Diário
Vermelho, 5 de janeiro de 2008
Altamiro Borges: ''Em defesa da
Previdência social''
Um fantasma ronda os lares dos trabalhadores brasileiros – seja
dos que estão na ativa ou dos que vivem das aposentadorias e das
pensões. Desde abril passado, representantes do governo, dos empresários
e dos trabalhadores participam das reuniões do Fórum Nacional
da Reforma da Previdência, instância tripartite criada pelo
presidente Lula. O seu intento era o de apresentar propostas de mudanças
na atual legislação previdenciária, que serviriam
de base para o governo elaborar a terceira reforma no setor. Neste período,
o grupo de trabalho analisou diversos assuntos explosivos, como idade
mínima, formas de contribuição, aposentadoria especial,
diferença das regras entre homens e mulheres.
Mas, para a tristeza do patronato e da sua mídia,
até agora nada de concreto foi aprovado. O jornalão
O Globo de 31 de outubro choramingou: “Sete meses depois
de inaugurado com pompa pelo presidente, o Fórum da
Previdência encerrou, com dois meses de atraso, as suas
atividades sem chegar a um único consenso relevante.
Diante da resistência dos trabalhadores, não houve
acordo sobre nenhum dos pontos centrais. Com isso, dificilmente
a reforma sairá do papel no segundo mandato de Lula”.
Apesar da notícia positiva, os sindicatos e os trabalhadores
devem ficar em estado de alerta.
Afinal, no mundo inteiro o capital investe contra os direitos
previdenciários, o que explica as recentes greves gerais
na França e Itália. No caso do Brasil, os patrões
não desistirão facilmente deste ataque, que envolve
bilhões de reais, e já falam em retomar as reuniões
do falido fórum. Eles insistem no aumento da idade de
aposentadoria de 67 anos para homens e 62 anos para mulheres,
na redução dos valores das aposentadorias, na
elevação do tempo de contribuição
e no estímulo aos fundos de previdência privada.
Os compromissos de Lula
Mesmo no interior do governo Lula há setores que apóiam
esta regressiva reforma. Durante a campanha eleitoral de 2006,
o ex-sindicalista Lula foi enfático: “Não
mexerei na previdência; ela não é deficitária”.
Empossado, o presidente suavizou o seu discurso e alguns ministros
e tecnocratas palacianos passaram a sugerir mudanças “para
as gerações futuras” – ou seja, para
os nossos filhos. Luiz Marinho, ex-presidente da CUT e atual
ministro da Previdência, propôs aumentar em cinco
anos o tempo das contribuições, que saltaria
dos 35 para 40 anos, ou da idade mínima da aposentadoria.
Derrotado no seu intento, “o ministro anunciou que levará uma
proposta de reforma previdenciária ao Palácio
do Planalto, mesmo sem o fórum ter chegado a consensos
sobre a mudança”, informou recentemente o jornal
Valor Econômico.
Criticado duramente pelas centrais sindicais, ainda tentou
despistar, dando uma de inocente: “Não estou propondo
nenhuma crueldade. Estou querendo é dar sustentabilidade à previdência”.
A conversa fiada do ministro é a mesma dos ambiciosos
empresários e da sua mídia venal. Ela parte da
falsa premissa de que a previdência é deficitária, é das
mais generosas do mundo e será insustentável
no futuro. Na prática, nega compromissos assumidos em
praça pública pelo candidato Lula durante a campanha
eleitoral. Na ocasião, o presidente reeleito argumentou
que o crescimento econômico, ao gerar empregos e, como
efeito, elevar a arrecadação previdenciária, é o
melhor antídoto contra qualquer futura crise do setor.
Agora, a conversa parece ser outra. As estranhas mudanças
no discurso oficial e a violenta pressão do capital
confirmam que é urgente desmascarar as manipulações
dos inimigos da previdência no país e manter o
estado de pressão.
As mentiras neoliberais
A ofensiva neoliberal contra os direitos previdenciários é toda
ela baseada em manipulações grosseiras. A primeira
delas é que a previdência é deficitária.
Na prática, estes detratores rejeitam os próprios
preceitos da Constituição de 1988. Nela foi consagrado
o princípio distributivo, na qual a previdência
faz parte da seguridade social, junto com a saúde, a
assistência social e o seguro desemprego – como
ocorre em várias nações capitalistas.
