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Agência Diap,
30 de março de 2008
DISCRIMINAÇÃO
Mídia contribui para violência
contra a mulher
A violência contra a mulher encontra, também nos meios
de comunicação, marcas que a promovem. Para analisar
a relação desses meios com a violência em razão
de gênero, a Anistia Internacional do Uruguai realizou o projeto "Observatório
dos meios de comunicação sobre a violência contra
as mulheres".
Os idealizadores do projeto, agora lançado em texto, buscaram
apresentar elementos "que ajudem a refletir sobre o papel dos
meios na promoção de uma sociedade eqüitativa e
que contribua para que se constituam em aliados fundamentais na promoção
de uma cultura de direitos humanos".
No Uruguai, uma mulher morre a cada 9 dias em decorrência de
crimes cometidos por seus parceiros, ou ex-parceiros. Como a Anistia
entende que os meios de comunicação têm uma importância
fundamental na difusão e formação de opiniões,
o projeto é um instrumento para que os comunicadores se coloquem
como agentes das mudanças nas relações de gênero.
Além disso, os meios têm capacidade e potencialidade
para gerar reflexão e têm um importante papel na divulgação
de mensagens e informação. "A violência contra
as mulheres constitui uma das violações aos direitos
humanos mais estendida e silenciada do mundo. Em todos os contextos,
em tempos de paz e na guerra, as mulheres e as crianças são
agredidas, maltratadas, intimidadas, discriminadas, assassinadas",
disse o texto do Observatório.
O Observatório analisou a relação de homens e
mulheres com a notícia percebendo os profissionais de comunicação
e como personagens da notícia. No período da pesquisa,
os apresentadores das notícias foram em 110 ocasiões
homens e em 95 mulheres. Os repórteres foram 27 homens e 23
mulheres.
Quando a análise é feita com a fonte da matéria,
no entanto, a disparidade entre o número de homens e mulheres é muito
maior; foram 161 participantes de reportagens como personagens, enquanto
as mulheres foram apenas 50. O tratamento dado às mulheres e
aos homens "personagens" das entrevistas também é notório.
Entre os homens, eles são o personagem central da notícia
em 90 matérias analisadas. São os porta-vozes de uma
instituição 29 vezes, emitem sua opinião 19 vezes,
participam de uma enquete popular em 16 ocasiões e foram ouvidos
como especialistas cinco vezes. Mesmo em matérias que as imagens
deixam claro a participação feminina, os homens são
sempre procurados como porta-vozes.
Já as matérias feitas com as mulheres, revelam que essas
são vistas como vítimas. O papel de vítima serve
apenas para dramatizar a matéria. Os jornalistas não
aprofundam a "relação de dominação-subordinação
como ponto estruturante que habilita a violência de gênero",
disse o Observatório. Ao apenas afirmarem que "um homem
violou uma mulher", os comunicadores não se centram nos
motivos fundamentais que permitem e perpetuam a violência de
gênero.
As mulheres são chamadas majoritariamente para participarem
de matérias que tenham opinião popular, ou do cidadão
comum. Em 26,6% das vezes, elas são parte da matéria
em função de uma relação familiar, como
mãe, esposa, avó. "Do total de consultas a especialistas,
só 28% foram realizadas em mulheres", disse o relatório.
Assim, a discriminação de gênero se perpetua nos
meios de comunicação em histórias e personagens.
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Agência Diap,
30 de março de 2008
REDUÇÃO INSUFICIENTE
Trabalho de crianças
e adolescentes caiu, mas é insignificante, revela
estudo do IBGE
IBGE conclui Pnad e revela que número de
meninos e meninas entre 5 e 17 anos que trabalham caiu de 11,8% em
2004 para 11,5% em 2006 — 5,1 milhões continuam no mercado.
OIT critica o País, pois considera redução insignificante
No lugar da bola, a enxada. Em vez da boneca, uma pilha de louça
suja. Para 5,1 milhões de brasileiros de 5 a 17 anos, o verbo
brincar não existe. Foi trocado por trabalhar. O número,
que corresponde a 11,5% da população nessa faixa etária,
foi divulgado nesta sexta-feira (28) pela Pesquisa Nacional por Amostra
de Domicílios (Pnad), do IBGE, e refere-se à quantidade
de crianças e adolescentes inseridos no mercado em 2006 — a
maioria, informalmente, e sujeita a condições precárias.
O estudo também mostrou que metade dos meninos e meninas dessa
idade faz algum tipo de serviço doméstico.
Em relação a 2004, a queda no número de trabalhadores
infantis foi de 0,3 ponto percentual, redução considerada
tímida pela Organização Internacional do Trabalho
(OIT). “É um dado preocupante. O Brasil ratificou a Convenção
182 da OIT, comprometendo-se a adotar medidas imediatas e urgentes
para eliminar as piores formas de trabalho infantil. Mas, até hoje,
o país não estabeleceu metas e prazos. Não falo
somente do governo federal, mas também dos estados e municípios”,
alerta o coordenador nacional do Programa Internacional para a Eliminação
do Trabalho Infantil da agência das Nações Unidas,
Renato Mendes.
Região Nordeste
De todo o país, o Nordeste é a região com maior
concentração de crianças trabalhando: o percentual é de
14,4%. No Distrito Federal, 23 mil crianças estão nessa
situação, o correspondente a 3,9% da população
na faixa dos 5 aos 17 anos. O número faz de Brasília a
unidade da federação com menor percentual de trabalhadores
infantis. No topo do ranking está o Piauí, com 17,4%, mas,
em números absolutos, quem lidera é São Paulo, onde
630 mil meninos e meninas estão no mercado.
Para Renato Mendes, o Programa de Erradicação do Trabalho
Infantil (Peti), vinculado ao Ministério do Desenvolvimento
Social e Combate à Fome (MDS), funcionou num primeiro momento,
mas, agora, mostra-se deficiente. O Peti foi criado com o objetivo
de tirar as crianças do mercado, em troca de uma bolsa mensal.
A idéia é que, no horário oposto ao da escola
(jornada ampliada), elas participem de atividades culturais, esportivas
e educativas.
“Nesse momento, é necessário rever imediatamente
a jornada ampliada. Um município que não oferece uma
unidade do Peti, mas participa do programa com bolsas, permite que
a família receba o benefício sem a contrapartida. Não
sabemos a dimensão das crianças que recebem a bolsa e
continuam trabalhando”, critica Mendes. “Os programas de
geração de renda, tão alardeados pelos governos,
não conseguem cumprir com suas finalidades. Não há controle
correto das condicionalidades”, concorda Ariel Castro, coordenador
do Movimento Nacional dos Direitos Humanos.
Menos dinheiro
No que depender do investimento federal, o programa poderá ser
mais prejudicado. No último dia 28, a Comissão Mista de
Orçamento do Congresso aprovou a redução de 8,7%
dos recursos destinados ao Peti, o que significa R$ 32,2 milhões
a menos.
A secretária nacional de assistência social do MDS, Ana
Lígia Gomes, diz que, embora o ministério não
esteja satisfeito com o percentual de redução do trabalho
infantil, é importante ressaltar que, em 19 estados, houve queda.
Em relação ao Peti, ela afirma que não se pode
creditar ao programa toda a responsabilidade pela erradicação
da prática. “O governo está revisando o plano de
erradicação do trabalho infantil, que tem mais de 50
ações, envolvendo todos os ministérios. É preciso
mostrar que não basta só transferir renda, tem de fazer
alguma guinada de foco em cima dos pais”, diz.
A secretária lembra que há facetas culturais envolvendo
o assunto, como a tradição da agricultura familiar. “Em
relação às piores formas de trabalho infantil,
já houve um enfrentamento importante. Agora estamos com uma
persistência que requer olhares diferenciados, estratégias
diferenciadas. Temos muito trabalho pela frente”, reconhece.
Trabalho doméstico
O estudo do IBGE também mostra que, no país, 49,4% das
crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos, ou 22,1 milhões
de pessoas, dedicam-se a afazeres domésticos, como arrumar a casa,
cozinhar, lavar ou passar roupas e limpar o quintal, entre outros. As
tarefas, porém, não chegam a atrapalhar a freqüência
escolar, de acordo com a pesquisa. Aproximadamente nove em cada 10 jovens
da faixa etária (92,6%) que trabalham em casa vão ao colégio.
O advogado Ariel Castro, coordenador do Movimento Nacional dos Direitos
Humanos, lembra que nem sempre ajudar nos serviços domésticos
configura algum tipo de trabalho. “Muitas vezes, é uma
questão educativa, como ensinar a criança a ter responsabilidade
e arrumar sua cama e guardar os brinquedos”, diz. O problema,
aponta, é quando os pais extrapolam. “Então, surgem
casos como o da menina de Goiânia, que era obrigada a fazer todos
os serviços e só dormia quatro horas por dia. Por trás
de escândalos como esse, há uma conivência muito
grande da sociedade”, aposta.
Moradora do Parque Santa Rita de Cássia, município de
Luziânia (GO), a dona-de-casa Marilene*, 27 anos, estabeleceu
tarefas diárias para os três filhos, de 7, 11 e 13 anos.
