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Agência Diap, 25 de maio de 2008
OPINIÃO
O novo livro de Altamiro Borges,
o Miro
Augusto César Petta*
Em maio de 1992, numa reunião da Diretoria do Sindicato dos
Professores de Campinas e Região, a Professora Marise Aparecida
de Lima sugeriu que eu participasse de um Curso de Formação
de Lideranças Sindicais, promovido pelo Centro de Estudos
Sindicais (CES), que seria realizado em julho daquele ano, em São
Paulo. Depois de pensar um pouco, resolvi aceitar o convite. O Curso
foi coordenado pelo coordenador do CES, Altamiro Borges, o Miro.
Sobretudo os companheiros e as companheiras do Nordeste sofreram
com a baixa temperatura em São Paulo. Éramos aproximadamente
20 participantes. A temperatura subia apenas quando os debates, as
polêmicas do Curso se processavam. Foi uma experiência
riquíssima. Mesmo já tendo cursado Ciências Sociais,
ali me convenci totalmente da importância da leitura , do estudo
a que todos os dirigentes sindicais devem se dedicar. O lema do CES. "quem
não se forma , se deforma" me acompanha até hoje.
Os dias que lá passamos foram fundamentais para eu entender
que deveria, logo que possível, me dedicar inteiramente à formação
política e sindical.
Depois disso, fui Presidente da Confederação Nacional
dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee), durante
3 mandatos. Logo que terminei o terceiro mandato, em 2003, a convite
do então diretor do CES Batista Lemos, fui participar da Coordenação
do Centro de Estudos Sociais. Nessa função, tive a
oportunidade de colaborar de forma mais intensa, com o trabalho de
formação de lideranças sindicais, iniciado com
a fundação do CES, em 1985.
Nos Cursos Nacionais de Formação que realizamos sempre
contamos com a grande colaboração do Miro. Além
de se comunicar muito bem ao transmitir conteúdos fundamentais
para compreendermos a conjuntura complexa que vivemos - incluindo-se
as grandes transformações no mundo do trabalho - e
o movimento sindical, Miro escreve bem e com muita propriedade. Em
9 anos, além de muitos artigos publicados no Vermelho, nas
revistas Debate Sindical e Princípios e outros órgão
de comunicação, Miro escreveu 7 livros, sendo um deles
em co-autoria com o professor Marcio Pochmann.
Vamos nos deter no livro recentemente publicado pela Editora Anita
Garibaldi intitulado "Sindicalismo, Resistência e Alternativas",
apresentado pelo presidente da CTB do estado de São Paulo
e do Sintaema - também participante dos primeiros cursos realizados
pelo CES - Helifax de Souza, que diz textualmente "A obra parte
de uma idéia básica: de que a correlação
de forças hoje é mais favorável ao avanço
das lutas dos trabalhadores. Os fatos e análises que justificam
esta avaliação são inquestionáveis. Daí a
conclusão de que o momento atual permite a adoção
de táticas mais ousadas na luta pelos interesses imediatos
e futuros do proletariado, de que é possível transitar
da resistência para a busca de alternativas ao neoliberalismo,expressão
destrutiva do capitalismo contemporâneo".
O livro permite uma atualização de nossos conhecimentos
a respeito de temas fundamentais para os trabalhadores em geral e
para as lideranças sindicais em particular.Inicialmente, trata
da crise pela qual passa o imperialismo estadunidense , tendo seu
contraponto nos ventos novos que sopram na América Latina,
com a eleição de dirigentes políticos que se
contrapõem ao neoliberalismo.
Faz um balanço do Governo Lula, apontando avanços
significativos por um lado, e , por outro os paradoxos, as iniciativas
contraditórias, riscos iminentes e a brutal desigualdade social
que ainda atinge o nosso país. Na seqüência, há um
capítulo destinado ao Estado de São Paulo, que tem
sido laboratório e palanque dos neoliberais ,cujo objetivo
prioritário é o de voltar à Presidência
da República, a partir de janeiro de 2011.
Os 3 últimos capítulos se referem basicamente aos
sinais contraditórios do sindicalismo brasileiro, ao sindicalismo
internacional e os desafios a serem enfrentados diante do Governo
Lula. Rapidamente, trata dos avanços do sindicalismo nos anos
80 e dos recuos nos anos 90 e avalia a grande possibilidade de retomada
da iniciativa política , a partir de indícios consistentes
observados na conjuntura atual.
Aponta as causas principais, objetivas e subjetivas da crise do
sindicalismo,assim como o posicionamento político tomado pelas
várias tendências do movimento sindical diante do Governo
Lula.A preservação da autonomia , a intensificação
da pressão, a ação com sagacidade evitando o
retrocesso, a mobilização, a conscientização,
o investimento na formação e a organização
são os grandes desafios que o movimento sindical deve enfrentar,
com muita força, para claramente retomar a iniciativa política
no Brasil.
Miro apresenta a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil
(CTB) como sendo a grande novidade do sindicalismo brasileiro, que
defende uma tática de "sem fazer o jogo da direita para
evitar qualquer risco de retrocesso, ela propões apoiar as
medidas progressistas do Governo Lula, mas também pressioná-lo
para que avance nas mudanças".
Além dos seis capítulos, o livro traz 14 textos em
anexo, que se referem a temas da conjuntura política e do
movimento sindical e dois documentos importantes da CTB, "Princípios
e Objetivos da CTB" e "Desenvolvimento com soberania e
valorização da classe trabalhadora".
Recomendo a todos os leitores a leitura de "Sindicalismo, Resistência
e Alternativas", de Altamiro Borges, Editora Anita Garibaldi.
(*) Diretor do Sindicato dos Professores de Campinas,
entidade filiada ao Diap
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Agência Diap, 25 de maio de 2008
CARTEIRA ASSINADA
Trabalho formal explode no Brasil,
diz instituto
Uma análise do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento
Industrial) mostra que o emprego formal, com carteira assinada, no
Brasil cresce a taxas expressivas. Julio Gomes de Almeida, consultor
do Iedi, disse em entrevista a Paulo Henrique Amorim, na última
sexta-feira (23), que o crescimento do emprego é fruto do
crescimento econômico.
“O trabalho formal está explodindo, o crescimento está na
faixa de 9%. Então é um emprego de quantidade e de
qualidade maior”, afirmou Almeira, que fez também uma
ponderação. “O rendimento não está tão
bom, viu, Paulo”.
Segundo o consultor, a taxa de desemprego do Brasil, hoje, nas regiões
metropolitanas é na faixa de 8,5%. Há um ano essa taxa
era na faixa de 11%. Ele disse que isso mostra que o Brasil vive
um processo bastante intenso de redução da taxa de
desemprego.
“Outra informação para o seu público:
o crescimento das pessoas ocupadas — ou seja, aquelas que têm
trabalho, em abril deste ano — foi 4,7%, em relação
a abril do ano passado. Um crescimento muito bom do emprego. Não é todo
ano que se cresce a uma taxa como essa”, disse.
Julio Gomes de Almeida disse que o emprego no Brasil cresce principalmente
por causa de três setores: indústria, construção
civil e no setor público. Segundo ele, a retomada do crescimento
da indústria, o boom na construção civil e o
ano eleitoral — que faz com que as contratações
no setor público ocorram com certa antecedência das
eleições — contribuíram para os bons resultados
de crescimento do emprego. (Fonte: Conversa Afiada)
Leia a íntegra da entrevista.
Julio, o Iedi botou no ar agora esses dias uma análise profunda
sobre o que está acontecendo com o nível de emprego
e vocês chegam à conclusão de que há um
forte aumento do nível de emprego. Eu gostaria que você desse
uma idéia para os nossos leitores de o que está acontecendo
e por que está acontecendo.
Então, Paulo, em primeiro lugar, por que: é o crescimento
econômico. E aqui nós temos que diferenciar um pouco
no tempo esse processo. Teve um crescimento forte no ano passado,
em relação a 2006. E isso acaba influenciando no emprego,
mas não é ao mesmo tempo. É um pouco depois
que influencia o emprego, pela seguinte razão: o empresário
quando ver sua demanda crescer, ele aumenta a produção,
mas ele não sai contratando vários trabalhadores, não.
