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Agência Câmara,
4 de maio de 2008
Doença de dependente pode dar
direito a licença remunerada
O Projeto de Lei 2714/07, do deputado Edgar Moury (PMDB-PE), permite
ao trabalhador se ausentar do trabalho, sem prejuízo dos vencimentos,
se tiver um filho ou dependente menor de idade hospitalizado ou doente
em risco de vida. O projeto cria o auxílio-doença de dependente
menor para contemplar os trabalhadores que necessitarem desse tipo de
afastamento. A medida beneficiará os empregados regidos pela Consolidação
das Leis do Trabalho (Decreto-Lei 5.452/43).
Esse novo benefício terá regras similares às
do auxílio-doença concedido aos segurados do
Instituto Nacional do Seguro Social (INSS): os primeiros
15 dias de afastamento são pagos pelo empregador,
e a Previdência Social paga a partir do 16º dia
de afastamento do trabalho. A comprovação da
doença do dependente se fará por meio de atestado
médico, e eventuais fraudes para recebimento do benefício
poderão causar demissão por justa causa.
Proteção à infância
De acordo com o parlamentar, o trabalhador da iniciativa privada atualmente
fica em situação difícil quando um filho fica
doente: ou ele deixa de assistir o dependente ou corre o risco de perder
o emprego por causa das faltas. Edgar Moury afirma que essa situação
afronta o princípio constitucional da dignidade humana e o da
proteção à infância.
Moury lembra que a legislação trabalhista
permite o afastamento remunerado para quem doa sangue ou
faz o alistamento militar, mas não cuida daqueles
que têm um dependente internado em hospitais.
Tramitação
A proposta, que tramita em caráter conclusivo, será analisada
pelas comissões de Trabalho, de Administração
e Serviço Público; de Seguridade Social e Família;
de Finanças e Tributação; e de Constituição
e Justiça e de Cidadania.
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Agência Câmara,
4 de maio de 2008
Projeto cria seguro obrigatório
para direitos trabalhistas
O deputado Ricardo Barros (PP-PR) apresentou à Câmara o
Projeto de Lei Complementar 274/08, que cria seguro obrigatório
para empresas privadas, a fim de garantir o pagamento de indenizações
relativas a direitos trabalhistas. A proposta altera o Decreto-Lei 73/66,
que trata do Sistema Nacional de Seguros Privados.
O autor explica que muitas das ações trabalhistas
movidas por empregados, ainda que improcedentes, acabam trazendo
prejuízos às empresas em razão de acordos
firmados entre as partes. Daí a necessidade de um
seguro, explica. "Esses acordos são compreensivelmente
incentivados por tribunais assoberbados. Mesmo arcando com
relativo prejuízo, os empregadores os aceitam, na
maioria das vezes, pela necessidade de se desvencilhar o
mais rápido possível dessas situações,
que os afastam das atividades fins de suas empresas",
observa Barros.
Na opinião do deputado, o seguro será positivo
não só para as empresas, mas também
para os empregados, que também estariam mais garantidos
quanto aos direitos trabalhistas que, eventualmente, tivessem
de questionar na esfera judicial.
Tramitação
O projeto tem regime de prioridade e será votado em plenário,
após análise das comissões de Trabalho, de Administração
e Serviço Público; de Finanças e Tributação;
e de Constituição e Justiça e de Cidadania.
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Agência Diap, 4 de
maio de 2008
TERCEIRIZAÇÃO
Governo impõe regras
e limites para contratação de empresas
O Diário Oficial da União publicou ontem uma série
de recomendações que passam a nortear a contratação
de serviços terceirizados por parte de órgãos públicos.
A Instrução
Normativa 2 estabelece novas regras que devem ser seguidas pela Administração
federal direta, autarquias e fundações. De acordo com o
Ministério do Planejamento, a intenção é dar
equilíbrio às relações entre empresas e Estado.
Mais completa e objetiva, a lei introduz conceitos importantes que podem
ajudar a União a minimizar problemas causados por empresas prestadoras
de serviço. Aumentam o controle, a fiscalização
e a capacidade do órgão de evitar danos financeiros. “É uma
ferramenta que auxilia o gestor a fiscalizar melhor. Permite que ele
acompanhe com segurança a execução do contrato”,
explicou Rogério Santanna, secretário de Logística
e Tecnologia da Informação (SLTI) do Ministério
do Planejamento.
O texto indica, por exemplo, as práticas que devem
ser seguidas na pré-licitação, no
planejamento e na definição dos serviços
a serem contratados. Faz uma série de recomendações
para aumentar a qualidade da licitação e
esclarece o que deve ser evitado. A lei também define
parâmetros para que os órgãos possam
verificar se as propostas de preços são factíveis.
Em março, o Correio denunciou que prestadoras de
serviço nas áreas de segurança e vigilância
vencem licitações, funcionam por um determinado
período e depois fecham as portas, deixando os trabalhadores
no prejuízo.
Uma súmula do Tribunal Superior do Trabalho (TST),
no entanto, assegura ao funcionário terceirizado
a possibilidade de receber tudo o que é devido,
inclusive salários atrasados e direitos funcionais.
Pela norma, o tomador dos serviços, o Estado, responde
de forma subsidiária pelo eventual não-,pagamento
das obrigações trabalhistas por parte do
empregador direto, a empresa terceirizada.
O Sindiserviços, entidade que reúne trabalhadores
desses segmentos, estima que, só no Executivo federal,
20 mil terceirizados atuem por meio de empresas de serviços
gerais. O governo não sabe ao certo quanto gasta
com os passivos trabalhistas, mas a Advocacia-Geral da
União (AGU) lida atualmente com cerca de 5 mil ações
do tipo. (Com CB e Planejamento)
Veja principais inovações
da IN:
• Os serviços devem ser mensurados por resultados
e não devem ser caracterizados como fornecimento
de mão-de-obra;
• Serviços distintos devem ser licitados
separadamente, com a celebração de contratos
independentes;
• Só é possível agrupar serviços
distintos em lotes (empreitada de preço global)
quando houver necessidade de inter-relação
entre os serviços contratados, gerenciamento centralizado
ou implicar vantagem para a Administração,
justificadamente;
• É obrigatória a segregação
das funções de executor e fiscalizador;
• Traz princípios e vedações
para a contratação de terceirização.
• Traz regras sobre a contratação
de cooperativas ou organizações sociais;
• Regulamenta a pré-contratação
(planejamento e construção do Projeto Básico
e do Edital), a licitação (julgamento das
propostas) e a pós-contratação (repactuação,
fiscalização e transição contratual);
• Regulamenta o Acordo de Níveis de Serviços,
como forma de verificação dos resultados
para o pagamento;
• Traz critérios para a verificação
da exeqüibilidade das propostas de preços;
• Apresenta novas produtividades de referência
para o serviço de limpeza e conservação
(600 m² - área interna e 1200 m² - área
externa;
• Traz orientações para a fiscalização
contratual.
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Folha de São Paulo,
4 de maio de 2008
O Brasil e a crise mundial
de alimentos
O mundo está assistindo
a uma inflação dos preços dos alimentos
de dimensões preocupantes, com repercussões
na segurança alimentar mundial. Estamos convencidos
de que essa crise coloca em discussão o modelo mundial
de produção e abastecimento de alimentos. A
situação atual exige uma reflexão séria
e responsável. Existem pelo menos quatro grandes fatores
que explicam o movimento dos preços agrícolas.
Por Guilherme Cassel, na Folha de
S.Paulo*
O primeiro é a produção de etanol de milho pelos
EUA. O país usa nada menos que 10% da produção
mundial de milho para produzir etanol. Isso equivale a duas safras
brasileiras de milho. É desnecessário comentar o quanto
tal demanda contribui para o aumento dos preços. Só no
ano passado, houve um incremento de 37% no uso de milho para etanol
nos EUA.
