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Agência Diap, 13
de abril de 2008
Juros, inflação e desenvolvimento
Por: Osvaldo Bertolino*
Mas data houve em que se acabaram
Os tempos duros e sofridos
Pois um dia aqui chegaram
Os capitais dos países amigos
País amigo, desenvolvido
País amigo, país amigo
Amigo do subdesenvolvido
País amigo, país amigo
E os nossos amigos americanos
Com muita fé, com muita fé
Nos deram dinheiro e nós plantamos
Só café, só café
É muita terra em que se plantando tudo dá
Mas eles resolveram que nós deveríamos plantar
Só café, só café.
Trecho da música da “Canção
do Subdesenvolvido”, de 1962, composta por Carlos Lyra
e Francisco de Assis.
O Brasil passa por mais uma discussão sobre as causas que
levam o Comitê de Política Monetária (Copom)
do Banco Central (BC) a cogitar mais uma alta da taxa de juros
básica, a Selic. E reaviva a velha polêmica sobre
o dilema inflação-desenvolvimento.
À sua maneira, o presidente da República, Luiz Inácio
Lula da Silva, tocou num velho dilema da economia brasileira — a
possível contradição entre inflação
e desenvolvimento. O assunto foi a atual elevação
mundial do preço dos alimentos, segundo ele uma ''inflação
boa'' porque ''convoca'' os países a produzir mais e atender à demanda
por alimentos no mundo. Lula disse também que a alta dos
alimentos não precisa ser necessariamente combatida com
a alta dos juros.
A fala do presidente foi oportuna. Muita gente no Brasil ainda
vê o consumo como um gesto pouco nobre. Um marciano de boa índole,
que tivesse chegado à Terra pelo Brasil e estivesse estudando
a humanidade munido da língua portuguesa, certamente anotaria
na agenda que ''consumir'' é uma das coisas ruins que se
fazem por aqui. O verbo ''consumir'', segundo o Aurélio,
significa ''1. Gastar ou corroer até a destruição;
devorar, destruir, extinguir (...) 2. Gastar, aniquilar, anular
(...) 3. Enfraquecer, abater (...) 4. Desgostar, afligir, mortificar
(...) 5. Fazer esquecer; apagar (...) 6. Gastar; esgotar (...)''.
Políticas sociais tímidas
e insuficientes
Os sentidos são negativos; as conotações, pejorativas.
Não há uma única referência à idéia
de comprar ou adquirir, de consumir mais e melhor. Muito menos uma
associação com o ato de satisfazer uma necessidade ou
saciar um desejo. Claro que para um país como o Brasil o ganho
mais visível e imediato que a égide do consumo tem a
oferecer é mesmo a elevação do nível de
conforto material. Consumir mais e melhor significa também fruir
arte, absorver informação, ter acesso ao patrimônio
cultural da humanidade. Ou seja: obter satisfações que
transcendem à mera necessidade imedita.
Por que há tantas reservas em relação ao
consumo de massas no Brasil? É que o consumo popular funciona
como o estopim econômico de transformações
sociais. Para o povo, ele é bem-vindo também por
isso. As travas brasileiras em relação ao consumo
estão no fato de que ele sempre foi privilégio de
poucos. Outra vez a estrutura social fendida em dois extremos,
arquitetada no passado, azucrina nosso presente e atravanca nosso
futuro.
A arquitetura social brasileira é caracterizada por políticas
públicas tímidas e insuficientes. A força
da ideologia liberal à brasileira, com traços feudais
e escravocratas, é a causa dessa timidez — ou insensibilidade
social. Uma das alegações dos liberais era a de que
a inflação em alta impedia uma ação
social mais vigorosa. Como distribuir os frutos de um desenvolvimento
não realizado? Primeiro era preciso fazer o bolo crescer
para só depois distribuí-lo.
Guinada ''ortodoxa'' na condução
da economia
No início dos anos 60, essa fantasia ganhou conotação
ainda mais autoritária. Os economistas que assumiram o controle
depois do golpe militar de 1964 chegaram dizendo que o dilema inflação-desenvolvimento
era discussão da pré-história. Segundo Roberto
Campos, ícone brasileiro deste pensamento, este dilema era um “idílio” — ou
produto de fantasia; devaneio, utopia.
A política econômica da ''era militar'' chegou à crise
dos anos 80, que levou à guinada ''ortodoxa'' da linha de
condução da economia quando o país ingressou
na “era neoliberal”. Foi pelo caminho da prioridade à política
de “estabilização monetária” em
detrimento da postura desenvolvimentista, iniciado no governo do
presidente Fernando Collor de Mello, que o Brasil chegou ao Plano
Real e ao governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC).
Naquela campanha, FHC brandiu a ''estabilidade'' como se fosse
a sua grande contribuição à humanidade.
Uma inflação de 1,75% em setembro de 1994 e de 1,82%
em outubro, depois de ter batido em quase 50% em junho, foi argumento
suficiente para resolver aquela eleição já no
primeiro turno. Mas uma das conclusões a que se pode chegar
analisando os votos de 1994 é que eles representaram uma
carta branca ao governo no que se referia ao controle inflacionário,
não necessariamente a qualquer outro ponto de seu ideário
liberalizante.
Divisa da campanha do projeto neoliberal
Ao lado do trunfo do Plano Real, vendido por meio de um marketing internacional
muito bem arquitetado, havia os outros quatro dedos da mão espalmada
de FHC. Eles significavam para o eleitor a promessa de melhorias sociais
e infra-estruturais no país. Nenhuma ''reforma'' de cunho liberal
foi claramente referendada pelo pleito de 1994. Elas vieram a reboque — eram
as cláusulas do contrato escritas em letras minúsculas.
Para conseguir o segundo mandato, este projeto utilizou-se de
um novo engodo. Eram mais do que óbvios os laços
que uniram aquela política com a perda de empregos e o aumento
da precariedade dos serviços públicos — como
saúde, segurança, educação. Mas a campanha
veio com um slogan apelativo: era preciso garantir as ''conquistas''
da ''estabilidade'' para dar prioridade aos outros dedos da mão
espalmada, principalmente o combate ao desemprego.
Era conversa sobre corda em casa de enforcado, como no provérbio.
Mas a divisa da campanha do projeto neoliberal acabou criando uma
interrogação para o eleitor: por que votar em Lula
se FHC estava garantido as ''conquistas'' da ''estabilidade'' e
prometendo empunhar as principais bandeiras do candidato da oposição?
Mas FHC merecia credibilidade? Esse dilema ficou evidenciado nas
pesquisas de intenção de votos.
Em 10 e 11 de março de 1998, o Datafolha divulgava pesquisa
mostrando FHC com 41% das intenções de votos no primeiro
turno, contra 25% de Lula. No segundo turno, FHC venceria com 52%
contra 35% de Lula. Em meados do ano, depois de meses a fio em
que se dava por certo que não haveria segundo turno, o quadro
começou a mudar. Na pesquisa de 8 e 9 de junho, as diferenças
atingiram seu patamar mínimo: FHC teria 35% das intenções
de voto no primeiro turno e Lula, 30%. No segundo turno, FHC ficaria
com 45% e Lula, 44%. Ou seja: empate técnico.
Críticas a regulamentações
aprovadas pelo Senado
O projeto neoliberal reavaliou o rumo da campanha, enfatizou os outros
quatro dedos da mão espalmada de FHC — as questões
sociais — e recuperou a vantagem, vencendo as eleições
novamente no primeiro turno. Mas ficou na população aquele
gosto amargo de derrota, uma sensação de ter sido enganada
por aquela mão espalmada insistentemente levantada por FHC.
Quando ele se reelegeu em 1998, logo ficou claro que o país
havia embarcado naquele bonde novamente porque havia a esperança
de mudança de rumo tacitamente prometida.
Como era uma impossibilidade evidente, à primeira chance
houve a baldeação e Lula se elegeu em 2002 e se reelegeu
em 2006 — empunhando as bandeiras das questões sociais.
O país, no entanto, continuou praticando a mesma política
monetária — basicamente centrada na autonomia do Banco
Central (BC) para domar o comportamento da inflação
pela taxa de juros, segundo metas definidas arbitrariamente. Apesar
de poucas alterações, esta política persiste
e tem reanimado o debate sobre os rumos da economia brasileira.
No dia 9 de abril, o Senado aprovou a regulamentação
da emenda 29, que adiciona R$ 5,5 bilhões em gastos no setor
de saúde já em 2008 e mais R$ 17,5 bilhões
até 2011; a extensão a todos os aposentados e pensionistas
do INSS dos benefícios da política de valorização
do salário mínimo (reajustado pela variação
do INPC mais o crescimento do PIB de dois anos antes); e a extinção
do fator previdenciário — um dos feitos mais nefastos
da “reforma” previdenciária realizada na gestão
FHC. E por isso vem sofrendo mais uma saraivada de pontapés.
A sentença de um tucano:
produzir um esfriamento na economia
Para os liberais, essas medidas representam um desvio do rumo traçado
pela política de “estabilização”.
E uma ameaça à “responsabilidade fiscal”.
O fundo desta grita interesseira é o velho dilema inflação-desenvolvimento.
Em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo no dia 11 de abril,
o economista tucano Luiz Carlos Mendonça de Barros, que foi
um dos esteios da “era FHC”, disse que “pela primeira
vez, em muitos meses, as expectativas de inflação superaram
o centro da meta que orienta os passos do Banco Central”. E culpa
o “superaquecimento da economia”.
Segundo ele, é consenso que um aumento dos juros nas próximas
reuniões do Comitê de Política Monetária
(Copom) do BC deve levar a taxa Selic para perto de 13% ao ano.
