Diário Vermelho,
22 de junho de 2008
A ''walmartização''
do trabalhador comerciário brasileiro
A ''walmartização''
da força de trabalho no comércio, termo alusivo às
conhecidas práticas de relações do trabalho
do gigante varejista Wal-Mart, é uma tendência
que vai se intensificando no setor. Ou seja: a elevação
da produtividade, do lucro, com o sacrifício do salário,
do emprego e com o aumento do ritmo de trabalho.
Por Osvaldo Bertolino, no Portal
da CTB*
Os trabalhadores do comércio são, possivelmente, uma
das categorias que mais sentiram os efeitos da reestruturação
produtiva que varreu o Brasil nos anos 90. O principal deles é a
precarização dos vínculos empregatícios,
que resulta em aumento da jornada de trabalho — com excesso de
hora extra —, abertura do comércio aos domingos e feriados,
política de baixos salários, extinção de
postos de trabalho e acúmulo de funções.
A categoria compõe 28,3% dos trabalhadores brasileiros,
segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas
(IBGE) de março de 2008. Um estudo do Departamento
Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos
(Dieese) indica que a maioria concentra-se no segmento
varejista e ocupa a função de vendedores
em micro e pequenos estabelecimentos. Uma parte considerável é composta
por trabalhadores em situação ilegal — ou
seja, não possuem carteira de trabalho assinada.
Proibição de entrevistas
O despotismo hierárquico é outro fenômeno
que castiga a categoria. O Portal da CTB tentou entrevistar
comerciários em São Paulo no horário
de trabalho e viu de perto a opressão imposta aos
trabalhadores. Numa loja do braço financeiro da
rede C&A — segundo o presidente da UGT e do Sindicato
dos Comerciários de São Paulo, Ricardo Patah,
este grupo é um dos que mais exploram os trabalhadores
e que mais têm práticas anti-sindicais, ao
lado da Wal-Mart —, o Ibi, os funcionários
foram proibidos de falar. ''A empresa não permite'',
disse a gerente, com cara de poucos amigos.
Num supermercado Compre Bem, uma funcionária disse,
depois de 20 minutos de espera, que o gerente não
estava na loja e que só ele poderia autorizar entrevistas.
Nas proximidades de uma unidade da rede Casa do Pão
de Queijo, num pequeno shopping no bairro da Liberdade,
Emanuele Silva de Oliveira, funcionária de um quiosque
de uma loja de sorvetes chamada Kanazawa, se dispôs
a falar.
Ela é natural do município de Itabuna, região
Sul do Estado da Bahia, filha de pais separados, e está em
São Paulo há 12 anos. Casada — o marido
trabalha na mesma empresa de sorvetes —, 22 anos
e com uma filha pequena, Emanuele cumpre jornada diária
de 8 horas, tem uma folga semanal às quintas-feiras
e ganha R$ 500 por mês. Depois da separação
dos pais, ela veio para São Paulo com a mãe,
que trabalha de empregada doméstica, e dois irmãos — o
pai possui uma decadente fazenda de cacau e não
ajuda a família.
Casa do Pão de Queijo
Negra, bem articulada e franca, ela queixou-se do trabalho
duro e injusto, mas ressaltou que não via ainda
outra maneira de ganhar a vida. ''Aqui não tem registro
em carteira e muitas vezes trabalho doente para depois
do expediente procurar atendimento em algum posto médico
da rede pública'', afirmou. ''Trabalho aqui há 7
meses e todo dia preciso anotar em um caderno meus horários
e o movimento do dia para receber o salário'', explicou.
Maria Silvanda Teixeira (direita) e sua irmã Maria
Keila Teixeira Ao seu lado, duas irmãs acompanharam
a entrevista. Maria Silvanda Teixeira é funcionária
da Casa do Pão de Queijo e, depois de relutar, aceitou
falar. ''Vai sair no jornal? A mulher ali (a dona da franquia)
vai ficar brava'', disse. Ela tem 24 anos, é natural
de Jeriquaquara, Estado do Ceará, está em
São Paulo há 6 anos e trabalha na Casa do
Pão de Queijo há 7 meses. Casada, grávida
há 3 meses, recebe R$ 504 por mês. As condições
de trabalho são deploráveis. ''A gente fica
sete horas e meia em pé, somos xingadas pelos clientes
e a patroa fica de olho para ver se respondemos'', disse
ela.
