Informativo Eletrônico n.º 1.161   -   Ano 06   -   Curitiba (PR), 10 de janeiro de 2009.





Agência Senado, 10 de janeiro de 2009

Mesquita Júnior propõe desincompatibilização para candidatos à reeleição
Com o objetivo de impedir o uso da máquina pública por candidatos à reeleição, o senador Geraldo Mesquita Júnior (PMDB-AC) apresentou proposta de emenda à Constituição (PEC 7/07) que mantém o direito à reeleição de prefeitos, governadores e presidente da República por apenas um período subseqüente, mas exige que eles se afastem do exercício de seus cargos durante, pelo menos, os seis meses anteriores ao pleito eleitoral.

Pela proposta, a possibilidade de uma única reeleição fica aberta aos titulares dos cargos executivos, nas três esferas de Poder, bem como a quem os houver sucedido ou substituído no curso dos mandatos, desde que se desincompatibilizem por seis meses.

Mesquita Júnior alega, na justificação de sua proposta, que a reeleição não deve ser abolida ainda, porque não foi suficientemente testada. Ao mesmo tempo, ele considera necessário, e desejável, colocar uma barreira para impedir que os postulantes da reeleição usem o poder em proveito próprio ou sejam acusados de fazê-lo.

- O maior dos inconvenientes da reeleição consiste no tratamento desigual que a Constituição confere aos titulares do Executivo que se candidatam à reeleição e àqueles que, ocupando esses mesmos cargos, pretendam concorrer a outros cargos eletivos. Enquanto, no primeiro caso, podem se manter no exercício de suas funções, na segunda condição, são obrigados a renunciar a seus postos - afirma.

Para Mesquita Júnior, o fundamento ético e de natureza legal que obriga os ocupantes dos cargos no Executivo a renunciar para concorrer a outros cargos deve prevalecer, por questão de equidade, em relação aos postulantes à reeleição.

A proposta está em tramitação na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), onde aguarda designação de relator.


O Globo, 10 de janeiro de 2009
País pagou a mais R$1,3 bi de seguro-desemprego
Os gastos com seguro-desemprego atingiram R$ 12,953 bilhões entre janeiro e novembro de 2008, já superando o desembolso de todo o ano anterior em R$ 456 milhões. Em 2007, a despesa com o pagamento do benefício foi de R$ 12,497 bilhões. Indicativo dos reflexos da crise financeira no mercado de trabalho, o número de pedidos subiu 13.609, entre outubro e novembro, segundo o Ministério do Trabalho.

Dados parciais até o dia 20 de dezembro mostram que já foram pagos R$ 859,365 milhões com o auxílio, mas os valores vão subir, pois a maior parte das demissões ocorre no dia 31.

Até agora, os gastos com o seguro-desemprego em 2008 somaram R$ 13,812 bilhões - alta de 10,5% sobre os valores pagos em 2007. Ou seja, mais R$ 1,3 bilhão. Para este ano, o orçamento do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) com o benefício é de R$ 17,333 bilhões.

Centrais querem ampliação

Para enfrentar a onda de demissões decorrente da crise, as centrais sindicais pediram ao ministro do Trabalho, Carlos Lupi, a ampliação das parcelas do seguro-desemprego.

Atualmente, elas variam entre três e cinco, de acordo com o tempo de serviço do trabalhador. As entidades querem mais cinco pagamentos adicionais para setores mais prejudicados. Lupi diz que antes de março não encampará esta discussão.

No passado, o Conselho Deliberativo do FAT já autorizou a ampliação das parcelas do seguro-desemprego para trabalhadores dos setores prejudicados pelo câmbio, como calçados, têxteis e móveis.



Valor Econômico, 10 de janeiro de 2009
Efeitos da crise: com mais demissões, sindicatos buscam acordo
A aceleração das notícias de suspensão temporária dos contratos de trabalho, demissões e redução de jornada com redução de salário está obrigando entidades sindicais a abrir uma nova frente de negociações. Além das discussões com o governo federal, sindicatos e centrais começam a flexibilizar exigências para buscar acordo com entidades patronais para garantir a manutenção do emprego.

Nesta sexta-feira, a Força Sindical reúne-se com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e com sindicatos de metalúrgicos, costureiras, químicos, construção civil, alimentação e borracha, para avaliar alternativas às demissões.

O próximo passo será a negociação com os 25 sindicatos patronais vinculados à Fiesp, que juntos representam mais de 11 mil empresas em São Paulo. Na segunda-feira, a direção da Central Única de Trabalhadores (CUT) define, em reunião fechada, ações para fazer frente aos cortes.

"Os sindicatos de São Paulo negociam acordos de suspensão temporária do contrato de trabalho, que serão anunciados na próxima semana. É uma saída para que o trabalhador se mantenha empregado e com renda. Nos interessa encontrar alternativa à demissão", afirmou o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho.

Ele estima que o número de demissões neste início de ano pode chegar a 3 milhões. Por enquanto, duas empresas acordaram com os respectivos sindicatos a suspensão temporária dos contratos de trabalho. A Philips negociou no pólo de Manaus a suspensão dos contratos de 230 dos 3 mil funcionários, no período de dois a 5 meses. E a Renault negociou no Paraná a suspensão do contrato de 1 mil funcionários por 5 meses.

No Amazonas e na Bahia, os sindicatos preferiram apostas na redução da jornada de trabalho. Em Camaçari (BA), o Sindicato dos Metalúrgicos fechou com indústrias locais a redução da jornada semanal de 41,5 horas para 40 horas, mas há ainda grande preocupação com o risco de demissões com a volta das férias coletivas na próxima semana, dado que a unidade da Ford ainda está com os pátios cheios, afirmou o diretor sindical Alberto Carlos.

"Começaremos a discutir com as empresas nos próximos dias, mas o sindicato se mantém contrário à flexibilização dos direitos trabalhistas e à suspensão temporária dos contratos", afirmou o sindicalista.

No Amazonas, informou o diretor do Sindicato dos Metalúrgicos Sidney Malaquias, a entidade fechou acordo com as 14 montadoras, que juntas empregam 22 mil metalúrgicos, para a redução da jornada de trabalho de cinco para três dias por semana, sem redução de salário, com a promessa de o governo local conceder descontos na cobrança de tributos às empresas que não demitirem.

Em 2008, houve 17.665 homologações no pólo, 34,8% a mais que no ano anterior, sendo que em dezembro, o total de demissões mais que dobrou, chegando a 2.732, ante 1.177 em 2007.

"O total de demissões é bem maior, tendo em vista que só há homologação quando o trabalhador tem mais de um ano de contrato com carteira", observou Malaquias. No segmento de eletroeletrônicos, que mantém em torno de 40 mil trabalhadores, as demissões superaram 8 mil, observou.

No ABC paulista, as empresas também negociam redução da jornada de trabalho, mas com redução de salário, proposta que ainda é recusada pelo Sindicato dos Metalúrgicos da região.

"Qualquer acordo para manter o trabalhador empregado é importante, mas, antes de adotar essas medidas, as empresas precisam dar a sua contribuição, já que tiveram cinco anos de crescimento fantástico e o governo já ofereceu vantagens tributárias", afirmou o presidente da entidade, Sérgio Nobre.

Segundo ele, a média de homologações no fim do ano manteve-se estável na faixa de 400 por mês e a única "surpresa desagradável" ficou por conta da TRW, que ignorou negociação em andamento com o sindicato demitiu 200 funcionários de sua unidade em Diadema.

Em São Paulo e Mogi das Cruzes, também não houve demissões em massa, segundo o presidente do sindicato da região, Miguel Torres. Até 19 de dezembro, 67 empresas fizeram 98 homologações. Mas há preocupação com as mil empresas que mantêm em férias coletivas 18.167 trabalhadores.

"A volta vai ser complicada. Está havendo muita sondagem de empresas querendo fazer a suspensão temporária do contrato de trabalho, mas por enquanto vamos tentar negociar licença remunerada, banco de horas, outras alternativas", afirmou.

Em Minas, o ano começou com más notícias. A Teksid, fabricante de autopeças da Fiat, anunciou a demissão de cem pessoas na próxima semana, informou o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Betim, Marcelino da Rocha.

Na próxima semana, o sindicato reúne-se com representantes da Fiat e de montadoras, que juntas empregam 40 mil trabalhadores. "Acredito que não haverá muitas demissões porque, com a redução do IPI, a Fiat esvaziou o pátio", afirmou Rocha. Em 2008, o sindicato registrou 2.564 homologações.



Agência Brasil, 10 de janeiro de 2009
Lupi defende estabilidade por período igual ao da bolsa qualificação
Uma das medidas que deverão ser adotadas para regulamentar a concessão da bolsa qualificação será a exigência de que, ao término do benefício, o trabalhador tenha o emprego garantido pelo mesmo período em que a bolsa foi concedida. A informação foi dada pelo ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi, em entrevista à Agência Brasil e à TV Brasil.

"A garantia da estabilidade do emprego no mínimo pelo período que durar a bolsa não está prevista [em lei], e acho uma boa idéia a ser discutida pelo Codefat [Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador]", disse o ministro.

Atualmente, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) garante a estabilidade por três meses após o término da bolsa qualificação, que é uma modalidade de seguro-desemprego para o empregado que teve o contrato de trabalho suspenso após acordo coletivo firmado pelo sindicato. A duração pode ir de dois a cinco meses.

Segundo o ministro, outras mudanças seriam a definição de uma carga horária para os cursos de qualificação do trabalhador e o controle do tipo de curso que ele pode fazer. A necessidade de regular é motivada pelo aumento do número de suspensões de contratos de trabalho e conseqüentes pedidos de concessão de bolsa qualificação motivados pelos efeitos da crise financeira mundial.

Durante o período de vigência da bolsa qualificação a empresa não recolhe encargos sociais e não paga os salários. Já o trabalhador deve ser matriculado pelo empregador em programas de qualificação profissional e receber uma bolsa no mesmo valor pago pelo seguro-desemprego. Essa bolsa é custeada com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).

A concessão das bolsas está sendo acompanhada com "lupa" pelo governo para que não haja abusos, afirmou Lupi. "Eu quero bom senso, não quero prejudicar ninguém. Penso que o empresariado brasileiro tem que ter consciência de que ganhou muito dinheiro nesses últimos anos e de que não pode fazer com que a conta seja paga pelo trabalhador".