Mendonça de Barros diz que “o consumo das famílias
e os gastos do governo Lula estão se expandindo a taxas
de mais de dois dígitos — em termos reais — e,
com os gastos relativos aos investimentos privados, criam uma pressão
muito grande sobre alguns mercados importantes”.
O economista tucano escreveu também que já havia
alertado sobre o “nível de absorção
interna de bens e serviços”, pelo qual as tensões
chegariam a setores não defendidos pelas importações.
Resultado, segundo ele: a inflação média começaria
a se elevar. “Ao longo dos últimos meses, essa dinâmica
aprofundou-se, também no mercado de trabalho e pelo crescimento
do crédito ao consumo”, afirmou. “Era apenas
uma questão de tempo para que as pressões de preços
aflorassem de forma mais clara nos indicadores oficiais de inflação”,
escreveu. E deu a sentença final: “É preciso
produzir um esfriamento na economia.”
A alternativa é plantar ''só café,
só café'', como na música?
Seguir à risca a receita liberal seria repetir o aguçamento
daquela calamitosa teoria do bolo, levada a cabo nos anos de ditadura
militar, que partiu o Brasil em dois países antagônicos.
Nada melhor para ilustrar a convicção e o sectarismo
monetarista do que a teoria do bolo — seus defensores têm
o ar de quem está sempre descobrindo a pólvora. Na “era
FHC” vimos isso com nitidez.
Dizia-se, com a habitual obviedade para encaixar um sofisma, que
o bolo (a economia nacional) era um só e tinha de ser dividido
em partes iguais. Não adiantava querer aumentar as partes
enquanto o bolo fosse o mesmo. A análise monetária-culinária
que faziam tinha como mandamento principal a contenção
da inflação, sacrificando o desenvolvimento. E era
ilustrada com um exemplo matemático — diziam que o
bolo tem 100 unidades, logo deve ser dividido em partes que somam
100 ao final. Esta foi, por exemplo, a propaganda da “Lei
de Responsabilidade Fiscal”, que blindou o superávit
primário. Um engodo, está claro.
A teoria era a de que quando são destinadas 80 unidades
para consumo e 40 para investimentos, o resultado de 120 era a
inflação. Para eles, não havia outro caminho.
Esta ladainha foi sempre repetida na “era FHC” — o
então presidente da República chegou a dizer que
a “Marcha dos 100 mil”, que inundou Brasília
com um mar de gente para protestar contra a sua política
econômica, era “a marcha dos sem rumo”. Qual
seria a alternativa? Segundo eles não havia, a não
ser plantar “só café, só café” — como
na letra da música que citei acima. Ou seja: produzir superávit
primário.
Uma ou duas causas da inflação
e do desenvolvimento
Ignoraram essa coisa simples de que fórmulas matemáticas
não devem substituir o desenvolvimento de um povo que habita
uma região cheia de riquezas naturais. A política econômica
de um país não pode ser determinada por simples conceitos
monetários. Esta auto-suficiência dos neoliberais esclarece
muitas coisas dos problemas sociais e econômicos do Brasil. E
suscita novas indagações sobre a atualidade do dilema
inflação e desenvolvimento — as opiniões
divergentes continuam e o tempo ainda não lhe trouxe solução.
Eles ignoram também que não existe um diagnóstico
simples e objetivo da inflação. A suposição
da existência deste diagnóstico é o erro fundamental
dos neoliberais — que tratam política econômica
e a sua teoria monetária como a mesma coisa. O ex-presidente
do BC na ''era FHC'', Gustavo Franco, certa vez afirmou que não
discutia mais o dilema inflação-desenvolvimento porque,
segundo ele, não era mais tema científico mas emocional
e religioso. Mas muita coisa já ficou esclarecida nestes últimos
anos do governo Lula.
Uma delas é que o dilema inflação-desenvolvimento é o
ponto fundamental da grande questão da economia brasileira
sob a orientação desta teoria monetária. Já é alguma
coisa saber disso. E já se sabe não apenas que esta é a
grande questão como também que não existem
uma ou duas causas determinantes tanto da inflação
quanto do desenvolvimento. Há sim uma variada relação
de causas e efeitos igualmente importantes, monetários e
estruturais. E isso tornou-se claro depois da experiência
dos neoliberais na ''era FHC'', quando todo o tempo foram afirmadas
teses ditas únicas para a economia brasileira que chegaram
a resultados melancólicos.
Soberba do galo que pensa que o sol nasce porque
ele canta
Com o desmentido de promessas feitas em tom de profecias, cresceram
as evidências de que o país tomara o caminho errado.
Mesmo os continuadores dessa política na primeira fase do
governo Lula, com o ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci à frente,
que se empolgaram e sectarizaram-se na defesa de teses ''ortodoxas'' — talvez
por supor que estavam no exercício de um poder absoluto —,
foram repudiados por todos os que não rezavam pela cartilha
neoliberal. Eles incorreram na soberba do galo que pensa que o
sol nasce porque ele canta. Segundo sua teoria, a gestão
da economia só poderia dar resultados positivos se estivesse
submetida às suas elucubrações e por isso
cantavam para que o sol nascesse.
Desse modo, incorreram em um erro de análise econômica,
decorrente de um erro muito maior de análise política — passaram
a ser elogiados por todos que apoiaram a ''era FHC'' e criticados
pelos apoiadores do governo Lula. A saída de Palocci do
governo arejou o ambiente na equipe econômica, mas a economia
do país ainda é dependente do conservadorismo do
Copom. Isso ocorre porque o projeto democrático e popular
de sociedade ainda é algo que está para florescer
no Brasil. E, na mesma medida, a construção de uma
sociedade fundada na defesa dos interesses nacionais, disposta
a erigir sistemas que sustentem a longo prazo o desenvolvimento
econômico e a distribuição da riqueza produzida.
Ou seja: desenvolvimento com valorização do trabalho.
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Agência Diap, 13
de abril de 2008
RELAÇÕES DE TRABALHO
Centrais defendem regulamentação
da terceirização
Objetivo é acabar com precarização
dos direitos
Em seminário realizado em São Paulo, sindicalistas denunciaram
que “terceirização” virou sinônimo de
desrespeito aos direitos trabalhistas e baixos salários no setor
privado e defenderam o fim do mecanismo no Estado
Taxado pelos empresários de processo “irreversível” e
como “forma moderna de relação entre
capital e trabalho”, a terceirização
tem significado, na prática, segundo os sindicalistas,
um retrocesso para os trabalhadores, que são submetidos
a empregos com salários mais baixos, com os direitos
trabalhistas aviltados, além do aumento da informalização,
das doenças profissionais e dos acidentes de trabalho.
Para as centrais, a forma “moderna de relações
de trabalho” apontada por determinados setores já existiu
no Século 19, antes da abolição da
escravidão.
No entanto, mesmo que a forma e os limites para a terceirização
tenham gerado embates entre trabalhadores e empresários
a sua regulamentação foi o ponto de consenso
no seminário “Terceirização
no Brasil – avanços e acordos possíveis” realizado
no dia 4 de abril, na sede da Federação do
Comércio de São Paulo (Fecomércio),
por iniciativa do sítio Gestão Sindical e
patrocinada pelo Sindeprestem (sindicato das empresas prestadoras
de serviço).
Além da CGTB, CUT, Força Sindical, Nova
Central, UGT, CTB, CSP e de representantes do setor patronal,
o seminário teve a participação do
ministro da Previdência, Luiz Marinho, do presidente
do Ipea, Márcio Pochmann, dos deputados federais
Vicentinho (PT/SP) e Pedro Fernandes (PTB/MA), e da diretora
da OIT no Brasil, Laís Abramo.
Problemas distintos
As centrais sindicais expressaram que a terceirização
contém dois problemas distintos, um relacionado ao setor privado
e outro no setor público. No primeiro caso, os malefícios
estão distribuídos no aprofundamento do processo de terceirização,
também denominado de “superterceirização”,
que superou as atividades-meio (limpeza, segurança, transporte,
alimentação, manutenção) e passou a ocupar
espaço das atividades centrais das empresas como supervisão,
gerência e a própria produção.
Esse mecanismo tem intensificado a precarização
dos salários e a contratação dos chamados
PJs (Pessoa Jurídica), obrigando o trabalhador a
constituir firma para eximir os empresários de pagarem
direitos como férias, 13º salário e
licença maternidade.
“Onde a gente viu a aplicação da terceirização,
percebemos a precarização das condições
de trabalho, com honrosas exceções. Para
nós, a terceirização deve ser sinônimo
de especialização, como é o caso da
contratação de empresas de informática,
e não de precarização dos direitos
trabalhistas”, afirmou o presidente da CGTB, Antonio
Neto.
Regulamentar o setor
De acordo com o ministro da Previdência, Luiz Marinho, o País
precisa urgentemente regulamentar o setor porque a forma como as empresas
vêm atuando tem se constituído uma “desgraceira”. "Temos
empresas que atuam corretamente, mas temos empresas que atuam de forma
irresponsável e deixam muitos trabalhadores na rua da amargura",
afirmou.
Em relação ao setor público, a terceirização
tem debilitado os serviços do Estado, que abre mão
de investir na contratação, formação
e no aperfeiçoamento do servidor público,
substituindo-o por funcionários rotativos, que por
outro lado também enfrentam os mesmos problemas
trabalhistas que ocorrem no setor privado.
Contratos rebaixados
Como exemplo, Antonio Neto, citou a Lei 8.666, que rege as licitações
para serviços e coloca o menor preço como quesito principal.
Segundo Neto, o valor dos contratos é jogado para baixo, beneficiando
empresas inidôneas que pagam salários reduzidos e, como
já ocorreu, desaparecem no final do contrato sem pagar os direitos
dos trabalhadores. “Ocorreu um caso na Caixa Econômica
Federal. A empresa sumiu e os trabalhadores só não ficaram
desamparados porque a CEF efetuou o pagamento”, disse.
