Congresso em Foco, 5 de janeiro de 2009
Ano novo com velhas promessas de reformas
Deputados e senadores devem analisar reformas
e a abrir CPIs. Justiça voltará a decidir sobre temas
legislativos
Rodolfo Torres
O ano recém-iniciado vem com um desafio em relação
aos anteriores: 2009 terá de provar que seus 12 meses serão
capazes de alterar a estrutura de impostos e o tempo de mandato dos
representantes populares.
Sem eleições para reduzir as atividades do Congresso
e com o apoio do governo, que defende a aprovação das
matérias, parlamentares terão tempo necessário
para aprovar as reformas tributária e eleitoral. Do outro lado,
uma crise econômica global sem precedentes e a desconfiança
da oposição podem dificultar a análise dessas
propostas.
Além dessas matérias, também estão na
pauta a mudança da tramitação das medidas provisórias
no Congresso. Apontadas como um dos fatores da baixa produtividade
parlamentar, as MPs podem ter seu rito alterado neste ano.
Outros projetos à espera de apreciação do Parlamento
neste ano são a instituição de mais um tributo,
a Contribuição Social para a Saúde (CSS) – que
viria para substituir a extinta Contribuição Provisória
sobre Movimentação Financeira (CPMF) – e a criação
de cotas em instituições públicas federais de
educação superior para estudantes de escolas públicas.
O ano ainda trará, no mínimo, a instalação
de três comissões parlamentares de inquérito (CPIs):
a da dívida pública; a que investigará o desaparecimento
de crianças e adolescentes; e a que explorará o tema
da violência urbana.
Reformas
Aprovada na comissão especial no final de novembro de 2008,
o texto da reforma tributária será analisado no plenário
a partir de março. O governo, que pretendia aprovar a matéria
ainda no ano passado, teve que retroceder da idéia após
intensa obstrução dos partidos oposicionistas.
Em linhas gerais, a proposta de reforma tributária a ser analisada
inicialmente pelos deputados prevê a unificação
das 27 legislações do Imposto sobre Circulação
de Mercadorias e Serviços (ICMS) e a extinção
de quatro tributos (Cofins, PIS, Salário Educação
e CSLL) para a criação do Imposto sobre Valor Adicionado
Federal (IVA-F).
Por sua vez, a proposta de reforma eleitoral foi aprovada na Comissão
de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara
em dezembro passado. Para seguir para a análise do plenário,
o texto ainda precisa ser apreciado por uma comissão especial,
que analisará o mérito das mudanças sugeridas.
As 62 propostas de emenda à Constituição analisadas
pelo colegiado determinam, entre outras coisas, o fim da reeleição
em cargos executivos, mandatos de cinco anos para todos os cargos no
Executivo e no Legislativo (inclusive o de senador), e mudança
na data da posse – hoje fixadas em 1º de janeiro e 1º de
fevereiro.
Uma das PECs admitidas prevê a coincidência de mandatos.
Nesse caso, uma única eleição definiria vereadores,
prefeitos, deputados, senadores, governadores e o presidente da República.
A proposta de reforma eleitoral aprovada na CCJ não prevê o
voto distrital misto, como propôs o governo. A reforma eleitoral
não deve ser confundida com a reforma política, que foi
rejeitada pelo plenário da Câmara em 2007. Essa reforma
preterida tratava de financiamento público de campanhas eleitorais
e do voto em listas partidárias.
Embates
Em relação à reforma tributária, o impasse
está na carga tributária. Governistas alegam que a proposta
reduzirá a carga tributária, incentivará o investimento
e auxiliará o país a atravessar o atual momento de turbulência
nas finanças internacionais. “A proposta não é perfeita,
mas é a proposta possível”, afirmou o líder
do PT, Maurício Rands (PE).
Já a oposição, que conseguiu mais tempo para
apreciar a matéria, destaca que o projeto aumentará a
carga tributária no país e provocará demissões.
De acordo com o deputado José Carlos Aleluia (BA), vice-líder
do DEM, a reforma tributária proposta “inviabiliza o próximo
governo”.
Uma emenda aprovada na comissão especial da reforma tributária
garante isenção do ICMS aos produtos da cesta básica.
