o próximo
corte seja ainda maior”, diz um coordenador de produção
da empresa, que preferiu não se identificar.
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Folha de S.Paulo, 21 de dezembro de 2008
Ninguém resolve problemas hoje
sem o Brasil, diz Sarkozy
Presidente da França, que chega
amanhã ao país, defende "refundação
do capitalismo"
Para francês, crise não é do
capitalismo, mas de um sistema que vem dando primazia ao especulador
sobre o empreendedor
CLÓVIS ROSSI
COLUNISTA DA FOLHA
O presidente Nicolas Sarkozy chega amanhã precedido de juras
de amor ao Brasil, em entrevista à Folha, a ponto de dizer que "a
reforma da governança mundial não é uma opção.
Trata-se de uma necessidade, uma urgência". Claro que tal
reforma tem que incluir o Brasil: "Quem pode imaginar hoje poder
resolver os problemas do mundo sem países como a China, a Índia
e, é claro, o Brasil?"
O presidente da França aproveitou a entrevista -feita por e-mail-
para explicar melhor o conceito de "refundação do
capitalismo", expressão que utilizou no auge da crise e provocou
não poucos receios em Washington. Sarkozy diz que a crise não é do
capitalismo, mas de "um sistema que foi progressivamente dando primazia
ao especulador sobre o empreendedor (...). O capitalismo não é a
lei da selva, não é a irresponsabilidade generalizada,
não é a primazia da especulação".
FOLHA - O que o sr. quer dizer com "refundação
do capitalismo"?
NICOLAS SARKOZY - Tenho a convicção
de que a crise financeira que estamos atravessando não é uma
crise do capitalismo: é a crise de um sistema que se
distanciou dos valores mais fundamentais do capitalismo. É a
crise de um sistema que foi progressivamente dando primazia
ao especulador sobre o empreendedor. É a crise de um
sistema que levou os agentes econômicos a assumirem cada
vez mais riscos, e riscos cada vez mais inconseqüentes. É a
crise de um sistema que deixou os bancos especularem nos mercados
em vez de fazerem seu papel, que é financiar o investimento
e o desenvolvimento. O capitalismo não é a lei
da selva, não é a irresponsabilidade generalizada,
não é a primazia da especulação.
Quando falo de reconstrução do capitalismo quero
dizer que devemos voltar aos verdadeiros valores da economia
de mercado, os que colocam o empreendedor e o desenvolvimento
no centro da economia. Devemos reconstruir um capitalismo regulado,
um capitalismo onde os bancos cumpram com o seu papel, um capitalismo
onde o risco seja avaliado, assumido, onde as agências
de avaliação tenham um comportamento irrepreensível
e sejam controladas, um capitalismo fundado na transparência
e não na opacidade. Foi isso que propus e que começamos
a construir, todos juntos, em 15 de novembro passado, na reunião
do G20 em Washington.
Em Washington, as maiores economias do mundo entenderam-se sobre a necessidade
de uma reativação econômica em âmbito mundial,
de uma nova regulação dos mercados financeiros, de uma
nova governança econômica mundial, mais aberta aos países
emergentes, e da recusa ao protecionismo. A cúpula possibilitou
avanços extremamente concretos em matéria de vigilância
das agências de avaliação, de melhora da regulação,
sobretudo em matéria contábil e de regra prudencial, ou
no que se refere à política de remuneração
nos bancos. Também decidimos abrir o Fórum de Estabilidade
Financeira aos países emergentes.
A cúpula de Washington foi o marco de uma virada. O que estamos
descobrindo desde então sobre as práticas de determinados
financistas e as lacunas na regulação conforme é praticada
hoje reforça em nós a idéia de que precisamos mudar
rapidamente as coisas para devolver a confiança aos poupadores,
aos investidores, a todo mundo. Não tenho dúvida de que
o próximo G20 nos permitirá ir ainda mais longe.
FOLHA - Até agora todos os programas de socorro aos
bancos produziram magros resultados em matéria de liberação
de créditos. O que falta para que retorne a confiança?