O segundo elemento é a especulação
financeira. Como conseqüência da crise imobiliária
norte-americana, da desvalorização do dólar
e da volta da inflação com baixo crescimento
econômico nos países desenvolvidos, as commodities
são o novo destino dos especuladores financeiros.
Outro componente é a demanda dos países em desenvolvimento
(PEDs), principalmente China e Índia, puxada pelo crescimento
populacional e pela mudança do padrão alimentar. Contudo,
conforme salienta a FAO (Organização das Nações
Unidas para Agricultura e Alimentação), há um
pequeno decréscimo no consumo per capita de cereais nos PEDs.
O que explica a aparente contradição desse
fenômeno é que faixas importantes de população
dos PEDs entraram na esfera de consumo da classe média.
O consumo de carne, por exemplo, cresceu 100% na China,
70% no Brasil e 20% na Índia nos últimos
15 anos. Como são necessários, em média,
7 kg de cereais para produzir 1 kg de carne, a mudança
no padrão alimentar também está inflacionando
o preço dos cereais.
De outro lado, essa elevação de preços
afeta de maneira dramática os 2,5 bilhões
de pessoas que vivem com menos de US$ 2 por dia.
Finalmente, concorrem a alta do preço do petróleo
e os problemas de safras causados pelo aquecimento global.
Há importantes perdas de produção
em países como Austrália e alguns países
africanos relacionados diretamente aos problemas climáticos.
É importante ressaltar que o Brasil está conseguindo
enfrentar a crise dos preços agrícolas por
causa da presença de um vigoroso setor de agricultura
familiar, que produz 70% dos alimentos consumidos pelos
brasileiros e pelas brasileiras.
Desde 2003, desenvolvemos uma estratégia de fortalecimento
dessa agricultura, com políticas públicas
de crédito, seguro agrícola, assistência
técnica e extensão rural.
Ao mesmo tempo, desenvolvemos e estruturamos uma política
nacional de segurança alimentar articulada em torno
do Fome Zero. Fomos além, com a institucionalização
dessa estratégia por meio da Lei da Agricultura
Familiar e da Lei Orgânica de Segurança Alimentar
e Nutricional. Enquanto o índice dos preços
agrícolas internacionais subiu 83% nos últimos
36 meses, a cesta básica brasileira subiu 25% no
mesmo período.
O leite, um produto tipicamente de agricultura familiar
no Brasil, teve um aumento de preço de 120% no mercado
internacional nos últimos 24 meses, mas no país
o aumento foi de 25%. Isso se deve ao aumento da produção
de leite, que passou de 16 bilhões de litros nos
anos 90 para 27 bilhões de litros em 2008, atingindo
a auto-suficiência. Fruto de um conjunto de políticas
públicas para a agricultura familiar e da reforma
agrária.
Outros países que desmantelaram suas políticas
de regulação e que voltaram suas agriculturas
apenas para o mercado externo estão em crise de
abastecimento e inflação.
Mas não estamos completamente imunes a esses acontecimentos.
Temos de preservar os avanços e evitar possíveis
impactos negativos, como diminuição do poder
de compra da população mais pobre, concentração
e estrangeirização da terra, concentração
ainda maior das cadeias de distribuição e
priorização da exportação agrícola
em detrimento do abastecimento interno.
A solução de longo prazo para garantir segurança
alimentar e estabilização dos preços
internos passa por um conjunto de medidas estruturais. É necessário
garantir uma oferta suficiente de alimentos, e isso se
faz fortalecendo ainda mais a agricultura familiar. Também
se faz com reforma agrária, que distribui melhor
a terra e garante que a terra seja usada para produção
de alimentos, e não para especulação.
E é isso que estamos buscando. Terra para quem quer
trabalhar, produzindo alimentos com qualidade para garantir
a soberania e a segurança alimentar de nosso país.
* Ministro do Desenvolvimento
Agrário.
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O ESTADO DE S.PAULO, 4
de maio de 2008
Relator quer cartão
para uso de verba indenizatória
Escalado pela base governista para controlar as investigações
na CPI dos Cartões, o deputado petista Luiz Sérgio (RJ)
atraiu críticas de aliados e adversários ao avisar que
vai propor a obrigatoriedade de uso do dinheiro de plástico para
os 513 deputados e 81 senadores gastarem a verba indenizatória
de R$ 15 mil mensais. Relator da CPI, Luiz Sérgio diz que a proposta
estará no parecer que apresentará no dia 27 de maio.
De acordo com a proposta do parlamentar, e tal como ocorre no Executivo,
a prestação de contas dos parlamentares também terá de
ir para o Portal da Transparência. Mas o petista não quer
enquadrar apenas o Legislativo: defende a tese de que os gastos com os
cerca de 3 mil cartões corporativos que estariam em mãos
dos funcionários do Judiciário e do Ministério Público
também sejam divulgados no Portal.
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Gazeta do Povo, 4 de maio
de 2008
Terceiro setor
Governo quer alterar regras
para liberar recursos a ONGs
Projeto descentraliza a emissão
de certificados para as entidades filantrópicas. Instituições
alegam que a burocracia vai aumentar
As regras para a concessão de Certificado de Entidade
Beneficiente de Assistência Social (Cebas) – que
habilita as entidades filantrópicas sem fins lucrativos
a receber verbas federais e ter isenção fiscal – podem
sofrer mudanças. O governo federal entregou em março
ao Congresso o Projeto de Lei 3.021/08 que propõem
mudanças na regra de certificação.
A proposta, assinada por cinco ministros, tira atribuições
do Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS)
e transfere a responsabilidade de emitir o Cebas aos ministérios.
Os representantes das entidades filantrópicas não
gostaram das alterações. A principal reclamação é que
a nova lei só irá ampliar a burocracia, mas
não conseguirá diminuir os possíveis
desvios de verbas e as supostas fraudes na concessão
dos certificados.
Em uma ofensiva contra o projeto, 160 representantes
de entidades filantrópicas se reuniram na semana
passada em Curitiba para discutir o projeto e iniciar as
discussões para a elaboração de um
proposta que contraponha as mudanças solicitadas
pelo Executivo. “Não estamos fechando as portas
para a mudança, mas da forma como está, essa
alteração está sendo imposta, sem
haver uma consulta à sociedade”, afirma o
diretor-procurador da ONG Ação Social no
Paraná, padre José Aparecido. O projeto alternativo
deverá ser elaborado e proposto pelo senador Flávio
Arns (PT-PR).
Segundo o senador, um dos principais problemas do projeto
apresentado pelo Executivo é o fato de ele excluir
a participação do CNAS do trabalho de certificação
das entidades. Como 9 dos 18 membros do conselho são
de fora do governo, Arns considera que a mudança
retira a participação da sociedade do processo
de certificação e fiscalização
do terceiro setor. “Esse projeto não traz
nenhum tipo de avanço no sentido de fiscalização.
Na verdade, é um retrocesso na medida que exclui
a participação da sociedade.”
Além de retirar atribuições do CNAS,
o projeto do governo federal também descentraliza
a certificação. Agora, os ministérios
que têm relação com o serviço
que deverá ser prestado pela entidade é que
ficarão responsáveis pelo documento. Assim,
se uma ONG propõem um serviço de educação,
deverá requerer ao Ministério da Educação
o certificado para se habilitar junto ao governo a receber
recursos para realizar essa atividade e ter isenção
fiscal.
A regra proposta pelo Executivo também determina
que para cada função que a entidade oferece,
ela deve ter uma certificação inscrita em
um CNPJ próprio. Por exemplo, uma ONG que preste
serviços de saúde e assistência social
deverá ter duas certificações, em
CNPJs diferentes, sendo uma adquirida no Ministério
da Saúde e outra no do Desenvolvimento Social.
Na avaliação do advogado Gustavo Justino
de Oliveira, presidente da Comissão do Terceiro
Setor da OAB-PR, a mudança proposta pelo governo
federal vai na direção contrária a
do que é feito em outros países. “O
ideal seria a criação de um órgão
independente do governo – no estilo das agências
reguladores – que centralizasse a certificação
e a fiscalização dessas entidades”,
avalia.