De acordo com o ministro, a regulamentação é necessária também para que sejam abrangidos os setores realmente atingidos. "O processo tem que ser limitado para setores que realmente estão em crise, que não estão conseguindo vender, e tratado com muito zelo. O governo paga, e a empresa tem a obrigação de qualificar o trabalhador".

As mudanças serão analisadas pelo Codefat e, segundo o ministro, devem ser definidas e implantadas dentro de um período de que vai de 30 a 60 dias.



Vermelho, 10 de janeiro de 2009
Redução da jornada pode evitar demissões na indústria
Dados divulgados pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) na quinta-feira (8) indicam que a produção de veículos no Brasil caiu 47,1% em dezembro na comparação com novembro de 2008, apesar de certa recuperação das vendas. Já em relação a dezembro de 2007, a retração foi de 54,1%, com 102.053 unidades fabricadas.

Por Umberto Martins, com informações das agências

O resultado reflete a ampliação das férias coletivas nas montadoras, numa reação das multinacionais à crise econômica internacional considerada alarmista pelo governo e pelos sindicalistas. Apesar disto, 2008 foi o melhor ano da história para a indústria automobilística no Brasil. Nos 12 meses fechados em dezembro, a produção teve alta de 8%, o que significou 3,214 milhões de novas unidades lançadas nos mercados interno e externo, de acordo com a Anfavea.

Um recorde que deu novas e boas contribuições ao caos do trânsito em São Paulo e nas regiões metropolitanas do país, encheu as burras dos capitalistas, permitindo-lhes multiplicar o valor das remessas de lucros e dividendos às matrizes, mas não livrou a classe operária das férias coletivas involuntárias e do fantasma das demissões em massa no Ano Novo. A classe trabalhadora e seus representantes não querem arcar com o ônus da crise do capitalismo e 2009 promete intensas lutas no ramo metalúrgico.

Resultados contraditórios

O último mês do ano também registrou uma recuperação das vendas. Em dezembro foram comercializados 194.486 veículos contra 177.823 em novembro, o que configura um aumento de 9,4%. É importante assinalar, por outro lado, que em relação a dezembro de 2007, quando foram vendidas 242.240 unidades, verifica-se queda de 19,7%.

O incremento do consumo em dezembro não se explica apenas por fatores sazonais, é devido principalmente às medidas adotadas pelo governo para contornar a crise de superprodução no ramo automobilístico, o que inclui renúncia fiscal e ampliação do crédito. À primeira vista não há motivos para temer uma forte recessão no setor, mas ainda é cedo para concluir que a recuperação das vendas e, por conseqüência, das atividades já esteja em curso.

Férias coletivas

Na avaliação da própria Anfavea, a queda na produção tem como principal fator o período de férias coletivas superior ao registrado em anos anteriores, o que reflete a reação alarmista das multinacionais à crise econômica irradiada dos EUA e à superprodução global do setor automotivo.

Para confirmar esse quadro, a entidade destacou a retração da produção nos chamados automóveis leves, segmento que registrou uma retração de 45,8%, saindo de um patamar de 174.945 unidades produzidas em novembro para 94.795 durante o mês de dezembro de 2008.

Exportações em queda

Já as exportações do setor registraram queda de 7,3% em dezembro, para US$ 917,7 milhões. Na comparação com o mesmo período de 2007, a retração foi de 23,1%. No acumulado do ano, as transações no mercado externo computam alta de 3,4% em relação a 2007 no valor comercializado, que totalizou US$ 13,925 bilhões. Já o volume de veículos.vendidos caiu 7,9%, de 789.379 em 2007 para 727.283 no ano passado.

No mês de dezembro, a queda (em volume) foi de 26,1%.
Em relação ao mercado externo não há perspectiva de melhora em curto e médio prazos. O mais provável é que as vendas continuem em queda, refletindo a recessão nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, assim como a contração dos chamados mercados emergentes.

“As exportações enfrentam problemas mais contundentes porque alguns mercados tradicionais têm apresentado quedas importantes, por isso prevemos um ano muito difícil em 2009”, disse o presidente da Anfavea, Jackson Schneider. A bem da verdade, há um excesso de capacidade instalada e de produção deste ramo industrial em escala global.

Multinacionais já demitem

Apesar das medidas do governo em benefício das empresas, as multinacionais já começaram a demitir. O nível de emprego caiu 2,4% em dezembro, com 127.993 pessoas empregadas ante as 131.201 que trabalhavam no ramo em novembro. Segundo Schneider, as demissões estão concentradas no setor de máquinas agrícolas, que enfrenta queda nas vendas e nas exportações desde meados do ano passado.

“Cabe a cada montadora buscar o melhor desenho junto ao diálogo com sua comissão de fábrica e sindicatos. O que é importante é que esse diálogo aconteça e que soluções sejam encontradas”, recomendou o presidente da Anfavea. Na prática, o diálogo vigora apenas da boca para fora, não vai além da retórica.

CTB propõe redução da jornada

A direção da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) entende que as demissões não são inevitáveis e podem ser contornadas, mesmo num contexto de queda da produção e das vendas, com a redução da jornada de trabalho sem redução de salários. Isto exige, porém, o sacrifício de parte dos lucros e das remessas de mais-valia ao exterior para cobrir prejuízos das matrizes, de forma que não será uma saída pacífica para o patronato.

“Os sindicalistas e os trabalhadores precisam lutar com energia para evitar que a classe operária, que produz o lucro apropriado pelas multinacionais, pague por uma crise pela qual não tem qualquer responsabilidade. Vamos exigir a implantação imediata da jornada de 35 horas semanais sem redução de salários”, sustentou o metalúrgico João Batista Lemos, diretor adjunto da Secretaria de Relações Internacionais da CTB.



Agência Estado, 10 de janeiro de 2009
Estados Unidos registram maior corte de vagas desde 1945
A economia norte-americana perdeu 2,6 milhões de empregos em 2008, o maior corte de vagas desde 1945. Segundo o Departamento do Trabalho, quase dois milhões de postos de trabalho foram eliminados apenas nos últimos quatro meses do ano, em um sinal de que a recessão se aprofundou conforme a crise financeira se intensificou.

Somente em dezembro, os empregadores dos Estados Unidos cortaram 524 mil postos de trabalho, levando a taxa de desemprego do país para 7,2%, o maior nível desde janeiro de 1993. A taxa de desemprego em novembro era de 6,8%.

O dado de dezembro traz uma espécie de "alívio" já que a prévia desse indicador, que foi divulgada na quarta-feira pela ADP/Macroeconomic Advisers, empresa processadora das folhas de pagamento no país, apontou para um corte de 693 mil vagas no setor privado norte-americano no período.

Segundo o Departamento de Trabalho dos EUA, os dados de novembro foram revisados de um corte de 533 mil para um de 584 mil, enquanto os dados de outubro foram revisados de um corte de 320 mil para 423 mil.



Vermelho, 10 de janeiro de 2009
CUT critica acordo Força-Fiesp: acordo sem luta não dá
''Acordo sem luta é inaceitável''. Dessa forma, o presidente da CUT, Artur Henrique, resume o posicionamento da central diante das negociações que a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) está encaminhando com a Força Sindical e que prevêem redução salarial, junto com redução da jornada.

''Para nós, o primeiro ponto de qualquer processo de negociação neste momento deve ser a garantia explícita de manutenção dos empregos'', afirma Artur. ''Um acordo guardachuva como esse que a Força quer construir cria uma generalização, como se todos os setores da economia estivessem na mesma condição, ou como se todas as empresas passassem pelo mesmo momento contábil. E isso não é verdade.''

''Além disso, quando se aceita um diálogo em que já se começa perdendo, você só ajuda os setores que estão se aproveitando do momento para demitir ou reduzir direitos'', completa.

''O que os nossos sindicatos devem fazer é em primeiro lugar resistir, realizar greves, processos de mobilização e de pressão para exigir que as empresas usem o estoque de capital, os lucros imensos que tiveram ao longo dos últimos anos, para manter os empregos'', diz Artur.

Na opinião do presidente da CUT, os sindicatos, federações e confederações da CUT devem analisar caso a caso as contas das empresas, para saber realmente em que circunstâncias elas se encontram.

''Não se pode embarcar facilmente na choradeira dos empresários. Nós sabemos que as empresas têm acumulado recordes de venda e de lucratividade, muitos setores continuam remetendo lucros para o exterior, então não dá pra acreditar que a primeira medida a tomar seja demissão, suspensão de contratos ou redução salarial''.

Artur também contesta os números apresentados pela Força, que estima mais de 3 milhões de demissões a partir de segunda-feira. ''Isso nos parece um número catastrofista, que serve para justificar acordos como esse que a Força quer empurrar para o conjunto da sociedade''.

O desafio da CUT é lutar contra essas demissões, a partir de pressão e mobilização e, nos processos de negociação e nas campanhas, exigir cláusulas de manutenção do emprego e, em períodos de maior dificuldade como deve ser este primeiro trimestre, propor alternativas dignas para a manutenção das vagas.

''E cobrar também dos governos federal, estaduais e municipais a manutenção dos investimentos programados para projetos que gerem emprego e renda, a redução drástica e imediata dos juros básicos da economia e o fim do superávit primário. Não vamos desistir também de cobrar do governo a exigência explícita de manutenção e geração de empregos como cláusula fundamental em todos os empréstimos e benefícios fiscais com dinheiro público''.

Artur Henrique acrescenta ainda que suspensão temporária de contrato, outra das propostas que a Força-Fiesp ensaiam, é um mecanismo já previsto em lei e que só pode ser implementado se houver negociação com o sindicato de base e após aprovação em assembléia. Além disso, Artur considera que há outras maneiras de enfrentar a crise: limitação das horas extras, banco de horas ou férias coletivas, que devem ser discutidas caso a caso, à luz da real situação de cada empresa.



Gazeta do Povo, 10 de janeiro de 2009
Imprensa Oficial
Governo extingue o Diário Oficial impresso
Medida deveria ter entrado em vigor em 2008, mas foi adiada para este ano. As consultas, agora, só poderão ser feitas por meio da internet

A edição impressa do Diário Oficial do Paraná deixou de circular em 1º de janeiro. Agora, a consulta aos atos do governo estadual só pode ser feita por meio da versão eletrônica da publicação (www.dioe.pr.gov.br). O objetivo do governo foi tornar mais ágil e econômica a consulta ao periódico.

