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Vermelho, 26 de dezembro de 2008
José Anibal: "essa coisa
de quanto pior melhor não é o caminho"
Com os índices de aprovação popular
do presidente Luiz Inácio da Silva batendo os 80%, segundo
as pesquisas, era de se esperar que a oposição -- pelo
menos nas suas parcelas mais racionais -- começasse a repensar
o seu discurso. Na cúpula nacional do PSDB, um dos mais preocupados
em encontrar argumentos convincentes para um eleitorado que dificilmente
estará contra o atual governo é o líder do partido
na Câmara, José Aníbal (SP). O deputado foi entrevistado,
por telefone, no último dia 24, pela coluna do jornalista
Tales Faria, quando estava de passagem pela Alemanha. O Vermelho
reproduz abaixo os trechos da conversa publicados pelo blog do jornalista,
que deu à matéria o sugestivo título de "Tucano à procura
de um discurso".
"Estive aqui há 30 anos, com o país sob escombros. É interessante
ver como esse povo sabe emergir com vigor de situações
adversas. Perguntei a um amigo aqui como estão vendo essa crise,
e ele respondeu que da mesma forma que das vezes anteriores: os alemães
arregaçarão as mangas e superarão qualquer problema",
comentou Aníbal. E eu provoquei:
Isso que o senhor fala dos alemães, em relação à crise, é mais
ou menos o que o presidente Lula está falando por aqui. Mas,
no Brasil, o PSDB acha que a crise vai ser arrasadora…
Aníbal: Não, não é bem assim. Como o Lula,
eu acho que essa crise foi criada pelos americanos. Os EUA e a Inglaterra é que
estavam com seus sistemas financeiros mergulhados numa verdadeira farra.
Parecia casa de tolerância. Nem o Brasil, nem a França ou
a Alemanha viveram a mesma situação. Nós vamos sentir,
sim, os efeitos da crise, mas acho que não será um impacto
arrasador. É pouco provável que, neste quadro de crise
global, aumentem as encomendas de produtos brasileiros no exterior, mas
não creio que elas venham a diminuir significativamente. No final,
vai dar para segurar as pontas.
Então o senhor não está no discurso catastrófico?
Aníbal: Essa coisa de quanto pior melhor não é o
caminho adequado para a oposição. As pesquisas mostram:
o eleitor já notou que o Lula não é culpado pela
crise. Que o presidente, de certa forma, está cumprindo seu
papel. Se a situação da economia piorar, o cidadão
não irá culpar o governo, então não adianta
a oposição ir por aí.
E o que fazer?
Aníbal: Vamos ter que construir um novo discurso para a oposição.
Em 2010, o Lula tentará jogar toda a emoção possível
no apoio à sua candidata à sucessão presidencial,
a ministra Dilma Roussef. Nós só teremos um caminho:
apelar para a razão. Tentar atrair o eleitorado do Lula, explicando
que, se foi bom com ele, pode ser melhor ainda, por exemplo, com o
José Serra, que faz um excelente governo em São Paulo.
E quanto ao Serra? O senhor já esteve mais próximo do
Geraldo Alckmin, que tomou do Serra uma candidatura a presidente e
foi derrotado pelo Lula. Na última eleição, o
Alckmin perdeu também, desta vez para o prefeito Gilberto Kassab
(DEM), um aliado do Serra. O senhor acha que, agora, os tucanos de
São Paulo estão unificados em torno da candidatura presidencial
do Serra? Ou vai continuar essa briga entre o grupo do Serra e o do
Alckmin?
Aníbal: Não haverá essa briga. Em São
Paulo, agora, não tem como ser de outra forma: todos vão
defender a candidatura Serra, um movimento que já até se
consolidou em outros partidos no Estado, como o PMDB. O DEM nem se
fala, já é Serra desde criancinha.
Pois é, nesse quadro, a candidatura do governador de Minas
Gerais, Aécio Neves, fica difícil.
Aníbal: Pode ser… Mas eu não vou dizer que o Aécio
está fora. Digamos que, agora, o PSDB está numa situação
delicada. Que precisaremos ter muito empenho e muita criatividade para
solucionar. O Serra tem tudo para ser candidato, mas o Aécio
também. Não há como o PSDB vencer as eleições
presidenciais sem Minas Gerais. E ninguém vai vencer em Minas
sem o apoio efetivo do Aécio Neves. Então, se o Serra
quiser mesmo ser o candidato, ele e o PSDB terão de encontrar
uma solução que deixe o Aécio Neves satisfeito.
Serra para presidente e Aécio, para vice?
Aníbal: Falar em Aécio para vice pode melindrá-lo… Prefiro
não entrar nessa bola dividida.
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Vermelho, 26 de dezembro de 2008
Em 10 anos, presença negra nas
universidades passou de 18 para 31,5%
As políticas de ações afirmativas adotadas até agora
por universidades públicas e pelo governo federal, por meio do
Prouni, tiveram impacto mais simbólico que prático sobre
a participação dos pretos e pardos no ensino superior.
Mesmo assim, verifica-se uma trajetória crescente na última
década. Em 1998, pretos e pardos eram 18% dos estudantes de graduação.
Em 2007, o número já era de 31,5%.
Dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio)
mostram que, de 2002, quando as universidades começaram a instituir
programas de cotas, a 2007, a participação de pretos
e pardos no ensino superior público variou 1,8 ponto percentual
--passou de 36,4% dos estudantes de graduação do setor
para 38,2%. De 2001 a 2002, a variação foi de 2,8 pontos
percentuais.
