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GAZETA DO POVO, 30 de junho
de 2008 | Economia
Economistas
Conselho Monetário Nacional define
nesta semana meta de inflação para 2010
O Conselho Monetário
Nacional (CMN) se reúne nesta segunda-feira (30) para definir
a meta de inflação para 2010. A meta de 2009 foi estabelecida
em junho do ano passado, sendo o centro da meta de 4,5% do Índice
de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
O limite de tolerância
estabelecido para 2009 é de dois pontos percentuais para cima
ou para baixo. Dados coletados no mercado financeiro e divulgados pelo
Boletim Focus, do Banco Central, até 20 de junho passado mostram
estimativa de 4,78% no ano que vem.
O IPCA , índice oficial
para medir a inflação, é apurado pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O cálculo
considera o custo de vida das famílias com renda mensal de 1 a
40 salários mínimos do Distrito Federal, Goiânia,
Belém Fortaleza, Recife, Salvador, Curitiba, Porto Alegre, Belo
Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo.
Nesta segunda-feira, o CMN define
também a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) que vai vigorar no
próximo trimestre. A taxa, que está em 6,25% desde julho
do ano passado, é calculada levando em consideração
a meta de inflação e o Risco Brasil. A TJLP é utilizada
pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)
para financiar o setor produtivo.
O Conselho Monetário Nacional
(CMN) é presidido pelo ministro da Fazenda e integrado pelo ministro
do Planejamento e pelo presidente do Banco Central. Ele se reúne
normalmente na última semana de cada mês para deliberar
sobre o Sistema Financeiro Nacional.
O conselho trabalha em
conjunto com a Comissão Técnica da Moeda e do Crédito
(Comoc), coordenada pelo presidente do Banco Central. Integram ainda
a Comoc o presidente da Comissão de Valores Mobiliários
(CVM), os secretários executivos dos Ministérios do Planejamento
e da Fazenda, o secretário de Política Econômica
do Ministério .
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BEM PARANÁ, 30 de
junho de 2008 | Economia
Ajustes
Governo atinge a nova meta de economizar
4,3% do PIB
Meta subiu de 3,8% para 4,3% do PIB como
medida auxiliar de combate à inflação
Agência Estado
As contas do setor público no acumulado de 12 meses, até maio,
apresentaram um saldo positivo (superávit primário, que desconsidera
a com juros) de R$ 116,5 bilhões, o equivalente a 4,34% do Produto Interno
Bruto (PIB). O valor atingiu a nova meta de superávit firmada pelo governo
federal para este ano, de 4,3% do PIB. A meta subiu de 3,8% para 4,3% do PIB
como medida auxiliar de combate à inflação. Até abril,
o superávit acumulado das contas do setor público em 12 meses
estava em 4,25% do PIB, abaixo da nova meta.
As contas do governo central
(Tesouro Nacional, Banco Central e Previdência Social) acumulam
saldo positivo primário de R$ 74,4 bilhões, no período
de 12 meses encerrado em maio. Os Estados têm um superávit
de R$ 26,154 bilhões; os municípios, de R$ 3,6 bilhões;
as empresas estatais federais, de R$ 12,9 bilhões, as estaduais,
um déficit de R$ 761 milhões e as empresas municipais,
um superávit de R$ 120 milhões.
Dívida
A divida líquida do setor
público era de R$ 1,2 trilhão em maio. O valor equivale
a 40,8% do PIB e é inferior ao registrado em abril quando a proporção
estava em 41% do PIB. No final do ano passado, a dívida do governo
representava 42,7% do PIB.
Segundo os números divulgados
hoje pelo Banco Central, a redução do indicador da dívida
teve a influência da apreciação cambial, que elevou
o montante em R$ 8,8 bilhões e o ajuste da paridade da cesta de
moedas que compõe a dívida externa, que contribuiu com
a elevação de R$ 3,2 bilhões. O relatório
do BC diz também que a redução em termos proporcionais
do PIB, de 1,9 ponto porcentual no ano, foi influenciada pela contribuição
do superávit primário, que contribuiu com a redução
de 2,6 pontos porcentuais e o efeito do crescimento do PIB, com 2,5 pontos.
Em sentido contrário pesaram os juros nominais, que elevaram o
indicador em 2,5 pontos porcentuais e o ajuste da valorização
cambial, que aumentou o indicador em 0,7 ponto.
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ÚLTIMA INSTÂNCIA,
30 de junho de 2008
Há 60 anos, convenção
fundamental da OIT aguarda ser ratificada pelo Brasil
Eduardo Ribeiro de Moraes
Uma das oito convenções
fundamentais da OIT (Organização Internacional do Trabalho),
a 87, de junho de 1948, que trata da liberdade sindical e a proteção
do direito sindical, ainda não foi ratificada pelo Brasil.
A OIT divulgou na quinta-feira
passada (26/6) seu Relatório Global, denominado "A liberdade
de associação e a liberdade sindical na prática:
lições aprendidas", que reascendeu a questão
da ratificação de duas de suas convenções.
Quase metade do total dos trabalhadores
dos Estados-membros da OIT vive em cinco países (Brasil, China, Índia,
Estados Unidos e República Islâmica do Irã) que não
ratificaram a convenção. Sendo que, "nos últimos
quatro anos, estes países não tomaram quaisquer medidas
significativas no sentido da ratificação".
O relatório deste ano
ressalta que até 31 de dezembro de 2007, duas dentre as suas oito
convenções fundamentais, a 87 e a 98, tinham sido ratificadas
por 148 e por 158 Estados-membros, respectivamente, de um total de 181
países. Conforme o texto, a Convenção 98 "foi
ratificada pelo Brasil em novembro de 1952", mas "o mesmo não
aconteceu até hoje com a Convenção 87".
No Brasil, a questão chegou
ao Congresso Nacional em 1949, através da Mensagem 0256 de 1949,
mas somente se transformou em Projeto de Decreto Legislativo em 1984.
Atualmente, aguarda relatório do Senador Paulo Paim (PT-RS).
A OIT considera oito convenções
como fundamentais:
- 29 sobre o trabalho forçado,
de 1930;
- 87 sobre a liberdade sindical
e a proteção do direito sindical, de 1948;
- 98 sobre o direito de sindicalização
e de negociação coletiva, de 1949;
- 100 sobre a igualdade de remuneração,
de 1951;
- 105 sobre a abolição
do trabalho forçado, de 1957;
- 111 sobre a discriminação
(emprego e profissão), de 1958;
- 138 sobre a idade mínima
para a admissão ao trabalho, de 1973 e
- 182 sobre a proibição
das piores formas de trabalho infantil e ação imediata
para a sua eliminação, de 1999.
As convenções fundamentais
devem ser cumpridas por todos os Estados-membros da OIT, mesmo aqueles
que não as ratificaram. Ratificar uma convenção
significa que o país compromete-se a respeitar as suas disposições
na lei e na prática nacionais.
"Embora a ratificação
das duas convenções seja importante, o verdadeiro desafio
está na aplicação efetiva. O trabalho de controle
da OIT mostra a necessidade de redobrar esforços na promoção
do respeito dos direitos e na implementação dos seus princípios,
tanto nos países que as ratificaram como nos que não as
ratificaram", diz o relatório.
A falta desta ratificação
acarreta em conseqüências reais, como "restrições à constituição
de organizações ou ao direito de nelas se filiarem, ingerência
do Estado e de outras entidades no funcionamento das organizações
de empregadores e de trabalhadores, restrições à negociação
coletiva, discriminação de trabalhadores sindicalizados,
e restrição indevida do direito de greve".
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ÚLTIMA INSTÂNCIA,
30 de junho de 2008
Desemprego não justifica falta
de pagamento de pensão alimentar, diz STJ
A 3ª Turma do STJ (Superior Tribunal de Justiça) negou recurso
em habeas corpus de um pai que atrasou o pagamento da pensão alimentícia
sob a alegação de que estava desempregado.