O governo argumenta que a mudança tornará a
certificação das entidades mais ágil.
Hoje, uma instituição chega a passar quase
três anos por um julgamento do CNAS. Além
disso, com a relação do ministério
com a atividade, o controle do trabalho prestado pela organização
não-governamental seria fortalecido, defendem os
ministros que assinaram o anteprojeto de lei.
“A princípio, a idéia parece boa”,
diz Justino, que considera que a mudança poderá “prestar
alguma agilidade nas certificações”,
mas não acredita que isso irá durar muito
tempo. “Se os ministérios não conseguem
nem mesmo prestar seus serviços de forma correta,
como vão fiscalizar e determinar quem deve prestar
esse serviço complementar? Acho que isso será muito
difícil de acontecer”, afirma o advogado.
O Senado inclusive já instalou uma CPI para investigar
o repasse do governo a ONGs. Os trabalhos da comissão,
na semana que passou, foram prorrogados por mais 180 dias.
Certificados
Existem três tipos de certificados que as entidades filantrópicas
e organizações não-governamentais podem pleitear
ao governo. Com os documentos, é possível ter isenção
de impostos patronais e fazer contratos de parceria com o governo federal.
Organização da Sociedade Civil de
Interesse Público (Oscip)
O título é conferido pelo Ministério
da Justiça às entidades civis sem fins lucrativos
que prestam serviços de assistência social,
promoção da cultura, da educação
gratuita e outras atividades. Com o certificado, a instituição
está habilitada a firmar parceria e receber verbas
do governo federal.
Certificado de Entidade Beneficiente de Assistência
Social (Cbas)
O certificado é dado pelo Conselho Nacional de
Assistência Social, que é formado por 18 membros.
Metade do grupo é formada por indicações
do governo e a outra parte por representantes da sociedade.
Com o documento, a entidade pode requerer uma série
de isenções fiscais. Podendo deixar de pagar
a contribuição patronal ao Instituto Nacional
do Seguro Social (INSS), por exemplo.
Título de Utilidade Pública Federal
O título pode ser obtido junto ao Ministério
da Justiça no setor de outorgas e títulos.
O documento é pré-requisito para solicitar
o Cebas.
Fonte: Ministério da Justiça,
Lei 9.790/99 e Lei 91/1935.
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Gazeta do Povo, 4 de maio
de 2008
20 anos da Constituição
Direitos sociais ainda desafiam
a Constituição
Saldo da Carta de 1988 é positivo,
mas país não conseguiu levar a igualdade de
oportunidades a todos os cidadãos
Prestes a comemorar 20 anos de sua promulgação,
a Constituição brasileira, que trouxe avanços
institucionais fundamentais como o fortalecimento do Ministério
Público e a garantia de liberdade ampla aos indivíduos,
ainda tem um grande desafio pela frente: vários
de seus dispositivos ainda não foram efetivados
de forma integral, principalmente aqueles referentes a
direitos sociais como saúde, educação,
trabalho, moradia e proteção à maternidade
e à infância.
A Carta Magna do país exige que o Estado adote
políticas públicas para que os direitos sociais
sejam efetivados. Mas este objetivo ainda está longe
de ser alcançado. Basta lembrar de exemplos como
o déficit de moradia no país, da ordem de
32 milhões de unidades, e o episódio da garota
menor de idade que dividiu por um mês cela com 20
homens, em Abaetetuba, no Pará, no fim do ano passado.
Diante da realidade, o professor de Direito Constitucional
da universidade Federal do Paraná (UFPR), Clèmerson
Merlin Clève, lembra que há direitos que
dependem de condições históricas para
serem integralmente implementados – os direitos “de
eficácia progressiva”. Segundo o jurista,
o país ainda não se constituiu em um Estado
democrático de direito. “Isso porque o Estado
democrático de direito verdadeiro cuida não
apenas dos espaços políticos convencionais,
mas também da sociedade em todas as esferas. Pressupõe
a radicalização daquilo que podemos chamar
de igualdade de chances de acesso.”
Para corrigir as omissões do Estado, lembra Clève,
a própria Constituição Federal traz
mecanismos que permitem a efetivação dos
direitos fundamentais. “Com a Constituição
de 1988 os direitos fundamentais foram proclamados, mas
concretizá-los é uma luta cotidiana. Ainda
há muito o que fazer”, afirma Clève.
Na mesma linha de pensamento, o professor da Universidade
Estadual do Rio de Janeiro Luís Roberto Barroso
explica que uma grande novidade da Constituição
de 1988 foi a possibilidade de a população
poder entrar na justiça para reivindicar a proteção
do Estado. “A idéia de que o principal papel
do estado é o de proteger e promover os direitos
fundamentais tornou-se hoje no mundo uma idéia de
aceitação geral. Porém, o fato de
uma idéia conquistar a aceitação geral
e o consenso da sociedade, não significa que no
dia seguinte ela já esteja realizada.”
Avanços
Foi no dia 1º de fevereiro de 1987 que 559 parlamentares
começaram os trabalhos para aprovar a nova lei suprema
brasileira, a sétima desde a independência
do país. Foram necessários 18 meses de discussões
até que a Carta fosse finalmente promulgada, em
5 de outubro de 1988.
Duas décadas após sua a promulgação,
Clèmerson Clève entende que o saldo é extremamente
positivo. “Ela permitiu a emergência da cidadania,
num país já urbano e industrial e complexo.”
Num contraponto com a Constituição anterior,
de 1967, o jurista José Afonso da Silva considera
que a Carta de 1988 trouxe uma nova concepção
de Estado, com garantias reais de liberdade e proteção
aos cidadãos. “A Constituição
anterior tinha uma porção de coisas, chamado
entulho autoritário, que foi suprimido”.
Na visão de Luís Roberto Barroso, a Constituição
de 1988 assegurou a estabilidade da democracia brasileira
e de respeito aos direitos fundamentais. “Ela expressa
simbolicamente, um conjunto de transformações
ocorridas na própria sociedade. Representou o estabelecimento
de um modelo baseado no pluralismo político.” Para
Barroso, ela trouxe a aceitação da alternância
do poder como fato rotineiro, o que significou uma revolução
em relação aos tempos da ditadura militar. “A
Constituição resistiu ao impeachment do Collor,
a episódios graves como o escândalo do orçamento,
a crises políticas seríssimas, como foi a
ocorrida no mensalão”, lembra Barroso. “A
tradição brasileira é de golpes, quebras
de legalidade, crises desestabilizadoras, mas a Constituição
de 1988 representa a superação de todos esses
ciclos do atraso.”
Carta já teve 62 emendas
A Constituição brasileira recebeu ao todo
62 emendas desde a sua promulgação em 1988.
O número é considerado elevado, quando comparado,
por exemplo, com a Constituição norte-americana – que
tem menos de 30 emendas, mas foi promulgada em 1787.
Mas, na opinião de juristas, o excesso de emendas
não representa um motivo para uma revisão
geral na Carta, mediante convocação de uma
nova assembléia constituinte.
Para José Afonso da Silva, muitas das emendas foram
desnecessárias. “Acho que isso é golpe.
Querem criar mecanismos para possibilitar uma nova reeleição
do presidente Lula”, declarou. “Não
há necessidade de uma reforma geral.” Segundo
ele, apesar das emendas, os pontos essenciais – os
direitos fundamentais e o capítulo da ordem social – permanecem
intactos.
“A convocação de uma assembléia
constituinte, a meu ver, seria uma escolha equivocada,
que jogaria fora o grande capital político representado
pela Carta de 1988”, opina Barroso. Para ele, o melhor
caminho seria retirar da Constituição, mediante
emendas, o grande número de detalhes que ela possui
sobre Administração Pública, sistema
tributário e sistema federativo.
Para o professor, o excessivo de detalhismo trouxe conseqüências
negativas. “Por causa disso, no Brasil a política
ordinária se faz por meio de emendas constitucionais.
