Diário Vermelho, 22 de maio de 2008
Pochmann, no Ipea, planeja o Brasil
do futuro
Para Márcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil está diante de uma
oportunidade inédita para atingir outro patamar de desenvolvimento. "Se
mantivermos um ritmo de crescimento de 5% ao ano [o ritmo proposto
pelo segundo governo Lula], nós teremos em três anos a
geração de 7,5 milhões de empregos", dis
Pochmann, em entrevista à Carta Maior. Mas adverte que há uma "polarização",
no interior do governo, entre os que "defendem estritamente a
estabilidade" e os que querem "estabilidade com crescimento".

Márcio Pochmann: de olho no médio
prazo
O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) foi incumbido
pelo presidente da República de elaborar um plano de desenvolvimento
de médio prazo para o Brasil. O prazo dado pelo presidente Lula
ao economista Márcio Pochmann, presidente do instituto, é no
sentido de que o projeto seja apresentado até 2010. Mas Pochmann,
em conjunto com o ministro extraordinário de Assuntos Estratégicos,
Mangabeira Unger, trabalha na proposta desde já. E faz questão
de explicitar alguns dos elementos que devem nortear o plano em questão.
Em seu gabinete em Brasília, Pochmann apresentou a Antonio Biondi,
da Carta Maior, sua visão de futuro para o Brasil.
Carta Maior – Professor, tanto à direita
quanto à esquerda do governo fazem uma crítica de que
há migalhas para o social e muito para o capital. Outros setores
afirmam que, diante da desigualdade secular que marca nosso país,
o que se está mudando durante o governo Lula é na verdade
muito pouco. Como você analisa essas questões?
Pochmann – Estamos na quinta década
em que a participação dos salários na renda do
país vem caindo. Nós temos um problema estrutural da
desigualdade. O que se verificou no governo Lula foi que, de certa
maneira, os de baixo, os mais pobres, tiveram espaço na agenda
das políticas públicas. De certa maneira, essas pessoas
têm sido beneficiadas, mas o que se percebe, por outro lado, é que
praticamente todo mundo ganha no governo Lula.
Os ricos também têm sido muito bem beneficiados, os
faturamentos das empresas, os ganhos dos bancos, os ganhos das empresas
estrangeiras, etc, não têm sido pequenos! Exatamente porque
com o crescimento é possível que todos ganhem.
Juntando esses aspectos, vejo com muito interesse as reformas que o Brasil
deve fazer. Por exemplo, para que, na tributação, os impostos
onerem de fato os mais ricos, e não os mais pobres – como
acontece hoje.
Nós temos hoje um espaço de construção
de políticas públicas de um novo tipo, voltadas a corrigir
as desigualdades geradas justamente durante o período do crescimento
econômico [verificado durante a ditadura militar de 1964-1985].
Como nós estivemos submetidos durante mais de duas décadas
a uma expansão da renda a um nível muito baixo, os maiores
perdedores foram os pobres, os trabalhadores.
Nos dias de hoje, é difícil encontrar alguém
que tenha perdido: praticamente todos ganharam. Só que os ganhos
não ocorrem na mesma velocidade. E a melhor maneira para reduzir
a discrepância nas velocidades da expansão da riqueza,
na absorção da riqueza, a meu modo de ver vem acompanhado
de reformas, entre elas a reforma tributária, a reforma agrária
e outras reformas sociais.
Carta Maior – E como você avalia a necessidade
do Brasil de obter superávits comerciais, buscando ampliar suas
exportações e enfatizaando aquela mais primárias?
Pochmann – Nosso risco, na medida em que fortalecemos
as exportações sustentadas em bens primários, é de
nos especializarmos em produzir bens de baixo valor agregado, pouco
conteúdo tecnológico e que terminam associados a empregos
de baixa qualidade, a empregos de reduzida remuneração.
Isso praticamente inviabiliza a existência de uma classe média.
Atualmente, quando se fala de uma nova classe média, estamos
falando da emergência de uma classe média com rendimento
de três salários mínimos, por exemplo. Não é uma
classe média com renda de dez salários mínimos,
vinte salários mínimos. É uma classe média
baixa neste sentido. Isso se relaciona com a trajetória do país
nos anos 80 para cá, e diz respeito a um certo enxugamento da
classe média assalariada, e uma expansão da classe média
proprietária, da classe média vinculada a pequenos negócios.
Então, podemos dizer que a atual emergência da classe
média diz respeito a empregos que não são tão
precários – são empregos formais muitas vezes,
ou vinculados aos pequenos negócios –, que têm uma
indicação clara de transformação social
do país. Mas a sua sustentabilidade pressupõem a continuidade
do dinamismo da economia. Se houver uma desaceleração,
possivelmente este segmento será fortemente atingido.
Carta Maior – Podemos afirmar que é necessário
melhorar a pauta de exportações, e, ao mesmo tempo, apostar
de forma mais firme ainda no mercado interno?
