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Agência Diap, 11 de maio de 2008
CENTRAIS SINDICAIS
DIAP elabora parecer sobre lei
regulamentadora e portaria de aferição do MTE
Está disponível, ali na seção Íntegras,
parecer do advogado sindical e trabalhista, que é membro do
corpo técnico do DIAP, Hélio Stefani Gherardi, parecer
sobre a Lei 11.648/08, que regulamenta o funcionamento das centrais
sindicais e, também, sobre a Portaria 194/08, do MTE, que atende
determinação da lei para aferir os requisitos de representatividade
dessas entidades nacionais.
Clique aqui para
acessar o parecer
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Agência Diap, 11 de maio de 2008
MEIOS
Por que a imprensa grande não
noticia o que atinge a maioria da população?
Para Beatriz Barbosa, do Intervozes, a formação
tecnicista do jornalista e a informação concebida como
mercadoria são duas das origens da cobertura desqualificada
da imprensa grande sobre políticas públicas. Ainda para
Beatriz, a pergunta “de onde vem o jornalista?” pode responder
uma das origens da ausência de cobertura de políticas
públicas na grande mídia. Grande parte dos que ingressam
nos cursos de jornalismo são filhos de classe média ou
alta, assim, “as grandes mazelas sociais não fazem parte
do cotidiano desses futuros jornalistas”
A mídia geralmente tem preferência por divulgar notícias
dramáticas, números sensacionais e “furos jornalísticos”.
Os temas sociais são recorrentes, mas a abordagem não
gira em torno de políticas públicas. É esse o
diagnóstico feito pela jornalista Beatriz Barbosa em palestra
sobre o desafio de aumentar a pauta de políticas públicas
na grande imprensa, no último dia 5 de maio, na Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Ela ressaltou ainda que a política pública até pode
ser uma pauta, mas não como um processo. Geralmente a cobertura é desqualificada
de modo apenas a reafirmar políticas públicas ruins.
Um desvio de verba de determinado programa social geralmente é notícia,
mas não são notícias, por exemplo, as conferências
nacionais em diversas áreas como saúde e educação.
Essas conferências, que só na área de saúde
já foram realizadas mais de uma dezena, se configuram, de acordo
com Beatriz, como uma etapa da política pública desconsiderada
pelos grandes veículos de comunicação.
“A Conferência Nacional de Juventude recentemente reuniu
dois mil jovens em Brasília, e nem uma linha foi escrita na
grande imprensa sobre o assunto”, exemplifica.
A palestrante foi uma das convidadas da disciplina e curso de extensão
de Jornalismo de Políticas Públicas Sociais, uma parceria
entre o Núcleo de Estudos Transdisciplinares de Comunicação
e Consciência (Netccon), da Escola de Comunicação
da UFRJ, e a Agência de Notícias dos Direitos da Infância
(Andi).
Beatriz Barbosa é jornalista e especialista em direitos humanos,
além de coordenadora do Intervozes – Coletivo Brasil de
Comunicação Social, um dos principais movimentos que
lutam no Brasil pela democratização da comunicação.
Origem elitista dos jornalistas é uma
das raízes do problema
Para Beatriz, a pergunta “de onde vem o jornalista?” pode
responder uma das origens da ausência de cobertura de políticas
públicas na grande mídia. Grande parte dos que ingressam
nos cursos de jornalismo são filhos de classe média ou
alta, assim, “as grandes mazelas sociais não fazem parte
do cotidiano desses futuros jornalistas”.
Outra origem da questão destacada pela jornalista é a
formação do comunicador: mais técnica do que humanista
e com foco no mercado. Essa formação também não
possui, de acordo com ela, uma oferta de conhecimentos mínimos
sobre o tema políticas públicas.
Em um segundo bloco de situações que podem causar essa
ausência de cobertura, estão as condições
de trabalho dos jornalistas. Segundo Beatriz, com as redações
bastante enxutas, condições precárias de trabalho,
a informação transformada em lucro e a falta de independência
do jornalista na escolha da pauta, o resultado é um jornalismo
que não aborda as questões que atingem a maioria da população.
Ainda uma terceira raiz do problema apontada por Beatriz é a
concentração dos meios de comunicação.
A jornalista lembra que apenas 9 famílias controlam 85% da informação
no Brasil, apesar do artigo 220 da nossa Constituição
proibir o monopólio.
“Só falta fabricarem as pessoas que vão assistir
aos programas!”, brinca, sobre o fato de uma mesma empresa deter
todo o processo de produção e distribuição
da informação.
Soluções
Nas redações, uma formação continuada dos
jornalistas, a investigação de dados e informações
públicas, a cobertura do processo das políticas públicas,
podem, de acordo com a palestrante, serem passos na solução
do problema. Além disso, a prática de ouvir os beneficiários
dessas políticas e de estabelecer canais de comunicação
entre a população e a imprensa, como ouvidorias e a própria
figura do ombusdman, seriam iniciativas importantes.
Na universidade, a criação de disciplinas obrigatórias
específicas sobre as políticas públicas e projetos
de extensão, também atuariam nesse sentido.
Essas iniciativas, para Beatriz, devem ser somadas a outras com foco
específico na sociedade em geral, como a criação
de disciplinas nas escolas sobre leitura crítica da mídia
e a própria formação do cidadão sobre o
papel da Estado e da Sociedade. Nesse sentido, o direito à comunicação
deve ser entendido como um direito tão importante quanto qualquer
outro.
“Mas enquanto não entendermos que a notícia deve
ser de interesse público e entendermos o ser humano como sujeito
da história, não mudaremos esse diagnóstico”,
afirmou Beatriz Barbosa. A jornalista mencionou ainda que quando se
trata de políticas públicas de comunicação,
aí é que o tema não aparece de maneira nenhuma
na grande imprensa. (Fonte: Núcleo
Piratininga de Comunicação)
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Agência Diap, 11 de maio de 2008
INFLAÇÃO
Famílias de baixa renda
sofrem com aumento do INPC
O Índice Nacional de Preço ao Consumidor subiu
em abril, especialistas atribuem o aumento do (INPC) aos alimentos.
Os gastos com alimentação pesam mais para as famílias
com renda de até seis salários mínimos o que corresponde
a R$ 2.490.
De acordo com analise do Departamento Intersindical de Estatísticas
e Estudos Socioeconômicos (Dieese), os gastos com saúde
também contribuíram para o aumento. O INPC registrado
em março deste ano foi de 0,51% já em abril subiu para
0,64%. No acumulado do ano o avanço no indicador de inflação
foi de 2,34%.
Nos últimos 12 meses e nesse início de ano o INPC ficou
acima sempre acima do Índice de Preço ao Consumidor Amplo
(IPCA), que mede os gastos de famílias com até 40 salários
mínimos. Ou seja, os pobres pagam a conta.
Da acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), a variação do INPC para o IPCA se explica pelos
gastos mais elevados com alimentação, essas famílias
reservam a maior parte do seu orçamento para alimentação.
Com o aumento nos produtos com cotação internacional,
os gastos das famílias tendem a aumentar.
Para especialistas o poder de atuação do governo para
limitar a alta dos preços dos alimentos no mercado interno é muito
reduzido, já que praticamente não há estoques
públicos de grãos e uma política de restrições às
exportações.
Explicação
Os ministros da Fazenda, Guido Mantega, e da Agricultura, Reinhold
Stephanes, avaliaram que a alta dos preços dos alimentos no
mercado interno é reflexo do cenário externo e que a
alternativa para o médio prazo é estimular a produção
por meio de liberação de crédito, garantia de
preço durante o período de comercialização
e ampliação do seguro rural.
De qualquer forma, a eficácia da política de estímulo à produção,
que, segundo Stephanes, deve ser discutida com o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva e anunciada num prazo de 30 dias, só poderá ser
mensurada a partir de fevereiro do ano que vem, quando as lavouras
que serão plantadas a partir de setembro deste ano forem colhidas.
A expectativa de Stephanes é que a produção na
safra 2008/09 crescerá 5% em relação à colheita
de 142,12 milhões de toneladas, como informou hoje a Conab.
Stephanes avaliou que a área plantada deve crescer no mesmo
ritmo de anos anteriores, entre 1% e 1,5%, apesar da disponibilidade
de áreas que podem ser incorporadas ao processo produtivo.
Carga tributária
O ministro da Agricultura calculou que só em Tocantins 4 milhões
de hectares poderiam ser usados para cultivo de lavouras. O diretor
de Logística de Gestão Empresarial da Conab, Silvio Porto,
explicou que a reduzida oferta de sementes é um dos fatores
que limita a expansão da atividade agrícola no País,
apesar do aumento dos preços de todos os grãos no mercado
internacional.
Para o médio prazo, no entanto, o governo avalia algumas alternativas,
entre elas a redução da carga tributária incidente
sobre a cadeia produtiva e o incentivo à organização
de cooperativas para exploração das minas de fosfato.
Mas a meta de elevar a oferta interna pode esbarrar, mais uma vez,
em questões ambientais, já que, segundo o ministro, as
minas de potássio estão localizadas na Amazônia,
o que dificulta a exploração. (André Santos,
com AE)
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STJ, 11 de maio de 2008
STJ reduz devolução
devida por segurado ao INSS
A Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou
que um segurado da Previdência Social devolva valores recebidos
indevidamente somente a partir da revogação da decisão
que concedeu o aumento no benefício. O pagamento indevido foi
feito por força de tutela antecipada, decisão judicial
provisória que antecipa os efeitos práticos do que foi
pedido na ação.