Eles lavam louça, faxinam a casa e os dois mais velhos, Geraldo
e Júnior (foto), respectivamente, capinam o quintal, atividade
que Júnior abomina. “Trabalho e muito”, reclama.
Marilene, porém, explica que na cidade não há atividades
para as crianças. “Na nossa escola, não tem nem
quadra de esportes”, confirma Geraldo. “Aqui é muito
perigoso, tenho medo de deixar meus filhos na rua. Para não
ficarem em casa sem fazer nada, eu distribuo as tarefas”, diz.
A família divide um lote com outras duas casas. O marido de
Marilene ganha cerca de R$ 600 mensais, como auxiliar de escritório.
Ela reclama que, além de não terem o que fazer no tempo
livre, as crianças são pouco cobradas pela escola. Nem
sempre há dever de casa. “Minha filha tem 7 anos e ainda
não sabe ler. Quase nunca os professores pedem para eles fazerem
a lição”, diz. (Fonte: Correio Braziliense)
(*) Os nomes da família foram trocados em
respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente
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Agência Diap,
30 de março de 2008
QUADRO SOCIAL
Programas de transferência
de renda funcionam, constata pesquisa do IBGE
Pesquisa do IBGE mostra como transferências
federais têm ajudado a melhorar a vida dos mais pobres. Renda
per capita dos beneficiários registrou crescimento de 19,4%
acima da inflação entre 2004 e 2006
Os programas sociais do Governo Federal melhoraram a vida dos brasileiros.
De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
(Pnad), embora o rendimento médio mensal dos que recebem bolsas
(R$ 601) ainda seja menor dos que não dependem da transferência
(R$ 699), a renda per capita dos beneficiários cresceu 19,4%
acima da inflação entre 2004 e 2006. A variação é maior
do que a média nacional (14,7%) e da verificada nos domicílios
que não recebem dinheiro do governo (16,9%). Com mais dinheiro
no bolso, houve crescimento na compra de eletrodomésticos.
“A posse de bens duráveis é outro elemento intrinsecamente
relacionado aos rendimentos, assim como a acesso à alimentação
saudável, ao lazer, ao conforto, à informação
e à comunicação pelas unidades domiciliares”,
aponta a pesquisa.
Apesar de os maiores percentuais de geladeiras (92%), freezers (18,7%),
máquinas de lavar roupa (43,6%), rádios (89,3%), televisões
(94,2%) e microcomputadores (26,4%) concentrarem-se entre os não-beneficiários,
os maiores crescimentos percentuais, de 2004 a 2006, foram observados
nos domicílios dependentes dos programas sociais. Veja infográfico
A Pnad mostra que o acesso a computadores mais do que dobrou entre
os que recebiam recursos dos programas sociais. Hoje, 300 mil domicílios
beneficiários, ou 3,1% do total, têm o equipamento em
casa. Há dois anos, o percentual era de 1,4%. Para a secretária
nacional de Renda e Cidadania do Ministério do Desenvolvimento
Social e Combate à Fome (MDS), Rosani Cunha, não há desvio
de foco do Bolsa Família, maior programa de transferência
de renda do governo.
Ela diz que o fato de as pessoas comprarem mais bens é louvável,
já que o objetivo dos recursos não é apenas combater
a fome, mas reduzir a pobreza. Segundo a secretária, a melhoria
na renda não está ligada somente à transferência
de recursos. “O crescimento da economia possibilitou isso. Não é só a
transferência, tem também o aumento do salário
mínimo e do emprego. A renda aumentou para todos”, afirma.
Sem preguiça
Rosani comemorou a comprovação, por meio da Pnad, de
que os programas sociais atingem esse objetivo. “Estamos chegando às
famílias mais pobres, os programas têm impacto positivo
na educação e o ‘efeito preguiça’ não
acontece, ao contrário do que diziam algumas pessoas, que o
Bolsa Família gera acomodação.”
O estudo realmente derruba o mito de que os beneficiários se
acomodam ao receber dinheiro do governo, o chamado “efeito-preguiça”.
Os pesquisadores descobriram que, em 2006, 77% dos lares contemplados
com programas sociais tinham alguém trabalhando. Entre os que
não recebiam, o percentual foi menor, de 73,8%.
Na casa de Marlene Cordeiro Nascimento, 42 anos, os R$ 94 recebidos
do Bolsa Família pela permanência dos dois filhos na escola
não são a única renda mensal. O marido de Marlene
trabalha com carteira assinada no ramo da construção
civil. Recebe um salário mínimo e meio por mês.
A mulher, porém, não pode trabalhar. Teve câncer
retal e precisou fazer colostomia. “Esse dinheiro é muito
importante, porque eu vou ao hospital todos os dias fazer a radioterapia”,
diz. Como está muito frágil, ela evita pegar ônibus,
e paga para o irmão levá-la, de carro, do Jardim Céu
Azul, no Novo Gama, no Entorno, ao Plano Piloto.
Os dois filhos, Emerson, 14 anos, e Henrique, 11, não faltam
aula. O mais velho já está no 1º ano do ensino médio
e pretende cursar faculdade. Marlene conta que o controle da condicionalidade é rigoroso. “Se
eles faltam aula, a escola manda chamar para saber o que aconteceu”,
diz.
Pobres recebem
De acordo com o IBGE, em 2006, dos 54,7 milhões de domicílios
brasileiros, 10 milhões recebiam dinheiro de algum programa social,
o correspondente a 18,3% dos lares do país. Dois anos atrás,
o percentual era de 15,6%. O Nordeste foi a região com mais famílias
beneficiárias (35,9%), seguida pela Norte (24,6%).
Em relação aos estados, Roraima lidera o ranking dos
domicílios com mais recebimento dos programas: metade da população
tem acesso à transferência de renda. No Distrito Federal,
o índice é de 11,8%.
A Pnad mostrou que os programas sociais chegam aos mais pobres. “Do
total de domicílios em que houve recebimento monetário
de programa por algum morador, em 25,1% os rendimentos mensais per
capita eram inferiores a 1/4 de salário mínimo; em 61,6%
correspondiam a até meio salário mínimo.
Em 89,6%, eram inferiores a um salário mínimo, mais
uma vez denotando a prioridade para atribuição dos recursos
dos programas aos domicílios com mais baixos rendimentos”,
aponta o estudo. Pretos e pardos são os maiores beneficiáros
(67,9%), assim como as famílias mais numerosas. O número
médio de moradores dos lares atendidos era de 4,6, contra a
média nacional geral de 3,4.
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Agência Diap,
30 de março de 2008
RETRATO BRASILEIRO
Educação: 14
milhões estão fora das escolas
Maiores problemas se concentram entre crianças — apenas
15,5% vão a creches — e adolescentes entre 15 e 17 anos — 82,2%
estão matriculados. Centro-Oeste registra o maior crescimento
da inclusão no ensino
Um contingente de 14 milhões de crianças e adolescentes
de até 17 anos está excluído do sistema educacional
brasileiro. O estudo complementar da Pesquisa Nacional por Amostra
Domiciliar (Pnad) 2006, divulgado ontem pelo IBGE, mostra que, se por
um lado, 97,1% das crianças entre 7 e 14 anos estão matriculadas
nas escolas, nas demais faixas etárias o percentual não
chega a 90%. Os mais prejudicados são meninos e meninas de até 3
anos que, pela idade, poderiam estar matriculados nas creches. Apenas
15,5%, porém, freqüentam esse nível de ensino.
Parte expressiva dos adolescentes também está longe
das escolas. Na faixa dos 15 aos 17 anos, 82,2% estão matriculados.
O crescimento, em relação a 2004, foi: 0,3 ponto percentual. “Esse é um
problema muito sério. A escola não escuta, não
corresponde às necessidades dos jovens e não está conseguindo
mantê-los”, observa o educador Jorge Werthein, diretor-executivo
da Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana
(Ritla). Para ele, é necessário mudar os currículos,
conciliando o ensino com a preparação para o mercado
de trabalho.
Moradora da Fercal, em Sobradinho II, Francinete da Silva Vieira,
20 anos, concorda com o especialista. Aos 18, quando estava na 8ª série
do ensino fundamental, ela decidiu abandonar a escola. Descrente com
a qualidade do ensino — “Repeti várias vezes porque
aprendi muito pouco. Eu estudava à noite e os professores viviam
faltando” — a jovem diz que voltaria aos bancos escolares
se houvesse perspectiva de inserção no mercado de trabalho. “Não
ensinam nada de prático para o jovem”, acredita.
Diferenças marcantes
Para especialistas em educação, além do baixo acesso
dos adolescentes, chamaram a atenção na pesquisa do IBGE
as diferenças regionais. “Os resultados mostraram diferenças
regionais marcantes na taxa de freqüência à escola
ou creche das pessoas de 0 a 17 anos de idade. A Região Norte
apresentou a menor taxa, estimada em 69,5%, e a Região Sudeste,
a maior (78,5%)”, aponta a Pnad.
Ainda assim, o índice aumentou em todas as grandes regiões,
com destaque para o Centro-Oeste, que registrou elevação
de 3,5 pontos percentuais — de 70,4% para 73,9%.
