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Diário Vermelho,
21 de abril de 2008
Lula desafia: por que os países
ricos não taxam o petróleo?
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou neste
domingo (20) a tarifa imposta ao etanol brasileiro por países
desenvolvidos. "Quando lançamos a proposta de produzir
biodiesel no Brasil, eu imaginava que não iríamos ter
muitos adversários no mundo desenvolvido", disse, durante
a inauguração de um escritório da Embrapa em
Acra, capital de Gana.
" Eu não consigo entender por que os países
ricos não falam mal do preço do petróleo.
Quanto implica, no custo do alimento, um barril de petróleo
a US$ 103? Por que os países ricos sobretaxam o
etanol brasileiro e não taxam o petróleo?"
O presidente voltou a defender os biocombustíveis
da acusação de que eles estariam provocando
um aumento internacional nos preços. Após
a cerimônia na Embrapa, Lula discursou na abertura
da reunião especial da Conferência das Nações
Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad).
Lula disse que "não há contradição
entre a busca de fontes alternativas de energia e o desenvolvimento
de padrões agrícolas que garantam a segurança
alimentar". "Este é um desafio que estamos
enfrentando com êxito em nosso País",
disse Lula, segundo agência do governo.
Ele também críticou o "a tentação
dos países ricos em acentuar suas práticas
protecionistas". "Os subsídios milionários
pagos pelo Tesouro dos países ricos são como
uma droga que entorpece e vicia seus próprios produtores,
mas cujas maiores vítimas são os agricultores
das nações mais pobres."
O secretário-geral das Nações Unidas,
Ban Ki-Moon, que também participou da abertura da
reunião, disse que se o atual aumento no preço
dos alimentos não for contido, a crise pode afetar
o crescimento e a segurança do mundo, prejudicando
o combate à pobreza. "Nós corremos o
risco de voltar à estaca zero", disse o secretário-geral
em Gana durante a abertura.
" Assassinato em massa"
Em Viena, na Áustria, o relator especial da ONU
para o direito ao alimento, Jean Ziegler, colocou mais
pimenta na discussão e voltou a atacar a produção
de etanol neste domingo, colocando numa mesma análise
os biocombustíveis feitos a partir de milho e cana-de-açúcar.
Ele disse em entrevista ao jornal austríaco Kurier
am Sonntag, que o ocidente é culpado pela "fome
em massa", devido ao crescimento dos biocombustíveis, à especulação
no mercado de commodities e aos subsídios para exportação
agrícola da União Européia.
Ziegler afirmou ainda que os mercados de commodities
estão trazendo "terror" ao mundo e que
a inflação do preço dos alimentos é o
equivalente a um "silencioso assassinato em massa".
Da redação, com informações
da BBC
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Diário Vermelho,
21 de abril de 2008
Por que, afinal, ainda existe
trabalho escravo no país?
No ano em que o etanol brasileiro virou
vedete internacional devido à busca por alternativas ao petróleo
e o presidente Lula disse que os usineiros estavam deixando de ser "bandidos" para
se tornarem "heróis", o país bateu o recorde
de libertações de escravos em fazendas de cana-de-açúcar.
Como era de se esperar, o sucesso econômico ficou na mão
de poucos e não se traduziu em melhoria da qualidade de vida
dos trabalhadores.
Por Leonardo Sakamoto, do Repórter Brasil*
Pelo contrário: dos 5.973 libertados da escravidão
pelo governo federal em 2007, 52% - 3131 - estava em atividades ligadas à cana-de-açúcar
nos estados do Pará, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Goiás,
São Paulo e Ceará. Em 2006, houve o registro de 289
trabalhadores libertados no setor sucroalcooleiro, e, no ano anterior,
apenas em uma das ações 1.003 ganharam a liberdade,
na Destilaria Gameleira, em Confresa (MT). Em 2007, a cana ficou
em primeiro lugar no número de libertados devido à grande
quantidade de mão-de-obra que utiliza. Contudo, os pecuaristas
continuam ocupando o topo do pódio em quantidade de fazendas
que escravizam.
A maior libertação do ano (e de todos os tempos)
ocorreu na fazenda e usina Pagrisa, em Ulianópolis (PA). Em
junho de 2007, 1.064 pessoas foram resgatadas da propriedade. Políticos,
como os senadores Flexa Ribeiro (PSDB-PA) e Kátia Abreu (DEM-TO),
e lideranças patronais pressionaram os auditores fiscais para
que fosse revista a autuação. Por conta disso, o Ministério
do Trabalho e Emprego (MTE) optou por interromper temporariamente
as operações dos grupos móveis, levando a manifestações
e atos de apoio à fiscalização em todo o país.