Ele espera para ver se esse aumento do faturamento e da sua produção
veio para ficar, digamos assim. Então antes ele usa, digamos,
hora extra dos funcionários, amplia um pouco o efetivo, eventualmente
até contrata empregos de fornecedores de mão de obra.
Porque para contratar ele mesmo tem um custo. Passado um tempo, eu
calculo esse tempo entre 4 e 6 meses, aí vem o aumento do
emprego.
Então, nós estamos vivendo hoje.... você perguntou
por que nós estamos vivendo esse crescimento no emprego — nós
estamos vivendo no emprego o que nós vivemos na economia quatro
meses, cinco meses atrás, que foi um bom momento. O que não
significa dizer que daqui a pouco vai piorar, não. O quadro
deve continuar melhorando, porque a economia desse primeiro semestre
continuou crescendo muito bem.
Agora o emprego está crescendo muito nas regiões urbanas,
eu diria por três ou quatro fatores. Primeiro: a indústria
voltou a crescer bem. A indústria estava meio mal na questão
do crescimento e voltou a ficar bem. O boom da construção
civil, que também emprega muita gente nas grandes cidades.
E também nós estamos em ano eleitoral, viu, Paulo.
Não vamos nos esquecer disso...
E o que isso tem a ver com o emprego?
Há uma contratação forte. Um dos setores líderes é o
próprio setor público. Porque aí você tem
a lei eleitoral e daqui você não pode mais fazer nada.
Não pode mais contratar.
Não pode mais contratar, não pode mais fazer determinados
gastos. Então eu penso que a gente está vivendo também
um pequeno ciclo político. Não vamos desmerecer o fato
em si. O crescimento do emprego é fruto do crescimento econômico,
com uma pitada, digamos assim, de um ciclo político também.
Está certo. Agora, deixa eu lhe perguntar outra coisa: qual é a
dimensão do que está acontecendo agora? Como você compararia
o que acontece agora, resultado dessa análise que vocês
fizeram no Iedi, com um passado recente?
Pois não. Vamos fazer a seguinte comparação:
a nossa taxa de desemprego, hoje, nas grandes regiões metropolitanas é na
faixa de 8,5%. Um ano atrás, isso aí era na faixa de
10,5% para 11%. Então mostra que nós estamos vivenciando
um processo bastante intenso de redução da taxa de
desemprego.
Outra informação para o seu público: o crescimento
das pessoas ocupadas — ou seja, aquelas que têm trabalho,
em abril deste ano — foi 4,5%, um pouquinho acima, 4,7%, do
que foi em abril do ano passado. Um crescimento muito bom do emprego.
Não é todo ano, Paulo, que se cresce a uma taxa como
essa.
Por exemplo, se o nosso emprego crescer 3% nos próximos dez
anos, nós somos o sexto no Brasil. Então, crescer a
4,7% é uma glória. Quando aconteceu isso? Lá em
meados de 2005, ou seja, 2004, setembro de 2004, quando o crescimento
econômico foi até maior do que esse crescimento que
a gente tem agora. Então é um crescimento muito forte.
Eu vou lhe dar outro dado muito revelador desse processo. O emprego
doméstico está caindo, o que é um sinal de que,
a princípio, está havendo pelo menos uma qualidade
maior no crescimento do nosso emprego. Ou seja, não é naquele
serviço de baixa qualificação. O trabalho formal
está explodindo, o crescimento está na faixa de 9%. É um
sinal.
De carteira assinada, não é?
De carteira assinada. Então é um emprego de quantidade
e de qualidade maior. O rendimento não está tão
bom, viu, Paulo.
Por quê?
Talvez exatamente por isso. Esse pessoal que vem sendo formalizado,
em geral, é de micro e pequenas empresas. E você sabe
que as grandes empresas, todas elas, já são formalizadas.
Então esse pessoal que está entrando agora para o mercado
formal está vindo com um salário na faixa muito baixa.
Então o rendimento não está acompanhando o crescimento
do emprego.
Mas, se continuar o crescimento do emprego, vai acabar acompanhando — vai
acabar valorizando também e o rendimento do trabalhador vai
aumentar. Não significa que está caindo o rendimento,
mas não está nessa expressão tão forte
quanto o crescimento do emprego.
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Diário Vermelho, 25 de maio de 2008
Lula pode fazer campanha em apenas
duas capitais
Se prevalecer o que disse a respeito do apoio a candidatos nas
eleições 2008, o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva deve ficar praticamente afastado das campanhas nas capitais
do país. Importante cabo eleitoral na última eleição
municipal em 2004, Lula disse em entrevista, há menos de um
mês, que não subirá em palanques nas cidades
onde houver mais de um candidato de partidos da base aliada do governo.
" Até por uma questão de manter o clima harmônico
em Brasília, em todas as cidades que tiver mais que um candidato
da base aliada, eu teoricamente não posso ir lá. Ficaria
uma situação constrangedora. Quando terminar a eleição,
ficaria uma clima de animosidade", disse o presidente.
A se confirmarem as pré-candidaturas atuais nas 26 capitais
onde há disputa, o apoio do presidente ficaria restrito a
apenas duas cidades: João Pessoa (PB) e Teresina (PI). Na
capital paraibana, o PT ainda não decidiu se lançará candidato
próprio ou se vai somar forças à campanha de
reeleição do prefeito Ricardo Coutinho, do PSB. Em
Teresina, a disputa pela prefeitura deve repetir o embate entre PT
e PSDB das últimas eleições presidenciais. O
prefeito Silvio Mendes (PSDB) deve enfrentar o deputado estadual
petista Nazareno Fonteles.
Em todas as demais capitais, há pelo menos dois candidatos
dos 14 partidos que dão sustentação a Lula .Com
deputados, senadores e até ministros da base aliada cotados
para disputar prefeituras em outubro, o apoio de Lula deve ser assunto
da próxima reunião do presidente com seus ministros.
“Temos que respeitar que cada ministro tem sua base no seu
estado. Tem que ver como participará sem atrapalhar o bom
momento que vivemos aqui no Senado e na Câmara”, disse
o ministro das Relações Institucionais, José Múcio,
após a última reunião, na segunda (20).
“Papagaio de pirata”
A decisão do presidente é vista com desconfiança
pelos pré-candidatos petistas e comemorada por outros dos
partidos da base governista. Em comum, muitos afirmam que citarão
o presidente ou algumas das principais políticas do governo
em suas futuras campanhas no rádio e na TV em seus estados.
Um dos pré-candidatos do PT à Prefeitura de Salvador,
o deputado federal Walter Pinheiro prevê “guerra” entre
os postulantes.
“Salvador é uma cidade que recebeu da União,
em 2007, R$ 1,4 bilhão. Todo mundo vai querer usar isso. Espero
que dê para fazer um debate na sociedade mais qualitativo,
mas a guerra vai existir”, diz. “Tem que avisar ao presidente
que, em vez de bursite, ele vai ter outro problema no pescoço
de tanto papagaio de pirata querendo pousar no ombro dele”,
brinca o deputado, que concorre com o colega Nelson Pellegrino pela
indicação do PT.
Indicada pelo governista PSB para disputar a Prefeitura de Salvador,
a deputada Lídice da Mata lamenta a possível ausência
do presidente na campanha, “detentor dos maiores índices
de aprovação”, mas considera a decisão “coerente”. “A
eleição é um processo muito explosivo, que envolve
muitas emoções, a cidade onde cada deputado nasceu.
Cada candidato vai buscar se diferenciar”, afirma.
A opinião é compartilhada pela ex-deputada e pré-candidata à Prefeitura
do Rio de Janeiro Jandira Feghalli (PCdoB). “Onde a base está dividida,
tem que observar como se comportar. A cautela nesse momento é o
mais correto para ele (Lula). Nem sempre o candidato que dá a
vitória para o seu campo é o do PT. É o que é importante
para o povo.”