A decisão ocorreu em embargos de declaração contra
acórdão da própria Quinta Turma, que deu provimento
a um recurso especial do Instituto Nacional do Seguro Social – INSS.
Na ocasião, ficou decidido que o segurado deveria restituir
tudo à Previdência, mediante descontos mensais de até 10%
no benefício.
Nos embargos, o segurado alega que a decisão no recurso especial
foi omissa por não ter determinado a partir de quando as parcelas
deveriam ser restituídas.
O relator dos embargos e também do recurso especial contestado,
ministro Napoleão Nunes Maia Filho, afirmou no voto que, após
uma análise mais detalhada do caso, gostaria de rever a decisão.
Levando em conta a boa-fé do segurado favorecido com o aumento
do benefício por força judicial e o caráter alimentar
da verba, o ministro pretendia dispensá-lo do ressarcimento à Previdência.
O ministro Napoleão Nunes Maia Filho reconhece que tutela antecipada
pode ser revogada a qualquer momento e que, nesse caso, as partes devem
voltar ao estado anterior à antecipação da tutela,
que é concedida mediante caução. Mas o ministro
destacou que, em demandas envolvendo segurado da Previdência
Social, reconhecidamente hipossuficiente, as regras legais podem ser
flexibilizadas, como no caso julgado, em que a caução
foi dispensada.
Mesmo com esse novo entendimento, o relator ressaltou que não
pode mudar o acórdão em embargos de declaração.
Esse tipo de recurso tem a função exclusiva de esclarecer
omissão, contradição ou obscuridade de uma decisão.
Dessa forma, o ministro acolheu os embargos para determinar que sejam
restituídos somente os valores pagos após a revogação
dos efeitos da tutela antecipada. Essa foi a decisão unânime
da Quinta Turma.
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Gazeta do Povo, 11 de maio de 2008
Baixa renda
Até onde vai o fôlego
da nova classe C no Brasil?
Inflação e endividamento
começam a apertar o orçamento dessas famílias,
que já são a maior parcela da pirâmide
social brasileira
Crescimento econômico acima de 4%, crédito farto e aumento
de renda provocaram nos últimos dois anos uma revolução
no mercado de consumo da chamada classe C. Com mais dinheiro no bolso,
financiamentos a perder de vista e inflação sob controle
ela foi às compras como jamais se viu no Brasil. Mas os milhões
de brasileiros que experimentaram pela primeira vez as vantagens do
consumo, começam a enfrentar agora uma nova batalha. A escalada
dos preços dos alimentos pressionando os índices de inflação,
o aumento do endividamento e a perspectiva de mais elevações
da taxa de juros prometem pôr à prova o poder de fogo
dessa faixa da população, que responde por 46% do total
de consumidores no país.
Ao contrário das classes A e B, a classe C costuma comprometer
boa parte do orçamento familiar com artigos de primeira necessidade,
o que a torna bastante vulnerável à recente alta dos
preços dos alimentos. Com mais despesas com itens básicos,
sobra menos dinheiro para compras e financiamentos, que também
já estão mais caros.
Para Alcides Leite, professor da Trevisan Escola de Negócios,
especialista na área, esse cenário deve ter impacto no
ritmo de crescimento do consumo em 2008. Se em 2007 a classe C aumentou
em pelo menos 10% suas compras, em 2008 essa evolução
deve ficar entre 6% e 7%. “Não há sinais de reversão
do quadro do consumo. Mas, até porque a base é maior,
o aumento não vai ser o mesmo verificado no ano passado”,
acredita. No ano passado, pela primeira vez na história do país,
a classe C se tornou a maior parcela da pirâmide social brasileira.
Uma pesquisa da Cetelem – financeira do grupo francês
BNP Paribas –, em parceria com o Instituto de Pesquisa Ipsos,
mostra que em dois anos, de 2005 a 2007, pelo menos 23,5 milhões
de pessoas, principalmente das classes D e E, migraram para essa faixa.
Ela soma hoje 86,2 milhões de pessoas, com renda mensal entre
R$ 1,062 mil e R$ 2,017 mil.
O potencial de consumo da classe C atingiu R$ 365 bilhões em
2007, o que representa pouco mais de um quarto da capacidade total
de compra no país, de R$ 1,4 trilhão. “Nenhuma
classe social isoladamente tem maior potencial de consumo atualmente
do que a classe C”, afirma Alexandre Andrade, da Tendências
Consultoria.
Apesar da alta da taxa de juros e da pressão inflacionária,
ele acredita que a continuidade do aumento real da renda, do emprego,
do crédito e do Produto Interno Bruto (PIB) vão garantir
a elevação do consumo. “É preciso lembrar
que mesmo com a alta da Selic (taxa básica de juros), estamos
em patamares muito inferiores aos da série histórica
no Brasil”, diz. A opinião é compartilhada por
Christian Majczak, da GO4! Consultoria. “A inadimplência
está em níveis baixos, o crédito sobre o PIB no
Brasil ( 34%) ainda é muito inferior aos de países como
o Chile, onde essa proporção está em 70%, e, ao
que tudo indica, o cenário de crescimento econômico deve
se manter.”
Para o professor do departamento de economia da Universidade Federal
do Paraná (UFPR), Marcelo Curado, no entanto, o fôlego
de consumo da classe C não deve se sustentar nos mesmos patamares
registrados até agora. “Além da inflação
dos alimentos, o IGP-M (índice que corrige a maior parte dos
aluguéis) já acumula alta acima de 9% – o que deve
pressionar o orçamento familiar dessa faixa”. Para ele,
o endividamento também é um limitador. “Quem financiou
seu eletrodoméstico ou o carro não vai ter capacidade
para manter o mesmo comportamento de consumo nos próximos meses.”
Segundo o coordenador do departamento de economia da Unifae, Gilmar
Mendes Lourenço, a capacidade de endividamento da classe C começa
a bater o teto. “Em alguns casos, o comprometimento com dívidas
fora das despesas tradicionais supera 40%, quando o recomendado é no
máximo 30%. Esse cenário, independentemente da alta da
inflação e da taxa de juros, é um limitador”,
diz. Para ele, o grande teste vai se dar no segundo semestre, quando
os efeitos da elevação da taxa de juros devem começar
a ser sentidos na economia real.
Curado, da UFPR, acredita que, por conta do endividamento, deve haver
um aumento da inadimplência, sobretudo a partir do próximo
ano. Para ele, o costume do brasileiro de olhar apenas para o “se
a parcela cabe no bolso” pode provocar estragos no futuro. Isso
porque as famílias trabalham com o orçamento apertado
e não estão preparadas para aumentos de preços.
Dívida não limita novas compras
Com uma renda mensal que varia de R$ 1mil a R$ 1,5 mil, Dirlei Salete
Moreira Leite – que junto com o marido tem uma distribuidora de
carvão –, ainda tem cinco parcelas para quitar de uma compra
de roupas no ano passado, mas já pensa na próxima aquisição:
materiais de construção. Assim como Dirlei, a maior parte
das famílias da chamada classe C não tem planos de parar
de consumir nos próximos meses, embora já sinta um aperto
maior nas contas no fim do mês. “Por mês, gastamos
R$ 1 mil em dívidas. Mas eu e meu marido planejamos os gastos.” Ela é quem
mais faz compras a prazo e confessa: “Meu marido não gosta
muito porque, como somos autônomos, nunca sabemos quanto vamos
receber no mês, sempre varia.”
O casal Rosângela Cristine Ferreira da Cunha, autônoma,
e Eloir da Cunha, caminhoneiro, vai terminar de pagar a prestação
do computador em janeiro de 2009, mas também já definiu
o próximo sonho de consumo: um carro. Além do aluguel,
de R$ 500, outros R$ 1 mil são usados para pagar dívidas.
Rosângela, no entanto, diz que já observou o aumento dos
preços. “Senti que o preço dos alimentos aumentou
bastante, principalmente o arroz e o feijão. Mas não
tenho como substituir esses itens”, diz.
O segredo, segundo ela, é controlar os gastos. “Não
temos poupança, mas temos o orçamento bem controlado,
por isso as contas sempre fecham corretamente, sem apertos”,
afirma.
Thyago Macedo Moreno, consultor de informática, que acaba de
adquirir um celular novo – de R$ 340, parcelado em seis vezes –,
já paga a prestação de eletrodomésticos
e do carro. Incluindo compras em carnês e cartão de crédito,
esses gastos somam R$ 900 mensais. No fim do mês, a conta aumenta
ainda mais com o aluguel de R$ 450 da residência onde mora, no
Cajuru.
Ao juntar todos as contas, Thyago afirma que gasta pelo menos R$ 1,7
mil em dívidas, para uma renda de R$ 2 mil. “O brasileiro
tem uma mania de sair de um parcelamento e já entrar e outro”,
diz. (CR)
Colaborou Dâmaris Thomazini
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Gazeta do Povo, 11 de maio de 2008
Baixa renda
Eles querem bens de consumo
Entrada de mais pessoas na classe C fez vários setores baterem
recordes de vendas no ano passado. Graça a elas, nunca se vendeu
tantos eletrodomésticos, computadores, celulares e carros no país
Nunca se vendeu tanto celular, computador, eletrodoméstico
de linha branca, automóvel e imóvel no Brasil, principalmente
graças ao aumento do poder de compras da classe C. E, para a
maior parte das empresas desses segmentos, o ritmo de crescimento deve
continuar acelerado em 2008.