Um crescimento lento, na opinião do professor Célio
da Cunha, assessor especial da Organização das Nações
Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). “Pela
velocidade do nosso tempo, marcado pela tecnologia, pela globalização,
o ritmo precisava ser cada vez maior para atingirmos as metas da educação”,
diz.
Ele defende uma aceleração no acesso ao ensino principalmente
no Norte e no Nordeste, que apresentam os piores índices. “As
regiões mais pobres deveriam ser objeto de uma discriminação
positiva”, aponta, lembrando que, historicamente, elas estão
em desvantagem em relação às outras em todos os
indicadores socioeconômicos.
A Pnad também revelou os motivos pelos quais crianças
e jovens estão fora da escola. Quase 38% alegaram vontade própria
ou dos pais. Para Célio da Cunha, isso demonstra que a educação
ainda não é considerada prioridade entre as famílias
e aponta para a necessidade de se intensificar a mobilização
social na busca por essa conscientização. “É preciso
pressionar os políticos. Infelizmente, alfabetizar não
rende votos”, ironiza.
Auto-exclusão
Presidente-executivo do movimento da sociedade civil Todos pela Educação,
o professor Mozart Neves Ramos acrescenta que a vontade de sair da escola é reflexo
do descrédito dos estudantes.
“O aluno não vê vantagem em continuar os estudos
porque sabe que o ensino não oferece a qualidade que vai encaminhá-lo à faculdade.
Por isso, prefere trabalhar”, explica. De acordo com ele, apenas
30% dos jovens que saem do ensino médio arriscam o vestibular. “É a
teoria da auto-exclusão”, diz.
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Diário Vermelho,
30 de março de 2008
Mangabeira propõe novo
modelo de desenvolvimento para o país
O ministro de Assuntos Estratégicos de Longo Prazo, Roberto Mangabeira
Unger, criticou, nesta quinta-feira (27), em São Paulo, durante
palestra realizada na sede da ADVB (Associação dos Dirigentes
de Vendas e Marketing do Brasil), o atual modelo de desenvolvimento econômico
e social do país, baseado, segundo ele, no “fordismo retrógrado”.
Para Mangabeira, o sistema organizacional e tecnológico de
trabalho no Brasil pode ser transformado com reorientação
social e econômica, o que na visão de seu ministério,
deve ocorrer principalmente por meio de uma política industrial
mais especializada e avançada e do apoio técnico e financeiro
do governo à “nova” classe média empreendedora.
Na opinião do ministro, trata-se de definir nova política
rural e industrial inclusiva que dê assistência financeira,
via democratização do crédito, e, sobretudo, tecnológica
a novos agentes econômicos no campo e nas cidades.
Segundo Mangabeira, essa nova política industrial deveria basear-se
na criação de uma Embrapa, que já atua satisfatoriamente
no meio rural, para o setor industrial.
O ministro definiu como áreas de atuação de
sua pasta a economia, a educação, a gestão pública,
a defesa da soberania do País, e a Amazônia.
Meio ambiente
Após a palestra, durante a sessão de perguntas da platéia,
as práticas de sustentabilidade ambiental foram questionadas
pelo ministro. Para ele, “o termo sustentabilidade precisa sair
do discurso para cair na realidade que se pretende transformar”.
Para atender a tal finalidade, é necessário, segundo
o ministro, em primeiro lugar, no caso da Amazônia, que “nós,
brasileiros, criemos condições tecnológicas satisfatórias
de manejo de florestas tropicais, já que a maioria dos equipamentos
existentes foi criada para atender às condições
das florestas temperadas”.
Em outras palavras, “precisamos criar, na Amazônia, um
laboratório nacional”. O que existe, hoje, nessa região,
segundo Mangabeira, a Zona Franca de Manaus e a província mineral
no Pará, nada têm a ver com a população,
escassa e distribuída em território vasto.
É necessário, concluiu, “criar vínculos
permanentes entre floresta, indústria e população
dessa extensa região. E isso só é possível
por meio da geração de tecnologias específicas”.
A palestra foi assistida por cerca de cem pessoas, dentre elas, o
presidente da ADVB, Miguel Ignatios; o presidente do Pensamento Nacional
das Bases Empresariais (PNBE), José Roberto Roque; o coordenador
do Instituto ADVB de Responsabilidade Socioambiental, Livio Giosa;
e o presidente da União Cultural Brasil Estados Unidos, Paulo
Bastos.
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Congresso em Foco,
30 de março de 2008
De quem é a culpa pela
má imagem do Congresso?
Atribuir apenas às medidas provisórias
ou às crises políticas a culpa pela má imagem
do Legislativo é ignorar os verdadeiros culpados pelo
desgaste, adverte Antônio Augusto de Queiroz
Antônio Augusto de Queiroz*
A produção legislativa em 2007, excluídas as
matérias orçamentárias, foi maior que nos anos
de 2005 e 2006 e rigorosamente igual à de 2003, também
primeiro ano de mandato do presidente Lula: 124 leis.
Os dados são do relatório da Presidência do Senado,
que publica uma série histórica do número de leis
aprovadas pelas duas Casas do Congresso desde 1985. Sendo assim, em
que a crise política ou mesmo as MPs podem ter influenciado
no desempenho dos deputados e senadores?
Vamos aos dados. No período de 1º de janeiro a 31 de dezembro
de 2007, 198 proposições foram transformadas em lei,
sendo 81 oriundas de projetos de lei, 52 de medidas provisórias
e 65 de projeto de lei do Congresso Nacional. Desse total, 74 tratam
de temas orçamentários, restando 124, que cuidam de outras
matérias, que serão objeto de análise neste artigo.
Do total de leis de 2007, excluídas as de natureza orçamentária,
68 foram de iniciativa do Poder Executivo, sendo 25 oriundas de projetos
de lei e 43 de medidas provisórias, e 52 de iniciativa de parlamentares,
sendo 28 propostas por senadores e 24 por deputados. Quatro foram de
iniciativa do Poder Judiciário. Estatisticamente, considerando
as 124 leis não orçamentárias, o Congresso teve
a iniciativa de 42,6% das leis, contra 54,4% oriundas do Poder Executivo.
As matérias orçamentárias, de iniciativa privativa
do Executivo, são veiculadas por medidas provisórias
e por projetos de lei do Congresso (PLN), esses apreciados em sessão
conjunta das duas Casas do Legislativo. São três os tipos
de créditos: os adicionais, desmembrados em especiais e suplementares,
e os extraordinários. Somente este último, que pode ser
tratado por MP, pode bloquear a pauta da Câmara ou do Senado.
Os PLNs são apreciados pelo Congresso Nacional, em sessão
conjunta, envolvendo Câmara e Senado como instância decisória única.
O Congresso Nacional, como instância única, só tem
deliberado em sessão extraordinária, já que existem
141 projetos de leis, alguns desde 1984, com mais de 800 vetos pendentes
de apreciação e, segundo o parágrafo 6º do
artigo 66 da Constituição, passados 30 dias sem apreciação
em sessão ordinária do Congresso, ficam sobrestadas (suspensas)
todas as demais proposições até sua votação
final.
Se a média anual de leis tem sido a mesma de antes, durante
e após as crises políticas no Governo Lula, inclusive
em relação às leis oriundas de medidas provisórias,
o que explicaria atribuir-se agora o bloqueio da pauta às medidas
provisórias ou às crises políticas?
Parece que o que está acontecendo é uma maior disputa
em torno das matérias em votação, com a oposição
promovendo uma obstrução ostensiva; mas isso não
tem resultado em paralisia do processo decisório, tampouco na
redução do número de leis aprovadas, pelo menos é isso
que os dados da série histórica do Senado indicam.
Os dados sobre produção legislativa, documentados pelo
relatório de atividades da Presidência do Senado, recomendam
uma maior reflexão sobre os responsáveis pela má imagem
do Congresso. Atribuir-se a crise de imagem do Congresso apenas às
MPs ou à crise política parece insuficiente.
*Antônio Augusto de Queiroz é jornalista,
analista político e diretor de documentação
do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap).
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Agência Brasil,
30 de março de 2008
Banco de dados foi montado
por recomendação do TCU, diz ministra
Lúcia Nórcio
Repórter da Agência Brasil
Curitiba - A ministra Dilma Rousseff afirmou hoje (29), em entrevista
coletiva, que, por recomendação do Tribunal de Contas
da União (TCU), a Casa Civil da Presidência da República
montou um banco de dados para organizar os milhares de informações
que circulam diariamente no órgão. Segundo a ministra,
o banco de dados é uma ferramenta criada para armazenar o vultoso
número de informações que passam pela Casa Civil,
facilitar a prestação de contas e dar transparência
aos gastos públicos.
Ela lembrou que foi aberta sindicância e reafirmou que o Palácio
do Planalto vai investigar até o último minuto para descobrir
quem foi responsável pelo vazamento de informações
sigilosas sobre despesas do governo.