Assim como seus principais concorrentes anunciados até agora — como
o senador Marcelo Crivella (PRB) e o deputado estadual Alessandro
Molon (PT) —, Jandira diz que pretende usar na sua campanha
projetos em parceria com o governo Lula. “Fazemos uso daquilo
que a gente faz, daquilo que é a nossa história. Muitas
coisas que o governo Lula faz tem a participação do
PCdoB”, explica.
O caso gaúcho
Também pré-candidata pelo PCdoB, a deputada Manuela
D’Ávila — que divide a disputa à Prefeitura
de Porto Alegre com a colega Maria do Rosário (PT) — vê “reciprocidade” e “respaldo” na
postura de Lula. “O PCdoB não é um partido qualquer.
Desde 1989 apoiou a eleição (de Lula), mesmo quando
ele não era superpopular e superbenquisto. Somos parte desse
projeto, que não é do Partido dos Trabalhadores. Sou
tão parte dele quanto é a candidata do PT da minha
cidade. Nem maior nem menor.”
Maria do Rosário diverge: “O presidente pensa com as
necessidade de governo e de atendimento da sua base. Cabe a nós
mostrar que o Lula é do PT como nós. Os aspectos positivos
do governo também têm que estar creditados ao PT”,
disse. Ela pondera, no entanto, que a disputa nas capitais terá um
forte componente local. “Vou procurar trabalhar a identidade
com o presidente, com seu governo, mas apresentar propostas a partir
da realidade local. O Lula não vai ganhar a eleição
para nós.”
Da Redação, com informações
do Estadão do Norte
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Gazeta do Povo, 25 de maio de 2008
Crescimento x burocracia
PR é 19.º na divisão
de verbas por habitante
Estado deverá receber R$ 25,1
bilhões do PAC até 2011. Isso significa que
para cada paranaense deverão ser investidos cerca
de R$ 2.441 ao longo de todo o programa
Brasília - O Paraná ocupa a 19ª colocação
no ranking de distribuição de recursos do PAC por habitante
entre os 26 estados e o Distrito Federal. A previsão é de
R$ 2.440,56 em investimentos exclusivos e regionais (que abrangem
mais de um estado) para cada paranaense ao longo de todo o programa.
Considerando apenas o volume de empreendimentos exclusivos até 2010,
o estado também está na 19ª posição.
Nesse caso, com R$ 1.233,20 per capita.
Em relação ao total de recursos, os R$ 25,1 bilhões
destinados ao Paraná colocam o estado em nono lugar. Nesse
ranking, o recordista de verbas é o Rio de Janeiro, com R$
170,7 bilhões, um terço a mais que São Paulo.
No Sul, o Paraná lidera na soma total, mas perde para Santa
Catarina na distribuição por habitante.
Em visita a Joinville, no último dia 5, a ministra Dilma
Rousseff declarou que os estados não deveriam comparar a distribuição
de dinheiro do programa. Segundo ela, o mais importante é o “atendimento
de demandas”, as quais seriam mais sofisticadas no Sul do que
no Nordeste.
O deputado André Vargas (PT-PR) afirma que há dois
motivos para o Paraná estar mal posicionado na distribuição
de recursos do programa. O primeiro é que há outras
regiões menos desenvolvidas e que são prioritárias
para os investimentos sociais. O segundo é a timidez na apresentação
de projetos. “O recurso está disponível. O que
falta é a ousadia de propor grandes obras”, afirma o
parlamentar.
O oposicionista Gustavo Fruet (PSDB-PR) destaca que o PAC reflete
em parte o descaso do governo federal com o Paraná. “Já estamos
proporcionalmente entre os menos favorecidos no orçamento
da União, não é só no PAC.” O tucano
também ressalta que o programa apenas selecionou algumas obras
que já estavam previstas. “Não tem novidade,
nem recurso novo.”
Execução
O Orçamento deste ano prevê a aplicação
de R$ 173 milhões em 59 obras do PAC no Paraná. Desse
total, apenas R$ 66 milhões haviam sido empenhados (comprometidos)
e R$ 409 mil liquidados (reconhecidos como dívida pelo governo).
Da lei orçamentaria vigente, nada foi pago até 28 de
abril. Os dados são do sistema de acompanhamento da execução
orçamentária da Câmara dos Deputados.
Segundo estudo da organização não-governamental
(ONG) Contas Abertas, o PAC só andou no Paraná em 2008
graças à execução de restos a pagar do
Orçamento do ano passado. Até 26 de abril, foram R$
66,94 milhões pagos referentes a 2007. “Estamos falando
da única parcela do PAC, a que está descrita no orçamento,
que é possível acompanhar. Mas ela corresponde só a
14% dos R$ 503,9 bilhões previstos para o programa”,
explica o diretor da ONG, Gil Castello Branco. O restante dos investimentos
parte das estatais e da iniciativa privada.
Apesar da lentidão na execução do Orçamento,
levantamento da ONG mostra que o governo tem se esforçado
para agilizar a distribuição das verbas. Segundo a
análise, o volume de recursos pagos nos primeiros quatro meses
do ano dobrou em relação a 2007. Até 26 de abril
de 2008, o governo havia desembolsado R$ 2,1 bilhões, contra
R$ 1,04 bilhão do mesmo período do ano anterior.

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O Estado do Paraná, 25 de maio de
2008
Beto lidera corrida eleitoral
com 62,4%
Roger Pereira
Foto: Fábio Alexandre

Prefeito de Curitiba leva vantagem nas
pesquisas.
O prefeito Beto Richa (PSDB) manteve a confortável vantagem que
tem desde o ano passado nas pesquisas eleitorais. Com 62,4% das intenções
de votos, ele lidera com folga a primeira pesquisa eleitoral divulgada
em 2008 para a eleição à Prefeitura de Curitiba.
Divulgada ontem pelo PV, a pesquisa do Instituto Alvorada, de Londrina,
dá quase 55 pontos percentuais de vantagem do prefeito para a
segunda colocada, Gleisi Hoffmann (PT), que tem 7,6%.
A pesquisa coloca em situação desconfortável
o pré-candidato do PMDB, o reitor da Universidade Federal
do Paraná, Carlos Moreira. Com apenas 0,8% das intenções
de voto, ele ocupa a 8ª posição, atrás,
inclusive, do deputado Carlos Simões (PR), cotado para ser
seu vice, com 3,8%, e de Luiz Carlos Martins (PDT), 1,1%, que já abriu
mão da candidatura. O terceiro colocado na pesquisa é Rubens
Bueno (PPS), com 4,4% das intenções de voto, seguido
de perto por Ratinho Júnior (PSC), com 4,1%.
A pesquisa também apurou o índice de rejeição
dos prefeituráveis na capital. Perguntados em qual dos candidatos
jamais votariam, 24,4% dos candidatos apontaram Carlos Simões.
O deputado federal Ratinho Júnior tem a segunda maior rejeição
(12,8%). O terceiro maior índice é do prefeito Beto
Richa, 6,1%. Os principais adversários de Beto têm rejeição
bastante semelhante: 4,9% para Carlos Moreira, 4,8% para Rubens Bueno
e 4,4% para Gleisi Hoffmann.
Contratada pelo PV, a pesquisa entrevistou 800 curitibanos entre
os dias 19 e 22 de maio e é a primeira registrada junto à Justiça
Eleitoral, 1.ª zona eleitoral de Curitiba, sob n.º 137/2008,
como obriga a legislação para a divulgação
de pesquisas em ano de eleição. A margem de erro e
de 3,4%.
Segundo o levantamento, 79,4% das pessoas ouvidas não sabem
quem são os candidatos à prefeitura neste ano. Essa
falta de informação fica clara na pesquisa espontânea,
em que não são fornecidos os nomes do candidatos ao
eleitor. 59,1% dos entrevistados declararam-se indecisos, enquanto
30% votariam em Beto Richa, 2,5% em Gleisi Hoffmann e 1,8% em Rubens
Bueno. Até o ex-prefeito Cássio Taniguchi (DEM) foi
citado por 0,4% dos eleitores.
O desinteresse ou falta de informação do eleitor curitibano
também é refletido na última pergunta da pesquisa,
que questionou o eleitor se ele já sabia em quem votar para
vereador. 88,2% dos entrevistados responderam que não. Apenas
11% já têm idéia de quem irão escolher
para representá-los na Câmara Municipal.