Na avaliação das instituições da sociedade
civil que atuam no combate ao trabalho escravo, o Caso Pagrisa acabou
fortalecendo as instituições que atuam nessa área
e trouxe novamente para o debate temas como a PEC do Trabalho Escravo,
que prevê o confisco de terras em que o crime for encontrado
e sua destinação à reforma agrária.
Devido ao aumento da produção de etanol, o Ministério
do Trabalho e Emprego e o Ministério Público do Trabalho
(MPT) promoveram ações especiais para averiguar as
condições de trabalho e fiscalizar o setor sucroalcooleiro.
Isso resultou em aumento do número de flagrantes. Ou seja,
ao mesmo tempo em que a expansão da cana para novas áreas
estava gerando um aumento nos casos de trabalho escravo, também
uma demanda reprimida passou a ser fiscalizada com mais intensidade
neste ano, revelando uma situação precária em
regiões em que a cultura tem uma tradição histórica.
A incidência do trabalho escravo está concentrada
nas regiões de expansão agropecuária da Amazônia
e do Cerrado. Contudo, há casos confirmados nos Estados de
São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul,
o que demonstra que a origem desse fenômeno não está vinculada
apenas à fronteira agrícola, mas a outro elemento que
perpassa realidades sociais diferentes. Que elemento é este?
O que garante que práticas que pareciam extintas, vinculadas
a modos de produção que aparentemente foram destruídos
pelo avanço do capital, continuem existindo?
Os relatórios de fiscalização do Ministério
do Trabalho mostram que os empregadores envolvidos nesse tipo de
exploração não são pequenos sitiantes
isolados economicamente do restante da sociedade, mas na maioria
das vezes, latifundiários, muitos deles produzindo com tecnologia
de ponta. Não importa que a fazenda esteja escondida no meio
da fronteira agrícola, ela estará conectada pelo comércio
ao sistema global e dele dependente. Prova disso são as pesquisas
de cadeias produtivas da ONG Repórter Brasil realizadas em
2004 e 2007: elas mostram como mercadorias produzidas em propriedades
que utilizaram mão-de-obra escrava são vendidas para
a indústria e o comércio dentro e fora do Brasil.
A produção capitalista necessita de espaços
não-capitalistas para se desenvolver. Em função
de sua natureza e forma de existência, não admite limitações
na aquisição de matéria-prima e na criação
de mercados. Vale lembrar que ao longo de séculos, países
e corporações têm ido à guerra por esse
motivo. Em um curto espaço de tempo, de acordo com uma sinalização
de demanda pelos centros capitalistas nacionais e globais, os empreendimentos
agropecuários são capazes de se expandir sobre áreas,
na maioria das vezes, ocupadas por populações que vivem
sob um modo de produção não-capitalista. Em
questão de anos, surgem grandes fazendas de gado, lavouras
de soja, algodão e cana-de-açúcar, além
de carvoarias, produzindo matéria-prima e gêneros alimentícios,
onde antes viviam populações indígenas, camponeses,
comunidades quilombolas ou ribeirinhas.
Nessa expansão, coexistem tecnologia de ponta, vendida e
financiada pelos mesmos centros capitalistas nacionais e globais,
e formas ilegais de trabalho. O que parece contraditório na
verdade expressa um processo fundamental para o desenvolvimento desses
empreendimentos, acelerando sua capitalização e garantindo
a capacidade de concorrência.
A utilização de trabalho escravo contemporâneo
não é resquício de modos de produção
arcaicos que sobreviveram provisoriamente à introdução
do capitalismo, mas sim um instrumento utilizado pelo próprio
capital para facilitar a acumulação em seu processo
de expansão. A superexploração do trabalho,
da qual a escravidão é sua forma mais cruel, é deliberadamente
utilizada em determinadas regiões e circunstâncias como
parte integrante e instrumento do capital. Sem ela, empreendimentos
mais atrasados em áreas de expansão não teriam
a mesma capacidade de concorrer na economia globalizada. Por conseguinte,
o crescimento da oferta de produtos agropecuários no mercado
seria mais lento, o que reduziria o ritmo de queda dos preços
das matérias-primas em escala global, prejudicando o comércio
e a indústria que demandam sempre mais por menos.
Há condições sociais que facilitam a disponibilização
de mão-de-obra para essa pilhagem constante da força
de trabalho. Em verdade, elas são conseqüências
do próprio sistema, como o crescimento do exército
de reserva de mão-de-obra que resulta da progressiva redução
da participação relativa do trabalho na composição
do capital. Mas também do processo de grilagem e expulsão
de posseiros e de outras populações tradicionais de
suas terras na região de fronteira agrícola amazônica
- freqüente durante o regime militar nas décadas de 70
e 80 e que se mantém ainda hoje - que serve tanto para aumentar
o contingente de mão-de-obra para o campo e as cidades, quanto
para ampliar os territórios dos empresários.
