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Agência Diap, 20
de janeiro de 2008
Sentinelas indormidas na defesa
da Previdência Social
Por: Álvaro Sólon
de França*
A Seguridade Social ocupa no texto da Carta constitucional um dos principais
capítulos do título relativo à Ordem Social. Compreende
um conjunto de ações, de responsabilidade dos poderes públicos,
nas áreas de saúde, previdência e assistência
social, dirigidas ao alcance de objetivos básicos de uma sociedade
democrática: o bem-estar e a justiça social.
A concepção de Seguridade Social assumida
pela Constituição Federal de 1988 foi inovadora
em relação aos preceitos basilares dos programas
sociais desenvolvidos até então em nosso
país, bem como constituiu significativo avanço
no campo da definição dos direitos fundamentais
para um exercício pleno da cidadania. Fundada nos
alicerces da solidariedade nacional, a Seguridade Social
produz vida; sem ela se rompe a vida e vem a morte.
Esses avanços notáveis conquistados pela
sociedade brasileira só foram possíveis graças à atuação,
firme, corajosa e perseverante de muitas entidades que
diuturnamente trabalharam dentro do Congresso Nacional,
com destaque para a ANFIP – Associação
Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil,
e a COBAP - Confederação Brasileira de Aposentados
e Pensionistas, sendo que posteriormente, nas lutas pela
preservação e ampliação dessas
conquistas, agregaram forças o MOSAP – Movimento
dos Servidores Públicos Aposentados e Pensionistas
e a Frente Parlamentar e de Entidades Civis e Militares
em Defesa da Previdência Social Pública. Mas,
infelizmente, muitas vezes, esquecemo-nos de que as entidades
só cumprem o seu papel porque são movimentadas
por cidadãos e cidadãs que se dedicam à nobre
tarefa de servirem à sociedade doando o seu trabalho,
esforço e dedicação como representantes
dessas entidades.
Por isso, neste ano em que a Constituição
Cidadã completa vinte anos, utilizo este espaço
para homenagear esses representantes de classe na pessoa
de dois valorosos companheiros e de uma companheira, que,
apesar da idade avançada e da debilidade da saúde
física, desde 1988 até hoje continuam doando
todo o seu ser em prol da construção de uma
Previdência Social Pública que valorize os
seus servidores e trate com dignidade os seus beneficiários.
Estes valorosos companheiros estão sempre presentes
nos embates, e na defesa da Previdência Social Pública.
Fazem parte do seleto grupo de pessoas que nasceram para
servirem o seu país, pois têm fome e sede
de justiça social, e em todo tempo mantêm
um compromisso inalienável e inarredável
com a construção de uma sociedade mais livre,
justa e solidária. Assim como as pessoas, a Nação
tem alma. A alma da Nação brasileira é a
Seguridade Social. Estes companheiros são guardiões
da alma da Nação brasileira. São verdadeiras
sentinelas indormidas na defesa dos aposentados e das pensionistas
do Brasil. Estou falando dos companheiros Gilson Costa
Oliveira, da COBAP; de Domingos Travesso, do MOSAP, e da
companheira Josepha Britto, da Frente Parlamentar em Defesa
da Previdência Social Pública. São
pessoas por quem nutro o mais profundo respeito, carinho
e admiração.
A Previdência Social é, hoje, o maior programa
de redistribuição de renda existente no país.
Ela reduz as desigualdades sociais, corrige as injustiças
ao garantir a cidadania, impulsiona as economias locais,
evita o êxodo rural. É, enfim, uma verdadeira âncora
social, e, certamente, essas conquistas só foram
possíveis porque contaram com uma parcela importante
do trabalho destes valorosos companheiros. Creio que graças
ao exemplo destes companheiros uma nova sociedade está a
caminho. Basta ter olhos para ver.
A Previdência Social não é propriedade
do governo, nem dos partidos da base de sustentação
do governo, nem dos partidos de oposição.
Pertence à sociedade brasileira. Destarte, conclamamos
toda a sociedade brasileira para que se mire no exemplo
destes companheiros, de modo que possamos aperfeiçoá-la,
tornando-a cada vez mais universal, pública e eficaz.
Auditor Fiscal da Receita Federal do
Brasil – Ex-Presidente do Conselho Executivo da ANFIP – Associação
Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil
- Foi secretário-executivo do Ministério
da Previdência Social no período de 2003 a
2004 - Autor dos livros Previdência Social é Cidadania
e A Previdência Social e a Economia dos Municípios.
E-mail: alvarosolon@uol.com.br
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Agência Diap, 20
de janeiro de 2008
Previdência, 85 anos
Por: Vilson Antonio Romero*
No Japão, o presidente da Comissão de Impostos, Yutaka
Kosai, diz que é inevitável aumentar o imposto sobre o
consumo, a fim de cobrir os crescentes custos da previdência social
por causa do envelhecimento da sociedade e da queda da taxa de fertilidade.
Na França, o presidente Sarkozy enfrentou recentemente
a mais forte onda de protestos contra seus projetos de
reformas, entre eles o que prevê a extinção
dos regimes especiais de aposentadoria, responsáveis
por um déficit anual de € 5 bilhões.
O parlamento italiano debate mudanças apresentadas
pelo governo da Itália, que comprovadamente é um
dos países que mais gasta com previdência
em todo mundo, em relação ao seu Produto
Interno Bruto (PIB).
A América Latina vê com freqüência
o debate interno sobre os sistemas de seguro social de
seus países, alguns privatizados parcialmente, como
o Chile e a Argentina. Também na Ásia, problemas
graves ameaçam diversas economias em função
do crescente número de idosos aposentados e menos
gente trabalhando. A China tem seis trabalhadores na ativa
para cada inativo e com esta relação diminuindo
vertiginosamente, a economia do gigante asiático
imagina tropeçar em algumas décadas.
Estes são somente alguns exemplos da preocupação
mundial sobre a questão de como garantir uma aposentadoria
digna aos seus cidadãos. A Organização
Internacional do Trabalho, porém, realça
que a maioria dos sistemas de previdência social
no mundo, apesar de debilitados primeiro pelas privatizações
e agora ameaçados pela movimentação
dos capitais especulativos, podem, entretanto, contribuir
para o sucesso da primeira Meta do Milênio – redução
da indigência e da fome.
Para atingir um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio,
como são chamadas as oito grandes metas aprovadas
em 2000 pela Organização das Nações
Unidas, é necessária a aplicação
de sistemas básicos de segurança social nos
países de baixa renda, segundo a OIT. Também
reforçando esta preocupação, embora
com um viés privatista, a rede internacional Social
Watch (Controle Social) afirma que o Banco Mundial concedeu
200 empréstimos a 68 países desde 1984 para
reformar seus sistemas de previdência social.
No Brasil, 85 anos após a publicação
da Lei Elói Chaves, aliás, Decreto 4682,
de 24 de janeiro de 1923, o volume dos dispêndios
com aposentadorias continua gerando, com freqüência,
manchetes – distorcidas ou não – sobre
suas insuficiências e desequilíbrios.
O problema é que, entre outras coisas, estudiosos
têm sido pródigos em estudar pouco e panfletear
muito. Fazem e divulgam contas e balanços de despesas
previdenciárias em relação ao PIB,
somando rubricas assistenciais que nada tem a ver com o
conceito constitucional de previdência – devida
a quem para tanto contribuir.
Por outro lado, olvidam amiúde que, se não
houvesse previdência no Brasil, milhões de
brasileiros estariam jogados na sarjeta da indigência.
Mesmo assim, é através do continuado debate
que se revigora esta estrutura tão importante para
a parcela menos aquinhoada da sociedade. Por isto, seguimos
desejando, pela sua importância, longa vida à Previdência.
Felizes 85 anos!
Jornalista, servidor público,
diretor da Associação Riograndense de Imprensa
e suplente da Fundação Anfip. E-mail:vilsonromero@yahoo.com.br
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Diário Vermelho,
20 de janeiro de 2008
China é "estabilizador" da
economia mundial, diz economista argentino
O diretor do Instituto de Planejamento Estratégico da
Argentina, Jorge Castro, afirmou recentemente num artigo estampado
em El Cronista Comercial que, atualmente, a economia norte-americana
está cada vez mais próxima à decadência
enquanto o rápido crescimento econômico da China neutraliza
as influências negativas provocadas pela economia norte-americana,
tornando-se "estabilizador" da economia mundial.
Ao contrário da economia norte-americana, a economia chinesa cresceu
no ano passado mais de 10% e poderá alcançar cerca de 10%
este ano mesmo enfrente macro-controle, reiterou o economista argentino.
Ele considera que uma economia mais estável e sadia da China estabilizará a
economia mundial e diminuirá a possibilidade da crise econômica
global.
30 anos de reforma e abertura
Este ano serão comemorados os 30 anos do processo
de reforma e de abertura da China. No final de 1978, a
Terceira Sessão Plenária do 11º Comitê Central
do Partido Comunista da China (PCC) aconteceu em Beijing,
iniciando uma nova era de reforma e abertura.
A sessão adotou esses princípios para promover
o desenvolvimento e mudou o trabalho do partido e do Estado
de "tomar a luta de classes como princípio" para
o crescimento econômico. Das áreas rurais
até as cidades, mudanças enormes apareceram
na China a partir da decisão.
Indicadores
A Agência de Notícias Xinhua divulgou no
dia 31 de dezembro uma retrospectiva do ano, publicando
os 10 maiores números econômicos da China
em 2007:
1. 11,5% de crescimento do PIB do país
2. 31% de crescimento do rendimento
financeiro do país
3. 7% de aumento da renda per capita
dos agricultores e 12,5% do crescimento do rendimento
líquido da população urbana
4. Crescimento anual de 12 milhões
de postos de emprego nas zonas urbanas
5. Mais de 500 milhões de toneladas
de produção nacional de cereais, a 4ª safra
consecutiva do país
6. 1ª redução da emissão
de dióxido de enxofre e de demanda química
de oxigênio
7. Cerca de 4,7% de crescimento do índice
de preço ao consumidor, o maior desde 1996
8. Mais de 6% de valorização
da moeda chinesa em relação ao dólar
americano
9. US$250 bilhões de superávit
comercial chinês
10. Mais de 100 milhões de contas
na bolsa chinesa
Com informações da Xinhua
e Cri Online
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Congresso em Foco, 20 de
janeiro de 2008
Obras públicas: um caso
de polícia
Osvaldo Martins Rizzo*
Comenta-se que, quando os altos executivos das grandes
empreiteiras do cartel brasileiro de obras públicas
se reúnem, circula uma antiga anedota representativa
da imagem que esses empresários têm de si
mesmos. Freqüentemente contada entre histéricas
gargalhadas e sucessivas doses de whiskey importado, a
chalaça conta o caso de um turista que, ao visitar
pela primeira vez um imaginário restaurante especializado
em pratos feitos com carne humana, perguntou o motivo do
preço da carne de empreiteiro ser o mais caro do
cardápio. Dá muito trabalho pra limpar, respondeu
o garçom.