Contratante da pesquisa, o presidente estadual do PV e pré-candidato
em Curitiba, Melo Viana, comentou que os números mostram que
apesar de estarmos a quatro meses da eleição, o clima
de campanha ainda não contagiou a cidade. “E assim,
o prefeito, que já está em destaque natural, segue
com imensa vantagem”, disse. Para Viana, “há um
protagonista nesta disputa, mas o número de indecisos mostra
que há espaço para um adversário e este ainda
está longe de ser definido”.
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O Estado do Paraná, 25 de maio de
2008
Nove lições exemplares
e uma saudade imensa
Edésio Passos
Permitam-me a transgressão da palavra mais amena, na aridez
dos comentários de nossos escribas feitos à semelhança
das codificações metrificadas. É que por vezes,
os acontecimentos da vida, revelam os fatos que, já estiveram
ou estão nos processos complexos e volumosos.
Permitam-me a transgressão da pena, mas valerá, certamente,
por aquilo que se poderá tirar dessas lições
exemplares. Já que lei, direito, justiça, devem derivar
dos ensinamentos da vida construída por caminhos difíceis,
por vezes tortuosos.
Eis que a vida nos ensina. Górki escreveu “Minhas Universidades” (editora
CosaNaify,2007), seu aprendizado superior de vida, transmitindo,
magistralmente, sua visão humanista e revolucionária
na dureza dos tempos da fome e da exclusão e não dos
bancos das escolas superiores da Rússia.
Nas lides judiciárias sempre encontramos a oportunidade de
aprendermos lições que são emanadas não
apenas do que se buscou na letra fria da lei, mas no que é mais
importante, no conhecimento acumulado da vivência social. E
a essas lides levamos o que a vida nos ensina, nas universidades
que cada um de nós construímos.
A Lição da magistrada
“Assédio sexual. Indenização. “O
homem é a mais elevada das criaturas. A mulher é o
mais sublime dos ideais (...) O homem é o cérebro;
a mulher é o coração, o amor” (Victor
Hugo). O assédio sexual é comportamento inversamente
proporcional ao grau de desenvolvimento cultural dos povos. Aliás, é por
este motivo que em países avançados o tema do assédio
sexual recebe proteção do Estado há longa data,
enquanto que nos países em desenvolvimento, lamentavelmente,
ainda se consuma o escárnio a respeito da dignidade humana.
O comportamento moral de coerção praticado pelo assediante
sempre exerceu constrangimento à pessoa assediada, porém
apenas recentemente o dano causado à personalidade da vítima
tem sido objeto de estudos mais aprofundados na ciência jurídica,
pelo menos em nosso país. A chantagem psicológica,
a imposição sorrateira do assediante, no sentido de
ficarem hospedados e dormirem no mesmo quarto de hotel, com intenções
de criar um clima de proveito sexual, exerceu constrangimento à assediada.
Há prova do assédio, presenciado por outras pessoas
que viajavam juntas, eis que participariam de evento profissional
nesta Capital. Caracterizado assim o constrangimento exercido por
superior hierárquico decorrente do exercício do cargo,
emprego ou função, com intuito de obter vantagem ou
favorecimento sexual, que resulta na condenação ao
pagamento de indenização pelo dano moral à vítima. “
(Vale acessar o site de nosso TRT e ler as sábias reflexões
da experiente e humana desembargadora federal Ana Carolina Zaina,
traduzidas na íntegra de seu voto. TRT PR RO 00922 2006 069
09 00 2).
A Lição de Física
“Há algum tempo recebi um convite de um colega para
servir de árbitro na revisão de uma prova. Tratava-se
de avaliar uma questão de Física, que recebera nota ‘zero’.
O aluno contestava tal conceito, alegando que merecia nota máxima
pela resposta, a não ser que houvesse uma ‘conspiração
do sistema’ contra ele. Professor e aluno concordaram em submeter
o problema a um juiz imparcial, e eu fui o escolhido. Chegando à sala
de meu colega, li a questão da prova, que dizia: ‘Mostrar
como se pode determinar a altura de um edifício bem alto com
o auxilio de um barômetro’. A resposta do estudante foi
a seguinte: ‘Leve o barômetro ao alto do edifício
e amarre uma corda nele; baixe o barômetro até a calçada
e em seguida levante, medindo o comprimento da corda; este comprimento
será igual à altura do edifício’. Sem
dúvida era uma resposta interessante, e de alguma forma correta,
pois satisfazia o enunciado. Por instantes vacilei quanto ao veredicto.
Recompondo-me rapidamente, disse ao estudante que ele tinha forte
razão para ter nota máxima, já que havia respondido
a questão completa e corretamente. Entretanto, se ele tirasse
nota máxima, estaria caracterizada uma aprovação
em um curso de Física, mas a resposta não confirmava
isso. Sugeri então que fizesse uma outra tentativa para responder
a questão. Não me surpreendi quando meu colega concordou,
mas sim quando o estudante resolveu encarar aquilo que eu imaginei
lhe seria um bom desafio. Segundo o acordo, ele teria seis minutos
para responder à questão, isto após ter sido
prevenido de que sua resposta deveria mostrar, necessariamente, algum
conhecimento de Física. Passados cinco minutos ele não
havia escrito nada, apenas olhava pensativamente para o forro da
sala. Perguntei-lhe então se desejava desistir, pois eu tinha
um compromisso logo em seguida, e não tinha tempo a perder.
Mais surpreso ainda fiquei quando o estudante anunciou que não
havia desistido. Na realidade tinha muitas respostas, e estava justamente
escolhendo a melhor. Desculpei-me pela interrupção
e solicitei que continuasse No momento seguinte ele escreveu esta
resposta: ‘Vá ao alto do edifico, incline-se numa ponta
do telhado e solte o barômetro, medindo o tempo t de queda
desde a largada até o toque com o solo. Depois, empregando
a fórmula h = (1/2)gt^2, calcule a altura do edifício’.
Perguntei então ao meu colega se ele estava satisfeito com
a nova resposta, e se concordava com a minha disposição
em conferir praticamente a nota máxima à prova. Concordou,
embora sentisse nele uma expressão de descontentamento, talvez
inconformismo. Ao sair da sala lembrei-me que o estudante havia dito
ter outras respostas para o problema. Embora já sem tempo,
não resisti à curiosidade e perguntei-lhe quais eram
essas respostas. ‘Ah!, sim,’ - disse ele - ‘há muitas
maneiras de se achar a altura de um edifício com a ajuda de
um barômetro.’Perante a minha curiosidade e a já perplexidade
de meu colega, o estudante desfilou as seguintes explicações: ‘Por
exemplo, num belo dia de sol pode-se medir a altura do barômetro
e o comprimento de sua sombra projetada no solo, bem como a do edifício.
Depois, usando-se uma simples regra de três, determina-se à altura
do edifício’. ‘Um outro método básico
de medida, aliás bastante simples e direto, é subir
as escadas do edifício fazendo marcas na parede, espaçadas
da altura do barômetro. Contando o número de marcas
ter-se-á a altura do edifício em unidades barométricas’. “Um
método mais complexo seria amarrar o barômetro na ponta
de uma corda e balançá-lo como um pêndulo, o
que permite a determinação da aceleração
da gravidade(g). Repetindo a operação ao nível
da rua e no topo do edifício, tem-se dois g’s, e a altura
do edifício pode, a princípio, ser calculada com base
nessa diferença’. ‘Finalmente’, - concluiu:
- ‘se não for cobrada uma solução física
para o problema, existem outras respostas. Por exemplo, pode-se ir
até o edifício e bater à porta do síndico.
Quando ele aparecer, diz-se: ‘Caro Sr. síndico, trago
aqui um ótimo barômetro; se o Sr. me disser a altura
deste edifício, eu lhe darei o barômetro de presente.’A
esta altura, perguntei ao estudante se ele não sabia qual
era a resposta ‘esperada’ para o problema. Ele admitiu
que sabia, mas estava tão farto com as tentativas dos professores
de controlar o seu raciocínio e cobrar respostas prontas com
base em informações mecanicamente arroladas, que ele
resolveu contestar aquilo que considerava, principalmente, uma farsa”.