Ao seu lado, a irmã Maria Keila Teixeira, que está em
São Paulo há apenas três meses, intervém
para dizer que acabara de pedir demissão da Casa
do Pão de Queijo e não poupou críticas à ex-patroa.
''Ela serve arroz com feijão no almoço e
se a gente consumir algo além disso precisa pagar'',
disse. Maria Keila mora com uma amiga que estava em horário
de expediente, na mesma Casa do Pão de Queijo, e
lamentou deixar a irmã grávida naquele emprego.
Trabalho aos domingos
Segundo Abgail Pereira, secretária de mulheres da CTB licenciada
(Abgail é candidata a canditada à vice-prefeita da cidade
gaúcha de Caxias do Sul na chapa liderada pelo deputado federal
Pepe Vargas) e dirigente do Sindicato dos Trabalhadores em Hoteis,
Restaurantes e Turismo (Sintrahtur) — também licenciada —,
este perfil do comerciário já é majoritário
inclusive nos grandes magazines.
Ela explica que este perfil foi moldado nos últimos
anos com a diminuição dos trabalhadores comissionados.
''O desaparecimento da predominância desta forma
de remuneração implicou numa redução
brusca dos salários dos trabalhadores que permaneceram
nas atividades de vendedores, muitas vezes em funções
mascaradas com denominações como atendentes
ou recepcionistas'', diz ela.
Outra característica da categoria que chama a atenção é a
faixa de idade — o maior número de trabalhadores
no setor tem entre 18 e 26 anos. ''Os jovens trabalhadores
que ingressam no mercado de trabalho muitas vezes têm
neste setor seu primeiro emprego'', diz Abgail. ''O tempo
de permanência no trabalho é muito curto — na
maioria dos casos o trabalhador permanece somente até um
ano na mesma empresa, sendo alto o percentual que fica
apenas até o terceiro mês, quando termina
o período de experiência'', afirma.
Ofensiva dos grandes grupos
Uma parte destes jovens ficou conhecida como McJob — nome
genérico que nos Estados Unidos e na Europa se dá a
empregos de baixa especialização e de baixa
remuneração no setor de serviços.
O McJob trabalha em qualquer loja do estilo McDonald's.
Nos Estados Unidos e na Europa, os McJobs geralmente complementam
os rendimentos de quem está cursando o colégio
ou mesmo a universidade. No Brasil, não.
O McDonald's, por exemplo, tem 35 mil funcionários
no país — 85% trabalham como atendentes nos
464 restaurantes brasileiros da rede. Cada loja tem em
média 68 funcionários, com idade média
entre 16 e 21 anos. Eles são o retrato de uma tendência:
além dos baixos salários e da precariedade
das condições de trabalho, a categoria dos
comerciários vem enfrentado a persistente ofensiva
dos grandes grupos que dominam o setor.
E junto com estes grupos veio a ofensiva pela implantação
plena do funcionamento do comércio aos domingos
e feriados. ''É uma luta que começou em 1989
com a regulamentação do trabalho aos domingos
e feriados depois de muita pressão dos grandes patrões
a fim de aumentar seus lucros e a exploração
sobre o trabalhador'', diz Dalva Leite, comerciária
em Salvador, Bahia, e secretária de combate ao racismo
da CTB.
Forma sorrateira e covarde
Dalva Leite, secretária de combate ao racismo da
CTB Desde então, os sindicatos do setor têm
lutado contra esta tendência e denunciado os danos à saúde — inclusive
mental — decorrentes desta medida. ''A cada domingo
ou feriado de funcionamento do comércio, os trabalhadores
perdem importantes momentos de descanso — que permitiriam
a recomposição física e mental do
ser humano —, deixam de conviver com a família
e de desfrutar de lazer e cultura'', afirma Dalva.
Ela destaca também a dificuldade dos trabalhadores
para estudar e ter acesso ao conhecimento. ''Com estas
extensas e extenuantes jornadas e os baixos salários,
que mal pagam o arroz-feijão diário, como
pode um trabalhador do comércio pensar em estudar?'',
indaga. Ela também lembra que o desgaste físico
e mental e o mínimo convívio familiar são
ainda acompanhados pela alta incidência de Lesões
por Esforço Repetitivo (LER/DORT).