Na entrevista, a chefe da Casa Civil fez questão de esclarecer
a diferença entre banco de dados e dossiê, palavra que,
segundo ela, tem conotação pejorativa. “A mim me
espanta essa denominação. Dossiê e banco de dados
não são sinônimos. O que a Casa Civil tem é um
bando de dados, e não um dossiê – isso tem de ficar
muito esclarecido, porque dossiê é uma prática
que repudiamos no regime democrático.”
O mais grave, de acordo com a ministra, é o vazamento da informação. “É quem
está utilizando situações – que não
sabemos quais – quem formata esse tipo de documento de 13 páginas,
que agora está com a Casa Civil, que abriu sindicância
para investigar esse tipo de crime [vazamento de informações
sigilosas].”
Quanto aos gastos da ex-primeira-dama Ruth Cardoso com transportes,
citados em reportagem da revista Veja, a ministra disse que não
há irregularidade. Ela explicou que, até setembro de
2005, todo o transporte da Presidência da República era
contratado pelo sistema de contas tipo B (pronto pagamento) e que,
depois disso, passou a ser por licitação.
"E é deplorável que não se reconheça
que gastos com hospedagem, alimentação e transporte sejam
considerados gastos usuais, que se tenha uma visão distorcida
desses gastos. Por questões de segurança, esses gastos
têm de ser sigilosos”, afirmou Dilma Rousseff.
Para ela, a grande pergunta que o Palácio do Planalto faz hoje é a
quem interessa o vazamento dessas informações. “Ao
Planalto é que não é”, disse a ministra. “São
documentos auditados, corretos, sigilosos, que ganharam ares de escândalo
político para comprometer Fernando Henrique Cardoso e dona Ruth
de forma fundamentada e tendo sido vazado por um órgão
público. Não vamos admitir”, completou.
A ministra negou que seja candidata à sucessão presiencial,
em 2010 e falou sobre sua convocação para esclarecimentos
na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito dos Cartões
Corporativos, rejeitada nesta semana pela CPMI. Dilma disse que é direito
do Parlamento investigar o que quiser, mas ressaltou os cartões
corporativos foram analisados e não se encontrou nada relevante
no que diz respeito às contas do Palácio do Planalto. “Das
contas do governo, essa é a menor.” Das contas dos ministérios,
esclareceu Dilma, quem cuida é o ministro do Planejamento.
“Se houvesse interesse em ajudar a melhorar, em dar boas sugestões,
perfeitamente, mas, se for para perder tempo... Porque há muita
coisa para ser analisada, no Palácio do Planalto, há muita
coisa para fazer. Prefiro passar 12, 13, 15 horas dentro do Palácio
do Planalto com o PAC [Programa de Aceleração do Crescimento],
porque com ele o país terá uma distribuição
de renda melhor em 2009/2010”, afirmou a ministra.
Dilma Rousseff deu a entrevista na sede da Federação
das Indústrias do Paraná, onde se reúne nesta
tarde com empresários para discutir as obras do PAC no estado.
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Gazeta do Povo, 30
de março de 2008
Crédito
Emprego e renda em alta afastam
crise
Economistas avaliam que a maior
parte da expansão do crédito no Brasil vem
ocorrendo de maneira sustentável, sem comprometer
a capacidade de pagamento do consumidor
Embora admitam que o alongamento das prestações
de veículos possa causar problemas no futuro, muitos
economistas avaliam que a melhoria das condições
de renda e emprego e a própria estabilidade econômica
ainda garantem espaço para uma expansão saudável
do crédito. Essa também é a conclusão
de um relatório preparado pela consultoria paulista
Tendências, que tem entre seus sócios o ex-ministro
da Fazenda Maílson da Nóbrega e o ex-presidente
do Banco Central Gustavo Loyola.
Baseada na evolução das condições de crédito,
da massa salarial e da inadimplência, a consultoria aponta que,
do crescimento real de 23% projetado para o crédito à pessoa
física neste ano (já descontada a inflação),
11 pontos porcentuais devem se refletir em “endividamento oneroso” – aquele
que eleva o comprometimento da renda do consumidor. Embora seja maior
que o endividamento oneroso verificado em 2007 – que correspondeu
a apenas 2,4 pontos do avanço real de 28% do crédito à pessoa
física –, a Tendências considera que a situação
esperada para este ano é bastante confortável. A consultoria
avalia ainda que o cenário deve melhorar em 2009, quando o volume
de empréstimos deve subir 24%, com endividamento oneroso de
apenas 8,3 pontos porcentuais.
Critérios
José Guilherme Vieira, professor de Economia da Universidade
Positivo, reconhece que no caso dos veículos seria prudente
definir critérios mais rígidos para a liberação
de crédito. Mas o caminho não seria limitar o número
máximo de parcelas, e sim reduzir o comprometimento máximo
da renda do consumidor – hoje, os empréstimos costumam
ser liberados mesmo quando o valor da parcela não supera um
terço da renda.
O presidente da Associação Nacional das Instituições
de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), Érico
Quirino Ferreira, acrescenta que reduzir o número de parcelas,
como cogitam setores do governo, teria efeito oposto ao desejado: causaria
o aumento da inadimplência, justamente porque o valor das prestações
subiria.
Alarme
Representante das revendedoras de veículos, o diretor da Fenabrave
no Paraná, Luiz Antônio Sebben, também não
vê problemas no alongamento do prazo, e critica o tom alarmista
do estudo sobre o “subprime tupiniquim”. “Nós
ainda estamos no ‘prime’ [crédito com baixo risco
de calote]. Não há títulos sendo renegociados,
por isso estamos longe da crise do ‘subprime’”. Segundo
ele, é até possível que uma parcela dos compradores
venha a ter problemas financeiros no futuro, “mas a maioria dos
indicadores continua positiva”.
Para Vieira, da Universidade Positivo, o maior alento para quem teme
uma crise do crédito vem do histórico conservadorismo
dos bancos brasileiros. “Os lucros recordes provam que o sistema
financeiro do Brasil está entre os mais sólidos do mundo.
Não acredito que eles estejam carregados de papéis de
alto risco.”
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O Estado do Paraná,
30 de março de 2008
Classe C tem mais de um quarto
do poder de consumo
O potencial de consumo da classe C, que já é a
maioria da população brasileira, somou R$ 365
bilhões em 2007. É um pouco mais de um quarto
da capacidade total de compra de todas as famílias
que moram nas cidades, que atingiu no ano passado R$ 1 4
trilhão, segundo projeção feita a partir
das contas nacionais e da estrutura de gastos dos brasileiros
medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE).
“Nenhuma classe social isoladamente tem maior potencial de consumo
do que a classe C”, afirma Marcos Pazzini, diretor da consultoria
Target, que estimou o potencial de compra das camadas sociais. A capacidade
de consumo da classe C, que no ano passado teve renda média
mensal familiar de R$ 1.062, desponta em relação às
demais quando se consideram as subdivisões das camadas A e B.
A projeção mostra que as classes B1 e B2 têm potencial
de consumo de R$ 315,6 bilhões e R$ 286,9 bilhões, respectivamente.
No caso da classe A1, a cifra atinge R$ 80,2 bilhões e da classe
A2, R$ 260,8 bilhões.
A importância dessa imensa classe média que se está formando
no País ganhou contornos mais nítidos na semana passada,
quando a financeira Cetelem, do grupo francês BNP Paribas, divulgou
uma radiografia da classe C. A pesquisa, feita pelo Instituto Ipsos
a partir de 1.500 entrevistas, revela que a classe C reúne hoje
86,2 milhões de pessoas e é a maioria da população,
com 46%. As informações são do jornal O Estado
de S. Paulo.
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O Estado do Paraná,
30 de março de 2008
Direito e Justiça
Unicidade, centrais
sindicais e as contribuições financeiras obrigatória
e negocial
Edésio Passos
A emenda aprovada, em primeira votação, pela Câmara
dos Deputados ao Projeto de Lei 1990/2007, do Poder Executivo, sobre
o reconhecimento das Centrais Sindicais, de autoria do deputado Augusto
Carvalho (PPS/DF), alterando o art.582/CLT e condicionando o desconto
no salário do empregado a título de contribuição
sindical anual à autorização expressa do trabalhador,
em contradição com o caráter compulsório
do pagamento estabelecido no art. 579/CLT, foi rejeitada e alterada
pelo Senado Federal, com a nova redação finalmente aprovada
em segunda votação pela Câmara dos Deputados. Eis
o texto da lei a ser sancionada: “Art.7.º - Os arts. 578
a 610 da Consolidação das Leis do Trabalho-CLT, aprovada
pelo Decreto-Lei n.º 5.452, de 1.º de maio de 1943, vigorarão
até que a lei venha a disciplinar a contribuição
negocial, vinculada ao exercício efetivo da negociação
coletiva e à aprovação em assembléia geral
da categoria” (redação final, PL 1990/2007). Assim,
permanecem em vigor todos os dispositivos legais constantes da CLT
sobre a contribuição financeira obrigatória dos
trabalhadores e dos empregadores às suas entidades sindicais
representativas.