Pretos e pardos são nomenclaturas usadas pelo IBGE para a
classificação de raça/cor, a partir da autodeclaração
dos entrevistados. Na rede particular, a presença do grupo passa
de 26,2% para 29,5% de 2004 a 2007. A principal ação
afirmativa no setor é o Prouni, que desde 2005 concede bolsas
a estudantes carentes de escola pública na proporção
igual à de pretos, pardos e indígenas de cada Estado.
O baixo impacto das políticas de ação afirmativa
adotadas até agora pode ser explicado pelo fato de que a maior
parte dos alunos não é afetada por elas. No Prouni, os
197 mil pretos e pardos que entraram pelo programa desde sua criação
correspondem a 45% dos bolsistas. Considerando os que entraram em 2006,
porém, o ingresso representou apenas 1% do total de matrículas
no ensino superior.
O impacto de cotas em universidades públicas também é restrito
considerando-se que três quartos dos estudantes estão
em instituições privadas. Desde 2002, segundo estudo
do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), 33 universidades
públicas, de ao menos 250, passaram a adotar algum tipo de cota
racial.
O projeto de lei que o governo quer aprovar no Congresso prevê que
50% das vagas nas federais sejam reservadas a alunos de escolas públicas,
e que esse percentual seja dividido de acordo com a proporção
de pretos, pardos e indígenas de cada Estado.
Mesmo se aprovada, porém, a lei terá reflexo pequeno
sobre o quadro geral, embora de fato aumentem a presença de
pretos e pardos nas instituições federais em que as cotas
forem instituídas.
Segundo o mais recente censo do ensino superior produzido pelo Inep,
com dados de 2006, as federais respondiam naquele ano por 12,4% das
matrículas em todos os cursos de graduação do
país. Caso as vagas para pretos e pardos correspondessem à sua
representação na população brasileira -ou
seja, 49,8%-, haveria uma reserva correspondente a 3,1% das matrículas
no ensino superior.
" Há todo um engodo em torno desse assunto [lei que cria
cotas]", diz José Luiz Petrucelli, pesquisador do IBGE,
favorável às cotas. "Mesmo se essa lei tivesse sido
aprovada e estivesse sendo cumprida, ela não tem um efeito prático
muito importante. Tem um efeito simbólico muito importante,
por isso tanta polêmica."
Os números acendem no movimento negro uma reivindicação
de cotas em todas as universidades, públicas e privadas. Segundo
frei David, da ONG Educafro, essa reivindicação é planejada
para daqui a cerca de três anos, já que, na atual lista
de prioridades, vêm antes a aprovação do projeto
de lei pelo Senado, a criação de bolsas para os alunos
cotistas conseguirem se manter nos cursos e o monitoramento do desempenho
acadêmico deles, para, segundo afirma, divulgar os benefícios
da política para a população como um todo. A idéia
não deve encontrar apoio no Ministério da Educação.
Crescimento
Mesmo com baixo impacto de ações afirmativas, a presença
dos pretos e pardos no ensino superior, contando tanto o público
como o particular, tem uma trajetória crescente na última
década. Em 1998, pretos e pardos eram 18% dos estudantes de
graduação. Em 2007, o número já era de
31,5%.
Para Simon Schwartzman, do Iets (Instituto de Estudos do Trabalho
e Sociedade), a principal razão para o crescimento é o
aumento de matrículas, que foi de 187% na última década.
Isso aconteceu no ensino médio. A participação
dos pretos e pardos nessa etapa passou de 42% para 50,5%, aumentando
o número de pessoas aptas a cursar o ensino superior. A qualidade
da educação é um fator apontado para melhorar
o acesso à universidade pela população mais pobre
--e, conseqüentemente, de mais pretos e pardos, geralmente associados
a essa faixa econômica.
Jorge Abrahão, do Ipea, diz que, aliadas à expansão
das vagas nas universidades federais que vem ocorrendo sob o governo
Lula, as ações afirmativas poderão produzir um
impacto maior do que o de hoje.
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Vermelho, 26 de dezembro de 2008
Maioria dos brasileiros ainda
não teme desemprego, diz pesquisa
Apesar de os números do Caged terem apontado para a redução
de mais de 40 mil vagas formais na economia do país em novembro,
a maior parte dos brasileiros ainda não está preocupada
com o desemprego. Segundo dados divulgados nesta semana pela Associação
Comercial de São Paulo (ACSP), com base em pesquisa IPSOS feita
entre 8 e 16 de dezembro, apenas 9% dos consumidores acreditam que existe
a possibilidade de perda do próprio emprego no primeiro trimestre
de 2009. Outros 51% dos entrevistados consideram esse risco pequeno ou
muito pequeno.
"Isso mostra ainda o alto grau de confiança do consumidor
na economia brasileira", diz a ACSP.
A mesma pequisa também revela que 35% dos entrevistados pretendem
comprar produtos em liquidações no início de 2009,
ante 30% que não pretendem comprar. Entre aqueles irão às
compras, 59% dizem que pagarão à vista e 36% pretendem
parcelar. De acordo com a Associação Comercial, isso
pode ajudar a sustentar a economia no primeiro semestre.
A pesquisa IPSOS-ACSP fez mil entrevistas nacionais domiciliares
mês, 12 mil entrevistados ano, em 70 cidades, o que inclui nove
regiões metropolitanas, por mês. A margem de erro é de
três pontos percentuais.
FGV: trabalho qualificado sofrerá maior impacto
Segundo opinião do chefe do Centro de Políticas Sociais
da Fundação Getulio Vargas, Marcelo Neri, o mercado de
trabalho brasileiro, sobretudo o mercado formal, que se mostrava aquecido
até setembro deste ano, batendo recorde de geração
de emprego, deverá passar por uma desaceleração
devido à crise internacional.
