Vermelho, 28 de dezembro de 2008
Defesa dos interesses dos trabalhadores
está na ordem do dia
É necessário definir com
maior clareza a natureza da crise econômica que teve início
em meados do ano passado nos EUA e de lá foi irradiada
para a União Européia, o Japão, a Inglaterra
e outras regiões e países do mundo.
Por Umberto Martins, no Portal da CTB
Neste sentido, é ainda hoje imprescindível recorrer às
idéias do pensador alemão Karl Marx sobre as peripécias
da produção capitalista. A crise evidenciou a falsidade
da ideologia dominante, que não tem mais correspondência
com os fatos, especialmente no plano da economia política, e
renovou o interesse intelectual pela teoria marxista, que realmente
contribui, e muito, para iluminar a realidade atual.
Devemos perceber, em primeiro lugar, que não estamos diante
apenas de uma turbulência financeira, ainda que a dimensão
dos problemas nesta esfera sejam assustadores. Vivenciamos em todo
o mundo uma crise econômica mais global, que abarca tanto a indústria
quanto as finanças e seria falso colocar uma muralha da China
entre essas duas esferas da economia capitalista. É uma crise
daquilo que Karl Marx classificou no passado de processo global de
reprodução do capital e da produção capitalista
(compreendendo a indústria, o comércio e o sistema financeiro),
que eclode com a interrupção da circulação
do capital e, conseqüentemente, de sua valorização.
Superprodução
Não é difícil enxergar, subjacente às
perturbações econômicas, a ação de
fatores clássicos como a pletora ou superprodução
de capital-mercadoria e a interrupção do crédito,
comuns nas perturbações cíclicas que periodicamente
abalam o sistema. O caráter cíclico é dado pelo
fato de que a crise sucedeu o último ciclo de recuperação
e frágil crescimento do capitalismo americano, que durou apenas
sete anos (novembro de 2001 a dezembro de 2007) e esteve concentrado
no ramo imobiliário.
Percebe-se claramente a dança da contradição
entre o excesso de produção e de capacidade instalada
da indústria e a contração dos mercados e do consumo
das massas, configurando o fenômeno que Marx classificou de superprodução.
Por esta e outras razões, devemos concluir que a crise não é obra
exclusiva dos especuladores, tem caráter objetivo e decorre
das leis que presidem o processo de produção capitalista.
Socializar prejuízos
É certo que os problemas foram acentuados pela especulação,
pela desregulamentação da ordem financeira, pela multiplicação
do capital fictício (com a criação de novos e
exóticos “produtos” financeiros) e pela liberalização
dos mercados. Embora não seja a primeira nem a última
crise da história do capitalismo, esta já se configura
como a mais global e provavelmente a mais séria desde a 2ª Guerra.
A crescente globalização da crise encontra sua explicação,
em boa medida, na importância extraordinária que os mercados
norte-americanos ainda possuem para a circulação e valorização
do capital em escala internacional, tanto na esfera comercial, através
do déficit de mercadorias, quanto na área financeira,
com a demanda para satisfazer a escandalosa necessidade de financiamento
externo, orçada em cerca de 3 bilhões de dólares
por dia.
Ao mesmo tempo em que evidenciou a falsidade do pensamento neoliberal
hegemônico no mundo ao longo das últimas décadas,
a crise constrangeu a oligarquia financeira a apelar à mão
forte do Estado para socializar os prejuízos, o que não
chega a ser uma novidade histórica, mas surpreende pela dimensão
do socorro que está sendo mobilizado.
Duas crises do capitalismo americano
É importante assinalar que a turbulência econômica
caminha de mãos dadas com outra crise do capitalismo americano,
que tem um caráter histórico mais amplo, estrutural.
Trata-se da crise da hegemonia dos EUA dentro da ordem imperialista
mundial, que não eclodiu no ano passado nem estará resolvida
ao cabo da atual crise, pois corre ao largo dos dissabores cíclicos
do sistema e é determinada por outros fatores. É um processo
histórico mais antigo, impulsionado a partir dos anos 1970,
que decorre, principalmente, do vício sócio-econômico
do parasitismo, cultivado por Tio Sam (fenômeno geralmente negligenciado
ou ignorado pelos analistas), assim como do desenvolvimento desigual
das nações.