Qualquer mudança importante leva a uma necessidade
de mudança na Constituição.”
Para o professor de Direito Constitucional da UNB Cristiano
Paixão, embora a constituinte não tenha sido
exclusiva – ou seja, após sua promulgação
os constituintes continuaram em seus mandatos –ela
foi adquirindo legitimidade ao longo do seu curso. “Há uma
certa mentalidade de alguns juristas de que não é satisfatória,
de que tem vícios de origem por causa disso. Mas
a Constituição representou uma série
de novas conquistas.”
Para Clèmerson Clève, o fato de a constituinte
não ter sido destituída após a promulgação
da Constituição é um mal menor, diante
do bem maior que foi a ruptura pacífica com a ditadura
militar e a possibilidade de construção de
um novo país. Clève teme que uma nova constituinte
não traga mudanças significativas. “Há o
temor de que tudo mude para ficar igual.”
Carta Magna
A Constituição é a lei fundamental, que organiza
o Estado e a forma de governo, traz os princípios que regulam
a nação e os direitos fundamentais e garantias do cidadão.
Direitos fundamentais são aqueles que se referem à liberdade
e igualdade dos cidadãos.
Características
De forma resumida, a Constituição Federal
pode ser divida em normas de:
Princípios fundamentais
São normas que expressam princípios e objetivos
fundamentais na República, abrangendo também
os direitos fundamentais e sociais.
Exemplos encontram-se no art. 1º: “A República
Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel
dos Estados e Municípios e do Distrito Federal,
constitui-se em Estado democrático de direito e
tem como fundamentos: I – a soberania; II – a
cidadania, III – a dignidade da pessoa humana; IV – os
valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V – o
pluralismo político.”
Forma de governo e organização
do Estado
São as normas constitucionais que organizam o Estado
e a forma de governo: Art. 44. O Poder Legislativo é exercido
pelo Congresso Nacional, que se compõe da Câmara
dos Deputados e do Senado Federal. Parágrafo único.
Cada legislatura terá a duração de
quatro anos.
Regulação de outros assuntos
São os artigos constitucionais que regulam diversas
matérias que não necessariamente precisariam
estar expressas na Constituição, como a referente
a garimpeiros e cooperativas: “Art. 174. § 3º -
O Estado favorecerá a organização
da atividade garimpeira em cooperativas, levando em conta
a proteção do meio ambiente e a promoção
econômico-social dos garimpeiros.”
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Folha de Londrina, 4 de
maio de 2008
População desconhece
atuação do TCU
Pesquisa demonstra que 55,1% dos entrevistados
jamais tinham ouvido falar do Tribunal de Contas da União
São Paulo - Boa parte da população desconhece a
atuação do Tribunal de Contas da União (TCU), um
dos principais órgãos no combate à corrupção,
assim como os Ministérios Públicos Federal e Estaduais,
a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU).
Pesquisa da Universidade de Brasília (UnB) demonstrou que 55,1%
dos entrevistados jamais tinha ouvido falar do TCU. Somente a CGU, com
68% de desconhecimento, superou o índice do tribunal. O que costuma
acontecer com mais frequência é a confusão do TCU,
que é ligado ao Congresso, com órgãos do Poder Judiciário
como o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Superior Tribunal de Justiça
(STJ).
''O resultado demonstra que a sociedade faz reivindicações
pontuais, como escolas e postos de saúde, mas ainda
não entendeu a importância da transparência
nos gastos públicos. Ela não participa porque
não tem informação e não tem
informação porque não participa, o que
cria um círculo vicioso que favorece a corrupção
em todos os níveis'', analisa o professor de Ciência
Política da UnB Ricardo Caldas, responsável
pela pesquisa juntamente com o colega Robson Pereira. Embora
tenha sido feita entre 7 e 17 de setembro do ano passado,
com 839 pessoas, Caldas acredita que a pesquisa permanece
atual.
Dos que disseram conhecer o TCU, quase 40% não confiam
em sua ação. No caso da CGU, que mantém
na internet o Portal da Transparência, responsável
pela divulgação das informações
que levaram ao escândalo dos cartões corporativos,
a desconfiança é de 40,6%.
O TCU admite o desconhecimento da sociedade sobre sua atuação
e diz que está tentando reduzi-lo. ''Fazemos palestras
nas principais cidades, chamadas Diálogos Públicos,
nas quais explicamos o nosso trabalho, criamos a ouvidoria,
que é um espaço democrático de participação,
distribuímos cartilhas de orientação
e dispomos do telefone 0800 6441 1500 para orientar a população'',
contou o secretário de Macroavaliação
Governamental do tribunal, Marcelo Luiz Souza Eira.
No ano passado, segundo ele, a ouvidoria atendeu a 4,5 mil
chamados. Em 2006 foram 3,1 mil, o que significa um aumento
de quase 50%.
O TCU, os Tribunais de Contas dos Estados e os Tribunais
de Contas Municipais de São Paulo e do Rio são órgãos
do Poder Legislativo que fazem a análise e o acompanhamento
das contas e dos gastos públicos - o controle externo
de governos. ''Muitas obras do Programa de Aceleração
do Crescimento (PAC) não foram adiante porque técnicos
do TCU encontraram problemas ainda na fase das licitações.
Nesse caso, apesar das deficiências que tem, o órgão
cumpriu sua função'', diz o cientista político
Marco Antônio Teixeira, professor da Fundação
Getúlio Vargas (FGV).
Os tribunais de contas também analisam gastos antes
que sejam efetivamente feitos. Pela Constituição,
são autônomos e independentes. Para evitar pressões,
as nove vagas de ministro do TCU e as correspondentes em
Estados e municípios são vitalícias.
No TCU, seis são indicados pelo Congresso e três
pelo presidente da República, com aprovação
do Senado. Dois são alternadamente indicados pelo
tribunal entre auditores e membros do Ministério Público
da União.
Embora não determinem a prisão de ninguém,
os tribunais de contas podem multar e pedir a declaração
de inidoneidade de agentes públicos. No ano passado,
o TCU aplicou R$ 518 milhões em multas, o valor mais
alto dos últimos anos, e condenou administrativamente
1.889 responsáveis por irregularidades com recursos
da União entre prefeitos, ex-prefeitos, gestores e
servidores.
Cabe ao TCU apreciar as contas anuais do presidente da República,
julgar as dos administradores de bens e valores públicos,
apreciar a legalidade das admissões de pessoal e concessões
de aposentadorias e reformas militares e realizar inspeções
e auditorias por iniciativa própria ou do Congresso.
Tribunais de contas podem rejeitar prestações
de contas de governadores, prefeitos e presidentes de tribunais
superiores. Em São Paulo, isso ocorreu com os prefeitos
Luiza Erundina (à época no PT) e Celso Pitta,
então no PP. As contas do presidente da República,
porém, são votadas pelo Congresso; o TCU fornece
apenas pareceres.
Moacir Assunção
Agência Estado
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O Estado Paraná,
4 de maio de 2008
Os 20 anos da Constituição
Federal de 1988
Paulo Ricardo Opuszka
O ano de 2008, além de comemorar os 200 anos da vinda da família
real para o Brasil, é marcante nas comemorações
dos 20 anos da Constituição Federal de 1988, considerada
a Constituição Cidadã por diversos juristas autores
como Caio Tácito, Hélio Bicudo, Evandro Lins e Silva e
atualmente Luis Roberto Barroso, Ives Gandra Martins, José Afonso
da Silva, Celso Antonio Bandeira de Mello e Michel Temer além
de políticos como Flavio Bierrembach (atual ministro do STM e
autor da PEC/26 emenda que culminou na atual Constituição
Federal), Pedro Simon, Paulo Paim e Ulisses Guimarães, Presidente
da Assembléia Nacional Constituinte à época.