Até agosto, o emprego no país estava 24,7% acima do
nível de 12 meses do ano passado, que foi o recorde anterior
da série, disse Neri, em entrevista à Agência Brasil
. Isso correspondeu à abertura de 1,88 milhão de postos
de trabalho formais (com carteira assinada) no Brasil no período
de 12 meses encerrado em agosto.
Neri considerou esse resultado surpreendente, pois a crise internacional
havia sido anunciada há um ano e várias economias desenvolvidas
já enfrentavam recessão, com extinção de
inúmeros postos de trabalho. “Até o último
PIB [Produto Interno Bruto, soma de todas as riquezas produzidas no
país] o quadro era surpreendente: apesar da crise, anunciada
há mais de um ano lá fora, muitos países desenvolvidos
estão com crescimento negativo e com destruição
de postos de trabalho, e o Brasil, até pouco tempo, batia recorde
de geração de emprego formal.”
O economista ressaltou que os números no mercado de trabalho
mudam conforme o PIB, cuja variação no terceiro trimestre
do ano atingiu 6,8%. Nos 12 meses encerrados em setembro, a taxa de
crescimento do PIB foi de 6,4%, a maior da série histórica.
Como a crise chegou em outubro ao mercado de crédito, destacou
Neri, trouxe preocupações, “como aquelas vividas
nas crises externas da metade dos anos 90, que acabaram se tornando
crises de desemprego”. Para ele, somente as grandes empresas
deverão sofrer de forma mais acentuada o desaquecimento deste
fim de ano, por causa da segunda etapa da crise.
Neri acredita, no entanto, que o desaquecimento tende a ser menor
no mercado de trabalho das pessoas não qualificadas. “Quem
está sofrendo mais com a crise, tanto no Brasil quanto fora,
são as grandes empresas e as pessoas que trabalham nesses setores
e têm trabalhos mais qualificados, mais formais”. Neri
destacou, porém, que não existem até agora sinais
consistente de que a crise tenha se instalou no mercado de trabalho
brasileiro. “Chegou ao mercado creditício, às exportações,
mas não ao mercado de trabalho. Houve algum desaquecimento no último
mês, mas não a diminuição de postos de trabalho.” (Leia
mais)
Previsão pessimista
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômicos (OCDE) prevê, em relatório, que o número
de desempregados no mundo deve aumentar em 20 a 25 milhões de
pessoas até 2010 por conta da crise econômica. A OCDE é um
grupo de 30 países industrializados do qual o Brasil não
faz parte.
Segundo a organização, a maioria dos países vai
enfrentar uma recessão severa e prolongada, que pode se estender
até 2010. A OCDE recomendou às nações o
uso de um "coquetel" de redução das taxas de
juros e injeções de dinheiro governamental na economia
para combater os efeitos da desaceleração.
No fim de outubro, a Organização Internacional do Trabalho
(OIT) também estimou que a crise aumentará o número
de desempregados no mundo em 20 milhões, e considerou que o
desemprego pode alcançar um recorde histórico de 210
milhões de pessoas no fim de 2009.
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Repórter Brasil, 26 de dezembro de
2008
Carta sugere redução
de ritmo de trabalho nos frigoríficos
Entidades públicas e da sociedade civil recomendam
a redução da jornada e do ritmo de trabalho,
além das pausas durante a jornada, como pontas de
lança para melhorias nas condições tensas
que caracterizam unidades frigoríficas.
Redução da jornada e do ritmo de trabalho, além
de pausas de recuperação de fadiga - no meio da jornada
- nos termos da Norma Regulamentadora 17 (NR 17). As recomendações
da “Carta de Florianópolis sobre a saúde e segurança
do Trabalho em Frigoríficos” podem ser entendidas como
um pontapé na tentativa de construção de uma agenda
proposta por órgãos públicos e civis voltada para
a melhoria do ambiente de trabalho no setor.
Pelo menos esta foi a intenção dos participantes do
seminário “Frigoríficos: como superar a atual situação
de adoecimentos de trabalhadores”, realizado em Florianópolis
(SC) no último dia 12 de dezembro.
Participaram do encontro representantes do Ministério Público
do Trabalho (MPT), da Justiça do Trabalho, do Ministério
do Trabalho e Emprego (MTE), do Instituto Nacional do Seguro Social
(INSS), do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador
(Cerest), da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança
e Medicina do Trabalho (Fundacentro), do Sindicato das Indústrias
da Carne e Derivados de Santa Catarina (Sindicarnes), da Confederação
dos Trabalhadores da Alimentação (Contac), da Federação
dos Trabalhadores nas Indústrias de Carnes e Alimentação
de Santa Catarina (Fetiaesc) e da Associação Brasileira
de Advogados Trabalhistas (Abrat).
Está marcado para março do ano que vem o "Encontro
Nacional de Responsabilidade Social de Fato", que tem como objetivo
a definição de processo de implementação
efetiva de “medidas visem melhorar a condição de
saúde e dignidade humana no exercício do trabalho nos
frigoríficos”.
“ Estamos todos a consumir produtos que são fruto do
sofrimento humano”, salientou o procurador do Trabalho Sandro
Sardá, do Ofício do MPT em Chapecó (SC), um dos
organizadores do evento. Para ele, há uma verdadeira legião
de lesionados e é fundamental rever o ritmo da agroindústria.
Sandro sugeriu a intensificação da parceria entre o MPT
e o MTE, com a criação de grupos móveis de fiscalização
do setor frigorífico, atuando em nível nacional.