Isso, estruturalmente, gera um excedente alijado de meios de produção
e emprego, diminuindo o valor de mercado a ser pago por um serviço.
Os trabalhadores são impelidos a aceitar a oferta de serviço
do "gato", mesmo não recebendo garantias de que
as promessas dadas no momento do recrutamento serão cumpridas.
Baseado nesse contexto de fragilidade social, promovido pelo próprio
capital, o capitalista pode utilizar a mão-de-obra necessária
pagando o montante que desejar. Que pode ser nada no caso do trabalho
análogo ao escravo.
As propriedades rurais mais atrasadas do ponto de vista tecnológico
tendem a compensar essa diferença através de uma constante
redução da participação do "trabalho" no
seu custo total. Simulam dessa forma uma composição
orgânica do capital de um empreendimento mais moderno, em que
a diminuição da participação do custo
do trabalho através do desenvolvimento tecnológico.
Em outras palavras, há fazendeiros que retiram o couro do
trabalhador para poder concorrer no mercado. Outros se aproveitam
dessa alternativa não para gerar competitividade, mas para
capitalizar-se durante um período de tempo (e depois trocar
trabalhadores por colheitadeiras) ou aumentar sua margem de lucro.
A escravidão contemporânea não é um
desvio, portanto, e sim mais uma aparente contradição
do capital que utiliza formas que parecem negar a sua própria
natureza, ignorando assalariamento e o contrato social estabelecido
entre tomadores e vendedores de força de trabalho.
Parte do Estado tem desempenhado um importante papel nesse processo
ao garantir as condições estruturais e financeiras
e segurança para possibilitar o desenvolvimento econômico
em situações e regiões de expansão agropecuária
e do extrativismo. Proprietários rurais que utilizaram mão-de-obra
escrava possuem representação política ou participam
direta ou indiretamente das decisões que protegem esse modelo.
Ao mesmo tempo, há setores do Estado que são atores
fundamentais no combate à escravidão. Os grupos móveis
de fiscalização, formados pelo Ministério do
Trabalho e Emprego, Ministério Público do Trabalho
e Polícia Federal, têm atuado constantemente na libertação
de escravos. E indenizações milionárias contra
fazendeiros vêm sendo concedidas pela Justiça do Trabalho
atendendo a ações de procuradores. No acumulado, de
1995 até o final de 2007, quando foi implantado o sistema
de combate ao trabalho escravo, 28.508 pessoas foram libertadas.
Contudo, isso é pouco. E não por conta da diferença
entre denúncias (50.564 entre 1996 e 2007) e libertações,
mas porque, em nenhum momento, o Estado tem atuado para desestruturar
ou subverter o sistema que produz as condições necessárias
ao surgimento de escravos, como a concentração de terras
e de meios de produção no campo nas mãos de
poucos.
No curto prazo, como medida paliativa, pode-se atacar a possibilidade
da realização de lucros obtidos através do trabalho
escravo, inviabilizando economicamente os empreendimentos que adotam
essa prática. Isso pode acontecer através de boicote
aos produtos ou vedação de crédito. Bancos públicos
(e alguns privados) e empresas já têm evitado relacionamento
financeiro e comercial com empregadores que usaram escravos, graças à "lista
suja" do governo federal e ao Pacto Nacional pela Erradicação
do Trabalho Escravo, que hoje conta com mais de 100 signatários.
A questão é comercial. As empresas não querem
ter sua imagem associada ao trabalho escravo, considerando que há um
mercado global extremamente competitivo em que a vinculação
de um ator a um risco desses pode levá-lo a ser preterido
comercialmente dentro e fora do país. Ou mesmo receber um
calote porque o proprietário deslocou todo os seus recursos
para o pagamento de indenizações por trabalho escravo.
O trabalho escravo contemporâneo não é uma
doença, mas sim uma febre, o sintoma de um problema maior
que se manifesta na expansão ou modernização
de empreendimentos. Portanto, a sua erradicação não
virá apenas com a libertação de trabalhadores,
equivalentes a um remédio anti-térmico - necessária,
mas paliativa. Erradicar o trabalho escravo contemporâneo passa
por uma mudança profunda que altere a lógica do sistema.
Nesse contexto, a Comissão Pastoral da Terra, o Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, entre outros movimentos sociais,
sindicatos de trabalhadores rurais, associações de
economia solidária e organizações não-governamentais
defendem a realização de uma ampla reforma agrária
como elemento fundamental no combate à escravidão.
A distribuição de terra não é a panacéia
para o problema da exploração do trabalho no país.
Mas ela representa uma mudança na estrutura do capital e no
modelo de expansão do modo de produção. Mesmo
que parcial, a socialização dos meios de produção
no campo significaria um pesado golpe no capital que, direta ou indiretamente,
se aproveita do exército reserva de mão-de-obra disponível
para superexplorá-lo.