Como jocosamente reconhecem seus participantes, o adjetivo “limpo” continua
ausente do rol das peculiaridades desse importante setor
da economia nacional. Juntamente com outros segmentos como
o de publicidade, informática e outros, o de obras
públicas vem sendo freqüentemente acusado pelo
desvio de milionários recursos orçamentários.
Rara é a semana cujo noticiário político-policial
não traz o relato de outro escândalo envolvendo
direta ou indiretamente uma grande empreiteira suspeita
de ter subornado autoridade; superfaturado serviço;
edificado prédio inabitável ou matado alguém
ao derrubar estação de metrô.
Esse assunto ganha particular importância este ano
quando, segundo o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea), os investimentos do governo poderão
dobrar sua participação no Produto Interno
Bruto (PIB) de 0,5% para 1% devido às obras do Programa
de Aceleração do Crescimento (PAC). O desvio
de verbas pode dobrar junto. Os lobistas das empreiteiras
já conseguiram incluir na recém editada Medida
Provisória 413 algumas desonerações
tributárias para aquelas que terão contratos
do PAC.
Reunidos na forma de um forte cartel, algumas entidades
patronais dos empreiteiros funcionam como agentes fomentadores
dos conluios, cuidando da defesa dos interesses do cartel
e não da classe empresarial ou, menos ainda, da
sociedade, merecendo ser sumariamente fechadas.
Nos últimos dias, outro indício de incompetência
foi noticiado. Sob a responsabilidade técnica de
uma grande empreiteira, uma barragem de terra em construção
no município de Vilhena (RO) rompeu quase varrendo
uma cidade do mapa. Ademais, ressurgiu o escândalo
da obra da ampliação do edifício da
Assembléia Legislativa paulista que deverá custar
quase quatro vezes mais do que o valor inicialmente orçado.
O ex-presidente daquela Casa de Leis – ironicamente
filiado ao partido dos Democratas – acusa pelo assalto
aos cofres estaduais a empresa pública contratada
para fiscalizar as obras. Esta se defende culpando o projetista
e a pressa. De novo, monta-se a farsa para que a empreiteira
seja inocentada do suposto desvio de dinheiro público.
O emprego de práticas delituosas pelo segmento
não é recente. Ao contrário, em parte
constitui-se em outro maldito legado do regime militar
e do governo Sarney. Para ilustrar, lembremos alguns fatos:
em fevereiro de 1.971, devido ao prazo político
de entrega, desaba o Pavilhão da Gameleira em Belo
Horizonte matando 64 operários, cujos dependentes
não receberam indenização até hoje.
Nessa época, irado com o resultado da licitação,
o general presidente Emílio Médici casuisticamente
rompe o contrato com a construtora vencedora entregando
a obra da Ponte Rio-Niterói para um seu velho amigo
empreiteiro paulista, pagando mais caro.
Em 1.987, o jornalista Jânio de Freitas denuncia
a fraude da prévia partilha dos lotes da concorrência
das obras da Ferrovia Norte-Sul pelo cartel das grandes
empreiteiras. Quatro delas compõem o consórcio
construtor da obra do Metrô paulistano onde, em janeiro
de 2.007, um tecnicamente estranho colapso matou sete pessoas.
Culparam a chuva pelo desabamento, como se engenheiro brasileiro
só soubesse fazer obra no deserto.
Tentando reduzir o tamanho do ralo das obras públicas
por onde, todo ano, são desviados bilhões
de reais, a Polícia Federal (PF) implanta um novo
sistema que permitirá detectar, previamente, fraudes
desde a fase licitatória. Agindo antes de os recursos
serem repassados, a PF expandirá um sistema que
já vem sendo usado pelo Departamento de Inteligência
incluindo o acompanhamento on-line das licitações,
e espera fechar convênio com o Conselho de Controle
de Atividades Financeiras (Coaf) para rastrear a movimentação
financeira dos grandes empreiteiros.
A suja práxis do mercado das obras públicas
pode estar começando a ser limpa por ações
policiais de combate ao crime organizado, sendo que seus
meliantes talvez percam as benesses de serem considerados
como respeitáveis empresários, passando a
receber tratamento semelhante ao imposto pela justiça
italiana à máfia siciliana na operação “Mãos
Limpas”.
* Osvaldo Martins Rizzo é engenheiro
e ex-conselheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES).
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Gazeta do Povo, 20 de janeiro
de 2008
BRASIL | ELEIÇÕES
Aécio apoiaria outro
tucano à Presidência
O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB),
disse que está “pronto” para apoiar em
2010 outro candidato do PSDB à Presidência da
República que estiver melhor colocado em pesquisas
eleitorais, entre eles o governador de São Paulo,
José Serra (PSDB). O tucano disse que só será candidato
se conseguir criar uma convergência de forças
políticas com um projeto para o país.
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Gazeta do Povo, 20 de janeiro
de 2008
ECONOMIA | IMPORTAÇÃO
Dolár em baixa, compras
em alta
Cotação da
moeda norte-americana caiu pela metade nos últimos
seis anos
por PATRÍCIA KÜNZEL
As confortáveis cadeiras italianas do salão de beleza,
os equipamentos de alta tecnologia da clínica oftalmológica
e o maquinário renovado da fábrica paranaense de implementos
rodoviários adquiridos no ano passado têm o “patrocínio” do
dólar desvalorizado. A expressiva queda da moeda norte-americana
frente ao real, nos últimos seis anos, pode não ter agradado
boa parte do setor produtivo brasileiro, que perde competitividade
no mercado externo, mas está levando muitas empresas às
compras. Mesmo quem perdeu com a redução das exportações
está procurando usar a moeda a seu favor. A idéia é comprar
máquinas mais avançadas para reduzir custos com aumento
de produtividade.
Confira a cotação
da moeda americana frente ao real
Com o dólar a metade do preço praticado em 2002 – só no
ano passado foram 17% de desvalorização –, os produtos
importados estão ficando cada vez mais tentadores para os empresários
brasileiros. O Instituto de Oftalmologia de Curitiba (IOC) aproveitou
o câmbio favorável à importação para
renovar 70% de seus equipamentos de diagnóstico. A empresa investiu
perto de US$ 1 milhão em dez equipamentos – incluindo
dois lasers de última geração, usados em cirurgias. “Era
um investimento que precisava de um momento econômico positivo
e de conhecimento da tecnologia para ser feito. Se o dólar estivesse
mais caro, só o conhecimento, que já temos, não
seria suficiente para fazermos a compra”, explica o diretor do
instituto, Luiz Geraldo Simões de Assis.
O empresário Kyrlei Boff, dono da rede de salões
de beleza Lady&Lord, de Curitiba, também não
lamenta a desvalorização da moeda norte-americana.
A queda do dólar permitiu que ele, enfim, equipasse
uma de suas lojas com cadeiras de cabeleireiro italianas,
que ele vinha “namorando” há anos. “Antes
elas custavam em torno de R$ 8 mil. Era inviável.
Agora, é possível comprá-las a pouco
mais de R$ 3 mil. Uma diferença muito pequena em
relação às nacionais, que compensa
o diferencial de qualidade.”
A empresa também aproveitou o câmbio para
comprar equipamentos de estética, como camas de
bronzeamento, que custam em torno de R$ 40 mil. “O
dólar baixo pode não ser positivo para alguns
exportadores, mas é para o consumidor, que ganha
com o aumento de concorrência. Se a queda do valor
da importação não é repassada
ao preço, no mínimo ela tem ajudado a segurar
os valores há dois anos.”
Boff e Assis não têm do que se queixar em
relação ao câmbio, mas é difícil
uma empresa paranaense que esteja mais satisfeita com a
situação do dólar do que a Positivo
Informática. Com 93% da produção atrelada à moeda
norte-americana, a despencada do câmbio, somada a
incentivos fiscais para o setor, aumentou consideravelmente
os clientes potenciais da empresa. “Para nós,
o câmbio está muito bom. Muito mais gente
pode comprar um computador hoje em dia”, resume o
vice-presidente Financeiro e de Relações
com Investidores da empresa, Lucas Guimarães. Ele
explica que a redução dos custos de produção
foi repassada ao consumidor. “Um notebook que antes
não custava menos de R$ 5 mil hoje é vendido
por R$ 1,4 mil. Além disso, tivemos um ganho com
aumento de escala. Uma empresa que passa de 20 mil computadores
por mês para o mesmo volume por semana com certeza
consegue oferecer um preço melhor.”
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Gazeta do Povo, 20 de janeiro
de 2008
ECONOMIA | INDÚSTRIA
Senai registrou mais matrículas
em 2007
O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial
(Senai) registrou um aumento de cerca de 11,16% no número
de matrículas em 2007 em comparação
a 2006 – como reflexo do bom desempenho da indústria
do estado. Em 2006, o Senai registrou 61.163 matrículas.
Até novembro de 2007, foram registradas 67.991. O
Senai divulga, no fim de janeiro, os números gerais
do ano passado.
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Agência Brasil, 20
de janeiro de 2008
Copom realiza primeira reunião
de 2008, sob ameaça de recessão nos EUA
Stênio Ribeiro
Brasília - O Comitê de Política Monetária
(Copom) do Banco Central realiza, nos próximos dias 22 e 23, a
primeira reunião do ano para avaliação da conjuntura
econômica, interna e externa, e para definir os rumos da taxa básica
de juros, também chamada de taxa Selic porque remunera os títulos
depositados no Sistema Especial de Liquidação e de Custódia.
A taxa Selic em vigor, de 11,25% ao ano, é mantida
há um semestre, e os analistas de mercado ouvidos
na última pesquisa do BC (dia 11 deste mês)
estimam que o Copom não vai mexer no índice.
Mas, em virtude da turbulência financeira no mercado
norte-americano, no decorrer desta semana, começam
a aparecer defensores de ligeira elevação
dos juros.
É o caso, por exemplo, do economista Istvan Kasznar,
conselheiro da Associação Nacional das Instituições
de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi),
que advoga uma possível elevação de
0,25 ponto percentual, que seria, segundo ele, "um
pequeno aperto monetário para cortar, na raiz, o
indesejável repique da inflação".
O dirigente da Acrefi acha que se não houver mudança
na taxa o Copom deveria pelo menos adotar a opção
por "viés de alta", que permite elevação
da taxa Selic no intervalo entre reuniões do colegiado
do BC. Seria uma sinalização, segundo ele,
de que a autoridade monetária está atenta,
de modo a evitar que pressões inflacionárias
internas, associadas à crise norte-americana, "tornem
o momento econômico mais delicado do que já está".
A reunião do colegiado de diretores do BC é realizada
em duas sessões. O primeiro dia (terça-feira) é destinado
a apresentações técnicas de conjuntura
por chefes de departamentos, enquanto que a segunda sessão,
na quarta-feira, é reservada exclusivamente aos
diretores, que decidem sobre as diretrizes da política
monetária.
O final da segunda sessão é o momento mais
aguardado pelo mercado financeiro, pois só então
o BC anuncia a taxa de juros a ser aplicada à economia
já no dia seguinte.