O procurador fez uma apresentação sobre o trabalho
nos frigoríficos e traçou um quadro marcado por atividades
fragmentadas e repetitivas (de baixa remuneração), permanentemente
em ambientes frios (de 7,6 a 11ºC). Os trabalhadores são
obrigados a acompanhar uma cadência imposta pelas máquinas,
geralmente em pé e com posturas inadequadas (ombros elevados,
tronco inclinado e pescoço extendido). Em espaços exíguos
que impedem a livre movimentação, eles são expostos
continuamente tanto a níveis de ruído acima dos 80 decibéis
como à umidade e riscos biológicos (carne, glândulas,
vísceras, sangue, ossos). Funcionários chegam a fazer,
em média, 45 mil movimentos por jornada de trabalho – três
vezes mais que os 15 mil recomendados por estudos.
R$ 10 milhões
O vazamento de gás amônia na unidade do frigorífico
Bertin de Campo Grande, em 25 de fevereiro deste ano, se encaixa em
mais um dos casos graves que se repetem no setor. A Procuradoria Regional
do Trabalho da 24ª Região (PRT-24) ajuizou uma ação
civil pública requerendo que a Justiça do Trabalho condene
o Bertin a pagar uma indenização de R$ 10 milhões.
O procurador Odracir Juares Hecht pediu a condenação
da empresa por conta do vazamento (e da conduta da empresa diante do
ocorrido).
De acordo com a investigação do Ministério Público
do Trabalho (MPT), o frigorífico teria obrigado 26 empregados
a manter o trabalho por várias horas dentro da planta industrial,
inalando o gás tóxico, mesmo depois que funcionários
começaram a passar mal.
Depoimentos colhidos pelo procurador Odracir dão conta de
que alguns funcionários passaram muito mal por causa da inalação
do gás, que começou a vazar ainda pela tarde. O ritmo
de produção na sala de desossa do frigorífico
foi mantido, mesmo com o insuportável o cheiro da amônia.
Relatos confirmam também que ninguém foi socorrido
pela empresa, que teria impedido até que os funcionários
chamassem o Corpo de Bombeiros. Assustados, alguns ligaram mesmo assim
para pedir ajuda. Quando chegaram à empresa, os bombeiros foram
barrados na portaria por cerca de 40min pelos seguranças, que
chegaram a declarar que desconheciam o problema do vazamento. A empresa
ainda teria tentado esconder as vítimas. Funcionários
só foram socorridos por volta das 22h, depois que os bombeiros
entraram à força na unidade e encontraram os trabalhadores
escondidos.
Segundo o Capitão Luidson Borges Tenório Noleto, que
chefiou a operação, os trabalhadores socorridos apresentavam
nítido déficit pulmonar obstrutivo crônico (DPOC),
parecido com uma asma forte. Muitos reclamavam de ardência no
nariz e nos olhos, além de dores no peito. Segundo estudos do
Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a amônia pode
até matar quando inalada em grande quantidade.
O gerente industrial do frigorífico e o encarregado da equipe
de limpeza foram presos em flagrante pelos crimes de omissão
de socorro e desobediência. A empresa só emitiu as Comunicações
de Acidente de Trabalho (CATs) dez dias depois do ocorrido. A lei exige
que as CATs sejam emitidas dentro de 24 horas, salvo impedimento justificável.
A empresa ainda descontou do salário os dias em que os funcionários
não foram trabalhar porque estavam passando mal. Várias
das vítimas foram demitidas pouco tempo depois do vazamento
de amônia sem que fosse realizado qualquer exame médico
para avaliar seus estados de saúde.
Um grupo de nove vítimas foi ouvido pelo autor da ação
civil pública. Segundo o procurador, muitos reclamam que sofrem
com problemas de saúde até hoje: sentem falta de ar,
dores de cabeça e no estômago. Por isso, alegam enfrentar
dificuldades para conseguir outro emprego. Alguns teriam sido coagidos
pela empresa a mentir no inquérito policial, sob pena de demissão.
Para o procurador Odracir, "a conduta da empresa, ao mesmo tempo
que demonstra seu total descaso para com a dignidade e a vida dos trabalhadores,
revela o seu desprezo em relação às instituições
públicas, o que não pode ser admitido pela sociedade".
Além da indenização por danos morais coletivos,
a ação que tramita na 6ª Vara do Trabalho de Campo
Grande exige também que o frigorítico Bertin seja obrigado
a adequar várias outras irregularidades encontradas no meio
ambiente de trabalho.
Em nota por ocasião de um Termo de Ajustamento de Conduta
(TAC) firmado por conta de irregularidades flagradas na unidade de
Naviraí (MS), o Bertin declarou que o grupo tem compromisso "com
a legalidade e a garantia de todos os direitos trabalhistas de seus
colaboradores" e "prevê que a empresa estabeleça
parâmetros com relação a alguns aspectos subjetivos
na legislação trabalhista vigente". Um dos maiores
frigoríficos do país com um total de vendas de R$ 1,2
bilhão em 2007, o Bertin tem hoje cerca de 25,5 mil funcionários.
Recentemente, o Bertin obteve dois volumosos financiamentos: conseguiu
um financiamento de US$ 90 milhões da International Finance
Corporation (IFC), braço do Banco Mundial responsável
por empréstimos ao setor privado, e recebeu outros R$ 2,5 bilhões
para ampliar a capacidade de suas fábricas e consolidar o plano
de internacionalização da principal fonte de empréstimos
para o fomento da indústria nacional - o Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES).
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Congresso em Foco, 26 de dezembro de 2008
Judiciário está puxando
o Legislativo, avaliam líderes
Para José Aníbal e Henrique
Fontana, interferência de poder obriga Congresso a avançar
em questões importantes
Fábio Góis
O Judiciário deve legislar sempre que faltar iniciativa ao
Congresso sobre assuntos importantes. Essa é a opinião
de uma das principais vozes da oposição na Câmara,
o líder do PSDB, José Aníbal (SP), para quem a
magistratura deve tapar os “buracos” deixados pelos parlamentares.