O ministro Massami Uyeda, relator
do caso, afirmou que a alegação de desemprego não
pode ser apreciada no tribunal, pois depende do exame de provas.
Ao relatar o caso, de acordo
com informações do STJ, o ministro ressaltou não
observar qualquer ilegalidade na ordem de prisão decorrente do
inadimplemento de verbas alimentares. “Assinala-se que, no tocante
aos débitos alimentares referentes às prestações
vencidas no curso do processo, incluídas as decorrentes de acordo
judicial, é certo que o executado encontra-se em inadimplemento,
o que denota clara afronta aos princípios norteadores da solidariedade
e da dignidade humana”, assinalou o magistrado.
A defesa interpôs o recurso
no STJ contra a decisão da 11ª Câmara Cível
do TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro) que manteve a
decisão do juiz de primeiro grau. O acusado alegou que haveria
ilegalidade do decreto de prisão, que os bens apreendidos garantiriam
a ação de execução de alimentos e, ainda,
que os valores cobrados, no total de R$ 7.200, seriam exorbitantes.
O relator, seguindo precedentes
no Tribunal, ressaltou que o débito alimentar que autoriza a prisão
civil do acusado compreende as três prestações anteriores
ao ajuizamento da execução e as que vencerem no curso do
processo.
Segundo o ministro Massami Uyeda,
pelo fato de o acusado não ter demonstrado qualquer intenção
de pagar, a prisão não é considerada ilegal. Ressaltou
que não se examinam as alegações de desemprego e
da exorbitante cobrança de valores alimentícios por serem
fatos complexos e controvertidos que dependem de prova.
E, por último, considerando
a resistência do executado da ação em honrar seus
compromissos de ordem moral, não se observa qualquer ilegalidade
na prisão. Seguindo o voto do relator, a Turma negou o provimento
ao recurso ordinário.
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AGÊNCIA DIAP, 30 de
junho de 2008
SAÚDE DO TRABALHADOR
TST pode mudar base de cálculo
para adicional de insalubridade
Os ministros do Tribunal Superior
do Trabalho (TST) cogitam a possibilidade de utilizar o salário
básico dos trabalhadores como base de cálculo para
o adicional de insalubridade. A corte anunciou que uma alteração
desse teor será feita na redação da Súmula
228, que adotava o salário mínimo como base de cálculo,
com exceção de categorias que, por força de
lei, convenção coletiva ou sentença normativa,
tivessem estabelecido um salário-profissional.
O problema é que a expressão "salário
básico" gera duas interpretações - ou o adicional
será calculado sobre os vencimentos do trabalhador, a exemplo
do que ocorre no cálculo dos adicionais de periculosidade, ou
será calculado sobre o piso da profissão. A redação
final da súmula está sendo analisada pelos ministros e
deve ser publicada nesta semana.
Até maio, o adicional
de insalubridade era calculado sobre o salário mínimo,
de acordo com o artigo 192 da Consolidação das Leis do
Trabalho (CLT). A mudança foi provocada em maio com a edição
da Súmula Vinculante 4 pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que
tornou o artigo inconstitucional.
Na verdade, isso se deu para
recepcionar a determinação prevista no artigo 7º da
Constituição Federal - que entrou em vigor 45 anos depois
da CLT - que estabelece que é vedada a vinculação
do salário mínimo para qualquer fim.
Caso a base de cálculo
considerada para o adicional de insalubridade passe a ser o salário
individual do trabalhador, o TST pode estar contrariando a própria
Súmula Vinculante 4 do Supremo.
Isso porque, no julgamento do
recurso que deu origem à súmula, ficou decidido que a vinculação
desse cálculo ao salário mínimo ofende a Constituição,
mas que ela seria mantida até a edição de uma nova
lei, já que a alteração não é possível
por interpretação jurídica.
"Se isto se confirmar,
será um impacto enorme nos pagamentos do adicional", diz
o advogado Humberto Gordilho dos Santos Neto, do escritório
Gordilho, Napolitano e Checchinato Advogados. (Fonte: Valor Econômico)
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Notícias do Tribunal
Superior do Trabalho
30/06/2008
Fundação pagará indenização
por publicar edital sobre abandono de emprego
A Sexta Turma do Tribunal Superior
do Trabalho rejeitou recurso da Fundação Educacional do
Município de Assis (SP) – Fema, e manteve decisão
do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região (Campinas)
que determina o pagamento de indenização por danos morais
pelo fato de ter publicado edital atribuindo abandono de emprego a um
funcionário público.
Trata-se de um professor que
também era membro do Ministério Público, onde exercia
a função de Promotor de Justiça, e participava de
bancas de análise e julgamento de monografias, conforme admitiu
a própria Fundação. Em determinado momento, ele
foi surpreendido com a publicação do edital imputando-lhe
a prática de abandono de emprego, o que o motivou a entrar com
ação contra a Fundação Educacional.
Em sentença de primeiro
grau, o juiz considerou estar descaracterizado o abandono, mas negou
a indenização por danos morais, que foi posteriormente
concedida pelo TRT de Campinas, ao analisar recurso do autor da ação.
Na decisão, o TRT determinou o pagamento de indenização
no valor de R$ 17.500,00 por considerar que o professor foi vítima
de invasão de privacidade e teve sua honra ofendida, com prejuízos à sua
imagem.
A Fundação recorreu
ao TST, mediante recurso de revista, alegando que não há nos
autos prova de que a publicação tenha causado prejuízos à honra
objetiva do reclamante. O relator do processo, ministro Aloysio Corrêa
da Veiga, rejeitou as alegações, ressaltando que, ao se
pronunciar sobre a questão, o TRT afirmou ter juntado o edital
publicado pela Fema e que o suposto abandono de emprego foi descaracterizado
pelo juiz de primeiro grau. O ministro acrescenta que a intimação
via edital, além de ser desnecessária pelo fato de a Fundação
ter pleno conhecimento do seu paradeiro, causou constrangimento e feriu
a honra do autor da ação. (RR 468/2004-100-15-00.2)
(Ribamar Teixeira)
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GAZETA DO POVO, 30 de junho
de 2008 | Economia
Construção civil
Índice do aluguel é o
maior em 6 anos
Na segunda prévia de junho, IGP-M
acumula alta de 13,27% em 12 meses. Elevação exige
acompanhamento cuidadoso, diz economista
Não bastassem os preços
de alimentos continuarem subindo, mais um grupo de produtos vêm
jogar ainda mais lenha na fogueira inflacionária: os custos da
construção civil. É o que mostrou ontem a segunda
prévia de junho do Índice Geral de Preços – Mercado
(IGP-M), que apontou inflação de 1,83%, um avanço
em comparação à alta de 1,54% nos preços
em igual prévia em maio. A aceleração é também
a mais alta, na mesma base de comparação, desde dezembro
de 2002, quando esse tipo de indicador subiu 3,26%.
Dos três itens que compõem
o indicador, o Índice Nacional de Custo da Construção
(INCC) passou de 0,82% em maio para 2,84% em junho, a maior alta desde
junho de 1995. Na mesma base de comparação, o Índice
de Preços por Atacado (IPA) passou de 2,02% para 2,05%; o Índice
de Preços ao Consumidor (IPC) saiu de alta de 0,47% para alta
de 0,78%.
Segundo o coordenador de análises
econômicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV),
Salomão Quadros, foi esse avanço mais intenso de preços
na construção civil o responsável pela aceleração.
Ele calculou que o INCC foi responsável por praticamente dois
terços da elevação.
O economista disse que o cenário
de inflação pressionada na construção civil
não é novidade. O atual aquecimento da demanda no mercado
interno tem puxado para cima os preços do setor há algum
tempo. Na prática, os preços da construção
têm sentido mais o impacto de repasses de elevações
de preços no atacado do que a inflação do varejo.
Isso porque, além da forte demanda no mercado interno, esse setor
também já experimentava uma espécie de “boom” desde
2007, quando o número de empreendimentos aumentou, de forma expressiva.