Uma reforma agrária real não representaria o fim
da transformação de seres humanos em instrumentos descartáveis
de trabalho. Mas seria um sinal de que não precisaríamos
esperar que a expansão do capital absorvesse todas as realidades
externas a ele, fechando por fim a última fronteira agrícola
do planeta e levando a um colapso do sistema. A classe trabalhadora
pode intervir na aparentemente inexorável marcha da história,
libertando-se dos que a escravizam e produzindo seu próprio
destino.
* Jornalista e doutor em Ciência Política, é coordenador
da ONG Repórter Brasil.
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Congresso em Foco, 21 de
abril de 2008
Tiradentes, o revolucionário
Detalhe de "Tiradentes esquartejado" (1893),
de Pedro Américo
Celso Lungaretti*
"Brecht cantou: 'Feliz é o
povo que não tem heróis'.
Concordo. Porém nós não somos um povo feliz. Por
isso precisamos de heróis. Precisamos de Tiradentes."
(Augusto Boal, "Quixotes
e Heróis")
Será que os brasileiros sentem mesmo necessidade
de heróis, salvo como temas dos intermináveis
e intragáveis sambas-enredo? É discutível.
Os heróis são a personificação
das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando
sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.
Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse
sobre camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas
reunidas num saco constituem um saco de batatas...
O traço mais característico da nossa formação é a
subserviência face aos poderosos de plantão.
Os episódios de resistência à tirania
foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram
adesões numericamente expressivas.
Demoramos mais de três séculos para nos livrarmos
do jugo de uma nação minúscula, como
um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.
E o fizemos da forma mais vexatória, apelando ao
príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas
do fogo em nosso lugar, depois de assistirmos impassíveis à execução
e esquartejamento de nosso maior libertário.
Da mesma forma, o fim da escravidão só se
deu por graça palaciana e quando se tornara economicamente
desvantajosa. Antes, os valorosos guerreiros de Palmares
haviam sucumbido à guerra de extermínio movida
pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que merecidamente
passou à História como um dos maiores assassinos
do Brasil.
E foi também pela porta dos fundos que nosso país
entrou na era republicana e saiu das duas ditaduras do
século passado (a de Vargas terminou por pressões
estadunidenses e a dos militares, por esgotamento do modelo
político-econômico). Todas as grandes mudanças
positivas acabaram se processando via pactos firmados no
seio das elites, com a população excluída
ou reduzida ao papel de coadjuvante que aplaude.
É verdade que houve fugazes despertares da cidadania,
como em 1961, quando a resistência encabeçada
por Leonel Brizola conseguiu frustrar o golpe de estado
tentado pelas mesmas forças que seriam bem-sucedidas
três anos mais tarde; em 1984, com a inesquecível
campanha das "diretas-já", infelizmente
desmobilizada depois da rejeição da Emenda
Dante de Oliveira, com o poder de decisão voltando
para os gabinetes e colégios eleitorais; e em 1992,
quando os caras-pintadas foram à luta para forçar
o afastamento do presidente Fernando Collor.
Nessas três ocasiões, a vontade das ruas
alterou momentaneamente o rumo dos acontecimentos, mas
os poderosos realizaram manobras hábeis para retomar
o controle da situação. Rupturas abertas,
entre nós, só vingaram as negativas.
Vai daí que, em vez de heróis altaneiros,
os infantilizados brasileiros são carentes mesmo é de
figuras protetoras, dos coronéis nordestinos aos
padins Ciços da vida, com especial ênfase
em pais dos pobres tipo Getúlio Vargas e Luiz Inácio
Lula da Silva.
Então, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Frei Caneca,
Carlos Marighella, Carlos Lamarca e outros dessa estirpe
jamais serão unanimidade nacional, como Giuseppe
Garibaldi na Itália ou Simon Bolívar para
os hermanos sul-americanos.
O 21 de abril é um dos menos festejados de nossos
feriados. E o próprio conteúdo revolucionário
de Tiradentes é escamoteado pela história
oficial, que o apresenta mais como um Cristo (começando
pelas imagens falseadas de sua execução,
já que não estava barbudo e cabeludo ao marchar
para o cadafalso) do que como transformador da realidade.
Então, vale mais uma citação do artigo
que Boal escreveu quando do lançamento da antológica
peça Arena Conta Tiradentes, em 1967: "Tiradentes
foi revolucionário no seu momento como o seria em
outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que
romanticamente, a derrubada de um regime de opressão
e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover
a felicidade do seu povo. (...) No entanto, este comportamento
essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar,
prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação
da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada
pelas ruas com baraço e pregação (...)
O mito está mistificado".
Quando o povo brasileiro estiver suficientemente amadurecido
para tomar em mãos seu destino, decerto encontrará no
revolucionário Tiradentes uma das maiores inspirações.