A migração do conteúdo do papel para a internet havia sido determinada por um decreto do governador Roberto Requião assinado em 2007. Deveria começar valer em 1º de janeiro do ano passado. Mas a migração acabou sendo adiada.

Outra mudança que começou a valer no começo do mês é o fim da impressão do Diário da Justiça, que também era feita pelo Departamento de Imprensa Oficial do Estado do Paraná, responsável pelo Diário Oficial do Executivo. Em agosto do ano passado uma resolução do desembargador José Antônio Vidal Coelho, presidente do Tribunal da Justiça, determinou que a partir do dia 2 de janeiro de 2009 as publicações seriam efetuadas somente pelo Diário da Justiça Eletrônico. As consultas serão feitas pelo site www.tjpr.jus.br.

O fim das versões impressas dos Diários Oficiais vai gerar uma economia de R$ 2,5 milhões aos cofres públicos por ano, diz o diretor administrativo-financeiro da Imprensa Oficial, Geraldo Serathiuk. A maior economia é gerada pelo fim do Diário da Justiça. Segundo Serathiuk, cada edição dele tinha entre 400 e 800 páginas, publicadas em 600 exemplares, em média. Já no caso do Diário do Executivo, cada um dos seus 600 exemplares tinha entre 30 a 70 páginas.

Para garantir a segurança das informações dos Diários Oficiais, foi contratada uma empresa nacional especializada em certificação digital de conteúdos. Quem precisar de uma versão em papel poderá recorrer a secretarias e órgãos da administração pública, que farão a autenticação mecânica do conteúdo impresso. “O servidor fará a comparação do material impresso com o conteúdo digital e fará a certificação”, explicou Serathiuk. O decreto governamental prevê uma taxa para a autenticação, mas o valor ainda não foi definido.

Ilegalidade

O advogado Francisco Zardo afirma que é oportuna a iniciativa do governo de publicar o Diário Oficial na internet. Mas ele alega que a decisão de acabar com a versão impressa é ilegal. Segundo Zardo, a Lei Estadual nº 14.603, de dezembro de 2004, estabelece que os atos do Executivo, Legislativo e Judiciário devem ser impressos e distribuídos ao público. Ou seja, a suspensão das versões impressas, no entender dele, contraria a legislação.

Zardo afirma ainda que o número de pessoas com acesso à internet ainda é baixo. Desse modo, diz o advogado, a veiculação exclusiva por meio eletrônico restringiria o direito a informação dos paranaenses – garantia assegurada pela Constituição Federal.

Empregos garantidos

Apesar do fim dos Diários Oficiais impressos, o parque gráfico da Imprensa Oficial será mantido para a impressão de material usado por outros departamentos do governo estadual. O governo garante que não haverá demissões. “Alguns funcionários foram relocados e outros continuam em seus postos, agora fazendo a composição do Diário Oficial Eletrônico”, diz Geraldo Serathiuk, da Imprensa Oficial.



Gazeta do Povo, 10 de janeiro de 2009
Indústria
Produção industrial cai, mas não no Paraná
Em novembro do ano passado, indústria paranaense avançou 5,7%, mas retração é aguardada para os próximos meses

Em meio à crise econômica e na contramão do cenário nacional, a indústria do Paraná cresceu em novembro em relação ao mesmo período de 2007. Segundo dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção industrial paranaense cresceu 5,7% contra um recuo de 6,2% na média brasileira. Das 14 regiões avaliadas pelo instituto, apenas o Paraná e o Pará tiveram avanço. Na comparação com outubro, no entanto, o estado seguiu o movimento nacional e registrou uma queda de 1,7%.

Os setores de petróleo e álcool, com alta de 51,3%, celulose e papel (31,5%), edição e impressão (27,9%), produtos metálicos (32,2%) e alimentos (2%) garantiram o resultado, segundo o IBGE. Em compensação, as pressões negativas mais significativas vieram de produtos químicos (-40,0%), mobiliário (-23,7%) e madeira (-15,4%), decorrentes, sobretudo, dos recuos na fabricação de adubos e fertilizantes e estantes e madeira serrada.

“Cada estado responde de maneira diferente à crise. Em Minas Gerais, por exemplo, o recuo da indústria automotiva foi mais forte e fez despencar a produção industrial. No Paraná, esse setor teve uma queda pequena, de apenas 0,4%, graças ao setor de caminhões que ainda estava aquecido”, explica André Macedo, da coordenação de indústria do IBGE. Mesmo com a queda de 1,7% na comparação com outubro, o Paraná ainda teve um desempenho melhor do que a média nacional. A indústria brasileira registrou uma queda de 5,2% em relação a outubro, a maior desde maio de 1995. De janeiro a novembro, o Paraná acumula uma alta de 9,9%.

Dos 14 segmentos pesquisados no Paraná, metade registrou aumento na produção em novembro. O setor de petróleo, por exemplo, cresceu por conta principalmente da fraca base de comparação com o ano anterior. Em novembro de 2007, a Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), em Araucária, na região de Curitiba, realizou uma parada técnica, o que reduziu a produção.

O setor de celulose e papel, outro que também puxou o desempenho, foi beneficiado pelo projeto de expansão da Klabin em Telêmaco Borba, nos Campos Gerais. O setor de construção civil, por outro lado, segurou a produção de materiais não-metálicos, como cimento e cal, e metálicos, como dobradiças. “São setores que vinham embalados e que estão demorando mais para desacelerar. Mas tudo aponta para uma piora do quadro nos próximos meses. A tendência é que os setores que vinham compensando o recuo de outros percam o fôlego”, afirma o economista Christian Luiz da Silva, professor da PUC-PR. A queda em novembro em relação a outubro já mostra, segundo o IBGE, o aprofundamento dos efeitos da crise.

O setor gráfico é um dos que confirmam essa tendência, depois de crescer 27,9%. “Em janeiro já sentimos uma redução da demanda da ordem de 10%”, diz Sidney Paciornik, presidente da regional Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf). De acordo com ele, o resultado até novembro é fruto principalmente dos ganhos de participação de mercado das indústrias locais. “O setor renovou seu parque industrial, modernizou linhas e aumentou a produtividade. Com isso, ganhou espaço frente a empresas de outros estados”, acrescenta.



Gazeta do Povo, 10 de janeiro de 2009
Trabalho
Força Sindical pede tempo para negociar
Com a volta das atividades da maior parte das empresas que deram férias coletivas, o presidente da Força Sindical, deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho, fez um apelo aos dirigentes da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). “Fizemos um pedido à Fiesp para que dê uma ‘acalmada’ nos empresários e que não demitam na segunda (12)”, disse. Na próxima terça-feira (13), trabalhadores e empresários voltarão a se reunir na Fiesp para discutir os termos de uma proposta que os sindicatos estariam dispostos a aceitar para evitar o desemprego. “Vamos trabalhar dentro do que a lei permite”, declarou.



Congresso em Foco, 10 de janeiro de 2009
Planalto divulga íntegra da entrevista de Lula à revista Piauí
O Palácio do Planalto divulgou ontem (9) a íntegra da entrevista concedida pelo presidente Lula à revista Piauí, na edição de janeiro. Entre outras questões, Lula fala sobre a liberdade de imprensa, sua suposta pouca “afeição” pelo noticiário político e a parcela de importância que a exposição na mídia teve em sua escalada à Presidência da República.

Em um momento da entrevista, Lula afirma não gostar de ler jornais, revistas, nem sites de notícias ou blogs, porque sofre de “problemas de azia” e que a leitura de (más) notícias pode lhe causar mal-estar. Mas isso não parece ser problema para o presidente, que diz ter como substituto dos veículos de comunicação o próprio contato com as pessoas. "Um homem que conversa com o tanto de pessoas que eu converso por dia deve ter uns 30 jornais na cabeça todo santo dia."

Assim, recai sobre os assessores a responsabilidade de manter o presidente "jornalisticamente" informado. “Quando sai alguma coisa importante, a [assessora especial] Clara [Ant] e o [ministro] Franklin [Martins] me trazem o artigo, ou mesmo o vídeo de uma reportagem de televisão”, justificou Lula. “Recomendaria a qualquer presidente que se afaste dos políticos e da imprensa nos fins de semana”, arrematou.

A relação entre jornalista e fonte é um ponto interessante da entrevista. Lula chega a comparar a fonte jornalística ao informante de investigação policial – o popular "X9".

“Não gosto, não gosto de ser fonte, porque eu acho que você estabelece uma relação promíscua com o jornalista, com o jornal, com a revista, com a televisão. Se você passa a ser uma espécie de informante privilegiado... no caso do mundo policial, isso seria informante”, disse o presidente, que ainda fala brevemente sobre as acusações sobre o dono do grupo Opportunity, Daniel Dantas. (Fábio Góis)

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

Jornalista: Presidente, é o seguinte: eu queria saber... o senhor está com a imprensa aí há quase 40 anos na sua cola. Estando no Planalto, muda a sua relação, piora, o senhor sente que a imprensa é melhor ou pior do que o senhor achava antes ou não?

Presidente: Eu não vejo, Mário Sérgio, melhora ou piora na imprensa. Eu acho que a imprensa brasileira tem um comportamento, que não é um comportamento de agora, é um comportamento histórico. Eu, por exemplo, sou um cidadão brasileiro que nunca tive a grande mídia brasileira com preocupação de fazer coisas favoráveis a mim, e nunca me preocupei muito com isso, porque antes de tudo eu acredito na inteligência de quem assina uma revista, de quem assina jornal, de quem vê televisão e escuta rádio. Possivelmente, ainda tenha gente inocente, que acredita que tudo o que ele fala, tudo o que ele escreve é recebido pelo leitor como a verdade mais absoluta, ou seja, ele não acredita na capacidade de análise do leitor, que pega uma matéria e percebe se há má fé, se não há má fé, se a matéria está informando corretamente ou se não está informando corretamente. Hoje a informação é muito plural, não tem mais apenas a informação de tal revista, a informação de tal jornal. A informação é veiculada por diferentes fontes. Então, quando o cidadão pega o jornal de manhã, aquela matéria ele já viu na televisão, ele já ouviu no rádio, ele já viu em vários blogs (incompreensível) diferentes, então aumenta a capacidade de interpretar do cidadão que lê.