Novas pressões
A taxa acumulada em 12 meses
do IGP-M até junho, de 13,27%, é a mais forte desde outubro
de 2003, quando o índice acumulou elevação de 17,32%. “Temos
novas pressões de elevações de preços que
estão entrando no cálculo do índice. Mas temos outros
aumentos de preços que estão perdendo força”,
afirmou Quadros.
O economista-chefe do JPMorgan,
Fábio Akira, avalia que a redução do preço
do milho no atacado, com um recuo de 6,93%, foi o grande destaque da
pesquisa anunciada ontem, mas o cenário deste item no exterior
não garante novas quedas daqui para frente. “Depois das
enchentes que aconteceram nos Estados Unidos, não dá para
ter muita esperança de que os preços permanecerão
baixos aqui.”
Quadros, da FGV, ainda
ressalta que, mesmo a possibilidade de uma taxa abaixo de 2% no IGP-M
de junho “não muda nada” em termos de política
econômica. As evoluções de preços continuam
exigindo atenção e acompanhamento cuidadoso, por parte
do Banco Central, na análise do economista.
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GAZETA DO POVO, 30 de junho de 2008 | Economia
Habitação
Sonho da casa própria vira realidade,
mas parcelas exigem cuidados
O contador Fábio Luiz
da Silva, 36 anos, foi o primeiro comprador do 4º Feirão
da Casa Própria, realizado pela Caixa Econômica Federal.
Cansado de morar nos fundos da casa da mãe, junto com a esposa,
a auxiliar de enfermagem Josvânia, 29, Silva finalmente garantiu
seu primeiro imóvel: um apartamento de três quartos no bairro
Rebouças, arrematado por R$ 67 mil a serem pagos em 20 anos. “Entrar
no apartamento vai ser uma emoção muito grande. É realmente
um sonho realizado”. Para ele, o segredo reside no esforço,
na paciência e na persistência.
Luciane de Castro, profissional
de televendas, e Adriano Aparecido Bradeleone, auxiliar de almoxarifado,
conseguiram sua carta de crédito no valor de R$ 52,5 mil, que é o
próprio valor do imóvel que conseguiram em Araucária,
na região metropolitana da capital. Ela conta que os dois já estavam
morando juntos na casa de sua mãe, mas que agora vão conseguir
sua própria moradia, que deverá ficar pronta em fevereiro
e terá 46 metros quadrados.
Márcia Bonni, 35 anos, dona de um restaurante próximo ao Marumby
Expo Center, no bairro Guaíra, foi até a feira para ter seu crédito
aprovado. Ela já tinha um imóvel em vista e foi lá só para
ganhar sua carta. “O evento facilita essas coisas, mesmo eu não
vindo aqui para escolher um imóvel”, explica ela, que vai comprar
um apartamento de 40 metros quadrados no Sítio Cercado e se livrar do
aluguel de R$ 300. As parcelas são um pouco mais caras, R$ 460. “Mas
o importante é que estou investindo esse dinheiro em algo que é meu”,
relata.
Precauções
Segundo o advogado especialista
em Sistema Financeiro de Habitação (SFH) Orlando Anzoategui, à primeira
vista tudo parece muito bom, mas certas precauções devem
ser observadas na compra da casa própria. Uma delas é jamais
ultrapassar 30% da renda familiar com parcelas. “Isso porque há outros
gastos fundamentais como vestuário, educação, saúde,
que não podem ficar comprometidos”, explica.
De acordo com Anzoatequi, o mutuário
deve evitar parcelas atrasadas, porque os bancos podem – após
três meses sem pagamento – tirar a posse do bem. O advogado
alerta ainda para o cuidado quanto aos financiamentos de longo prazo.
Ele recomenda no máximo cinco anos. “Depois disso, os juros
acabam sendo muito maiores, e muita coisa pode mudar no meio do caminho,
tanto na família como na economia do país”, explica.
Serviço
O 4º Feirão
da Casa Própria ocorre até a amanhã no Marumby
Expo Center (Av. Wenceslau Bráz, 1046, Guaíra, Curitiba).
Hoje, das 10h às 21 h, e amanhã, das 10h às 18
h.
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FOLHA
DE SÃO PAULO, 30 de junho de 2008 | Dinheiro
"Apagão" do gás
ameaça a expansão industrial no país
Setores químico, cerâmico, têxtil
e de vidro abandonam planos de investimento | Comgás, a maior
distribuidora do país, cancela negociações para
vender mais gás em SP; situação se repete no Rio
AGNALDO BRITO
DA REPORTAGEM LOCAL
Um "apagão" na
oferta de gás natural na região Sudeste fez vários
setores industriais, entre os quais químico, cerâmico,
têxtil e de vidro, abandonarem parte dos projetos de investimento.
As expansões que dependam de nova oferta de gás natural
foram paralisadas. A Comgás, maior distribuidora do país,
cancelou todas as negociações para vender mais gás.
A situação é a mesma no Rio de Janeiro. As concessionárias
CEG e CEG-Rio, além de não negociarem expansões, discutem
a mudança de contrato para combustíveis substitutos, como o GLP
(gás liquefeito de petróleo) ou óleo combustível.
A Bayer, por exemplo, negocia um novo contrato que permitirá a substituição
de até 50 mil metros cúbicos por dia de gás por óleo
combustível. "Estamos discutindo com quem ficará essa conta",
diz Roberto Salvador, gerente de energia da unidade de Belford Roxo (RJ).
A Comgás afirma que até 2010 não há como ofertar
mais gás para a indústria. Enquanto o governo paulista tenta
mensurar o investimento abortado, a Secretaria de Energia, a Fiesp e a Comgás
preparam uma estratégia para pressionar a Petrobras a assinar um pré-contrato
de oferta de gás. A idéia é que o documento sirva de lastro
para negociar uma expansão de oferta à indústria.
Não há garantia de que haja resultado. O problema é o
desconhecimento sobre os projetos do Plangás (Plano de Aceleração
da Produção de Gás Natural). Lançado em 2006, no
calor da crise provocada pela nacionalização promovida pelo presidente
boliviano Evo Morales, o plano fixou metas para elevar até 2012 a produção
nacional de gás natural. A previsão da Petrobras é alcançar,
até o fim deste ano, 45,7 milhões de metros cúbicos.
Para o Sudeste, base do parque industrial brasileiro, a promessa da Petrobras é elevar
a produção a 40 milhões de m3/ dia até o fim do
ano. Segundo a secretária de Energia de São Paulo, Dilma Pena,
não há por enquanto qualquer expectativa de que essa meta seja
alcançada. Acompanhamento da Comgás demonstra que dos sete projetos
previstos para 2008 nenhum entrou em operação.
Entre eles está a produção em campos de gás não
associado (apenas gás sem petróleo) da bacia do Espírito
Santo (Camarupim e Canapu). Entre os poços de gás associado (com
petróleo) estão Jabuti, as plataformas P-51 e P-53 (Marlim Sul
Módulo 2 e Marlim Leste, respectivamente) e o campo de Lagosta, este
da bacia de Santos, que produzirá com o declinante campo de Merluza. "Tudo
o que está ofertado da Petrobras às três concessionárias
paulistas foi contratado. A situação é de empate entre
oferta e demanda", diz Pena.
Pé no freio
Companhias enfrentam neste momento restrições de investimento
ante a falta de perspectiva de oferta segura de gás. Na renegociação
assinada em dezembro do ano passado, a Comgás fechou contratos para
6 milhões de metros cúbicos de gás por dia. O problema é que
1,5 milhão de metros cúbicos desse gás nacional está na
modalidade de contrato interruptível. "Ninguém vai assinar
um contrato de suprimento de gás com uma cláusula dessa",
diz Lucien Bernard Mulder Belmonte, superintendente da Abividro (Associação
Técnica Brasileira das Indústrias Automáticas de Vidro).
Uma das indústrias de vidro, diz Belmonte, tem neste momento 30 milhões
de investimento em expansão parados por falta de 10 mil m3/dia. "É um
volume ínfimo. Pois nem isso tem sido atendido", afirma Belmonte.