O diretor regional da Federação Nacional dos Distribuidores
de Veículos Automotores (Fenabrave), Luiz Antonio Sebben, diz
que a classe C é responsável por 30% do crescimento de
vendas de automóveis, comerciais leves e motocicletas no país
atualmente.
No ano passado, 40% das compras de veículos zero quilômetro
no país foram realizadas por pessoas que estavam adquirindo
pela primeira vez esse tipo de carro. “Esse movimento mostra
que uma parcela da população passou a fazer parte do
consumo no Brasil”, diz.
Depois de um desempenho histórico em 2007, os emplacamentos
de automóveis continuam em alta, com um crescimento de 35,61%
no primeiro quadrimestre, segundo dados da entidade. A previsão
da Fenabrave é de um aumento de 18% nas vendas em 2008, mesmo
com a alta dos juros e prazos menores de financiamentos. Se no ano
passado era possível encontrar prazos de pagamento de até 100
meses, hoje o limite encontrado no mercado é de 72 meses. Mas
a maior parte das vendas são realizadas para pagamentos em 42
meses. Os juros também estão mais caros. A média
de mercado passou de 1,3% para 1,4% ao mês.
PCs
Com 10,7 milhões de computadores vendidos em 2007, o Brasil
já é o quinto maior mercado de PCs do mundo, atrás
dos Estados Unidos, China, Japão e Reino Unido. E, se mantido
o atual ritmo de vendas, deve passar a ocupar o terceiro lugar até 2010,
de acordo com o IDC Brasil.
Com o consumo em alta, a indústria de eletroeletrônicos
espera um crescimento de 15% nas vendas, repetindo o ritmo de 2007,
quando os produtos da linha branca e os portáteis puxaram para
cima o resultado do setor. O comércio de refrigeradores, por
exemplo, cresceu 20% e de lavadoras automáticas avançou
15%, segundo dados da Associação Nacional de Fabricantes
de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros).
A demanda está sendo puxada também pelo crescimento
do mercado imobiliário, que começa a se voltar para lançamentos
específicos para essa demanda. Considerado o mais importante
sonho de consumo, a casa própria ainda é um projeto distante
para a maioria da população da classe C. “Há um
déficit habitacional expressivo entre as classes de menor poder
aquisitivo e uma demanda reprimida que deve movimentar o mercado nos
próximos anos”, diz o vice-presidente do Sindicato da
Indústria da Construção Civil (Sinduscon) no Paraná,
Normando Bau.
Dono de uma construtora voltada para as classes C e B, Bau diz que
os lançamentos com preços de R$ 50 mil a R$ 100 mil são
vendidos em no máximo 60 dias. A expectativa é repetir
o desempenho de 2007 e mais uma vez dobrar o faturamento, para R$ 60
milhões.
Empresas mudam para atender demanda
O ganho de poder aquisitivo da população de menor renda
do país provocou uma transformação de peso no
mercado de consumo e, conseqüentemente, nas estratégias
adotadas pelas empresas. Desde o Plano Real e o controle da inflação,
em 1994, houve um ganho aproximado de 150% no poder de compra das famílias
das classes C e D/E, com renda de até dez salários mínimos,
o equivalente a 87% da população do país.
A ascensão social, principalmente da classe D para a C nos últimos
dois anos, tem acelerado a investida de empresas para agradar esse
público, que depois de anos à margem do consumo, estão ávidos
por compras. O movimento se espalha por diversos setores, da indústria
de alimentos e de bens de consumo duráveis até o varejo
e a prestação de serviços.
O Wal-Mart já anunciou que pretende expandir para todo o Brasil
a sua bandeira Todo Dia, voltada para a população de
baixa renda. A Tigre, líder no mercado de tubos e conexões
com faturamento de R$ 1,9 bilhão no ano passado, lançou
em abril a Plena, uma nova empresa de acessórios para cozinha,
banheiro e áreas externas voltada principalmente para as necessidades
da classe C. A Golden Cross seguiu os passos de concorrentes e entrou
no ramo de planos de saúde populares. “As empresas sabem
que essa mudança é definitiva e têm muito claro
que essa demanda é crescente. Não se trata de uma bolha”,
diz Alexandre Andrade, da Tendências Consultoria.
Uma das primeiras a despertar para esse potencial, a indústria
de alimentos passou a adotar várias estratégias específicas
para esse público, com lançamento de produtos mais baratos,
utilização de embalagens menores e aumento de distribuição
em regiões como o Norte e o Nordeste. “Hoje o consumo
das classes de menor poder aquisitivo cresce de três a quatro
vezes mais do que o das de maior poder de compra”, diz Romeo
Lacerda, diretor de vendas Brasil e da unidade de negócios do
Nordeste da Kraft Foods Brasil, com sede em Curitiba.
Com faturamento de R$ 3,6 bilhões e sete fábricas no
país, a multinacional norte-americana reforçou sua aposta
nesse público com lançamentos, como o Royalzinho, sobremesa
em pó para disputar espaço no segmento de refrigerados,
como os petit suisse, e o Clube Social em embalagem individual, que
custa R$ 0,50. Além disso, apostou na customização
para a região Norte e Nordeste, com os sucos em pó nos
sabores regionais graviola e cajá. O biscoito Trakinas – com
embalagem de 140 gramas em vez de a tradicional de 164 gramas – possibilitou
que o produto chegasse ao ponto-de-venda com preço próximo
de R$ 1, considerado uma “barreira” para a população
mais pobre. A empresa também investiu na distribuição,
com o aumento da presença em pequenos supermercados e mercearias
e em publicidade.
Comunicar-se com a população de baixa renda que está ingressando
com mais força no mercado de consumo ainda é uma espécie
de mistério para as multinacionais, que não raro têm
investido em estágios de executivos nas periferias das cidades
e em regiões onde a população de baixa renda é em
maior número. A Unilever, por exemplo, lançou há alguns
anos o sabão Ala somente no Nordeste depois de pesquisar duas
necessidades essenciais para a dona de casa de baixa renda: alto poder
de limpeza e perfume. Resultado: rapidamente o produto se tornou líder
de vendas na região.
Na Kraft, executivos e o próprio presidente da empresa chegam
a visitar a casa dos consumidores. “Vemos que produtos a que
a dona de casa tem na sua residência, como ela prepara os alimentos
e quanto ela gasta. Mas não há fórmulas prontas.
O desafio é saber diferenciar o que esse público fala
do que ele realmente quer dizer”, diz Lacerda. De acordo com
ele, engana-se quem acha que a população de baixa renda
só quer preço barato. Atributos como qualidade, praticidade
e rendimento também são levados em consideração.
(CR)
Brasil viveu três ondas de consumo
Em pouco mais de duas décadas, o Brasil viveu três picos
de consumo que levaram as classes mais pobres às compras. Com
o Plano Cruzado, em 1986, lançado pelo então ministro da
Fazenda Dilson Funaro, a combinação de congelamento de
preços e aumento real (16%) dos salários promoveu o movimento,
que foi interrompido logo depois pela volta da inflação.
Um dos principais problemas foi que o congelamento não permitiu
que os preços sujeitos à sazonalidade se ajustassem. Com
o preço tabelado abaixo dos custos de produção,
as empresas deixaram de vender no mercado, levando ao aparecimento do ágio
para compra de produtos escassos, como carne, leite e automóveis.
Aliado a isso, a ausência de uma redução de gastos
do governo ajudou a afundar o plano, que foi sucedido pela volta da hiperinflação.
Em 1994, com o Plano Real, mais uma vez o controle da inflação
impulsionou as vendas. O programa de estabilidade econômica criado
pelo economista Edmar Bacha e lançado pelo então ministro
da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, do governo Itamar Franco, colocou
fim a três décadas de inflação elevada e
criou um novo padrão de consumo, principalmente de alimentos.
Com o fim da correção dos preços, sobrava mais
dinheiro no fim do mês e famílias passaram a comprar biscoito,
derivados lácteos e frango, que mais tarde se transformou no
grande ícone do real.
Agora, porém, o aumento do consumo não está mais
amparado exclusivamente ao controle da inflação. “O
motor principal dos últimos dois anos foi o crédito,
que tem elevado as vendas principalmente de bens que são financiados”,
explica Marcelo Curado, professor do departamento de economia da UFPR. (CR)
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Folha de Londrina, 11 de maio de 2008
PSDB se assusta com tática
do DEM
Na avaliação tucana,
democratas tendem a radicalizar o enfrentamento com o governo
Lula
Brasília - Apesar de PSDB e DEM sustentarem uma parceria na oposição
ao Planalto e afirmarem que a aliança é prioritária
e essencial a ambos, a luz amarela acendeu nas hostes tucanas depois
da intervenção do líder do DEM no Senado, José Agripino
(RN), na sessão em que a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil)
depôs na Comissão de Infra-Estrutura, quarta-feira. Os tucanos
viram ali um sinal inequívoco de que o DEM tende a radicalizar
o enfrentamento com o governo Lula, o que fará do aliado um franco
atirador com vocação de partido nanico.
Um deputado do PSDB, que naquela noite pegou carona com o líder
na Câmara, José Aníbal (SP), testemunhou um desabafo
e um telefonema do líder a Dilma. ''Fazer referência a
tortura e tentar criar similitude é incabível'', disse
Aníbal, enquanto teclava no celular o número do Planalto.
Quando a ministra atendeu, ele foi direto ao ponto. ''Estou telefonando
para deixar o meu abraço solidário e dizer que achei
que a senhora teve uma postura muito firme no depoimento.'' Ao desligar,
justificou-se: ''Somos amigos. Sei o que ela passou quando eu estava
na clandestinidade''.