Jornalista: Agora, o senhor falou uma vez, eu fiz uma matéria com o senhor, eleição municipal 2000, 2001. A gente percorreu várias cidades, uma semana, dez dias. Eu, o senhor, tinha mais gente, o Zé Dirceu... Mas aí o senhor... a relação que o senhor tinha com a imprensa, eu observava, o senhor todo dia lia o jornal no avião, lia a parte de esportes. O senhor comentava comigo, o senhor comentou duas vezes comigo: "olha, esse Painel, petista adora o Painel da Folha, até o Kennedy Alencar, eles botam nota". O senhor tinha uma coisa que curtia a imprensa, o senhor achava, vamos dizer, engraçado. O senhor disse: "se eu tivesse até mais tempo --eu me lembro disso-- se eu tivesse mais tempo eu lia isso com mais vagar". Hoje o senhor tem tempo, o senhor curte mais, curte menos, como é que é hoje?

Presidente: Bem menos, bem menos.

Jornalista: Isso melhora a sua vida ou não?
Presidente: Não, acho que melhora. Eu fui deputado e eu sei como é que muita gente passava matérias para o Painel da Folha, para o Informe JB, para aquele negócio do Estadão. Você sabia quais os deputados que ficavam procurando jornalista, você conversava com um cara aqui e daqui...

Jornalista: Sabia o que era plantado...

Presidente:...sabia o que era plantado e o que não era plantado. Eu sempre dizia que no PT, às vezes uma matéria que saía em um informe qualquer, ou no Painel, era mais vista do que uma matéria do Jornal Nacional. Eu falava isso em tom crítico, porque eu queria mostrar o lado mais intelectualizado da Direção do PT, que não via o que passava no Jornal Nacional, que é o que o povo vê, e via o Painel, que é uma coisa que o povo não lia.

Jornalista: O senhor nunca foi político de fazer esse tipo de ação, vamos dizer, o senhor nunca foi fonte de jornalista, o senhor nunca...

Presidente: Não gosto, não gosto de ser fonte, porque eu acho que você estabelece uma relação promíscua com o jornalista, com o jornal, com a revista, com a televisão. Se você passa a ser uma espécie de informante privilegiado... no caso do mundo policial, isso seria informante. No mundo jornalístico é mais chique, você passa a ser fonte. Então, é o cara que planta laranja para colher manga, é o cara que planta manga para colher limão...

Jornalista: O senhor não acha que isso é válido também?

Presidente: Eu não acho, eu não acho. Você sabe por que eu não acho? Eu não acho correto as pessoas se esconderem em nome de uma coisa fictícia, que é uma fonte. Você pode ter jornalista sério, que tem uma fonte verdadeira e, portanto, ele coloca uma matéria, e aí não é plantada, é uma matéria que alguém disse. E você tem o cara que, quem sabe, se levanta um dia, por falta de informação melhor ele planta uma fonte, e em nome da fonte ele publica o que ele quiser. Eu, sinceramente, não acho isso a coisa mais nobre da imprensa brasileira...

Jornalista: O senhor lê jornal hoje?

Presidente:... até porque eu gostaria que a fonte fosse mais digna e pudesse dar o nome: eu, Mário Sérgio, penso tal coisa do Franklin; o Franklin pensa tal coisa do Lula, e assim o mundo seria muito mais verdadeiro e menos falso. É nisso que eu acredito.

Jornalista: O senhor lê jornal hoje, presidente?

Presidente: Eu leio menos do que deveria, e converso mais do que preciso.

Jornalista: Mas o senhor tem o hábito, de manhã o senhor pega o jornal...

Presidente: Tenho não, eu não tenho isso faz tempo, faz tempo. Não é que não dá, é que eu não quero fazer.

Jornalista: Ah, não quer...

Presidente: Eu tenho problema de azia. Eu me cuido profundamente, para não perder o humor logo cedo. Eu começo a minha atividade política tendo meia hora de conversa com o Franklin sobre a imprensa brasileira. Eu tinha com o Ricardo Kotscho, eu tinha com o André Singer, fazia uma avaliação da imprensa, as principais coisas, o que estava rolando no mundo político, o que estava rolando no mundo econômico. A partir daí tem a minha conversa diária...

Jornalista: E televisão, o senhor vê?

Presidente: Raramente.

Jornalista: Raramente?

Presidente: Porque não tem tempo. Raramente. Eu chego em casa muito tarde.

Jornalista: Mas e quando o Franklin, ou o Ricardo ou o André, diz "olha, o senhor precisa ler tal artigo ou tal documentário"?

Presidente: Aí ele me traz o artigo. Aí me traz o artigo para ler, às vezes tem coisa boa na televisão e eles me trazem vídeo para eu ver, às vezes eu vejo no avião quando estou viajando.

Jornalista: Isso não dá para o senhor a impressão de que o senhor pode ter uma visão distorcida, sem (incompreensível)... o senhor não fica muito na mão do assessor?

Presidente: Mas é muito melhor ficar na mão de um assessor em que eu confio do que na mão de um artigo que eu não conheço o jornalista. Então, eu prefiro conversar com alguém que eu recruto, da maior seriedade, e que me dá as informações corretas.

Jornalista: Mas saber o que está acontecendo no país e no mundo com a população, não é bom o senhor ler (incompreensível)?

Presidente: Um homem que conversa com o tanto de pessoas que eu converso por dia deve ter uns 30 jornais na cabeça todo santo dia. O que acontece? Em cada conversa que você tem com uma pessoa, surge o assunto do dia, seja ele da economia, seja ele da agricultura, seja ele da política. Não há hipótese de um presidente da República ser desinformado sobre as coisas mais importantes que acontecem no Brasil. Agora, o que acontece é que muitas vezes você tem coisas que deformam a notícia. Por exemplo, quando nós lançamos o programa para o povo comprar material de construção com desconto, um jornal importante no Brasil publicou "Lula faveliza o Brasil". Ou seja, é uma concepção distorcida de um cara que possivelmente não tem a menor noção do que significa as pessoas mais pobres terem acesso a comprar material de construção mais barato e poder fazer a sua casa, reformar, fazer a sua garagem, fazer seu puxadinho. Quando eu fiz o programa Bolsa Família, as matérias que saíam deles, analistas, eram de que isso era assistencialismo. Ou seja, as pessoas muitas vezes têm a sua formação ideológica, tem a sua tese sobre as coisas. O que eu às vezes não concordo é que as pessoas, em vez de publicarem um fato como ele é, contra ou a favor, não importa, as pessoas colocam apenas aquilo que pensam sem se importar com o fato como ele é. Apesar de que eu acho que cada um pode ter sua opinião, cada um pode falar o que quiser.

Jornalista: Agora, saber de opiniões não lhe dá uma dimensão melhor do país?

Presidente: Não, eu fico sabendo de muitas opiniões. Você pode ficar certo de que quando um jornalista importante escreve um artigo que fala do governo ou fala da economia, eu fico sabendo tão rápido quanto ele, que escreveu. A verdade é a seguinte: eu tenho uma tese hoje sobre os meios de comunicação. Eu acho que os meios de comunicação hoje estão muito mais democratizados e estão muito mais independentes... A informação está muito mais independente do que ela era antes. A possibilidade que o povo tem de receber as coisas é infinitamente maior do que em qualquer outro momento da história do nosso país.
Eu acabo de dar uma entrevista às 9h05, às 9h06 já está tudo que eu falei na internet, está tudo. Aconteceu uma coisa na Venezuela, aconteceu uma coisa com o Obama, já está tudo na internet, você não tem que esperar o jornal do dia seguinte.

Jornalista: Quer dizer, o jornal perdeu poder?

Presidente: Eu acho que, na verdade, todos perderam poder. Todos. Do ponto de vista...

Jornalista: E o senhor acha isso bom?

Presidente: Eu acho que isso democratiza demais as informações, porque também você tem 300 blogs. Você tem muita gente importante com blog, você tem as agências. Então, a quantidade de informação que você recebe em tempo real vai deixando tudo que demora 10 minutos obsoleto. Ou seja, tudo que demora: então o jornal fica mais obsoleto. Aliás, o próprio jornal se torna obsoleto, porque ele publica as matérias de amanhã hoje. Você quer saber o que vai sair na Folha amanhã, você já vê na internet hoje. Você quer saber o que vai sair no Estadão, você já vê na internet hoje. Você acompanha a Veja, que sai no sábado, na quinta-feira já pela internet, você acompanha... Então, há uma facilidade enorme e isso tornou a informação muito mais independente. Eu acho que alguns companheiros da imprensa não descobriram isso, porque continuam agindo como se estivessem 40 anos atrás.

Jornalista: O senhor pede para ver blog, o senhor pede para ver site na internet?

Presidente: Deixa eu te falar: eu recebo muita informação, porque tenho muita assessoria. Eu recebo do Franklin, eu recebo da Clara Ant, eu recebo do Gilberto Carvalho. Em cada área que sair uma matéria, você pode ficar certo de que chega o papel na minha mão na hora certa que eu preciso. Por isso é que um presidente da República não precisa se preocupar em se levantar de manhã e ler quatro jornais, três revistas, ver todos os programas de manhã, porque isso ele vai vendo durante o dia. Aliás, todos os presidentes que eu conheço fazem exatamente o mesmo, ninguém se levanta de manhã preocupado...

Jornalista: Não, mas a opinião que o senhor tem desses órgãos de imprensa, vamos lá... Há muito pedido de patrão?

Presidente: Não.

Jornalista: Não vem aqui Marinho, Civitta, (inaudível)?

Presidente: De vez em quando aparece alguém aqui com um pedido normal de alguém que quer alguma coisa, que quer discutir alguma coisa com o presidente da República. E eu trato os empresários do meio de comunicação como eu trato os empresários da construção civil, como eu trato os bancos, como eu trato o pessoal do setor siderúrgico, ou seja, é um cidadão que apresenta uma pauta de reivindicação. Por exemplo, quando fomos discutir a TV digital, nós reunimos várias vezes todos os empresários dos meios de comunicação para discutir isso. Eu acho plenamente normal. Eu acho normal que um empresário de meio de comunicação, se precisar de dinheiro emprestado do BNDES, entre com o mesmo pedido como entra uma empresa de construção civil, como entra uma indústria automobilística. É um direito que ele tem de fazer investimento, o Brasil tem um banco que empresta, portanto, ele não deve favor nem ao banco e nem ao país.

Jornalista: Já tem tido retaliação nisso? O senhor negar um pedido ou o governo negar um pedido e um órgão de imprensa (inaudível) mais contra o senhor?