Não é o único setor. A direção da Bayer
engavetou projetos de expansão da produção de poliuretano
na unidade petroquímica de Belford Roxo (RJ). "Não sabemos
qual seria o investimento, mas diante da situação atual não
há como discutir ampliações de consumo", diz o gerente
Roberto Salvador.
A indústria do pólo de Santa Gertrudes (SP), que responde por
67% do revestimento cerâmico consumido no Brasil, vive sua maior restrição
de crescimento. Com cinco linhas, a Cecafi Revestimento Cerâmico enfrenta
o problema. Neste mês, recebeu da Comgás o aviso de que teria
o fornecimento reduzido para os níveis do contrato original. Os 6% de
demanda adicional foram cortados com medidas operacionais nas linhas, o que
incluiu a redução da produtividade.
A preocupação agora é com a impossibilidade de crescimento.
A expansão da construção civil, que neste momento impulsionou
a compra de material básico de construção, deverá alcançar
a fase de acabamento. "Justamente no momento em que o setor pode aproveitar
a maior demanda não teremos como crescer", diz Valdir Júnior,
diretor da Cecafi.
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VERMELHO, 30 de junho de
2008 | Brasil
Pesquisa do Ibase desmonta preconceitos
contra o Bolsa Família
O Instituto Brasileiro de Análises
Sociais e Econômicas (Ibase) está prestes a divulgar
os resultados da pesquisa Repercussões do Programa Bolsa Família
na Segurança Alimentar e Nutricional das Famílias Beneficiadas.
A pesquisa desmonta boa parte dos preconceitos que a elite, setores
da mídia e da oposição ventilam a respeito do
programa. Leia abaixo a matéria da revista Carta Capital desta
semana que antecipa alguns resultados da pesquisa.
" O que tem todo dia pra
gente comer é arroz e farinha mesmo, feijão só mais
de vez em quando. Subiu muito, né?”, diz Rogéria
Maria da Silva Lima enquanto lava as louças de uma das duas refeições
diárias da família. Ela mora com os três filhos e
o marido em uma casa de taipa no bairro mais pobre de Ipaumirim, no sertão
cearense, fronteira com a Paraíba. A renda da família gira
em torno de 130 reais por mês, divididos entre os 94 reais que
recebem por terem dois filhos inscritos no Bolsa Família (a menor,
Ranieli, ainda não foi cadastrada) e outros 30 ou 40 reais conseguidos
em bicos pelo marido José Marcio dos Santos. Uma vez por semana,
aparece carne no prato da família, normalmente frango, aqui e
ali um pouco de carne. Menos de uma vez por semana Marcio compra “salada”:
um tomate ou uma cebola, divididos entre os cinco familiares. Os alimentos
mais consumidos são farinha, arroz e leite. Se dependesse das
crianças, comeriam macarrão instantâneo todos os
dias. Com o Bolsa Família, Rogéria compra biscoitos de água
e sal, um litro de óleo, um pote de margarina, sabão, uma
ou outra peça de roupa e eventualmente um chinelo. A água
vem do poço, o fogão é a lenha e a eletricidade,
dividida com o vizinho. Com o Bolsa Família, dá para “agüentar
o mês”.
As crianças inscritas
no programa, Renata, de 3 anos, e Marcio Júnior, de 7, freqüentam
a escola regularmente. Se faltam, é porque estão com disenteria,
o que a mãe já perdeu a conta de quantas vezes aconteceu.
Não há esgoto no bairro.
A dureza cotidiana e o desafio
de colocar comida no prato todos os dias são a realidade de milhões
de brasileiros, parte deles atendida pelo Bolsa Família. Alvo
de preconceitos, o programa federal acaba de passar por uma varredura
que revela, em detalhes, o impacto real nas famílias atendidas.
O Instituto Brasileiro de Análises
Sociais e Econômicas (Ibase) está prestes a divulgar os
resultados da pesquisa Repercussões do Programa Bolsa Família
na Segurança Alimentar e Nutricional das Famílias Beneficiadas,
que a revista CartaCapital trouxe com exclusividade para seus leitores
na edição desta semana. Para chegar aos dados a seguir,
o Ibase fez entrevistas qualitativas com 15 grupos de beneficiários
e de gestores municipais do programa. Em seguida, saiu a campo para entrevistar
5 mil titulares do cartão Bolsa Família, em 229 municípios
de todas as regiões do País.
“Além de questionar
se estavam se alimentando mais e melhor, buscamos saber como decidem
diante da escassez”, explica Francisco Menezes, diretor do Ibase
e coordenador da pesquisa. Entre as constatações, nas famílias
de renda mais baixa, aumentou o consumo de cereais, principalmente arroz
e feijão, alimentos que declinam na dieta brasileira. No geral,
os atendidos pelo programa priorizam alimentos calóricos, ditos
fortes, e de menor valor nutritivo.
Ao longo das mais de 200 páginas
da apresentação final, percebe-se que a atitude de Rogéria,
que não deixa faltar farinha enquanto a família mal sabe
o que é uma fruta fresca, é igual à das mães
(as mulheres são 94% dos titulares do programa) em nível
mais grave de insegurança alimentar. “Faz muita diferença
se a família está em situação de extrema
fragilidade ou se já tem uma base”, diz Menezes. Ele teme
que o aumento mundial no preço dos alimentos represente “enorme
retrocesso” às conquistas do programa. O presidente Lula
empenhou-se em garantir que o novo reajuste no repasse às famílias
eliminasse as perdas da inflação no preço dos alimentos.
O aumento, anunciado na quarta-feira 25, será de 8% e passa a
valer a partir de julho.
Com a mudança, cada família
beneficiada passará a receber de 20 a 182 reais por mês,
de acordo com a renda mensal por pessoa e com o número de crianças
e adolescentes até 17 anos. As famílias mais pobres recebem
o benefício básico, de 62 reais. Cada filho em idade escolar
(até três) dá direito a mais 20 reais, e cada adolescente
(até dois), a 30 reais. O benefício é pago desde
que os filhos freqüentem a escola e sejam vacinados regularmente.
Mal saiu o reajuste e políticos
da oposição contestam o programa que, apesar de ser regido
pela Lei Federal 10.836, é acusado de ser eleitoreiro, de criar
acomodação ou de ser mero assistencialismo. No entender
de Patrus Ananias, ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome,
esse raciocínio se deve a uma visão economicista da sociedade,
mas é, essencialmente, uma questão ideológica. “Esses
mitos se devem a setores cada vez mais minoritários, encastelados
em instituições de poder, que mantêm uma ideologia
decorrente da escravidão, do coronelismo, das capitanias hereditárias
e do mandonismo, ainda que revestidas de uma falsa modernidade.”
A pesquisa do Ibase vasculha
a fundo o Bolsa Família. Além de apontar mudanças
reais na alimentação dos beneficiários, pode ser
confrontada com os principais mitos a respeito do programa.
“ Não
existe fome no Brasil”
Existe. Ainda que tenha havido avanços, a fome é uma realidade
para milhões de brasileiros. A partir das discussões geradas
pelo Fome Zero, em 2003, conforme a nutricionista da Unicamp Ana Segall, os
indicadores baseados apenas na renda foram substituídos: “Há um
imaginário um pouco estilizado da fome, mas ela pode ser algo cotidiano”.
A partir de 15 perguntas sobre oferta e quantidade de comida, a Escala Brasileira
de Insegurança Alimentar determina se a situação é grave
(fome entre adultos e/ou crianças da família), moderada (restrição
na quantidade de alimento) ou leve (receio de faltar comida no futuro próximo).
Mais da metade, 55% das famílias atendidas pelo Bolsa Família
estão em situação de insegurança alimentar moderada
ou grave (tabela ao lado). São 6,1 milhões de lares, ou cerca
de 30 milhões de brasileiros, segundo o Ibase.