Os acadêmicos do Curso de Direito de nosso Estado
devem aproveitar o presente ano para compreender o fenômeno
do Constitucionalismo Brasileiro, aproveitando para discutir
temas como o Poder Constituinte, Direitos Fundamentais,
Separação de Poderes, Ordem Econômica,
Ordem Social e caminhos da Democracia Brasileira.
Algumas das tradicionais Faculdades de Direito da cidade
de Curitiba tais como a Faculdade de Direito da Universidade
Federal do Paraná, Faculdade de Direito da Pontifícia
Universidade Católica do Paraná, Faculdade
de Direito do Centro Universitário de Curitiba (Unicuritiba)
estão com eventos comemorativos agendados ou atividades
voltadas para o tema.
A Academia Brasileira de Direito Constitucional, em especial,
também vem se preparando para um grande evento que
ocorrerá no segundo semestre trazendo renomados
autores e professores para comemorar nossa caminhada política
rumo ao aprimoramento da Democracia.
O Direito Constitucional Paranaense, em especial para
geração dos acadêmicos que se formaram
ao longo dos anos 90 (pós-constituinte), deve sua
formação aos eminentes professores Clémerson
Merlin Clève, Alvacir Alfredo Nicz e Regina Macedo
Nery Ferrari, intérpretes dos principais temas do
constitucionalismo contemporâneo, mestres de todos
aqueles que decidiram voltar seus estudos para as peculiaridades
da nossa norma fundamental.
A Pontifícia Universidade Católica do Estado
do Paraná foi vanguarda nas discussões temáticas
acerca dos 20 anos: realizou evento ainda no mês
de março, contando com a presença de diversos
autores e professores estudiosos do tema.
Nos dias 25 a 28 de março, sob organização
do professor Zulmar Fachin, o Instituto de Direito Constitucional
e Cidadania realizou o 5.º Congresso Brasileiro cujo
tema para o ano de 2008 foi 20 anos da Constituição
Cidadã.
O juiz da Vara da Infância e Juventude de União
da Vitória e professor do Curso de Direito da Faculdade
de Ciências Sociais e Aplicadas de União da
Vitória, Carlos Eduardo Mattioli Kocanny, vem trabalhando,
nos últimos 5 anos com o tema dos direitos fundamentais
e pretende organizar um evento, no segundo semestre, que
discute o tema na região Sul de nosso Estado.
No intuito de discutir o tema sob o viés histórico,
sob o marco teórico da obra do Prof. Florestan Fernandes
A Constituição Inacabada: vias históricas
e significado político o Curso de Direito da Universidade
Positivo irá discutir os temas políticos
que envolveram as principais categorias de Direito Constitucional
na formação da norma fundamental na década
de 80, pós abertura política e redemocratização
brasileira.
No primeiro encontro, a professora Eneida Desiree Salgado
(UFPR) abordou a construção do projeto democrático
brasileiro, em especial os meandros do Poder na década
de 80.
A professora Vera Karam de Chueiri (UFPR) discutirá o
tema do Poder Constituinte de 1988: derivado ou originário?
bem como as polêmicas acerca da sua legitimidade.
A professora Simone Meucci marcará a referência
brasileira de si: a participação popular
no processo constituinte enquanto o professor Alexssandro
Eugênio Pereira abordará o tema a construção
do novo cidadão: os direitos políticos na
Constituição dos anos 80.
Nosso catedrático professor da PUCPR e UFPR, Alvacir
Alfredo Nicz será convidado para tratar do tema
da construção Política da separação
dos poderes (Poder Executivo X Poder Legislativo).
A questão dos direitos fundamentais, no campo da
constitucionalização do Direito Civil, será tratada
pelo professor Eros Belin de Moura Cordeiro. Já o
vereador Paulo Salamuni, que muito conviveu com o movimento
constituinte, em especial no Movimento Democrático
Brasileiro (MDB), trabalhará a formação
dos direitos políticos brasileiros.
Serão convidadas ainda as professoras Aldacy Rachid
Coutinho e Carol Proner para apresentarem a construção
concreta dos direitos sociais e humanos na norma constitucional.
A eficiência da Ordem Econômica Brasileira
será abordada pelo professor Eduardo Oliveira Agustinho
assim como o tema da estrutura nacional da Ordem Social
Constitucional será desenvolvida pelo Prof. José Antonio
Savaris.
O tema da Democracia será tratado pela professora
Kátia Kozicki (UFPR e PUCPR).
Já o Processo Constitucional enquanto tutela constitucional
das liberdades será tratado em dois momentos: as
ações civis públicas, pelos professores
Clayton Maranhão (Ministério Público
Estadual) e representante da Procuradoria Regional do Trabalho
e as ações populares pelo advogado Darci
Frigo (ONG Terra de Direitos) e vereador André Passos,
trabalhos esses coordenados pelo professor Tarso Cabral
Violin.
Ao final do Curso, uma mesa redonda, sediada no campus
da Universidade Positivo, para debater “O que esperar
do futuro da democracia brasileira e aonde se chegar ao
projeto democrático brasileiro?” com a presença
dos professores Paulo Ricardo Schier (Unibrasil) Tânia
Kozicki (Unicuritiba a confirmar), Claudia Barbosa (PUC/PR),
Marcos Wachowski (UFSC), Flávio Pansieri (Academia
Brasileira de Direito Constitucional) e Paulo Ricardo Opuszka
(Universidade Positivo).
Nosso dever, para o ano de 2008, é tratar de nossa
principal norma: a Constituição Federal. Às
vezes esquecida, às vezes submetida a desmandos
políticos, às vezes, preterida. Mas nosso
mais importante marco jurídico no progressivo ideal
de formação do Estado Social e Democrático
de Direito ou na árdua tarefa de realização
da Democracia, segundo Florestan Fernandes, ainda, inacabada.
Paulo Ricardo Opuszka é professor
de Direito Constitucional na Universidade Positivo e
Filosofia do Direito na Unidade de Ensino Superior do
Vale do Iguaçu União da Vitória/PR.
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O Estado Paraná,
4 de maio de 2008
Direito e Justiça
Diretrizes de um acordo sobre
a reconstrução das relações entre
trabalho e capital no Brasil
Edésio Passos
Em dezembro de 2007, o Ministro Extraordinário
de Assuntos Estratégicos Roberto Mangabeira Unger,
divulgou texto para debate sobre as relações
de trabalho e capital no país. Encerradas as análises
em recente reunião com o Presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, depois das reuniões com dirigentes
sindicais dos trabalhadores e dos empregadores, inicia-se
a fase de elaboração de propostas para serem
encaminhadas ao Congresso Nacional.
Afirma o Ministro Mangabeira Unger: “Essa iniciativa
nasceu da convicçäo de que a reconstruçäo
de nosso modelo de desenvolvimento no rumo da ampliaçäo
de oportunidades, do crescimento econômico socialmente
includente e da escalada de produtividade exige revisäo
abrangente e ousada das relaçöes entre o trabalho
e o capital. Näo temos experiência de tal esforço
desde o período de Getúlio Vargas, quando
se formou a legislaçäo ainda em vigor. Três
foram os temas escolhidos como fulcros da discussäo:
a diminuição da informalidade, a reversão
da queda da participação dos salários
na renda nacional e a reforma do regime sindical”.
Resgatar a maioria da economia informal
“Difícil dizer que parte de força
de trabalho atua na economia informal, trabalhando sem
carteira assinada, sem a proteção ou a disciplina
da lei. Não há dúvida, porém,
de tratar-se da maior parte da população
economicamente ativa do país: talvez por volta de
60%. Essa é uma calamidade brasileira - econômica,
social e moral. Resgatar a maioria da informalidade, com
toda a dimensão e rapidez possíveis, é prioridade
de qualquer projeto que pretenda reconstruir as relaçöes
entre trabalho e capital no Brasil sob o signo da reconciliação
entre o desenvolvimento e da justica. São os seguintes
os componentes da convergência que começa
a formar-se a respeito desse tema: 1. como preliminar,
entendemos que parte da informalidade tem a ver com fraude
do regime legal e tributário. E fraude precisa ser
combatida agressivamente, à parte qualquer mudança
na estrutura de custos, de incentivos e de oportunidades
para empregar e para trabalhar. 2. Há dois grandes
aspectos do problema da informalidade: política
econômica e desoneração da folha de
salários”.