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O Estado do Paraná,
20 de janeiro de 2008
Direito e Justiça
Projeto de Lei muda CLT para
agilizar ação trabalhista
Com vistas a agilizar o trâmite do processo trabalhista, o deputado
Daniel Almeida (PC do B - BA) apresentou Projeto de Lei que altera a
Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). A proposta tramita
na Câmara, em caráter conclusivo, e será analisada
pelas Comissões de Trabalho, Administração e Serviço
Público e Constituição e Justiça e de Cidadania.
O projeto estabelece que as decisões judiciais
já deverão ter todos os cálculos dos
pagamentos da ação em questão. Caso
o processo não ofereça elementos para o cálculo,
o juiz é que deve atribuir o valor. As decisões
de juízes e tribunais, então, devem ir à imediata
execução para o pagamento. Atualmente, o
juiz pode dar uma sentença geral de condenação,
e os cálculos são feitos antes do início
do processo de execução.
A proposta exige que o bloqueio de bens de garantia da
execução, no caso de dinheiro em conta corrente
ou aplicação financeira, seja limitado ao
valor devido. Hoje, esse limite não é previsto.
O projeto propõe um sistema entre tribunais do
Trabalho e o Banco Central para permitir o encaminhamento
de determinações judiciais de bloqueio e
desbloqueio de contas correntes e ativos financeiros.
Mudança de limites
Em decisões que não cabem mais recurso,
o projeto prevê multa de 10% para o devedor que não
efetuar o pagamento no prazo de 15 dias.
De acordo ainda com o projeto, o condenado só poderá entrar
com recurso se depositar em dinheiro 30% do valor que deve.
Entretanto, tal depósito, deve ser integral, caso
os valores de condenação sejam de até 20
salários mínimos. Em caso de Recurso Extraordinário,
o depósito integral precisa ser feito nos casos
de condenação de até 40 salários
mínimos.
Atualmente, o depósito integral só é exigido
para condenações de até 10 salários
mínimos. Esse limite, hoje, também é aplicado
nos casos de valor indeterminado.
O projeto coloca a situação de ausência
de uma das partes na audiência trabalhista e afirma
que, nesse caso, o juiz deve decidir sobre o que cabe a
cada um provar (autor e réu). Na lei atual, em caso
de ausência do autor da ação, a reclamação é arquivada.
Já no caso de ausência do réu, é considerada
revelia, o que o condena automaticamente.
Outra mudança prevista trata da forma de apresentação
da reclamação trabalhista, que só poderá ser
por escrito, e não mais verbal. O projeto também
quer diminuir o número de audiências, suprimindo
audiência inicial para unificar as audiências
de conciliação e julgamento.
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O Estado do Paraná,
20 de janeiro de 2008
Direito e Justiça
Márcia Novaes Guedes
analisa temas atuais do Judiciário, sindicalismo e
mundo do trabalho
Edésio Passos
Escrevo em homenagem à memória do dr. Wilson
Teixeira, colega no início de nossa advocacia, resistente
na luta contra a ditadura militar, militante político
e social, mas, antes de tudo, um homem simples, humilde,
solidário. Uma honra ter sido seu companheiro na
construção de uma sociedade justa, fraterna
e igualitária.
Encaminhada pelo dr. Geraldo Serathiuk, entrevista do
jornalista Léo Arcoverde, da revista Caros Amigos
(www.carosamigos.com.br), com a dra. Márcia Novaes
Guedes, juíza titular da Vara do Trabalho de Guanambi,
na Bahia, que reproduzo parcialmente. Ela desenvolve desde
1997 uma pesquisa sobre assédio moral no ambiente
de trabalho. Antes de ingressar na magistratura, em 1995,
advogou para a Comissão Pastoral da Terra e sindicatos
de trabalhadores rurais. Ainda estudante de Direito, na
década de 80, estagiou como assessora jurídica
do Sindicato dos Químicos e Petroleiros da Bahia,
na época presidido pelo hoje governador Jaques Wagner. É casada
com Ângelo Costa, coordenador da CPT e presidente
do Centro de Agroecologia do Semi-Árido. Atendendo
a convocações do TRT, atuou na Vara do Trabalho
de Bom Jesus da Lapa, onde interrogou ex-trabalhadores
da então recém-privatizada Coelba - Companhia
de Energia Elétrica do Estado da Bahia, que haviam
sofrido assédio moral. Textos de sua autoria são
postados periodicamente na seção de Comportamento
da revista eletrônica Terra Magazin, abordando temas
como lucro dos bancos, trabalho escravo, política
e assédio moral. Publicou um livro sobre o Terror
Psicológico no Trabalho, pela Editora Ltr. É integrante
do Instituto Baiano de Direito do Trabalho e da Associação
Juízes para a Democracia. Eis alguns pontos da entrevista:
“As ações de combate e erradicação
do trabalho escravo ficaram recentemente suspensas por
quase um mês por conta da acusação
partida de dois senadores - Flexa Ribeiro (PSDB/PA) e
Kátia Abreu (DEM-TO) - de que fiscais do Ministério
do Trabalho estariam praticando abuso de poder. Como
a senhora vê isto? O Congresso Nacional se mostra,
de certa forma, conivente com o trabalho escravo?”
Enquanto instituição, nós temos que
defender o Congresso Nacional o tempo inteiro, porque não
conhecemos outro mecanismo mais democrático do que
este, do que a representação. Então,
nós votamos nos deputados e nos senadores para que
estes nos representem. A gente espera que o Congresso seja
o espelho da nossa sociedade. Infelizmente, o que nós
vemos é a existência de pressão. E,
nesse caso, a bancada ruralista, com um número significativo
de deputados e senadores, domina o Congresso Nacional. É óbvio
que esses parlamentares não têm o interesse
em democratizar as relações de trabalho.
Isso já ficou provado historicamente. Nós
vimos como a bancada ruralista se posicionou em relação à reforma
agrária no período de 1988. Trabalhou em
bloco no sentido de evitar o avanço da legislação.
Durante todos esses anos, sabemos que tem travado o processo
de democratização das relações
sociais. É a bancada ruralista. É um lobby
extremamente poderoso. E, infelizmente, nessa questão
do trabalho, mais uma vez vimos a força dessa bancada.
Por outro lado, as organizações populares,
as forças democráticas da nação,
também estão conseguindo vitórias.
O grupo móvel se organizou no governo Fernando Henrique
Cardoso mas foi no atual governo que conseguiu libertar
o maior número de trabalhadores submetidos à condição
semelhante à de escravo. Então, tem-se conseguido
uma vitória bastante grande. No Araguaia, a Justiça
do Trabalho se organizou em 2005. Meu colega João
Humberto Cesário (da Vara do Trabalho de São
Félix do Araguaia, no Mato Grosso) tem uma posição
extraordinária como magistrado, porque toma como
paradigma das suas decisões o direito fundamental
da pessoa humana. Essa é a chave para se fazer justiça.
Tomar como modelo os direitos fundamentais da pessoa humana.
João pegou casos de trabalho escravo em que havia
pedido de indenização por dano moral coletivo
de R$ 16 mil e condenou a empresa em mais de R$ 1 milhão.
Como ele pôde fazer isso? E é uma decisão
extraordinária, deu certo, foi mantida no tribunal,
porque ele se baseou nos direitos fundamentais da pessoa
humana.
“A senhora chegou a escrever que o brasileiro é,
certas vezes, indiferente à injustiça social.
Que o brasileiro quando vai a um casamento não
se preocupa se os “serviçais” têm
os seus direitos básicos respeitados. Por que
a senhora acha isto?”
Isto vem da minha observação do cotidiano.
Nós, juízes, temos por obrigação,
segundo o Artigo 337 do Código de Processo Civil,
ao decidir, também levar em consideração
a nossa experiência. Muitas vezes, não é só a
lei. Um juiz não pode simplesmente ficar no seu
gabinete sentado e não ver a vida ou apenas ver
a vida como Chico Buarque cantou em A banda, vendo a banda
passar pela janela. Um juiz deve, mais do qualquer outro,
ser um arguto observador da sua realidade social, para
inclusive se policiar no sentido de não cometer,
na sua vida privada, ilícitos ou práticas
condenáveis. Tem que ter coerência. A gente
tem que ser como Paulo Freire ensinou. É preciso
que o nosso discurso fique cada vez mais próximo
da nossa prática, até se fundirem completamente.
“É verdade que o brasileiro, além
de medo, tem desprezo pelos pobres?”
Isso que escrevi também vem da observação
e das leituras dos clássicos da sociologia brasileira.
Como esconder o que a gente leu em Josué de Castro?
Como esconder o que a gente leu em Florestan Fernandes?
Em Casa Grande e Senzala? Os Sertões de Euclides
da Cunha. Só quem não leu ou não quer
observar ou ler.
“A senhora questiona, inclusive, a República
e a economia de mercado, afirmando que estas foram forjadas
com a exclusão dos ex-escravos, considerados sub-raça
destinada ao desaparecimento”.
Foi o que aconteceu aqui no Brasil. Quando, em 1850, já se
discutia seriamente a libertação dos escravos
porque a Inglaterra já fazia a grande revolução
industrial. O que é que se fez aqui no Brasil? Fez-se
uma lei de terra para impedir que os escravos que viessem
a ser libertos pela Lei do Sexagenário e os que
nasciam pela Lei do Ventre Livre pudessem ter acesso à terra.
Posteriormente, o processo de libertação
dos escravos não foi exatamente uma conquista.colocado
pela ideologia dominante como uma dádiva. Mas, principalmente,
interessava ao projeto capitalista que começava
a adentrar o país. E o que a elite brasileira vai
fazer? Essa elite marginal vai buscar fora o povo que ela
quer formar. Havia textos escritos pelos intelectuais da época
que diziam que os negros não tinham futuro e que
se tratava de uma raça inferior. E precisava, então,
trazer o “milagre”. Por isso que os grandes
teólogos da Teologia da Libertação
sempre nos alertaram que o milagre era esse povo ter sobrevivido,
apesar de toda a guerra que se fez contra ele, de não
deixar sobreviver, de cortar todas as veias que pudessem
levar sangue, alimento. E esse povo conseguiu e até hoje
reivindica seus direitos. E estamos avançando. Eu
vejo com otimismo porque olho para trás e vejo o
quanto a gente já caminhou. “As empresas banalizam
o mal, praticam o sofrimento, pisa no outro. Essa é a
arma”.
“Em setembro, os bancos anunciaram lucros
recordes, em grande parte, devido ao aumento espetacular
de 250 por cento nas tarifas. Este lucro, para a senhora,
se deve ao fato de os bancos terem se modernizado junto
com a degradação das condições
e do ambiente de trabalho, uma vez que bancários,
com ou sem vocação, acumulam mais e mais
funções?”