*Celso Lungaretti, 57 anos, é jornalista
em São Paulo, com longa atuação em
redações e na área de comunicação
corporativa, e escritor. Escreveu Náufrago da utopia
(Geração Editorial, 2005). Mais dele em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/.
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Gazeta do Povo, 21 de abril
de 2008
Operação Arco de Fogo
Madeira ilegal será aproveitada
I bama já solicitou o uso de madeira apreendida
para bancos escolares e móveis para instituições
públicas
Brasília - As madeiras de origem ilegal apreendidas por fiscais
do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
(Ibama) em ações vinculadas à Operação
Arco de Fogo, iniciada em fevereiro, devem ser revertidas em bancos
escolares e outros móveis e imóveis de uso das instituições
públicas. A informação foi dada pelo chefe de
fiscalização do Ibama-DF, Ênio Cardoso. “Nós
já estamos com ações para pedir o perdimento (perda
de bens em favor do Estado) dessa madeira. Ela será transformada
em bancos e armários escolares e casas para instituições
públicas”, afirmou.
Realizada pelo Ibama, pela Polícia Federal e Força Nacional
de Segurança, a Operação Arco de Fogo tem como
objetivo combater a exploração ilegal de madeira nos
36 municípios que mais desmataram a Amazônia no ano passado.
Apesar de estar bem distante da região, Brasília, segundo
Cardoso, é o 11º município em consumo de madeira
da Amazônia.
No Distrito Federal, além de apreender caminhões com
cargas ilegais na divisa, o Ibama está fazendo apreensões
também nos depósitos de madeireiras. Cardoso explicou
que, enquanto um caminhão carrega cerca de 25 metros cúbicos
de madeira, já foram encontrados em algumas madeireiras até 600m3
do produto. Desde o início da operação na capital
federal, há pouco mais de um mês, cerca de 40 madeireiras
com produto de origem ilegal já foram auditadas, interditadas
e multadas.
“Existe hoje um sistema que se chama Documento de Origem Florestal
(DOF). Esse documento funciona como crédito e débito,
como se fosse uma conta bancária. Então, temos como rastrear
de onde saiu essa madeira por essa transação de compra
e venda que cai na rede de computadores do Ibama. Quando vamos lá e
verificamos que o estoque é maior do que se declarou, com certeza
a origem é ilegal”, explicou Cardoso.
Depois de verificada a irregularidade, a empresa é bloqueada
no sistema do Ibama e não pode mais fazer nenhuma transação
com madeira. Além disso, afirma Cardoso, a empresa é visitada
toda semana por fiscais para verificação do estoque,
que não pode aumentar. O valor da multa a ser aplicada varia
de R$ 100 a R$ 500 por metro cúbico de madeira ilegal encontrado.
O transportador da madeira ilegal perde o caminhão e a carga. “Porque
todo instrumento utilizado na prática de crime ambiental deve
ser apreendido. O caminhão é apreendido e o Ibama pede
o perdimento desse bem”, acrescenta o chefe de fiscalização
do Ibama-DF. Segundo Cardoso, até hoje nenhum caminhoneiro conseguiu
recuperar um caminhão apreendido por esse motivo.
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Gazeta do Povo, 21 de abril
de 2008
Selic
Explicação sobre
alta dos juros sai na quinta-feira
Passada a reunião do Comitê de Política
Monetária (Copom) do Banco Central, na qual foi
elevada a taxa básica de juros no Brasil de 11,25%
para 11,75% anuais, o mercado financeiro espera para esta
semana a divulgação da ata do encontro. O
documento vai ser conhecido na quinta-feira e trará explicações
sobre a decisão relativamente surpreendente tomada
na semana passada. Além disso, a explicação
contida na ata pode sinalizar o rumo que tomará a
taxa Selic nos próximos meses.
Por enquanto, o mercado prevê que os juros seguirão
em alta, alcançando os 12,75% anuais até o
fim de 2008. A próxima reunião do Copom – que é formado
por diretores do BC – ocorrerá apenas nos
dias 3 e 4 de junho.
Bolsa
Apesar de juro em alta ser uma notícia negativa
para o mercado acionário, a Bolsa de Valores de
São Paulo (Bovespa) registrou valorização
de 3,73% na semana passada. Hoje os mercados não
funcionarão no Brasil, devido ao feriado. Mas, a
partir de amanhã, com o retorno dos negócios,
pode haver agitação. Uma série de
indicadores, especialmente no setor imobiliário
dos Estados Unidos, serão divulgados. A agenda americana
traz a divulgação dos resultados de vendas
de casas usadas, do índice de preços de imóveis
e do nível de confiança do consumidor.