“ O
Bolsa Família não chega a quem precisa”
Na avaliação da secretária nacional de Renda de Cidadania
do Ministério do Desenvolvimento Social, Rosani Cunha, o programa está próximo
de atender os mais pobres. Ele se dirige a 11,1 milhões de famílias,
aproximadamente 50 milhões de brasileiros. “O mais difícil é chegar às
famílias mais vulneráveis, quase invisíveis”, admite,
referindo-se àquelas com endereço precário, submetidas
a trabalho escravo, indígenas ou quilombolas, para as quais o MDS desenvolve
credenciamento diferenciado. “O programa chega às que precisam,
mas não a todas”, diz Menezes, baseado na pesquisa do Ibase, segundo
a qual 60% dos entrevistados disseram conhecer quem precise do programa e não
o receba.
“ O
programa é assistencialista”
Há uma diferença entre assistência social, direito essencial
dos cidadãos, e assistencialismo, que visa tirar proveito político
e eternizar o dependente. “No Brasil, há desprezo e cinismo quanto
ao direito à assistência do Estado”, alfineta Menezes. “Embora
não se possa negar o peso na reeleição do presidente Lula,
o Bolsa Família não é uma política de governo, é uma
política de Estado, regida por lei.” Segundo o Ibase, 64% dos
titulares concordam com a exclusão das famílias que não
cumprirem as contrapartidas (manter os filhos vacinados e estudando). “A
defesa das condicionalidades é uma resposta a essa crítica”,
diz Rosani Cunha, “pois mostra que há uma responsabilidade do
Estado e uma do beneficiário”.
“Receber
o Bolsa Família acomoda”
O suposto efeito preguiça é a crítica mais contumaz ao
programa. “A pesquisa desmente cabalmente essa afirmação”,
diz Menezes. Os números são claros: 99,5% dos pesquisados não
deixaram de trabalhar (ou fazer algum tipo de trabalho) depois do Bolsa Família. “Entre
os 0,5% que deixaram ocupações, a maioria exercia trabalho degradante,
como os cortadores de cana do Nordeste. Se disseram não a um trabalho
indigno, é uma conquista de cidadania.”
A pesquisadora do Ibase, Mariana
Santarelli, afirma que, nas entrevistas qualitativas, o maior desejo
dos beneficiados era conseguir um emprego e, em segundo lugar, emprego
com carteira assinada. Quando questionadas sobre até quando receber
o benefício, 20% disseram “para sempre”, porcentual
considerado baixo e atribuído, na maioria, aos habitantes de áreas
rurais sem perspectiva: “É importante ver que 80% dos pesquisados
têm esperança de ingresso no mercado de trabalho”.
Rosani Cunha ataca a raiz: “Essa
crítica é ideológica, não tem base em número
real”. Ela cita dados da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio
(Pnad) de 2006, em que o nível de ocupação entre
os atendidos pelo Bolsa Família é maior do que entre os
não beneficiários (77% a 73,8%). “Há uma busca
por trabalho, mas como muitos não têm escolaridade, não
saem da pobreza.” A secretária aposta na escolaridade como
oportunidade de emancipação. E Menezes, na integração
de políticas públicas.
Em Osasco, arredores de São
Paulo, a prefeitura aproxima os programas de transferência com
os de geração de renda. “O segredo é apresentar
alternativas ao mesmo tempo que atendemos à necessidade imediata”,
diz Dulce Cazunni, secretária do Desenvolvimento, Trabalho e Inclusão
do município. A transformação é visível
no dia-a-dia das iniciativas centralizadas pela prefeitura.
A maior parte das mulheres carentes
que freqüentam a oficina de costura recebe o benefício federal
(há 20.157 titulares do Bolsa Família na cidade). Elas
produzem os uniformes da rede municipal de ensino. Este ano, 457 mil
peças sairão das mãos de gente como Daniela de Jesus
Gregório, de 24 anos, mãe de Ryan, de 5 anos. “Eu
não sabia nem sentar numa máquina. Vi essa chance e agarrei”,
diz a jovem, que vivia de bicos e agora recebe a bolsa de 450 reais da
prefeitura. “Hoje, tenho segurança para fazer um teste numa
empresa.”
Além de aprender a profissão,
Edilene Lídia de Souza, de 32 anos, e outras 27 mulheres, com
apoio dos programas de Economia Solidária da cidade, montaram
uma cooperativa de costureiras. Edilene, que estudou até a 6ª série,
diz que a oportunidade de trabalhar mudou sua vida. “Comecei a
ver portas abertas para mim. Sou uma pessoa, tenho potencial.”
“O
pobre não sabe usar o dinheiro”
Na pesquisa do Ibase ou em qualquer outra sobre o Bolsa Família, a primeira
resposta sobre “em que o dinheiro é gasto” é alimentação.
No Nordeste, 91% dos titulares do programa apontaram a comida. No Sul, 73%.
No geral, com opção de até três respostas, os beneficiários
disseram gastar em alimentação (87%), material escolar (46%),
vestuário (37%), remédios (22%), gás (10%), luz (6%),
tratamento médico (2%), água (1%).
“A alimentação
consome 56% da renda total das famílias”, afirma Menezes. “A
razão para não comprarem mais é o preço”,
complementa Santarelli. De acordo com o Ibase, após o recebimento
do benefício, foi possível comprar mais alimentos dos seguintes
grupos: açúcares (78%), arroz e cereais (76%), leite e
derivados (68%), biscoitos (63%), industrializados (62%), carnes (61%),
feijões (59%), óleos (55%), frutas (55%), ovos (46%), raízes
(43%) e vegetais (40%). O aumento no consumo de biscoitos, óleos
e gorduras, açúcares e industrializados não é saudável,
e segue uma tendência nacional, já observada pelo IBGE.
A dieta dos beneficiários
do Bolsa Família se diferencia da tendência no aumento do
consumo de arroz e feijão, principalmente nas famílias
em situação precária. Estas, no entanto, optam por
alimentos calóricos em lugar dos nutritivos (mais caros). “Uma
dieta muito energética dá a falsa impressão de que
a fome acabou. É um ciclo perverso que leva à obesidade”,
alerta Ana Segall.
Nas famílias que já têm
o básico, o Bolsa Família permitiu acesso a alimentos “complementares”,
como frutas, verduras e industrializados, além da carne. Nos grupos
focais, as mães disseram poder oferecer aos filhos o que chamam
de “lanche”, biscoito recheado e iogurte.
“Não acho que não
seja digno comprar um tênis para o filho, um ventilador, panela
de pressão. Se a mãe tem condições de administrar
esse dinheiro, está mais do que certa. Porque dignidade a gente
tem que continuar tendo”. Quem ensina é uma mãe,
beneficiária do programa, residente no Rio de Janeiro.
A regularidade na entrega do
dinheiro possibilita que seja usado como garantia de crédito.
A aquisição de eletrodomésticos, em vez de comida,
foi muito criticada. “Comprar uma geladeira, um fogão é mau
uso do dinheiro? Isso é uma arrogância”, crê Rosani
Cunha: “Há preconceito em achar que o pobre não sabe
escolher”.
A assistente social Maria de
Lourdes Ferreira, moradora de Carapicuíba, nos arredores de São
Paulo, é um caso raríssimo de renúncia voluntária
ao Bolsa Família. “Eu dizia para mim mesma: não posso
depender desses 15 reais do governo. Eu me revoltava”, diz. Aos
43 anos, perdeu um dos três filhos vítima de meningite,
parou de estudar para cuidar dos outros dois e foi diarista para colocar
comida em casa. Há seis anos, separou-se do marido e mudou a vida
graças não ao Bolsa Família, mas a um somatório
de iniciativas.
Maria cursou o pré-vestibular
comunitário da ONG Educafro, e conseguiu bolsa integral na Universidade
São Francisco. “Trabalhava como diarista e estudava à noite,
eu não comia. Pedi o Bolsa porque vi as coisas apertarem.” O
benefício era de 15 reais (hoje 20), mas fazia diferença.