No depoimento, Agripino fez uma pergunta à ministra a partir
da ilação de que se ela mentira sob tortura, como confessara
em entrevista, era possível que também mentisse na comissão.
Dilma revidou dizendo que ele confundia o diálogo da democracia
com a mentira contada na tortura para proteger vidas.
Um senador que participa da direção nacional do PSDB
avalia que, nestes termos, a aliança com o DEM Brasil afora
não terá viabilidade. Mais que isso: na briga pela sucessão
de Lula, não os levará a lugar algum. Setores importantes
do tucanato acham que o DEM está montando agenda incompatível
com o projeto de poder a ser conduzido pelos governadores tucanos de
São Paulo, José Serra, ou de Minas Gerais, Aécio
Neves. Os dois presidenciáveis do PSDB avaliam que não é boa
tática atacar o presidente. A saída seria contornar sua
popularidade com um discurso pós-Lula.
Christiane Samarco
Agência Estado
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Folha de Londrina, 11 de maio de 2008
Jovens têm menos cobertura
previdenciária
Uma avaliação feita pelo pesquisador Paulo Tafner, do Instituto
de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), com base nos dados da
Previdência Social, apresentada em dezembro do ano passado mostrou
que o sistema previdenciário brasileiro enfrenta grandes desafios,
como aumentar a cobertura da população jovem, equilibrar
receitas e despesas e combater os excessos na concessão de benefícios
assistenciais. Segundo Tafner, se esses desafios não forem combatidos,
o sistema corre sério risco de entrar em colapso.
Ainda segundo dados do relatório, produzido em conjunto com
a Universidade Cândido Mendes, em 2006 havia proporcionalmente
mais crianças e trabalhadores jovens vivendo em famílias
totalmente excluídas da Previdência Social do que em 1979.
Os resultados da pesquisa provocaram interesse do Ministério
da Previdência que pediu detalhamento do estudo.
O trabalho foi realizado utilizando um conceito amplo de cobertura
(incluindo aposentados, pensionistas, contribuintes da Previdência
e seus dependentes). Dentro dessas considerações, a cobertura
previdenciária brasileira era de 71,6% em 1979, e de 71,1% em
2006. Na faixa etária de 0 a 15 anos, a cobertura caiu de 66%
para 59% no mesmo período. Para a população entre
15 e 29 anos, os porcentuais são 73% e 70%, respectivamente.
Em contrapartida, a cobertura expandiu-se de 90% para 95% para a população
acima de 65 anos, entre 1979 e 2006.
Agência Graffo
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O Estado do Paraná, 11 de maio de
2008
Direito e Justiça
Uma agenda mínima construtiva
entre empregados, empregadores e governo
Edésio Passos
O atual inciso II do artigo 8.º define o sistema sindical vigente,
de unicidade, em suas linhas mestras, desde a década de 30,
ao prescrever: “Art. 8.º ... II - é vedada a criação
de mais de uma organização sindical, em qualquer grau,
representativa de categoria profissional ou econômica, na mesma
base territorial,que será definida pelos trabalhadores ou empregadores
interessados, não podendo ser inferior a área de um Município”.
O atual sistema sindical tem as seguintes bases: a) uma só entidade
representativa de categoria profissional ou econômica na mesma
base territorial, o que se entende por unicidade sindical um só sindicato,
uma só Federação, uma só Confederação;
b) base territorial limitada a, pelo menos, um município, impossibilitando,
assim, o sindicato de empresa, mas não vedando sindicatos intermunicipais,
estaduais, interestaduais e nacionais; c) direito do trabalhador ou
empregador definir a base territorial, possibilitando o desmembramento
da entidade sindical que detenha a base em mais de um município,
desde que nasça de um consenso com a entidade-originária.
Ao mesmo tempo, a Constituição Federal de 5 de outubro
de 1988 fixou o princípio da liberdade e autonomia sindical
também no art. 8.º, em seu inciso I : “ a lei não
poderá exigir autorização do Estado para a fundação
de sindicato, ressalvado o registro no órgão competente,
vedadas ao Poder Público a interferência e a intervenção
na organização sindical”. Portanto, é livre
a fundação da entidade sindical, mas a aquisição
de sua personalidade jurídica fica na dependência de registro
no órgão competente, vedando ao Ministério do
Trabalho e Emprego ou de outro organismo do Poder Público a
interferência e a intervenção na organização
sindical. Mas diante das ilegalidades cometidas pelo Ministério
do Trabalho e Emprego na edição da Portaria 186/2008,
que regulamenta o sistema de reconhecimento e registro das entidades
sindicais, há necessidade de que uma agenda construtiva mínima
seja efetivada para a fixação das bases fundamentais
do edifício da organização sindical dos empregados
e empregadores, superando-se essa infeliz posição, revogando-se
a norma administrativa e caminhando em direção a um novo
ajuste consensual.
Essa agenda construtiva mínima se baseia em (1) no respeito
ao artigo 8.º da CF/88 (2) dentro das normas constitucionais,
o imediato afastamento do Ministério do Trabalho de decisões
relativas ao reconhecimento de entidades sindicais impugnadas (3) a
suspensão total do sistema de registro sindical até a
formulação de uma lei consensual do registro sindical
(4) a não interferência na organização sindical
(5) esforço comum visando a elaboração de anteprojeto
de lei sindical entre as várias tendências do movimento
sindical, extraído das proposições em debate na
Câmara dos Deputados. São pontos iniciais (outros poderão
ser fixados na evolução dos debates) para reflexão,
mas que, se adotados, se constituirão em uma diretriz democrática
para o presente período pré-eleitoral e para o governo
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O atual sistema sindical
conduziu política, econômica e socialmente os trabalhadores
e empregadores até o atual estágio em suas relações
durante setenta anos. Há afirmações de que se
trata de um sistema anacrônico, ultrapassado, obstáculo
ao livre desenvolvimento das forças produtivas, impeditivo do
crescimento econômico. Por isso, a necessidade das urgentes mudanças.
Mas não foi esse o sistema que contribuiu de modo decisivo para
que Luiz Inácio Lula da Silva chegasse à presidência
e chefia do governo democrático e popular e com o mais alto índice
de aprovação? Para que o presidente Lula possa continuar
com as mudanças que todo o povo vem apoiando, em especial gerando
emprego e renda, é fundamental que convoque todo o atual movimento
sindical para somar forças. Por isso, erra o ministro do Trabalho
em editar Portaria que vai em direção a desconstituir,
fragmentar e enfraquecer a organização sindical. Este,
certamente, é o pior momento para que tal empreitada possa ser
levada adiante. É prudente que o ministério do Trabalho
e Emprego repense o caminho que pretende seguir e convoque todas as
forças sindicais, de todos os campos, empregadores e empregados,
para a agenda construtiva e positiva em favor do país, em torno
dos programas de crescimento econômico que estão sendo
alavancados pelo presidente Lula. A melhor contribuição
do Ministério seria somar forças, ao invés de
dividi-las. Especialmente em um momento de afirmação
da soberania nacional.
Portaria 186/08
A Coordenação Federativa de Trabalhadores do Paraná,
representando 700 entidades sindicais de trabalhadores, publicou nota
rejeitando a Portaria 186/08 do Ministério do Trabalho e Emprego
sobre registro sindical, reafirmando o princípio constitucional
da unidade sindical. Dia 13 de maio reúnem-se, em Brasília,
as entidades que compõem o Fórum Sindical de Trabalhadores
para aprovar as medidas a serem adotadas em relação à referida
Portaria Ministerial e a outras importantes questões em andamento
no governo federal e no Parlamento.
STF: salário mínimo
(1) A vinculação do adicional de insalubridade ao salário
mínimo ofende a Constituição Federal, mas a alteração
da base de cálculo por via de interpretação jurídica
não é possível. Com esse fundamento, os ministros
do Supremo Tribunal Federal negaram provimento ao primeiro Recurso
Extraordinário (RE 565714) com repercussão geral. A relatora,
ministra Cármen Lúcia Antunes Rocha, salientou que a
parte final do artigo 7.º, inciso IV, da Constituição,
proíbe expressamente a vinculação do salário
mínimo para qualquer fim. O objetivo da norma, explicou a ministra, é impedir
que haja pressões que levem a reajustes menores no salário
mínimo. Ela lembrou diversos precedentes da Corte no sentido
de que o mínimo não pode ser usado como indexador, seja
de vencimentos, abonos, pensão ou indenizações,
entre outros.
(2) Por unanimidade, o Plenário do STF decidiu que é constitucional
o pagamento de valor inferior ao salário mínimo para
os jovens que prestam serviço militar obrigatório (RE
570177), em recurso interposto por um recruta contra a União,
reconhecida a ocorrência de repercussão geral, alegando
que o pagamento de valor inferior ao mínimo violava o disposto
nos artigos 1.º, incisos III e IV; 5.º, caput; e 7.º,
incisos IV e VII, da Constituição Federal. O relator,
Ricardo Lewandowski, considerou que “praças que prestam
serviço militar inicial obrigatório não tinham,
como não têm, o direito a remuneração, pelo
menos equivalente, ao salário mínimo em vigor, afigurando-se
juridicamente inviável classificá-los, por extensão,
como trabalhadores na acepção que o inciso IV do artigo
7.º da Carta Magna empresta ao conceito”.