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Folha de São Paulo,
21 de abril de 2008
Paraguai elege Fernando Lugo
presidente
Vitória de ex-bispo oposicionista
põe fim a 61 anos de domínio do Partido Colorado,
o mais longo em vigor no mundo
Governista Blanca Ovelar admite derrota;
esquerdista cuja coalizão abrange todo o espectro
político convida a oposição para reerguer
país
FÁBIO VICTOR
ENVIADO ESPECIAL A ASSUNÇÃO
O ex-bispo católico Fernando Lugo, 56, foi eleito
ontem presidente do Paraguai. Às 22h50 de Brasília,
com 92% das urnas apuradas, ele tinha 40,8% dos votos,
contra 30,7% da candidata governista, Blanca Ovelar, e
21,9% do general reformado Lino Oviedo.
Blanca e Oviedo, assim como o presidente Nicanor Duarte, reconheceram
a derrota poucas horas após Lugo ter feito as primeiras declarações
como vencedor. "Hoje podemos afirmar que os pequenos também
são capazes de vencer", disse o ex-bispo a correligionários
que invadiram o seu QG de campanha no início da noite.
Mais tarde, no centro de Assunção, diante de uma multidão
reunida no Panteão dos Heróis, mesmo lugar onde o povo
comemorou em 1989 a queda da ditadura de 35 anos de Alfredo Stroessner,
ele afirmou: "O Paraguai vai deixar de ser lembrado só por
ser o país da corrupção. Vocês são
os próceres de 20 de abril de 2008".
O êxito de Lugo, eleito pela APC (Aliança Patriótica
para a Mudança, na sigla em espanhol), uma ampla coalizão
com partidos de várias tendências, marca o fim de 61 anos
de poder do Partido Colorado -a maior hegemonia de uma agremiação
política em curso no mundo.
Significa também mais um triunfo de um candidato com propostas
de esquerda na América do Sul. Dos principais países
do continente, só Colômbia e Peru têm governantes
ideologicamente conservadores. Quando os primeiros resultados indicaram
vitória da oposição, milhares de pessoas saíram às
ruas da capital, fazendo buzinaço, se abraçando e cantando: "Se
sente, se sente, Lugo presidente" e "O povo unido jamais
será vencido".
" Para o paraguaio honesto, que trabalha duro todo dia, é um grande
dia. Nossos compatriotas foram obrigados a ir para o exterior, porque esse partido
governava o país como se fosse o pátio de sua casa. Eu estou realizada",
vibrava América Perez de Palacios, 66, dançando e portando uma
bandeira do movimento social Tekojoja.
Depois das palavras iniciais, e antes de discursar ao povo, Lugo, que
toma posse em agosto, falou à imprensa num hotel, onde fez um
chamamento aos derrotados. "Estamos convencidos de que este país
tem direito a melhores condições. Faço um convite
especial à toda a classe política paraguaia, a todos
sem exceção, inclusive aos que não compartilham
de nossos ideais, a apostar neste país, que foi grande e, com
todos juntos, voltará a ser grande."
Desde o fechamento das urnas, às 17h, já se projetava
a vitória de Lugo. Em cinco levantamentos de boca-de-urna, o
ex-bispo, que liderou toda a campanha, derrotou Blanca.
Votação tranqüila
O temor de fraude que dominou a reta final da campanha reapareceu com
menos força ontem. A Transparência Internacional denunciou
compra de votos e intimidação por parte de dirigentes
colorados. A missão de observadores da Organização
dos Estados Americanos (OEA), porém, tratou os casos como "totalmente
isolados" e celebrou o clima de tranqüilidade que marcou
a votação.
Num sinal de descontrole e da divisão da sigla, os colorados
travaram uma guerra interna verbal durante o dia, detonada pela declaração
do candidato derrotado nas primárias, Luis Castiglioni, de que
o partido sofre uma "infecção grave" e que
ele iria curá-la.
Ao votar, às 7h10 locais, numa escola em Lambaré, cidade
onde vive, na Grande Assunção, Lugo estava acompanhado
do candidato a vice, Federico Franco, do frade dominicano brasileiro
Frei Betto e da argentina Hebe de Bonafini, líder das Mães
da Praça de Maio. Depois, ele assistiu a uma missa.
Eleito, Lugo terá ainda de lidar com sua herança religiosa.
Ele renunciou à diocese de San Pedro em 2005 e ao sacerdócio
no fim de 2006. A primeira foi aceita pelo Vaticano, a segunda não.
Ele está suspenso "a divinis" pela Santa Sé:
não pode exercer o sacerdócio nem ter cargos eclesiásticos,
mas, para a Igreja Católica, ainda é bispo, sujeito à autoridade
papal.