A CLT
A contribuição sindical está prevista nos artigos
578 a 610 da CLT, nasceu na Constituição Federal de 1937
e iniciou sua trajetória de imposto sindical com o Decreto-Lei
n.º 2377/1940. A contribuição sindical está definida
no art. 579, a saber: “A contribuição sindical é devida
por todos aqueles que participarem de uma determinada categoria econômica
ou profissional, ou de uma profissão liberal, em favor do sindicato
representativo da mesma categoria ou profissão ou, inexistindo
este, na conformidade do disposto no art. 591”. A contribuição
sindical devida pelos empregados tem seu recolhimento previsto no art.
582, valor descontado obrigatoriamente pelo empregador no salário
do empregado em março de cada ano, correspondendo a um dia de
trabalho e recolhido à entidade sindical representativa do trabalhador.
O sindicato dos empregados publica edital, emite uma guia, na qual
já constam os dados básicos da entidade, identificada
por número liberado pelo Ministério do Trabalho, assim
como, no código de barras, já estão assinalados
os números da federação e da confederação
correspondentes do sistema confederativo unitário previsto constitucionalmente.
Para os trabalhadores autônomos e empregadores, a CLT fixa as
regras, com valores correspondentes, artigo 580.
A Constituição Federal
O artigo 8.º, IV, da Constituição Federal, fixa
o seguinte: “a assembléia geral fixará a contribuição
que, em se tratando de categoria profissional, será descontada
em folha, para custeio do sistema confederativo da representação
sindical respectiva, independentemente da contribuição
prevista em lei”. Esta parte final do inciso IV do art. 8.º refere-se à contribuição
sindical, por ser a única prevista em lei. É o que assinala
a ministra Ellen Gracie, do STF, ao esclarecer em voto na Corte Suprema:Ӄ de
se registrar que o disposto no art. 8.º, IV da CF, garantiu a
sobrevivência da contribuição sindical, prevista
nos artigos 578-610 da CLT”. “...somente a contribuição
sindical prevista na CLT, por ter caráter parafiscal, é exigível
de toda a categoria independente de filiação” (AGREG
RE 224.885.6 STF, 2.ª Tuma DJU 6/8/2004).
A representação da categoria
O sistema sindical brasileiro é caracterizado pela unicidade,
ou seja, uma única entidade sindical representa a categoria
econômica ou profissional em sua base territorial, que será municipal,
intermunicipal, estadual e nacional. A segunda característica é a
de que o sindicato representa todos os integrantes da categoria, sócios
e não sócios, firmando acordos e convenções
coletivas de trabalho também aplicável nessa ampla extensão.
Decorre dessa particularidade, hoje a única no mundo, a fixação
da contribuição financeira obrigatória de todos
os trabalhadores ou empregadores em favor da entidade que os representa,
que dispõe de 60% desses recursos. Ademais, no plano vertical,
as federações e as confederações das categorias
econômica e profissional também recebem parte dessa contribuição
(15% a Federação e 5% a Confederação).
Com a nova lei, as Centrais Sindicais ficarão com 10% do total
arrecadado, divididos proporcionalmente por critério de representatividade,
além de ser destinado ao governo federal os restantes 10% (no
caso dos trabalhadores) e 20% (no caso dos empregadores), para seus
programas sociais. Portanto, o sistema se completa e é um dos
fatores da existência de significativo número de entidades
com expressiva representação. As entidades sindicais
patronais contam ainda com a contribuição do sistema
S.
As Centrais Sindicais
O reconhecimento das Centrais Sindicais deveria ter sido efetivado
por emenda constitucional, alterando o artigo 8.º da CF/88. Passados
quase vinte anos da Constituição, somente agora, através
do PL 1990/2007, foram legalizadas. São estabelecidas várias
condições para o reconhecimento e os critérios
de representatividade serão aferidos pelo Ministério
do Trabalho. Suas atribuições e prerrogativas serão
(1) coordenar a representação dos trabalhadores, por
meio das organizações sindicais a ela filiadas e (2)
participar de negociações em fóruns, colegiados
de órgãos públicos e demais espaços de
diálogo social que possuam composição tripartite,
nos quais estejam em discussão assuntos de interesse geral dos
trabalhadores.
A fiscalização pelo TCU
Já mencionamos a posição do dr. Lucas Furtado,
procurador-geral do MP junto ao TCU, no sentido de que o controle dos
recursos derivados da contribuição sindical é de
competência do Tribunal de Contas da União: “A rigor,
o tribunal nunca fiscalizou esses recursos, mas nem precisaria incluir
isso na lei. Na medida em que uma contribuição é compulsória,
torna-se público, tem natureza pública e parafiscal.
Logo, pode ser fiscalizada pela Corte. Não só o dinheiro
repassado às centrais, como toda aplicação da
contribuição sindical obrigatória, tanto de patronais
como de trabalhadores, é passível de fiscalização” (Valor
Econômico, 30/10/2007). O projeto de lei aprovado prevê,
no seu art. 6.º, a prestação de contas de todas
as entidades sindicais profissionais e econômicas ao TCU sobre
a aplicação dos recursos provenientes das contribuições
financeiras legais e dos recursos públicos recebidos, de que
trata o art. 149 da CF/88. Esta regra mudará substancialmente
o procedimento contábil das entidades sindicais e da atuação
de seus Conselhos Fiscais.
A contribuição negocial
O senador Paulo Paim (PT/RS), em seu parecer e redação
final ao PL 1990/2007, como aprovado (vide www.diap.org.br), destaca
a questão da contribuição negocial em favor das
entidades sindicais, pagas por todos os trabalhadores e empregadores,
associados ou não à entidade, observando:
“Em substituição à contribuição
sindical compulsória, propõe-se a criação
da contribuição negocial, que consiste numa percentagem
(que pode variar até o limite de 1%, fixado pela assembléia
geral) da remuneração anual dos empregados, ou de uma
quota de participação de empregadores e profissionais
liberais, como retribuição pela atuação
da entidade sindical em negociação coletiva. Registramos,
a esse propósito, que apresentamos, nesta Casa, o Projeto de
Lei do Senado n.º 248, de 2006, que já foi aprovado, em
fevereiro deste ano, nesta Comissão, dispondo sobre a contribuição
negocial, sob a denominação de contribuição
assistencial. Seguiria para a Câmara dos Deputados não
fosse o recurso interposto para o Plenário e, posteriormente,
o Requerimento n.º 333, de 2007, para que a Comissão de
Assuntos Econômicos (CAE) se pronuncie a respeito do projeto.
A Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa,
realizou, no Auditório Petrônio Portela, audiência
pública para discutir esse tema, a qual contou com a presença
de representantes de praticamente todas entidades sindicais do Brasil.
Por unanimidade, as entidades ali presentes se mostraram favoráveis
ao PLS n.º 248, de 2007, nos termos aprovados pela CAS. Estamos
convencidos que não é razoável que apenas a parcela
de trabalhadores sindicalizados (algo em torno de 20% no Brasil) seja
responsável pelo custeio das atividades sindicais durante o
processo de negociação coletiva, no qual todos os trabalhadores
de uma categoria profissional são, ao final, beneficiados.
Não se associar ao sindicato é um direito individual,
mas beneficiar-se de sua atividade, sem a menor contraprestação,
além de afrontar o mais básico senso de justiça,
significa obrigar os associados de uma pessoa jurídica de direito
privado, o sindicato, a suportarem sozinhos o ônus pelo exercício
de uma prerrogativa imposta por lei, que a todos beneficia. Trata-se,
portanto, para os não associados, de mera prestação
de serviço. Assim entendida a atividade, deve ser suportada
eqüitativamente por todos, inclusive pelos não associados,
destinatários da norma coletiva que lhes assegura direitos que,
individualmente, não seriam capazes de alcançar. Justa,
portanto, a contribuição negocial, desde que não
seja exorbitante, e evidente a demonstração dos benefícios
alcançados pelos não associados.
Do exposto, conclui-se que a proposta da contribuição
negocial é mais moderna e mais justa. A cobrança dessa
modalidade de contribuição vem se generalizando em muitos
países, com pequenas diferenças, das quais são
exemplo a Argentina, Colômbia, Espanha, Grécia e Reino
Unido que já a adotaram, exigindo-a dos não-associados
beneficiados pela negociação ou pela arbitragem. Ressalte-se
que o Comitê de Liberdade Sindical, a quem compete, no âmbito
da OIT, o exame das queixas por violação de direitos
sindicais, admite, para reforçar as finanças do sindicato,
a instituição de uma quota de solidariedade, ou cânon
de participação, na convenção coletiva
por ele ajustada, como decorrência da aplicação
erga omnes das vantagens estabelecidas no instrumento negociado, ou
arbitrado, a ser paga exclusivamente pelos não-associados.
Registre-se, por fim, que o Governo Federal, através do Ministro
do Trabalho, Carlos Lupi, editou, há pouco, a Portaria n.º 546,
de 7 de novembro de 2007, instituindo, no âmbito de seu Ministério,
grupo de trabalho com vistas à elaboração de propostas
legislativas sobre mecanismos definitivos de sustentação
financeira da organização sindical brasileira. Esse grupo
de trabalho deverá consolidar, no prazo de noventa dias, uma
proposta definitiva de custeio da organização sindical
brasileira; regulamentar a cobrança das contribuições
devidas às entidades sindicais, objetivando a constituição
de uma contribuição negocial vinculada ao exercício
efetivo da negociação coletiva e à aprovação
em assembléia geral; e estabelecer regra de transição
entre o atual modelo de sustentação e a nova proposta.