“Todas as vezes que o Congresso deixa de exercer sua função
legisladora, o Judiciário é provocado a se manifestar.
O Congresso deveria agir assim e suprir os buracos”, declarou
o tucano ao Congresso em Foco, elogiando a proatividade de cortes como
o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
na deliberação de temas de impacto, como a súmula
vinculante n° 13, que veta o nepotismo na administração
pública, e a fidelidade partidária, que confere aos partidos
os direitos sobre mandatos.
“Acho muito importante que isso aconteça. Já que
a Câmara não fez, que o Judiciário o faça”,
sentenciou Aníbal, que lidera uma bancada de 58 deputados.
A opinião do deputado paulista é parcialmente compartilhada
com o líder do governo na Câmara, Henrique Fontana (PT-RS). À reportagem,
o petista disse não concordar, porém, que significa inoperância
do Congresso o fato de o Judiciário se antecipar em relação
a assuntos cuja deliberação caberia ao Legislativo.
“Acho normal que isso ocorra na democracia. O Congresso tem
um conjunto de pautas, de pressões, e nem sempre podemos votar
tudo o que queremos”, ponderou Fontana, referindo-se veladamente à tática
oposicionista da obstrução na hora de votar matérias
de interesse do governo. “Quando o Judiciário consegue
[resolver pendências], isso é ótimo”, disse,
também a respeito do nepotismo.
Para Fontana, só em determinadas circunstâncias os limites
entre as atribuições dos poderes devem ser flexibilizados. “O
ideal é que nós tenhamos sempre a divisão dos
poderes – o Legislativo com o papel de legislar e o Judiciário
com de julgar”, ponderou, minimizando a polêmica e destacando
que o assunto é por vezes exagerado. “Isso tem sido alimentado
com uma intensidade desnecessária. O país vive um ambiente
de normalidade.”
O deputado gaúcho acredita que as discussões sobre o
assunto são válidas, mas prefere não insuflar
polêmicas que ponham em risco a “harmonia” entre
os poderes, como define a Constituição. “Acho que
algumas interpretações que o Judiciário fez do
texto legal fazem parte da realidade democrática que o país
vive, as pessoas têm uma interpretação diferente
da minha. Prefiro não alimentar o conflito.”
Judiciário legislador
Editada em 29 de agosto deste ano (confira), a 13ª Súmula
Vinculante do STF proíbe o nepotismo (contratação
de parentes) nos três poderes da União, dos estados e
dos municípios, e deve ser seguida “por todos os órgãos
públicos e, na prática, proíbe a contratação
de parentes de autoridades e funcionários para cargos de confiança
(comissão, chefia e assessoramento) no serviço público”.
“A nomeação de cônjuge, companheiro ou parente
em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau,
inclusive, da autoridade nomeante ou de servidor da mesma pessoa jurídica,
investido em cargo de direção, chefia ou assessoramento,
para o exercício de cargo em comissão ou de confiança,
ou, ainda, de função gratificada na Administração
Pública direta e indireta, em qualquer dos Poderes da União,
dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, compreendido
o ajuste mediante designações recíprocas, viola
a Constituição Federal”, afirma a íntegra
da súmula editada pelo Supremo.
Já a questão da fidelidade partidária foi deliberada
pelo TSE em 27 de outubro do ano passado. De acordo com a corte eleitoral,
mandatários de cargos majoritários (presidente da República,
senador, governador e prefeito) e proporcionais (vereador e deputados
estadual e federal) que abandonaram suas legendas a partir de 16 de
outubro de 2007 estão suscetíveis à perda de mandato.
Assim, tanto o partido quanto o suplente, ou ainda o Ministério
Público, poderão ir à Justiça para pedir
o mandato de volta, de acordo com o entendimento da corte. O prazo
para isso é de 30 dias a partir da desfiliação
partidária ou da publicação da resolução
(28 de março de 2007).
Balanço
Se concordam parcialmente sobre a pertinência dos arroubos legisladores
do Judiciário, os líderes divergem frontalmente quando
o assunto é o comportamento do governo Lula em 2008.
Balanços divergentes
“Foi um ano bom, positivo, avançamos em uma série
de coisas”, declarou Fontana, destacando a criação
do Fundo Soberano do Brasil, aprovado (leia mais) na madrugada da última
quinta-feira (18) no Senado, e a questão das vagas para estudantes
de escolas públicas em faculdades federais – matéria
aprovada em julho pelo Senado e em novembro pela Câmara.
“Todas as MPs [medidas provisórias] anticrise editadas
pelo governo foram votadas, 95% dos projetos do PAC [Programa de Aceleração
do Crescimento] foram aprovados”, exemplificou Fontana, ressalvando
que matérias de interesse do governo – como as reformas
tributária e política – ficaram pendentes.
Já José Aníbal vê com olhos oposicionistas
o desempenho do governo. Ele começou o apontamento de erros
analisando a postura da equipe econômica diante da crise financeira
norte-americana, que afeta mercados em todo o mundo.
“O governo deu escorregões monumentais. Incrementou e
aumentou os gastos públicos de forma irresponsável. E
vai ter de rever isso, para favorecer o investimento público,
e não o gasto”, argumentou Aníbal, para quem o
governo Lula “poupa em épocas de bonança” e
promove a “gastança” em épocas de vacas magras.