Este princípio fixa que a seguridade social não
será financiada exclusivamente pelas contribuições
diretas dos trabalhadores, mas também por outros tributos
indiretos cobrados da sociedade – como a Cofins (Contribuição
para o Financiamento da Seguridade Social), CSLL (Contribuição
Social sobre Lucro Líquido) e o PIS-Pasep.
Somando estes recursos, conforme a norma constitucional,
a seguridade social é superavitária – e
não deficitária. Em 2002, o superávit
foi de R$ 32,9 bilhões; em 2006, atingiu R$ 47,8 bilhões.
Isto apesar dos 20% dos recursos da seguridade desviados pela
criminosa Desvinculação das Receitas da União
(DRU), que transfere dinheiro para pagar juros aos banqueiros,
dos fartos recursos usados em obras como a ponte Rio-Niterói
e a Transamazônica e da brutal sonegação
no país – até setembro passado, as empresas
deviam à previdência R$ 121 bilhões. Mesmo
quando analisadas apenas as contribuições e as
despesas da previdência, o déficit não
tem nada de apavorante. Mentirosa, a mídia alardeia
que seria de R$ 40 bilhões.
Mas o ex-ministro da pasta no governo Lula, Nelson Machado,
no seu curto mandato, mostrou que isto é pura empulhação.
No caso do setor urbano, que os neoliberais difundem um rombo
de R$ 13,5 bilhões, descontadas as isenções
fiscais das entidades filantrópicas e as renúncias
fiscais das empresas incluídas no Simples, ele cai para
R$ 3,8 bilhões. Já no campo, que os mentirosos
falam num déficit de R$ 28,6 bilhões, a previdência é tratada
como política social – já que os camponeses
não contribuem –, garantindo a inclusão
de 10 milhões de aposentados e pensionistas e a dinamização
da economia no interior do país.
Na prática, os algozes neoliberais, como o economista
Fabio Giambiagi, que finalmente foi demitido de um órgão
do governo federal (Ipea), gostariam que os trabalhadores rurais
não tivessem os atuais direitos constitucionais e regredissem à condição
de escravo na total miséria. Os números, porém,
confirmam que “não podemos trabalhar com a visão
catastrófica de que o déficit é explosivo
e incontrolável no curto prazo”, como ponderou
o ex-ministro na contramão do que afirma o atual.
Outras falsidades
Além das mentiras descaradas sobre o déficit,
os apologistas desta contra reforma usam outras falsidades.
Recentemente a TV Globo editou dois programas especiais – inclusive
um Fantástico – para difundir que a seguridade
brasileira “é uma das mais generosas do planeta” e
que, no curto prazo, irá à falência devido
ao crescimento populacional. Os dados utilizados foram distorcidos
e visaram manipular os inocentes, jogando os trabalhadores
da ativa contra os aposentados e pensionistas.
Enquanto nos países ricos da OCDE (Organização
para Cooperação e Desenvolvimento Econômico)
o tempo de contribuição é de apenas 15
anos – e alguns nem cobram –, no Brasil ele é,
em média, de 35 anos. Segundo o Eduardo Fagnani, um
dos maiores especialistas no tema, “a título de
comparação, a média de idade com que as
pessoas se aposentam na OCDE é de 60 anos, ao passo
que no Brasil é de 65 anos para os homens e 60 para
as mulheres”. Isto sem falar na qualidade de vida do
aposentado europeu, que recebe o equivalente ao salário
da ativa e conta com vários equipamentos sociais.
Quanto ao colapso do setor, os dados populacionais desmentem
os terroristas de plantão. Estudo do IBGE indica que
a faixa da população atualmente com mais de 65
anos é de apenas 6,5% dos brasileiros. Deverá chegar
a 18,5% da população apenas em 2050. Já os
trabalhadores da ativa, que sustentam a previdência,
aumentarão sua participação no total da
população dos atuais 66% para 67,5 em 2050. Somente
após esta data, começarão a diminuir o
seu peso relativo na sociedade. “Sem dúvida, as
pessoas estão vivendo mais no país, mas nós
somente teremos o percentual de pessoas mais velhas da Europa
e da OCDE em 2050. A expectativa de vida no Brasil hoje é de
70 anos, bem diferente da expectativa de 80/82 anos da OCDE.