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Agência Brasil, 21
de abril de 2008
TST alega que governo tem
de assumir direitos trabalhistas de terceirizados em caso
de falência
Wellton Máximo
Repórter da Agência Brasil
Brasília - Em vez de promover economia para o
governo, a terceirização de funcionários
em ministérios, autarquias e nos demais órgãos
públicos está trazendo prejuízo para
a União e os contribuintes. De acordo com o sindicato
que representa os trabalhadores terceirizados, a falta
de cuidado na escolha das empresas prestadoras de serviços
por meio do sistema de pregão eletrônico freqüentemente
resulta em sonegação e em ações
judiciais contra o Estado.
Na prática, a administração pública
tem arcado com os direitos dos trabalhadores das empresas
terceirizadas que vão à falência. Em
2000, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) alterou a Súmula
331 e entendeu que a responsabilidade pelo pessoal terceirizado é de
quem toma os serviços. Com a decisão, os órgãos
públicos passaram a assumir as dívidas dessas
empresas com a previdência e o Fundo de Garantia
do Tempo de Serviço (FGTS).
“Se não fosse a Súmula 331, nem adiantaria
os trabalhadores recorrerem à Justiça porque
cobrar de empresas falidas é praticamente impossível”,
afirma a presidente do Sindicato dos Empregados em Empresas
de Asseio, Conservação, Trabalho Temporário
e Serviços Terceirizáveis do Distrito Federal
(Sindiserviços), Isabel Caetano dos Reis. “No
final, quem paga a conta das empresas irresponsáveis
são todos os brasileiros.”
Segundo o diretor do Departamento Trabalhista da Advocacia-Geral
da União (AGU), Mário Luiz Guerreiro, o entendimento
do TST tem provocado uma enxurrada de ações
contra o Poder Público. Ele calcula que atualmente
existam 5 mil processos contra a União movidos por
trabalhadores terceirizados. “Na verdade, existe
uma controvérsia em torno de quem deve assumir a
responsabilidade pelo pessoal terceirizado”, argumenta.
O diretor da AGU alega que, apesar do entendimento do
TST, a Lei de Licitações garante que o Poder
Público só é responsável pelos
débitos previdenciários, como ocorre com
qualquer empregador que deixa de recolher a contribuição
previdenciária. “Por lei, a União é obrigada
a cobrir o prejuízo de qualquer empregador que não
recolhe INSS, mas não outras dívidas, como
FGTS e salários atrasados”, explica.
A decisão sobre o assunto está nas mãos
do Supremo Tribunal Federal (STF). No ano passado, o governo
do Distrito Federal (GDF), acompanhado de estados, municípios
e da própria AGU, deu entrada numa Ação
Declaratória de Constitucionalidade (ADC) para que
o Supremo julgue a validade da Súmula 331. O ministro
Cezar Peluso, relator do caso, não concedeu liminar
e o julgamento no plenário do STF ainda não
tem previsão de data.
Enquanto não sai uma decisão final sobre
quem deve ficar com o prejuízo, funcionários
terceirizados sofrem com os calotes das empresas. O auxiliar
de serviços gerais F., 42 anos, foi vítima
de duas empresas que prestavam serviços de faxina
para o Banco do Brasil nos últimos quatro meses. “A última
empresa entrou em fevereiro e ficou apenas dois meses porque
fizemos uma paralisação e pedimos que o banco
trocasse a empresa”, relata o servente, que não
quis se identificar com receio de perder o emprego.
Reaproveitado nas duas substituições por
causa de um acordo entre o Sindiserviços e o sindicato
das empresas terceirizadas, F. diz que colegas passaram
dois meses sem receber salário, vale-transporte
e vale-refeição. “No meu caso, estão
me devendo férias e salário-família
e nem sei quando vou receber isso na Justiça”,
reclama. Nos cálculos do Sindiserviços, as
ações dos funcionários terceirizados
levam em média quatro anos e meio para serem julgadas.
Apesar de ter substituído três empresas terceirizadas
somente neste ano por abusos com funcionários (duas
na área de faxina e uma de apoio técnico
para o gabinete da presidência), o Banco do Brasil
não informou se pretende reforçar os cuidados
na contratação de prestadores de serviço. “O
Banco do Brasil tem uma política de relacionamento
com fornecedores que prevê que as empresas contratadas
devem garantir benefícios sociais e trabalhistas
aos empregados”, limitou-se a informar o órgão
em nota à Agência Brasil.
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Folha de Londrina, 21 de
abril de 2008
BC inicia um novo ciclo de
alta na taxa Selic
Projeções do mercado
apontam que banco cortará juros, a partir de abril
de 2009, impulsionando economia em 2010 - ano da sucessão
de Lula e governadores
Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr

Para analista, Lula é um
estrategista: melhor avalizar um ajuste na taxa de juros
agora do que em um período de eleições
Brasília - Ao aumentar a taxa básica de juros na semana
passada, de 11,25% para 11,75%, o Banco Central (BC), na visão
do mercado financeiro, iniciou um novo ciclo de alta na Selic. Se,
de fato, os juros forem mantidos no patamar atual ou continuarem subindo
nas próximas reuniões do Comitê de Política
Monetária (Copom), esse será o terceiro ciclo de elevação
na Selic desde 2003.