Presidente: Não, porque a análise é eminentemente técnica. Alguém, para pegar dinheiro no BNDES, tem que apresentar um projeto que tenha, eu diria, os fundamentos técnicos corretos e por conta disso, o dinheiro é emprestado. Qualquer empresário de empresa de comunicação que entrar com um pedido de empréstimo, ele vai ser analisado --pode ficar certo-- como qualquer outro. O que há, na verdade, é um preconceito da própria imprensa contra a questão da relação dos meios de comunicação com o governo ou com os bancos públicos. Vem um agricultor de qualquer parte do Brasil, vai ao Banco do Brasil e pega dinheiro emprestado. Isso vale para o dono da Record, o dono da Globo, o dono do SBT, o dono da Bandeirantes, o dono da rádio "fulano de tal". Se ele tiver um projeto que seja convincente e aquele projeto seja exequível --aquele projeto vai gerar mais empregos, vai gerar mais distribuição de renda-- o BNDES ou o Banco do Brasil deve tratar como se fosse um empréstimo comum. O empresário não precisa ficar receoso, porque eu duvido que tenha um governo capaz de querer emprestar dinheiro e pedir contrapartida. Ele seria execrado por todos os outros que não pediram empréstimo. Então, a forma mais segura para os donos dos meios de comunicação é agir com naturalidade, e eu acho que é assim que nós agimos, é assim que age o BNDES. Eu não sei se foi a Record que queria construir um novo cenário para novela, eu me lembro da grande discussão que houve quando a Globo construiu o seu...

Jornalista: Jacarepaguá, né?

Presidente: Eu sempre achei aquilo com muita normalidade. Amanhã, se a revista Piauí quiser fazer uma sede nova, uma gráfica nova e for ao BNDES apresentar um projeto e disser "nós vamos fazer uma gráfica, estão aqui 60 milhões de não sei das quantas, está aqui a garantia, o projeto é exequível", eu acho que o BNDES tratará sem se importar com o nome.

Jornalista: O senhor se magoou muito alguma vez com a imprensa? Eu vou lembrar alguns casos. Primeiro, o caso do seu filho. Ainda na campanha, quando o Paulo Henrique Amorim, na Bandeirantes, o apartamento, não sei o quê, aquilo deixou o senhor muito... O senhor entrou com um processo.

Presidente: Deixe-me falar uma coisa. Eu não conheço nenhum cidadão que tenha sangue de barata, a ponto de não ficar ofendido quando você vê um amigo seu, um parente seu ou um companheiro sendo agredido por coisas que são inverdades. A única coisa que eu lamento profundamente é que quando acontece a publicação de uma mentira, quando vem à tona que aquilo era mentira, não seja publicado do mesmo tamanho o desmentido. Ou seja, parece que não há pedido de desculpas nos meios de comunicação no Brasil quando erram. Esse é um defeito que eu tenho dito publicamente: você tem direito de fazer acusações, você tem direito de manchar o nome de uma pessoa, mas você tem direito de pedir desculpas porque ninguém pode ser incriminado antes de ser julgado. O bom da democracia é que você tem um processo de denúncia, um processo de investigação, um processo de julgamento, condenação ou absolvição. Quando você é condenado, você já foi condenado previamente. Quando você é absolvido, isso não aparece. Você precisa ficar o tempo inteiro...

Jornalista: O senhor acha que na imprensa ocorre muito isso?

Presidente: Eu acho que é uma cultura mundial nos meios de comunicação do mundo inteiro. Há uma predisposição, possivelmente do ponto de vista mercadológico, do ponto de vista... Talvez a notícia ruim tenha mais charme para vender um jornal do que uma notícia boa. Uma notícia boa, normalmente é tida como se fosse chapa branca. Se a revista Piauí fizer matérias falando bem do governo, ela vai fazer uma... Bom, fez uma. Se fizer a segunda... Mas se fizer a terceira, pronto: criou o estigma de chapa branca, e aí é melhor ser neutro. Muitas vezes, na neutralidade, você passa a ser contra...

Jornalista: O senhor, por exemplo, no caso do seu filho quando houve... A Veja falou que havia ligações, não sei o quê... Isso deixa o senhor...

Presidente: Deixa, porque foi uma mentira absurda e que somente o processo vai mostrar o que aconteceu de fato. Somente um processo. Essa coisa, não adianta você ficar, também, brigando, dando murro em ponta de faca, porque essa coisa, você tem que entrar na Justiça, deixar que o processo ande... Qual é a principal condenação que eu acho que tem que ter? A Justiça normalmente obriga que a empresa que fez a matéria publique a sentença no mesmo espaço e com o mesmo tamanho de letra que foi publicada a denúncia.

Jornalista: Mas não funciona.

Presidente: Às vezes funciona. A Folha de S.Paulo, quando eu tomei posse em 2003, foi obrigada a publicar uma sentença de um juiz, de um processo que eu abri contra a Folha. Obviamente, quem leu a denúncia, não leu a sentença, porque se passou muito tempo. Mas é uma defesa até da honra.

Jornalista: E quando o caso é enrolado? Por exemplo, o negócio das telecomunicações. Que envolveu um monte de gente, Daniel Dantas, Zé Dirceu de um lado, Gushiken, jornais (inaudível), jornalistas (inaudível). É um caso enrolado, envolve milhões, bilhões de reais, envolve grandes empresas e envolve a imprensa. O que se faz, enquanto não se tem uma decisão?

Presidente: Publica-se apenas a verdade. O que você não pode é insinuar que todo mundo é ladrão sem nenhuma prova, (inaudível) que você quer insinuar. Se você descobre que uma determinada pessoa praticou um delito qualquer, uma fraude qualquer, você faz a denúncia e investiga. O que você não pode é ficar fazendo ilações, ilações e mais ilações. Depois, passa o tempo e você não prova nada contra ninguém, mas ficaram as ilações feitas. A gente poderia pegar exemplos históricos no Brasil. O Alceni Guerra é um deles. A gente poderia pegar a Escola Base, e tantas outras coisas que acontecem. Esses dois foram os casos mais famosos, mas você pode pegar outros casos. A imprensa tem um papel nobre, que eu acho que é a sustentação da democracia, que é a informação. A partir da informação, muita coisa acontece no mundo: cai governo, entra governo, cai general, entra general, a partir da informação. Agora, quando você transforma essa informação em um instrumento político e começa a fazer ilações sobre isso, eu acho que a nobreza diminui, e aí entra a politicagem, a má-fé. Durante a campanha eleitoral, eu fui a uma cidade --não vou dizer qual-- em que se dizia o seguinte: um candidato tinha um canal de televisão então ele apareceu em 66 reportagens durante a campanha, e o adversário não apareceu em nenhuma. Não é possível que o adversário não tenha criado um fato político que merecesse um minuto na televisão.
Eu penso, Mário Sérgio, que com toda a grandeza que eu tenho dito na minha vida... Eu falo que só cheguei à Presidência da República por causa da liberdade de imprensa. Distorcido ou não, bem ou não, o fato concreto é que como eu acredito na capacidade de discernimento do povo brasileiro --e do povo de qualquer mundo-- as coisas acontecem independentemente da má vontade desse ou daquele órgão, desse ou daquele jornalista.

Jornalista: Agora, por que o senhor criou a TV pública? Por que o seu governo criou essa TV pública?

Presidente: Porque eu acho que é necessário.

Jornalista: Por quê?

Presidente: Porque no mundo desenvolvido você tem outras coisas a informar, além daquilo que dá ibope. Eu não posso fazer dos meios de comunicação apenas uma coisa de interesse mercadológico. Nós queremos uma TV pública para informar, para promover debates sobre temas que, certamente, a TV privada não tem interesse porque... Se colocar a televisãozinha na frente do Ibope ali e começar a cair, muda de assunto imediatamente.

Jornalista: Eu vi uma entrevista ontem, lá, dos presidentes. Parece que é uma coisa chata pacas também, né?

Presidente: Pode, mas se você for fazer só as coisas agradáveis, aí você transforma no que é hoje. Você não tem no Brasil hoje, com exceção do Roda Viva, um espaço de debate político no Brasil, os grandes temas da sociedade não tem o que ser debatido. Então, eu acho que a TV Pública cumpre esse papel. Primeiro, ela não se dispõe a disputar um espaço mercadológico com as empresas privadas, mas ela se propõe a disputar e ganhar espaço na informação, no debate dos grandes temas nacionais, que parece que são tabu serem discutidos. Você pode pegar a questão das células-tronco, você pode pegar a questão do aborto, você pode pegar a questão da crise econômica. Houve um tempo em que neste país tinha debate. Você levava os grandes economistas para um debate. Hoje você não vê mais isso. Hoje, quando você vê uma discussão sobre economia, você vê quem? Um analista de mercado. Mulheres como Maria da Conceição Tavares, como Belluzzo, como Delfim não têm muito espaço na televisão. Você não vê mais os economistas sendo chamados a falar sobre assuntos que são pertinentes aos economistas. Então, a TV Pública, eu espero --ela está em fase de montagem ainda-- que ela cumpra essa função.

Jornalista: Mas o senhor vê?

Presidente: Muito pouco, porque ela não foi feita para mim. Ela foi feita para a sociedade brasileira. Nós estamos numa fase de comprar equipamentos ainda, de montar. Eu penso que até o final do mandato ela vai estar mais ou menos pronta e aí acaba aquela bobagem de dizerem que foi feita uma televisão para o Lula. A primeira orientação que eu dei ao companheiro Franklin foi a seguinte: se a televisão for puxa-saco do governo, ela será chata; se ela for só oposição, ela será chata. Encontrar esse ponto de equilíbrio é como a chuva. A chuva, quando chove demais, os agricultores sofrem; quando chove de menos, os agricultores sofrem. Ela tem a quantidade certa. Então, o que eu quero é isso, é que a TV Pública seja o equilíbrio da maturidade da informação no Brasil, nem ser chapa-branca, mas também não ser chapa-marrom.

Jornalista: Presidente, o que o senhor gosta de ler? Elio Gaspari, o senhor gosta de ler?

Presidente: Eu tenho profundo respeito pelo Elio Gaspari, e o acho um dos grandes jornalistas brasileiros, independentemente de gostar dele.

Jornalista: O Merval?

Presidente: Eu acho o Merval, às vezes, um jornalista de um pensamento só, ou seja, contra o governo.

Jornalista: Clóvis Rossi?

Presidente: Eu sou muito amigo do Clóvis Rossi.