(3) Após o julgamento dos dois primeiros Recursos Extraordinários
com repercussão geral, os ministros do STF aprovaram o texto
da quarta súmula vinculante: “Salvo os casos previstos
na Constituição Federal, o salário mínimo
não pode ser usado como indexador de base de cálculo
de vantagem de servidor público ou de empregado, nem ser substituído
por decisão judicial”. A inconstitucionalidade do uso
do salário mínimo como indexador, vai repercutir em cerca
de 580 outros processos no STF e em mais de 2.400 processos no TST.
Inss e Justiça do Trabalho
O ministro da Previdência Social, Luiz Marinho, e o presidente
do TST, Rider Nogueira de Brito, aprovaram anteprojeto de lei que permitirá ao
INSS reconhecer o tempo de serviço determinado em sentenças
judiciais ou acordos homologados na Justiça do Trabalho. O Ministro
Luiz Marinho afirmou que sua aprovação é fundamental
para que o segurado possa comprovar mais facilmente seu tempo de serviço
junto à Previdência Social. “É inconcebível
que um trabalhador vá à Justiça do Trabalho, que
determina o recolhimento das contribuições devidas e
a Previdência não reconheça o período”.
Atualmente, o INSS só contabiliza o tempo de contribuição,
decorrente de ações trabalhistas, se o trabalhador anexar
ao processo de requerimento de benefício previdenciário
documentos, como carteira de trabalho assinada, comprovante de recebimento
mensal de salários ou cópia do cartão de ponto
que sirvam como início de prova material do vínculo.
A partir aprovação do projeto, o INSS estará autorizado
a acatar de pronto a sentença ou acordo trabalhista reconhecendo
o período trabalhado, mesmo sem a apresentação
dos documentos atualmente exigidos; somente serão aceitos os
acordos ou sentenças dos últimos cinco anos e desde que
acompanhados dos respectivos recolhimentos, evitando fraudes e garantindo
as respectivas contribuições; antes de dar baixa no processo
o juiz deve determinar o recolhimento do período trabalhado,
evitando possíveis fraudes contra o sistema; para os trabalhadores
que tiveram decisão da Justiça e têm a documentação
em mãos, o INSS continua a reconhecer o período trabalhado,
mesmo se passar dos cinco anos. As contribuições relacionadas
a sentenças ou acordos judiciais são depositadas no Fundo
do Regime Geral de Previdência Social (RGPS), pois chegam ao
INSS sem a identificação do trabalhador. Em 2006, o INSS
arrecadou mais de R$ 1 bilhão, Em 2005, R$ 990,6 milhões;em
2004, R$ 962,8 milhões; em 2007, mais de um bilhão de
reais.
INSS:confisco
A pretensão de cobrar a alíquota previdenciária
de 11% de contribuição do trabalhador sobre o valor de
acordo homologado pela Justiça, sem reconhecimento do vínculo
empregatício, caracterizaria verdadeiro confisco de rendimentos.
Este é o teor de voto do ministro-relator Aloysio Corrêa
da Veiga, aprovado por unanimidade pela Sexta Turma do TST, observando
que a lei determina o recolhimento da contribuição previdenciária,
independente da natureza da relação jurídica entre
as partes. Ou seja: mesmo em acordo homologado pela Justiça
do Trabalho, sem o reconhecimento do vínculo de emprego, é devida
a contribuição de 20% da empresa, destinada à seguridade
social. Mas, pretender cobrar, além desse percentual, os 11%,
além de não encontrar amparo nos dispositivos legais, “caracterizaria
verdadeiro confisco dos rendimentos do trabalhador, ultrapassando,
inclusive, o percentual máximo devido a título de imposto
de renda”. (RR 634/2005-781-04-00.5)
TST:voto vencido
A jurisprudência da Seção Especializada em Dissídios
Individuais (SDI-1) do TST considera que os fundamentos fáticos
e jurídicos do voto vencido, uma vez descritos no acórdão,
podem ser levados em consideração no julgamento de recurso. É a
hipótese em que o relator inicia a apresentação
do voto com suas conclusões fático-jurídicas sobre
o tema e, em seguida, usando expressões como todavia, contudo,
no entanto, explica que o órgão colegiado adotou conclusão
diametralmente oposta a seu entendimento, ou seja, sua tese ficou vencida.
A relatora, ministra Maria de Assis Calsing, rejeitou a tese constante
de embargos de empresa observando que a decisão da Segunda Turma
transcreve o trecho, constante do acórdão regional, ainda
que em tese vencida, que norteou sua decisão. “Nessa hipótese,
podem e devem ser considerados todos os elementos constantes do acórdão,
porque não se trata de peça autônoma, distinta
e independente. A partir do momento em que a fundamentação
do voto vencido integrou o acórdão, tem-se por prequestionada
toda a matéria fática”, concluiu (E-RR-546319/1999.0).
Estabilidade do dirigente sindical
“Estabilidade provisória. Suplente de delegado sindical.
Eleição pela assembléia geral. Representação
sindical perante entidade federativa. Não se conhece de recurso
de revista, por divergência jurisprudencial, quando o Eg. TRT
reconhece estabilidade provisória a suplente de delegado sindical
por ter sido eleito mediante assembléia geral e por representar
interesse da categoria profissional perante entidade federativa, enquanto
que os arestos colecionados negam referida estabilidade sem apresentar
o mesmo suporte fático. Óbice na Súmula n.º 296
do C. TST. Recurso de revista não conhecido” (TST RR 23084-2001-652-09-00.
6.ª Turma. ministro relator Aloysio Corrêa da Veiga.DJU
11/4/2008). (Íntegra do acórdão regional no site
do TRT.PR 23084.2001.652.84.00.9, Ac. 01272/04, 2.ª Turma, relator
des. fed. Arion Mazurkevic).
Memória
7-12,maio,1978: Realizava-se em Curitiba a VII Conferência Nacional
dos Advogados sob a liderança dos juristas Raymundo Faoro e
Eduardo Rocha Virmond, presidentes da OAB nacional e paranaense, sob
o tema “O Estado de Direito”. Agora, 30 depois, a OAB.PR,
sob a direção do advogado Alberto de Paula Machado, realizará a
IV Conferência Estadual dos Advogados, tendo por local, a sessão
de abertura, a 22 de junho, o auditório do Teatro Guaíra,
relembrando a Conferência de 1978, marco da luta da resistência
dos advogados e do povo brasileiro à ditadura militar, na afirmação
constitucional-democrática e pela anistia política conquistada
um ano depois.
12,maio,1978: “Foi aqui, nesse pátio, que começamos
a conquistar a redemocratização do nosso país.
Aqui, no dia 12 de maio de 1978, um grupo de trabalhadores resolveu
exercitar depois de muitos anos, porque o regime militar não
permitia uma conquista universal que é o exercício da
greve”, foi o que afirmou o hoje Presidente Luiz Inácio
Lula da Silva ao visitar a fábrica da Scania na cerimônia
dos seus cinqüenta anos. Referia-se à greve dos trabalhadores
metalúrgicos iniciada naquela empresa há 30 anos e que
se espalhou no ABC paulista, sob direção da entidade
sindical presidida por Lula. Além da importância sindical
e para as campanhas de aumento salarial e de negociação
coletiva, a greve teve significado maior: “Mas foi, acima de
tudo, um momento em que os trabalhadores deixaram de ser meros espectadores
e se tornaram atores da cena social e política do país”,
afirma José Lopes Feijoó, presidente do Sindicato dos
Metalúrgicos do ABC(in Revista Forum, edição de
abril,2008)
13,maio,1968: No dia 13 de maio de 1968 as cinco centrais sindicais
dos trabalhadores franceses, em Paris, decretaram a greve geral em
solidariedade ao movimento dos estudantes e contra a repressão
do governo do general De Gaulle. O levante social de milhões
de estudantes e trabalhadores franceses demarca o maio de 1968 como
o ano dos grandes embates pela transformação social,
contra a opressão e a exploração, e pela paz,
contra a guerra do Vietnã. No Brasil, a partir de 28 de março
de 1968, com as primeiras manifestações em protesto ao
assassinato do estudante Edson Luís, o movimento de resistência à ditadura
militar ganha as ruas, universidades e fábricas do país,
avançando a luta pela democracia e justiça social.
“É proibido proibir” (um
dos lemas dos estudantes franceses em maio de 1968).
Edésio Passos é advogado. edesiopassos@terra.com.br
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Folha de S. Paulo, 11 de maio de 2008
União cobra R$
59 milhões da Força, diz PF
Conversa revela que Paulinho
e mais duas pessoas estão sendo cobradas por supostas
irregularidades em convênios com a pasta do Trabalho
Convênio foi feito com Ipec, ONG contratada
pela Força para executar programa financiado pelo FAT para treinar
mão-de-obra
RUBENS VALENTE
DA REPORTAGEM LOCAL
Uma conversa telefônica interceptada pela Polícia Federal
na Operação Santa Tereza, que investiga prostituição
internacional e fraudes com verbas públicos, revela que o deputado
federal Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho, e outras duas
pessoas estão sendo cobradas em R$ 59 milhões pela União
por supostas irregularidades em convênios mantidos pela Força
Sindical com o Ministério do Trabalho.
O telefonema é de 22 de fevereiro. João Pedro de Moura,
ex-assessor de Paulinho que está preso, ligou para Valéria,
identificada pela PF como "secretária de João Pedro
na Força".