Esse ato do Ministério do Trabalho e Emprego é fruto
de protocolo de entendimentos, firmado entre esse ministério
e várias centrais sindicais, com o objetivo de consolidar uma
proposta definitiva de custeio da organização sindical
brasileira. Pretende-se regulamentar a cobrança das contribuições
devidas às entidades sindicais, na direção da
constituição de uma contribuição negocial,
vinculada ao exercício efetivo da negociação coletiva
e à aprovação em assembléia geral. O protocolo
de entendimentos tem, ainda, o objetivo de firmar o compromisso público
das centrais, que dele participam, de apoio à criação
do Conselho Nacional de Relações de Trabalho CNRT, que,
a exemplo do Fórum Nacional do Trabalho, deverá ser um
espaço de composição tripartite e paritária,
para a discussão de temas relacionados às relações
de trabalho e organização sindical no Brasil. Espera-se
que esse grupo de trabalho honre esse compromisso assumido com a sociedade
brasileira e apresente, com a prontidão que o tema requer, um
projeto para a apreciação e discussão do Congresso
Nacional, que traga consubstanciado em si, novos parâmetros para
o financiamento da atividade sindical no Brasil”.
CESUSC
O ministro Paulo de Tarso Vannuchi, da Secretaria Especial de Direitos
Humanos da Presidência da República, ministrou a Aula
Magna Interdisciplinar dos cursos de Direito, Administração,
Psicologia e Design de Interiores do Cesusc, em Florianópolis,
SC. Na palestra, ressaltou a importância das discussões
sobre o Plano Nacional de Direitos Humanos e a realização,
em dezembro de 2008, da 11.ª Conferência Nacional, sendo
etapas estaduais a partir de maio visando aprovar as propostas que
serão analisadas, destacando que as universidades são
os espaços ideais para aprofundar os temas. A presença
do ministro no Cesusc foi articulada pelo mantenedor, professor da
Faculdade de Direito e advogado trabalhista Prudente José Silveira
Mello, membro da Comissão de Anistia do Ministério da
Justiça. O diretor-geral do Cesusc é o advogado Nilo
Kaway Junior, tendo entre seus integrantes o advogado Mário
Muller de Oliveira, todos oriundos da advocacia trabalhista no Paraná e
atualmente com amplo trabalho profissional e jurídico em Santa
Catarina.
Conferência da Juventude
“Nós temos que combinar políticas gerais e medidas
específicas. Todos sabemos que é fundamental assegurar
que o país cresça, gerando empregos, diminuindo a desigualdade
com a inclusão social.Isso melhora a situação
de qualquer país. O Brasil está crescendo 5% ao ano,
e muito sólido neste crescimento, com a inflação
baixa e geração de empregos. Desde que o presidente Lula
assumiu, já foram criadas mais de 10 milhões de ocupações,
sendo mais de oito milhões de empregos com carteira assinada.
Boa parte desse número é formado por jovens” (ministro
Luiz Dulci, da Secretaria Geral da Presidência da República,
no boletim “Em questão”, anunciando a I Conferência
Nacional da Juventude, de 27 a 30 de abril, em Brasília).
Ministro Gilmar Mendes Hoje, o mundo jurídico e acadêmico
paranaense receberá o ministro Gilmar Ferreira Mendes, eleito
presidente do Supremo Tribunal Federal, em solenidade de lançamento
de sua obra “Curso de Direito Constitucional”, em co-autoria
com os professores Inocêncio Mártires Coelho e Paulo Gustavo
Gonet Branco. Será saudado pela desembargadora federal Rosalie
Michaele Bacila Batista, presidente do TRT do Paraná. Receberá,
da Unibrasil, o título de Doutor Honoris Causa.
Edésio Passos é advogado e
ex-deputado federal (PT/PR). edesiopassos@terra.com.br
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Folha de São
Paulo, 30 de março de 2008
Marta sobe e divide liderança
em São Paulo com Alckmin
Petista tem 29% das intenções
de voto, contra 28% do tucano e 13% de Kassab
Na pesquisa espontânea, sem a sugestão
de nomes, a ex-prefeita subiu de 7%, em novembro, para 15%; Alckmin
foi de 4% para 8%
CATIA SEABRA
DA REPORTAGEM LOCAL
Candidata do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ministra
Marta Suplicy (PT) subiu quatro pontos percentuais e lidera -empatada
com o tucano Geraldo Alckmin- a corrida pela Prefeitura de São
Paulo, revela pesquisa Datafolha. Até fevereiro em ligeira desvantagem,
a ex-prefeita conta hoje com 29% das intenções de voto
contra 28% de Alckmin.
O instituto ouviu 1.089 pessoas nos dias 25 e 26 de março. Em
comparação à pesquisa anterior -realizada no dia
14 de fevereiro-, Alckmin sofreu uma oscilação negativa
de um ponto. Marta, por sua vez, passou de 25% para 29%.
Nesse cenário, que inclui os ex-prefeitos Paulo Maluf (PP) e Luiza
Erundina (PSB), o prefeito Gilberto Kassab (DEM) tem 13% da preferência
-uma variação positiva de um ponto em comparação
a fevereiro.
Maluf tem 8% e Erundina, 7%. Votos nulos e em branco somam 7%. Marta
divide a liderança com Alckmin nos quatro cenários apresentados.
Como a margem de erro é de três pontos percentuais, para
mais ou para menos, em fevereiro os dois estavam tecnicamente empatados.
Agora, ressalta o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, "há um
rigoroso empate entre os dois". " Nas pesquisas anteriores,
não era tão claro. Havia uma leve vantagem de Alckmin.
Hoje, não existe mais", afirma Paulino, acrescentando que, "se
a eleição fosse hoje, não seria possível
fazer um prognóstico".
Segundo Paulino, a tendência de crescimento de Marta pode ser expressa
na evolução da pesquisa espontânea (sem apresentação
dos nomes dos potenciais candidatos). Em novembro, ela aparecia com 7%
da preferência, enquanto Kassab contava com 10%. Agora, quatro
meses depois, ela tem 15% contra 11% do prefeito. Em comparação
com fevereiro, ela passou de 10% para 15%. De novembro para cá,
Alckmin passou de 4% para 8%.
" Esse crescimento revela que a exposição que a ministra teve
no intervalo de duas pesquisas deu resultado", avalia Paulino.
Ainda segundo o Datafolha, Marta teve uma variação positiva
em todos os segmentos de eleitores em comparação a fevereiro.
O crescimento mais significativo aconteceu entre os eleitores com renda
familiar mensal superior a dez salários mínimos. Marta
passou de 15% para 24%, um aumento de nove pontos percentuais.
Também com 24%, Kassab teve a mesma variação (de
nove pontos) entre esse eleitorado. Foi nesse estrato que Alckmin registrou
sua maior queda: 12 pontos. Em fevereiro, o tucano tinha 40% entre os
eleitores com renda familiar superior a dez mínimos. Agora, tem
28%.
Marta teve uma variação positiva de quatro pontos entre
os entrevistados com renda de cinco a dez mínimos. Alckmin, uma
oscilação negativa de três pontos percentuais. A
pesquisa também registra uma aumento significativo -de oito pontos
percentuais- de Marta entre os eleitores com nível médio
de escolaridade. Nesse segmento, ela passou de 26% para 34%.
Alckmin, por sua vez, sofreu uma queda de cinco pontos, de 32% para 27%.
Em comparação a fevereiro, a petista também apresenta
um crescimento de seis pontos entre os eleitores de 16 a 24 anos, faixa
em que tanto Kassab como Alckmin tiveram uma queda de cinco pontos.O
Datafolha apresentou outros três cenários. Sem Paulo Maluf,
Marta aparece com 30% das intenções contra 29% de Alckmin.
Nesse quadro, Kassab tem 15% de preferência e Erundina, 9%.
Num terceiro quadro -agora, sem Erundina- Marta (30%), Alckmin (29%)
e Kassab (15%) repetem os mesmos índices do cenário anterior.
Só que é Maluf que aparece com 9%. Num quarto cenário,
sem Erundina e Maluf, Alckmin e Marta têm 32% cada um. Kassab,
17%.
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Folha de São
Paulo, 30 de março de 2008
Sem rumo, Cesp se torna sombra
da Cemig e da Copel
Criada em 1966, empresa que construiu
parte do parque gerador brasileiro não instala uma nova
turbina há 5 anos
Receita da Cesp equivale a 21% do que fatura a Cemig
e a 40% das vendas da Copel; empresa responde por 10% da energia gerada
no país
AGNALDO BRITO
DA REPORTAGEM LOCAL
Com vendas equivalentes a 21% do faturamento da Cemig e a 40% da receita
da Copel, a Cesp (Companhia Energética de São Paulo) é hoje
apenas uma sombra entre as principais empresas estaduais de energia
do país. Dentre as três, foi a única a ser dividida
em várias partes para ser privatizada. A empresa responde hoje
por 10% da geração de energia no país.