Deve-se a isso, sim. A preocupação é somente
com os números e não com o ser humano. O
processo de globalização é visto,
não apenas por mim como vários outros estudiosos,
como ruptura, no mesmo sentido que aconteceu no processo
nazista. O totalitarismo nada mais é do que a ruptura
com a tradição filosófica e religiosa
que tinha como centro o homem, o ser humano como valor
fonte de todos os valores. O processo de globalização
rompe com essa tradição. O ser humano desaparece,
deixa de ser o valor central. E quando você degrada
o ambiente de trabalho para permitir a modernização,
você pode adotar as práticas totalitárias
e banalizar o mal. Daí vem o medo de perder o emprego
e de ser excluído, uma vez que desemprego significa
exclusão social. Não é uma coisa circunstancial
e sim estrutural. Recentemente o ministro Delfim Neto escreveu
um texto, mostrando como o sistema capitalista, sobretudo,
os grandes executivos, comemoravam justamente não
o aumento do emprego, mas o contrário, o desemprego.
Nas bolsas de valores, isso era visto da seguinte forma:
a economia descontaminada dos valores morais. Passaria
a não ter responsabilidade social e para com a vida
das pessoas que trabalham. Hoje, uma grande empresa pode
se organizar com um computador e um celular. É volátil,
muda de um lugar para outro, não cria raízes. É preciso
que a gente denuncie esse fato. Uma coisa é o medo
que bloqueia a ação das pessoas, a organização,
a reação ao sofrimento no trabalho. E outra
coisa é o zelo. Eu estive em Auswitch para conhecer
aquilo de perto durante o doutorado. Hitler não
teria conseguido fazer com que um campo de concentração
com mais de três milhões de pessoas funcionasse
se não houvesse, além do medo, o zelo. Ele
conseguiu a colaboração dos condenados, dos
judeus. É muito triste e duro falar isso, mas ele
conseguiu. No mundo do trabalho, os empregados, na grande
maioria, trabalham com eficiência, com dedicação,
com seriedade, se empenham para que o sistema funcione,
dê certo. Agora, de um lado as empresas banalizam
o mal, praticam o sofrimento, aí um pisa no outro,
porque estão pisando nele, dando início a
um ciclo vicioso. Essa é a arma. Só está funcionando
porque os trabalhadores estão colaborando.
“Pessoas empregadas no serviço de
call center dos bancos trabalham seis horas diárias,
só que têm apenas 15 minutos para almoçar,
ir ao banheiro ou resolver assuntos particulares. Nas
outras cinco horas e quarenta e cinco minutos, não
podem sequer levantar da cadeira. Trata-se de um exemplo
claro da banalização do mal no trabalho?”
É o novo modo de exploração intensiva
do trabalho vivo. Nós, juízes, começamos
a condenar os bancos no pagamento de horas extras porque
a legislação diz que o bancário não
pode trabalhar mais do que seis horas e dá apenas
quinze minutos para refeição e repouso. Só que
os bancos conseguiram construir um processo de concentrar
o trabalho dessa forma, reduzindo o quadro e obrigando
o funcionário a trabalhar as cinco horas e quarenta
e cinco minutos fazendo a mesma coisa sem nem mesmo poder
se levantar. O trabalho está completamente concentrado.
Já tem notícias até de que num supermercado,
no Chile, as caixas usavam fraudas. Isso pode ser revertido.
Depende da organização sindical, não
tem outra forma. A história humana é essa.
O direito do trabalho nasceu como um crime. O primeiro
direito do trabalho é o direito coletivo, o que
se pratica na Europa. A lei é, assim digamos, uma
exceção. Lá, as relações
trabalhistas são regidas pelos contratos coletivos.
E, no século 19, fazer greve era crime. Mas nem
por isso os trabalhadores deixaram de se mobilizar.
“De que forma as pessoas podem se defender
disso? A ação sindical organizada é a
saída?”
É fundamental. A grande questão é que
os sindicatos passaram batido no processo de modernização,
de globalização. As entidades sindicais sempre
foram formadas por grandes dirigentes de esquerda e a esquerda
nunca levou em consideração o sofrimento
pessoal e individual, porque havia o medo de que isto se
transformasse numa questão, digamos, burguesa. E
o grande desafio dos sindicatos sempre foram as questões
coletivas e, nesse processo de apenas ver o coletivo, os
sindicatos não viram basicamente o sofrimento no
trabalho, provocado pelo processo de exploração
do próprio trabalho, que é terrível.
Os sindicatos têm uma dificuldade muito grande de
lidar, por exemplo, com a questão da doença
no trabalho. A coisa sempre cai para o assistencialismo,
mas não se trabalha isso politicamente e essa que é a
grande questão, a saída para as organizações
sindicais. Os dirigentes sindicais se queixam que as grandes
multinacionais fazem práticas abertas contra o trabalho
sindical, denigre a imagem do dirigente sindical. Tudo
isso, porém, sempre houve. E houve de forma muito
pior. Quem viveu a ditadura militar sabe muito bem. Em
plena década de setenta, em plena vigência
do AI-5 (Ato Institucional N.º 5), a Cosipa (Companhia
Siderúrgica Paulista), uma estatal, vivia sob permanente
vigilância. Para entrar e sair da Cosipa era realmente
processo de identificação. Mesmo assim, os
trabalhadores transformaram as portas dos banheiros da
Cosipa em jornais. O último turno apagava o que
tinha sido escrito e, desta forma, prepararam a chamada
Greve da Amnésia. No dia combinado ninguém
levou o cartão. Havia cerca de 30 mil operários
para entrar. Os generais diziam que no Brasil não
havia greves. A ideologia era de que o brasileiro é pacífico
e não faz greve. Aí, de repente, o governo
se viu diante de 30 mil trabalhadores paralisados. O que
fazer? Sentar, negociar e calar a boca. Porque, do contrário,
seria mostrar ao mundo que no Brasil havia greve, sim.
Dentro de qualquer regime, você consegue um meio
de se organizar. A história do movimento sindical
deu exemplos disso. No caso do assédio moral, os
trabalhadores e os sindicatos não souberam trabalhar
com a subjetividade, com o sofrimento. E foi isso justamente
que as empresas souberam trabalhar de forma extraordinária.
Hoje, um gerente dentro de uma empresa é uma pessoa
extremamente preparada em relação ao que
pensa cada trabalhador, seus anseios e desejos mais pessoais.
Do contrário, não conseguiriam fazer o assédio
moral e o straining. As empresas investiram nisso, começaram
a se transformar no ideal de vida do empregado, mesmo sendo
uma empresa que pratica o mal. Adotam uma administração
que envolve emocionalmente e psicologicamente um conjunto
grande de trabalhadores. Um mercadinho não é aberto,
hoje, sem que antes se faça uma análise profunda
do consumidor, da dona-de-casa. E os sindicatos não
pensaram nisso embora ainda esteja em tempo de acumular
bastante pesquisa para conseguir fazer frente a tanta perversidade.
“Países como Noruega, Suécia,
Austrália e França já possuem legislação
própria contra o assédio moral. No Brasil,
existem articulações no Congresso Nacional
visando punir o agressor ou tipificar a conduta criminosa?”
Há vários projetos de lei tramitando no
Congresso Nacional, alguns no sentido de tipificar como
crime, e tem um desses projetos de lei, de autoria do deputado
federal Mário Passos, que parece que está mais
adiantado nas comissões da Câmara. Eu sonho
que para o assédio moral haja uma legislação
específica da natureza da Lei Maria da Penha, no
sentido de como foi elaborada. Foi um processo amplo de
mais de quatro anos de discussões entre os movimentos
de mulheres, de homossexuais, e veio à luz um documento
jurídico que é um monumento. Quando a Lei
Maria da Penha descreve as várias formas de violência,
define inclusive o assédio moral doméstico,
a violência psicológica. Nessa definição,
aquela legislação é brilhante, extraordinária.
Qualquer projeto de lei que efetivamente vise coibir e
prevenir o assédio moral e as outras formas de violência
no trabalho necessariamente tem de passar por um processo
amplo de discussão entre as entidades sindicais
e os diversos movimentos dos trabalhadores organizados.
Só desta forma a gente vai poder ter um instrumento
eficaz e uma lei que efetivamente pegue. Que é um
outro problema grave no Brasil, as leis que não
pegam, que ficam apenas no papel.
E-mail: edesiopassos@terra.com.br
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Folha de São Paulo,
20 de janeiro de 2008
No Senado, 173 suplentes já assumiram
vaga
Edison Lobão Filho (DEM-MA)
será o 174º político a exercer o mandato
de senador sem ter conseguido um voto sequer
Proposta quer acabar com prática
e convocar eleição em caso de saída;
presidente da Casa diz que discussão cabe numa reforma
política
ADRIANO CEOLIN
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Edison Lobão Filho (DEM-MA) será o 174º suplente
a exercer o mandato de senador sem ter conseguido um voto
sequer, segundo dados registrados pelo Senado nas últimas
quatro legislaturas -entre os anos de 1995 e 2008. Ele
vai assumir o lugar do pai, Edison Lobão (PMDB-MA),
nomeado novo ministro de Minas e Energia.
Essa troca de cadeiras reproduz uma prática que se tornou comum
no Congresso ao longo dos anos: parentes e financiadores de campanha
-alguns deles alvos de denúncias de processos na Justiça-
tornando-se senadores sem passar pelo crivo das urnas. Quase sempre,
a vaga de suplente é uma moeda de troca entre partidos ou a
garantia de que o mandato permanecerá com a família.
O Senado calcula o número de suplentes que estiveram em exercício
por legislatura, que dura quatro anos, enquanto o mandato de senador é de
oito. Hoje os senadores são em número de 81. Na 52ª legislatura
(2003-2007), 45 suplentes atuaram. Entre 1999 e 2003, foram 57, o mesmo
número da 50ª legislatura (1995-1999). Na atual legislatura,
iniciada há um ano, 14 suplentes estiveram em atividade -atualmente
são 12. Edinho Lobão será o 13º.
Seu perfil se assemelha a de outros suplentes. Mas, além de
ser parente do titular, ele também é alvo de denúncias.
A principal delas é de que teria usado laranjas para ocultar
a participação societária numa empresa de bebidas
endividada no Maranhão.
Edinho tem negado as acusações por meio de sua assessoria
de imprensa. O pai, o novo ministro de Minas e Energia, disse que ele
deverá tomar posse para, em seguida, se licenciar. Desse modo,
deverá assumir o segundo suplente, Remi Ribeiro (PMDB-MA), que
já foi denunciado pelo Ministério Público do Maranhão
por crime de responsabilidade e peculato.
Atualmente, tramitam no Senado sete PECs (Propostas de Emenda à Constituição)
para mudar regras da suplência. No ano passado, elas foram transformadas
em um único texto pelo senador Demóstenes Torres (DEM-GO).
Ele apresentou um relatório à CCJ (Comissão de
Constituição e Justiça), mas um pedido de vista
coletivo feito em dezembro impediu que o texto fosse votado.
Fim dos suplentes
No relatório, ele defende uma proposta radical: acabar com os
suplentes e convocar eleições toda vez que um titular
pedir afastamento. " Eu defendo que isso seja feito até o
sétimo ano de mandato [são oito anos]", afirmou.
Porém, segundo Torres, sua proposta encontra dificuldades. "No
discurso todos são a favor, mas na prática ninguém
quer acabar com os suplentes", complementou o senador.