De novo, o movimento de alta terá seu impacto sobre
a atividade econômica em um ano sem eleição,
no caso, em 2009. Nas duas vezes em que o BC promoveu sequências
de cortes nos juros na era Lula/Meirelles, elas atingiram
em cheio anos de eleição municipal e presidencial,
respectivamente, 2004 e 2006, acelerando a economia, sem
que a inflação ficasse fora da meta.
Se o mercado estiver certo em suas projeções,
o BC voltará a cortar os juros a partir de abril
de 2009, dando impulso à atividade econômica
em 2010, o ano da sucessão de Lula e dos governos
estaduais.
A comparação entre movimentos de política
monetária e períodos eleitorais é feita
levando-se em consideração que alterações
na taxa básica de juros levam de seis a nove meses
para afetar a economia. Assim, a alta ''preventiva'' de
0,5 ponto na semana passada e as que estariam por vir só surtirão
efeito quando as eleições municipais já estiverem
resolvidas.
O ano de 2005
O ano eleitoral de 2008 - quando ainda serão percebidos
na economia os cortes realizados no segundo e no terceiro
trimestres de 2007 - promete ter um crescimento vigoroso.
As reduções nos juros em 2007 fizeram parte
de um longo ciclo de quedas da taxa iniciado em setembro
de 2005. O movimento garantiu uma forte aceleração
do crescimento econômico já a partir do segundo
semestre de 2006, ano da reeleição de Lula,
e ao longo de 2007.
Antes disso, o BC de Meirelles havia promovido seu primeiro
ciclo de redução nos juros entre junho de
2003 e abril de 2004, ano em que o País teve o maior
crescimento do primeiro mandato de Lula. Os cortes vieram
alguns meses depois do aperto implementado pelo BC, no
início do governo Lula, em 2003. Na época,
existia um ambiente de incerteza sobre o futuro da economia
brasileira no governo petista. O BC elevou os juros para
tornar inequívoca a percepção de que
o governo não compactuava com uma inflação
de 12,5% ao ano.
Analistas ouvidos pela reportagem consideram que a relação
entre os ciclos de política monetária e os
períodos eleitorais é mera coincidência.
A avaliação majoritária é que
o BC tinha justificativa técnica todas as vezes
que subiu ou baixou os juros.
''Acho que isso é pura coincidência. Não
creio que o BC faça isso porque vai ajudar politicamente,
senão ele perderia toda credibilidade. Mas não
tenha dúvida que isso favorece o ciclo eleitoral'',
disse o ex-diretor do BC Carlos Thadeu de Freitas. ''Existe
uma coincidência eleitoral nítida, mas acho
que é pura coincidência.''
Freitas afirmou que a atuação do BC pode
ser questionada do ponto de vista da dosagem dos juros,
mas ressaltou que os movimentos de alta e queda na Selic
ocorreram na hora certa.
A economista-chefe do Banco Real, Zeina Latif, concorda.
''De fato, todos os movimentos de alta do juro ocorreram
quando era necessário. O máximo que se pode
dizer é que o governo teve sorte'', afirmou Zeina.
Ela explicou que na literatura econômica se constata
a vinculação de ciclo eleitoral com política
fiscal, mas não com política monetária.
No Brasil, uma tese de mestrado do economista Fernando
Roberto Fenólio trata do tema, analisando a política
monetária desde 1999. Ele conclui que não
há evidências de manipulação
de juros com fins eleitoreiros, ''atestando a ausência
de ciclos políticos na política monetária''
e reforçando a percepção de independência
do BC.
Para um analista de mercado, que pediu para não
se identificar, a pergunta que fica no ar é: ''Será que
se estivéssemos em ano de eleição
presidencial haveria maior pressão de Lula para
o BC não subir os juros? A gente não vai
ter essa resposta. Mas acho que sim''. A fonte observa,
no entanto, que Lula é um estrategista e, provavelmente,
deve considerar que é melhor avalizar um ajuste
na taxa de juros neste momento do que em um período
de eleições.
O estrategista-chefe do banco BNP Paribas, Alexandre Lintz,
também considera uma coincidência a relação
entre política monetária e eleição.
Mas avalia que o bom relacionamento do BC com Lula é em
função da capacidade de o governo entregar
a economia em bom ritmo em ano de eleição.
''O BC trabalha para que no longo prazo se tenha o melhor
ambiente econômico, e isso inclui 2009 e 2010'',
disse Lintz. Segundo ele, o objetivo da política
monetária é promover o melhor balanço
entre crescimento e inflação. ''E esse é o
melhor balanço para o presidente Lula.''
Fabio Graner
Agência Estado
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