O deputado Vicentinho citou exemplos que ocorrem até na
Câmara dos Deputados, de empresas terceirizadas que
não pagam os salários dos funcionários
da limpeza, da segurança e dos ascensoristas, que
sem receber cobram providências dos parlamentares.
Essa questão também é combatida pelos
sindicalistas por representar a substituição
do Estado na prestação dos serviços
essenciais e de sua responsabilidade, transformando-se
num processo de privatização disfarçada,
como ocorre em alguns estados, a exemplo de São
Paulo na área da saúde.
Postura condenável
Os representantes das centrais sindicais também condenaram a
postura adotada pelo setor patronal no Grupo de Trabalho tripartite
constituído pelo Governo para debater a questão. As confederações
patronais – que representam apenas as empresas tomadoras de serviço
- emitiram uma nota defendendo a regulamentação, mas
sem que ela imponha qualquer limitação para a contratação
de empresas prestadoras de serviços.
Os trabalhadores querem limitar a terceirização
ao fator especialização, proibindo a contratação
de empresas para executar as atividades-fim - como reza
o Enunciado 331 do Tribunal Superior do Trabalho - a responsabilidade
solidária das empresas contratantes com as obrigações
trabalhistas, igualdade de direitos e de condições
de trabalho e a penalização das empresas
infratoras.
Segundo estudos do Sindeprestem, existem no Brasil 28,9
mil empresas de trabalho temporário e de serviços
terceirizáveis, a maior parte concentrada no Sudeste.
As empresas faturam aproximadamente R$ 40 bilhões
por ano e empregam 2,2 milhões de trabalhadores.
Insegurança jurídica
O representante das empresas prestadoras de serviço, Jan Wiegerinck,
chamou a atenção para a insegurança jurídica
que a falta de uma lei específica tem gerado para o setor. Para
ele, o processo de terceirização não pode utilizar
a legislação trabalhista constituída no Século
20 como também é contra que as empresas atuem tomando
por base a legislação do Século 19.
Para a diretora da CUT, Denise Motta Dau, na prática
a terceirização tem sido prejudicial para
a sociedade. “O Dr. Jan disse aqui que é importante
que a terceirização não faça
com que as relações de trabalho voltem ao
Século XIX, mas sim que tragam boas condições
de trabalho. Mas nós sindicalistas temos testemunhado
e acompanhado que, infelizmente, a terceirização
tem sido sinônimo de precarização”,
disse.
Para o presidente da UGT, Ricardo Patah, os problemas
da terceirização foram gerados pela flexibilização “nefasta” que
ocorreu no Governo de Fernando Henrique Cardoso.
No momento, existem quatro projetos tramitando na Câmara
para regulamentar o setor com propostas muito antagônicas.
O que mais se aproxima à proposta das centrais, é o
PL 1.621/07, do deputado Vicentinho.
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Diário Vermelho,
13 de abril de 2008
Lula: 'quem acha que autorizei
aumentar juros está doido'
Durante uma visita a Praga, na República Tcheca,
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desmentiu notícias
na imprensa brasileira de que teria dado sinal verde para
um aumento da taxa de juros. ''Quem acha isso (que teria
autorizado o aumento) está doido'', afirmou o presidente,
ao ser abordado por jornalistas brasileiros na ponte Carlos,
durante um passeio pela capital checa.
Lula disse que foi mal-interpretado por jornalistas no
dia anterior, quando declarou que ''não será nem
a redução de 0,25 (ponto percentual) nem
a manutenção (dos juros) em 11,25 nem o aumento
de 0,25 que trará qualquer transtorno à economia
brasileira.''
Ainda na sexta-feira, em Haia, na Holanda, Lula disse
que alta dos juros é uma decisão que cabe
ao Banco Central. Na próxima terça e na quarta-feira,
o Comitê de Política Monetária (Copom)
se reúne para decidir se aumenta ou não os
juros.
Enquanto a reunião do Copom não acontece,
diversos setores do país mobilizam-se numa campanha
para que o aumento de juros não ocorra. Entre aqueles
que já aderiram à campanha está o
presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
(Ipea), Márcio Pochmann, Delfim Neto e a uma valorosa
bancada de deputados na Câmara.
“Os gargalos, que são poucos e pontuais,
devem ser enfrentados com medidas voltadas basicamente
para a ampliação da importação;
podem ser enfrentados com a redução do crédito
localizado aos setores e não com a elevação
da taxa de juros, que significa um corte do consumo de
forma horizontal. A elevação dos juros atua
sobre todo o consumo, e significaria, inclusive, a possível
interrupção do ciclo de investimentos. Porque,
se os juros sobem, o investimento produtivo deixa de ser
atrativo, fazendo com que se alimente ainda mais a cadeia
da financeirização do país”,
defende Pochmann.
Campanha
Em meio à disputa dentro do governo – entre
o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do
Banco Central, Henrique Meirelles, o PCdoB decidiu pautar
o assunto das taxas de juro, ameaçadas de subir
na próxima reunião do Copom, nos dias 15
e 16 de abril. O partido avalia que ao subir os juros,
o Copom pode frear o desenvolvimento do país.
“O desenvolvimento tem que ser permanente e não
um vôo de galinha”, defini Renato Rabelo, presidente
nacional do PCdoB.
Em reunião esta semana com a bancada do partido
na Câmara, foi definida uma programação
para dar visibilidade à campanha ''juros altos não''.
O slogan está estampado em camisetas, bottons, adesivos
e nas falas dos parlamentares e dirigentes comunistas.
Em meio a discursos e distribuição de materiais
a bancada do PCdoB também está articulando
com outras lideranças partidárias a adesão à campanha
para formar um grupo parlamentar afim de desenvolver atividades
que pressionem o Copom a não aumentar os juros.
'Sem nervosismo'
Devido às pressões dentro e fora do governo,
Lula pediu calma. ''Os juros irão aumentar quando
for necessário aumentar, e cair quando for necessário
cair. Eu tenho dito ao ministro (presidente do Banco Central,
Henrique) Meirelles e ao ministro (da Fazenda) Guido Mantega
que não volte à tensão cada vez que
o Copom for se reunir'', declarou Lula em Praga.
Lula disse ainda que não há motivo para
nervosismo. ''A economia está bem, a economia está crescendo,
o crédito está crescendo, a demanda está crescendo,
a produtividade está crescendo. Se você tem
um aumento sazonal de um produto, você pode corrigir
no próximo trimestre ou no próximo quadrimestre.
O momento é de menos palpite e mais tranqüilidade
para ver as coisas acontecerem'', disse o presidente na
sexta-feira.
A tentativa de aproximação com a República
Checa se dá meses antes de o país assumir
a Presidência da União Européia, em
janeiro do ano que vem, quando ainda devem prosseguir as
negociações para um acordo de livre comércio
entre o bloco europeu e o Mercosul.
O Brasil é o principal parceiro comercial da República
Checa na América Latina, mas os números são
baixos: o intercâmbio comercial foi de apenas US$
335 milhões em 2007, com uma desvantagem de US$
214 milhões para o lado brasileiro. A presença
de empresas brasileiras na República Checa é imperceptível.
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Diário Vermelho,
13 de abril de 2008
Pochmann: Aumento do juro pode
interromper o ciclo de crescimento
“
A melhor política de combate à inflação
de demanda é justamente a ampliação
dos investimentos que permita a capacidade de produção
do país crescer, inclusive em condições
suficientes para atender a demanda interna”, afirmou
Márcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea), condenando uma eventual
elevação da taxa básica de juros (Selic)
pelo Banco Central na próxima reunião do Copom,
dia16.
“É isso que nós estamos verificando nos últimos 41
meses: o investimento cresce acima do consumo”, completou. “É claro
que podemos ter alguns setores que estão mais pressionados por demanda
e podem haver alguns gargalos, o que é natural em toda economia que começa
a crescer a taxas importantes. Como foi o Brasil no ano passado e provavelmente
será neste ano”, disse Pochmann.
“ Agora, os gargalos, que são poucos e pontuais,
devem ser enfrentados com medidas voltadas basicamente
para a ampliação da importação;
podem ser enfrentados com a redução do crédito
localizado aos setores e não com a elevação
da taxa de juros, que significa um corte do consumo de
forma horizontal, pois a elevação dos juros
atua sobre todo o consumo, e significaria, inclusive, a
possível interrupção do ciclo de investimentos.
Porque, se os juros sobem, o investimento produtivo deixa
de ser atrativo, fazendo com que se alimente ainda mais
a cadeia da financeirização do país”.
Quanto à política de juros do BC, o presidente
do Ipea considerou que “nós estamos transitando
de uma convergência política basicamente assentada
na estabilidade monetária para uma convergência
em torno do desenvolvimento nacional: de um lado, a postura
do Banco Central que reflete um antigo compromisso em torno
da estrita estabilidade monetária, e, do outro lado,
talvez a maior parte do governo Lula comprometida com a
temática do desenvolvimento do país”.
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Agência Brasil, 13
de abril de 2008
Dilma deve prestar depoimento
na quarta-feira
Oficialmente, a ministra vai prestar
explicações sobre o PAC. Na prática,
a oposição quer saber sobre o dossiê contra
o ex-presidente FHC
Rodolfo Torres
Ainda não é oficial, mas há quem
diga que o tão esperado depoimento da ministra da
Casa Civil, Dilma Rousseff, vai ocorrer ainda nesta semana.
Segundo reportagem do Jornal do Brasil desse sábado
(12), Dilma “deve prestar depoimento na Comissão
de Infra-Estrutura do Senado na próxima quarta-feira
[16].”