Presenciamos o progressivo deslocamento do eixo dinâmico da
produção industrial e do poderio econômico da América
para a Ásia e dos EUA para a China. Cabe destacar, também
como subproduto do desenvolvimento desigual das nações,
a decadência das velhas potências capitalistas reunidas
no G-7 e a ascensão, concomitante, das chamadas “economias
emergentes”, o que induz a mudanças na diplomacia internacional.
A crise da hegemonia americana, traço de grande relevância
no contexto histórico, enseja um processo de mudanças
e transição na história que, contudo, apenas engatinha;
não é um fenômeno exclusivamente econômico, é também
político, na medida em que reflete o desgaste da autoridade
diplomática dos EUA, e tem repercussões na esfera militar.
Tal é o pano de fundo em que se encena o drama da crise econômica.
As duas crises do capitalismo americano guardam diferenças,
mas estão interligadas. A crise cíclica está abalando
a ordem econômica fundada na hegemonia dos Estados Unidos.
Limites do capitalismo
As crises do ciclo econômico e da hegemonia imperial evidenciam
os limites históricos do sistema capitalista e da ordem imperialista
internacional fundada na hegemonia dos EUA e nos remetem à necessidade
objetiva de sua substituição para contornar o risco de
barbárie. Não creio que vamos encontrar, nesta altura
da história, saídas definitivas e progressistas para
as crises nos marcos do sistema capitalista-imperialista. Esta é uma
forte razão para renovar a luta pelo socialismo e por uma nova
ordem econômica e política internacional.
Obviamente, não basta, hoje, erguer a bandeira do socialismo
e de um novo arranjo da economia mundial. Emergem da crise econômica
problemas sociais dramáticos que demandam respostas imediatas
da sociedade e dos governos. Embora a crise seja provocada pela ganância
do capitalista, que personifica a avidez do capital pelo trabalho excedente
e o lucro máximo, a maior vítima da crise não é o
grande empresário, o banqueiro, o investidor ou o velhaco especulador.
Tragédia social
Os prejuízos nas altas esferas da sociedade burguesa revelam-se
risíveis quando comparados à tragédia social da
crise que se abate sobre a classe trabalhadora na forma do desemprego
em massa, arrocho dos salários, flexibilização
dos direitos e precarização das relações
trabalhistas. Para as camadas inferiores da sociedade capitalista,
despojada de posses e de meios de produção, exploradas
e oprimidas pela lógica da expansão do capital, a crise
não raro significa desabrigo, desespero e fome.
A situação da classe trabalhadora nos Estados Unidos
e outras economias capitalistas mais desenvolvidas onde uma severa
recessão já se instalou é uma ilustração
viva disto. Cerca de 1,5 milhão de postos de trabalho já foram
destruídos pela crise ao longo deste ano nos EUA. Centenas de
milhares perderam o emprego e muitos deles as casas, já não
têm onde morar e estão desabrigados.
A crise também discrimina. Elege suas vítimas principalmente
nas camadas mais pobres, frágeis e exploradas dos assalariados,
que nos países mais ricos é constituída pelas
famílias de trabalhadores imigrantes, legais e clandestinos.
Assim é que já temos notícias de brasileiros no
Japão que estão morando debaixo de pontes e engrossando
as filas das sopas beneficentes.
Luta de classes
Na crise transparece com maior nitidez o choque de interesses entre
capital e trabalho, que constitui a substância básica
da luta de classes da sociedade moderna, associada à luta nacional
e antiimperialista pela autodeterminação dos povos. Neste
sentido o momento é também oportuno para elevar o protagonismo
e reafirmar a centralidade política da classe trabalhadora apregoada
pelo marxismo.