Segundo a transcrição, a mulher contou que "chegou
do ministério a comissão especial reprovando todos os contratos
que a gente [Força] fez com o Ipec em 2000, pedindo a devolução
do dinheiro [ao] Paulinho, Nassini e o Roque". Conforme a PF, Valéria
disse que "tem três dias para responder, e dá em torno
de R$ 59 milhões".
Valéria teria dito que "reprovaram [as contas] porque o Ipec
não apresentou nota porque contratamos o Ipec com dispensa de
licitação". O Ipec foi uma ONG contratada pela Força
para executar o convênio do Planfor (Plano Nacional de Qualificação
do Trabalhador), programa financiado pelo FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador)
para treinamento de mão-de-obra.
Os presidentes das centrais eram os responsáveis legais pela comprovação
dos gastos. Os contratos de 2000 são suspeitos de fraudes desde
2001, quando a pasta do Trabalho criou um Geip (Grupo Especial de Investigação
Preliminar). Os convênios foram investigados também pela
CGU (Controladoria Geral da União) e pelo TCU (Tribunal de Contas
da União). Os resultados integram acórdão aprovado
em julho de 2003 no plenário do TCU.
Foram apontados problemas nos convênios com a Força Sindical,
a CUT (Central Única dos Trabalhadores) e a Fiesp, entre outras
entidades. O caso da Força é o mais expressivo. Segundo
nota divulgada pela CGU em 2005, a Força gerou um prejuízo
de R$ 37,9 milhões aos cofres públicos, em valores daquele
ano, seguida pela CUT, com R$ 9,9 milhões. Atualizado pelo INPC
(Índice Nacional de Preços ao Consumidor), o valor citado
na nota atingiria em fevereiro R$ 58,5 milhões, próximo
do valor citado no telefone.
Dos 3.000 alunos que a Força alegou ter treinado, 1.734 foram
localizados e entrevistados pelo TCU. Nenhum confirmou as informações
contidas no Sigae (sistema para acompanhamento dos cursos) "em pelo
menos uma das ações em que figuram como concluintes".
Segundo o TCU, "na Força, palestras de 3 a 4 horas para 73
mil pessoas foram computadas como curso profissionalizante; 5.269 treinandos
participaram de mais de um curso em períodos simultâneos".
O relatório reclama do Codefat (Conselho Deliberativo do FAT),
a quem cabia "acompanhar a execução dos planos de
trabalho, deliberar sobre prestações de contas e fiscalizar
a administração dos convênios".
O relatório do Geip apontou que "1.336 treinandos participaram
de ações em municípios diferentes e 8.747 treinandos
participaram da mesma ação mais de uma vez". Um dos
nomes citados no telefonema, "Nassini", pode ser o de Nassin
Gabriel Mehedff, responsável pela assinatura dos convênios
na condição de secretário nacional de políticas
públicas de emprego do Ministério do Trabalho (1996-2002).
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Folha de S. Paulo, 11 de maio de 2008
Polícia apreende outro
papel que mostra partilha
DA REDAÇÃO
Planilha apreendida por operação da PF que apura desvios
de dinheiro do BNDES aponta o deputado federal Paulo Pereira da Silva
(PDT), o Paulinho, como possível destinatário de R$ 216
mil. Segundo os jornais "O Estado de S. Paulo" e "O
Globo" , a planilha, encontrada na Progus, de Marcos Vieira Mantovani,
reforça a suspeita de envolvimento do deputado.
A PF diz que o manuscrito mostra a partilha de R$ 2,6 milhões.
Metade teria ido para Mantovani, que repassou 50% à Progus e 50%
a "Paulinho", "Tosto" e "Gaspar". Para
a PF, "Paulinho" é o deputado, "Tosto", o
advogado Ricardo Tosto, e "Gaspar", o vice-presidente estadual
do PDT José Gaspar. O restante, para "Maneco", "JP", "Jamil" e "Boris",
ou, diz a PF, Manoel Bastos, da boate WE, João Pedro de Moura,
ex-assessor da Força, Jamil Issa Filho, assessor da Prefeitura
de Praia Grande, e Boris Bitelman Timoner, lobista.
Outra planilha já apreendida no escritório de Mantovani,
conforme a Folha divulgou, também sugere repasse a Paulinho, segundo
a PF. Nela apareciam as iniciais "PA/GA" ao lado de um pagamento
de R$ 82.162,93.
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Folha de S. Paulo, 11 de maio de 2008
Paulinho diz desconhecer a cobrança
DA REPORTAGEM LOCAL
Indagado ontem sobre se estava sendo cobrado pela União junto
com outras duas pessoas, o presidente da Força Sindical, Paulo
Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho, afirmou desconhecer qualquer
tipo de cobrança do Ministério do Trabalho feita à central
sindical.
Em entrevistas nas quais cita uma nota do Ministério da Justiça,
Paulinho tem dito que não está sob investigação
na Operação Santa Tereza. O deputado tem foro privilegiado
e, para ser oficialmente investigado, o processo deve tramitar no Supremo
Tribunal Federal.
Do processo que trata da prestação de contas dos convênios
e que tramita no TCU (Tribunal de Contas da União) consta que
em 2001 Paulinho enviou um ofício ao Ministério do Trabalho
no qual reclama de supostos problemas no Sigae, o sistema pelo qual o
governo acompanhava a execução dos cursos profissionalizantes.
A auditoria diz que a Força Sindical "culpou o Ministério
do Trabalho pelas dificuldades com o Sigae em 2001". O Sigae era
alimentado pelas centrais sindicais com os nomes dos alunos. Quando foram
descobertas disparidades nas prestações de contas, a Força
alegou que o problema era no sistema.
" O processo de prestação de contas contém um ofício
da SPPE [secretaria do ministério] dirigido ao Sr. Paulo Pereira da Silva,
datado de 21/12/2001, queixando-se de que 56% das turmas não haviam sido
inseridas no Sigae, o que poderia dar ensejo à pena de suspensão
da continuidade da execução", diz o relatório do TCU.
Segundo o tribunal, a Força informou que "somente em 2002,
foram implantadas 17 novas versões de mudanças estruturais
e correções no Sigae-Parceria". Mesma alegação
foi apresentada pela CUT (Central Única dos Trabalhadores), que
também teve convênios questionados pelas auditores do TCU. "A
CUT chegou a afirmar que o sistema [Sigae] é inconsistente e "o
que lá consta nem sempre retrata a realidade'", afirma o
relatório do tribunal.
O ex-secretário nacional de políticas públicas e
emprego do Ministério do Trabalho entre 1996 e 2002, Nassin Gabriel
Mehedff, que teria sido citado como "Nassini" no telefonema
interceptado pela Polícia Federal na Operação Santa
Tereza, foi procurado por telefone, em sua casa, no Rio de Janeiro. Foi
deixado recado, mas não houve retorno até o fechamento
desta edição. (RV)
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Folha de S. Paulo, 11 de maio de 2008
Militantes questionam os rumos
do sindicalismo 30 anos após greve de 78
Organizada em menos de uma semana,
paralisação enfrentou legislação
sindical e projetou nome de Lula
"É uma amargura ver como está o
movimento sindical hoje", afirma Manuel Anisio Gomes, ex-diretor
do Sindicato dos Metalúrgicos
Reprodução
Trabalhadores em greve na Scania em 1978
LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL
Em 1978, uma greve que parecia amalucada, organizada em menos de uma
semana na fábrica de ônibus e caminhões Scania-Vabis,
em São Bernardo do Campo, alastrou-se por boa parte do ABC paulista.
Questionou a legislação sindical então ultra-restritiva,
ampliou o direito de greve, deixou perplexos os patrões e na
defensiva a ditadura militar; construiu novos paradigmas para a ação
dos sindicatos e projetou pela primeira vez o nome de Luiz Inácio
da Silva, o Lula, para fora dos meios metalúrgicos. Trinta anos
depois, alguns destacados militantes dessa jornada se perguntam: "Acabou?"
"É uma amargura ver como está o movimento sindical",
diz o ex-diretor do sindicato dos metalúrgicos Manuel Anisio Gomes, 63. "Hoje,
até o próprio sindicato contrata serviço temporário
de trabalhadores terceirizados. Muitos dirigentes sindicais aceitam precarizar
o mercado de trabalho e negociar direitos que estão na CLT [Consolidação
das Leis do Trabalho] desde 1943. É uma tristeza para a gente", afirma
Rubens Teodoro de Arruda, Rubão, 70, ex-vice-presidente do Sindicato dos
Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema.
" Sempre fomos contra o imposto sindical porque achávamos que o sindicato
deveria ser mantido pela contribuição voluntária dos associados.
Agora, até a CUT [Central Única dos Trabalhadores], que era contra
o imposto sindical, usa argumentos sem pé nem cabeça para defender
que ele seja mantido. É muita contradição entre o discurso
e a prática. Como você pode querer liberdade e autonomia sindical
se você depende do imposto? Por que é que o dirigente vai fazer
campanha de sindicalização se ele pode ficar esperando o dia de
receber o dinheiro do imposto?", diz o ex-diretor do Sindicato dos Metalúrgicos
Djalma Bom, 69.
" Não existe mais solidariedade e companheirismo. O salário
está difícil, o emprego está difícil. Todos contra
todos, acaba essa confiança de um no outro, base da ação
sindical", diz Isaias Urbano da Cunha, 68, ex-diretor do sindicato dos metalúrgicos
de Santo André.