Política econômica
“Há toda a razão para conceber uma
política industrial includente, voltada para o mundo
dos empreendimentos emergentes, como parte da estratégia
para diminuir a informalidade. São três os
meios que a definem. O primeiro elemento - de aconselhamento
gerencial, de formação de quadros e de práticas
- costuma ser, no mundo todo, o mais difícil. É,
porém, a área em que o Brasil mais avançou,
por conta do papel histórico do Sebrae. Ao Sebrae,
porém, faltam braço financeiro e braço
tecnológico. Daí os outros dois elementos
dessa política industrial. O segundo elemento é o
financeiro: trabalhar com o Banco do Brasil, com a Caixa
Econômica Federal, com o BNDES, com o Banco do Nordeste
e com o Banco da Amazônia para ampliar, rapida e
dramaticamente, o crédito ao pequeno produtor. É objetivo
que exige baixa de custos, e, portanto padronização
de práticas, nos empréstimos. O terceiro
elemento é o tecnológico: atuar junto aos
Ministérios de Ciência e Tecnologia e de Indústria
e Comércio para organizar uma Empraba industrial,
vocacionada para ajudar os emprendimentos emergentes. Essa
Embrapa industrial não precisa (nem deve) ser empresa
unitária, como a própria Embrapa. Deve ser
composta por rede que aglomere e amplie as instituiçöes
federais e estaduais que já adaptam e transferem
tecnologia - e perícia tecnológica - às
pequenas empresas. O significado dessa iniciativa pode
ser enorme em economia caracterizada como a nossa pela
avassaladora predominância de empresas de pequena
escala. O empreendedorismo desse mundo demonstra misteriosa
vitalidade em meio a condiçöes inóspitas.
Equipada com os instrumentos de que precisa, pode revelar-se
formidável dínamo de crescimento”.
Desoneração da folha de
salários
“Três grandes camadas de ônus incidem
hoje sobre a folha salarial. A primeira camada é de
acessórios, por exemplo, o sistema S e o salário
educação. Houve consenso de que devem ser
financiados esses acessórios - quando seu financiamento
se justificar - pelos impostos gerais. Devem, portanto,
desde já deixar de incidir sobre a folha. A terceira
camada é a dos benefícios diretos do trabalhador:
fazem parte do que se pode chamar um quase-salário,
...devem ficar, ao menos por enquanto, na folha. O debate
centrou-se na contribuição patronal à previdência
do empregado. A idéia de que a folha de salários
deve ser substituída pelo faturamento como base
para o financiamento da previdência (no que diz respeito à parte
hoje coberta pela contribuição patronal).
Nossas longas discussöes, porém, acabaram por
considerar preocupantes os dois maiores defeitos dessa
fórmula intermediária. O primeiro defeito é a
incidência desigual sobre as empresas — maior
sobre as empresas intensivas em capital. Essas empresas
empregam relativamente menos, mas representam vanguarda
na escalada de produtividade. O segundo defeito é compartilhar
aspectos de um imposto declaratório e ser, portanto,
suscetível de evasão fraudulenta. A partir
dessas constataçöes, a discussão evoluiu
para solução mais radical: o financiamento
pelos impostos gerais da receita gerada hoje pela segunda
camada de ônus - os ônus previdenciários
- sobre a folha de salários. Ou mais precisamente:
seu financiamento pelo imposto mais neutro - menos distorcivo
de preços relativos - que existir em nosso modelo
tributário no momento em que se fizer a mudança”.
Reversão da queda da participação
dos salários na renda nacional
“Há cerca de meio século cai a participação
dos salários na renda nacional. É longe de
ser tendência universal no mundo. Diferem radicalmente
as sociedades contemporâneas, mesmo quando comparadas
em nível semelhante de desenvolvimento, na maneira
de dividir a renda nacional entre o trabalho e o capital.
O decréscimo duradouro da parte da renda que no
Brasil vai ao fator trabalho opera como causa de desigualdadede
poderosa demais para ser plenamente contrabalançada
por qualquer política social. E ameaça nossa
capacidade de escapar pelo alto - da escalada de produtividade
e da valorização do trabalho - da prensa
entre economias de trabalho barato e economias de produtividade
alta em que nos eoncontramos. Nem as limitaçöes
do aumento da produtividade do trabalho bastam para explicar
esse resultado. Há muito tempo que a subida do salário
real no Brasil costuma ficar aquém dos avanços
da produtividade. Para reverter a queda da participação
dos salários na renda nacional, não bastam
políticas que procuram influenciar o salário
nominal, como, sobretudo a política do salário
mínimo. Tais políticas têm eficácia
restrita. São facilmente anuladas por inflação
quando não barradas por política monetária
comprometida em manter a estabilidade da moeda. Vargas
instituiu a política do salário mínimo,
mas o fez como parte integrante e acessória de uma
construção institucional. A nós falta
construção dessa ordem. E, na falta dela,
os instrumentos que influenciam o salário nominal
acabam por se mostrar insuficientes. Nas nossas discussöes,
partimos da constatação das enormes desigualdades
entre os salários no Brasil: uma das espécies
mais graves e menos comentadas de desigualdade entre nós.
Por conta dessa realidade, concluímos que, em primeira
etapa, as iniciativas institucionais (e tributárias)
destinadas a reverter à queda da participação
dos salários na renda do país devem ser distintas
para diferentes níveis da pirâmide salarial.
Na base dessa pirâmide, o primeiro objetivo precisa
ser assegurar que o regime tributário seja pelo
menos neutro: que pare de castigar quem emprega e qualifica
o trabalhador mais pobre e menos qualificado. Para a etapa
seguinte, o alvo passará a ser tornar positivo o
regime, por meio de incentivos tributários ao emprego
e à qualificação desses assalariados.
Para o meio da hierarquia salarial, iniciativa prioritária
seria proteger e representar os trabalhadores temporários
ou terceirizados. No Brasil, como em todo mundo, representam
parcela crescente da força de trabalho. A justiça
e a prudência exigem que esses trabalhadores “de
segunda classe” gozem de direitos e contem com representantes:
para que não sofram abusos e não sejam usados
como “exército de reserva” que fragilize
a posição dos assalariados permanentes. Daí a
necessidade de atenuar o contraste radical entre alto padrão
de resguardo para os que desfrutam de empregos regulares
e falta quase total de direitos para os que estão
relegados à insegurança do trabalho temporário
ou terceirizados. Lembrados de que a própria CLT
disciplina o trabalho por prazo determinado, os participantes
em nossas discussöes procuraram fórmulas que
alcançassem dois alvos ao mesmo tempo. O primeiro
objetivo é combater o trabalho temporário
ou terceirizado quando ele serve apenas como instrumento
para escapar de obrigações trabalhistas.
O segundo propósito é assegurar que o trabalhador
legitimamente temporário ou terceirizado esteja
protegido por lei e representado por sindicato. Não
há como abolir o problema. Temos de enfrentá-lo.
Propõe-se estatuto próprio do trabalhador
temporário ou terceirizado que discipline suas condições
de trabalho. E novo desenho institucional para representá-los.
Os meios de comunicação eletrônica
ampliam dramaticamente as oportunidades para representar
trabalhadores que não se encontram juntos no mesmo
lugar. Já a partir do topo da pirâmide salarial,
a iniciativa recomendada é a efetivação
do princípio constitucional de participação
dos trabalhadores nos lucros ou resultados das empresas.