SARKOZY - Os programas a que se refere já nos
permitiram evitar que o sistema financeiro mundial desmoronasse
totalmente. Não é o que eu chamaria de um magro
resultado. Não se esqueça de que passamos a dois
dedos da catástrofe, quando, com a falência do
Lehman Brothers, passamos de uma grave crise financeira ao
que os economistas chamam de crise "sistêmica",
uma crise de confiança generalizada no sistema financeiro
e um risco de falências em série das instituições
financeiras. Foi o que fizemos na Europa, ao adotar um plano
de salvação que compreendia garantias importantes
sobre os empréstimos interbancários, que são
o pulmão do sistema financeiro, e ao intervir pontualmente
para ajudar certo número de bancos em dificuldade.
A situação do crédito teria com isso voltado ao
normal? É evidente que não, essas coisas levam tempo. Na
França, estive por várias vezes com os representantes dos
bancos e fui bem claro sobre o seguinte ponto: aqueles a quem estamos
ajudando por meio dos bancos são as empresas e as famílias,
e não os acionistas das instituições financeiras.
Criamos um tal "Sr. Crédito", cuja missão é garantir
que as pequenas e médias empresas tenham efetivamente acesso aos
financiamentos. Foram feitos 50 mil contatos por meio de dirigentes de
empresas ou de famílias para obtermos informações.
Isso nos permitiu aprofundar as decisões dos bancos em 500 casos
e evitar falências. Não nos contentamos com princípios
ou injeções de bilhões. Examinamos caso a caso para
encontrar uma forma de resolver as dificuldades.
A prioridade agora é devolvermos a confiança aos agentes
econômicos por meio de medidas adequadas para a reativação.
Nossa responsabilidade é enviar sinais políticos significativos,
e o primeiro deles é continuar coordenando de maneira estreita
nossos esforços.
FOLHA - Há muitas críticas à União
Européia, que dizem que ela foi incapaz de atuar em conjunto.
Lembra a famosa frase de Henry Kissinger: "Se eu quiser falar
com a Europa, que número de telefone disco?" Falta à UE
capacidade de ação conjunta?
SARKOZY - O que vimos nas últimas semanas
foi exatamente o inverso do que acaba de me descrever. Vimos
uma Europa unida, uma Europa determinada, uma Europa que agiu.
Não só a Europa reagiu à crise de maneira
coordenada como esteve na vanguarda das iniciativas tomadas
em nível mundial. Foi o plano adotado pelos europeus
em 12 de outubro, na cúpula da Zona do Euro, e depois,
nos dias 15 e 16 de outubro, no Conselho Europeu, que inspirou
o plano americano "Paulson 2". Também foi
a Europa que propôs e obteve a reunião do G20,
em Washington, que resultou na adoção de medidas
extremamente concretas, e que se reunirá novamente no
dia 2 de abril em Londres. E foi ainda a Europa que, durante
o Conselho Europeu da semana passada, esteve entre os primeiros
a implementar orientações decididas em Washington.
Nesta crise, não só a Europa possuía um
número de telefone, mas tinha sobretudo uma vontade
e uma solidariedade inabaláveis. Essa Europa unida e
na vanguarda também é a que pôs fim à crise
entre a Rússia e a Geórgia, e é a que
possibilitou avanços históricos, seja na luta
contra o aquecimento climático, mas também na área
de defesa e imigração. A Europa tem hoje consciência
de que nunca é tão forte como quando está unida.
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Folha de S.Paulo, 21 de dezembro de 2008
ENTREVISTA
RICARDO ANTUNES
Negociação não
deve se sobrepor à lei
Para especialista da Unicamp, não é aceitável
retirar direitos do trabalhador
Antunes diz que empresas querem "flexibilizar
para baixo" a CLT e transferir aos trabalhadores e ao Estado o ônus
da crise que criaram
VERENA FORNETTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Ricardo Antunes, professor titular de Sociologia do Trabalho da Unicamp,
afirma que as negociações entre sindicatos e empregadores
para flexibilizar direitos e garantir empregos são falaciosas.
Para o professor, medidas como a suspensão temporária
do trabalho, conhecida como "layoff", criam apenas a porta
de saída para o desemprego e representam um período em
que o funcionário sobrevive com uma semi-remuneração.