Ainda na faculdade, conseguiu um estágio remunerado e, com peso
na consciência por ver gente “muito mais miserável”,
decidiu cancelar o cartão. Hoje recebe bolsa de 470 reais mensais,
de uma fundação vinculada ao governo estadual, para especializar-se
na área. E sonha com uma vaga no serviço público.
Melhorar a comunicação
Rosani Cunha, do MDS, reconhece
que é preciso melhorar a comunicação do ministério
com os gestores municipais do programa e com as famílias. Mas
considera o Bolsa Família vitorioso porque alivia a pobreza imediata,
reduz a pobreza nas gerações seguintes e integra-se a outras
alternativas de desenvolvimento.
“O Bolsa Família é bem-sucedido
no que se propõe, mas tem um limite. Não vai acabar com
a pobreza”, diz Menezes, sem ilusões: “Transferir
renda não resolve os problemas sociais”. Assim como Rosani,
ele destaca a importância de outras iniciativas. Um exemplo é o
Programa de Aquisição de Alimentos, do MDS, que liga a
agricultura familiar aos consumidores. Ou o Pronaf, que dá crédito às
famílias produtoras.
Em fevereiro deste ano, o governo
federal lançou o programa Territórios da Cidadania para
integrar políticas públicas nas áreas rurais mais
miseráveis. “O que indevidamente se chama de grotões
são ambientes onde vivem brasileiros que precisam de tratamento”,
defende Humberto Oliveira, um dos coordenadores do programa que tem 12,9
bilhões de reais de orçamento.
Com a participação
de 24 ministérios e órgãos federais, a intenção é potencializar
o efeito dos benefícios. “Além do Bolsa Família,
programas como o Brasil Alfabetizado, cursos de capacitação
profissional e acesso ao crédito também chegarão
a essa família”, explica Oliveira, e vislumbra um futuro
menos árduo para brasileiros como Rogéria e os filhos alimentados à base
de farinha. “Ao juntarmos tudo, a possibilidade de este cidadão
ingressar em uma atividade produtiva e gerar a própria renda é muito
maior.”
Má-vontade da direita
“O Bolsa Família
distribui renda sem porta de saída. É bom por um lado,
mas não é bom habituar as pessoas à dependência”,
critica o senador José Agripino. O líder do DEM também
não vê com bons olhos o reajuste no repasse ao programa. “O
governo aumenta o Bolsa Família para exibir um crescimento artificial
do PIB. À medida que ofereceu renda àqueles que nunca puderam
ter uma geladeira, um microondas, criou uma escalada de consumo baseada
numa capacidade artificial de compra”, diz.
O senador Cristovam Buarque
defende um repasse ainda maior aos beneficiados, mas critica a gestão
do programa pelo MDS, e diz que o vínculo com a escola é fraco: “Sem
melhorar a qualidade do ensino, não se vai emancipar as famílias
da pobreza”.
Na Câmara dos Deputados,
Nazareno Fonteles (PT-PI) tenta costurar a aprovação de
um projeto de lei que influenciará diretamente os beneficiados
do Bolsa Família, pois trata da merenda escolar. Além de
estender a merenda ao ensino médio, visa aproximar o produtor
do comprador. “Isso favorece o produtor local, produz renda, valoriza
a cultura e a agricultura familiar”, diz o deputado. Ele explica
que tem de haver uma hierarquia de necessidades e, por isso, é favorável
ao aumento no repasse do Bolsa Família. O PL da Merenda tramitará em
uma comissão especial. Até o momento, no entanto, está parado,
pois o DEM e o PSDB insistem em não indicar seus representantes.
Para a cientista política
Lúcia Avelar, da Universidade de Brasília, tem uma tese
para a má vontade. Em uma análise acadêmica das últimas
três eleições municipais (de 1996, 2000 e 2004),
ela verificou o avanço dos partidos de esquerda a partir de 2000,
e o recuo constante dos partidos de direita. “A transferência
de renda cria um vínculo do eleitor com o Estado, sem intermediários,
e este é o primeiro passo para um sentimento de cidadania”,
diz. Entre os municípios com pior índice de desenvolvimento
humano predominam o DEM e os partidos considerados de direita. “São
locais tradicionalmente controlados pela elite financeira local. Por
isso há tanta chiadeira”, conclui.
Fonte: Carta Capital
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CONGRESSO EM FOCO, 30 de junho
de 2008
De olho nas eleições
e no bolso do contribuinte
Dos 91 parlamentares pré-candidatos,
só 40 votaram a favor da CSS, 29 votaram contra e 21 faltaram à sessão
Rodolfo Torres e Tatiana Damasceno
A três meses das eleições,
a maioria dos parlamentares que pretendem concorrer ao cargo de prefeito
em outubro demonstra, no mínimo, cautela com a criação
de mais um tributo. Dos 91 deputados pré-candidatos, apenas
40 (43,9%) – todos governistas – votaram a favor da proposta
que cria a Contribuição Social para a Saúde
(CSS) como fonte de recursos para garantir a regulamentação
da Emenda Constitucional 29.
Dos 51 restantes, 29 votaram
contra, 21 não compareceram à votação e um
se absteve. Entre os pré-candidatos que se posicionaram contra
a CSS, 17 são oposicionistas e outros 12 são filiados a
partidos que integram a base de apoio do governo Lula. Dos ausentes,
apenas dois eram da oposição.
Os dados são resultado
de cruzamento da lista de votações divulgada pela Câmara
e a relação dos então pré-candidatos a prefeito,
elaborada pelo Congresso em Foco a partir de informações
dos gabinetes dos deputados e das lideranças partidárias.
A lista das candidaturas, porém, ainda não está fechada,
já que termina apenas hoje (30) o prazo para a realização
das convenções partidárias. De lá pra cá,
além disso, alguns parlamentares retiraram sua pré-candidatura.
Os partidos têm até o próximo dia 5 para registrar
o nome de seus candidatos.
As bancadas de São Paulo,
com 11 representantes, e do Rio de Janeiro, com dez, são as que
têm maior número de parlamentares que pretendem concorrer às
eleições. Entre os deputados paulistas que almejam uma
vaga no Executivo municipal, seis votaram contrariamente ao novo tributo,
três faltaram e apenas dois foram favoráveis à CSS.
Entre os fluminenses, cinco votaram contra, quatro a favor e um faltou à votação.
Confira
a relação, por estado, dos deputados pré-candidatos
Entre os pré-candidatos
governistas que votaram contra a CSS, estão sete que ajudaram
o governo a aprovar a prorrogação da Contribuição
Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF)
na Câmara, em setembro do ano passado. Já Carlos Eduardo
Cadoca (PSC-PE), que votou a favor da CPMF, se absteve desta vez.
Risco eleitoral
Para cientistas políticos
ouvidos pelo Congresso em Foco, o número de votos dados à CSS
pelos pré-candidatos revela o temor dos parlamentares com a reação
dos eleitores à criação de um novo tributo. Professor
da Universidade de São Paulo (USP), Gaudêncio Torquato diz
que votar a favor de imposto às vésperas das eleições
representa “quase um suicídio eleitoral” para os deputados. “O
que ele tira do bolso do contribuinte, o contribuinte tira dele mais
tarde”, avalia.
Já Ricardo Caldas, da
Universidade de Brasília (UnB), acredita que a posição
dos deputados em relação ao assunto não tem poder
para influenciar o voto do eleitorado, mas pode “fragilizar” uma
candidatura. “Não é apenas um fator, mas um conjunto
de fatores que define o desempenho dos candidatos”, destaca o cientista
político, acrescentando que a maioria dos eleitores não
acompanha o dia-a-dia do Congresso.
Na avaliação de
Gaudêncio Torquato, o placar apertado da CSS demonstra que o governo
tem uma base “precária” quando o assunto é polêmico. “Ano
eleitoral é fator de muita sensibilidade. O candidato receia que
seu nome seja exposto à execração pública”,
afirma Torquato, destacando a existência de movimentos da sociedade
contra a criação de novos impostos.