Deputados também mantiveram a cobrança do ICMS sobre
a comercialização de softwares, e aprovaram a isenção
desse imposto para resíduos e sucata usados como matérias-primas
para reciclagem.
Além disso, texto que será analisado em plenário
elimina a possibilidade de criação de uma nova CPMF por
meio de lei complementar.
Em relação à reforma eleitoral, o principal embate
a ser travado no Congresso diz respeito a uma suposta extensão
do mandato do presidente Lula.
Apesar de o texto da proposta não tratar desse assunto, há quem
defenda abertamente a realização de um plebiscito em
2009 para abrir a possibilidade de o presidente concorrer a um terceiro
mandato.
“Não pode ser a Casa a decidir isso. A sociedade é que
vai dizer”, afirmou o deputado Carlos Santana (PT-RJ) ao Congresso
em Foco. O petista, que promete apresentar uma emenda ao texto da reforma
eleitoral na comissão especial, também afirmou que vai
brigar pela instalação de uma frente parlamentar pró-plebiscito.
De acordo com ele, a frente já conta com o apoio de outros
deputados, como Domingos Dutra (PT-MA), Jaime Martins (PR-MG) e Devanir
Ribeiro (PT-SP).
No entanto, o relator da reforma eleitoral, deputado João Paulo
Cunha (PT-SP) desdenhou da emenda do correligionário. “Essa
proposta não existe. Eles têm o direito de propor, mas
a maioria tem o direito de dizer que não prospera.”
MPs
Outra PEC que também terá espaço reservado nas
discussões dos congressistas em 2009. Deputados analisarão
em segundo turno a PEC 511/06, que altera a tramitação
das medidas provisórias no Congresso. A matéria foi aprovada
em primeiro turno na última sessão deliberativa da Câmara
em 2008. Após ser analisada em segundo turno pelos deputados,
a matéria será encaminhada ao Senado.
A proposta, defendida à exaustão pelo atual presidente
Arlindo Chinaglia (PT-SP), possibilita que a maioria absoluta possa
inverter a pauta quando uma medida provisória trancar as votações.
Atualmente isso não é possível.
Outro ponto dessa PEC determina a análise, pela Comissão
de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara
e do Senado, dos preceitos constitucionais de relevância e urgência
que deve ter uma medida provisória. Somente após essa
fase é que uma MP seguirá ao plenário.
Governistas ainda mantiveram a possibilidade de o governo editar uma
MP para revogar outra MP editada anteriormente. Além disso,
pela proposta o governo poderá retirar uma medida provisória
até 15 dias após sua edição.
As matérias citadas são propostas de emenda constitucionais
(PECs). Por alterarem a Constituição, elas necessitam
ser analisadas em dois turnos em cada uma das Casas Legislativas (Câmara
e Senado). Além disso, cada uma dessas votações
requer, no mínimo, 3/5 dos votos. Ou seja, 308 deputados e 49
senadores.
Pouca mudança
Para o jornalista e analista político Antônio Augusto
de Queiroz, diretor de Documentação do Departamento Intersindical
de Assessoria Parlamentar (Diap), 2009 não terá uma grande
produtividade parlamentar. Isso porque, em sua análise, a sucessão
na Câmara e no Senado e as articulações em torno
da sucessão presidencial de 2010 ocuparão espaço
privilegiado neste ano.
“Na reforma política tende a prevalecer o projeto que
permite a mudança de partido sem perda de mandato. Na reforma
tributária, o máximo que poderá esperar será um
IVA federal, já que não há acordo com os principais
Estados: Minas e São Paulo... A regulamentação
de MPs pode andar, mas o governo dispõe de meios para impedir
seu avanço”, afirmou em entrevista exclusiva ao Congresso
em Foco (confira
a íntegra da entrevista).
CPIs
O ano de 2009 trará, no mínimo, mais três novas
comissões parlamentares de inquérito (CPIs). São
elas: a CPI da dívida pública; a que investigará o
desaparecimento de crianças e adolescentes; e a que irá apurar
o tema da violência urbana.
O pedido de abertura CPI que investigará a dívida pública
teve como instrumento de reforço uma matéria publicada
no início do ano passado pelo Congresso em Foco (Juros da dívida
consumiram 22 CPMFs em cinco anos).