FOLHA - O sr. acha que a própria CLT [Consolidação
das Leis do Trabalho] permite flexibilizar relações
de trabalho, por exemplo, por meio da suspensão temporária
do contrato?
RICARDO ANTUNES - A CLT nasceu em 1943 como
uma consolidação de leis, enfeixando um conjunto
de medidas que compreendiam direitos do trabalho. Ela estabelece
um patamar mínimo legal sobre o qual é possível
fazer uma negociação entre capital e trabalho,
mas nunca rebaixando o patamar dado pela CLT. Esse é o
primeiro ponto: ela é flexível para cima, a
partir desse patamar que vale para o conjunto da classe trabalhadora.
A partir disso, é possível fazer um conjunto
de negociações que possam, por exemplo, ampliar
direitos. O problema é que as empresas, em uma situação
de crise forte, usam um instrumento que é a burla,
ou a flexibilização para baixo, da CLT. A CLT
permite uma flexibilização para cima. O que
as empresas querem agora é usar um mecanismo de burla,
como fazem com muita freqüência na legislação
social brasileira, de tal modo que elas, responsáveis
pela crise, transfiram para os trabalhadores e também
para o Estado o ônus da crise. E os lucros permanecem
preservados. Ou seja, os responsáveis pela crise são
os únicos que não querem pagá-la.
FOLHA - Qual é a sua opinião sobre as negociações
em curso entre sindicatos e empregadores?
ANTUNES - A CLT permite que haja um período
de cinco meses [conhecido como "layoff"] que permite
uma fase em que o trabalhador poderia buscar qualificação. É muito
diferente usar esse mecanismo como uma porta de saída
do trabalhador do emprego para o desemprego. O problema que
está se colocando agora é dessa ordem. A flexibilização
das leis trabalhistas tem sido colocada como um imperativo
dos capitais em escala global. No Brasil, isso vem acontecendo
também há um bom tempo, como se percebe na proposta
em que se quer fazer com que o negociado se sobreponha ao legislado.
Por exemplo, existe uma lei, uma jornada de trabalho definida,
mas, se as empresas negociarem com os sindicatos um aumento
ou uma redução dessa jornada de trabalho, o negociado
passará a se sobrepor ao legislado. E as empresas querem
isso porque sabem que, em um momento difícil, os trabalhadores
temem flagelo maior, o desemprego. Em situação
adversa, os trabalhadores podem abrir mão de direitos
para garantir o mais elementar, que é o trabalho. Mas
isto é muito negativo para os trabalhadores e, por isso,
deve ser rejeitado.
FOLHA - E a sua opinião sobre as propostas em curso
para flexibilizar as leis do trabalho?
ANTUNES - As propostas que estão
em curso, como aquela apresentada pelo [secretário
do Trabalho e Relações do Trabalho de São
Paulo] Guilherme Afif Domingos e muitas outras, não
trazem nenhuma vantagem real para os trabalhadores, mas grandes
desvantagens. Não é verdade que, fazendo esse
tipo de concessão, o emprego estará garantido.
Provavelmente os trabalhadores vão ganhar um estágio
de cinco a dez meses de semi-remuneração, que é o
caminho abrandado do desemprego. Isso não é bom
para a classe trabalhadora. E não é aceitável.
E em todas as experiências de flexibilização
ocorridas -veja o exemplo inglês ou norte-americano-
quem acaba perdendo é a classe trabalhadora.
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Folha de S.Paulo, 21 de dezembro de 2008
ENTREVISTA
AMAURI MASCARO NASCIMENTO
Flexibilização
pode ocorrer sem traumas
Professor da USP diz que caminho para
afrouxar leis do trabalho já começou
Nascimento avalia que momento é propício
para "pacto social" no Brasil, com discussão entre
governo, sindicatos e empregadores
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
O jurista Amauri Mascaro Nascimento, professor titular da Universidade
de São Paulo especializado em direito do trabalho, afirma que
a crise internacional e seus efeitos para o mercado de trabalho são
uma oportunidade de fazer um "pacto social" no país
e discutir a proteção ao emprego e como dar assistência
aos trabalhadores desempregados. "Só os interessados, mediante
uma discussão, que será também política,
poderão chegar a um meio-termo", disse. Veja os principais
trechos da entrevista.