Na sexta-feira passada (11), Dilma encaminhou ofício
ao colegiado, informando estar à disposição
para prestar os devidos esclarecimentos, “na melhor
data que isso for possível de ser concretizado” sobre
as obras da Usina de Belo Monte (PA). O empreendimento
faz parte do Programa de Aceleração do Crescimento
(PAC).
“Em atenção ao ofício tratando
de convocação para prestar esclarecimentos
acerca da usina hidrelétrica de Belo Monte e sobre
o andamento das obras do PAC, bem como da solicitação
para agendamento de data, informo que terei grande prazer
em comparecer a essa conceituada comissão do Senado
para tratar dos assuntos acima referidos", diz o documento.
A ministra foi convocada a prestar esclarecimentos na
Comissão de Infra-Estrutura no último dia
3, e tem até o início do próximo mês
para atender ao chamado dos parlamentares. A Comissão
de Meio Ambiente do Senado também analisará,
na próxima terça-feira (15), requerimento
que pede a convocação de Dilma.
A intenção da oposição é questionar
a “mãe do PAC” a respeito do “dossiê” (classificado
de “banco de dados” pelo governo), contendo
gastos de cartões corporativos do governo Fernando
Henrique Cardoso. O documento, de caráter sigiloso,
foi repassado para a imprensa. Por determinação
do ministro da Justiça, Tarso Genro, a Polícia
Federal vai investigar o vazamento dessas informações.
Segundo o JB, “para evitar que a nova CPI dos Cartões
Corporativos do Senado ganhe força com uma eventual
convocação da ministra”, Dilma se apresentará aos
senadores ainda nesta semana.
Contudo, o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio
(AM), já adiantou que a ida da ministra à Comissão
de Infra-estrutura do Senado não basta. "Vamos
tentar trazê-la à CPI do Senado, nós
que já tentamos trazê-la à CPI mista",
destacou.
O colegiado exclusivo dos senadores foi instalado na terça-feira
passada (8), atendendo a um requerimento dos oposicionistas,
que alegam que a atual CPI dos Cartões (formada
por deputados e senadores) não está investigando
o assunto como deveria. Por ter maioria governista, os
requerimentos apresentados pela oposição
são facilmente rejeitados no colegiado.
A própria presidente da comissão, senadora
Marisa Serrano (PSDB-MS), já avisou que, caso novos
requerimentos sejam rejeitados na sessão da próxima
terça-feira (15), ela encerrará as atividades
da CPI.
Diferentemente da CPI mista dos Cartões Corporativos,
onde o governo cedeu a presidência a um parlamentar
da oposição, não há acordo
de procedimento na CPI dos Cartões do Senado. A
líder do PT na Casa, Ideli Salvatti (SC), adiantou
que o governo não abrirá mão dos cargos
de comando do colegiado. “[O comando da CPI] vai
ficar com o governo, não há nenhuma dúvida”,
sentenciou.
A oposição, por sua vez, diz que não
abre mão da presidência ou da relatoria dessa
nova CPI. “Eu chamaria isso de fratura exposta da
truculência, a quebra de uma tradição
de todas as CPIs”, ressaltou o líder do DEM
no Senado, José Agripino (RN). “Isso significa
claramente o medo da investigação. Eles procuram
se blindar de todas as formas”, complementou.
Já o líder do PMDB no Senado, Valdir Raupp
(RO), lembra que o Senado já conta com três
CPIs (Cartões Corporativos, Pedofilia e ONGs) e
cobra uma “agenda positiva”. “A nossa
agenda é muito pobre, negativa. A gente precisa
de uma agenda positiva, pra cima”.
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Gazeta do Povo, 13 de abril
de 2008
Desenvolvimento
Paraná dribla vizinhos
e tenta sair da lanterna na Região Sul
Estado tem conseguido melhorar indicadores
sociais ao longo dos anos, em especial na área de educação
A comparação dos indicadores sociais entre
os estados do Sul quase sempre dá vantagem para os
vizinhos catarinenses e gaúchos. Para os paranaenses
sobra amargar, normalmente, a posição de “patinho
feio”, como o pior estado da região, quando
o assunto são indicadores sociais, como o Índice
de Desenvolvimento Social (IDH), mortalidade infantil, esperança
de vida, analfabetismo, homicídios, entre outros. “Percebemos
essa diferença anualmente nas pesquisas na Região
Sul”, afirma o chefe do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE) no Paraná, Sinval dos
Santos.
Porém, há exceções e o estado
busca a recuperação. Na área de saneamento
básico, o Paraná é o que tem a melhor
taxa dos três estados em acesso a coleta de esgoto.
E apesar de sempre estar na lanterninha em outros setores, é o
que apresenta recuperação mais significativa
nos índices sociais nos últimos anos (exceção
dos números da violência). “A principal
melhoria no Paraná foi em educação:
redução do analfabetismo, merenda escolar,
oferta da escolas. Também houve um incremento da produção
agrícola entre 2002 e 2004, que provocou um impacto
na economia do estado”, analisa Santos.
Para o sociólogo, cientista político e professor
da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ricardo
Costa de Oliveira, é o conjunto de políticas
sociais, em todos os níveis governamentais, que faz
com que o Paraná comece a mudar o quadro. Entretanto,
ele é cético em relação às
mudanças. “Mesmo assim, as melhorias não
conseguiram mudar as diferenças históricas”,
afirma.
Segundo o sociólogo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina
tiveram um processo de colonização e povoamento
mais homogêneo e, conseqüentemente, um desenvolvimento
mais distribuído. O Paraná, ao contrário,
acabou formando bolsões de pobreza – norte de
Curitiba, Vale do Rio Tibagi, Vale do Ribeira, Norte de Guarapuava –,
próximos a regiões desenvolvidas – Curitiba,
Palotina, Toledo, Maringá, Londrina. “O Paraná teve
um processo de ocupação do solo que saltou
regiões”, explica Oliveira.
Para o professor de sociologia da Pontifícia Universidade
Católica do Paraná (PUCPR) Lindomar Wessler
Boneti, a transformação do Paraná de “patinho
feio” em “cisne” está condicionada à modernização
tardia da agricultura e ao lento processo de urbanização. “A
agricultura no Rio Grande do Sul se modernizou no início
do século 20 e no Paraná foi entre 1940 e 1950.
Isso dá diferença no processo de urbanização.
As cidades paranaenses apresentam problemas de periferia,
população em condição de vulnerabilidade,
pobreza”, analisa.
De acordo com Boneti, Santa Catarina, ao contrário
do Rio Grande do Sul e do Paraná, tem pouca área
de agricultura extensiva. “A pequena agricultura no
oeste (catarinense) não liberou a mão-de-obra.
Com isso, as grandes cidades não sofreram pressão
do êxodo rural. Isto torna Santa Catarina um estado
atípico para a Região Sul”, explica.
Esta política, aliás, vem sendo estimulada
até hoje. “O nosso objetivo é levar o
progresso para o interior do estado, fixando o homem à terra”,
afirma o secretário estadual de coordenação
e articulação de Santa Catarina, Ivo Carminati.
Além da agricultura de pequena propriedade, o turismo
também influenciou o desenvolvimento de Santa Catarina,
segundo Boneti. “O desenvolvimento do turismo, nas últimas
décadas, ajudou a elevar o índice de desenvolvimento
humano em Santa Catarina.”
O geógrafo e professor da UFPR Francisco Mendonça
vê os indicadores sociais de maneira diversa. Para
ele, não há grandes diferenças entre
os três estados do Sul. “O Paraná está bem
posicionado. Os dados são aproximados. É complicado
olhar os números absolutos. Além disso, o Paraná tem
apresentado uma evolução nos índices”,
avalia.
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Gazeta do Povo, 13 de abril
de 2008
Desenvolvimento
Violência é o
calcanhar de Aquiles
Apesar da recuperação nos indicadores sociais,
o Paraná ainda não apresenta um panorama
positivo em relação à violência. É o
estado da Região Sul com a maior taxa de homicídios
e o que teve maior aumento, de 2004 para 2006, na proporção
de assassinatos em relação à população.
Para o geógrafo Francisco Mendonça, com índices
assim a violência tem de ser uma das agendas mais
importantes do governo.
Oprofessor de sociologia da Pontifícia Universidade
Católica do Paraná (PUCPR) Lindomar Wessler
Boneti diz que o problema está intimamente ligado
a todo o processo de modernização tardia
da agricultura, êxodo rural e urbanização
do Paraná. Outra característica do estado
também contribui. “O Paraná é um
estado de passagem”, diz, referindo-se ao fato de
o estado fazer a ligação do Sul com o resto
do país. “Por aqui passa tudo: arma, drogas...”,
comenta.
O crescimento demográfico é uma das justificativas
para a violência, na visão do sociólogo,
cientista político e professor da UFPR Ricardo Costa
de Oliveira. “Só agora é que começa
a diminuir a taxa de crescimento vegetativo”, diz.
Com isso, a tendência é que, a cada ano, o
número de crianças diminua. “Dá para
investir mais e melhor.”
Segundo ele, a geração de jovens de 15 a
20 anos teve baixa escolaridade e poucas condições
de lazer, quando criança. “O jovem de hoje
não teve cultura e formação de qualidade
na infância. Agora é um jovem revoltado, porque
foi uma criança desestruturada”, analisa.
Com índices sociais melhores, o futuro da nova geração
deve ser diferente. “O resultado, entretanto, só vamos
sentir em 2015, 2020”, prevê.
Para o secretário de Estado de Planejamento do
Paraná, Ênio Verri, a tendência também é de
reversão. “Este (violência) é um
problema específico do crescimento econômico.
Nós não conseguimos, ainda, atingir todos
os setores, mas acredito que este quadro deve se reverter
em breve”, afirma.