O mais antigo entre os suplentes em atividade é o senador Sibá Machado
(PT-AC). Desde 2003, ele substitui a ministra do Meio Ambiente, Marina
Silva, que havia sido reeleita em 2002. Ele é um dos autor da
PEC que proíbe que parentes do senador titular até segundo
grau sejam suplentes.
Nesta semana, o presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN),
defendeu uma solução para o caso dos suplentes. No entanto,
segundo ele, o assunto tem de ser discutido "dentro da reforma
política" e não de forma isolada.
Apesar de se posicionar contra a prática, Garibaldi fez uma
costura política que acabou garantindo ao seu pai uma vaga de
suplente de senador até 2015. Quando candidatou-se ao governo
do Rio Grande do Norte em 2006, apoiou como candidata ao Senado Rosalba
Ciarlini (DEM-RN), cujo primeiro suplente era Garibaldi Alves, pai
do presidente da Casa.
" Eu fui contra porque papai já tem 84 anos, mas ela e o DEM insistiram
muito para que ele fosse o suplente senador", disse o presidente do Senado.
O sistema de eleição de senador com dois suplentes foi instituído
pela Constituição de 1946 e copiado pela atual em vigor (1988).
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Folha de São Paulo,
20 de janeiro de 2008
Eleição municipal
dita lideranças na Câmara
Na escolha de líderes na Casa,
partidos levam em conta nomes de deputados que devem disputar
prefeitura de capitais
No DEM, ACM Neto deverá substituir
Onyx Lorenzoni; sigla aposta que com mais visibilidade, Neto
crescerá na disputa por Salvador
MARIA CLARA CABRAL
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Em ano de eleições municipais, os principais
partidos da Câmara apostam em suas lideranças
para ganhar espaço em capitais estratégicas.
Os atuais líderes trabalham pelos nomes com viabilidade às
prefeituras e, após o recesso, que termina depois
do feriado de Carnaval, a primeira missão será definir
quem comandará cada sigla.
No DEM, já está tudo certo para que o deputado Antônio
Carlos Magalhães Neto (BA) substitua Onyx Lorenzoni (RS). O
partido aposta que com mais visibilidade no Congresso, Neto terá mais
chances de se eleger prefeito de Salvador, posto de extrema importância
para o DEM retomar seu prestígio no Estado.
Esta será a primeira vez nos nos últimos 50 anos que
uma eleição na capital baiana não terá a
influência do senador Antonio Carlos Magalhães (1927-2007).
E o cenário não é muito animador para o DEM. Na última
pesquisa Datafolha, realizada em dezembro do ano passado, o nome de
ACM Neto aparecia apenas na terceira colocação, com 15%
das intenções de votos.
No principal cenário, o radialista Raimundo Varela (PRB), que
nunca disputou uma eleição, liderava a pesquisa com 19%
das intenções dos votos e o atual prefeito, João
Henrique Carneiro (PMDB), vinha em segundo, com 16%.
No PT, o deputado Maurício Rands (PE), um dos cotados para a
Prefeitura de Recife, deve assumir a liderança do partido na
Câmara. Ele já concorreu ao posto no ano passado, mas
cedeu espaço para o deputado Luiz Sérgio (RJ). "Não
escolhemos o líder apenas por essa lógica [para dar mais
visibilidade nas eleições municipais], mas Rands é por
muitos motivos o provável nome para me substituir. Acredito
que toda a bancada pense como eu e que ele possa conquistar seu espaço
nacionalmente", disse Luiz Sérgio.
Rands terá que "aparecer" muito como líder
no Congresso para conseguir a prefeitura de Recife, já que outro
petista é preferido na capital pernambucana. Na última
pesquisa Datafolha, o secretário estadual das Cidades, Humberto
Costa, foi o nome do partido que apareceu com mais intenções
de votos.
No PSDB, a influência da escolha do novo líder da Câmara
na eleição municipal é indireta. Até agora,
dois deputados concorrem ao posto: José Aníbal e Arnaldo
Madeira, ambos de São Paulo. O primeiro é aliado do ex-governador
Geraldo Alckmin e o segundo do atual, José Serra. Qualquer um
que ganhe mostrará qual tendência deve predominar na disputa
pela prefeitura da capital. Se Aníbal ficar na liderança,
será um sinal de que a maioria dos deputados simpatiza com a
possibilidade de Alckmin disputar a eleição contra o
atual prefeito, Gilberto Kassab (DEM).
Caso Madeira ganhe no Congresso, no entanto, a leitura é de
que a maioria dos parlamentares prefere que o partido se alie ao DEM.
O deputado nega que sua escolha esteja relacionada com o futuro do
partido em São Paulo. "Fui secretário do Alckmin
e também tenho uma relação antiga com o Serra.
Apenas trabalho para conseguir a unidade da bancada", afirmou
Madeira.
Na última pesquisa da capital, Alckmin aparecia a frente de
Kassab, com 26% das intenções de voto contra 13%, mas
o atual prefeito tem tendência de crescimento.
Diferentemente de DEM, PSDB e PT, o PMDB é o único entre
as quatro maiores legendas da Câmara que não deve relacionar
o novo líder com as eleições municipais. Henrique
Eduardo Alves (RN) foi reconduzido ao cargo já no final do ano
passado. "Não tenho pretensão em usar meu cargo
de alguma forma para me promover para as eleições. Vou
continuar na liderança por aclamação do partido",
disse.
Os líderes do governo e da oposição na Casa continuam
os mesmos, Henrique Fontana (PT-RS) e Zenaldo Coutinho (PSDB-PA), respectivamente. "As
escolhas dessas lideranças não obedecem os mesmos critérios.
Eu, por exemplo, sou escolhido pelo presidente, não pela prioridade
das bancadas", explica Fontana.
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Folha de São Paulo,
20 de janeiro de 2008
VINICIUS TORRES FREIRE
O que pode dar errado
por aqui
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Risco para câmbio e inflação é o óbvio,
mas até no comércio
exterior surgem motivos para atenuar o pessimismo
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COMO A CONFUSÃO americana começaria a afetar o Brasil?
A resposta óbvia é: pelo câmbio, por meio da desvalorização
do real, o que tende a abalar inflação e juros.
O câmbio pode ser afetado por vários canais. Investidores
podem retirar seu dinheiro do país ou suspender investimentos
produtivos. Se o comércio mundial esfria, caem a procura por produtos
brasileiros e seus preços, que foram às alturas nos últimos
cinco anos, em especial no caso de recursos naturais. Quase 60% do valor
das exportações brasileiras depende de produtos básicos:
ferro, metais, soja, carnes, combustíveis etc. O que será desses
preços?
Os economistas do Bradesco acreditam que o preço de certas "commodities" seguirá firme
em 2008, com demanda forte em China, Índia etc. O preço
dos agrícolas depende pouco da variação do consumo
em países ricos, como os EUA. O estoque global de grãos
está baixo. E as "commodities" tornaram-se alternativas
de aplicações financeiras -protegem investimentos em períodos
de inflação; substituem, em parte, ativos em baixa, como
ações.
De fato, antes do anúncio de prejuízos bancários
monstruosos nos EUA, as "commodities" agrícolas disparavam
-na semana passada, houve volatilidade grande, mas tais dados lunáticos
são inúteis. Bancos americanos e europeus expandem seus
departamentos de "commodities" e gestores desses fundos estão
animados, caso ora raro. Bancos que soltaram relatórios recentes
sobre "commodity currencies", moedas de países que dependem
muito de recursos naturais, têm dito que, em caso de crise, o Brasil
se sairia melhor que Austrália e Chile, por exemplo. Enfim, a
finança parece crente de que especular com produtos básicos
renderá como em 2006 e 2007, quando desde fundos de pensão
a pessoas físicas passaram a apostar pesado em índices
de futuros de metais e grãos. Ganharam dinheiro e ajudaram a estourar
os preços.
Risco? Por ser relativamente pequeno e de menor liquidez, o mercado de
aplicações em "commodities" pode levar tombos
súbitos. Apesar da ainda grande confiança na China, um
bom PIB chinês pode não sustentar certos preços.
A China é a grande consumidora de metais industriais, mas reexporta
muito do que absorve. Numa crise global, suas exportações
cairiam, diz-se. E, por tabela, os preços brasileiros.
O valor da exportação brasileira de produtos básicos
tem dependido muito mais de preço que de quantidade vendida. O
comércio externo tem crescido menos, mas é impossível
discernir nos últimos meses o efeito do ainda pequeno desaquecimento
mundial de influências como a do real forte. Mas seria preciso
um colapso muito forte no planeta para vermos efeitos relevantes na balança
comercial, no curto prazo.
A forte onda de investimento relacionado a produtos básicos no
Brasil continua. A Anglo American diz que vai pagar US$ 5,5 bilhões
pelos negócios de mineração de Eike Batista.
Um colapso da finança americana parece a ameaça mais imediata
para câmbio e inflação. Mas o ineditismo da razoável
situação financeira do país torna mais insondável
a decisão de investidores internacionais (e a reação
do BC). Fuga? Ou ver o Brasil como uma oportunidade, paraíso de
juros altos e "commodities"?
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Folha de São Paulo,
20 de janeiro de 2008
Pacote não tira EUA
da recessão, diz Roubini
Para ex-conselheiro de Bill Clinton,
entusiasmo no Brasil deve ser menor
Economista diz que preços das
commodities deverão cair 20% até 2009 e que
as economias emergentes não ficarão mais
imunes à crise
TONI SCIARRETTA
DA REPORTAGEM LOCAL
Os EUA enfrentam um aperto sem precedentes no crédito,
que funcionava como um complemento de renda do americano.
A crise se traduz no dia-a-dia das pessoas com menos dinheiro
no bolso, redução do consumo e medo de perder
o emprego. Se alguém ainda tem alguma dúvida
do que isso significa, o economista Nouriel Roubini, ex-conselheiro
do governo Bill Clinton, afirma que o país já vive
uma recessão, exatamente como aconteceu em 2001.
Considerado um dos mais pessimistas entre os economistas
da atualidade, Roubini diz que o pacote de redução
de impostos do presidente Bush pouca diferença fará no
combate à crise. Diz ainda que o Brasil e demais
emergentes se mantiveram relativamente imunes às
turbulências até agora "em parte por
sorte", além de alguma "melhora na política
econômica", e que o ano será mais difícil
para todo o mundo. Leia trechos da entrevista.
FOLHA - O senhor foi um dos primeiros a falar
em "pouso forçado" nos EUA por conta
da crise das hipotecas. Já pode afirmar que suas
previsões viraram realidade?
NOURIEL ROUBINI - Acredito que já estamos
em recessão neste momento. Ela começou
no quarto trimestre, talvez em dezembro, quando provavelmente
tivemos um PIB negativo. A recessão no setor imobiliário é um
desastre, que diminuiu o patrimônio das famílias.
A crise de liquidez e o aperto no crédito chegaram.