Princípio que até hoje permanece letra morta. É natural
começar a dar-lhe efetividade a partir dos níveis
mais altos do assalariados, em círculos concêntricas
que incluam parcelas cada vez mais amplas da força
de trabalho. É entre os assalariados melhor remunerados
que se entende e se abraça com mais facilidade a
idéia de que empresa e empregado podem e devem ser
de alguma maneira, sócios. Os participantes nessas
discussões preocuparam-se em não deixar que
a participação nos lucros ou resultados servisse
apenas para converter salário regular em remuneração
variável. Indícios de tal conversão
devem ser considerados sinais presuntivos de violação
da lei. E insistiram que a integridade do princípio
requer como garantia indispensável, o acesso dos
representantes dos trabalhadores à contabilidade
das empresas. Tal acesso pode surtir benefícios
adicionais ao servir para instigar padrões mais
exigentes de “governança corporativa” nas
grandes e médias empresas em que costumam trabalhar
os assalariados mais bem remunerados”.
Regime sindical
“1. Reconhecer em lei o papel das
centrais como organizações de âmbito
nacional, transcendendo setores específicos da economia
e representando correntes distintas dentro do movimento
sindical. Daí a razão para reconhecer-lhes
em lei o poder não só de representar, mas
também de negociar quando a negociação
diz respeito à questões básicas e
gerais como a relação que deva haver entre
aumento de salário e aumento de produtividade.
2. Substituir o imposto sindical por “participação
negocial”. ...é preciso encontrar substituto
para o imposto sindical que fortaleça a legitimidade
do sindicalismo sem comprometer sua independência
financeira.
3. Assegurar ao sindicato da categoria
preponderante na base - na local de trabalho ou na unidade
fabril - o direito e a responsabilidade de representar
todos os trabalhadores que atuem naquela base, seja qual
for sua categoria. Esse é o resíduo pragmático
do princípio da unicidade que todos apoiam: tanto
os que abraçam aquele princípio como regra
geral quanto àqueles que o rejeitam.
4. Combater práticas anti-sindicais.
A reconstrução do regime sindical precisa
vir acompanhada de compromisso para combater práticas
anti-sindicais. Comprometer-se em combater práticas
anti-sindicais significa não tolerar qualquer tentativa
de tolher ilegalmente o direito de organizar o sindicato
ou de exercer, dentro da lei e do respeito às prerrogativas
legais dos patrões e de seus representantes, a militância
sindical. O objetivo não é facilitar o conflito; é,
pelo contrário, zelar pelo respeito das partes a
regras que permitam compor interesses contrastantes e descobrir
interesses compartilhados.
5. Organizar legalmente a prática
das negociações coletivas, liberada do critério
restritivo da data-base. O papel do regime legal não é ocupar
o espaço das negociações coletivas
e das relações contratuais. É estabelecer
arcabouço no qual tais negociações
e relações não estejam predestinadas
a representar apenas o triunfo dos fortes sobre os fracos:
do capital sobre o trabalho, e dos segmentos mais avantajados
do assalariado sobre os mais fracos. Em vez de impor o
conteúdo de cada contrato de trabalho, diminuindo
o espaço da negociação coletiva, amplia-se
esse espaço, mas reforma-se a estrutura institucional
em que ela ocorre. E suprimem-se os resquícios de
um sistema que procura conter a negociação
coletiva dentro da camisa-de-força de um calendário
uniforme, que pode não guardar relação
com as circunstâncias de cada sindicato, de cada
empresa e de cada setor da economia”.
Sobre a questão da reforma sindical
A alegação, constante do texto ministerial,
de que há cinco pontos de convergência, não
condiz com a realidade dos debates atuais. Não há concordância
quanto ao papel das Centrais Sindicais no que se refere
a negociação coletiva nacional, especialmente
quanto a um “acordo nacional”; não há concordância
em se eliminar a contribuição sindical mas,
pelo contrário, a maioria expressiva da atual representação
sindical defende sua manutenção na medida
em que os sindicatos representam toda a categoria profissional
e econômica, no sistema da unicidade sindical; muito
menos ainda que não há concordância,
pelo contrário, existe resistência à tentativa
de se eliminar as categorias diferenciadas, como quer a
proposta de que o sindicato da categoria preponderante
represente toda a base, pois se trata de uma posição
que vai contra a história e a luta de diversas e
importantes categorias profissionais, devendo ser rechaçado
este ponto; a representação sindical no local
de trabalho não pode ser somente do sindicato preponderante,
mas de todos os segmentos sindicais profissionais que representam
os trabalhadores em determinada base; a extinção
da data-base é um retrocesso, pois a data-base unifica
setores profissionais e normatiza a ação
sindical e, assim, esse ponto deve ser rejeitado.
Edésio Passos é advogado.
edesiopassos@terra.com.br
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Folha de São Paulo,
4 de maio de 2008
Juros deverão cair,
mas no longo prazo, afirma economista
Para diretor do Bradesco, grau de
investimento não deve elevar entrada de dólares
e déficit externo evitará alta maior do real
Octavio de Barros diz que status contribui
para a menor instabilidade, mas o que determina crescimento é a
perseverança nas reformas
GUILHERME BARROS
COLUNISTA DA FOLHA
Na quarta-feira passada, quando recebeu a notícia
de que a agência de classificação de
risco Standard & Poor's promoveu o Brasil a grau de
investimento, o economista Octavio de Barros, 50, diretor
de pesquisas e estudos econômicos do Bradesco, não
escondeu a satisfação. Ele foi um dos poucos
analistas que mantiveram, desde o agravamento da crise
internacional, no início deste ano, a aposta de
que o Brasil iria ser promovido a grau de investimento
ainda neste semestre. Muitos analistas passaram a acreditar
que esse novo degrau só seria atingido em 2009.
Apesar da boa notícia, Barros não acredita que o grau
de investimento vá fazer o Banco Central baixar os juros no
curto prazo. A nova classificação só vai ajudar
o país a atingir mais rápido uma taxa normal de juros,
mas ainda vai levar um tempo para isso acontecer.
O economista também não acredita numa valorização
expressiva do câmbio. A taxa de câmbio, a seu ver, tende
a se manter no patamar que se encontra agora. Sua aposta é a
de um câmbio, no final do ano, a R$ 1,75 por dólar. Leia
entrevista concedida à Folha:
FOLHA - Qual é a importância
do grau de investimento para o Brasil?
OCTAVIO DE BARROS - O mais importante de tudo é que
o grau de investimento retira uma incerteza de médio e longo
prazos sobre o câmbio. Historicamente, incerteza sobre o câmbio
sempre foi o calcanhar-de-aquiles do Brasil. Significa que teremos
um financiamento mais confortável do balanço de pagamentos
daqui para a frente. Para um país onde a instabilidade cambial
sempre foi a origem do sobe-e-desce da economia via inflação,
esse é um belo sinal e facilita o trabalho de combate à inflação
por parte do Banco Central.
FOLHA - Isso significa que os
juros vão cair?
BARROS - Os juros futuros mais longos
já estão caindo. O mercado se dá conta
de que o câmbio tende a deixar de ser um fator
de pressão inflacionária como foi a vida
toda. Além disso, seria impensável que
o Brasil, classificado como grau de investimento, mantenha-se
durante muito tempo com juros reais de segundo maior
país do mundo, atrás apenas da Turquia.
Não faz o menor sentido.
FOLHA - O Banco Central já pode
pensar em queda de juros?
BARROS - Claro que não no curto
prazo. Não tem nada a ver o trabalho do BC com
a minha convicção de que a taxa de juros
vai cair para padrões normais no médio
e longo prazos. A obtenção do grau de investimento
vai acelerar o processo de convergência para a
normalidade.
FOLHA - Mas o Banco Central não
poderia fazer um ajuste menor do que planejava?
BARROS - O BC vai fazer o possível
para não correr o risco de jogar fora todo um
esforço desses últimos anos. As pessoas
têm que entender que uma das razões, talvez
a mais importante, para a promoção do Brasil
a grau de investimento foi justamente a autonomia do
Banco Central para zelar pela estabilidade monetária.