Atordoados diante da anarquia dos mercados as classes dominantes
abandonam tacitamente o discurso neoliberal e apelam à mão
forte do Estado para contornar as dificuldades, reduzir e socializar
prejuízos. Os governos, geralmente tão avarentos em relação às
demandas populares, frente às quais erguem a barreira da responsabilidade
e do bom senso fiscal, canalizam trilhões de dólares
em operações de socorro aos bancos e grandes empresas,
pouco se importando com o perigo de crise fiscal e de inflação.
Agem, em momentos como este, sem medir conseqüências,
na suposição de que os governos podem incorrer impunemente
em despesas bilionárias a descoberto, como se a disponibilidade
de riquezas que os Estados podem manipular fosse infinita e não
dependessem do trabalho e da produção. Suposição
falsa, como falso em geral é o pensamento e a ideologia dominante.
Desprezo pelos pobres
Todavia, o governo Bush não demonstrou maior preocupação
com os trabalhadores e trabalhadoras que estão perdendo seus
empregos e suas casas, de forma que as execuções hipotecárias
e as demissões em massa prosseguem diariamente. No Japão,
o Estado também destinou centenas de bilhões aos bancos,
mas os governantes são indiferentes aos dramas da classe trabalhadora,
sobretudo os imigrantes, os desabrigados, os demitidos. Na Europa não é diferente.
A única notícia diferente neste sentido veio sintomaticamente
da China, cujo governo, dirigido pelo Partido Comunista, proibiu demissões
em massa. As empresas não podem dispensar mais do que 45 pessoas
do quadro total de funcionários. O tempo nos dirá sobre
a eficácia desta medida, mas certamente ela é distinta,
do ponto de vista de classes, daquilo que vem sucedendo nas potências
capitalistas, onde a única voz que conta é a que invoca
os interesses do capital.
Sombras sobre 2009
Há um amplo consenso de que o Brasil está, hoje, em
melhores condições do que no passado para enfrentar a
crise, principalmente em função das reservas que acumulou
ao longo dos últimos anos, que somam cerca de 200 bilhões
de dólares. Isto não quer dizer que a economia nacional
ficará incólume.
Os efeitos da crise já se fazem sentir na desvalorização
das ações; na interrupção do crédito;
na fuga de capitais; na alta, conseqüente, do dólar; no
déficit do balanço de pagamentos em outubro; no crescimento
do pessimismo entre os industriais; na suspensão de investimentos;
na ampliação da capacidade instalada ociosa; na redução
dos preços das commodities; na redução das exportações
e das importações; na multiplicação das
férias coletivas; nas demissões e na queda da produção
industrial.
Enfim, são muitos os sinais de que a crise já bateu às
nossas portas e é generalizada a impressão de que a desaceleração
das atividades é inevitável, embora ninguém se
atreva a prever sua dimensão. Certamente 2009 será um
ano de muitas sombras e poucas luzes no plano econômico. É hora
de intensificar a luta para impedir que a conta seja apresentada ao
povo e exigir que os ricos assumam os prejuízos que provocaram.
Valorização do trabalho
Durante pelo menos 25 anos, desde a eclosão da crise da dívida
externa no início dos anos 80 do século passado, o Brasil
viveu o que alguns economistas classificaram apropriadamente de “crise
do desenvolvimento”, com a virtual estagnação da
renda per capita e os famosos vôos de galinha.
Esta fase crítica do desenvolvimento nacional vinha sendo
superada no governo Lula, a partir de 2004, quando voltamos a exibir
taxas mais robustas de crescimento e aparentemente sustentadas, embora
ainda inferiores à das décadas que precederam a crise
da dívida externa. Presenciamos a valorização
do salário mínimo e a redução da miséria
e das desigualdades sociais, graças às políticas
sociais do governo. A atual crise surge como uma séria ameaça à retomada
do desenvolvimento e às conquistas sociais obtidas nos últimos
anos.
Para enfrentar esse quadro ameaçador o governo Lula tem tomado
medidas no sentido de desobstruir o crédito, fortalecer o sistema
financeiro público, socorrer os setores em dificuldade, como
a indústria automobilística e a construção
civil, assim como avançar no processo de integração
econômica e política dos países que compõem
as Américas do Sul e Latina. O PCdoB tem apoiado essas iniciativas,
mas considera que é preciso mais ousadia para enfrentar e superar
as vulnerabilidades da economia nacional.