Manuel chorou. Djalma também. Isaias e João idem. Foi uma
choradeira o encontro de dirigentes e militantes da greve de 78, que
aconteceu na última quinta-feira em São Bernardo. Um dos
participantes explicou a emotividade. Segundo ele, a greve de 78 exige
muito da memória afetiva porque aqueles acontecimentos não
podem ser resgatados a partir de fotos, hinos ou palavras de ordem.
Como o movimento grevista aconteceu dentro das fábricas, dele
há poucos registros fotográficos e nada do charme "nouvelle
vague" do maio de 68 francês, por exemplo. Também não
houve hinos nem palavras de ordem. Aliás, uma marca original dessa
greve foi o silêncio, conforme relata João de Oliveira da
Silva, o "João Chapéu", 74, taxista agora, operário
da Mercedes Benz há 30 anos:
" No dia 15 de maio, eu estava trabalhando normalmente, quando veio a notícia
sussurrada: "Os tornos automáticos pararam". Saí da máquina
para cumprimentar os companheiros. Quando voltei para a minha seção,
que era a 21, bem no meio da fábrica, eu só ouvia o prrrrr-prrrrr-prrrrr
-era uma máquina sendo desligada, depois outra e outra. Dali a pouco,
silenciou a fábrica inteira. O encarregado-geral veio e falou: "Ninguém é contra
greve nenhuma. Cada um fica sentado na sua máquina. E sem formar rodinha".
Naquele silêncio, eu me sentia numa festa."
" Vamos fazer uma greve no fim desta semana?", assim começou
a organização da greve na Scania. O autor da proposta foi Gilson
Menezes, hoje com 58, que tinha acabado de ser empossado como diretor do sindicato,
na chapa de Lula. Segundo Gilson, se a greve fosse marcada para dali a 15 dias,
a direção da empresa ficaria sabendo. No dia 12, nos ônibus
que transportavam os operários para a fábrica, todos foram avisados: "Primeiro,
vai parar a ferramentaria. O resto vai parando na seqüência".
Coincidentemente, a diretoria do sindicato tinha reunião marcada
para o mesmo dia 12. Às 8h, Gilson deu fichas telefônicas
a um outro operário e pediu-lhe que fosse a um orelhão
ligar para o sindicato. "Fala que eu mandei avisar que a Scania
está parada." "A diretoria vibrou. Teve até quem
chorasse."
Segundo Manuel Anisio, a partir daí começou a pipocar greve
em todos os lugares. A Volkswagen parou de produzir o Passat, sucesso
da época. Durante nove dias, o Corcel parou de sair da fábrica
da Ford. A reivindicação era 20% de aumento real, mas parou-se
também por falta de papel higiênico, para conseguir os 15
minutos de café que as empresas não tinham, contra o cartão
de ponto para registrar idas ao banheiro.
Em Santo André, vizinha a São Bernardo, as notícias
da greve chegaram já na sexta-feira. Isaias se lembra de ter reagido
mal à greve da Scania. "A gente achou aquilo uma loucura.
Como? Vai fazer greve numa sexta-feira? Como é que segura no final
de semana?" Mas eles conseguiram. Na segunda-feira, continuaram
com a paralisação. "A gente não acreditava."
" Aí, umas meninas corajosas começaram a parar a seção
de anéis da Cofap. Foi a nossa deixa. A gente chamava os homens de covardes.
Graças às meninas dos anéis, todo mundo foi parando. Era
dia 15 de maio."
"Meninas"
As "meninas" eram poucas na categoria (em São Bernardo,
não superavam os 8% do total. Na diretoria do sindicato, era zero
representante). Maria Teixeira Vilella, a Mana, 60, trabalhava no Comando
de Diadema e era do sindicato quando ajudou o pessoal a parar fábricas
pequenas e médias. Perdeu o emprego em 1980, após uma greve.
Nunca mais foi aceita em nenhuma empresa. Tornou-se costureira. "Fico
triste, porque a gente dá o sangue e depois as pessoas fingem
que não conhecem. Sinto-me descartável. As mulheres que
brigaram naquela época, como eram poucas, ficaram marcadas. Sou
metalúrgica ferrada."
Os homens parecem mais aconchegados. "Se a gente sabia que um colega
tinha ficado doente, ou estava numa pior, em meia hora corria uma lista
dentro da fábrica para ajudar. Sempre tinha alguém que
comprava o remédio e fazia a visita. Amigo de fábrica era
melhor do que parente", diz Isaias.
Lula, que tinha tomado posse em 21/4/1978 para o novo mandato sindical,
havia dito em seu discurso de posse que "os patrões e a Fiesp
só ouviriam as vozes dos trabalhadores quando eles estivessem
com os braços cruzados e as máquinas paradas".
Duas semanas depois das greves em 30 empresas, das quais participaram
50 mil operários de um total de 120 mil só em São
Bernardo, a Lei de Greve tornara-se um trapo. Apesar da decretação
da ilegalidade do movimento, o sindicato havia conseguido de várias
empresas o aumento real de salários e o não-desconto dos
dias parados.
E agora? "Novas tecnologias, informática, telecomunicações,
robotização e terceirização da mão-de-obra
são a forma atual de exploração da classe trabalhadora.
O sindicato que o Lula de então dizia que tinha de funcionar na
porta de fábrica é mais necessário do que nunca",
diz Djalma Bom. "Ainda posso lutar", diz Rubão.
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Folha de S. Paulo, 11 de maio de 2008
Centrais sindicais estão
no colo do Estado, critica analista
FERNANDO BARROS DE MELLO
DA REPORTAGEM LOCAL
Trinta anos se passaram desde a greve da Scania, mas o Brasil assiste
hoje a uma adaptação de uma fórmula criada muito
antes de 1978, no governo Getúlio Vargas. A avaliação é do
sociólogo Ricardo Antunes, professor titular da Unicamp. " Temos
visto tristemente um processo de reestatização das cúpulas
sindicais. As centrais estão no colo do Estado." Ao analisar
a evolução do movimento sindical, ele vê duas "mãos" que
batalham entre si. A primeira atrela os sindicatos ao Estado; a outra
traz independência aos trabalhadores.
" Naquele movimento iniciado em 1978, o lema era "o sindicato somos
nós". Essa mão própria estava mais forte que a do Estado.
Foi um período de efervescência e Lula personificava isso",
diz. "Agora, o governo Lula está usando uma mão com a experiência
de quem conhece bem o outro lado", completa.
Segundo dados do Sindicato dos Metalúrgicos, em 30 anos, o ABC
paulista perdeu trabalhadores, mas o sindicato ganhou membros. Em 78,
havia 150 mil trabalhadores na região, mas só 30% eram
sindicalizados. Hoje, são 97,8 mil trabalhadores e 73,2 mil filiados
(ativos e aposentados). A sindicalização também
aumentou pelo país, contrariando tendência mundial, segundo
especialistas. Em 1978, era de cerca de 10%. Em 2005, chegou a 18,3%.
Antunes lembra que antigas bandeiras dos grevistas de 78, da CUT e do
próprio Lula não vingaram no atual governo. Ele cita o
fim do imposto sindical e o aumento da autonomia dos sindicatos. Paulo
Fontes, professor do CPDOC-FGV, afirma que 1978 deixou um legado positivo.
" Hoje, o movimento sindical é muito heterogêneo. Mas avalio
que neste momento ele pode retomar força política e grau de influência.
O país voltou a crescer, o governo está longe de ser hostil ao
movimento e a democracia está consolidada."
João Vicente Silva Cayres -presidente do Dieese e diretor do Sindicato
dos Metalúrgicos dos ABC- diz que há 30 anos as posições
extremadas de um governo militar e de patrões fizeram com que
os trabalhadores assumissem posição mais radical. "Mas
os sindicatos e o patronato foram evoluindo. A discussão é aceita."
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Folha de S. Paulo, 11 de maio de 2008
Greve de 78 teve "efeito
detonador" para mobilizar o país, afirma Lula
Petista diz que paralisação
na Scania deve ser analisada em contexto de lutas
LETÍCIA SANDER
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a greve que se
iniciou em 12 de maio de 1978 teve um "efeito detonador extraordinário" de
um processo de mobilização no país. Trinta anos
depois, Lula afirma que, no "essencial", sua percepção
sobre as greves não mudou.
" Se hoje o Brasil é o que é, se sou o que sou, devemos muito àquela
companheirada", disse, em resposta por e-mail à Folha, enviado por
sua assessoria.
Segundo o presidente, a greve permitiu que sua formação
política não nascesse de um "aprendizado meramente
intelectual", mas de uma elaboração a partir da "prática
de luta".
GREVE COMPREENDIDA
" A greve da Scania tem que ser compreendida dentro de um contexto de lutas
que não só o movimento sindical, mas toda a sociedade civil fazia
naquele momento: nós lutávamos pela reposição salarial,
quando tinha ficado claro que o governo havia praticado em 1977 um engodo em
relação à inflação. Ao mesmo tempo, havia
o movimento da Anistia, o movimento do Custo de Vida e tantas outras manifestações
de resistência à ditadura e de conquista de direitos civis. Agora, é claro
que a greve da Scania [...] teve um efeito detonador extraordinário...
afinal, desde as grandes greves de Osasco e Contagem, não havia greves
importantes no país."
MOBILIZAÇÃO
" A greve da Scania desencadeou e estimulou um grande processo de mobilização
[...] em todo o país, que se traduziu num crescimento dos movimentos e
na ocorrência de greves importantes, em muitos Estados, nos anos seguintes,
particularmente em 1979."
