O Estado do Paraná,
15 de junho de 2008
Direito e Justiça
Ingrid Betancourt e a esperança
da libertação
Edésio Passos
O livro “Cartas à mãe-direto do inferno”,
contem cartas de Ingrid Betancourt Pulecio e de seus filhos,
Mélanie e Lorenzo Dellye-Betancourt, para sua mãe,
foi publicado pela editora Agir, com prefácio de
Elie Wiesel, Prêmio Nobel de Literatura, e posfácio
do historiador brasileiro Francisco Carlos Teixeira sobre
a situação política colombiana. A
senadora colombiana, que também é naturalizada
francesa, está seqüestrada pelas FARC desde
23 de fevereiro de 2002, quando se encontrava em campanha
pela presidência da Colômbia. Nascida em 25
de dezembro de 1961, em Bogotá, filha do ex-senador
e ex-embaixador colombiano na Unesco, já falecido,
Gabriel Betancourt, e de Yolanda Pulecio, foi eleita duas
vezes, como deputada e como senadora, com a maior votação,
era militante contra a corrupção, contra
o tráfico de drogas, e a favor da causa ambiental.
Recentemente, seu segundo marido, Juan Carlos Lecompte,
esteve no Brasil em missão junto às autoridades
e organizações políticas e populares
visando sensibilizar pela campanha pró-liberdade
da senadora. Deverá retornar ao Brasil a convite
do Partido Verde, em julho, juntamente com o presidente
do comitê internacional pela libertação
de Ingrid, na França, Odair Lamprea, e com o senador
colombiano Luiz Eladio Perez, seqüestrado pelas FARC
há seis anos e libertado há cerca de dois
meses. O Partido Verde colhe assinaturas nacionalmente
em favor da libertação de Ingrid, a serem
entregues ao Congresso Nacional. O senador Eduardo Suplicy
(PT/SP), em pronunciamento no Senado, enfatizou a necessidade
de ação em favor de Ingrid. A Comissão
de Relações Exteriores e Defesa Nacional
do Senado aprovou requerimento pela imediata libertação
da senadora colombiana. No domingo, oito de junho, o presidente
da Venezuela Hugo Chávez, em programa de rádio
e tv, afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, ele próprio e outros chefes de Estado
estão dispostos a intermediar um acordo de paz na
Colômbia e concluiu, ao se referir às FARC: “Vamos,
soltem toda essa gente, há anciãos, mulheres,
soldados doentes que têm dez anos presos, já basta.
Já basta de tanta guerra, já chegou a hora
para sentar-se a falar da paz, chamamos todos a buscar
esse caminho”.
Prova de vida
“Olhos baixos, mãos cruzadas sobre o colo,
cabelos muito compridos e rosto magro e afilado, a mulher
transmite dor e desalento em sua imobilidade. Desde a selva,
essa foi a “prova de vida” que mandaram à sua
família. Vida, sim, mas vida que parece esvair-se
na tristeza e no desalento de quem se sente vencida pelo
prolongado tempo de sofrimento dos últimos anos.
Na cidade, outra mulher todos os dias manda uma mensagem
para a mulher triste que se encontra na selva. Às
cinco horas da manhã, Yolanda Pulecio faz chegar
pelas ondas do rádio a própria voz até sua
filha Ingrid Betancourt. E na comunicação
diária das duas a esperança consegue abrir
um caminho, titubeante e frágil, mas o suficiente
para manter acesa uma chama por seis longos anos”,
escreveu a teóloga Maria Clara Lucchetti Bingemer
(www.adital.com.br). Essa e outras mensagens podem ser
encontradas em vários sites da internet que alimentam
a luta pela libertação de Ingrid em plano
mundial.
Trechos da carta de Ingrid
“Selva colombiana, Quarta-feira, 24 de outubro de
2007, 8h34. Uma manhã chuvosa, como a minha alma.
Minha querida e adorada mamãe. Todos os dias acordo
agradecendo a Deus por ter você. Todos os dias abro
os olhos às 4 horas e me preparo, a fim de estar
bem desperta para escutar as mensagens em La Carrilera
de las 5. Ouvir sua voz, sentir seu amor, sua ternura,
sua confiança, seu compromisso de não me
deixar só, é esta a minha esperança
cotidiana. Todos os dias peço a Deus para abençoá-la,
protegê-la e me permitir um dia poder encontrá-la,
tratá-la como uma rainha, junto de mim, porque não
suporto a idéia de uma nova separação.
A selva é bastante fechada por aqui, os raios de
sol penetram com dificuldade. Mas é um deserto de
afeição, de solidariedade, de ternura, e
esta é a razão pela qual sua voz é o
cordão umbilical que me ata à vida. Sonho
beijá-la tão forte que eu permaneça
incrustada em você. Sonho poder lhe dizer “Mamãe,
mamita, nunca mais você vai chorar por mim, nem nessa
vida nem na outra”. Pedi a Deus para que ele um dia
me permita lhe provar tudo que você significa para
mim, poder protegê-la e não deixá-la
sozinha um segundo. Em meus projetos de vida, se um dia
eu recuperar a Liberdade, quero, mamita, que você pense
em morar conosco, ou comigo. Chega de mensagens, chega
de telefone, chega de distância, não quero
que um único metro nos separe, porque sei que todos
podem viver sem mim, menos você. Alimento-me todos
os dias da esperança de estarmos juntas, e veremos
como Deus nos mostrará o caminho, como nos organizaremos,
mas a primeira coisa que quero lhe dizer é que,
sem você, eu não teria agüentado até aqui.