Jornalista: Ali Kamel?

Presidente: Eu acho que o Ali Kamel já fez artigos me defendendo do preconceito, mas eu tenho profundo ressentimento da campanha de 2006...

Jornalista: (incompreensível) de quê?

Presidente:... que eu não expresso no meu comportamento, não expresso nas minhas atitudes, não expresso na minha relação com a imprensa, muito menos com a Globo. É uma coisa que está comigo.

Jornalista: Jânio de Freitas?

Presidente: Sou um admirador do Jânio de Freitas, mesmo quando ele fala mal do governo.

Jornalista: Diogo Mainardi?

Presidente: Eu te confesso que não leio.

Jornalista: Paulo Henrique Amorim?

Presidente: Sempre tive admiração pelo Paulo Henrique Amorim, desde o tempo em que ele era analista econômico da Globo. Eu acho que quando ele foi trabalhar na Bandeirantes ele enveredou por um caminho, assessorado por um jornalista que já não trabalha mais com ele, que cometeram erros crônicos na imprensa. Agora, ele está com um bom programa de debates, que eu acho que... mesmo quando ele critica, você percebe que tem fundamento. Mário, essa, para mim, é a coisa que eu acho importante. Eu não quero que as pessoas falem bem de mim. Não, não. Eu tenho 63 anos de idade, e eu duvido que tenha um jornalista, no Brasil, que um dia tenha ouvido da minha boca um pedido para que ele fizesse uma coisa favorável. A única coisa que eu gostaria é que houvesse apenas o fato como ele é. Depois, se quiser fazer análise pessoal, faça. Mas eu sou defensor de que o fato seja a razão de ser da imprensa.

Jornalista: Nassif? Só faltam mais dois nomes.

Presidente: Eu gosto muito do Nassif. Independentemente de qualquer coisa, eu acho o Nassif um dos grandes analistas econômicos do país.

Jornalista: Mino Carta?

Presidente: Eu sou suspeito, porque eu sou muito amigo do Mino Carta. Eu sou amigo do Mino Carta antes da Carta Capital, sou amigo do Mino Carta (incompreensível).

Jornalista: É por amizade que o senhor vai nas festas do Mino Carta e não vai nas festas da Globo?

Presidente: Não, é por amizade, é por amizade.

Jornalista: Na Veja o senhor não vai é por "desamizade"?

Presidente: Não, não é por isso, não. Eu acho que é uma questão de respeito ético. Eu aprendi a me respeitar. Então, quando um cidadão aprende a se respeitar, aprende com o que eu aprendi, neste país, eu não posso ir a uma festa de uma pessoa que não gosta de mim, eu não posso. Eu não posso visitar a casa de uma pessoa que passa o tempo inteiro falando mal de mim. E olha que o Mino Carta também faz críticas, mas eu tenho respeito pessoal pelo Mino Carta.

Jornalista: Em termos de Estado, presidente, de governo. Já falei isso com o nosso Franklin, aqui, estamos acabando. É legítimo, ou é bom, que o governo tem que ajudar alguns órgãos de imprensa? Dois exemplos concretos: Caros Amigos tem anúncios de estatais, do governo; Carta Capital tem...

Presidente: Todos têm, meu filho, todos têm.

Jornalista: Mas não no sentido... não no proporcional.

Presidente: Proporcional, mais. Pegue todas as revistas brasileiras, todos os jornais e todas as televisões, pegue... tem revista que esculhambava o governo e a primeira página de publicidade era do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, e nunca houve nenhum problema, porque não é assim que eu trabalho.

Jornalista: Não é assim?

Presidente: O que o companheiro Franklin estabeleceu, e é correto, é a participação em função da questão técnica. O cidadão vai ter proporcional ao que ele pode ter, nem mais, nem menos. Você não pode ter alguém que represente... que tenha uma audiência de 30% recebendo o equivalente a 70%; como você não pode ter uma que tem 10% recebendo o equivalente a 5%. Então, quando você cria critérios técnicos para poder cuidar da publicidade, obviamente que algumas pessoas que mamavam começam a ficar chateadas.

Jornalista: Não, eu estou falando outra coisa, em benefício da diversidade, se deveria ter uma ajuda maior a certos órgãos que são mais fracos, como existe na Europa (incompreensível)...

Presidente: Eu não sei se tecnicamente tem, eu não sei. Agora, o correto é o seguinte: se tem uma coisa que ninguém pode criticar neste país, é a justeza do comportamento democrático e republicano deste governo. Este governo, este país já teve ministro de Comunicação que baixava na direção de jornais para impor coisas. Eu duvido que no meu governo o ministro da Comunicação ou um secretário da Secom tenha ido a um jornal, a uma rádio, a uma televisão pedir para não fazer tal coisa. A melhor forma, Sérgio, de a gente vencer essa batalha da democracia, é a gente sendo democrata. Não existe outro jeito.

Jornalista: No geral, o senhor gosta de jornalista ou não? De conversar, ou acha chato pra cacete.

Presidente: Não, não.

Jornalista: Mais chato que político, ou não?

Presidente: Primeiro, eu gosto de conversar com todo mundo. Eu acho que tem gente chata na minha família, tem gente chata no meio do jornalismo, tem gente chata no governo, tem gente chata... qualquer lugar tem gente chata e gente boa. Tem gente que é maravilhosa para conversar, tem gente que sabe contar piada, tem gente que não sabe contar piada. Tem gente que só se senta perto de você para conversar de política. Eu, por exemplo, dia de sábado e domingo não quero conversar política, quero conversar sobre futebol, sobre cinema, sobre qualquer outra coisa. Então esse cara que só sabe conversar sobre um assunto termina virando um cara que você não pode chamar para qualquer coisa. Você vai fazer um churrasco, você não vai chamar um cara... Mas eu sempre me dei bem com a imprensa.

Jornalista: Mas o senhor tem, o senhor sempre... mas o senhor é diferente, assim... O político tradicional brasileiro gosta de cultivar, chamar para casa, "vamos trocar uma ideia"... tudo falso! O senhor não faz isso por que o senhor não gosta?

Presidente: Não, eu não faço isso, por honestidade. Eu não faço isso, por uma questão de princípios. Veja, eu tenho grandes amigos aqui. Eu tenho jornalistas aqui que são meus amigos do tempo em que eu era diretor do sindicato.

Jornalista: Ricardo Kotscho.

Presidente: Mas o Ricardo não é... não vamos ver o Ricardo como jornalista porque já ultrapassou. Mas eu tenho companheiros aqui que eu já dormi na casa deles. Agora veja, eu sou o presidente da República. Enquanto eu for presidente da República, não é correto e não é prudente a gente permitir uma certa intimidade, porque isso estabelece uma promiscuidade, eu não quero. Isso é bom para o jornalista e é bom para mim. Porque daqui a pouco está o jornalista achando que ele tem informações sigilosas do presidente, e está o presidente achando que tem um jornalista que é informante dele. Aí não dá certo. Eu prefiro manter assim. Eu trato todo mundo bem, trato todo mundo com muito carinho, mas eu acho que cada um sabendo qual é o seu papel.

Jornalista: Mas a minha impressão é de que o senhor não gosta muito de jornalista, no que faz muito bem, mas é uma coisa... O senhor gosta... de economista o senhor gosta?

Presidente: Devia ser o contrário. Deixa-me falar uma coisa para você. Eu fui frequentador, você está lembrado disso, eu fui frequentador do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo durante anos, anos e anos, quando o [Sindicato] dos Jornalistas foi um espaço de debate, até 1979, 1980. Mas eu sempre me dei bem com a imprensa em qualquer lugar. Quando é que eu comecei a ter uma cisma maior com a imprensa? Quando uma vez eu fui a Teófilo Otoni, se não me falha a memória, e um cidadão faz uma pergunta para mim e eu respondo a pergunta em off, e ele fala para mim: "jornalista não tem off". E publica uma coisa eu diria insana. Não vou nem voltar ao assunto. Então eu fiquei mais comedido em dizer determinadas coisas.

Jornalista: O senhor não trabalha com off, não? Eu acho que nunca...

Presidente: Eu não gosto, eu não gosto. Se tem que dizer, diga. Se tem que dizer, diga. Por que eu vou dizer para você e falar "não publica"? Quando eu disser para você "não publica" eu estou dizendo para você "porra, aqui tem uma coisa boa, mas vai firme". Então eu prefiro... obviamente que quando eu não for mais presidente da República e não tiver mais a responsabilidade institucional do cargo, eu poderei (incompreensível).

Jornalista: Pelo que eu entendo, presidente, pela observação que o senhor falou do fim de semana. No fim de semana, pelo que eu entendo, o senhor se isola. O senhor não encontra nem com político, nem com jornalista, nem com ninguém, só fica lá com o seu acupunturista, eu acho, não é?

Presidente: Às vezes.

Jornalista: Joga carta, anda com a Dona Marisa...

Presidente: Às vezes eu fico com a Marisa, às vezes eu pesco com a Dona Marisa... Sabe por que? É apenas precaução, apenas precaução. O mandato parece longo, mas é curto. Então veja, eu estou aqui há seis anos. Eu nunca fui a uma festa, eu nunca fui a um restaurante, nunca fui a um aniversário, eu nunca participei de nenhuma atividade. Para não dizer que eu fui a duas festas, eu fui a duas. Eu fui a uma dos 60 anos do Pão de Açúcar em São Paulo, a convite do Abílio Diniz, terminei não jantando, e fui a uma aqui esta semana, eu e o José Alencar, dos 60 anos da Andrade Gutierrez. Foram as duas coisas a que eu fui nestes seis anos de governo. Não vou nem em aniversário de companheiros.

Jornalista: E por que essas duas, presidente?

Presidente: Essas duas porque são simbólicos 60 anos.

Jornalista: Não é pelo Abílio Diniz, ou por (incompreensível)?

Presidente: Não, é porque são 60 anos de empresas, e eu acho importante uma empresa que dura esse tempo inteiro. Mas aqui eu tenho evitado ir até a aniversário de companheiros. Ah, mas vai ter o aniversário do Franklin. O Franklin nunca convidou também... Mas vai ter o aniversário do Marco Aurélio e tal, Marco Aurélio vai fazer uma janta. Eu prefiro não ir. Só faltam dois anos para eu terminar meu mandato...

Jornalista: O senhor se sente solitário no fim de semana?