O problema do crescimento da população é de
médio e longo prazo, não é imediato”,
contesta Fagnani.
A terceira ofensiva
Como se observa, as manipulações usadas para
apressar um novo golpe na previdência são gritantes.
Com base nestas mentiras, já ocorreram duas contra-reformas
no país. A primeira, imposta por FHC através
da Emenda Constitucional número 20, em 1998, substituiu
o princípio distributivo pelo sistema misto, com o estímulo à previdência
privada, ao transformar o tempo de serviço em tempo
de contribuição e ao tornar obrigatória
a adoção do sinistro “fator previdenciário” – numa
matemática perversa que soma o tempo de contribuição
e a expectativa de vida, o que reduz o valor do benefício.
O objetivo inicial desta emenda era alterar o regime geral
da previdência (INSS), que afeta o trabalhador da iniciativa
privada, e também o sistema público. Mas, diante
da resistência nas ruas e no parlamento, inclusive com
várias liminares da Justiça, FHC só mexeu
no setor privado e não emplacou a cobrança dos
inativos. Coube ao governo Lula, para a justa decepção
de parcelas da sociedade, seguir a risca o acordo assinado
por FHC com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para
bancar a segunda fase da reforma, golpeando os direitos dos
trabalhadores do setor público.
Insatisfeitos, os especuladores financeiros e os empresários
ainda querem mais. Eles desejam reduzir os direitos previdenciários
dos trabalhadores da ativa e abocanhar os volumosos recursos
destinados à seguridade social. Sem qualquer compromisso
com a nação e com o seu povo, eles almejam destruir
o maior sistema de proteção social existente
no país para auferir maiores lucros. Atualmente, segundo
dados do IBGE, a previdência beneficia cerca de 85 milhões
de aposentados, pensionistas e familiares, direta e indiretamente – número
superior aos contemplados pelo programa Bolsa Família.
Ela está na contramão do neoliberalismo, que
prega o “estado mínimo” para a sociedade
e “máximo” para os banqueiros.
Sem a seguridade social, ao invés do país ter
30% das famílias abaixo da linha da pobreza, ele teria
42% da população nesta desumana condição.
De cada dez idosos brasileiros, oito tem como fonte de renda
a previdência. Somente no ano passado, 881 mil brasileiros
deixaram a condição da pobreza absoluta por conta
dos benefícios pagos pela seguridade social. O próprio
ministro Luiz Marinho confessou que “se não houvesse
a previdência, o total de pessoas abaixo da linha de
pobreza seria muito maior”.
Fortalecer a previdência social
Ao invés de ser atacada para ser privatizada, a previdência
social no país deveria ser fortalecida. Estudos recentes
indicam que 29 milhões de trabalhadores ainda não
têm direito à aposentadoria e aos demais benefícios
previdenciários. É certo que esta parcela sem
proteção social caiu de 36,5%, em 2005, para
35,9% no ano passado, o menor nível desde 1995. Mas
ela ainda é alta. A melhor forma de enfrentar os problemas
no setor, como alertou Lula na eleição de 2006,
seria através do crescimento da economia, que gera emprego
e renda e eleva a arrecadação previdenciária.
Mas, para isso, urge romper com os entraves neoliberais ao
desenvolvimento, como os altos juros, o superávit primário
e a libertinagem cambial.
“ Não existe alternativa que não passe
pelo crescimento, que reduz o desemprego e a informalidade.
Só assim haverá aumento da renda e da massa salarial
e, com maior número de pessoas voltando a pagar a previdência,
a sua receita obviamente crescerá”, explica Fagnani.
Além disso, o governo deveria ser mais rigoroso no combate à sonegação,
multando e detendo os mesmos empresários que pregam
a destruição da previdência, e precisaria
rediscutir as isenções e as renúncias
fiscais. Ao invés de torrar R$ 150 bilhões anuais
com o pagamento de títulos da dívida para 20
mil famílias de rentistas, a União deveria reforçar
os investimentos na seguridade, como forma de desenvolvimento
com maior justiça social. Na Europa, por exemplo, ela é financiada
em 36% pelas contribuições do governo através
de impostos diretos.
Altamiro Borges é jornalista, membro
do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate
Sindical e autor do livro “As encruzilhadas do sindicalismo” (Editora
Anita Garibaldi, 2ª edição).