Estou cansada de sofrer
Mamita, estou cansada, cansada de sofrer. Fui, ou tentei
ser, forte. Esses seis anos ou quase de cativeiro demonstraram
que não sou nem tão resistente, nem tão
corajosa, inteligente e forte quanto pensava. Travei muitas
batalhas, tentei a fuga diversas vezes, procurei manter
a esperança como mantemos a cabeça fora d’água.
Mas hoje, mamita, sinto-me vencida. Eu gostaria de pensar
que um dia sairei daqui, mas percebo que o que aconteceu
com os deputados, e que me deixou arrasada, pode acontecer
comigo a qualquer momento. Acho que seria um alívio
para todo mundo.
Sinto que meus filhos levam uma vida em suspenso na expectativa
da minha libertação, e o seu sofrimento diário,
o de todo mundo, faz com que a morte me pareça uma
opção amena. Juntar-me a papai, por quem
permaneço de luto: todos os dias, há quatro
anos, choro a morte dele. Continuo a acreditar que vou
acabar parando de chorar, que agora cicatrizou. Mas a dor
volta e se lança sobre mim como um cão desleal,
e torno a sentir meu coração se espatifar
em mil pedaços. Estou cansada de sofrer, de carregar
essa dor comigo todos os dias, de mentir para mim mesma
achando que tudo vai terminar e constatar que cada dia
equivale ao inferno do dia anterior. Penso nos meus filhos,
nos meus três filhos, em Sébastien, em Mela
e em Loli. Muita vida se esvaiu por entre nós, como
se a terra firme houvesse sido tragada pela distância.
Eles são os mesmos e não são mais
os mesmos. Cada segundo da minha ausência, em que
não posso estar aí dedicada a eles, para
tratar suas feridas, aconselhá-los, dar-lhes força,
paciência e humildade para enfrentar a vida, todas
essas oportunidades perdidas de ser mãe envenenam
meus momentos de infinita solidão, é como
se me injetassem cianureto nas veias, gota a gota.
Mamita, este é um momento muito duro para mim.
De repente eles exigem provas de vida, e eu lhe escrevo
com a alma esparramada sobre este papel. Vou mal fisicamente.
Parei de comer, perdi o apetite, meus cabelos caem copiosamente.
Não tenho vontade de nada. Acho que a única
coisa boa é isto: não ter vontade de nada.
Pois aqui, nesta selva, a única resposta para tudo é “Não”.
O melhor então é não querer nada,
para pelo menos ficar livre de desejos. Faz três
anos que peço um dicionário enciclopédico
para ler alguma coisa, aprender alguma coisa, manter viva
a curiosidade intelectual. Continuo a ter esperanças
de que, pelo menos por compaixão, eles me arranjem
um, mas é melhor não pensar nisso. Aqui,
tudo é um milagre. Ouvir sua voz de manhã é um
milagre, pois meu rádio está muito velho
e danificado. Continue a tentar transmitir, como vem fazendo,
no início do programa, pois em seguida há muita
interferência e, a partir das 5h20, só consigo
presumir o que me diz. E quando houver uma notícia
importante (como o casamento de Astrid), repita-a ao longo
das mensagens.
A Bíblia, meu único luxo
Bom, como eu lhe dizia, a vida aqui não é a
vida, é um desperdício lúgubre do
tempo. Vivo ou sobrevivo numa rede esticada entre duas
estacas, coberta com um mosquiteiro e uma lona que serve
de teto e me permite pensar que tenho uma casa. Tenho um
armariozinho onde ponho minhas coisas, isto é, a
mochila com as roupas e a Bíblia, que é meu único
luxo. Tudo está sempre pronto para partirmos às
pressas. Aqui nada é seu, nada dura, a incerteza
e a precariedade são a única constante. A
qualquer momento eles podem dar ordens para arrumarmos
nossas coisas, e todos são obrigados a dormir no
fundo de um buraco qualquer, deitados em qualquer lugar,
como animais. Esses momentos são particularmente
difíceis para mim. Minhas mãos ficam úmidas,
meu espírito se anuvia, acabo demorando o dobro
do tempo para fazer as coisas. As caminhadas são
um calvário, pois minha bagagem é muito pesada
e mal consigo carregá-la. Às vezes os guerrilheiros
pegam alguma coisa para me aliviar do peso, mas deixam “os
penicos” comigo, isto é, o que é necessário à nossa
toalete e pesa mais.