FOLHA - A redução da jornada de trabalho,
a tentativa de adiar reajustes já concedidos e a suspensão
temporária do contrato de trabalho são ações
positivas para contornar demissões em meio à crise?
AMAURI MASCARO NASCIMENTO - Comparando os
efeitos de uma dispensa do empregado e de uma suspensão
do contrato de trabalho, essa suspensão é menos
traumática do que uma dispensa. Eu proporia algo um
pouco mais amplo do que está na lei. [Durante a suspensão
do trabalho], o trabalhador receberia um seguro-desemprego
pago pelo governo e mais o que for estipulado entre o sindicato
e o empregador. Assim, o que ele ganharia não seria
tão pouco e daria, em parte, para ele suportar os
efeitos da crise.
FOLHA - As demissões podem ser contidas com negociações
diretas entre sindicatos e empresas, em cada fábrica, ou deveriam
ser alvo de uma política de Estado?
NASCIMENTO - Melhor seria uma política
de Estado. Seria muito oportuno no Brasil o que nunca se fez
aqui, um pacto social entre as centrais sindicais, o governo
e as representações patronais. Nesse pacto social,
que muitos países já fizeram, ficariam estabelecidos
os critérios dessa política para a fase que nós
vivemos, e isso acabaria com as divergências e diminuiria
a tensão dos conflitos.
FOLHA - Como é possível proteger os direitos
do trabalhador e cumprir a reivindicação das empresas
de não elevar o custo do trabalho?
NASCIMENTO - Hoje, com o problema que surgiu
da crise, estamos levantando de novo essas grandes questões.
Primeiro, saber se realmente o custo do trabalho é alto
ou não é. Segundo, saber se a legislação
trabalhista precisa ou não ser reformada e de que maneira.
Essas questões vão continuar em debate no próximo
ano, até que se encontre uma saída razoável.
A proteção do trabalho é uma idéia
do direito do trabalho. Então as duas respostas devem
ser dadas com a preocupação com o trabalhador.
FOLHA - O sr. acha que a legislação trabalhista
deveria ser flexibilizada?
NASCIMENTO - Ela já está flexibilizada.
Acordos de redução de salário com sindicatos
podem ser feitos no Brasil. O banco de horas é uma
flexibilização, as férias coletivas
estão previstas na CLT (Consolidação
das Leis do Trabalho). Já houve outras formas de flexibilização.
FOLHA - O sr. vê essas flexibilizações
como positivas?
NASCIMENTO - Elas aconteceram. Ninguém
nem percebeu. Quando se levanta a discussão sobre
flexibilização, é preciso pensar que
já houve uma fase, que continua até hoje, de
grande flexibilização das leis brasileiras,
e que isso não trouxe nenhum trauma para as relações
de trabalho. Basta enumerar essas medidas e dezenas de outras:
a mulher não podia fazer trabalho noturno, hoje pode.
FOLHA - O sr. acha que o caminho da flexibilização
deve ser aprofundado?
NASCIMENTO - É um aspecto delicado.
Para os empresários, o custo do trabalho é alto.
Para os trabalhadores, o salário é baixo. Por
absurdo que pareça, os dois têm razão.
Acontece que o salário é baixo em proporção
a salários em dólar, mas, se você for
ver o percentual que a empresa no Brasil tem que pagar acima
do salário por uma série de encargos, acaba
sendo um percentual maior que o de outros países.
A maneira de resolver a questão é com um pacto
social, uma discussão entre governo, sindicatos e
representantes patronais. (VF)
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Revista Consultor Jurídico, 21 de
dezembro de 2008
Museu do índio
Decisão pode fazer com
que Roraima deixe de existir
por Ives Gandra da Silva Martins
São Paulo é a cidade mais populosa
do Brasil e, nas Américas, perde apenas para a Cidade do México
e Nova York. Tem quase 11 milhões de habitantes.
Um território correspondente a 11 cidades de São Paulo — o
que valeria dizer, se habitado nos moldes dessa metrópole, a
mais de 110 milhões de brasileiros — foi praticamente
assegurado pelo Supremo Tribunal Federal para apenas 18 mil índios.