Segundo Dalva, muitos trabalhadores desempenham suas funções
com dores fortíssimas, que começam nas mãos
e se estendem por todo o corpo. ''O trabalhador não
pode se afastar para cuidar da saúde por receio
de perder o emprego e o sustento familiar'', afirma. ''A
situação se agravou com a forma sorrateira
e covarde como o governo FHC acabou com a Lei 5913/91,
que regulamentava a abertura do comércio de segunda
a sábado, entre 6 às 22 horas, excluindo
assim o trabalho aos domingos e feriados'', diz ela.
Divisão sexual do trabalho
Dalva relata que na calada da noite FHC editou a Medida
Provisória (MP) nº. 1539/7 que, em seu artigo
6º, autorizou o trabalho no comércio varejista
aos domingos. Posteriormente, a MP foi reeditada sob o
nº. 1.982-76 e, em 2002, aprovada pelo Congresso Nacional — transformando-se
na Lei nº. 10. 101/2002. Desta forma, o trabalho aos
domingos no comércio varejista independe de acordo
entre empresa e sindicato.
Dalva rebate outro argumento apresentado para justificar
o trabalho aos domingos: a geração de emprego.
''A abertura do comércio aos domingos não
gera emprego; ao contrário, faz diminuir vagas ao
eliminar turnos forçando os mesmos comerciários
a estender sua jornada, o que desagrega famílias,
leva os pequenos comerciantes a cerrar suas portas e provoca
mais desempregos'', diz ela.
Abgail lembra outro aspecto degradante das relações
de trabalho no setor — a seleção de
trabalhadores de forma discriminatória e excludente.
''Atributos pessoais como cor e sexo ainda são considerados
no momento da contratação'', diz ela. ''Em
algumas empresas, a divisão sexual do trabalho é evidente — pois
somente mulheres são contratadas para operar os
caixas e são raros os trabalhadores negros presentes
na área de atendimento ao público'', constata.
Remuneração por equipe
Guiomar Vidor, dirigente nacional da CTB Este cenário
de deterioração das relações
de trabalho tem como principal pano de fundo o ingresso
das multinacionais do setor no país. Estas mudanças
decorrem do processo de concentração, da
internacionalização dos investimentos nos
setores de super e hipermercados e do desaparecimento de
grandes magazines ou lojas de departamento brasileiros — como
o Mappin/Mesbla e a G. Haronsom em São Paulo; as
Lojas Brasileiras, as Lojas Pernambucanas da administração
do Rio de Janeiro; as Lojas Hermes Macedo da região
Sul — para dar lugar às multinacionais.
Guiomar Vidor, dirigente nacional da CTB e presidente
da Federação dos Comerciários do Rio
Grande do Sul (Fecosul), tem estes números bem detalhados.
''Houve um processo de concentração de capitais
no setor, a exemplo do que já ocorre nos Estados
Unidos, onde três empresas detêm 75% do segmento
de lojas de departamento, e na França, onde seis
redes de supermercados detêm 60% do comércio
varejista, segundo dados da Revista do Supermercado Gaúcho'',
diz ele.
Vidor explica que as grandes empresas do setor pregam
a busca de um trabalhador mais motivado e engajado, capaz
de operar sistemas complexos, de dar sugestões e
assumir responsabilidades, mas oferecem remunerações
baixas e flexíveis, criando na prática extensas
jornadas de trabalho. ''Algumas empresas implantaram um
sistema de remuneração por equipe, pelo qual
as comissões deixam de resultar das vendas realizadas
individualmente pelos vendedores e passam a ser o resultado
das vendas de toda a loja ou setor'', afirma.
Prática bem visível
Esta forma de remuneração pressupõe
uma vigilância de um trabalhador sobre outro e a
eliminação de níveis hierárquicos.
''Na prática, é a elevação
da produtividade, do lucro, com o sacrifício de
empregos e aumento do ritmo de trabalho'', destaca Vidor.
''Para buscar as comissões, mais do que o esforço
individual de um ou outro vendedor é necessário
que todos se esforcem para aumentar as vendas e o ganho
maior é sempre das empresas'', diz ele.
Segundo Vidor, esta prática é bem visível
no gigante do varejo norte-americano Wal-Mart. ''É uma
prática que vai se generalizando e por isso a luta
contra a expansão deste tipo de relações
trabalhistas do Wal-Mart tem se tornado simbólica'',
afirma. O gigante varejista é conhecido por maltratar
funcionários e por espalhar controvérsia
onde chega. O jornal norte-americano The New York Times
disse, em editorial no dia 15 de novembro de 2003, que
''a walmartização da força de trabalho
(...) ameaça empurrar milhares de americanos para
a pobreza''.