A Câmara aprovou a criação
da Contribuição Social para a Saúde no último
dia 11, por 259 votos, apenas dois a mais do que o mínimo exigido
para projetos de lei complementar. Foram registrados ainda 159 votos
contrários e duas abstenções.
Base e temor divididos
Mas a resistência entre
aos aliados não se restringiu aos pré-candidatos. Afinal,
51 deputados governistas que não irão disputar as eleições
em outubro não compareceram à sessão que aprovou
a CSS. Além disso, ao todo, 53 parlamentares da base votaram contra
a proposta encabeçada pelo líder do governo, Henrique Fontana
(PT-RS). Desses, 41 não estão na disputa eleitoral.
A unidade da base aliada vai
ser posta à prova novamente esta semana, quando a Câmara
deve retomar a análise do último destaque apresentado pela
oposição à proposta da CSS. Os governistas terão
de reunir pelo menos 257 votos para evitar a aprovação
do dispositivo que, na prática, inviabiliza a cobrança
da contribuição.
O relator do projeto de lei complementar
que regulamenta a Emenda 29 e cria a CSS, Pepe Vargas (PT-RS), pré-candidato à prefeitura
de Caxias do Sul (RS), defende o tributo e afirma estar disposto a enfrentar
o debate sobre o tema durante a eleição. “Eu vou
enfrentar este debate. A CSS não é só para os pobres.
O candidato que votou sim pela CSS tem o apoio dos trabalhadores e da
classe média que é solidária”, explica.
O líder do PPS, Fernando
Coruja (SC), avalia que o comportamento dos deputados na votação
não tem relação com a disputa municipal. “As
pessoas votam no que acreditam. Algumas pessoas têm bom senso.
Acho que não tem isso de eleição”, destaca.
Já o líder do PSDB
na Câmara, José Aníbal (SP), discorda. Na avaliação
dele, os governistas que votaram a favor do tributo menosprezam a capacidade
de indignação do eleitor e apostam suas fichas nas promessas
de benesses do Palácio do Planalto. “Os pré-candidatos
que votaram a favor da CSS vão pagar caro. Eles acham que serão
recompensados pelo governo depois”, afirma.
De acordo com o líder
do PT, Maurício Rands (PT-PE), o temor de alguns pré-candidatos
não se sustenta, pois a sociedade em geral é favorável à ampliação
da fonte de recursos para a saúde. “Muitos candidatos achavam
que iam ser prejudicados, mas tiveram coragem política para enfrentar
o debate”. O líder petista minimiza o desgaste eleitoral
da votação. “Não era esse prejuízo
eleitoral todo. A maioria não tem o salário de R$ 3.038”,
conta, referindo-se ao valor do salário a partir do qual será cobrada
a CSS.
Dinheiro para a saúde
A criação da CSS
foi embutida no projeto de lei que regulamenta a Emenda 29, que destina
mais recursos para a saúde. O governo quer, com a contribuição,
criar uma fonte extra de recursos para a área, compensando, assim,
a perda de arrecadação provocada pelo fim da CPMF em dezembro.
De acordo com a proposta, ficam livres da cobrança do tributo
os aposentados e os pensionistas da Previdência Social, bem como
os sacadores do seguro-desemprego, do FGTS e do PIS. Quem recebe até R$
3.038 também ficará liberado de pagar a contribuição.
Passando pela Câmara, a
proposta segue para a análise dos senadores. O líder do
governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), já avisou que
os senadores só votarão a criação da CSS
após as eleições municipais de outubro.
Levantamento feito em maio pelo
Congresso em Foco mostrou que, pelo menos, sete dos 45 senadores que
votaram a favor da prorrogação da contribuição
estão dispostos a votar contra a criação do novo
tributo para financiar a saúde. Esse grupo pode, na verdade, aumentar
se os governistas indecisos, que somam 13 desse total, decidirem votar
contra a matéria.
CPMF sim, CSS não
Pré-candidato à prefeitura
de Itapetinga, o deputado Edgar Mão Branca (PV-BA) votou a favor
da renovação da CPMF, mas rejeitou a CSS. Segundo ele,
a mudança de posição não tem qualquer influência
da proximidade das eleições.
“Depois da votação
da CPMF, o governo prometia votar a reforma tributária, o que
não aconteceu. Então a gente tem que parar e rever alguns
pontos. O governo tem que usar mais a inteligência e buscar outras
alternativas. O meu lema é coragem para ser autêntico. O
imposto [CSS] é bom, mas é mais um imposto diante da alta
carga tributária”, explica.
Além de Mão Branca,
votaram a favor da CPMF e contra a CSS os seguintes parlamentares pré-candidatos:
Antônio Roberto (PV-MG), Arnaldo Viana (PDT-RJ), Gorete Pereira
(PR-CE), Lindomar Garçon (PV-RO), Marcelo Ortiz (PV-SP) e Paulo
Rubem Santiago (PDT-PE).
Antônio Roberto também
negou ter mudado o voto temendo a reação do eleitorado.
O deputado afirmou que, apesar de ser pré-candidato, não
disputará o pleito na capital mineira. “O partido é que
insiste em divulgar a candidatura”, afirmou.
Já Lindomar Garçon
disse que se posicionou contra a CSS para atender a um pedido de seus
eleitores. “Ouvi a minha base eleitoral e a população
que me elegeu. O sentimento era contrário [à CSS]",
explica o parlamentar. Além disso, Lindomar explica que seguiu
a orientação do seu partido que se posicionou integralmente
contrário à criação do tributo. Os 12 deputados
do PV presentes à sessão do último dia 11 votaram
a CSS. Em setembro do ano passado, 11 haviam votado a favor da prorrogação
da CPMF e apenas três contra o tributo.
O Congresso em Foco procurou
os deputados Arnaldo Viana, Gorete Pereira e Paulo Rubem Santiago para
ouvir suas justificativas sobre a mudança de voto na CSS em
relação à CPMF. Mas, até o fechamento desta
edição, não houve retorno.
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AGÊNCIA DIAP, 30 de
junho de 2008
ELEIÇÕES 2008
Calendário eleitoral: hoje é o último
dia para escolha de candidatos
Pelo calendário eleitoral
definido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), hoje é o último
dia para que os partidos realizem convenções para escolher
seus candidatos e definir suas coligações.
Clique
aqui e veja o calendário eleitoral, com todas as datas que antecedem
o pleito.
Internet
no pleito municipal
A Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação
e Informática da Câmara dos Deputados realiza, nesta terça-feira
(1o), audiência pública sobre a regulamentação do
uso da internet nas eleições municipais de 2008.
Foram convidados para o debate
o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Ari Pargendler;
o presidente da Associação Brasileira de Consultores Políticos
(Abcop), Carlos Manhanelli; o advogado e ex-ministro do TSE, Fernando
Neves; o professor do Instituto de Ciência Política da Universidade
de Brasília (UnB), David Fleischer; e o diretor-presidente do
portal IG, Caio Túlio Costa.
A audiência será no
plenário 13, às 14h30.
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FOLHA
DE SÃO PAULO, 30 de junho de 2008 | Brasil
ELEIÇÕES 2008 / JUSTIÇA
ELEITORAL
São Paulo tem 400 casos de compra
de voto
Segundo procurador regional eleitoral, muitos
políticos acusados ocupam cargos públicos e devem disputar
eleição este ano | Apesar de negociação de
voto ser crime, Luiz Carlos dos Santos diz que lei é falha; poucos
processados são condenados pela Justiça
LILIAN CHRISTOFOLETTI
DA REPORTAGEM LOCAL
Dentadura, dinheiro, motor
de carro, leite e até casa. Durante a campanha eleitoral, tudo
vira moeda de troca para candidatos que não medem esforços
para obter um cargo público. Para o procurador regional eleitoral
Luiz Carlos dos Santos Gonçalves, 44, responsável por
garantir a licitude da disputa, casos assim fazem de São Paulo "o
Estado onde mais se compra e vende votos no país".