Segundo a reportagem, desde o início do primeiro mandato, em
2003, até o começo de 2008, o governo Lula já havia
destinado mais de R$ 851 bilhões – o equivalente a 22
CPMFs – apenas para o pagamento de juros nominais da dívida
pública consolidada (interna e externa).
CSS
Deputados precisam votar apenas um destaque para concluir a análise
da proposta que cria a CSS, imposto que funcionaria nos moldes da CPMF
e serviria para financiar a saúde pública.
Ao contrário da CPMF, que tinha caráter provisório,
a CSS será permanente e destinada exclusivamente para a área
da saúde. No entanto, o tributo não será cobrado
de aposentados, pensionistas e trabalhadores que recebem até R$
3.038,00 por mês.
Apresentado pelo DEM, o destaque pendente acaba com a base de cálculo
do novo tributo. Na prática, inviabiliza a cobrança da
CSS. Após passar pela Câmara, a matéria seguirá para
votação no Senado, onde deve enfrentar forte resistência
da oposição.
Cotas em universidades
Outra matéria que deve ser analisada pelo Congresso em 2009 é o
Projeto de Lei 3627/04, que determina que as instituições
públicas federais de educação superior devem reservar,
no mínimo, 50% de suas vagas para estudantes que tenham cursado
integralmente o ensino médio em escolas públicas. A matéria
já foi aprovada na Câmara e agora está no Senado.
De acordo com uma emenda aprovada pelos deputados, do total das vagas
que serão reservadas aos estudantes do ensino público,
metade deverá ser destinada a estudantes oriundos de famílias
cuja renda per capita seja de até 1/5 de salário mínimo.
A outra metade será para estudantes que se declarem negros,
pardos e indígenas.
Na Justiça
Apesar de já ter sido aprovada na Câmara e no Senado,
a PEC dos Vereadores foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF). O
impasse ocorreu entre as duas Casas porque o Senado decidiu não
adotar o dispositivo aprovado pela Câmara que determina a redução
dos custos com as câmaras municipais.
Em virtude dessa alteração, Chinaglia decidiu não
assinar a promulgação da PEC. A atitude do petista fez
com que o presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), acionasse
a advocacia da Casa para ingressar com um mandado de segurança
junto à Suprema Corte. Garibaldi quer conseguir na Justiça
a promulgação dessa proposta.
Em linhas gerais, a PEC dos Vereadores amplia de 51.748 para 59.791
o número de desses cargos no país (diferença 7.343 – ou
14,1% de ampliação de vagas). A matéria altera
a proporcionalidade de vereadores em relação à quantidade
de habitantes de cada município. Assim, os menores municípios
(até 15 mil habitantes) teriam nove e os maiores (até 8
milhões) 55 vereadores.
Outra matéria que foi parar nos tribunais foi o Fundo Soberano
do Brasil (FSB). Apesar de a proposta ter sido aprovada no Congresso,
parlamentares não destinaram recursos do orçamento para
compor o fundo soberano. Para iniciar o FSB, o governo editou a Medida
Provisória 452/08, que autoriza o Tesouro Nacional a emitir
títulos da dívida pública mobiliária federal
em favor do fundo soberano.
Contrários a criação do fundo soberano, partidos
oposicionistas impetraram uma ação direta de inconstitucionalidade
(adin) no STF. De acordo com a argumentação das siglas
de oposição, o governo só pode editar medida provisória
em casos excepcionais, como calamidades, catástrofes naturais
e guerras. Além disso, oposicionistas ressaltam que o Congresso
não aprovou os recursos que seriam destinados ao fundo soberano
por meio do Orçamento da União.
O fundo soberano é uma espécie de poupança de
R$ 14,2 bilhões. De acordo com o governo, esses recursos serão
utilizados em investimentos e ajudarão o país a enfrentar
os efeitos da atual crise no sistema financeiro internacional.
Por sua vez, a oposição ressalta que os recursos do
FSB poderão ser utilizados para qualquer finalidade e sem nenhuma
fiscalização. De acordo com o senador Tasso Jereissati
(PSDB-CE), o fundo soberano garante ao governo federal “recursos
abundantes fora do orçamento, fora de qualquer controle, fora
de qualquer fiscalização, para ser investido aonde quer
que queira, inclusive em período eleitoral”.