Segundo o tucano, vários outros “escorregões” foram
protagonizados pelo governo. Entre eles, está a edição
da MP 446, que anistiava do pagamento de impostos entidades filantrópicas
acusadas de fraude – uma perda anual de R$ 2 bilhões,
conforme antecipou o Congresso em Foco (leia mais). A matéria,
que provocou intensa polêmica no Parlamento, foi devolvida em
20 de novembro ao Executivo pelo presidente do Senado, Garibaldi Alves
(PMDB-RN).
“O governo estava operando de forma permissiva a atividade das
filantrópicas, praticando uma anistia que beneficiava entidades
investigadas pela Polícia Federal, Ministério Público,
Tribunal de Contas da União, ministérios”, disse
o deputado paulista, enaltecendo a postura de Garibaldi em torno do
assunto – o peemedebista é um dos principais críticos
no Senado à edição injustificada de MPs. “É inaceitável.
O governo estava tomando atitudes condenáveis.”
Aníbal disse ainda que a oposição foi “firme,
questionadora, mas operou no sentido público, não dando
margem a agendas corporativas”. E, a exemplo de Fontana, concordou
parcialmente sobre as pendências importantes para a apreciação
do Congresso em 2009 – as reformas tributária e política. “Mas
não essa reforma eleitoral que estão propondo aí”,
concluiu, referindo-se ao texto apresentado no último dia 16
pelo deputado João Paulo Cunha (PT-SP), relator da matéria
na Comissão de Constituição e Justiça.
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Folha de S.Paulo, 26 de dezembro de 2008
Luiz Marinho usou "candidatos
de aluguel"
Aspirantes a vereador pela coligação
do petista admitem ter emprestado nome para ajudar ex-ministro,
sem ter intenção de se eleger
Campanha investiu cerca de R$ 5 mi em 242 candidatos
de São Bernardo, sendo 211 de dez siglas da aliança;
dos aliados, ninguém foi eleito
ALAN GRIPP
ENVIADO ESPECIAL A SÃO BERNARDO DO CAMPO (SP)
SOFIA FERNANDES
FERNANDA ODILLA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
A supercoligação formada para eleger Luiz Marinho (PT)
prefeito de São Bernardo do Campo (SP) contou com candidatos
a vereador que, assumidamente, emprestaram seus nomes em benefício
da vitória do petista. Teve também injeções
financeiras generosas em concorrentes com desempenho pífio,
como a contadora Fabiana Campos Ferreira (PSC), que recebeu R$ 30,6
mil do PT e conquistou um voto.
Com a benção-e os recursos- do PT nacional, Marinho investiu
cerca de R$ 5 milhões na campanha de 242 candidatos na cidade,
sendo 211 de dez partidos da coligação. Das siglas aliadas,
nenhum se elegeu. Postulantes derrotados entrevistados pela Folha disseram
ter sido usados como "cabos eleitorais de luxo", candidatos "de
aluguel". Outros admitiram ter entrado na disputa apenas para emprestar
o prestígio em seus redutos eleitorais à campanha do prefeito.
" Meu objetivo era tirar votos do PSDB e passar para o Luiz Marinho. Não
tinha o intuito de me eleger", disse Carlos Alberto Massura (PR), que teve
140 votos. Apesar de ter recebido um único voto, a contadora Fabiana,
30, segundo sua família, levou a sério a campanha. Dados do Tribunal
Superior Eleitoral mostram que ela recebeu oito repasses de seu partido, o PSC,
que teve como única fonte de arrecadação doações
feitas pela campanha de Luiz Marinho.
Fabiana gastou tudo. Entre os pagamentos feitos com o dinheiro vindo
do PT, constam R$ 4.000 para Gabriela Campos Ferreira, sua irmã,
que disse ter coordenado a campanha, além de gastos com cabos
eleitorais e som. Gabriela afirmou que a irmã não abriu
mão da disputa, e lamentou o fracasso nas urnas, pois elas "trabalharam
bastante".
Em um segundo contato, negou ter recebido recursos da campanha e disse
que há algo errado na prestação de contas no TSE,
sem explicar o que está equivocado. Também desconversou
ao ser questionada se votou na própria irmã. A reportagem
esteve na casa de Fabiana, mas foi informada de que ela estava viajando.
A candidata não respondeu aos recados.
Danilo Yudi, também do PSC, recebeu R$ 22 mil provenientes do
PT e não teve nenhum voto. Em sua casa -até hoje decorada
com uma faixa de Marinho com o presidente Lula e o forrozeiro Frank Aguiar
(deputado federal pelo PTB e vice-prefeito eleito)- a informação
era de que ele também estava viajando.
Segundo Lena, mulher do candidato, Yudi abandonou a disputa após
ter o registro negado pela Justiça Eleitoral, mas continuou a
fazer campanha para Marinho: "Ele é petista fanático",
disse. Lena afirmou que o marido só se candidatou pelo PSC porque
não havia vagas no PT. O TSE informou que a candidatura foi deferida,
isto é, estava valendo.
Assim como Fabiana e Yudi, seis candidatos da coligação
que receberam em média R$ 21 mil do PT tiveram menos de 50 votos.
Além da dedicação exclusiva à campanha majoritária,
o desempenho ruim também pode ser atribuído ao inchaço
da coligação.
Promessas
Outros derrotados acusam a coligação de descumprir promessas
feitas em troca do empenho na campanha de Marinho. "Eu nem queria
estar ao lado do PT, mas a proposta era boa e eu até discursei
ao lado dele [Luiz Marinho] e do Frank Aguiar. Estou esperando meu comitê e
uma perua adesivada até hoje", diz Pedro Cabeleireiro (PDT),
que teve 256 votos.
Também é comum entre os candidatos o relato de que eles
não pensavam em se candidatar, até receberem propostas
tentadoras. Popular no bairro onde trabalha, o barbeiro José Ferreira
Cunha contou ter sido procurado por um consultor político da coligação,
ainda em 2007. "Ele me convidou [para ser candidato] e mandou escolher
entre um monte de letrinhas. Gostei do PTN", disse.