Pela decisão de oito eminentes julgadores daquela Corte, os
brasileiros lá residentes há décadas terão
que se retirar para que um museu do índio vivo seja preservado
e para que possam eles caçar, pescar e admirar a paisagem.
A fim de que tais índios não sejam perturbados em suas
tradições primitivas, os demais 185 milhões de
brasileiros estarão proibidos de lá entrar sem uma autorização
da Funai, emitida sempre para algumas horas de estadia. Excetua-se
a possibilidade de as Forças Armadas e a Polícia Federal
lá ingressarem sem o carimbo da Funai.
Impressiona-me, todavia, a facilidade com que a Funai autoriza considerável
número de ONGs estrangeiras a ficar por mais que algumas horas
e a atuar nas áreas contingenciadas, como me impressiona que
as referidas áreas estejam entre as mais ricas em minérios,
biodiversidade e recursos hídricos, não tendo ficado
claro, no voto dos preclaros julgadores, quem poderá explorá-los
e quem se beneficiará dos recursos financeiros decorrentes se,
um dia, a exploração for autorizada.
Roraima praticamente deixará de existir. Quarenta e seis por
cento de seu território foram declarados como pertencentes aos índios,
em que o governo é a Funai. A outra metade, quase por inteiro,
a União entende pertencer-lhe, o que vale dizer, são
terras administradas pelo Incra. De rigor, Roraima é o primeiro
Estado brasileiro praticamente sem território, pois ou pertence
aos índios ou pertence à União, ou seja, quem
o governa são a Funai e o Incra.
Pela decisão, se for confirmada no próximo ano — faltam
três votos —, os eminentes ministros do Supremo — que
admiro há muitos anos, tendo, inclusive, livros escritos com
alguns deles — outorgariam, pelo precedente criado, a pouco mais
de 400 mil índios, nascidos ou não no Brasil, com cultura
diferente da dos outros 185 milhões de brasileiros, 107 milhões
de hectares, vale dizer, 4,5 Estados de São Paulo, onde vivem
hoje 42 milhões de brasileiros!
Thomas Friedman, em O Mundo é Plano, não vê mais
espaços para o isolamento de países, regiões e
povos, de maneira que os índios "não civilizados",
nos próximos 50 anos, estarão, rigorosamente, adaptados
aos padrões culturais do mundo inteiro, recebendo, porém,
seus descendentes o privilégio de viver em extensas áreas
territoriais herdadas dos pais.
Enquanto isso, continuarão os brasileiros não-índios
mais pobres não "aprisionados" em vastas extensões
de terras descontínuas, como afirmou o brilhante ministro Carlos
Ayres Britto — que, por ser bom poeta, impregna seus votos de
líricas imagens —, mas em dolorosas favelas, sem espaço,
como os estudos antecipatórios de especialistas e de entidades
a eles dedicados, no mundo inteiro, sinalizam que haverá na
segunda metade do século 21.
Hart, grande jusfilósofo inglês, em 1961, no seu livro
The Concept of Law, disse que "direito é o que a Suprema
Corte declara ser". Não se discute, pois, uma decisão
do Supremo.
Não deixa de ser, todavia, estranho que, assegurando o artigo
5º, inciso XV da Constituição, a todos os brasileiros
o direito de andar livremente por todo o território nacional,
185 milhões possam andar sem autorizações funaianas
por apenas 87% do país, enquanto aos índios, mesmo os
não nascidos no Brasil e que para cá migraram de outros
países sul-americanos, está garantido o direito de percorrer
100% do Brasil, independentemente de qualquer autorização.
É de lembrar que o Brasil assinou declaração
universal de auto-determinação dos povos indígenas
na ONU, em fins do ano passado, enquanto Austrália, Nova Zelândia,
Estados Unidos e Canadá, que têm índios, não
assinaram.
Compreende-se que indígenas de nossos países vizinhos,
que não têm tratamento igual ao brasileiro para seus nativos,
estejam ingressando no país, passando a ter direitos superiores
aos dos brasileiros não-índios de circulação
no território nacional. Todos são iguais perante a lei,
mas, como dizia Orwell, alguns são, decididamente, mais iguais
do que os outros.
[Artigo publicado originalmente no jornal Folha
de S. Paulo deste domingo]
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