O mercado financeiro teve perdas maciças. E as
perdas serão muito maiores do que as reportadas
até agora. Temos o desemprego subindo e a criação
de vagas parada. Há um abalo na confiança
do consumidor. Estamos em recessão. Defino recessão
como "hard landing" [pouso forçado ou
freada brusca na economia]. Minha previsão se
materializou.
FOLHA - O presidente Bush anunciou corte nos impostos.
Será suficiente para conter a crise?
ROUBINI - Não acho que vai fazer muita diferença.
Em 2001, tivemos recessão apesar de um pacote agressivo de corte
de impostos. Claro que esses pacotes combinados com estímulo
na política monetária [corte de juros] fazem essas recessões
durarem um pouco menos.
FOLHA - A eleição ajuda a recuperar
a economia? Como democratas e republicanos lidam com
a recessão?
ROUBINI - Normalmente, a eleição
presidencial traz mais foco para a economia. Não
acho que vai afetar tanto os mercados. Democratas e republicanos
dificilmente farão alguma mudança nos principais
drivers da economia. Há um consenso de corte de
impostos, mas os republicanos querem tornar permanentes
a redução tributária de 2001. E
os democratas disseram que não. Há um desacordo
entre estímulos temporários e permanentes.
São essas as diferenças entre os dois partidos
sobre como lidar com esse desastre financeiro. Democratas
serão mais cuidadosos em pensar o papel dos reguladores
no setor de hipotecas e serão mais agressivos
para discutir quanto terão de dar para os mutuários
que podem perder suas casas.
FOLHA - A crise beneficia mais democratas ou os
republicanos?
ROUBINI - A atual administração
pegou duas recessões, a de 2001 e a de 2008. O
candidato republicano talvez tenha mais dificuldade para
responder a isso. Uma recessão machuca o partido
que está no poder, que é o partido republicano.
Então, a fraqueza econômica, a insegurança
dos trabalhadores e das famílias, especialmente
da classe média, devem jogar a favor dos democratas.
Mas isso não muda a política econômica.
FOLHA - No ano passado, o Brasil passou um tanto
imune à crise, o que ficou conhecido como "descolamento" do
risco dos emergentes. O "descolamento" valerá em
2008?
ROUBINI - Este ano será mais
difícil para todas as economias emergentes, incluindo
o Brasil. O Brasil fez tantas reformas macroeconômicas
que não acredito em risco de crise financeira,
como houve em 1999 e em 2002. É verdade que os
países emergentes passaram bem em 2007 pelas turbulências
em parte por melhores políticas econômicas,
em parte por boa sorte. Com a recessão nos EUA,
teremos um "recolamento" [de risco] no lugar
do "descolamento" que tivemos.
FOLHA - O que é o recolamento?
ROUBINI - Se tivéssemos só uma "soft
landing" [desaceleração] poderíamos
ter ainda um descolamento. Mas uma recessão, tem
efeitos no sistema financeiro, nas Bolsas, na confiança
na economia. Não estou falando em recessão
global, mas em uma significante desaceleração
econômica. Em um mundo em que a atividade econômica
será menor, os preços das commodities vão
cair, e os produtores de commodities ficarão em
situação mais difícil, incluindo
o Brasil. Isso é o "recolamento".
FOLHA - Houve um excesso de otimismo no Brasil?
Passaremos por uma correção desse entusiasmo?
ROUBINI - Talvez comece [uma correção].
Claro, não terá o mesmo número
de IPOs [ofertas iniciais de ações] e
[fluxo] de investidores. O mercado altista no Brasil
vai esbarrar no preço das commodities. No médio
prazo, talvez continue a mesma boa história.
Até o próximo ano, os preços das
commodities devem cair em média 20%, algumas
mais e outras menos -2008 terá menos capital
para países como o Brasil. Não espero
crise, mas menos entusiasmo e um ano difícil.
FOLHA - Neste cenário, o grau de investimento
pode ser atrasado?
ROUBINI - Não estou certo.
Desde que não ocorram mudanças fiscais
e o país mantenha a solidez, talvez consiga.
A conquista do grau de investimento [selo de bom pagador
da dívida] depende mais de condições
fiscais e não de políticas ou do cenário
de mercado. Talvez a decisão não seja
atrasada.
FOLHA - Quais as lições que levaremos
dessa crise?
ROUBINI - A principal lição é que,
apesar de as inovações financeiras serem
positivas, precisamos de uma supervisão apropriada
dos mercados. De outra forma, criam-se distorções
e excessos. Os mercados privados funcionam, mas precisam
de instituições.
FOLHA - Teremos aperfeiçoamentos no papel
das agências de risco, reguladores e mercados?
ROUBINI - Espero que tenhamos discussões
sobre o quanto são confiáveis essas agências
de risco e os modelos dos bancos. Teremos de discutir
assuntos como falta de transparência. Há muito
o que repensar.
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Folha de São Paulo,
20 de janeiro de 2008
Lula diz que não quer "surpresa" na
crise
Com temor de desaceleração
em setores como o da construção civil, presidente
pediu à equipe econômica "o máximo
de vigilância'
Mantega vai apresentar diagnóstico
sobre momento econômico na reunião ministerial
da próxima quarta-feira, a 1ª do ano
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Apesar da piora no cenário da crise norte-americana,
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que
o governo tem tempo para tomar medidas preventivas para combater
os efeitos de uma eventual recessão nos Estados Unidos.
Ele já teme, contudo, uma redução no
ritmo de alguns setores da economia brasileira, como a construção
civil.
Em conversas com sua equipe, Lula disse que não quer ser pego
de "surpresa". Por isso, o presidente convocou o ministro
da Fazenda, Guido Mantega, na semana passada, e pediu o "máximo
de cuidado e vigilância" no acompanhamento da crise internacional.
Mantega estava em férias, mas antecipou seu retorno para avaliar
a situação da economia brasileira. Ele vai apresentar
um diagnóstico do atual momento econômico na reunião
ministerial de quarta-feira, a primeira do ano.
O presidente ficou preocupado com a informação repassada
por seus assessores de que a "curva de juros futuros" está em
alta, o que significa que o mercado projeta para o médio e longo
prazos possibilidade de alta nas taxas devido às turbulências
na economia.
Lula teme que essa expectativa do mercado financeiro já tenha
efeitos imediatos na economia real, afetando os setores produtivos,
sobretudo sobre o ritmo da construção civil, um dos principais
setores que estão puxando o crescimento da economia brasileira.
Em conversas com assessores, o presidente disse que os empresários
do setor "ainda não pisaram no freio, mas podem começar
a reduzir o ritmo". Por isso, pediu atenção de sua
equipe para tomar as medidas necessárias para evitar um cenário
como esse.
O presidente já foi informado pela área econômica
dos riscos de contágio para o Brasil e das reações
possíveis para conter o impacto de uma crise sobre a qual o
governo não tem o menor controle. A principal e mais eficiente
delas, na avaliação da equipe econômica, é a
elevação dos juros. Justamente o que Lula pediu para
ser evitado. O presidente sabe que isso azedaria o clima de otimismo
do empresariado e os investimentos.
Neste primeiro momento, a contaminação da economia se
dá pela saída de dinheiro externo que estava aplicado
no mercado brasileiro. O medo do governo é que esse movimento
se prolongue. Nesse caso, poderá haver uma desvalorização
mais forte do real ante o dólar, com impacto na inflação.
Aperto monetário
Apesar de ter fôlego para agüentar respingos iniciais da
crise nos EUA, a equipe econômica sabe que não poderá fugir
da receita tradicional de aperto monetário caso as turbulências
se intensifiquem.
Com base nas avaliações de sua equipe, Lula não
crê que a economia brasileira sofra muito neste ano com os efeitos
da crise internacional. No máximo, o país deixará de
repetir o ritmo do ano passado, quando cresceu na casa dos 5%, ficando
mais próximo de uma taxa entre 4% e 4,5% em 2008.
A preocupação é mais com 2009. Afinal, a previsão é que,
se houver um desaquecimento mais forte da economia brasileira, ele
ocorreria a partir do segundo semestre, refletindo no próximo
ano. Neste ano, avalia o governo, o país cresce no mínimo
2,5% apenas pelos efeitos do crescimento registrado em 2007.
Lula tem repetido nas reuniões com sua equipe que o governo
precisa estar "alerta" e "tranqüilo" ao mesmo
tempo, para evitar surpresas ou reações precipitadas.
Antes de agir, segundo ele, é preciso ter uma avaliação
mais profunda da intensidade da crise norte-americana e de seus efeitos
no resto do mundo.
Como o Brasil está numa posição "mais confortável" hoje
do que no passado, Lula diz que o país tem tempo suficiente
para fazer essa análise e adotar medidas de correção
de rumo. Como destacou um ministro na sexta-feira passada, após
se reunir com o presidente, "a crise dos Estados Unidos não é um
furacão entrando pela porta brasileira".
Lula já determinou, porém, que a equipe não deixe
dúvidas de que haverá o corte de R$ 20 bilhões
no Orçamento por causa do fim da CPMF, além de garantir
que a meta de superávit primário será respeitada.
Isso, em sua opinião, é fundamental para sinalizar ao
mercado que o governo não vai descuidar da economia e continuará perseguindo
uma inflação baixa.
(VALDO CRUZ E SHEILA D'AMORIM)
|
Revista Consultor Jurídico,
20 de janeiro de 2008
Questão de pele
Empregado chamado de negrinho
tem direito a indenização
A empresa Esmena do Brasil, de origem espanhola, foi condenada a pagar
R$ 75 mil de indenização por danos morais para um controlador
de armazém. Motivo: o chefe chamava o funcionário, negro,
de “escurinho”, “escuridão” e “negrinho”.
A decisão é da 3ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho
da 15ª Região (Campinas/SP). Cabe recurso.
De acordo com o processo, o controlador de armazém era sempre
chamado por termos pejorativo pelo chefe, que era espanhol. O patrão
o chamava de burro, vagabundo e afirmava que dentro da empresa não
valia a legislação brasileira. “Do portão
para dentro o território é espanhol”, dizia o patrão.
O autor da ação afirmou que deixou de ser
promovido porque era negro e no cargo entrou uma trabalhadora
loira, de olhos azuis. O próprio chefe teria dito
para outros funcionários que promoveu a funcionária
por ser “mais bonita” e que não colocaria
o controlador no cargo porque ele era negro.
A empresa, para se defender, afirmou que nunca discriminou
os funcionários e nem fazia ofensas a eles. Ainda
sustentou que nunca intimidou os trabalhadores afirmando
que ali as regras seriam outras.
A relatora do caso no tribunal, juíza convocada
Ana Paula Pellegrina Lockmann, afirmou não haver
dúvidas que o dono da empresa se referia ao controlador
de armazém como “escuridão”, “escurinho” e “negrinho”. “A
reclamada agiu de forma injuriosa, depreciando-o e humilhando-o
simplesmente em razão de sua cor. Não houve
a prática do crime de racismo, mas o comportamento
dos diretores mostrou-se inequivocamente ofensivo ao obreiro”,
afirmou.