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Gazeta do Povo, 13 de abril
de 2008
Desenvolvimento
Orçamento permite mais
investimentos
“Mais importante do que onde você está, é para
onde você está indo”, diz o secretário
de Estado de Planejamento do Paraná, Enio Verri,
referindo-se ao fato de que o Paraná tem tido uma
evolução maior do que Santa Catarina e Rio
Grande do Sul, nos indicadores sociais. Segundo Verri,
os catarinenses e gaúchos até podem mostrar
os melhores índices de qualidade de vida. Entretanto,
o fator econômico de cada estado tem de ser ponderado
nesta análise.
“Os outros estados, principalmente o Rio Grande
do Sul, estão com dificuldades financeiras. O estado
quebrou. Quem viveu, viveu bem. O estado não poderá mais
propiciar isso a outras gerações”,
afirma.
Para o secretário, no Paraná o quadro é radicalmente
o oposto. Enquanto o Paraná compromete 90% das receitas
com os gastos para manter a máquina pública,
Santa Catarina compromete 99% e o Rio Grande do Sul, 110%.
No Paraná, ainda há 10% da receita que pode
ser aplicada em investimentos.
Limite
Para o assessor técnico de planejamento e gestão
da Secretaria da Coordenação e Planejamento
do Rio Grande do Sul, Clayton Brito Borges, um dos motivos
que levam os vizinhos a não apresentarem um ganho
maior nos índices sociais é o fato de já estarem
próximos do limite. “A partir de um certo
ponto, as mudanças ficam mais difíceis”,
explica.
Segundo Borges, o déficit orçamentário
do Rio Grande do Sul tem dificultado os investimentos no
estado também. Já o secretário estadual
de coordenação e articulação
de Santa Catarina, Ivo Carminati, diz que o comprometimento
quase que total da receita do estado não tem influenciado
nos investimentos. “Temos feito parcerias para investir,
principalmente com o Banco do Brasil”, afirma.
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Gazeta do Povo, 13 de abril
de 2008
Oposição
Reunidos, DEM e PSDB buscam “norte”
O presidente do DEM, Rodrigo Maia (RJ), disse que rejeita
a avaliação dos governistas de que a oposição
está sem rumo. Para procurar um “norte”,
PSDB e DEM realizam amanhã, em São Paulo,
uma reunião de cúpula. Maia diz que o objetivo
da reunião é fazer a “análise
de cenários futuros” para o país. “Como
esse governo não investiu em infra-estrutura nem
realizou as reformas institucionais necessárias,
acreditamos que a situação do país
será bem ruim”, afirma.
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Gazeta do Povo, 13 de abril
de 2008
Construção civil
Thá volta ao azul e
bate recorde de lançamentos
A nova sede do grupo Thá, no centro de Curitiba – que
substituiu a antiga, na Avenida Getúlio Vargas – não é a única
novidade na centenária construtora e incorporadora
paranaense. Depois de três anos de resultados negativos,
a holding do grupo, que congrega as operações
da incorporadora, da imobiliária e da construtora,
obteve um lucro líquido de R$ 1,5 milhão
em 2007 e um crescimento de 71,4% na receita bruta, que
atingiu R$ 132 milhões.
“Estamos em um bom momento do mercado. Atingimos
o break even [ponto de equilíbrio] em 2006 e acreditamos
que esse movimento favorável deve se manter para
os próximos cinco anos, com lucros mais expressivos”,
diz o economista José Luiz Vasconcelos, novo presidente
do grupo, que assumiu o comando da empresa em dezembro.
De acordo com ele, a meta é alcançar receita
de R$ 500 milhões, tamanho que considera viável
para uma eventual abertura de capital. Mas o executivo
garante que essa não é a prioridade, pelo
menos por enquanto.
Aniele Nascimento/Gazeta do
Povo
“ Estamos em um bom momento
do mercado. Atingimos o break even [ponto de equilíbrio]
em 2006 e acreditamos que esse movimento favorável
deve se manter para os próximos cinco anos, com
lucros mais expressivos.” José Luiz
Vasconcelos, novo presidente do grupo Thá.
“ Há muita oferta de papéis do setor no mercado e não
queremos ser apenas mais uma”, diz. Hoje são 25 empresas do setor
no mercado de capitais entre regionais e nacionais – incluindo as gigantes
Cyrela, Gafisa e Rossi (com quem a Thá possui desde 2006 uma joint venture
para as áreas de incorporação e imobiliária).
Por enquanto, a empresa pretende aproveitar o boom do
setor imobiliário para ganhar corpo em um mercado
em que a concorrência tem crescido rapidamente. Somente
no Paraná desembarcaram recentemente, além
da Rossi, a Gafisa, a Abyara, em parceria com a Dimensão,
a Cyrela, com Goldstein/Dória, além de PDG
Realty, com parceria com a LN, MRV e Tecnisa.
Com crédito farto, prazos para pagamento longos
e uma demanda sustentada pelo aumento dos níveis
de emprego e renda, o grupo Thá pretende bater recorde
de lançamentos em 2008. Serão 1.794 unidades,
quatro vezes mais do que as 427 registradas em 2007, incluindo
a joint venture com a Rossi Residencial. O grupo prevê colocar
no mercado 249 mil metros quadrados, com volume geral de
venda (VGV) de R$ 426 milhões, contra R$ 135 milhões
(77 mil metros quadrados) no ano passado. Na área
de construção, os volumes devem saltar de
R$ 189 milhões para R$ 406 milhões, com 19
novos contratos, dentre construção própria,
de terceiros e obras especiais, como a construção
de unidades para o Wal-Mart.
Para o executivo, o mercado de Curitiba respondeu de forma
tardia à recuperação do setor e o
reflexo nos resultados deve se dar principalmente em 2008
e 2009.
Baixa renda
Entre os objetivos está o de explorar mais o mercado
de habitação para baixa renda, com imóveis
de preços até R$ 100 mil. Seguindo uma tendênca
forte no mercado, a Thá quer aproveitar principalmente
a demanda da classe C, que se tornou um dos principais
alvos das incorporadores desde o ano passado. Recentemente
a Cyrela, anunciou em São Paulo a criação
de mais uma empresa, a Cytec, voltada para esse segmento.
Aumentar negócios da imobiliária, que no
ano passado respondeu por um faturamento de R$ 8 milhões,
também é uma das metas da Thá, que
em 2008 quer abrir uma unidade em Santa Catarina. O foco
também é buscar aquisições
para acelerar a expansão geográfica dessa área.
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Gazeta do Povo, 13 de abril
de 2008
Construção civil
Fiep estuda demandas do setor
A Federação das Indústrias do Paraná (Fiep),
por meio do Conselho Setorial da Indústria da Construção
Civil, está fazendo um levantamento de informações
sobre as necessidades das pequenas e médias indústrias
do setor. O objetivo é identificar suas necessidades
de crédito e, na seqüência, levantar
recursos junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Social
(BNDES) para a reestruturação e crescimento
de toda a cadeia produtiva. Os formulários deverão
ser entregues ao Conselho até a próxima terça-feira.
A partir daí, os formulários serão
encaminhados ao Sindicato das Indústrias da Construção
Civil do Rio de Janeiro (Sinduscon RJ), que reunirá as
informações dos setores de todo o Brasil,
e encaminhará ao BNDES para análise.
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O Estado do Paraná,
13 de abril de 2008
Crédito faz mudar o
perfil do consumidor
Mara Andrich
Arquivo

Aparelhos de televisão
em dezenas de prestações estão entre
os produtos desejados.
Em 1994, o Brasil sofreu uma grande transformação na
economia. O êxito no combate ao fantasma da inflação
e a criação do Real pelo então ministro da Fazenda,
Fernando Henrique Cardoso (no governo Itamar Franco) foi o primeiro
passo para que a população perdesse o medo de investir
e começasse a consumir cada vez mais. Nos últimos dois
anos, com o crescimento da classe C (aqueles que possuem renda entre
R$ 1.144 e R$ 2.860) o consumo deu uma guinada maior ainda. As classes
D (que ganham entre R$ 571 e R$ 1.143) e E (renda até R$ 571)
têm grande parcela de contribuição nesse consumismo,
de acordo com os especialistas.
A Pesquisa Nacional por Amostra em Domicílios (Pnad),
do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), traz algumas informações que apontam
este aumento no consumo. Em 2003, por exemplo, 2,9 milhões
paranaenses afirmavam possuir um fogão em casa.
Em 2006, este número saltou para 3,1 milhões.
O mesmo ocorreu com as televisões. Enquanto em 2003
2.7 milhões de paranaenses tinham o aparelho, em
2006, 2,9 milhões deles afirmaram a mesma coisa.
Quando o assunto é computador e celular, então,
os números crescem mais ainda. Em 2003, 534 mil
paranaenses pesquisados declararam possuir computador em
casa, três anos depois já eram 880 mil. Com
relação ao celular, o número saltou
de 256 mil para 876 mil. Somado a isso, verifica-se um
incremento mensal nas compras do comércio: o volume
de vendas aumentou 10% em janeiro deste ano, em comparação
a janeiro de 2007. Veículos, imóveis, alimentos,
enfim, praticamente todas estas áreas verificaram
aumento no consumo nos últimos anos.
Muitas dessas compras são efetuadas a prazo. Mas
não foi só o medo da inflação
que fez com que os brasileiros começassem a comprar.
O aumento nos salários, a queda na inflação,
os juros mais baixos do que em anos anteriores, a facilidade
de crédito, a recuperação do emprego
e a disseminação de programas sociais, como
o Bolsa Família, são os principais fatores
apontados pelos especialistas como explicação
para esta mudança de comportamento.