IMPACTO NA DITADURA
" A greve e tudo o que ela desencadeou fez crescer o movimento contra a
ditadura e mostrou aos cidadãos brasileiros que ela já não
era imbatível, que seria possível destruí-la com forte mobilização
popular."
FORMAÇÃO POLÍTICA
"É desta rica convivência, e da reflexão que ela provocou
em nós, do movimento sindical e do movimento popular, que cresceu nossa
formação política. Veja bem, uma formação
política que não nasceu de um aprendizado meramente intelectual,
mas de uma elaboração a partir da prática de luta."
CRIAÇÃO DO PT
" Daí para a criação do PT foi um passo: concluímos
que não adiantava a gente ficar lutando contra a inflação,
repondo perdas, ano a ano, correndo atrás do prejuízo. Era necessário
mudar a política que concentrava renda, que impunha perdas enormes aos
trabalhadores e permitia lucros sem limite ao empresariado, além de tolher
a liberdade e os direitos mais elementares. Decidimos que precisávamos
mudar a política do país, precisávamos governá-lo
e para isso fundamos o PT."
GREVES, APÓS 30 ANOS
" Eu diria que o essencial não mudou. A disposição,
a vontade de mudar, de fazer justiça, de estimular a produção
de riquezas no país e distribuir esta riqueza com justiça para
todos é a mesma. Eu diria até que aumentou esta disposição
[...] Confesso que minha grande alegria como presidente da República é ver
o país crescendo da maneira como está crescendo [...] isso compensa
todo o sofrimento, toda a angústia e o peso da responsabilidade que o
cargo de presidente impõe [...] Quero finalizar prestando minha homenagem
e reconhecimento emocionado a toda aquele peãozada que acreditou que era
possível, foi para a luta, pagou preços duríssimos tantas
vezes, mas venceu. Se hoje o Brasil é o que é, se sou o que sou,
devemos muito àquela companheirada."
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Folha de S. Paulo, 11 de maio de 2008
Empresas podem ter verba do FGTS
para casa de funcionários
Construção dos
imóveis será financiada com os mesmos juros de
operações do fundo; nova linha deve contar com
até R$ 2 bi
Como política de recursos humanos, imóveis
que vão ser construídos poderão ser vendidos,
arrendados ou emprestados a funcionários
JULIANNA SOFIA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O governo quer liberar recursos do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo
de Serviço) para financiar diretamente empresas na construção
da casa própria para seus funcionários. A Folha apurou
que a nova linha de crédito habitacional será criada
no próximo mês e poderá contar com o montante de
R$ 1 bilhão a R$ 2 bilhões em recursos do fundo.
As empresas poderão tomar recursos mais baratos no sistema bancário
para construir as casas. As taxas de juros das operações
do FGTS são as mais baixas. A nova linha seguirá as mesmas
regras das já existentes, com juros de 8,16% ao ano mais TR (Taxa
Referencial). Os imóveis construídos pelas empresas poderão
ser vendidos, arrendados ou emprestados aos funcionários. O governo
não quer engessar as operações determinando previamente
que tipo de benefício poderá ser oferecido aos empregados.
Haverá, no entanto, a obrigatoriedade de que se trate de um benefício
dentro da política de recursos humanos da empresa. Com isso, o
fundo quer evitar que os empréstimos a baixo custo possam servir
para as empresas promoverem especulação imobiliária.
Atualmente, o FGTS só financia habitação diretamente
a mutuários, construtoras ou Estados e municípios. No passado,
o extinto BNH (Banco Nacional de Habitação) realizava esse
tipo de operação envolvendo corporações.
A idéia de voltar a financiar empresas visa atender a recentes
demandas empresariais. Grandes empresas que se deslocaram para outros
Estados procuraram a Caixa Econômica Federal -principal banco operador
de empréstimos do FGTS- em busca de recursos.
O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, defende a medida, que será levada
para votação na próxima reunião do Conselho
Curador do FGTS, marcada para o mês que vem. A proposta deverá ser
aprovada sem nenhum tipo de restrição, pois já tem
o apoio da bancada dos trabalhadores e dos empresários no conselho.
Na avaliação do governo, a nova linha trará ganhos
para o trabalhador, que poderá reivindicar nas negociações
com os patrões esse tipo de benefício para a categoria.
Prospecção
Técnicos do Ministério do Trabalho explicaram que o volume
de recursos a ser colocado à disposição ainda está sendo
definindo, porque a Caixa está "prospectando" o tamanho
ideal para a linha em conversas com o setor produtivo. Neste ano, o FGTS
contará com mais de R$ 17 bilhões para investimento em
habitação e saneamento.
Embora a Caixa concentre a maior parte dos financiamentos habitacionais
do FGTS, bancos privados também operam com esses recursos. Neste
ano, essas instituições contarão com R$ 3 bilhões
do fundo para crédito imobiliário, mas existe a possibilidade
de suplementação desse valor. Na Caixa, o orçamento
do fundo para 2008 é de R$ 14,2 bilhões -R$ 8,3 bilhões
estão reservados para o setor habitacional.
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Folha de S. Paulo, 11 de maio de 2008
Nova lei dá direitos a
operário chinês e encarece trabalho
Legislação permite
que trabalhador receba indenizações e pagamentos
atrasados de finais de semana e horas extras
Lei está em vigor desde 1º de janeiro
deste ano; para empresários, "custo China" está crescendo,
e contratar ficará mais difícil agora
RAUL JUSTE LORES
DE PEQUIM
Apenas um mês depois de começar a trabalhar em uma empresa
de construção, o operário Huang Yugang, 40, quebrou
o braço ao cair com um tronco que carregava em um jardim do
bairro mais caro de Pequim. " O patrão disse que meu contrato
de trabalho não previa nenhuma compensação por
acidente de trabalho e fiquei desempregado", disse Huang à Folha.
Mas, apenas um mês depois, a central sindical estatal chinesa
pressionou a empresa e conseguiu uma indenização de US$
200 e o pagamento do tratamento de Huang.
Tal feito é novidade na China. Diversos trabalhadores estão
conseguindo indenizações e pagamentos atrasados de finais
de semana e horas extras nunca pagos. Uma nova legislação
trabalhista, que entrou em vigor em 1º de janeiro, é considerada
revolucionária no relacionamento entre patrões e empregados.
Mas a nova lei, que também determina estabilidade no emprego,
depois de dois contratos temporários, foi criticada pelas câmaras
de comércio da União Européia e dos Estados Unidos
em Xangai. Os empresários dizem que o "custo China" está crescendo
e que fazer contratações ficará mais difícil
a partir de agora.
A China precisa criar 10 milhões de empregos por ano para saciar
sua população de 1,4 bilhão de habitantes. Nas últimas
duas décadas, o governo chinês adotou uma permissividade
quase irrestrita para atrair investimentos e empregar uma enorme massa
de trabalhadores com pouca qualificação.
" A nova lei tem procedimentos que preenchem antigas brechas legais. A maioria
das ações trata de ausência de contratos, pagamento por horas
extras ou seguros e compensações por acidentes de trabalho",
diz o advogado chinês Jeff Ren, do escritório Deheng. "Em 90%
dos casos, os empregados vencem as ações trabalhistas."
Jornada de 70 horas
Há milhões de trabalhadores sem contrato no país.
Não há férias remuneradas, greves são reprimidas
e os sindicatos pertencem ao governo. Há salários mínimos
regionais, comumente desrespeitados. As jornadas de trabalho podem chegar
a 70 horas semanais.
Em Pequim, onde a situação é bem melhor do que no
interior do país, 44% da mão-de-obra trabalha 6,9 dias
por semana, em média 56 horas. Em Guangzhou, capital da mais rica
província chinesa, o antigo Cantão, é comum achar
funcionárias que trabalham 80 horas por semana, em turnos de até 12
horas.
Há 210 milhões de chineses nascidos no campo, mas que trabalham
como migrantes nas grandes cidades chinesas, principalmente na construção
e nas fábricas. Com tamanha mão-de-obra querendo escapar
da pobreza, os abusos são generalizados.
Milhares moram em alojamentos precários ao lado das obras e fábricas
em que trabalham, com apenas algumas horas livres para dormir. A legislação,
aprovada no ano passado, depois de dois anos de discussões, revela
a preocupação do governo sobre as crescentes disparidades
sociais na China.
Custos em alta
" Na teoria, as regras de mercado são as melhores, mas na China há um
enorme desequilíbrio entre a força dos empregadores e a dos empregados.
O governo precisava tomar responsabilidade", diz Ren. As queixas do empresariado
contra a nova legislação coincidem com um momento considerado crítico
pela indústria exportadora do país. Além da queda da demanda
dos Estados Unidos, principal importador, a moeda chinesa não pára
de se valorizar diante do dólar, encarecendo os custos chineses. O yuan
se valorizou em 20% em apenas dois anos.
Cerca de 80 empresas coreanas mudaram parte de suas linhas de montagem
no último ano para países como Vietnã e Camboja,
atrás de custos de produção menores. " A nova
lei não aumenta custos trabalhistas, mas provocou uma onda de
maior fiscalização das autoridades. Como muitas fábricas
e construtoras não pagavam horas extras ou finais de semana, agora
esse custo terá de ser acrescentado", diz à Folha
o advogado americano Steve Dickinson, de Xangai.
" Antes, sem demanda, você demitia. A nova lei dificulta isso e complica
a vida de quem tem necessidades sazonais, da agricultura à construção.
Depois do prédio pronto, o que se faz com o funcionário? Há regras
um tanto inapropriadas para um país que muda todo dia."
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