Analfabeto, o barbeiro acabou tendo sua candidatura impugnada. Mas continuou
a receber recursos de seu partido (R$ 13 mil no total), oriundos do PT,
e a fazer campanha para Marinho: "Eles usaram a gente, hoje não
tenho dúvida. Como dez partidos não conseguem eleger uma
pessoa?"
Marinheira de primeira viagem (como a maioria dos candidatos da coligação),
a dentista Caren Cristina Oliveira, 36, disse que não tinha como
bancar a própria campanha. "Fui pelo apoio [prometido]." Ela,
que recebeu o material impresso prometido a um mês da eleição,
se sentiu usada. "A gente acabou sendo cabo eleitoral de primeira
linha. Fui entender isso no final da campanha", afirmou. Ela acredita
que a coligação sabia que não tinha chance de eleger
ninguém.
Roberto Santana da Silva suspeitou que o convite do PRTB para ser candidato
não era sério quando dinheiro e material de campanha começaram
a atrasar. Ele diz guardar uma caixa de santinhos que chegou um dia após
as eleições. A gota d'água, porém, veio no
segundo turno, quando Santana recebeu a "proposta humilhante" de
segurar bandeiras para o candidato a prefeito por R$ 20 reais ao dia.
O convite, diz ele, foi feito aos 32 candidatos da sigla, todos derrotados.
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Folha de S.Paulo, 26 de dezembro de 2008
Papa diz que mundo está à beira
da ruína
Em sua tradicional mensagem de Natal, Bento
16 pede solidariedade, em vez de egoísmo, em tempos de crise
econômica
No discurso "Urbe et Orbi" feito na praça
São Pedro, o pontífice também falou do "horizonte
sombrio" para palestinos e israelenses
DA REDAÇÃO
Em sua tradicional mensagem e bênção de Natal,
o papa Bento 16 disse que o mundo cairá em ruína caso
o egoísmo continue prevalecendo sobre a solidariedade em tempos
de crise econômica global.
No "Urbi et Orbi" (à cidade e ao mundo), o papa normalmente
aborda os principais conflitos mundiais do ano, mas, desta vez, Bento
16 dedicou boa parte de sua fala ao que chamou de "considerável
crise econômica" e às preocupações com
demissões e falências.
Falando da sacada central da basílica de São Pedro, no
Vaticano, ele disse que sua mensagem de Natal se aplica "a todos
os lugares em que um futuro crescentemente incerto é visto com
apreensão, mesmo nas nações mais ricas".
" Em cada um desses lugares, que a luz do Natal brilhe forte e encoraje
todas as pessoas a fazerem sua parte num espírito de autêntica solidariedade",
afirmou o pontífice. "Se as pessoas olharem apenas para seus próprios
interesses, o mundo certamente irá se arruinar."
África
Vestindo uma capa vermelha e dourada sobre uma batina branca, Bento 16
foi assistido por dezenas de milhares de pessoas na praça São
Pedro. Ele dedicou parte da mensagem à África, citando
especificadamente o Zimbábue, onde as pessoas "estão
presas há muito tempo numa crise política e social que,
tristemente, só piora".
Governado por Robert Mugabe há 28 anos, o Zimbábue vive
uma epidemia de cólera que já matou mais de mil pessoas.
Tem também a maior inflação do mundo e uma taxa
de desemprego de 80%. Bento 16 citou ainda a violência na República
Democrática do Congo e na região sudanesa de Darfur, além
dos "sofrimentos intermináveis" da Somália.
O pontífice também desejou que o Natal traga esperança "a
todos aqueles que sofrem com a guerra, o terrorismo, a injustiça
e a pobreza", fazendo um apelo especial à paz na Terra Santa
-região que deve visitar em maio de 2009. Disse que "o horizonte
parece ter se tornado sombrio para os israelenses e palestinos" -na última
sexta-feira, expirou a trégua entre o grupo radical palestino
Hamas e Israel. E abençoou aqueles que escolheram "a vida
do diálogo".
Bento 16 fez ainda um apelo às crianças sem família
e "vítimas da indústria pornográfica e de outras
formas de abuso".
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Folha de S.Paulo, 26 de dezembro de 2008
ANÁLISE
A revolução
nos bancos centrais ganha força
KRISHNA GUHA, CHRIS GILES E RALPH
ATKINS
DO "FINANCIAL TIMES"
Uma discreta revolução vem ganhando ímpeto nos
bancos centrais, à medida que o Federal Reserve (o BC dos EUA)
mergulha ainda mais fundo no admirável mundo novo da política
monetária heterodoxa e outros bancos avaliam até que
ponto terão de segui-lo.
Os BCs mundiais já passaram por mudanças dramáticas,
desde o início da crise de crédito há mais de um
ano. Tiveram de cortar taxas de juros com rapidez sem precedentes -e
em alguns casos com intensidade recorde- e de elevar as reservas bancárias
de forma maciça a fim de atender à maior demanda privada
por liquidez.
Na prática, eles se tornaram contrapartes centralizadas dos mercados
monetários, e em alguns casos passaram até a fazer empréstimos
diretos a empresas. Além disso, ao oferecer liquidez garantida
por cauções em termos muito mais favoráveis do que
os prevalentes nos mercados privados, tornaram-se igualmente seguradoras
de último recurso contra riscos de catástrofe para categorias
inteiras de ativos financeiros, assumindo o risco de que a crise possa
se agravar a ponto de impedir que recuperem o dinheiro emprestado.