Ana Paula considerou ser inadmissível que, “os
trabalhadores brasileiros sejam discriminados, humilhados,
inferiorizados, em razão de sua nacionalidade. Ora,
se nós brasileiros, por um princípio de índole
constitucional, devemos respeitar e tratar igualitariamente
os estrangeiros, muito mais ainda os estrangeiros a nós,
como povo soberano que somos. É de todo inaceitável
que, conferindo-se a tais pessoas o direito de aqui construírem
suas vidas, famílias e riquezas — com a utilização
dos recursos de nossa terra e com a força de trabalho
de nosso povo —, não saibam elas respeitar
a nossa dignidade e soberania”.
Para a juíza, é preciso observar “que
a ofensa ainda mais se avulta porque praticada no ambiente
de trabalho, onde é imprescindível o respeito
mútuo entre as pessoas. É certo que ofensa
moral praticada pelo empregador é ainda mais grave
do que se cometida em outras situações, traduzindo
abuso altamente reprovável diante da inferioridade
econômica do trabalhador e da possibilidade do desemprego”.
A magistrada concluiu a sentença dando um recado
para os diretores da empresa: “Saibam que o Brasil é um
país altivo e soberano e a Justiça Brasileira
se faz presente onde for necessária, inclusive ‘do
portão para dentro’ da empresa, devendo os
mesmos pautar-se, daqui por diante, pelo respeito ao país
e ao povo que os acolheu — através dos quais
estão construindo a sua riqueza, frise-se —,
observando estritamente as leis trabalhistas brasileiras”.
Leia a decisão
ACÓRDÃO N°
PROCESSO TRT 15ª REGIÃO N° 02220-2005-152-15-00-6
RECURSO ORDINÁRIO
RECORRENTE: ESMENA DO BRASIL S.A.
RECORRIDO: BENEDITO APARECIDO DE CAMARGO
ORIGEM: VARA DO TRABALHO DE HORTOLÂNDIA
EMENTA
DANOS MORAIS. OFENSAS DE CONOTAÇÃO
RACIAL E EM DESRESPEITO À PRÓPRIA NACIONALIDADE
BRASILEIRA. INDENIZAÇÃO DEVIDA. CONDENAÇÃO
DE RIGOR.
É absolutamente inadmissível que, em nosso
próprio país, os trabalhadores brasileiros
sejam ofendidos, discriminados, desrespeitados, em razão
de sua nacionalidade, sendo chamados de “burros” e “vagabundos”,
por empregadores estrangeiros.
A Constituição Federal confere igualdade
de tratamento aos brasileiros e estrangeiros residentes
em nosso país, garantindo-lhes a inviolabilidade
do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança
e à propriedade (art. 5º, caput).
Ora, se nós brasileiros, por um princípio
de índole constitucional, devemos respeitar e tratar
igualitariamente os estrangeiros, muito mais ainda os estrangeiros
a nós, como povo soberano que somos. É de
todo inaceitável que, conferindo-se a tais pessoas
o direito de aqui construírem suas vidas, famílias
e riquezas - com a utilização dos recursos
de nossa terra e com a força de trabalho de nosso
povo -, não saibam elas respeitar a nossa dignidade
e soberania, afrontando, inclusive, a própria Justiça
Brasileira.
Nessa circunstância, e constando ainda dos autos
que os diretores da reclamada referiam-se ao reclamante
como sendo “escuridão”, “escurinho”, “negrinho”,
ou seja, injuriavam-no em razão de sua raça, é absolutamente
de rigor a condenação da empresa ao pagamento
de indenização a título de danos morais,
em favor do obreiro.
Trata-se de recurso ordinário e complementar da
reclamada em face da r. sentença de fls. 185/91
e da decisão de embargos declaratórios de
fls. 203.
Alega, em preliminar, que tendo sido o Recorrido dispensado
em 15/09/2003, o último dia do prazo para a propositura
da ação trabalhista seria 14/09/2005, estando
prescrita a ação. No mérito, sustenta
que comprovou com documentos e depoimentos das testemunhas
não ter ocorrido nenhuma ofensa ou discriminação
racial ao Recorrido; que a Recorrente não promove
qualquer tipo de discriminação, incluindo
a racial, já que mantém em seus quadros vários
empregados da raça negra, que chegam até a
ocupar cargos de coordenação e gerência;
que nunca chamou o Recorrido ou outros empregados de brasileiros “burros”, “conhos” e “vagabundos”,
nunca proferiu qualquer outra ofensa moral no idioma espanhol
ou realizou gestos obscenos contra empregados; que jamais
foi dito por qualquer diretor que o interior da empresa
era território espanhol, com o objetivo de intimidar
qualquer empregado; que, ainda que assim não se
entenda, a fixação do valor indenizatório
em 50 salários recebidos pelo Recorrido, correspondendo
ao total de R$ 75.020,00, está muito elevado, e,
por conseguinte, está promovendo um enriquecimento
ilícito do Recorrido. Aduz, por fim, através
de recurso complementar, que são indevidos os honorários
advocatícios, uma vez que o reclamante recebia R$
1.500,00 à época, não tendo comprovado
que sua situação econômica não
lhe permite demandar sem prejuízo de seu sustento
próprio ou de sua família.
Depósito recursal e custas processuais comprovados às
fls. 200/201.
Representação processual às fls.
75.
Contra-razões às fls. 210/9.
É o relatório.
V O T O
Conhece-se dos recursos ordinário e complementar
da reclamada, uma vez que estão presentes os pressupostos
legais de admissibilidade.
DA PREJUDICIAL DE MÉRITO – PRESCRIÇÃO
O inconformismo da reclamada não prospera.
Como bem observou o MM. Juízo a quo, os prazos
prescricionais, por se tratarem de direito material, são
computados excluindo-se o dia de início e incluindo-se
o dia do vencimento (art. 132 do NCC e 125 do CC de 1916),
fls. 186.
Ademais, o aviso prévio integra o tempo de serviço
para todos os fins legais (inteligência dos artigos
487 e 489 da CLT).
Assim, em observância ao preceito Consolidado, onde
a lei não distingue, não compete ao julgador
fazê-lo, sendo certo que a matéria encontra-se
sedimentada nas Orientações Jurisprudenciais
nºs. 82 e 83 da SDI-1 do C. TST, nos seguintes termos:
82. AVISO PRÉVIO. BAIXA NA CTPS.
A data de saída a ser anotada na CTPS deve corresponder à do
término do prazo do aviso prévio, ainda que
indenizado.
83. AVISO PRÉVIO. INDENIZADO. PRESCRIÇÃO.
A prescrição começa a fluir no final
da data do término do aviso prévio. Art.
487, § 1º, CLT.
Portanto, considerando-se que o reclamante foi dispensado
15/09/2003, e tendo ajuizado a presente ação
em 15/09/2005, não há prescrição
a ser declarada, na espécie, tal como restou decidido
na origem.
Rejeita-se.
NO MÉRITO
1 – DOS DANOS MORAIS
O reclamante aduziu, na inicial, que na função
de CONTROLADOR DE ARMAZEM, praticamente exercia todas as
atividades inerentes ao cargo, era o mais capacitado, sendo
que em janeiro de 2.003 quando tinha a oportunidade de
ser promovido para o cargo de SUPERVISOR DE ARMAZEM, teve
a infelicidade de ouvir do Sr. Daniel que estava concedendo
a promoção para a Sra. Maria Paula Longhini,
porque ela era loira e tinha os olhos azuis (fls. 04, último
parágrafo). Afirmou que, no decorrer do contrato
de trabalho, era constantemente chamado de “escuridão
ou escuro”, acrescentando que, além desta
discriminação racial categórica aplicada
pelos superiores responsáveis diretos pela administração
da empresa, o trabalhador assim como os demais também
sofria graves ofensas morais por serem de nacionalidade
brasileira. Segundo consta da inicial, os diretores da
ré, srs. Balbino e Daniel, de nacionalidade espanhola,
chamavam os brasileiros de “burros”, “conhos” e “vagabundos”,
além de dizerem que do portão para dentro
não tinha legislação brasileira que
faziam eles cumprir as nossas normas legais trabalhistas,
do portão para dentro era território espanhol
(fls. 05/06).
Pois bem.
No que concerne às alegações no sentido
de que o reclamante teria sido preterido na promoção
ao cargo de Supervisor de Armazém, por ser da raça
negra, a mesma restou afastada pelo MM. Juízo a
quo, ao fundamento de que a empregada Maria Paula Figueiredo
Longhini possuía maior experiência e maiores
conhecimentos técnicos se comparada com o reclamante,
fazendo assim jus à vaga (fls. 187, penúltimo
parágrafo).
Esta Juíza Relatora entende que, data vênia,
a assertiva obreira restou confirmada pelo depoimento da
própria pessoa em questão, a qual afirmou
que ouviu comentários de que sua promoção
decorreu do fato de que é loura e tem olhos azuis;
que ouviu tais comentários por parte do Sr. Daniel,
diretor geral na reclamada (fls. 183). Também a
testemunha Robson Natal de Alcântara declarou que
presenciou o Sr. Daniel Del Campo, Diretor Presidente,
dizer que preferia contratar a Maria Paula Longhini, loirinha
de olho azul, do que uma pessoa de “cor”, já que
seria mais bonita (fls. 49 e 103).
Todavia, em respeito ao princípio do non reformatio
in pejus, mantenho o quanto decidido na origem a respeito
dessa questão.
De outra parte, o MM. Juízo a quo reconheceu que
a prova testemunhal mostrou-se robusta no sentido de que
a reclamada, através de seus representantes, conferia
tratamento desrespeitoso aos empregados, dirigindo-lhes
palavras obscenas, grosseiras e vulgares a todo e qualquer
momento e em especial com relação ao reclamante
utilizava termos que possuíam conotação
racial (fls. 187/8).
Efetivamente, outra não poderia ter sido a conclusão
do julgado, diante dos depoimentos coligidos no presente
processo.
A testemunha Orlando Augusto Leme Júnior, ouvida
por determinação do Juízo, declarou
que trabalhou com o reclamante; que presenciou o diretor
da reclamada Sr. Balbino e Sr. Luciano do setor de planejamento
e controle de produção se referirem ao reclamante
com termos pejorativos, citando a palavra “escuridão”;
que sabe dos fatos porque o assunto se referia ao reclamante;
que tais termos eram utilizados na frente do reclamante
e que o depoente não percebia que as palavras eram
ditas em tom de brincadeira, mas sim com seriedade, embora
o reclamante nunca tenha se queixado; ... que ouviu comentários
do Sr. Balbino de que fora da empresa o Sindicato “mandava,
porém dentro da empresa era território espanhol”;
que o depoente era chamado de “cunho” embora
não saiba o significado da mesma; que ouviu dizer
por pessoas que trabalharam na Espanha que se trata de “buceta”;
que o sr. Balbino referiu-se ao reclamante como sendo “escuridão” em
mais de uma oportunidade e quando conversavam sobre assuntos
de trabalho (fls. 183/4).
testemunha do Juízo Maria Paula Figueiredo, por sua
vez, afirmou que a reclamada conferia tratamento desrespeitoso
aos empregados, dirigindo-se aos mesmos empregando palavrões
tais como “conho”, “porra”, “cojones” e “puta
que pariu”; que tais palavrões eram utilizados
com todos os empregados, mas para tratar de situações
específicas, exemplificando a depoente “porra
você não fez o serviço/terminou o serviço”;
que os palavrões eram empregados por todos os diretores
indistintamente; ... que dentro da reclamada diziam que a
Lei brasileira não tinha qualquer validade e inclusive
a depoente recebeu um e-mail do Sr. Balbino, diretor, com
este teor; que saiu da empresa porque teve uma oferta melhor
de trabalho e achava que o lugar não era digno de
permanecer; ... que a reclamada dirigia ao reclamante e demais
empregados todos os palavrões mencionados (fls. 183).