Pochmann – Eu diria que sim. Nós precisamos
de uma política industrial, voltada a enriquecer as cadeias
produtivas [a nova política industrial do governo Lula foi apresentada
na segunda-feira passada (12), sob o nome de Plano de Desenvolvimento
Produtivo – PNP]. O Brasil não pode produzir, exportar
bens primários apenas. O Brasil precisa exportar bens que passam
por processos de beneficiamento, o que permite maior produtividade,
que por sua vez permite pagar salários maiores, e que gera,
por conseqüência, maior renda.
Carta Maior – Em sua análise, professor,
para que direção o país caminha hoje? E como o
Ipea e o governo devem trabalhar essas tendências, a fim de potencializá-las?
Pochmann – O Brasil está carente de
uma visão de longo prazo, uma visão que unifique o governo
e a sociedade. Este é o papel que o presidente Lula incumbiu
ao ministro Mangabeira Unger e ao Ipea: produzir uma visão de
longo prazo, uma orientação que possa dar convergência
econômica e política ao país, que o coloque daqui
a alguns anos em um patamar muito superior nestes aspectos ao verificado
atualmente. Assim, estamos construindo um plano que deve ser participativo,
que tenha as diferentes visões da sociedade.
Se mantivermos um ritmo de crescimento de 5% ao ano – e talvez
esssa seja a principal diferença do 2° governo Lula para
o 1°, pois neste governo há o compromisso com o crescimento
de 5% – em 2008, 2009 e 2010, nós teremos em três
anos a geração de 7,5 milhões de empregos. Isso
certamente será muito importante não apenas para absorver
aqueles que estão chegando ao mercado de trabalho, mas também
reduzir aqueles que estão desempregados há mais tempo.
Neste cenário, chegaríamos ao ano de 2011 com uma taxa
de desemprego equivalente a praticamente a metade da que temos hoje.
Em termos históricos, em relação ao desemprego
e remuneração dos trabalhadores, voltaríamos a
uma situação econômica e social próxima àquela
vivida nos anos 70 e início dos anos 80. Tais perspectivas nos
apresentam uma oportunidade praticamente inédita para que as
desigualdades sociais e a pobreza, assim como as discrepâncias
que existem em termos de competição e de produtividade
do Brasil em relação ao mundo, sejam muito menores do
que as atualmente verificadas.
Carta Maior – Resumidamente, podemos portanto
apontar algumas questões centrais neste projeto de longo prazo...
Pochmann – Reforma tributária e outras
reformas sociais, melhoria na pauta de exportações, fortalecimento
do mercado interno, ampliação do acesso ao crédito...
E a bancarização da população, sobretudo
dos micro e pequeno empreendimentos, que não têm acesso
na quantidade necessária ao crédito e à assistência
tecnológica.
Carta Maior – Pegando carona na crise dos
EUA, há setores no Brasil que defendem que no país o
crédito precisa ser reduzido. Os juros com isso são aumentados
pelo Banco Central, as instituições financeiras adotam
caminho semelhante... Você concorda com essas análises
e medidas?
Pochmann – O debate brasileiro é de
natureza distinta ao das economias dos países centrais. Há uma
tentativa de trazer, eu diria assim, uma idéia fora de lugar,
trazer questões que estão colocadas nos Estados Unidos
para cá. Nós não temos o problema que a economia
americana está apresentando, nós não temos aqui
a inadimplência lá verificada, não há uma
desvalorização imobiliária, pelo contrário,
o setor da construção civil está em pleno dinamismo.
Agora, o que o Brasil precisa, sim, é remodelar a forma do
crédito e garantir que ele se mantenha em condições
de atender a uma parcela cada vez maior da população.
Carta Maior – O que esses debates, esses embates
expressam, de fundo?
Pochmann – O que está em jogo é a
capacidade de o país crescer. Temos uma polarização
no interior do governo, e isso se expressa na polarização
da sociedade. De um lado, temos aqueles que defendem estritamente a
estabilidade. E, de outro, aqueles que defendem estabilidade com crescimento.
A taxa de juros está para subir, e isso certamente pode apontar
mais uma vez para uma perspectiva de desacelerar a economia nacional
e gerar problemas internos [alguns dias depois da entrevista, o Comitê de
Política Monetária do Banco Central aumentaria a taxa
básica de juros da economia brasileira de 11,25% para 11,75%
ao ano].
O que alimenta o debate e as decisões sobre a situação
da inflação e da expansão econômica brasileira é algo
estritamente nacional. Algo que quase nada tem a ver com estímulos
ou razões de ordem internacional.
Carta Maior – Olhando para o plano mais interno
de nossa economia, com relação ao crescimento da classe
C, do consumo, do acesso ao crédito, etc, podemos dizer que
de 2003 para cá houve uma mudança significativa neste
campo no país?
Pochmann – Talvez seja possível dividir
a política econômica do governo Lula em duas partes. Uma
primeira que foi a política econômica nos três primeiros
anos, que foi uma política econômica muito associada à condução
da macroeconomia que vinha sendo feita no governo Fernando Henrique,
e predominaram as reformas microeconômicas.