“Não basta ensinar ao homem uma especialidade, porque
se tornará assim uma máquina utilizável e não
uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento,
um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido,
daquilo que é belo, do que é moralmente correto’ (Albert
Einstein)”.
(Esta lição de Física percorre as páginas
da internet; consulte a home page do professor da USP, Valdemar W.Setzer,
que a reformatou e acrescentou a citação final de Einstein).
A Lição da mentira
“Convocada para falar (na Comissão de Infra-Estrutura
do Senado) sobre as obras do Programa de Aceleração
do Crescimento, Dilma (Roussef) encontrou o terreno preparado para
ser massacrada pela oposição. O ataque começou
pelo líder do DEM, José Agripino (RN), que sacou da
pasta uma entrevista na qual Dilma reconhecera que “mentia,
mentia muito” nos depoimentos para a polícia política
da ditadura militar. Na juventude, a ministra foi presa por ter participado
das organizações ALN e Molipo, que fizeram ações
armadas contra o regime militar. Agripino tentou fazer uma relação
entre o regime militar e o governo de que Dilma é ministra.
Recebeu uma das respostas mais contundentes da história do
Senado: “Não é possível supor que se dialogue
com pau-de-arara ou choque elétrico. Eu tinha 19 anos. Fiquei
três na cadeia. E fui barbaramente torturada, senador. Qualquer
pessoa que ousar dizer a verdade para o interrogador compromete a
vida dos seus iguais, entrega pessoas para serem mortas. Eu me orgulho
muito de ter mentido, senador, porque mentir na tortura não é fácil.
A dor é insuportável, o senhor não imagina quanto’,
disse a ministra a Agripino, frisando que, naquele período,
ela, uma subversiva, e ele, governador do partido oficial, estavam
em “momentos distintos” (in revista Época, 12/5/2008).
A Lição na floresta
A escritora inglesa Binka La Breton escreve sobre a missionária
Dorothy Stang, assassinada no Pará, em 2005, pela sua luta
em favor do povo humilde, oprimido e explorado: “Dorothy? Seus
olhos se enchem de lágrimas. ‘Eu a encontrei em 1989.
Era seminarista em Belém e ela financiou a vinda do meu grupo
para Nazaré. Pagou do próprio bolso. E o que me chamava
a atenção era a sua simplicidade. Era Dia do Agricultor,
e lá estava ela de pé às 6h30 fazendo os preparativos...
Todos falavam sobre Dorothy. Dorothy era um mito. Dorothy era uma
bruxa. Dorothy era uma santa, Dorothy era um diabo... (...) “Bem,
senhora’, ela ouviu Rayfran dizer “se não resolvermos
este assunto hoje, não resolveremos mais’ (...) O silêncio
da floresta foi interrompido por um tiro e Dorothy caiu por terra.
A última coisa que viu foram as botas de Rayfran (...) Houve
um silêncio absoluto e então começou a chover
sobre o corpo de Dorothy deitado na estrada, misturando seu sangue
com o barro vermelho do chão da floresta...” (do livro “A
Dádiva Maior”, Binka La Breton, editora Globo).
A Lição da água
“No princípio o Espírito pairava sobre as águas” (da
Bíblia). “Temos que incorporar outro paradigma de utilização
da água. Precisamos de uma reeducação, novas
técnicas e métodos. Devemos mudar nossos padrões
e adotar um comportamento mais adequado. A água tem que ser
preservada e reaproveitada, ou então cruzaremos o limite drástico
onde ninguém quer ir... (...) Para que esta vida seja cooperativa
e as pessoas assumam a responsabilidade do destino desta vida, temos
que discutir qual é a visão que temos da água,
porque esta é uma questão de ética.”
(Palavras de Leonardo Boff, transcritas na publicação “O
Futuro no Presente-Para uma vida sustentável”, editada
pela Itaipu Binacional, do notável e premiado programa Cultivando Água
Boa, dirigido por Jorge Samek e Nelton Friedrich).
A Lição de vida
“Há um senso de urgência que eu tento não
deixar que contamine meus filhos. Eles não sabem que em cada
encontro com eles eu estou dizendo adeus. As crianças, mais
do que tudo, precisam saber que seus pais as amam. E os pais não
precisam estar vivos para que isso aconteça”.
(De Randy Pausch, 46 anos, pai de 3 filhos, de 6, 3 e 2 anos, professor
de ciência da computação da Universidade Carnegie
Mellon, na Pensilvânia (EUA), que em setembro de 2007 pronunciou
sua “Ultima Lição”, quando já sabia
que em breve morreria em virtude de um câncer. Sua famosa palestra
pode ser assistida em www.epoca.com.br).
A Lição de 1968
“Na verdade, a aventura dessa geração não é um
folhetim de capa-e-espada, mas um romance sem ficção.
O melhor do seu legado não está no gesto muitas vezes
desesperado; outras, autoritário mas na paixão com
que foi à luta, dando a impressão de que estava disposta
a entregar a vida para não morrer de tédio. Poucas
certamente nenhuma depois dela lutaram tão radicalmente por
seu projeto, ou por sua utopia. Ela experimentou os limites de todos
os horizontes: políticos, sexuais, comportamentais, existenciais,
sonhando em aproximá-los todos. Sem dúvida, há muito
o que rejeitar dessa romântica geração de Aquário
- o messianismo revolucionário, a onipotência, o maniqueismo
- mas há também muito o que recuperar de sua experiência.
Pouco antes de morrer, o psicanalista Hélio Pellegrino, um
tipo inesquecível dessa e de outras épocas, dizia,
num depoimento para este livro:“Nós aprendemos com a
loucura, a generosidade e o sangue deles” (...) “Uma
simples arqueologia dos fatos pode dar a impressão de que
esta é uma geração falida, pois ambicionou uma
revolução total e não conseguiu mais do que
uma revolução cultural. Arriscando a vida pela política,
ela não sabia, porém, que estava sendo salva historicamente
pela ética. O conteúdo moral é a melhor herança
de que a geração de 68 poderia deixar para um país
cada vez mais governado pela falta de memória e pela ausência
de ética”
“A história do ano acaba aqui. Na verdade, era apenas
o começo. 1968 entrava para a História, senão
como exemplo, pelo menos como lição”.
(“1968, o ano que não terminou”, Zuenir Ventura,
editora Nova Fronteira)
A Lição da menina
Todos somos Isabella.
Encostada em nosso peito, repousa serena, na paz dos inocentes.
De vestido verde-rosa, a tiara nos cabelos,
Nos olha com os olhos do mundo a desvendar.
Todos somos Isabella.
Ao entrar no mar, espera a onda como se desafiando o tempo.
Depois, na areia, cabelos molhados ao sol,
Mergulha as mãos na fluidez dos grãos.
Todos somos Isabella.
Na construção do sonho, pula e corre, vive e palpita,
arfa e deita enfim.
Mas, de repente, os olhos se fecham,
Na noite fria do vôo insano.
Mas todos somos Isabella.
Lhe espera um anjo, nas suas asas irá refazer a vida.
Na viagem eterna da saudade imensa
De todo um povo.
(Isabella já saiu da vida para entrar no coração
de todos os brasileiros. A comoção nacional não
está apenas diante da brutalidade dos fatos, mas pela identificação
da alma brasileira com a pureza e o sorriso da menina. Por isso,
todos somos Isabella).
A Lição de Neruda
Ya sabe por ti mismo
muchas cosas,
Y otras irás sabiendo
lentamente.
(“Oda a Federico Garcia Lorca”, Pablo Neruda)
Edésio Passos é advogado.
edesiopassos@terra.com.br
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Folha de S.Paulo, 25 de maio de 2008
PT pagou conta privada de Lula com
dinheiro público
Recursos do fundo partidário
bancaram condomínio de apartamento no ABC
TSE constata que R$ 4,5 mil dos recursos públicos
para o partido foram gastos em 2006 com apartamento usado pela família
de Lula
Leandro Moraes/Folha Imagem
Edifício Hill House, no qual o presidente
possui uma cobertura
LEONARDO SOUZA
RANIER BRAGON
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O PT bancou, com recursos públicos do fundo partidário,
taxas condominiais de uma cobertura usada por familiares do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, em São Bernardo do Campo.