Também bastante esclarecedor o depoimento da testemunha
Robson Natal de Alcântara no sentido de que existia uma
prática discriminatória contra os trabalhadores “brasileiros”,
já que a empresa é de origem espanhola, no sentido
de que eram burros e vagabundos, por parte do Sr. Balbino Mon
Castano, Diretor Industrial; também presenciou o mesmo
senhor, chamando o denunciante de “negrinho”; com
relação aos trabalhadores, inclusive o próprio
denunciante, era comum serem chamados, pelo Sr. Balbino, de “conho”,
gíria espanhola para “vagina”; o Sr. Balbino
também falava que dentro da empresa era um pedaço
da Espanha, “do portão para dentro”, lá não
havia Juiz brasileiro, Justiça brasileira ou Lei brasileira,
quem mandava lá era ele (fls. 49 e 103).
Como se verifica, a prova oral coligida nos autos é firme
e robusta quanto ao desrespeito da reclamada aos seus empregados – dentre
eles o reclamante -, seja em razão da cor ou da nacionalidade.
A Constituição Federal estabelece expressamente,
em seu artigo 3º, que constituem objetivos fundamentais
da República Federativa do Brasil: (...) IV – promover
o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo,
cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação
(destaques nossos).
Não há qualquer dúvida de que a reclamada,
ao referir-se ao reclamante como “escuridão”, “escurinho”, “negrinho”,
agiu de forma injuriosa, depreciando-o e humilhando-o simplesmente
em razão de sua cor. Não houve a prática
do crime de racismo, nos exatos termos da Lei nº 7.716/89,
mas o comportamento dos diretores da ré mostrou-se inequivocamente
ofensivo ao obreiro, por força de sua raça, traduzindo-se
em verdadeira agressão ao seu ser, em especial à sua
dignidade como pessoa humana.
Acresça-se que é absolutamente inadmissível
que, em nosso próprio país, os trabalhadores
brasileiros sejam discriminados, humilhados, inferiorizados,
em razão de sua nacionalidade.
É certo que a Constituição Federal confere
igualdade de tratamento aos brasileiros e estrangeiros residentes
em nosso país, garantindo-lhes a inviolabilidade do
direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança
e à propriedade (art. 5º, caput).
Ora, se nós brasileiros, por um princípio de índole
constitucional, devemos respeitar e tratar igualitariamente
os estrangeiros, muito mais ainda os estrangeiros a nós,
como povo soberano que somos. É de todo inaceitável
que, conferindo-se a tais pessoas o direito de aqui construírem
suas vidas, famílias e riquezas - com a utilização
dos recursos de nossa terra e com a força de trabalho
de nosso povo -, não saibam elas respeitar a nossa dignidade
e soberania.
De se observar que a ofensa ainda mais se avulta porque praticada
no ambiente de trabalho, onde é imprescindível
o respeito mútuo entre as pessoas, sendo certo que ofensa
moral praticada pelo empregador é ainda mais grave do
que se cometida em outras situações, traduzindo
abuso altamente reprovável diante da inferioridade econômica
do trabalhador e da possibilidade do desemprego.
Destarte, absolutamente correta a r. decisão de 1º grau
ao condenar a reclamada ao pagamento de indenização
por danos morais em favor do reclamante, como forma de compensação
pela dor e sofrimento íntimos causados ao mesmo.
De outra parte, no que concerne ao valor, observa-se que uma
das questões de maior complexidade nessa matéria é justamente
a fixação do pretium doloris. Quando se trata
de dano patrimonial, é de fácil aferição
o valor de reposição do bem atingido. Todavia,
no dano moral, a correspondência entre a ofensa e o dano é bem
mais difícil, requerendo ponderação e
bom-senso do julgador, a fim de que não se cometam excessos,
como nos Estados Unidos, onde existe uma quantidade infindável
de aventuras judiciais, por meio dos chamados punitive damages,
fruto de estarrecedoras decisões dos pretórios
americanos.
In casu, contudo, não se verifica qualquer excesso
no valor arbitrado pelo MM. Juízo a quo, no importe
de R$ 75.020,00, cujo valor atende à sua dupla finalidade,
ou seja, “a necessidade de ... satisfazer a dor do trabalhador
e dissuadir de igual e novo atentado o autor da ofensa”,
como bem dilucida Beatriz Della Giustina, em artigo inserto
na Revista “Trabalho & Doutrina”, nº 10,
Saraiva, p. 11, sendo certo que o valor arbitrado também
levou em conta o potencial sócio-econômico da
lesante.
Acresça-se que há outro elemento que não
pode ser olvidado, na hipótese, qual seja, a gravidade
das ofensas praticadas pela reclamada - de conotação
racial e em desrespeito à própria nacionalidade
brasileira, o que jamais se poderia admitir. Saibam os diretores
da reclamada que o Brasil é um país altivo e
soberano e a Justiça Brasileira se faz presente onde
for necessária, inclusive “do portão para
dentro” da empresa, devendo os mesmos pautar-se, daqui
por diante, pelo respeito ao país e ao povo que os acolheu – através
dos quais estão construindo a sua riqueza, frise-se
-, observando estritamente as leis trabalhistas brasileiras.
Por fim, considerando-se que o caso dos autos já é do
conhecimento do Ministério Público do Trabalho,
perante o qual, inclusive, a reclamada firmou “Termo
de Compromisso de Ajustamento de Conduta” (fls. 56/7),
determino apenas que se extraia cópia da presente decisão
para encaminhamento àquele Órgão, a fim
de instruir os autos do processo nº 16741/03-7.
Nega-se provimento ao apelo.
2 – DOS HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS
Consoante se verifica dos autos, o autor encontra-se assistido
pelo Sindicato de sua categoria e acostou aos autos a declaração
de fls. 24, através da qual declara expressamente que
não tem condições de demandar em Juízo
sem prejuízo do sustento próprio, cujo documento
atende aos ditames do art. 1º da Lei n.º 7.115/83,
inclusive quanto à sujeição do autor às
penalidades da lei, em caso de falsidade.
Oportuno ressaltar-se que, a teor do disposto no § 1º do
art. 14 da Lei n.º 5.584/70, a assistência é devida
a todo aquele que perceber salário igual ou inferior
ao dobro do mínimo legal, ficando assegurado igual benefício
ao trabalhador de maior salário, uma vez provado que
sua situação econômica não lhe permite
demandar, sem prejuízo do sustento próprio ou
da família. É certo que a declaração
juntada aos autos - e não infirmada por qualquer prova
em contrário -, é suficiente para a comprovação
do estado de hipossuficiência do autor.
Devidos, portanto, os honorários advocatícios,
em consonância com as Súmulas nºs. 219 e
329 do C. TST, tal como restou decidido na origem (fls. 203).
Mantém-se.
Diante do exposto, decide-se conhecer do recurso ordinário
interposto pela reclamada, rejeitar a prejudicial de mérito,
e, no mérito, negar provimento ao mesmo, nos termos
da fundamentação supra.
Providencie a Secretaria e extração e encaminhamento
de cópia da presente decisão ao Ministério
Público do Trabalho para instrução do
processo nº 16741/03-7.
ANA PAULA PELLEGRINA LOCKMANN
Juíza Relatora
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Última
Instância, 20 de janeiro de 2008
Banco Central é condenado por discriminar
trabalhadores inadimplentes
O Banco Central do Brasil foi condenado a pagar R$ 1 milhão por dano moral
coletivo pela prática discriminatória contra funcionários
terceirizados de vigilância que possuem restrições de crédito.
A ação civil pública foi proposta pelo procurador Flávio
Gondim, do Ministério Público do Trabalho em Pernambuco, e julgada
em primeira instância pela juíza da 8ª Vara do Recife, Ester
de Souza Araújo Furtado.
Os valores serão revertidos ao FAT (Fundo de Amparo ao
Trabalhador). Esta é uma das maiores indenizações
já determinadas pela Justiça do Trabalho de Pernambuco.
A ação foi motivada por uma exigência nacional
do Banco Central de apresentação de certidões
negativas de restrições de crédito (Serasa
e SPC) por parte dos trabalhadores terceirizados que prestam serviços
de vigilância à autarquia federal.
No caso de Pernambuco, a empresa contratada é a Nordeste
Segurança de Valores, que possui 46 pessoas à disposição
do banco, sendo que 22 tinham problemas com crédito. A decisão
tem eficácia restrita ao contrato de prestação
de serviços mantido entre o Bacen e a Nordeste Segurança.
Atualmente esses profissionais foram afastados do banco, passando
a trabalhar em postos de outros contratos da empresa prestadora.
Apesar de haver norma interna do Bacen estabelecendo obrigatoriedade
da apresentação das certidões negativas, e
o contrato com a empresa já estar em vigência há dois
anos, só depois de uma auditoria interna do banco a exigência
foi posta em prática pela gerência administrativa
regional em Recife.
Flávio Gondim considera a obrigação contratual
imposta pelo banco "ilegal e discriminatória",
materializando grave atentado aos direitos fundamentais dos trabalhadores. "A
intromissão do empregador/tomador do serviço configura
nítida violação do direito à intimidade,
na medida em que devassa dados de natureza particular que não
guardam correlação direta com a conduta funcional
do trabalhador, nem influenciam a forma como ele desempenha suas
atividades nos âmbito da empresa".
Na avaliação do procurador do Trabalho, inadimplência
e endividamento estão presentes no cotidiano da expressiva
maioria da população nacional. "O simples fato
de um indivíduo estar negativado em cadastro de inadimplentes
não o torna mais ou menos suscetível de cooptação
para práticas delituosas", rebateu.
Regulamentação
O caráter discriminatório da exigência contratual do Bacen
pode ser refutado no campo específico das relações de
trabalho, com o princípio da não-discriminação,
definido na Convenção nº 111, da OIT (Organização
Internacional do Trabalho). Ela foi ratificada no Brasil por meio do Decreto
nº 2.682, de 22/7/1998.
O tratado impõe que os países que aderirem devem
esforçar-se para eliminar todas as formas de discriminação
em matéria de emprego e profissão, considerando inaceitável "toda
distinção, exclusão ou preferência fundada
na raça, cor, sexo, religião, opinião pública,
ascendência nacional ou origem social, que tenha por efeito
destruir ou alterar a igualdade de oportunidade ou de tratamento
em matéria de emprego ou profissão".
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