O professor e coordenador do curso de Ciências Econômicas
da UniFae, Gilmar Lourenço, disse que o fato de
a classe C ter aumentado entre 2005 e 2007 foi decisivo
para o crescimento no consumo. Em 2005, a classe C aumentou
de 34% da população, para 46%, em 2007. Já as
classes D e E caíram de 46% para 39%. As classes
A e B se mantiveram estáveis, com 15% da fatia. “Essa
mobilidade social foi determinante”, afirmou o professor.
Hoje são 86 milhões de brasileiros que pertencem à classe
C. “Sem falar que nos últimos dois anos além
do aumento dos reajustes reais do salário mínimo
tivemos a ampliação do crédito e a
dilatação dos prazos de pagamento. E as pessoas
não olham os juros, olham a prestação
que cabe no bolso”, explicou.
O membro do Conselho Consultivo do Instituto Brasileiro
de Executivos de Finanças (Ibef), Luiz Afonso Cerqueira,
tem a mesma opinião de Lourenço. Segundo
ele, desde a estabilidade da moeda (na década de
90, com o plano Real), as pessoas começaram a ter
confiança para guardar dinheiro e comprar à vista,
ou até mesmo financiar. “Elas saíram
do básico e foram para os eletrodomésticos.
E em seguida para os carros e imóveis. Na medida
em que você não tem inflação
oscilando, crédito interessante tanto para o banco
como para o consumidor e a expansão do crédito,
cria-se um círculo virtuoso, ou seja, as pessoas
podem até colocar crédito em cima de crédito”,
diz ele.
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O Estado do Paraná,
13 de abril de 2008
Centrais em campanha pela redução
Elizangela Wroniski
Seis centrais de trabalhadores fazem uma marcha amanhã, em Curitiba,
pedindo a redução da jornada de trabalho de 44 para 40
horas. Segundo dados apresentados pelo Departamento Intersindical de
Estudos Socioeconômicos (Dieese), o crescimento da economia absorveria
a redução da carga horária sem representar aumento
de custos ao sistema de produção. Além disto, seriam
gerados mais dois milhões de empregos. As manifestações
vão durar até o dia 1.º de maio. A meta é colher
500 mil assinaturas no estado, que se somarão à de outras
unidades da federação. No dia 15 de maio, pretendem entregar
ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva um abaixo-assinado com
a participação de 1,5 milhão de trabalhadores.
Os trabalhadores afirmam que a redução da
jornada de trabalho não trará nenhum prejuízo
aos empregadores. Segundo o supervisor técnico do
Dieese, Cid Cordeiro, nas últimas décadas
a produtividade de vários setores aumentou muito.
Ele diz que o da indústria, por exemplo, subiu 4,5
% nos últimos 12 meses. O emprego de novas tecnologias
e o ritmo intensivo de produção são
apontados como os responsáveis pelo incremento.
Com o aumento da produtividade, as empresas passaram a
ganhar mais. Mas os sindicalistas reclamam que a conta
ficou com os trabalhadores. As doenças laborais
são apontadas como as grandes vilãs. De acordo
com os sindicatos, no setor de abatedouros agrícolas,
por exemplo, há 40 mil funcionários no Estado
e cerca de 100 são afastados diariamente de suas
atividades. O ritmo de trabalho e a quantidade excessiva
de horas extras são apontados como causas.
Segundo os sindicalistas, a redução da jornada
de trabalho além de proporcionar mais qualidade
de vida aos trabalhadores também vai gerar dois
milhões de novos postos de trabalho, sendo 130 mil
só no estado. Desta forma a economia também
sai ganhando. Cid explica que nos últimos três
anos foi o consumo interno que manteve o crescimento do
país. A população teve mais acesso
ao crédito e os salários tiveram aumento
real.
Amanhã, eles se reúnem, às 9h, na
Praça Santos Andrade, em Curitiba, e seguem em passeata
até a boca Maldita. Além disto, até o
dia 1.º realizarão vários eventos e
farão a coleta das 500 mil assinaturas. Segundo
eles, querem atingir a marca de 1,5 milhão para
entregar ao presidente Lula, pedindo que envie ao Congresso
Nacional um projeto de lei para reduzir a jornada. A última
ocorreu em 1988, de 48 horas semanais de trabalho baixou
para 44. Hoje países como Estados Unidos e França
já tem carga horária de 40 horas e outros
países como Espanha e Austrália de 36.
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O Estado do Paraná,
13 de abril de 2008
Direito e Justiça
Lei 11.648, centrais sindicais,
manutenção da contribuição sindical
e veto ao controle do TCU
Edésio Passos
Está em vigor a Lei n.º 11.648, de 31 de março
de 2008, que “dispõe sobre o reconhecimento
formal das centrais sindicais para os fins que especifica,
altera a CLT e dá outras providências”.
O texto aprovado pelo Senado e Câmara dos Deputados,
com substitutivo do senador Paulo Paim ao PL 1990/2007,
foi sancionado com um veto. As principais centrais sindicais
conseguiram unir-se para pressionar o Senado Federal visando
a rejeição às emendas aprovadas na
Câmara dos Deputados, em especial a que praticamente
extinguia a contribuição sindical apenas
para as entidades de trabalhadores, sem prever outra forma
de sustentação. O veto do Presidente da República
foi ao artigo 6.º da nova Lei que previa o controle
do Tribunal de Contas da União sobre as contas sindicais.
A Lei n.º 11.648/2008 se constitui em um marco histórico
ao integrar no plano jurídico formal as representações
centrais sindicais dos trabalhadores depois de 25 anos
de criação da Central Única dos Trabalhadores
e de possibilitar a organização horizontal
de todas as categorias profissionais desde trabalhadores
rurais aos servidores públicos, dos profissionais
liberais aos autônomos, dos trabalhadores das categorias
diferenciadas às mais novas atividades dos trabalhadores
nos campos industrial, comercial e de serviços.
Mesmo que a lei ainda traduza limitações
no exercício das atribuições e prerrogativas,
permite a criação e o livre funcionamento
dessas novas e importantes organizações do
mundo do trabalho. O veto do Presidente Luiz Inácio
Lula da Silva à tentativa de se impor o controle
do TCU sobre o movimento sindical dos trabalhadores e empregadores
confirma, ainda mais, a importância da nova lei no
campo constitucional da liberdade e da autonomia sindical.
Atribuições e prerrogativas
O art. 1.º estabelece que “a central sindical,
entidade de representação geral dos trabalhadores,
constituída em âmbito nacional, terá as
seguintes atribuições e prerrogativas: I
coordenar a representação dos trabalhadores,
por meio das organizações sindicais a ela
filiadas; e II participar de negociações
em fóruns, colegiados de órgãos públicos
e demais espaços de diálogo social que possuam
composição tripartite, nos quais estejam
em discussão assuntos de interesse geral dos trabalhadores”.
No parágrafo único do art. 1.º está a
definição da natureza da entidade: “Considera-se
central sindical, para os efeitos do disposto nesta Lei,
a entidade associativa de direito privado composta por
organizações sindicais de trabalhadores”.
Os requisitos para o exercício das atribuições
e prerrogativas está fixado no art. 2.º: “I
filiação de, no mínimo, cem sindicatos
distribuídos nas cinco regiões do País;
II filiação em pelo menos três regiões
do País de, no mínimo, vinte sindicatos em
cada uma; III filiação de sindicatos em,
no mínimo, cinco setores de atividade econômica;
e IV filiação de sindicatos que representem,
no mínimo, 7% (sete por cento) do total de empregados
sindicalizados em âmbito nacional”. No parágrafo único
do art. 2.º está fixado que “o índice
previsto no inciso IV do caput deste artigo será de
5% (cinco por cento) do total de empregados sindicalizados
em âmbito nacional no período de vinte e quatro
meses a contar da publicação desta Lei”.
Representatividade
O artigo 3.º trata da “indicação
pela central sindical de representantes nos fóruns
tripartites, conselhos e colegiados de órgãos
públicos a que se refere o inciso II do caput art.
1.º desta Lei será em número proporcional
ao índice de representatividade previsto no inciso
IV do caput art. 2.º, salvo acordo entre centrais
sindicais”. Entretanto, no parágrafo 1.º está determinado
que “o critério de proporcionalidade, bem
como a possibilidade de acordo entre as centrais, previsto
no caput deste artigo não poderá prejudicar
a participação de outras centrais sindicais
que atenderem aos requisitos estabelecidos no art. 2.º desta
Lei”. Complementa o parágrafo 2.º que “a
aplicação do disposto no caput deste artigo
deverá preservar a paridade de representação
de trabalhadores e empregadores em qualquer organismo mediante
o qual sejam levadas a cabo as consultas”. E no artigo
4.º, estabelece que “a aferição
dos requisitos de representatividade de que trata o art.
2.º desta Lei será realizada pelo Ministério
do Trabalho e Emprego” e, ainda, no parágrafo
1.º, que “o Ministro de Estado do Trabalho e
Emprego, mediante consulta às centrais sindicais,
poderá baixar instruções para disciplinar
os procedimentos necessários à aferição
dos requisitos de representatividade, bem como para alterá-los
com base na análise dos índices de sindicalização
dos sindicatos filiados às centrais sindicais”,
assim como, no parágrafo 2.º, “ato do
Ministro de Estado do Trabalho e Emprego divulgará,
anualmente, relação das centrais sindicais
que atendem aos requisitos de que trata o art. 2.º desta
Lei, indicando seus índices de representatividade”.