O imóvel, de número 121, é no mesmo andar e
fica de frente para a cobertura 122, comprada por Lula em 1996, no
condomínio Hill House.
Em análise da prestação de contas do PT de 2006,
ano de reeleição do presidente Lula, a equipe técnica
do Tribunal Superior Eleitoral constatou que o PT gastou R$ 4.536,70
com taxas de condomínio do apartamento 121, "não justificado
pelo partido a utilização e finalidade em área residencial".
O partido arcou com despesas desse apartamento desde 2003.
Três anos depois da revelação do chamado "caso
Okamotto", em que o hoje presidente do Sebrae, o petista Paulo Okamotto,
assumiu a paternidade do pagamento de uma dívida de R$ 29,4 mil
de Lula, uma vez mais despesas relacionadas à vida privada do
presidente são bancadas por terceiros -desta vez diretamente pelo
PT.
A lei (9.096/95) que rege o funcionamento dos partidos políticos
não permite a utilização do fundo partidário
-dinheiro público repassado mensalmente aos partidos- para custear
despesas de caráter pessoal dos dirigentes das legendas.
Por causa dessa e de outras observações, os técnicos
sugeriram a rejeição das contas do PT de 2006, o que pode
resultar na suspensão do repasse do fundo ao partido. A previsão
em 2008 é que o PT receba cerca de R$ 28 milhões dos cofres
públicos.
A recomendação da área técnica do TSE serve
de embasamento ao ministro que relata o processo, Marcelo Ribeiro, que
ainda não tem data para levar seu posicionamento à votação
em plenário. Ribeiro pode seguir ou não essa orientação.
O Palácio do Planalto confirmou, por meio da assessoria, que o
apartamento é "frequentado por pessoas da relação" de
Lula, incluindo familiares. Acrescentou, sem informar os valores, que
o PT bancou os custos do imóvel de 2003 a 2007 porque a cobertura
era usada para guardar arquivos que o presidente doou à legenda
quando foi eleito.
O Planalto também admitiu que familiares do presidente podem ter
pernoitado eventualmente no imóvel, mas afirma que nunca foi moradia
fixa de nenhum parente do presidente. O partido teria retirado os arquivos
de lá em 2007. Agora, o apartamento é bancado pela Presidência
da República, sob o argumento de que isso "preenche necessidade
de segurança" de Lula.
O presidente nacional do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), e o secretário
de Finanças do partido, Paulo Ferreira, disseram que só iriam
comentar o caso após o parecer do ministro do TSE.
Sob a condição de não ter seus nomes revelados,
dois funcionários e dois moradores do Hill House, um condomínio
de classe média, com dois blocos e 48 apartamentos, concederam
entrevistas à reportagem, que esteve em São Bernardo do
Campo. Os quatro confirmaram à Folha que o imóvel 121,
de 186 m2 de área útil (mesma metragem da cobertura 122), é usado
por familiares do presidente.
Os funcionários contaram que os filhos de Lula usam bastante a
cobertura 121. Testemunharam vários pedidos de entrega no apartamento,
como pizzas e pastéis. Os dois apartamentos ocupados pela família
Lula da Silva estão no bloco "A", também chamado
pelos moradores de bloco "1". Contudo, na documentação
do imóvel, o edifício é identificado como conjunto "E".
Os moradores não souberam explicar porque o primeiro bloco é identificado
na escritura como "E", uma vez que só há dois
blocos no condomínio.
Neste ano, a Presidência da República reservou R$ 8.721
para "locação de imóvel para atender às
necessidades da equipe de segurança" do presidente no condomínio
Hill House, sem no entanto identificar qual seria o imóvel. Os
funcionários do prédio ouvidos pela Folha disseram que
os seguranças ficam numa sala no térreo do edifício.
Questionados se não ocupariam também o apartamento 121,
disseram que não, reiterando que são os familiares do presidente
que usam a segunda cobertura.
De acordo com a declaração de bens de Lula enviada ao TSE
em 2006, o apartamento 122 foi comprado por R$ 189 mil. Tem sala com
dois ambientes, três dormitórios (uma suíte), um
quarto reversível, copa, cozinha, lavanderia e uma escada em caracol
que leva a um salão de festas privativo. Lula comprou-o em junho
de 96, de Luiz Roberto Satriani, inadimplente, a ele apresentado pelo
advogado Roberto Teixeira, amigo de longa data do presidente. Lula morou
durante anos numa casa em São Bernardo emprestada a ele por Teixeira.
Comentando em tese sobre o uso de dinheiro do fundo partidário
para fins particulares, dois ex-ministros do TSE afirmaram que isso é motivo
para rejeição das contas. "É descumprimento
da lei e é motivo para rejeição das contas. Eventualmente,
pode resultar em uma cobrança de ressarcimento do valor usado",
disse Fernando Neves. "O fundo partidário é um grande
privilégio que os partidos têm. Ele [o partido] não
pode desviar os recursos oriundos do fundo para atividades outras que
não aquelas especificadas. O partido político é a
entidade, dentro do regime democrático, da maior importância,
talvez a mais relevante de todas. Qualquer violação a um
preceito por parte dos partidos políticos tem que ser severamente
punida", afirmou Pedro Gordilho.
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Folha de S.Paulo, 25 de maio de 2008
outro lado
Ocupação de imóvel é parte
da segurança de Lula, diz Planalto
Direção do PT afirma
que não comentará caso enquanto TSE não
julgar contas do partido, mas alega que lei foi cumprida
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Por meio de sua assessoria, o Palácio do Planalto informou
que "a ocupação do apartamento preenche uma necessidade
de segurança da Presidência da República".
" Essa necessidade foi satisfeita durante o período em que o PT foi
locatário do imóvel para manter o arquivo do Instituto de Cidadania,
doado pelo presidente da República ao partido. E, posteriormente, quando
o PT encerrou o contrato de locação, essa necessidade foi satisfeita
com a locação pela Presidência. Hoje o imóvel serve
de base de apoio para a segurança, sobretudo na área de comunicações",
completou a assessoria.
O Planalto confirmou que familiares do presidente usam o imóvel. "O
apartamento foi freqüentado, tanto no período da ocupação
pelo PT quanto agora, por diversas pessoas da relação do
presidente, inclusive familiares." Segundo a assessoria, "a
segurança do presidente não se esgota na figura dele, ela
se estende aos seus familiares".
A Presidência destacou que o apartamento pertencente à família
de Lula, o número 122, não conta com tratamento acústico.
Se o imóvel 121 estivesse ocupado por estranhos, informações
de segurança de Estado não estariam protegidas, uma vez
que o presidente costuma ter reuniões de trabalho em sua residência,
salientou o Planalto.
A assessoria do Palácio lembrou que o presidente Lula não
convive com vizinhos nem no Palácio Alvorada nem na Granja do
Torto e que essa "liturgia" tem que ser mantida também
em sua residência particular.
PT
O presidente nacional do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), e o secretário
de Finanças do partido, Paulo Ferreira, disseram que não
iriam se pronunciar sobre o caso enquanto o Tribunal Superior Eleitoral
não julgar as contas da legenda, com base no trabalho da equipe
técnica do tribunal, que sugeriu a rejeição das
contas do PT de 2006. "Eu não fui oficiado disso ainda. Então
eu não posso responder sobre algo que eu não tenho conhecimento.
Meus advogados ainda não trabalharam nisso", disse Ferreira.
Apesar de dizer que não tomou conhecimento do trabalho da equipe
técnica do TSE, Ferreira afirmou que o PT provará que todos
os gastos com recursos do fundo partidário seguiram exatamente
o que determina a lei.
" Eu tenho justificativa sobre todos esses itens. Só que eu só vou
me manifestar a partir do momento que eu receber o relatório, formalmente,
do relator [do TSE]. Nós só usamos o dinheiro do fundo partidário
para aquelas rubricas previstas em lei", disse.