Mas a decisão do Fed de cortar os juros a virtualmente zero na
semana passada e o anúncio de que criaria dinheiro para financiar
operações de crédito ainda maiores avançam
em terreno ainda não desbravado. O Fed teoricamente já conta
com um companheiro, o Banco do Japão. O BC japonês reduziu
os juros a praticamente zero na sexta-feira, reforçou as aquisições
de títulos do governo e anunciou que adquiriria papéis
de empresas.
Quando os BCs desejam estimular uma economia em desaceleração,
usualmente cortam as taxas de juros. Mas quando os juros se aproximam
do zero é preciso usar outras táticas. Como o Fed, o Banco
do Japão deve terminar financiando essas aquisições
por meio de uma expansão de suas posições de reservas
bancárias. Ao contrário do Fed, a instituição
japonesa tem a opção de lançar títulos próprios
de dívida. O Banco da Inglaterra, embora acautele contra a suposição
de que acompanhará o Fed em suas incursões heterodoxas,
está pensando sobre o que fazer caso as taxas de juros britânicas
também caiam a quase zero.
O Banco Central Europeu (BCE) como um todo está muito menos disposto
a aceitar a possibilidade de que as taxas de juros da zona do euro caiam
a esse ponto. Mas funcionários não descartam formas inovadoras
de operar. É realmente notável que questões como
essa sejam discutidas em tantas das grandes economias. Por mais radicais
que sejam as medidas adotadas pelos BCs até agora, o território
que fica além do juro zero é ainda menos conhecido.
Apenas o Japão tem experiência em política monetária
heterodoxa. No começo da década, adotou estratégia
de relaxamento quantitativo -elevar a base monetária por meio
da elevação das reservas bancárias-, na esperança
de que isso pusesse fim à deflação e estimulasse
os empréstimos.
As estratégias que estão em consideração
no momento se assemelham de alguma maneira ao relaxamento quantitativo
japonês, já que envolvem o inchaço do balanço
de um banco central por montante superior ao requerido para acomodar
a elevação na demanda do setor privado por liquidez.
O BCE continua claramente hesitante quanto a cortar ainda mais os custos
oficiais de captação, agora fixados em 2,5%, e alguns funcionários
se preocupam com a possibilidade de esgotar a munição -uma
preocupação que contraria diretamente o raciocínio
do Fed- ou de semear a próxima bolha.
Mas o BCE ainda poderia acompanhar o Fed com medidas não convencionais,
caso necessário. Jean-Claude Trichet, o presidente do BCE, disse
que seu balanço cresceu "impressionantes" 55% neste
ano em relação ao ano passado. Ele não descartou
a hipótese de que o BCE adquira títulos de dívida
de governos em dado momento, ainda que essa opção não
esteja sendo considerada por enquanto.
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Revista Consultor Jurídico, 26 de
dezembro de 2008
Direito do devedor
Banco não pode usar
conta-salário para saldar empréstimo
O Superior Tribunal de Justiça reafirmou o seu entendimento de
que os bancos não podem reter o salário da conta corrente
do cliente para saldar parcelas atrasadas de empréstimo. O Banco
do Brasil foi condenado pela 3ª Turma a devolver os valores descontados,
com juros e correção monetária, e pagar R$ 5 mil
de indenização por danos morais.
Vencido o prazo para o pagamento do financiamento, o banco descontou
os valores da conta corrente do cliente. Como não encontrou
saldo suficiente, reteve o valor integral da aposentadoria. Segundo
os autos, o cliente contraiu empréstimos no valor de R$ 25.832,21,
pagou R$ 20.167,61 entre juros e principal e ainda permaneceu com um
saldo devedor de R$ 26.476,29.
O correntista entrou com processo judicial para tentar receber de
volta os R$ 31.530,32 de aposentadoria retidos pelo banco e indenização
por danos morais. O Tribunal de Justiça de São Paulo
considerou o pedido de danos morais improcedente por entender que o
cliente teve evidente proveito econômico pela contratação
dos empréstimos e que o desconto em folha estava previsto em
contrato.
Segundo a relatora, ministra Nancy Andrighi, em situações
análogas, o STJ considerou que o devedor, ao ter seu salário
irregularmente retido, de forma extrajudicial, tão logo depositado
em sua conta corrente, faz jus à reparação dos
danos morais sofridos. Citando precedentes da corte, ela reiterou que,
ainda que expressamente ajustada, a retenção integral
do salário do correntista com o propósito de honrar débito
deste com a instituição bancária enseja a reparação
moral.
A ministra também destacou, em seu voto, que a apropriação
integral do salário coloca em xeque a sobrevivência do
devedor e que sua aceitação significa admitir que o credor
tem direito a retirar do devedor, impunemente, os meios necessários à sua
sobrevivência e de seus familiares, sujeitando-os à condição
indigna de vida.
Sustentou, ainda, que desconto em folha de pagamento é diferente
de desconto em conta corrente, tanto é que, no caso de contrato
de empréstimo consignado, a cláusula de desconto em folha
de pagamento é válida dentro de limites certos e em conformidade
com a legislação especifica, porque o tomador do empréstimo
se beneficia de condições vantajosas, como juros reduzidos
e prazos mais longos.
“Para outras formas de empréstimo, onde não se
vê a comutação clara entre garantias e formas mais
vantajosas de pagamento, o STJ entende que, em nosso ordenamento jurídico,
nem mesmo ao Poder Judiciário é licito penhorar salários
no processo de execução”, ressaltou. Para a relatora,
a autorização contratual para que o credor se aproprie
do salário pago ao devedor constitui evidente fraude ao artigo
649, IV, do CPC, cabendo ao banco obter o pagamento da dívida
em ação judicial.
Resp 1.021.578
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