Quando o governo Lula assumiu, tivemos realmente uma elevação
da taxa de juros e uma desvalorização importante do Real,
que abriu espaço importante para ampliação das
exportações e, com menos vigor, do mercado interno. Então,
um dos principais elementos do dinamismo da economia naquele momento
foi a ênfase no mercado externo. Hoje, o principal fator de expansão
econômica tem sido o mercado interno, sobretudo por meio dos
investimentos.
Uma diferenciação entre o primeiro e o segundo governo
Lula, portanto, é que agora se tem dado realmente um maior destaque
ao mercado interno e à inclusão pelo consumo – e
as mudanças no crédito têm um papel muito importante
neste sentido.
Carta Maior – Com relação a
esta ampliação do crédito e do consumo a novas
parcelas da população, ela já se coloca como um
elemento central na economia do país?
Pochmann – O Brasil ainda é um país
em que a presença do crédito dos consumidores é relativamente
muito baixa. Não temos nem 40% do PIB [Produto Interno Bruto]
equivalente a crédito. E há países que praticam
o dobro disso, praticam até três vezes mais. Mesmo assim,
o crédito tem sido um elemento importante no endividamento das
famílias e na ampliação do consumo.
A sustentabilidade do crédito pressupõe um crescimento
contínuo da economia, e, a expansão do próprio
emprego. É difícil alguém tomar empréstimo,
ter acesso ao crédito, se não tiver a garantia do emprego.
Simultaneamente, nós tivemos no governo Lula um forte apoio
ao crédito para a agricultura familiar, que é outro elemento
importante, porque praticamente se tratava de um segmento sem acesso
ao banco. O crédito à população do campo
já existia, sobretudo a partir dos anos 90, mas ganhou uma dimensão
muito significativa no período mais recente, até com
inovações em termos de garantia de pagamento em função
da produção realizada.
Carta Maior – É o caso de se ampliar
o crédito ainda?
Pochmann – Em qualquer economia capitalista,
o crédito é um elemento muito importante para a garantia
do consumo e de sua ampliação. No entanto, o seu papel
será o mais ou menos determinante na expansão da economia
na medida em que ele venha acompanhado de medidas que permitam a sua
sustentação ao longo do tempo. Se estamos tratando de
uma bolha econômica, em que o crescimento se dá em um
determinado momento, e as pessoas em função dessa expansão,
do seu emprego, se endividam, mas em um segundo momento a economia
entra em uma desaceleração ou até mesmo uma recessão,
isso significará que essas famílias que tomaram endividamento
possivelmente viverão uma grande inadimplência. E isso
gera risco do ponto de vista da gestão da economia.
Carta Maior – Quais os principais fatores
que levaram nos últimos anos à diminuição
da pobreza e à diminuição da desigualdade no país?
Como tais processos colaboraram com o crescimento da classe C no Brasil?
Pochmann – Devemos distinguir o vetor que
diz respeito à redução da pobreza daquele relacionado à redução
da desigualdade. São movimentos em convergência mas com
razões distintas.
A pobreza vem caindo há algumas décadas, de certa forma
o que vem acontecendo no Brasil não é uma novidade. É verdade
que tivemos momentos em que houve aumento da pobreza, como no início
dos anos 80, na Crise da Dívida, durante o governo Collor, na
mudança do regime cambial em 1999, entre outros. Mas ao longo
do tempo ela vem diminuindo e a pobreza diminuiu de forma mais significativa
no Brasil justamente nos anos 70, quando a economia registrou um crescimento
bastante significativo. Dos anos 80 para cá, a pobreza vem se
reduzindo, mas num ritmo inferior.
No período mais recente, a queda da pobreza está vinculada à recuperação
do salário mínimo, e também à implantação
dos programas de garantia de renda, como é o caso da Lei Orgânica
da Assistência Social, da própria Previdência Social
e dos programs de transferência de renda como o Bolsa Família.
Carta Maior – Já em relação à desigualdade...
Pochmann – No caso da redução
da desigualdade, temos uma situação paradoxal, na medida
em que, de um lado, se reduz a desigualdade no interior da renda do
trabalho, entre os trabalhadores, e, no entanto, quando se compara
a renda dos trabalhadores com o total da renda do país, com
toda a riqueza, verificamos que se aprofunda a desigualdade, os trabalhadores
continuam a perder participação na renda do país.
No interior da renda dos trabalhadores, a desigualdade vem se reduzindo,
o que em parte está diretamente relacionado à proteção
do rendimento dos 30% mais pobres do país, seja por meio do
salário mínimo, seja através das políticas
de distribuição de renda. Por outro lado, essa diminuição
também ocorre pelo fato de que os trabalhadores de renda mais
alta, os 20% mais ricos, que na renda do trabalho representariam por
exemplo os trabalhadores bancários, médicos, professores
universitários, têm sido justamente os mais atingidos
pelos anos de baixo crescimento, com uma redução de sua
renda em termos reais.