Contribuição sindical
O artigo 5.º altera os artigos 589, 590, 591 e 593
da CLT, que passam a vigorar com a seguinte redação:
Art.589 - I para os empregadores: a) 5% (cinco por cento)
para a confederação correspondente; b) 15%
(quinze por cento) para a federação; c) 60%
(sessenta por cento) para o sindicato respectivo; e d)
20% (vinte por cento) para a “Conta Especial Emprego
e Salário”; II para os trabalhadores: a) 5%
(cinco por cento) para a confederação correspondente;
b) 10% (quinze por cento) para a central sindical; c) 15%
(quinze por cento) para a federação; d) 60%
(sessenta por cento) para o sindicato respectivo; e d)
10% (dez por cento) para a “Conta Especial Emprego
e Salário”. Os parágrafos do artigo
5.º instruem sobre a indicação da Central:
o parágrafo 1.º orienta que “o sindicato
indicará ao Ministério do Trabalho e Emprego
a central sindical a que estiver filiado como beneficiária
da respectiva contribuição sindical, para
fins de destinação dos créditos previstos
neste artigo” e o parágrafo 2.º “a
central sindical a que se refere a alínea “b” do
inciso II do caput deste artigo deverá atender aos
requisitos de representatividade previstos na legislação
específica sobre a matéria”. Os demais
artigos da CLT passam a ter a seguinte redação: “Art.
590. Inexistindo confederação, o percentual
previsto no art. 589 desta Consolidação caberá à federação
representativa do grupo”. Os parágrafos 1.º e
2.º foram revogados, sendo o 3.º o seguinte:”Não
havendo sindicato, nem entidade sindical de grau superior
ou central sindical, a contribuição sindical
será creditada, integralmente, à “Conta
Especial Emprego e Salário”. O parágrafo
4.º: “Não havendo indicação
central sindical, na forma do § 1.º do art. 589
desta Consolidação, os percentuais que lhe
caberiam serão destinados à “Conta
Especial Emprego e Salário”.”Art. 591.
Inexistindo sindicato, os percentuais previstos na alínea “c” do
inciso I e na alínea “d” do inciso II
do caput do art. 589 desta Consolidação serão
creditados à federação correspondente à mesma
categoria econômica ou profissional. Parágrafo único.
Na hipótese do caput deste artigo, os percentuais
previstos nas alíneas “a” e “b” do
inciso I e nas alíneas “a” e “c” do
inciso II do art. 589 desta Consolidação
caberão à confederação” “Art.
593. As percentagens atribuídas às entidades
sindicais de grau superior e às centrais sindicais
serão aplicadas de conformidade com o que dispuserem
os respectivos conselhos de representantes ou estatutos.
Parágrafo único. Os recursos destinados às
centrais sindicais deverão ser utilizados no custeio
das atividades de representação geral dos
trabalhadores decorrentes de suas atribuições
legais”. Finalmente, o art. 7.º da nova Lei,
fruto de emenda incluída no substitutivo aprovado,
mantém os artigos sobre a contribuição
sindical até a aprovação de lei sobre
a contribuição negocial: “Os arts.
578 a 610 da Consolidação das Leis do Trabalho-CLT,
aprovada pelo Decreto-Lei n.º 5.452, de 1.º de
maio de 1943, vigorarão até que a lei venha
a disciplinar a contribuição negocial, vinculada
ao exercício efetivo da negociação
coletiva e à aprovação em assembléia
geral da categoria”.
Veto presidencial
A Mensagem 139 do presidente da República ao presidente
do Senado Federal é a seguinte: “Comunico
a Vossa Excelência que, nos termos do § 1.º do
art. 66 da Constituição, decidi vetar por
inconstitucionalidade, o Projeto de Lei n.º 1.990,
de 2007 (n.º 88/07 no Senado Federal), que “Dispõe
sobre o reconhecimento formal das centrais sindicais para
os fins que especifica, altera a Consolidação
das Leis do Trabalho - CLT, aprovada pelo Decreto-Lei n.º 5.452,
de 1.º de maio de 1943, e dá outras providências”.
Ouvidos, os Ministérios da Justiça e do Trabalho
e Emprego manifestaram-se pelo veto ao seguinte dispositivo: “Art.
6.º Os sindicatos, as federações e as
confederações das categorias econômicas
ou profissionais ou das profissões liberais e as
centrais sindicais deverão prestar contas ao Tribunal
de Contas da União sobre a aplicação
dos recursos provenientes das contribuições
de interesse das categorias profissionais ou econômicas,
de que trata o art. 149 da Constituição Federal,
e de outros recursos públicos que porventura venham
a receber”. Razões do veto: “O art.
6.º viola o inciso I do art. 8.º da Constituição
da República, porque estabelece a obrigatoriedade
dos sindicatos, das federações, das confederações
e das centrais sindicais prestarem contas ao Tribunal de
Contas da União sobre a aplicação
dos recursos provenientes da contribuição
sindical. Isto porque a Constituição veda
ao Poder Público a interferência e a intervenção
na organização sindical, em face o princípio
da autonomia sindical, o qual sustenta a garantia de autogestão às
organizações associativas e sindicais”.
Além da pressão das entidades sindicais de
trabalhadores, as confederações sindicais
do setor econômico encaminharam manifestação
ao Presidente da República pelo veto ao dispositivo
legal referido.
Ato constitutivo e registro no MTE
As centrais sindicais deverão ser inicialmente
registradas no cartório de registro de pessoas jurídicas
e seu ato constitutivo originário não está submetido
a regra específica, a não ser as de constituição
de uma pessoa jurídica associativa. Mas embora não
se encontre na Lei n.º 11.648/08 qualquer dispositivo
que, explicitamente, determine o registro da central sindical
no Ministério do Trabalho, o controle está determinado
no sentido de que “a aferição dos requisitos
de representatividade... será realizada pelo MTE”,
assim como pelo poder em baixar instruções
a respeito dessa aferição, além de,
anualmente, divulgar “a relação das
centrais sindicais que atendem aos requisitos de que trata
o artigo 2.º desta Lei, indicando seus índices
de representatividade”. Ademais, para a central sindical
receber a contribuição sindical “deverá atender
aos requisitos de representatividade”. Como o recebimento
da contribuição sindical depende de código
fornecido pelo Ministério do Trabalho e Emprego,
resulta que, necessariamente, a central sindical deverá submeter
ao Ministério do Trabalho seu pedido de registro
ou reconhecimento. Embora as Centrais Sindicais sejam constituídas
por categorias de todos os grupos profissionais, a Lei
consolida o atual sistema da unicidade sindical, eis que
(1) reconhece formalmente o sistema de sindicato, federação
e confederação (2) inclui, no topo do sistema,
a central sindical (3) fortalece o sistema de controle
sindical pelo Ministério do Trabalho (4) mantém
a contribuição sindical em favor das entidades
sindicais de empregados e empregadores, de caráter
compulsório (5) os trabalhadores passam a ter representação
oficial nos fóruns, colegiados de órgãos
públicos e demais espaços de diálogo
social que possuam composição tripartide,
nos quais estejam em discussão assunto de interesse
geral dos trabalhadores.
Sistema de representação
e composição
O exercício do sistema de representação
da central sindical se verificará “por meio
das organizações sindicais a ela filiadas”.
Isto significa que, no caso das negociações
coletivas de trabalho, será possível que
a central sindical, juntamente com os sindicatos a ela
filiados e por determinação da assembléia
geral desses sindicatos, possa receber poderes de negociação,
como hoje, aliás, já recebem as federações
e confederações de trabalhadores. Essa possibilidade
abre campo para o contrato coletivo de trabalho intersindical
de âmbito regional e nacional. No que concerne à representação
em juízo, continua privativa do sindicato, ou federação,
ou confederação, quanto a esta especialmente
perante o Supremo Tribunal Federal. Outro ponto em aberto
na Lei, refere-se à composição das
direções das centrais sindicais, que poderá ser
livremente constituída. A estabilidade do dirigente
exclusivo da central, que porventura não seja dirigente
da entidade de base, está abrangida pela norma constitucional
(art. 8.º, VIII).
O Tribunal Oral Federal 5 da Argentina condenou, no dia
4 de abril último, os três acusados por María
Eugenia Sampallo Barragán: a dez anos de reclusão
ao ex-capitão Enrique Berthier que a entregou, após
o nascimento, ao casal Osvaldo Rivas e María Gómez
Pinto, condenados a oito e sete anos de prisão.
Os pais biológicos de María Eugenia foram
presos, torturados e mortos em 1978 pelos militares argentinos
após seu nascimento na prisão. Registrada
com nome falso, conseguiu recuperar sua identidade em 2001
e, em seguida, iniciou o resgate histórico sobre
a luta de seus pais biológicos, os operários
e militantes de esquerda Mirta Mabel Barragán e
Leonardo Rubén Sampallo, contra a ditadura militar.
E, ao mesmo tempo, buscar a história de seu nascimento
e vida, para acusar e provar judicialmente a culpa, pela
primeira vez na Argentina, dos responsáveis pelos
delitos. María Eugenia é uma dos 87 filhos
de desaparecidos políticos argentinos que já conseguiram
identificar suas origens e a primeira a recorrer a um Tribunal
em busca da confirmação da verdade e da aplicação
da justiça. Seu advogado, o dr. Tomás Ojea
Quintana, afirmou: “O caso de María Eugenia é um
dos exemplos da prática sistemática de roubo
de crianças na época da ditadura. Ela está buscando
a verdade e a justiça contra o que fizeram a ela
e a seus pais biológicos.”
Edésio Passos é advogado
e ex-deputado federal (PT/PR).
edesiopassos@terra.com.br
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Folha de São Paulo,
13 de abril de 2008
Oposição encolhe
e perde espaço em grandes cidades
PSDB, DEM e PPS deixaram de controlar
50% das prefeituras conquistadas em 2004
Troca-troca partidário é causa
de desidratação de oposicionistas, que só vão
tentar reeleição em 64% dos municípios
que governam
RANIER BRAGON
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Os partidos de oposição a Luiz Inácio
Lula da Silva conseguiram, nas últimas eleições
municipais, em 2004, o controle de quase a metade das cem
maiores cidades brasileiras, mas definharam nos três
anos e meio que se seguiram e, hoje, só governam 25
dessas cidades, uma redução de quase 50%.