Presidente: Não, não... Meu caro, ficar o final de semana sem discutir problema e sem discutir economia, sem discutir política, é uma terapia que eu acho que todo político precisaria aprender a fazer. É assim, eu acho que o exercício da presidência ele é tão importante, é um cargo tão nobre em uma República, que nós precisamos aprender o momento de fazer as coisas, aprender o momento de falar, aprender o momento de ficar quieto, sabe, eu estou no aprendizado. Lamentavelmente, faltam só dois anos para terminar o mandato. Agora, a vida é essa Mário, a vida é essa. Eu acho que a imprensa tem um papel excepcional aqui no Brasil e em qualquer parte do mundo.

Jornalista: Mas eu lamento que o senhor não curta mais como o senhor me dava a impressão de curtir. O senhor gostava daquela conversa de... Você viu o que o Juca Kfouri escreveu?

Presidente: Não. Eu posso até gostar depois da Presidência, mas enquanto eu estou na Presidência... eu sei de presidentes que levavam editores para sua casa para jantar, almoçar, que às vezes convocavam os principais articulistas para almoçar, para jantar, eu não gosto de fazer isso.

Jornalista: O senhor se sente injustiçado pela imprensa ou não?

Presidente: Não.

Jornalista: Não? (incompreensível)

Presidente: Não. A história é que vai julgar. Vocês me julgaram. Um dia se você escrever um livro você vai dizer o que você acha que a imprensa fez comigo. Mas eu não me queixo. Eu aprendi na vida a não me queixar, meu caro. Não tem espaço para eu ficar chorando aqui. O Franklin está comigo já há algum tempo. Nunca cheguei para ele e falei: você liga para fulano, que (incompreensível). Cada um de nós é responsável pelo que faz. Todos nós temos gente de olho na gente. Todos nós temos gente de olho na gente. Então, é com essa tranquilidade que eu tento governar o país. Se alguém acha que vai escrever um artigo "descendo o pau" e que eu vou ficar nervoso, que eu vou ficar com azia, que eu vou...esqueça.

Jornalista: Por exemplo, me falaram que o senhor ficou chateado, não com a revista, a revista publicou um longo perfil do Zé Dirceu. Mas que o senhor ficou chateado, primeiro com o Zé Dirceu, e depois com a revista por ter feito aquilo.

Presidente: Com a revista não. A revista fez o que ela se propôs a fazer. Eu sei também que o Serra não topou fazer.

Jornalista: Sabe?

Presidente: Não topou fazer.

Jornalista: Por causa do senhor.

Presidente: Eu acho uma loucura alguém que exerce um cargo político ficar uma semana, totalmente desnudado, diante de um jornalista, porque podem acontecer coisas muito agradáveis e podem acontecer coisas desagradáveis.

Jornalista: E ter visão política, presidente. Eu comecei a conversa falando que eu passei uma semana com o senhor. O senhor muito afável, muita piada, muita (incompreensível), bebemos, não sei o quê, (incompreensível) fomos de Porto Alegre ao Recife de jatinho, o senhor não abriu a guarda em nenhum momento. Eu escrevi uma matéria na Folha de S.Paulo, que eu não pude dizer o...

Presidente: Mas eu não acho que a revista está errada em querer fazer isso. Eu acho que está errado o cara que se expõe a isso. Porque o cara acha que vai passar por algumas situações e o jornalista vai esconder. É errado esconder. A liberdade da informação que eu defendo é essa. Se eu um dia falar: Mário Sérgio, você vai andar comigo um dia por aí, e um cara me "taca" um sapato, mesmo que não tiver a televisão, você tem que dizer: um cara "tacou" um sapato no presidente. O que não pode é, se não "tacou", você dizer: "olha, houve intenção..."

Jornalista: Que um cara com sapato... estava no pé, mas...

Presidente: Ontem, quase que eu tiro o sapato para jogar na imprensa. Agora é isso. Eu acho, Mário, eu acho que... Primeiro, um dia, essas coisas acontecem...um dia nós vamos analisar no Brasil o seguinte: nós tivemos duas experiências ricas neste país. Nós tivemos a primeira experiência do primeiro mandato do Fernando Henrique Cardoso, o que foi uma experiência de muito sucesso do Plano Real, uma experiência muito rica do processo de privatização do país. Parece que o chamado neoliberalismo tinha chegado ao ápice, ao Pico do Himalaia. Então, foram quatro anos de pensamento único, em que não havia espaço para você contrariar. No meu mandato, eu acho que nós vivemos um outro período. Quatro anos de pensamento único, mas ao contrário. Isso um dia vai merecer uma análise. Quem sabe, o Marco Aurélio, quando voltar para a universidade vai fazer uma análise do que foi isso. Foi...

Jornalista: Jornalisticamente, têm duas coisas no seu governo até agora que são, aí merecem... o negócio do mensalão, como é que surgiu isso, como é que foi coberto, como é que acabou? E a questão Daniel Dantas. São dois casos, jornalisticamente, presidente, que ainda são muito misteriosos.

Presidente: Eu acho...

Jornalista: Sabe, é uma coisa que...

Presidente: Eu acho que... é uma coisa que eu sempre fico imaginando. Nós estamos aqui reunidos nesta sala, entra o Marco Aurélio e diz que eu não devo dar entrevista para o Mário Sérgio Conti, porque o Mário Sérgio Conti sai dizendo para todo mundo que paga aos seus entrevistados.

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Aí nós fazemos uma CPI e o Marco Aurélio confessa que não tem prova nenhuma contra o Mário Sérgio. Ainda assim, eu puno o Mário Sérgio. Quer dizer, no caso do mensalão, eu espero que a Justiça desvende esse mistério. Porque devem ter tantos milhões de páginas ali. Então veja: o grosso...eu fico olhando a cassação do Zé Dirceu. A dele próprio. O acusador é cassado porque não provou a acusação e, ainda assim, o Zé Dirceu é cassado. Quer dizer, eu não sei, juridicamente, qual o fundamento disso. Mas a impressão que eu tenho é de que foi uma cassação eminentemente política. Eu não acho que isso seja bom para o país, judicializar a política. Eu acho isso muito ruim, isso não é bom. Eu acho que seria melhor que o Congresso resolvesse os seus problemas sem ideologia, ou seja, as discussões serem mais profundas para que a gente não banalize a atividade política, que está muito desacreditada. Qual foi a outra coisa que você falou?

Jornalista: Daniel Dantas.

Presidente: Daniel Dantas, você tem uma investigação. Essa investigação está desde 2003, 2004, se não me falha a memória. Desde 2004. Isso é um processo. Vai indo, vai indo, vai indo. Qual é o papel do governo? É apenas criar as condições para que a investigação seja feita. Na hora em que ela for feita, quem estiver dentro que pague o preço. Ou quem estiver dentro e for inocente, que seja inocentado.

Jornalista: Mas é tão confusa a situação...

Presidente: Pois é, por isso é que precisa de uma grande... É por isso que demorou...

Jornalista: Mas o delegado parece ser...

Presidente: É por isso que demorou para ser investigado, é por isso que teve uma nova comissão estudando o inquérito, porque não há interesse de o Estado brasileiro contribuir para punir quem quer que seja, sem dar a essa pessoa o direito da mais irrestrita defesa. A pessoa tem que se defender. Tem gente que não gosta, tem que gente que acha "não, tem que pegar e condenar logo". Não, eu sou favorável a que a gente utilize todos os mecanismos possíveis para que a pessoa tenha o direito de se defender. Até que vai chegar um momento em que não tem mais, a pessoa será condenada ou absolvida. É assim que precisa ser. Por isso é que um presidente da República não tem o direito de ficar querendo que aconteça isso ou não querendo que aconteça aquilo. A única coisa que nós temos o direito de querer é que as coisas sejam feitas da forma mais justa possível.

Jornalista: Sim, mas a coisa vem aqui pegando, pegaram até o Gilberto aqui, presidente. Há inquéritos que surgem que nem lei (inaudível)...

Presidente: Mas quando esses inquéritos começam a não dizer nada, quando você começa a fazer uma manchete, telefonema grampeado, e você vai escutar o que estava no telefone e não tem nada, aí você percebe que começa a banalizar as coisas que podem ser tratadas com mais seriedade. Você se esquece que foram tirar um doleiro preso para fazer julgamento do Márcio Thomaz Bastos. Daqui a pouco vão tirar o Fernandinho Beira-Mar para te julgar. Quando isso começa a acontecer, as coisas que poderiam ser tratadas com seriedade começam a ser banalizadas. Então, você pode ficar tranquilo que quem sentar nesta cadeira aqui tem que agir, sobretudo, com muita, mas com muita consciência e tomar decisões de forma muito bem pensadas.

Jornalista: Última pergunta, presidente. O senhor, depois de seis anos aqui, sente que o presidente tem mais ou menos poder do que o senhor imaginava? O presidente pode mais do que o senhor imaginava ou não pode porque é muita burocracia, porque o Brasil é muito confuso? Como é que é isso na sua cabeça?

Presidente: Deixe-me lhe contar uma coisa. Eu comparo o presidente da República a um trem. Eu sou a locomotiva, a máquina pública é a estação. Trem passa um monte ali, fazem barulho, soltam fumaça, apitam, buzinam, vão embora, e a máquina está impávida ali no seu lugarzinho, às vezes não muda nem de cor. O Brasil é um país engraçado porque nós temos uma Constituição parlamentarista e um regime presidencialista. E esse é o problema de quem é oposição e pensa que nunca vai chegar ao governo. Nós fizemos uma Constituição, e o PT tem responsabilidade em algumas coisas...

Jornalista: Não votou...

Presidente: O PT não votou porque queríamos uma mais avançada ainda, mas depois assinamos. Eu acho que hoje o presidente da República tem muito menos poder do que, por exemplo, na época do Juscelino. Não vou nem falar dos militares, estou falando dos democráticos eleitos. O Juscelino se fosse presidente da República hoje e pensasse em mudar o [Governo do] Rio de Janeiro para Brasília, ele ainda não teria conseguido licença prévia para fazer a pistazinha para o seu teco-teco pousar aqui. O Meio Ambiente, ou o Ministério Público, ou o Tribunal de Contas, ou o Poder Judiciário, ou quem tivesse perdido a licitação...

Jornalista: presidente, muito francamente, isso é bom ou é ruim? Então quer dizer que Brasília poderia ver (incompreensível).