A ''walmartização'' do setor no Brasil já é uma
realidade. Em 2005, o grupo comprou 141 lojas da portuguesa
Sonae por algo em torno de US$ 700 milhões, ou aproximadamente
R$ 1,6 bilhão. Com a aquisição, o
Wal-Mart passou a ter 293 lojas no Brasil, reforçando
sua presença nos Estados do Paraná, Santa
Catarina e Rio Grande do Sul. No início de 2004,
a rede, então com apenas 25 lojas, comprara as 118
lojas da cadeia nordestina Bompreço por US$ 300
milhões (R$ 690 milhões).
Desnacionalização do setor
Com a operação de 2004, o Wal-Mart conseguiu
expandir a sua rede de lojas em 500% em apenas uma tacada.
Além do crescimento por conta das compras, a rede
tem inaugurado novas unidades. Com a aquisição
das lojas do Sonae, o Wal-Mart, que ocupava o terceiro
lugar no ranking do setor no Brasil, encostou no segundo
colocado, a rede francesa Carrefour — que recentemente
comprou a rede paranaense Atacadão por R$ 2,2 bilhões.
Seguindo a tendência, em 2005 o Grupo Pão
de Açúcar vendeu metade do seu controle aos
franceses do Casino.
Neste processo de desnacionalização do setor
e de predomínio dos grandes grupos, a degradação
da relações de trabalho também vai
se acentuando. Em 2005, um memorando interno do Walt-Mart,
que estimulava a rede a cortar benefícios de funcionários
para ''atrair uma força de trabalho mais saudável'',
vazou e foi publicado pelo The New York Times. A divulgação
do relatório gerou reação imediata
por parte dos trabalhadores da empresa.
O relatório, de 26 páginas, deveria ser
discutido pela diretoria da empresa, de acordo com o site
Market Watch. Escrito pela vice-presidente executiva Susan
Chambers, o estudo diz que funcionários com mais
de sete anos de trabalho na rede são mais caros à companhia
e menos produtivos. Afirma também que a força
de trabalho do Wal-Mart está envelhecendo mais do
que a média nacional, e que os trabalhadores estão
ficando mais doentes do que a população dos
Estados Unidos.
Trabalhadores jovens
Com a divulgação do relatório interno,
o Wal-Mart passou a enfrentar novas críticas — além
dos protestos contra os baixos salários, a ausência
de benefícios e as políticas de jornadas
extensivas. ''A nota do The New York Times mostra a verdadeira
face do Wal-Mart'', disse Paul Blank, diretor-executivo
do WakeUpWalmart, um grupo organizado de trabalhadores
da rede. ''É uma cultura de ganância e corrupção
moral'', completou.
No memorando, Chambers disse que os funcionários
do Wal-Mart consumiam os planos de saúde de forma
ineficiente, usando demais serviços de emergência
e internação. ''Esse perfil é mais
evidente entre os funcionários de baixa renda, e
uma hipótese é que esse comportamento resulte
de experiências anteriores com programas de saúde
do governo'', escreveu ela.
Segundo Chambers, levando em consideração
o impacto de salários e benefícios o custo
de um trabalhador com sete anos de experiência é quase
55% maior do que o custo de um funcionário com um
ano de trabalho, ainda que não exista diferença
de produtividade entre os dois. Ela também sugeriu
que a distribuição de lucros fosse reestruturada
''para reduzir custos'', e que os benefícios fossem
redesenhados para trabalhadores mais ''jovens e saudáveis''.
Mulheres discriminadas
Na mesma época, o Wal-Mart pagou US$ 11 milhões
como parte de um acordo amistoso para encerrar os processos
judiciais relacionados à contratação
de imigrantes clandestinos em suas lojas nos Estados Unidos.
Depois de quase quatro anos de investigações,
a justiça estabeleceu, como condição
para retirar a denúncia, o pagamento de US$ 11 milhões.
Em 23 de outubro de 2003, mais de 300 trabalhadores foram
detidos em 61 lojas da rede, onde eram encarregados da
limpeza, embora contratados por uma empresa terceirizada.