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Folha de S.Paulo, 25 de maio de 2008
Governo já estuda limitar
benefício
Gasto maior com seguro-desemprego é creditado à formalização
do mercado
Segundo governo, em 2007 houve 14,3 milhões
de contratações e 12,7 milhões de desligamentos
e a rotatividade foi de 44,8%
GUSTAVO PATU
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Enquanto a economia brasileira vive seu melhor momento desde o Plano
Real, o seguro-desemprego expande seus gastos em ritmo bem acima
do previsto e caminha para se tornar o segundo maior programa social
tocado pela União.
Diante do número de pedidos do benefício nos primeiros
meses do ano, o governo decidiu recalcular as despesas previstas para
o ano, de R$ 13,8 bilhões, fixados no Orçamento aprovado
pelo Congresso, para R$ 15 bilhões. A escalada dos gastos já inspira
estudos para restringir o benefício.
Com a nova estimativa, o programa passa a superar, na lista das iniciativas
sociais mais dispendiosas a cargo do governo federal, o Benefício
de Prestação Continuada pago a idosos e a deficientes de
baixa renda desde a aprovação da Loas (Lei Orgânica
de Assistência Social), em 1993.
Entre os maiores programas de transferência de renda do país,
o seguro-desemprego, existente há 22 anos, agora fica atrás
apenas da imbatível Previdência Social. Principal marca
da administração petista, o Bolsa Família ocupa
a quarta colocação, atrás do BPC.
A transferência direta de renda a famílias é a modalidade
que mais cresce no gasto público social. Mesmo antes da revisão
dos números, o seguro já superava o Brasil Universitário,
que inclui todas as instituições federais de ensino superior,
e a parcela executada pela União das maiores ações
do SUS (Sistema Único de Saúde).
A expansão do programa não é, obviamente, motivo
de comemoração na área econômica do governo
-tampouco na área social. Os gastos com os desempregados estão
entre as despesas federais que mais crescem neste ano, ao lado dos investimentos,
declarados prioridade do segundo mandato de Lula.
Ao contrário do que pode parecer, o motivo principal do aumento
dos gastos não é o reajuste do salário mínimo,
piso para os benefícios do programa, para R$ 415. O crescimento
do seguro-desemprego supera, com folga, o dos demais programas vinculados
ao mínimo, como a Previdência e o BPC. A razão é mesmo
o surpreendente aumento do número de requerentes atendidos.
No ano passado, estimava-se que o programa atenderia 5,9 milhões
de trabalhadores, mas o número saltou para 6,4 milhões.
A quantidade de beneficiários deste ano, que na projeção
anterior era de 6,1 milhões, já foi elevada para 6,6 milhões.
Mais carteira assinada
Em documentos oficiais, o fenômeno é justificado pela maior
formalização da mão-de-obra nos últimos anos,
ou seja, pelo aumento da proporção de trabalhadores com
carteira assinada. O seguro-desemprego atende a trabalhadores demitidos
sem justa causa -e os informais não podem comprovar o direito
ao benefício.
Segundo dados do Ministério do Trabalho, o número de empregos
formais saltou de 22,3 milhões, no início de 2002, para
29,1 milhões, no final do ano passado. Por essa explicação,
a expansão do seguro-desemprego é uma espécie de
efeito colateral do crescimento econômico: os trabalhadores conquistaram
mais lugares no mercado formal e, conseqüentemente, mais direitos.
No entanto, o mesmo raciocínio implica uma taxa de rotatividade
de mão-de-obra que as próprias autoridades consideram anormal.
Sempre segundo o ministério, houve em 2007 14,3 milhões
de contratações e 12,7 milhões de desligamentos,
para montante médio de 28,4 milhões de trabalhadores formais
no ano -o que resulta em rotatividade de 44,8%.
" Esses percentuais são de fato muito elevados e podem estar superestimados",
avalia relatório anexado ao projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias
para 2009, enviado pelo Executivo ao Congresso. O texto prevê que os beneficiários
do seguro-desemprego cheguem a 7 milhões no ano eleitoral de 2010, o que
significará R$ 19,2 bilhões em valores atuais.
A ampliação do mercado formal também é usada
para explicar o crescimento de outro programa a cargo do Ministério
do Trabalho -o abono salarial.
Pago a trabalhadores com renda mensal média de até dois
mínimos, o abono custa ao governo menos da metade da despesa com
o seguro-desemprego, mas é o segundo maior programa de transferência
de renda em número de beneficiários -o Bolsa Família é o
terceiro. As previsões de gastos com o abono neste ano foram elevadas
dos R$ 5,5 bilhões do Orçamento para R$ 6,1 bilhões.
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Folha de S.Paulo, 25 de maio de 2008
Benefício garante "tranqüilidade" a
desempregada
COLABORAÇÃO PARA A
FOLHA
Elisabeth Santana Padrão, 29, começou a receber o
seguro-desemprego na última quarta-feira, pouco mais de um
mês depois de perder o emprego em uma empresa especializada
em materiais ópticos, onde trabalhou por três anos.
Ela recebia R$ 900 por mês e agora tem que se virar com os R$ 664
mensais que o benefício lhe garante. " Vai ajudar a pagar
as contas. Pelo menos vou conseguir me manter por um tempo", diz.
Padrão vai receber o seguro-desemprego por cinco meses.
Com o segundo grau completo, ela se enquadra bem no perfil do beneficiário
de seguro-desemprego. Casada e com três filhas pequenas, de sete
meses, dois anos e cinco anos, Padrão chegou a trabalhar em três
empresas com carteira assinada, sempre no ramo óptico.
" Fui informada sobre o seguro-desemprego em um emprego anterior. Eu acabei
tendo que sair, mas logo em seguida fui contratada por outra empresa. Então
nem foi preciso entrar com o pedido", falou a desempregada. Padrão
afirmou que não teve maiores dificuldades para receber o benefício.
Entrou com o requerimento em uma agência do Poupatempo e precisou apenas
de algum tempo para reunir a papelada exigida. "Achei fácil",
disse.
" Fiz o pedido em abril. Demorou menos de um mês para eu receber.
Agora, fico mais tranqüila, porque tenho as crianças para sustentar",
diz Padrão. Seu marido trabalha em um restaurante no centro de São
Paulo, mas o dinheiro do benefício vai ser importante para ela complementar
a renda. "Agora, tenho cinco meses para arrumar outro emprego."
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Folha de S.Paulo, 25 de maio de 2008
Empresários querem mais
transparência na verba do Sistema S
Representantes de diversos setores
da indústria afirmam que gestão de recursos
não deve ser repassada ao governo
Ministério da Educação quer
que entidades que oferecem mais cursos gratuitos e têm mais
alunos matriculados recebam mais dinheiro
CLAUDIA ROLLI
FÁTIMA FERNANDES
DA REPORTAGEM LOCAL
Representantes dos setores automobilístico, eletroeletrônico,
plástico, brinquedos e de máquinas afirmam que falta
transparência na prestação de contas do Sistema
S, mas não querem que o governo tenha o controle do dinheiro
arrecadado nem determine como os recursos devem ser usados.
O governo federal quer discutir mudanças no Sistema S, o que causou
polêmica no setor empresarial. Uma das propostas é que os
recursos destinados à educação profissional só sejam
repassados às entidades do Sistema S -como Senai (ligado à indústria),
Senac (comércio) e Senar (agricultura)- que oferecem cursos gratuitos.
O dinheiro descontado de forma compulsória da folha de pagamento
das empresas -arrecadado pela Receita Federal e repassado para a Previdência-
segue integralmente às entidades que formam o Sistema S independentemente
da oferta de cursos gratuitos.
Desde a criação do Sistema S, na década de 1940,
o Estado que arrecada mais de empresas instaladas em seu território
recebe mais recursos. A proposta do Ministério da Educação é que
a distribuição do dinheiro leve em conta o desempenho de
cada entidade: quem oferece mais cursos gratuitos e tem mais alunos matriculados
deve receber mais.
Carlos Pastoriza, secretário-geral da Abimaq (indústrias
de máquinas), diz que a gestão do Sistema S tem de ser
feita pelos empresários. "O governo querer administrar os
recursos é uma proposta risível. Basta olhar para o caos,
a desorganização e a qualidade do ensino público
oferecido", afirma.