Presidente: Eu acho que tem duas coisas importantes. Primeiro, que o país tenha se dotado de amplos mecanismos de fiscalização é bom, é correto e é necessário. Agora, que esses mecanismos de fiscalização sejam a razão de você, muitas vezes, demorar dois anos para começar uma obra, é ruim. Veja uma coisa, num mandato de quatro anos, qualquer que seja o presidente da República, se ele começar uma hidrelétrica, ele não termina ela. Se ele pegar uma estrada de 2 mil quilômetros, entre pensar, fazer o projeto, contratar, fazer licitação, conquistar a licença prévia, vai metade do tempo de construção. E aí começa o processo de judicialização, ou seja, alguém da sociedade entra com uma queixa popular, o Ministério Público acata, o Ibama ainda embarga. Então tem um processo muito moroso. Como fazer para que as coisas tenham a mesma seriedade de fiscalização e, ao mesmo tempo, que a gente não perca... Hoje, quando você faz licitação, quando o Tribunal de Contas está concordando, quando o Ministério Público está concordando, quando as ONGs estão concordando, quando o Ibama já deu licença, quando o dinheiro está depositado no caixa para começar a fazer a obra, sabe o que acontece? Uma empresa que perdeu a licitação entra com um processo, e às vezes leva um ano, um ano e meio, e a obra não sai. Eu acho que o país não pode esperar por isso. Então, era preciso... eu espero que tenha bastante coisas de mudança lá, tem projeto de mudança da lei de licitação, alguma coisa para tornar... Há quanto tempo está se fazendo aquele Anel Viário em São Paulo? Cada dia tem uma coisa... Então, tudo isso eu acho que contribui para o Custo Brasil, as coisas demorarem muito. Então, eu acho que o presidente da República tem menos poder do que já teve neste país, fora o período militar, mas no período democrático. Acho que a Constituição de 1988 diminui o poder do presidente da República e aumenta o poder do Poder Legislativo e das instituições, como Ministério Público. Acho que isso é bom. Agora, é só encontrar o caminho do meio para que essa necessidade toda de fiscalização não seja a razão do impedimento de construir as coisas que precisam ser construídas no Brasil.

Jornalista: Mas o senhor está gostando de ser presidente, não é?

Presidente: Eu, sinceramente, acho que...

Jornalista: O senhor não gostava de ser presidente do sindicato, não gostou de ser deputado...

Presidente: Parece que o povo está gostando mais do que eu.

Jornalista: Porque o senhor é um dos 80...

Presidente: É que eu tenho, Mário... exercer o papel de presidente é complicado.

Jornalista: Mas é bom.

Presidente: O cerceamento da liberdade individual da pessoa é total. Agora, qual é o prazer? O prazer é que você passou a vida inteira dizendo que era possível fazer algumas coisas, e quando você chega ao governo, começa a realizar. As coisas começam a acontecer e começam a ter o reconhecimento da sociedade. Eu acho que é isso a coisa prazerosa do exercício do poder.

Jornalista: E a frustração, presidente? O que o senhor achava que dava para fazer mais...

Presidente: Você sempre vai achar que dava para fazer mais. O cara que marca um gol, achava que poderia ter feito o segundo; o cara que ganhou uma medalha de ouro, acha que poderia ganhar a segunda. Um governo, quando termina, ele vai falar "puxa, por que eu não fiz aquilo, por que eu não fiz aquilo?" Não fez porque não foi possível fazer. Nós tivemos uma visão do segundo mandato, que eu acho que é uma coisa consagradora. Eu sempre tive medo do segundo mandato, e dizia publicamente: eu tenho medo do segundo mandato porque você pode perder a motivação, porque pode virar mesmice, porque pode... Quando nós pensamos em lançar o PAC, a gente pensou em lançar o PAC ainda em 1986. Depois, chegamos à conclusão... Não, em 2006. Depois chegamos à conclusão que a gente não poderia misturar o PAC com as eleições, porque ele perderia força. Então, lançamos o PAC no dia 22 de janeiro de 2007. Esse PAC tem obras e dinheiro até o dia 31 de dezembro de 2010. Portanto, o PAC foi uma coisa que deu ao governo um aprendizado de agilidade e a descoberta que a gente faz das coisas, porque quando você não tinha dinheiro, todo mundo dizia "não tem dinheiro, não tem dinheiro". Aí, quando você tem dinheiro, você percebe que as prefeituras não tem projeto executivo, não tem projeto básico, você percebe que os estados não têm projeto. Então, foi a partir do PAC que nós começamos a fazer tudo isso. Nós lançamos o PAC. Eu determinei para a Dilma "agora eu quero que você chame, primeiro, a partir do governo federal, quais são as cidades e os estados que têm maiores problemas. Vamos pegar do principal problema para o menor problema. Palafitas, favelas, nós temos que atacar isso com rapidez". Então, chamava aqui o governador José Serra com os prefeitos das cidades mais problemáticas, o governador do Rio de Janeiro com os prefeitos das cidades mais problemáticas. Com base nessas conversas, nós levantamos os principais projetos para começar a trabalhar projeto básico, projeto executivo. Levou um ano entre você tomar decisão, reunir, preparar projeto para você começar a executar. Então, o ano de 2009 será um ano em que teremos muitas obras em execução e em fase de acabamento no Brasil. Em 2010 será a conclusão de grande parte das obras do PAC, e aí nós vamos preparar um outro PAC. Nós vamos anunciar para o Brasil um novo planejamento que pode ser seguido ou não por quem vier depois de mim. Se eu conseguir fazer a minha sucessão, certamente a pessoa seguirá o segundo PAC.

Jornalista: Eu pensei que o senhor ia dizer "sucessora" e o senhor fala em sucessão, hein?

Presidente: Eu falei sucessão porque eu estou pensando ainda na minha sucessão. Na verdade, é isso, eu acho que a Dilma tem todas as condições. Obviamente, o PT tem que discutir isso...

Jornalista: Mas está indo para ela, né?

Presidente: Mas eu acho que a Dilma tem todas as condições de ter uma qualificada disputa com quem quer que seja, e tem condições de ganhar as eleições. Vamos ver se... o debate, precisa construir aliança política, que é difícil, precisa conversar com todos os companheiros, de todos os partidos.

Jornalista: O senhor a conhece desde quando, presidente? Não é de muito tempo, é mais recente, né?

Presidente: É engraçado. O negócio da Dilma comigo é muito engraçado. Eu tinha... Eu sempre tive assessoria para o setor energético, e mais ou menos em junho... eu sabia que a Dilma era secretária do Olívio Dutra, mas não tinha muito contato, até porque ela era do PDT, se não me falha a memória.

Jornalista: É, PDT.

Presidente: Aí o meu grupo que cuidava de energia, quem cuidava era o Pinguelli. Então, a gente tinha a cada ano, três, quatro reuniões com vários engenheiros do setor energético, e já próximo de 2002, aparece uma companheira com um computadorzinho na mão lá. Começamos a discutir, começamos a discutir, e eu percebi que ela tinha um diferencial dos demais que estavam ali porque ela vinha com a praticidade do exercício da Secretaria de Minas e Energia do Rio Grande do Sul. Aí eu fiquei pensando: eu acho que já encontrei a minha ministra aqui. No primeiro contato que houve, houve uma certa negociação com o PMDB para o Ministério de Minas e Energia e eu disse: para esse lugar aqui vai a companheira Dilma. Foi assim, foi uma coisa muito rápida. Ela se sobressaiu em uma reunião que tinha 15 pessoas...

Jornalista: Pela objetividade...

Presidente: Pela objetividade e pelo alto grau de conhecimento do setor. Então foi assim que ela apareceu no meu governo.

Jornalista: Ótimo, presidente. Muito obrigado. O senhor vai encontrar com o Raúl Castro, não é?

Presidente: Raúl Castro.

Jornalista: O outro era melhor, né? Vou fazer intriga aqui.

Presidente: Eu gosto dos dois.



Folha de S.Paulo, 10 de janeiro de 2009
Central admite redução de salários para evitar cortes
Força Sindical se reúne com a Fiesp e defende acordos contra "enxurrada de demissões"

CUT critica proposta e diz que modelos de acordos para flexibilizar contratos fazem com que "os trabalhadores já comecem perdendo"

VERENA FORNETTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Dirigentes da Força Sindical disseram ontem, em reunião com a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), que aceitam negociar todas as alternativas previstas na legislação trabalhista para evitar demissões, inclusive reduções de salário e de jornada.

O líder da Força Sindical, deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho, afirmou que diminuições de salário são aceitáveis desde que haja um compromisso de manutenção do emprego. Nesse caso, segundo a central, os sindicatos devem apurar a real situação das companhias para evitar eventuais abusos.

Segundo a Fiesp e a central sindical, outras reuniões serão organizadas na semana que vem para elaborar um "cardápio de alternativas" para as dispensas. "Nosso objetivo é buscar, dentro das alternativas que a lei permite, medidas rápidas e pragmáticas", disse Paulo Skaf, presidente da federação.

Sônia Mascaro Nascimento, da Comissão de Direito de Trabalho da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), explica que as empresas só podem recorrer à redução da jornada e à diminuição do salário após acordos coletivos, mas que alternativas como banco de horas e licença remunerada podem ser adotadas sem mediação sindical.

Paulinho disse que, se nenhuma acordo for fechado, haverá uma "enxurrada de demissões" nas próximas duas semanas, quando a maior parte das empresas retoma a produção.

" Procuramos a Fiesp para que eles acalmem os empresários, que peçam para não demitir na segunda [quando as empresas voltam das férias coletivas], para dizer que buscamos o entendimento e que aqui não tem nenhum bicho-papão que vai chegar na sua empresa fazendo greve", disse Paulinho.

Skaf afirmou que fará um apelo aos empresários para que esgotem todas as alternativas antes de demitir. O empresário disse não esperar uma "enxurrada de demissões", mas afirma que não é possível controlar as decisões de todas as empresas.

Artur Henrique, presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), é contra a proposta da Força e da Fiesp de criar modelos de acordos. Segundo ele, a ideia cria generalização e supõe que todos precisem flexibilizar empregos.

" Várias empresas receberam benefícios fiscais e empréstimos de bancos públicos. Algumas se aproveitam para propor flexibilização, sendo que determinados setores têm condições de manter empregos." O sindicalista diz que os modelos de acordos fazem com que "os trabalhadores já comecem perdendo" e que, com isso, "só se ajuda quem está se aproveitando do momento para demitir".