Cemig e Copel mantiveram o modelo integrado, com geração,
transmissão e distribuição de energia e agora se
preparam para o chamado segundo tempo de aquisições no
setor elétrico nacional.
Entre os alvos futuros, estão a Brasiliana, controlada pela BNDESPar,
e os leilões para os aproveitamentos hidrelétricos na região
amazônica, como Jirau, no rio Madeira, e Belo Monte, no rio Xingu.
A Cesp, por ora, está fora dessa nova rodada de consolidação,
seja como compradora seja como alvo.
A atual falta de perspectiva da Cesp foi confirmada na última
terça-feira, quando nenhum dos cinco grupos pré-identificados
para a participação do leilão de privatização
dos ativos remanescentes da estatal apresentou as garantias financeiras
exigidas no edital de venda.
Criada em 1966 e responsável por parte importante dos investimentos
em expansão do parque hidrelétrico nacional, a Cesp como
empresa entrou num período de incertezas. Depois da derrota, o
governo José Serra (PSDB) preferiu não alimentar as discussões
sobre o futuro da estatal. A Folha procurou a Secretaria da Fazenda (organizadora
do processo de privatização), a Secretaria de Energia e
a própria Cesp, ao longo da semana, para saber quais opções
passam a ser avaliadas a partir de agora. A resposta foi a de que não
há nenhum pronunciamento a ser feito no momento. Ao que parece,
nem o Estado sabe o que fazer com a Cesp.
Com 1.300 funcionários responsáveis por operar e manter
as seis usinas, a Cesp parou no tempo. A última turbina instalada
pela companhia, na usina Porto Primavera, começou a gerar energia
em 2003. De lá para cá, nenhum outro projeto de peso ocupou
os 190 engenheiros da companhia -já foram mais de 500 nos anos
90.
A própria usina Porto Primavera, com 14 máquinas em operação,
tem mais quatro espaços abertos prontos para a instalação
de novas turbinas. Não é a única. A usina Três
Irmãos, localizada no rio Tietê, pode ser ampliada em mais
três turbinas. "Enquanto Copel e Cemig projetam expansões,
a Cesp vai perdendo a capacidade técnica que construiu, vai definhando",
diz um engenheiro da empresa ouvido pela Folha.
Às compras
Controlada pelo governo Aécio Neves (PSDB), a Cemig se prepara
para investir até R$ 4 bilhões neste ano. Isso inclui a
participação como minoritária no consórcio
que disputará a usina Jirau e a Brasiliana. Para Luiz Fernando
Rolla, diretor de finanças, relações com investidores
e participações da Cemig, o plano de expansão da
companhia decorreu de uma escolha anos atrás.
" O desempenho da Cemig decorre de um planejamento estratégico que
visualizava um cenário do mercado brasileiro de energia. Acho que o resultado
hoje demonstra que acertamos naquela avaliação", diz. Ao contrário
do que acreditou o governo de São Paulo, o cenário previa a necessidade
e a consolidação -e não a fragmentação- das
companhias de energia.
O plano previa também o desenvolvimento do mercado de capitais,
uma fonte de recursos importante para novas aquisições.
Os planos de governança corporativa ajudaram a tirar o estigma
da má gestão de companhias estatais, e novos investidores
aceitaram comprar papéis dessas empresas. A Cemig, nos últimos
anos, comprou a Light, no Rio de Janeiro, e a usina Rosal, do grupo Rede.
" Investimos R$ 1 bilhão em recursos próprios na primeira
fase de consolidação do setor. Agora, acredito que os investimentos
serão muito maiores", explica Rolla. A previsão da Cemig é que,
em cinco anos, seis ou sete grandes grupos dominarão o setor elétrico
brasileiro. A Cemig detém hoje 7% da geração nacional e
quer alcançar 15% em cinco anos.
Em distribuição, detém 12% do mercado nacional.
Até na transmissão de energia o plano é crescer.
Projetos arrematados na região Norte podem assegurar agora alguma
vantagem na disputa nas concessões de novas usinas na Amazônia.
Majoritária
A Cemig leva pequena vantagem em relação à Copel.
A companhia tem mandado para fechar parcerias em que pode ser minoritária.
A companhia paranaense tem um limite nesse quesito. Segundo Rubens Ghilardi,
diretor-presidente da Copel, a empresa precisa de autorização
especial do Legislativo para ser minoritária em um negócio.
Companhia de geração, distribuição e pequena
participação em transmissão, a Copel tem planos
inclusive no setor de telefonia. Testa, neste momento, um sistema que
permitirá implantar uma rede de transmissão de voz e dados
via infra-estrutura de fibra ótica e na própria rede de
distribuição.
No setor de energia, a Copel negocia, neste momento, um consórcio
com a Tractebel para disputar a usina de Jirau. A empresa tem projetos
de investimento de R$ 2 bilhões para a construção
de uma hidrelétrica na região de Londrina (PR) e a montagem
de um parque térmico baseado em biomassa.
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Folha de São
Paulo, 30 de março de 2008
Ex-socialista comanda império
no PR
Grupo Positivo, de Oriovisto Guimarães,
fatura R$ 2,6 bi por ano com liderança em ensino,
gráfica e computadores
Ex-membro da Política Operária, preso
em 1968 no congresso de Ibiúna, empresário de 62 anos
hoje comanda 1,5% do PIB do PR
CRISTIANE BARBIERI
ENVIADA ESPECIAL A CURITIBA
A civilização grega condenou o primeiro projeto do Teatro
Positivo, inaugurado ontem (sábado), em Curitiba, à lata
do lixo. Desenhos aprovados foram abandonados, após uma visita
de Oriovisto Guimarães, um dos fundadores do grupo Positivo,
ao teatro de Epidauro, na Grécia.
" Como professor de geometria, fiquei maravilhado com os círculos
concêntricos que permitiam a mais perfeita acústica e visão
a 12 mil pessoas, em 350 antes de Cristo", diz Guimarães, 62. "Deixei
de lado o projeto original e mandei fazer outro, do zero." Admirador de
Sócrates (que, por sinal, o levou a Epidauro), Guimarães pontua
conversas com filosofia, mesmo quando fala dos negócios que levaram sua
empresa a quintuplicar de tamanho, em cinco anos.
No ano passado, o grupo Positivo faturou R$ 2,6 bilhões. Em 2003,
foram R$ 550 milhões. Sob sua estrutura, estão nada menos
do que a maior fabricante de computadores, a maior gráfica e o
maior grupo educacional do país.
Agora, ao lado do teatro, foi aberto um centro de convenções,
e um hotel deverá ser inaugurado em 2009. Todos localizados no
campus da Universidade Positivo, que recebeu o status do MEC (Ministério
da Educação) em janeiro. Todos serão fontes de hóspedes/visitantes
da feira/espectadores de teatro, que devem ampliar ainda mais a receita
do grupo.
" Só teremos feiras e congressos voltados à educação,
que é foco do nosso negócio", diz Guimarães. "Também
só receberemos música de qualidade, já que para o grotesco
há muito espaço aberto por aí."
De ex-membro da Polop (Política Operária), preso no famoso
congresso de Ibiúna (SP), em 1968, a sócio de uma empresa
que sozinha gera o equivalente a 1,5% do PIB do Paraná, Guimarães
passa os domingos lendo gregos e outros pensadores. Mas não gosta
que o liguem a um de seus mitos: o de Midas.
" As empresas deram certo, mas já fiz muita besteira nessa área",
diz Guimarães. "Fui sócio de duas rádios e um canal
de televisão que deram errado. Também atrasamos alguns pagamentos
no passado, quando começávamos a nos formalizar, não sejamos
hipócritas."
Isso porque, como a maior parte das empresas brasileiras, o grupo Positivo
nasceu do empreendedorismo de sócios que tinham apenas a força
de trabalho, mas careciam de formação e capital. Corria
o ano de 1972 e o cursinho pré-vestibular Positivo surgiu da iniciativa
de oito professores. Hoje restam cinco deles na sociedade, cada um com
20% de participação.
"É uma história bonita, de empreendedorismo brasileiro",
afirma o bibliófilo José Mindlin, que iria ao show do tenor José Carreras
na inauguração do teatro Positivo, com suas filhas. "O cursinho
levou-os a ter escolas, que precisava de uma gráfica e ao mesmo tempo
deu origem à área de computadores."
Alguns concorrentes da área editorial afirmam que os negócios
do grupo nesse segmento foram alavancados graças à venda
de livros para escolas públicas. Dizem também que o Positivo
tentou repetir a fórmula com o laptop de US$ 100, na licitação
do MEC (Ministério da Educação).
Porém, a licitação foi cancelada porque a Positivo
Informática, que apresentou a menor cotação, cobrou
R$ 98 milhões por 150 mil computadores educacionais, cerca de
US$ 360 para cada um deles. " Tanto na área de livros quanto
na de informática temos muito mais clientes na iniciativa privada",
diz Guimarães. "Não dependemos da área pública,
mas participamos de concorrências."