Em cerca de 400 processos, a Justiça busca desvendar o motivo que levou
os políticos paulistas a distribuir presentes em ano eleitoral. A despeito
das acusações, Gonçalves diz que muitos estão em
cargos públicos e alguns já se colocaram como pré-candidatos
no pleito deste ano, quando serão escolhidos prefeitos e vereadores.
" Sempre que se pensa em compra de votos, imagina-se que isso só acontece
pelos rincões afora do Brasil, que aqui estamos num estágio civilizatório
superior. Mas qual não foi a minha surpresa ao descobrir que isso acontece,
e muito, no Estado de São Paulo", afirma.
Para o procurador, o fato de o Estado conviver com uma camada muito grande
de desfavorecidos, com intensa demanda por comida e pelos serviços mais
básicos, é aproveitado por maus políticos -segundo pesquisas
recentes, cerca de 35% da população da região metropolitana
de São Paulo vive abaixo da linha de pobreza.
" Eu não tenho números exatos, mas a sensação
de quem atua diretamente com isso é de que a compra de votos é enorme
em São Paulo", diz.
Os processos correm em sigilo, e os nomes dos candidatos são preservados
pela Justiça.
Prova
Apesar de a compra e a venda de votos serem crime no Brasil, com pena prevista
de até quatro anos de prisão, a legislação é falha,
diz o procurador.
Segundo Gonçalves, há uma dificuldade enorme para provar a negociação.
Não bastam fotos, testemunhas nem vídeos em que o candidato aparece
pedindo votos. Pelo entendimento atual do TRE (Tribunal Regional Eleitoral)
de São Paulo, o pedido tem de ser explícito: o candidato tem
de dizer, sem meias palavras, que a dentadura precisa ser paga nas urnas.
" Há casos em que provamos que o candidato ofereceu churrasco e bebidas
de graça, fez discurso político e convocou a todos a cantar em
coro seu número eleitoral. Mesmo assim, não houve condenação.
O tribunal entendeu que a entrega da carne não foi condicionada ao voto",
diz o procurador.
A "liberalidade" do tribunal é alvo de críticas por
parte de Gonçalves. "Na eleição de 2004, o TRE-SP
tinha uma postura mais firme. Já, em 2006, foi mais liberal. Esperamos
uma atitude mais firme para esta eleição." Ele critica ainda
o entendimento do tribunal de tratar de forma igual, com a mesma gravidade,
quem compra e quem vende o voto.
|
FOLHA DE SÃO PAULO,
30 de junho de 2008 | Brasil
Procuradoria quer impugnação
de condenados pelos tribunais
DA REPORTAGEM LOCAL
Uma nova orientação
da Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo deverá causar
polêmica nesta eleição. Descontente com a entrada
na disputa de políticos com "ficha suja", o procurador
Luiz Carlos dos Santos Gonçalves recomendou aos promotores eleitorais
do Estado a impugnação de candidatos condenados por tribunais,
mesmo que a sentença não seja definitiva.
Em consulta recente sobre o tema, o Tribunal Superior Eleitoral entendeu que
os políticos só perderão a candidatura quando não
cabe recurso. "Não estamos dizendo que, só porque um candidato
responde a processo, não pode se candidatar. Mas, se a pena tiver sido
confirmada em segunda instância, é uma afronta à Constituição",
afirmou Gonçalves.
Para embasar sua proposta, o procurador exibe o parágrafo 9º do
artigo 14 da Constituição, que manda considerar a vida pregressa
do candidato para garantir a probidade administrativa. "Se posso exigir
antecedentes para quem vai ocupar um cargo qualquer, como não pedir
o mesmo para quem vai ter uma função pública?"
A atual lei complementar eleitoral fala em esperar o trânsito em julgado
da condenação. Para o procurador, isso é ilegal. "A
Constituição não dá carta branca para a lei." Eventual
pedido de impugnação de registro de candidatura será analisada
pelo TRE, com possibilidade de recurso no TSE e no STJ. (LC)
|
FOLHA DE SÃO PAULO,
30 de junho de 2008 | Brasil
Cassado pode tentar reeleição
no interior de SP
DA REPORTAGEM LOCAL
Eleito em 2004 para a prefeitura
de Rosana (762 km de São Paulo), Jurandir Pinheiro (ex-DEM) foi
impedido de tomar posse porque havia sido condenado por compra de voto. À época,
ofereceu-se para consertar o motor do carro de um eleitor. Em troca,
queria o voto da família.
Meses depois, Pinheiro conseguiu suspender a condenação e assumir
o comando da cidade. Antes de concluir o terceiro ano do mandato, foi cassado
novamente, por uso irregular do dinheiro público.
Pinheiro voltou aos holofotes em dezembro passado, quando foi preso, acusado
pelo desvio de R$ 50 milhões dos cofres públicos. Ficou 195 dias
na cadeia até conseguir o direito de responder em liberdade. Sem condenação
definitiva, Pinheiro pode tentar a reeleição.
Uma situação parecida ocorreu em 2006. A candidatura de Valdemar
Costa Neto (PR), que tentava voltar à Câmara dos Deputados, ofereceu
um churrasco a cerca de 1.400 pessoas. Meses antes, em meio ao escândalo
do mensalão, ele havia renunciado ao cargo de deputado federal para
fugir da cassação.
O local estava repleto de cartazes e cabos eleitorais. Ao microfone, alguém
dizia que o deputado convidava "para saborear aquela carne". Depois,
Costa Neto discursou: "Preciso do voto de vocês." O político
foi eleito e voltou a Brasília. O TRE entendeu que a distribuição
de carne não estava condicionada ao voto e arquivou o caso. A PRE recorreu
ao TSE, que ainda não se manifestou.
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AGÊNCIA DIAP, 30 de
junho de 2008
NORMA INTERNACIONAL
Convenção 158: parecer
contrário do relator poderá ser aprovado
A Comissão de Relações
Exteriores da Câmara se reúne, nesta quarta-feira (2),
e poderá votar o parecer do relator, deputado Júlio
Delgado (PSB/MG), contrário a mensagem presidencial que ratifica
a Convenção 158 da OIT, que proíbe a demissão
imotivada.
O texto só não
foi votado na semana passada por falta de quorum no colegiado.
Desse modo, o DIAP ressalta a
necessidade de o movimento sindical se mobilizar, a fim de derrotar o
parecer do deputado Júlio Delgado e aprovar o voto em separado,
favorável, do deputado Vieira da Cunha (PDT/RS).
O deputado Vieira da Cunha apresentou
voto em separado contra o parecer de Delgado e a favor da ratificação
da mensagem do Governo, o que só poderá ser apreciado caso
o parecer do relator seja rejeitado pela maioria dos membros da Comissão
de Relações Exteriores.
A Comissão se reunirá no
plenário 3, às 10h.
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AGÊNCIA DIAP, 30 de
junho de 2008
INCLUSÃO SOCIAL
Desempregados poderão ter
acesso à alimentação e vale-transporte
A Comissão de Assuntos
Econômicos (CAE) agendou para terça-feira (1º), às
10h, a apreciação de 13 proposições.
Destacamos na pauta o PLS 247/06, para permitir a concessão
dos benefícios do Programa de Alimentação
do Trabalhador (PAT) e de Vale-Transporte aos trabalhadores desempregados,
durante o período de freqüência a curso de capacitação,
readaptação ou reciclagem.
Consta ainda na agenda, o PLS
273/03, que altera a lei do FGTS, para permitir ao empregado participar
do capital da empresa em que trabalha, utilizando-se do saldo do referido
Fundo. A matéria conta com parecer favorável, na forma
de substitutivo, do relator, senador Mão Santa (PMDB/PI).
Destaca-se ainda o PLS
616/07, do senador Marcello Crivella (PRB/RJ), que dispõe sobre
a obrigatoriedade de manutenção dos depósitos
judiciais em instituições financeiras oficiais. O relator,
senador João Vicente Claudino (PTB/PI) emitiu parecer contrário.
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