É imperioso defender o desenvolvimento, mas é preciso
avançar, simultaneamente, no sentido da bandeira levantada pela
5ª Marcha da Classe Trabalhadora, que será realizada pelas
centrais sindicais e os movimentos sociais nesta quarta-feira, 3 de
dezembro, em Brasília: desenvolvimento com valorização
do trabalho. Não são duas coisas distintas, separadas,
pois estão intimamente entrelaçadas. Em oposição à ideologia
neoliberal, a valorização do trabalho deve ser percebida
como uma fonte de desenvolvimento na medida em que conduz ao fortalecimento
do mercado interno.
Direito do trabalho
As forças progressistas precisam cerrar fileiras em defesa
do Direito do Trabalho e dos trabalhadores e trabalhadoras, focalizando
em particular o direito humano ao emprego. Impõe-se a luta contra
as demissões em massa; pela redução da jornada
de trabalho sem redução de salários; pela efetiva
reforma agrária e fortalecimento da agricultura familiar; pela
manutenção da política de valorização
do salário mínimo; pela imediata regulamentação
do princípio constitucional que impede a demissão imotivada;
pela ratificação da Convenção 158 da OIT;
pela estabilidade como contrapartida à ajuda direcionada às
empresas em crise; pela reforma tributária fundada no princípio
da progressividade e da justiça social; e pela retirada dos
projetos de Lei que flexibilizam direitos e precarizam as relações
trabalhistas em tramitação no Congresso Nacional.
Trata-se, em outras palavras, de apoiar as justas reivindicações
das centrais e dos movimentos sociais, que encaminharam documentos
com este conteúdo ao presidente Lula e outras autoridades.
A este respeito é importante assinalar que o desemprego é ao
mesmo tempo efeito e causa da crise, pois o fenômeno amplia o
divórcio entre o excesso de produção da indústria
e a reduzida capacidade de consumo das massas. Sem salário não
se pode pretender que o operário continue consumindo. Caindo
a taxa de consumo da classe operária é inevitável
agravamento da crise de superprodução. Deste modo, o
desemprego originado pela crise transforma-se em sua causa, em seu
alimento. Até mesmo por isto, em defesa do desenvolvimento e
da economia nacional, é necessário defender o emprego.
Mudanças na macroeconomia
Também é hora de promover mudanças corajosas
na política macroeconômica, que ainda mantém certo
viés neoliberal. Em primeiro plano, cabe satisfazer o anseio
nacional pela redução dos juros. É também
conveniente controlar o câmbio e a conta de capitais a fim de
alcançar uma estabilidade maior do real, proteger as reservas
e prevenir uma crise do balanço de pagamentos, assim como punir
a especulação e os especuladores. Com este mesmo objetivo
cumpre revisar a lei das remessas de lucros e dividendos para o exterior,
que cresceram de forma extraordinária ao longo dos últimos
anos, impulsionadas agora pela crise, de forma que constituem, hoje,
a principal causa do déficit em conta corrente.
O Estado nacional precisa ser fortalecido, os investimentos públicos
devem ser ampliados e as despesas com juros reduzidas. Simultaneamente, é necessário
consolidar e aprofundar o processo de integração econômica
e política das Américas do Sul e Latina, fortalecendo
instituições como o Mercosul, a Alba, a Unasul, criando
o Conselho de Defesa da região, o Banco do Sul, avançando
na desdolarização das relações comerciais,
a exemplo da iniciativa tomada em conjunto por Brasil e Argentina em
outubro deste ano.
Com iniciativas desta natureza, sugeridas pelos movimentos sociais,
o Brasil estará em melhores condições de proteger
a economia e o povo trabalhador dos efeitos perversos da crise do capitalismo
e abrir caminho a um novo projeto de desenvolvimento e valorização
do trabalho.