Mesmo tendo prosperado com negócios feitos na esfera privada,
Guimarães afirma que sua relação com o poder público é "tranqüila". À s
vezes, no entanto, é obrigado a cumprir a liturgia do cargo. Na última
segunda-feira, por exemplo, interrompeu o almoço para levar o
convite da inauguração do teatro ao governador Roberto
Requião, em mãos. Ao chegar ao Palácio das Araucárias,
conforme combinado com o assessor, o governador já havia saído
para almoçar com partidários do PMDB.
Guimarães deixou a entrega para o dia seguinte e disfarçou
bem qualquer irritação com as idas e vindas pelas ruas
de Curitiba, pelas quais dirige seu BMW. O pé pesado no acelerador,
aliás, combina mais com o agressividade do homem de negócios
descrito pelos amigos do que a imagem de acadêmico.
" O professor Oriovisto é objetivo e intuitivo", afirma Hélio
Rotenberg, presidente da Positivo Informática. "Primeiro ele se apaixona
pelas idéias e só então embasa em números os novos
projetos." Rotenberg conta que foi o que aconteceu quando ele propôs
a Guimarães que o grupo começasse a fazer computadores para atender
as escolas conveniadas, no fim de 1988. E o mesmo quando Rotenberg se ofereceu
para dirigir a área de informática, pouco antes.
" Ninguém tem sucesso em três áreas diferentes por acaso",
diz Rodrigo Rocha Loures, presidente da Fiep (Federação das Indústrias
do Estado do Paraná) e sócio da Nutrimental.
O grupo Positivo emprega atualmente 6.000 pessoas, sendo que 300 são
pesquisadores dos produtos educacionais que hoje chegam a 900 mil alunos
em todo o país. Em diversos prédios espalhados pela cidade
-um antigo seminário abriga a área de tecnologia-, são
produzidos equipamentos exportados para diversos países. Só para
o Brasil, são impressos 2 milhões de livros ao ano.
O campus da Universidade Positivo lembra um pouco o da USP, só que
menor e muito mais bem cuidada. Estão lá os gramados, os
blocos de prédios coloridos, a biblioteca com 120 mil títulos
que abriga, inclusive, de livros do economista Roberto Campos a cisnes
brancos no lago, rodeado de araucárias.
A sucessão, apontada pelos concorrentes como um dos problemas
do grupo, não incomoda Guimarães. "Há duas
ou três pessoas que poderiam me suceder", diz Guimarães. "Tudo
depende do conselho."
Ele afirma, no entanto, que não tem planos de se afastar do grupo
tão cedo. "Trabalho é a única coisa que não
enjoa", diz Guimarães, que deu aulas desde os 14 anos de
idade para se sustentar em Curitiba, quando "tinha só um
par de tênis".
Amigo de Prestes, seu pai foi perseguido pelo governo Vargas e refugiou-se
num sítio no interior do Paraná. Foi das noites sem TV
e de ouvir a conversa dos adultos que nasceu o interesse pela esquerda. " Como
os negócios deram certo, poderia ter diminuído o ritmo
há uns 15 anos, mas acho que, se a gente parar, a felicidade acaba",
afirma.
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Folha de São
Paulo, 30 de março de 2008
Sindicato tem queixas contra
baixos salários
DA ENVIADA ESPECIAL A CURITIBA
No fim de fevereiro, a CUT (Central Única dos Trabalhadores)
do Paraná fez um protesto em frente à Positivo Informática.
Entre os motivos da reclamação, estavam baixos salários,
participação nos lucros e assédio moral.
" Estamos fazendo uma reclamação formal à Superintendência
Regional do Trabalho e pretendemos protocolar denúncia junto ao Ministério
Público", diz Roni Anderson Barbosa, presidente da CUT-PR.
Segundo ele, supervisores da Positivo Informática constrangem
empregados e agem de maneira truculenta. Haveria diversos casos de doenças
funcionais, e empregados teriam recebido apenas um salário mínimo
como participação nos resultados.
Hélio Rotenberg, presidente da Positivo Informática, rebate.
De acordo com ele, um funcionário demitido por justa causa procurou
a CUT com denúncias infundadas.
A entidade teria usado a situação para entrar numa briga
política, já que o sindicato ao qual os funcionários
da Positivo são filiados, o Seletroar, dos trabalhadores em empresas
de eletroeletrônicos, não pertence à CUT.
" Temos 1.800 funcionários na fábrica, e cerca de 50 foram
ao carro de som da CUT", diz Rotenberg. "Nosso índice de insatisfação é baixíssimo,
e isso é uma briga de sindicatos."
De acordo com ele, a política de participação resultou
no pagamento de um a dois salários para os 3.200 trabalhadores
da empresa, que conseguiram 7,5% de aumento na última negociação
salarial.
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Folha de São
Paulo, 30 de março de 2008
Isentas, editoras não
contribuem para fundo
Mesmo sem recolher PIS e Cofins,
empresas não repassam integralmente 1% do faturamento,
como previsto
VERENA FORNETTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
O Fundo Pró-Leitura, anunciado em 2004 pelo governo federal
e por representantes das editoras, nunca atingiu o objetivo de arrecadar
1% do faturamento das empresas em um fundo para financiar programas
de incentivo à leitura.
Em novembro de 2004, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou
que a produção, a comercialização e a distribuição
de livros seriam isentas do pagamento das contribuições
federais PIS/Pasep e Cofins.
Com a medida, o governo estimava que deixaria de arrecadar cerca de R$
160 milhões por ano, valor que seria atenuado porque, com a diminuição
do preço, o MEC (Ministério da Educação)
gastaria menos com a compra de livros.
Como parte do acordo, editoras e livrarias teriam que contribuir com
1% de suas vendas com um fundo pró-leitura. "Tenho tido dificuldade
para a arrecadação dessa verba", diz Jorge Yunes,
presidente do Instituto Pró-Livro, que faz a gestão do
fundo, e presidente da Abrelivros (Associação Brasileira
de Editores de Livros).
" Cada uma contribui com um valor, de R$ 500 a R$ 70 mil. Isso nem chega
próximo a 1% do faturamento", diz. Yunes afirma que não há como
fazer o controle de quanto cada editora deveria contribuir porque "a maioria
das empresas não é de capital aberto e não declara o faturamento".
Ele diz que o instituto deveria estar arrecadando R$ 600 mil reais ao
mês, o que somaria cerca de R$ 7 milhões em um ano. Atualmente,
diz ele, a arrecadação mensal varia de R$ 250 mil a R$
350 mil (R$ 3 milhões a R$ 4,2 milhões anuais). Quando
o fundo foi lançado, em 2004, a previsão era arrecadar
R$ 45 milhões por ano.
Fundo privado
Yunes diz que o fundo não funciona da maneira como deveria porque
o governo federal não o formalizou. " O governo ficou de
regulamentar a contribuição e criar uma forma de receber
os recursos. Em 2005, tentou formalizá-lo e não conseguiu.
Em 2006, o Snel (Sindicato Nacional dos Editores de Livros), a Câmara
Brasileira do Livro e a Abrelivros fundaram uma organização
civil de interesse público, o Instituto Pró-Livro."
O representante afirma que o fundo é privado, e não público,
como estava previsto no acordo inicial com o governo. A contribuição
para o fundo privado é voluntária. Em 2004, o objetivo
era criar um fundo público com contribuição obrigatória.
O Ministério da Cultura afirma que "está trabalhando
para construir, em parceria com as entidades do livro, com deputados
e senadores, uma forma de contribuição compulsória".
Segundo o Instituto Pró-Livro, o principal projeto financiado
pelo fundo, desde o lançamento, é o "Retratos da Leitura
2", pesquisa que começou em 340 municípios para medir
o índice de leitura no país.
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Folha de São
Paulo, 30 de março de 2008
outro lado
Contribuição
não é compulsória, diz associação
DA COLABORAÇÃO PARA
A FOLHA
Para a Abrelivros, associação dos editores de livros,
a falta de obrigatoriedade de contribuição para o fundo
Pró-Livro é o principal motivo para que as empresas não
contribuam com 1% do faturamento, percentual acordado com o governo
em 2004.
Jorge Yunes, presidente da associação, diz que alguns editores
deixam de pagar 1% do faturamento porque, como não têm garantia
de que os concorrentes doarão o mesmo percentual, temem ficar
em desvantagem.
Segundo um representante de uma das maiores editoras do país,
quando o instituto foi criado, houve um debate no Snel (Sindicato Nacional
dos Editores de Livros). "Alguns editores presentes argumentaram
que a contribuição de 1% sobre o faturamento tornaria público
o valor mensal de vendas, que é dado sigiloso."
Na ocasião, criou-se uma tabela com faixas de valor mensal de
contribuição e as editoras pagariam segundo esse intervalo.
A Abrelivros, por exemplo, com 28 editoras associadas, tem o compromisso
de doar mensalmente ao fundo R$ 250 mil.
Entre as editoras procuradas pela Folha, somente a Record respondeu que
contribui segundo as faixas de contribuição. A editora
diz que quem fornece o boleto para o pagamento é o Instituto Pró-Livro.
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