Em termos populacionais, a oposição perdeu o poder de
administrar 14,4 milhões de habitantes, o que equivale a mais
do que todo o Estado da Bahia. A desidratação de DEM,
PSDB e PPS nos centros urbanos se deu devido ao famoso troca-troca,
que leva políticos a migrarem de um partido a outro, em geral
motivados por razões eleitorais, brigas internas ou adesismo às
legendas que orbitam em torno do governo, seja federal, seja estadual.
Outro fator que aponta para uma oposição enfraquecida é que
somente 64% dos prefeitos que lhe restaram são pré-candidatos à reeleição.
Entre os governistas, o índice dos que vão tentar novo
mandato é de 76%.
"É a pressão do governo federal e dos governos estaduais.
O adesismo [ao governo] é infelizmente a regra no Brasil. E nós,
como partido de oposição, sofremos muito com isso", diz Roberto
Freire, presidente do PPS, partido que mais sofreu baixas nos últimos
anos.
Tendo saído das urnas em 2004 como a quinta maior força
nos grandes centros -elegeu nove prefeitos, entre eles José Fogaça,
que derrotou 16 anos de hegemonia petista em Porto Alegre-, o PPS definhou
a tal ponto que hoje se ombreia com o nanico PSC ao controlar apenas
2 das 100 maiores cidades do país -São José do
Rio Preto (SP) e Montes Claros (MG).
Fogaça deixou o PPS para regressar ao PMDB. Ele nega que tenha
se motivado na relação governo versus oposição. "Até reconheço
que isso pode ser verdadeiro [troca-troca motivado por adesismo ao
governo], mas, no meu caso, se dissesse que fui maltratado [pelo governo
federal] quando pertenci ao PPS, isso não seria verdadeiro."
Além de quase sumir dos grandes centros, o PPS também
sofreu perdas consideráveis em cidades médias e pequenas,
muitas lideradas por prefeitos que seguiram governadores que deixaram
a legenda, como Blairo Maggi (MT), que foi para o PR, e Eduardo Braga
(AM), para o PMDB.
O esvaziamento da oposição também foi motivado
pela ida do PDT para a base de Lula. Mas o partido ainda sofreu com
o período oposicionista -perdeu 4 dos 11 prefeitos que elegeu
em cidades grandes. PSDB e DEM perderam cada um dois prefeitos desde
2004.
O DEM elegeu seis prefeitos nas grandes cidades, mas São Gonçalo
(RJ) agora está sob gestão do PDT e Aparecida de Goiânia
(GO), do PR. A sigla ganhou um prefeito, Gilberto Kassab, que era vice
em São Paulo -com a saída de José Serra, o PSDB
perde mais um prefeito. O presidente do DEM, Rodrigo Maia, diz ver
a chance de seu partido se firmar como genuína oposição
a Lula. "O PSDB quer operar sob uma ótica mais da centro-esquerda.
Há espaço no eleitorado para uma alternativa como a nossa."
O PSDB elegeu 21 das 100 prefeituras. Perdeu Florianópolis (SC)
e Taubaté (SP) para o PMDB. "Houve cooptação
do governo. Não foi o PT que cresceu, e sim a esculhambação",
diz o senador Sérgio Guerra (PE), presidente da legenda. Mas
não foi o PT, partido que mais prefeitos de cidades grandes
elegeu em 2004 (24), o beneficiário da debandada. O PMDB foi
o mais "vitaminado".
Tendo seis ministros no governo e sete governadores, o PMDB ganhou
em 2004 a administração de 12 grandes cidades. Hoje tem
18, cujos prefeitos são todos pré-candidatos à reeleição. "Concordo
com o fato de que possa ter ocorrido [adesismo], mas discordo da prática.
Se quisermos ser uma grande democracia, os partidos têm de aprender
a sobreviver na oposição", diz o deputado Eliseu
Padilha (PMDB-RS).
Os políticos estão desde 2007 forçados a uma maior
fidelidade aos partidos, fruto da decisão do TSE (Tribunal Superior
Eleitoral) que determinou que os mandatos pertencem à legenda,
não ao político. Isso deve praticamente acabar com a
transferência de políticos de partidos derrotados nas
urnas para as legendas vitoriosas.
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Folha de São Paulo,
13 de abril de 2008
ENTREVISTA/LAWRENCE PIH
Presidente do grupo Moinho rebate críticas de que mudança
seria "golpe" e afirma que petista não é Chávez
3º mandato para
Lula é democrático se sociedade quiser, diz
empresário
FREDERICO VASCONCELOS
DA REPORTAGEM LOCAL
O empresário Lawrence Pih, 65, presidente do grupo
Moinho Pacífico, é favorável a um
terceiro mandato para que o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva possa prolongar o resgate da população
carente. "O projeto dele não está completo,
e a sociedade está satisfeita com seu governo",
diz.
Articulador de apoio empresarial nas últimas campanhas do PT,
Pih diz que "Lula, com certeza, não é Chávez",
não imita a Venezuela. Para ele, os empresários não
dizem abertamente que apoiariam um terceiro mandato, mas "acham
que não seria ruim continuarem as coisas como estão".
FOLHA - O sr. é favorável ao terceiro
mandato para o presidente Lula?
LAWRENCE PIH - Na conjuntura atual,
seria bom para o país. Pelo menos para que o programa
do presidente seja prolongado: distribuição
de renda, resgate da população mais carente
do país, universo importante que o governo conseguiu.
O país está crescendo num ritmo maior.
FOLHA - Como o sr. vê as críticas
ao terceiro mandato?
PIH - Algumas pessoas dizem que seria
um golpe. É um processo democrático. Até sugeriram
um plebiscito. Se houver consulta à sociedade
e a sociedade aprovar, seria a vontade da maioria. Se
a sociedade aprova que o presidente Lula merece um terceiro
mandato, porque o projeto dele não está completo,
e a sociedade está satisfeita com a forma de governo
que Lula vem conduzindo o país durante oito anos, é democracia,
meu Deus.
FOLHA - O governo está articulando o terceiro
mandato?
PIH - Não. Quando a economia
vai bem, quando a popularidade do presidente está alta,
o assunto vem à tona. Por que o ex-presidente
FHC e seu governo articularam o segundo mandato? Porque
a popularidade dele permitia, e não houve consulta à sociedade.
O Legislativo tomou para si a responsabilidade e com
gestões pouco elogiosas, como as acusações
de compra de voto para mudar a Constituição.
Essa conversa de golpe é uma questão de
conveniência.
FOLHA - Essa vontade resulta de projetos como
o Bolsa Família ou é disseminada em toda
a sociedade?
PIH - O Bolsa Família tem um aspecto
importante, o crescimento econômico também.
Hoje a população sente que está melhor
do que oito anos atrás. Você não pode
dizer que o governo usou o Bolsa Família para tentar
cooptar o eleitor. O eleitor se sente bem ou não.
FOLHA - Os programas seriam relegados com a alternância
de poder?
PIH - É possível que tenham
menos ênfase. Eu me lembro de governos anteriores
que defendiam a tese de crescer o bolo antes de distribuir.
Se um outro governo for um pouco mais ortodoxo, haverá menos ênfase.
Para o governo Lula, resgatar essa população carente é uma
questão muito cara.
FOLHA - A quem interessa agora o debate sobre
o terceiro mandato?
PIH - Naturalmente, vejo o governo,
o partido do presidente e a base aliada querendo manter
as coisas como estão: se manter no poder. A oposição
tem a obrigação de tentar obter o poder.
O PT não quis ser oposição eternamente.
Até usou de estratégias que não
usava no passado para chegar ao poder.
FOLHA - O deputado Devanir Ribeiro fala pelo amigo
presidente?
PIH - Não acho. Fala por segmentos
do partido e pela base aliada. Agora, tem que convencer
o presidente de que esse seria um caminho. No passado,
o presidente disse que era contra o terceiro mandato.
FOLHA - O presidente é sincero quando diz
que não pretende patrocinar mudanças na
Constituição?
PIH - Sim. Ele vê com bons olhos
o projeto de o governo continuar. Acredito que ele não
tem sede de poder. Uma das acusações é a
de que o governo está tentando imitar o modelo da
Venezuela. Lula, com certeza, não é Chávez.
FOLHA - O sr. viu espontaneidade no vice-presidente
José Alencar ao defender o terceiro mandato?
PIH - Vi. O vice critica o Banco Central,
fala com sinceridade. É espontâneo, expressa
sua opinião, não a do governo.
FOLHA - A idéia do terceiro mandato atende à falta
de candidatos fortes no PT para suceder Lula?
PIH - Acho que não existe candidato
forte em lugar nenhum do Brasil para suceder Lula, seja
de oposição, seja do governo.
FOLHA - Ao divulgar o PAC ao lado da "mãe
do PAC", Lula não estaria fazendo campanha
eleitoral?
PIH - É interessante. Se não
tivesse o PAC, diriam que o governo é inerte, não
investe, não se preocupa com infra-estrutura. Quando
faz, criticam porque é "eleitoreiro".
Sempre haverá motivo para criticar.
FOLHA - A ministra Dilma Rousseff seria uma boa
candidata?
PIH - A ministra é muito competente.
Não tem carisma como o Lula. Ela não tem
tanto talento político, mas com certeza seria
uma grande executiva.
FOLHA - Empresários querem o terceiro mandato?
O sr. é voz isolada?
PIH - Muitos estão tendo resultados
expressivos, estão vendo a estabilidade econômica
e que o governo conduz com seriedade a economia. Acham
que não seria ruim continuar as coisas como estão.
Não dizem que apoiariam um terceiro mandato, mas
veriam com bons olhos que as coisas fiquem como estão.
Não têm do que reclamar.
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