Tudo é estressante, perco minhas coisas ou eles
as confiscam, como o jeans que Mela me deu de Natal, que
eu usava quando eles me raptaram. Nunca mais o vi. A única
coisa que consegui salvar foi o casaco, e isso foi uma
bênção, pois as noites são glaciais
e eu não tinha mais nada para me proteger do frio.
Antes, adorava tomar banho de rio. Como sou a única
mulher do grupo, tenho que ir quase toda vestida: short,
blusa, botas! Como nossas queridas avós de outros
tempos. Antes eu gostava de nadar no rio, mas agora não
tenho sequer fôlego para isso. Estou fraca, friorenta,
pareço um gato diante da água. Eu, que gostava
tanto da água, não me reconheço mais.
Queimar quatro cadernos
Costumava fazer duas horas de exercício durante
o dia, às vezes três. Tinha inventado um aparelho
para mim, uma espécie de banquinho feito com galhos,
que apelidei de step, pensando nos exercícios da
academia: a idéia era subir e descer, como se fosse
um degrau. Ele tinha a vantagem de ocupar pouco espaço.
Porque, às vezes, os acampamentos são tão
pequenos que os prisioneiros ficam praticamente uns em
cima dos outros. Porém, depois que eles separaram
os grupos, não tenho vontade nem energia para fazer
o que quer que seja. Faço um pouco de alongamento,
pois o estresse me deixa com o pescoço duro, e isso
me incomoda muito. Com os exercícios de alongamento,
o split e o resto, consigo relaxar um pouco o pescoço.
Eis toda a minha atividade, mamita. Ajo de maneira a ficar
em silêncio, falo o menos possível, para evitar
problemas. A presença de uma mulher em meio a homens
que são prisioneiros há oito ou dez anos é um
problema.
Escuto a RFI e a BBC, escrevo muito pouco porque os cadernos
se acumulam e carregá-los é uma verdadeira
tortura: tive que queimar pelo menos quatro. Além
disso, durante as inspeções, eles nos confiscam
o que mais prezamos. Tiraram de mim uma carta sua que chegara às
minhas mãos depois da última prova de vida,
em 2003. Os desenhos de Anastasia e Stanis, as fotos de
Mela e Loli, o escapulário de papai, um programa
de governo em 190 pontos que eu anotara ao longo dos anos,
me arrancaram tudo. A cada dia, resta um pouco menos de
mim mesma. Pinchao lhe contou os outros detalhes. Tudo é difícil.
Esta é a realidade.
Durante anos não consegui pensar nas crianças,
pois a dor com a morte de papai absorvia toda minha capacidade
de resistência. Quando pensava nelas, tinha a impressão
de sufocar, não conseguia mais respirar. Então
eu dizia a mim mesma: “Fab está lá,
cuidando de tudo, não posso pensar, não posso
pensar.” Com a morte de papai, quase enlouqueci.
Preciso falar com Astrica para fazer o luto. Nunca soube
como isso aconteceu, quem estava lá, se ele me deixou
uma mensagem, uma carta, sua bênção.
Sol de primavera, anjo de luz
À minha Mela, meu sol de primavera, minha princesa
da constelação de Cisne, a ela que amo tanto,
quero dizer que sou a mãe mais orgulhosa do mundo.
Tive muita sorte por Deus me dar esses filhos, e minha
Mela é o grande prêmio da minha vida. Quando
ela tinha cinco anos, já me desafiava com inteligência
e afeição, e desde essa época sinto
uma admiração sem limites por ela. Ela é muito
sensata e inteligente. E, se eu tivesse que morrer hoje,
partiria feliz da vida, agradecendo a Deus pelos meus filhos.
Estou contente com seu mestrado em Nova York. É exatamente
o que eu lhe teria aconselhado (...) Sempre lhe disse que
você era a melhor, que é muito melhor que
eu, que você é o que eu queria ter sido, mas
melhor. Eis por quê, fortalecida pela experiência
que acumulei durante a vida e com a perspectiva que, visto
a distância, o mundo proporciona, peço, meu
amor, que se prepare para atingir o topo.
A meu Lorenzo, meu Loli Pop, meu anjo de luz, meu rei
das águas azuis, meu chief musician que canta e
me encanta, ao soberano do meu coração, quero
dizer que, desde que nasceu até o dia de hoje, ele
foi a fonte das minhas alegrias. Tudo que vem dele é um
bálsamo para o meu coração, tudo me
reconforta, tudo me acalma, tudo me dá prazer e
tranqüilidade. É meu filho querido, meu pedacinho
de sol. Que vontade de vê-lo, beijá-lo, tomá-los
nos braços e ouvi-lo! Este ano pude finalmente ouvir
sua voz, uma ou duas vezes. Fiquei trêmula de emoção. É o
meu Loli, a voz do meu filho, mas há uma voz de
homem cobrindo essa voz de criança. Uma voz grossa
de homem, rouca, como a de papai. Teria ele herdado também
suas mãos, aquelas mãos grandes e bonitas
de que sinto tanta falta? Deus me teria dado esse duplo
presente?”
Edésio Passos é advogado.
edesiopassos@terra.com.br