Para ele, a falta de transparência deixa o sistema vulnerável. "É preciso,
por exemplo, rediscutir taxas de administração que algumas
federações e confederações recebem para gerir
as entidades que formam o sistema. Em alguns casos, chegam a centenas
de milhões [de reais] por ano. Como a receita é garantida,
as entidades se acomodam porque sabem que esse dinheiro vai entrar no
caixa."
Humberto Barbato, presidente da Abinee e conselheiro do Senai São
Paulo, é contrário à mudança proposta pelo
governo. "Quem sabe o tipo de formação profissional
que a indústria precisa é a indústria, não
o governo. Quem deve gerir o sistema são os empresários.
Se há dúvidas sobre o uso dos recursos, vamos discutir
e melhorar a transparência, o que não significa transferir
para o governo a sua gestão."
A proposta do governo "faz sentido", diz Synésio Batista
da Costa, presidente da Abrinq, associação dos fabricantes
de brinquedos. "As entidades empresariais que não usam o
dinheiro do Sistema S para se sustentar estão dispostas a discutir
[mudanças]. Mas o quanto vai sair do sistema [para a educação] é um
debate que terá de ser feito politicamente."
Para Jackson Schneider, presidente da Anfavea (veículos), o sistema
pode ser aprimorado, e seus pontos positivos, preservados. "O melhor
seria a construção de um diálogo que aprimorasse
o que há de positivo no sistema no campo educacional. A indústria
automobilística usa o Sesi e o Senai para treinar e qualificar
mão-de-obra."
Joseph Couri, presidente do Simpi (sindicato das micro e pequenas indústrias),
diz que o assunto é polêmico. "O Sistema S presta bons
serviços, mas peca pela falta de transparência. Quantos
recursos vão para onde e para quê? O Tribunal de Contas
da União tem feito ressalvas quanto à prestação
de contas das entidades e por que tudo isso não vem a público?"
Merheg Cachum, presidente da Abiplast (indústria plástica),
diz que o Sistema S tem um modelo bem-sucedido e não deve ser
modificado. "Por que mexer em algo que oferece um resultado maravilhoso?
O nível de ensino das escolas do Senai é referência
mundial, enquanto as escolas do governo têm péssima qualidade.
O Sistema S aplica bem o dinheiro, com transparência. Provavelmente,
quem quer mexer no sistema tem interesse político."
De acordo com a Confederação Nacional da Indústria,
o Sistema S é bem-sucedido porque os cursos oferecidos atendem às
demandas do setor produtivo, e não a políticas públicas
de educação.
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Revista Consultor Jurídico, 25 de
maio de 2008
Avanço ou retrocesso
Convenção 158
da OIT muda a forma de demissão no país
por Crislaine Vanilza Simões
Motta
Muito vem se discutindo a respeito da volta da eficácia da
Convenção 158, da Organização Internacional
do Trabalho (OIT). A Convenção trata do término
da relação de trabalho por iniciativa do empregador,
impedindo o seu término, a menos que exista uma causa justificada
relacionada com a capacidade ou comportamento do trabalhador ou baseada
nas necessidades de funcionamento da empresa. Comprovada uma dessas
causas — que não se confundem com a aplicação
da justa causa, estabelecida no artigo 482 da CLT —, poderá a
empresa dispensar seu funcionário sem qualquer indenização.
A Convenção 158 da OIT foi aprovada em 1982, introduzida
no ordenamento jurídico brasileiro em 1992 e ratificada em
1996 pelo governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso.
No entanto, ela deixou de vigorar em 20 de novembro de 1997, através
do Decreto 2.100/1996, por denúncia feita pelo governo brasileiro à OIT.
A Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores
da Agricultura), por sua vez, interpôs uma Ação
Direta de Inconstitucionalidade questionando a validade da denúncia,
por entender que a competência para formalizá-la era
exclusivamente do Congresso Nacional, assim como fora a sua aprovação,
havendo, portanto, uma inconstitucionalidade formal. A ADI 1.625
foi julgada no dia 30 de abril de 2008, sendo que o acórdão
ainda não foi publicado.
Caso a ADI seja considerada procedente, a Convenção
158 da OIT voltará a vigorar na legislação brasileira.
E quais seriam as conseqüências fáticas desta alteração
legal para as empresas e empregados? Será que haverá estabilidade
no emprego, estagnação na economia formal e proliferação
da informalidade com o excessivo enrijecimento das regras trabalhistas,
inibindo a geração de mais empregos e investidores
externos? Ou haverá estabilidade para o trabalhador, menor
rotatividade e diminuição da dispensa arbitrária?
Ou ainda haverá o término da indenização
da multa de 40% do FGTS?
O artigo 7º, inciso I, da Constituição Federal
de 1988, impede a dispensa arbitrária, na forma da Lei Complementar.
Ocorre que a até a presente data, o governo nunca regulamentou
esse artigo. Com a re-ratificação da Convenção
158, da OIT, surgem mais dúvidas ainda, tanto para os empregados
quanto para os empregadores.
Isto porque a Convenção 158 da OIT trata sobre o término
da relação de trabalho por iniciativa do empregador,
impedindo o seu término a menos que exista uma causa justificada
relacionada com a capacidade ou comportamento do trabalhador. No
entanto, caso não justificado o término da relação
de trabalho pelo empregador dentre as hipóteses constantes
no artigo 10º, da Convenção 158, da OIT, o empregador é obrigado
a pagar uma indenização ao trabalhador.
É esta a redação do artigo 10º da Convenção
158, da OIT: “Artigo 10º — Se os organismos mencionados
no artigo 8 da presente Convenção chegarem à conclusão
de que o término da relação de trabalho é justificado
e se, em virtude da legislação e prática nacionais,
esses organismos não estiverem habilitados ou não considerarem
possível, devido às circunstâncias, anular o
término e, eventualmente, ordenar ou propor a readmissão
do trabalhador, terão a faculdade de ordenar o pagamento de
uma indenização adequada ou outra reparação
que for considerada apropriada”.
Ora, da forma como redigido o artigo 10º dessa Convenção,
haverá, na verdade, uma nova forma de dispensa e que na verdade
não gera qualquer ônus para o empregador. Atualmente,
a denominada dispensa sem justa causa determina o pagamento da multa
rescisória de 40% do FGTS. E, portanto, já existe a “indenização
adequada” para as dispensas sem justificativa.
Como ficaria então a dispensa com as causas justificadoras
elencadas pela Convenção 158?
A dúvida persiste, pois, ao dispensar um trabalhador através
das causas justificadoras pelo artigo 10º, da Convenção
158, OIT, deverá a empresa fazer um processo administrativo,
com direito de defesa do seu empregado, cuja decisão será de
um organismo neutro.
É neste aspecto que o governo federal deverá se empenhar
para regulamentar, pois esse processo administrativo deverá ser
rápido, coerente, justo, sob pena de engessar as relações
trabalhistas, causar transtornos administrativos, desequilibrar as
contas financeiras da empresa, causar mal-estar para o empregado
(que continuará trabalhando dentro de uma empresa que sabe
não querer mais seus serviços) ou para a empresa (que
poderá afastar o empregado, porém sendo obrigada a
continuar pagando o seu salário), afastar investidores estrangeiros
e proliferar ainda mais a informalidade e o pagamento por fora.
Na verdade, se retornar ao nosso ordenamento jurídico, a
Convenção 158 transformará o ato individual
da dispensa do empregado em procedimento de diálogo, causando
forte impacto nas relações individuais de trabalho
e alterando substanciosamente a forma cultural de dispensa no nosso
país.
O tempo nos dirá se será um avanço ou um retrocesso
para o Direito do Trabalho e para a economia do país. O que é certo é que,
concomitante com a re-ratificação da Convenção
158, da OIT, deverá o governo federal, em diálogo com
os demais órgãos representativos de empregados, empregadores,
sindicatos, juristas de renome e legisladores, regulamentar com urgência
o artigo 7º, I, da CF de 88, evitando dúvidas e incertezas
para os trabalhadores e empresas brasileiras e terceiros direta ou
indiretamente envolvidos.
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