Em novembro de 2004, pelo menos dez pessoas ficaram feridas
na capital do México num protesto contra a instalação
de um centro comercial da Wal-Mart. Também no mesmo
ano, um juiz federal norte-americano anunciou uma ação
acusando a rede de discriminar mulheres em termos de salário,
promoções e treinamento. Advogados das trabalhadoras
disseram que se tratava do maior processo coletivo relacionado
a direitos civis na história dos Estados Unidos.
O juiz distrital Martin Jenkins, de São Francisco,
certificou como categoria do processo o conjunto de 1,6
milhão mulheres que trabalharam em lojas norte-americanas
do Wal-Mart a qualquer momento desde 26 de dezembro de
1998. O processo, aberto em 2001, também acusava
a rede de retaliar contra as mulheres que reclamavam. Os
advogados das trabalhadoras disseram que 70% dos trabalhadores
horistas do Wal-Mart eram mulheres, mas elas ocupavam menos
de 15% das posições de chefia em lojas.
Processos trabalhistas
Eles argumentaram também que as funcionárias
eram rotineiramente encaminhadas para cargos como o de
caixa, onde a chance de promoção é pequena.
De acordo com documentos do processo, uma mulher foi informada
que não poderia ser gerente a não ser que
fosse capaz de empilhar embalagens de cerca de 22,5 quilos
de ração para cachorros.
O Wal-Mart enfrenta dezenas de processos trabalhistas.
O grupo passou os últimos anos tentando melhorar
sua imagem por meio de campanhas publicitárias mostrando
seus trabalhadores felizes e satisfeitos com o trabalho,
mencionando que muitos de seus atuais gerentes foram promovidos
de cargos inferiores. Mas a política oficial do
grupo é de pressionar os fornecedores para reduzir
preços, usar tecnologia digital de primeira linha
para baratear a gestão de seus estoques e, finalmente,
pagar o menor salário possível.
Um artigo do jornal Denver Post, do Colorado, diz que
os efeitos sociais das 150 lojas que o Wal-Mart abre todos
os anos nos Estados Unidos são tão controversos
que a sociedade norte-americana está se dividindo
entre os que gostam e os que não gostam da empresa.
''O movimento anti-Wal-Mart foi além do simples
protesto e se transformou em fenômeno social'', afirmou
o jornal.
A besta de Bentonville
Comunidades inteiras se movimentam para impedir sua instalação,
segundo o Denver Post. O Wal-Mart é tido como um
predador econômico pronto a devorar o comércio
local nas regiões em que se instala. O jornal afirma
que o grupo é chamado pelos norte-americanos de
a ''Besta de Bentonville'', onde fica a sede da empresa.
No Brasil, há um caso emblemático. Antes
de comprar a rede Sonae, o grupo tentou se instalar em
Londrina, no Paraná. A prefeitura — à época
sob o comando do prefeito Nedson Micheletti (PT) — e
a associação comercial se uniram contra a
tentativa. Um decreto assinado pelo prefeito transformou
o terreno em que a loja seria construída em área
de utilidade pública.
O crescimento constante de trabalhadores no setor confere à categoria
uma importância estratégica. É uma
tendência da economia, já diagnosticada nos
primórdios do capitalismo por Karl Marx em sua obra
O Capital (volume V do Livro Terceiro). ''É claro
que, ao crescer a escala da produção, aumentam
as operações comerciais para viabilizar a
constante circulação do capital industrial'',
escreveu.
Marx também comentou o papel do trabalho no comércio
na produção de valor. ''O trabalhador comercial
não produz mais-valia diretamente, mas o preço
do seu trabalho é determinado pelo valor da força
de trabalho, pelo que custa produzi-la'', escreveu.
Proletariado comercial
Este ''proletariado comercial'' — segundo definição
de Friedrich Engels em uma nota de rodapé em O Capital — é produtivo
para o capitalista não por criar mais-valia diretamente,
mas por concorrer para diminuir os custos de realização
da mais-valia, efetuando trabalho em parte não pago,
segundo Marx.
Vidor diz que estas características fazem da categoria
um ator importante para a luta dos trabalhadores. ''Apesar
da alta rotatividade e da dificuldade em manter uma base
estável de sindicalizados, os comerciários
cumprem um papel importante'', diz ele. ''A CTB está empenhada
em organizar a categoria e tem procurado integrar as entidades
a ela filiadas ao conjunto do movimento sindical para que
seu peso seja um fator importante na luta dos trabalhadores'',
finaliza.