O grau de investimento premiou uma construção
monetária bem-sucedida, dentro de um regime de
metas de inflação que completará dez
anos no ano que vem. É um privilégio ter
um Banco Central cuidando de forma autônoma do
combate à inflação. O presidente
Lula sacou isso bem antes de muita gente. A autonomia
do Banco Central se fortalece com a obtenção
do grau de investimento.
FOLHA - Até quanto os juros
ainda podem subir neste ano?
BARROS - Nem mesmo os diretores do Banco
Central devem saber. Tudo vai depender de como a evolução
corrente da inflação afetar as expectativas
dos formadores de preços e de salários
neste momento em que há um furor remarcatório
com base no aumento de custos vindos de fora. Acho que
o Banco Central vai ter que aumentar o tom para inibir
os formadores de preços a repassarem 100% dos
custos importados. Minha intuição é a
de que a inflação de 2008 não é mais
uma grande preocupação do BC. Algo pode
ser feito apenas do ponto de vista das expectativas.
A próxima reunião já terá influência
na demanda de 2009. Se eu fosse banqueiro central, faria
tudo para evitar que as expectativas da inflação
para 2009 não desgarrassem do centro da meta de
4,5%. Já em relação à inflação
de 2008, não há muito a fazer.
Até que o Brasil não vem se saindo tão mal neste
ano em relação aos outros países até mais
maduros institucionalmente do ponto de vista de autonomia de bancos
centrais.
FOLHA - Existe o risco de o real
se valorizar muito depois do grau de investimento?
BARROS - Câmbio é balanço
de pagamentos, e não um princípio vago de
que vamos ter uma avalanche de dólares. Eu não
acredito em avalanche de dólares. O Brasil já está caro,
80% do grau de investimento já era previsto. Neste
momento, a novidade já está toda no preço
dos ativos. As empresas listadas em Bolsa no Brasil estão
mais caras do que as mexicanas, por exemplo. É claro
que sabemos que tudo que é bom aprecia câmbio.
Tudo que implica um país mais confiável para
financiamentos e investimentos atrai capitais.
Neste momento, acho que vale mais o sinal do déficit em transações
correntes de US$ 23 bilhões que estimo para este ano. Representa
1,4% do PIB. A mudança foi muito rápida. Mesmo sabendo
que a causa dessa deterioração é o ritmo da demanda
doméstica, e não a taxa de câmbio, tenho para mim
que os formadores de preços no mercado de câmbio não
tratarão isso de forma irrelevante, apesar de o grau de investimento
significar que esse déficit terá financiamento confortável.
Além disso, o dólar no mundo tende a se fortalecer um
pouco ante o euro e a outras moedas e isso provoca um pequeno ajuste
para baixo no preço das commodities. Em outras palavras, acho
que a taxa de câmbio real tende a se manter próxima do
patamar onde está. Ainda prevejo um câmbio de final de
ano de R$ 1,75.
FOLHA - O Banco Central vai ser
obrigado a comprar mais moeda para reservas?
BARROS - A ação no câmbio
só pode ser a de suavizar movimentos bruscos. Ele
não pode mudar o rumo da história. Felizmente
ou infelizmente, em regime de câmbio flutuante, não
nos é dado o direito de termos preferências
a respeito de taxa de câmbio. Qualquer intervenção
mais brusca só tem efeitos temporários.
FOLHA - Alguns consideram que
o grau de investimento vai trazer mais investimento especulativo.
O sr. concorda?
BARROS - Não faz nenhum sentido. É justamente
o oposto. Éramos considerados "investimento
especulativo", agora somos "investimento não-especulativo".
O grau de investimento favorece muito também o investimento
com perspectiva de longuíssimo prazo.
FOLHA - Que influência o
grau de investimento terá no crescimento econômico?
BARROS - O grau de investimento é o
próprio atestado de que o PIB potencial brasileiro
aumentou. É o resultado de um processo cumulativo
de 15 anos de políticas macroeconômicas que
poderíamos classificar como decentes. Apesar dos
erros, dos equívocos, das omissões e dos
apagões, o Brasil acertou muito mais do que errou
nesse tempo. O grau de investimento contribui para a menor
volatilidade da economia e, conseqüentemente, para
maior previsibilidade e maior produtividade. Dá para
fazer planos, olhar dez anos à frente. Poderia dizer
que o grau de investimento favorece, mas não determina
um crescimento maior. O que determina um crescimento maior é a
perseverança nas reformas e não perder nunca
o sentido de urgência. Para 2008, sigo com 4,8% de
crescimento do PIB, e, para 2009, 4,5%.
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Folha de São Paulo,
4 de maio de 2008
LUIZ GONZAGA BELLUZZO
Globalização
e emprego
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A competitividade chinesa cresce tanto nos mercados menos qualificados
como nos de tecnologia sofisticada
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NA POSTERIDADE da 2ª Guerra, sobretudo nos últimos 25
anos, a concorrência entre as empresas transnacionais da tríade
desenvolvida (Estados Unidos, Japão e Eurolândia) determinou
a reconfiguração da geoeconomia global. A transnacionalização
da grande empresa -acompanhada da ampliação e da reorientação
dos fluxos de comércio- promoveu o investimento "cruzado" nos
mercados dos países industrializados e suscitou a redistribuição
geográfica da produção manufatureira para a periferia.
A "metástase" da grande empresa ganhou força
na década de 90 e, desde então, concentrou o investimento
industrial na China e na Ásia emergente. Inicialmente, a inserção
dos novos atores não só expandiu o comércio mundial
a taxas elevadas como também transformou a sua natureza. Nas
relações comerciais entre os países desenvolvidos
prevalecia o intercâmbio de produtos dos mesmos setores (por
exemplo, intercâmbio de automóveis entre a Alemanha e
a Itália). Com o ingresso dos "emergentes", cresce
mais rapidamente o comércio entre setores diferentes.
A China, no entanto, fez a diferença. Sua "competitividade" é crescente
tanto nos mercados menos qualificados como, em ritmo acelerado, nos
de tecnologia mais sofisticada. Torna-se grande receptor (incluída
a intermediação das praças de Hong Kong e de Cingapura)
do investimento direto norte-americano e, ao mesmo tempo, ganha participação
crescente no mercado de bens finais, peças e componentes dos
Estados Unidos. O drive exportador chinês vai deslocando a participação
de seus parceiros asiáticos em terceiros mercados, ao mesmo
tempo em que estimula as importações de peças
e de componentes dos países da região. Simultaneamente,
os chineses sustentam a continuada elevação da taxa de
acumulação de capital e a rápida graduação
tecnológica de suas exportações.
Em artigo recente, Paul Krugman reconsiderou seus pontos de vista a
respeito dos efeitos da globalização sobre o emprego
nos Estados Unidos. Ele diz: "Tempos atrás, a economia
americana oferecia empregos de boa qualidade -empregos que não
tornariam os trabalhadores ricos, mas lhes concederiam rendimento de
classe média. Esses bons empregos eram proporcionados pela grande
empresa manufatureira norte-americana, especialmente pela indústria
automotiva".
Ele continua: "Os Estados Unidos tornaram-se um país muito
mais rico nos últimos 30 anos, mas desde os anos 70 o salário
por hora do trabalhador típico americano mal conseguiu acompanhar
a inflação".
Durante os anos 90, escreve Krugman, ainda era possível sustentar
que o aperfeiçoamento educacional e o melhor treinamento poderiam
restaurar a capacidade de criação de empregos mais bem
remunerados na economia americana. Nos últimos anos, os trabalhadores
de colarinho branco ficaram tão expostos aos programas empresariais
de enxugamento, busca de fornecedores externos e transplante de fábricas
-ou seja, à concorrência dos operosos e preparados chineses
e indianos- quanto já estavam os desditosos assalariados de
macacão.
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LUIZ GONZAGA BELLUZZO , 65, é professor titular de Economia
da Unicamp. Foi chefe da Secretaria Especial de Assuntos Econômicos
do Ministério da Fazenda (governo Sarney) e secretário
de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo (governo
Quércia).
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