Congresso em Foco, 10 de janeiro de 2009
Planalto divulga íntegra da
entrevista de Lula à revista Piauí
O Palácio do Planalto divulgou ontem (9) a íntegra
da entrevista concedida pelo presidente Lula à revista Piauí,
na edição de janeiro. Entre outras questões,
Lula fala sobre a liberdade de imprensa, sua suposta pouca “afeição” pelo
noticiário político e a parcela de importância
que a exposição na mídia teve em sua escalada à Presidência
da República.
Em um momento da entrevista, Lula afirma não gostar de ler
jornais, revistas, nem sites de notícias ou blogs, porque sofre
de “problemas de azia” e que a leitura de (más)
notícias pode lhe causar mal-estar. Mas isso não parece
ser problema para o presidente, que diz ter como substituto dos veículos
de comunicação o próprio contato com as pessoas. "Um
homem que conversa com o tanto de pessoas que eu converso por dia deve
ter uns 30 jornais na cabeça todo santo dia."
Assim, recai sobre os assessores a responsabilidade de manter o presidente "jornalisticamente" informado. “Quando
sai alguma coisa importante, a [assessora especial] Clara [Ant] e o
[ministro] Franklin [Martins] me trazem o artigo, ou mesmo o vídeo
de uma reportagem de televisão”, justificou Lula. “Recomendaria
a qualquer presidente que se afaste dos políticos e da imprensa
nos fins de semana”, arrematou.
A relação entre jornalista e fonte é um ponto
interessante da entrevista. Lula chega a comparar a fonte jornalística
ao informante de investigação policial – o popular "X9".
“Não gosto, não gosto de ser fonte, porque eu
acho que você estabelece uma relação promíscua
com o jornalista, com o jornal, com a revista, com a televisão.
Se você passa a ser uma espécie de informante privilegiado...
no caso do mundo policial, isso seria informante”, disse o presidente,
que ainda fala brevemente sobre as acusações sobre o
dono do grupo Opportunity, Daniel Dantas. (Fábio Góis)
Leia abaixo a íntegra da entrevista:
Jornalista: Presidente, é o seguinte: eu queria
saber... o senhor está com a imprensa aí há quase
40 anos na sua cola. Estando no Planalto, muda a sua relação,
piora, o senhor sente que a imprensa é melhor ou pior do que
o senhor achava antes ou não?
Presidente: Eu não vejo, Mário Sérgio,
melhora ou piora na imprensa. Eu acho que a imprensa brasileira tem
um comportamento, que não é um comportamento de agora, é um
comportamento histórico. Eu, por exemplo, sou um cidadão
brasileiro que nunca tive a grande mídia brasileira com preocupação
de fazer coisas favoráveis a mim, e nunca me preocupei muito
com isso, porque antes de tudo eu acredito na inteligência de
quem assina uma revista, de quem assina jornal, de quem vê televisão
e escuta rádio. Possivelmente, ainda tenha gente inocente, que
acredita que tudo o que ele fala, tudo o que ele escreve é recebido
pelo leitor como a verdade mais absoluta, ou seja, ele não acredita
na capacidade de análise do leitor, que pega uma matéria
e percebe se há má fé, se não há má fé,
se a matéria está informando corretamente ou se não
está informando corretamente. Hoje a informação é muito
plural, não tem mais apenas a informação de tal
revista, a informação de tal jornal. A informação é veiculada
por diferentes fontes. Então, quando o cidadão pega o
jornal de manhã, aquela matéria ele já viu na
televisão, ele já ouviu no rádio, ele já viu
em vários blogs (incompreensível) diferentes, então
aumenta a capacidade de interpretar do cidadão que lê.
Jornalista: Agora, o senhor falou uma vez, eu fiz
uma matéria com o senhor, eleição municipal 2000,
2001. A gente percorreu várias cidades, uma semana, dez dias.
Eu, o senhor, tinha mais gente, o Zé Dirceu... Mas aí o
senhor... a relação que o senhor tinha com a imprensa,
eu observava, o senhor todo dia lia o jornal no avião, lia a
parte de esportes. O senhor comentava comigo, o senhor comentou duas
vezes comigo: "olha, esse Painel, petista adora o Painel da Folha,
até o Kennedy Alencar, eles botam nota". O senhor tinha
uma coisa que curtia a imprensa, o senhor achava, vamos dizer, engraçado.
O senhor disse: "se eu tivesse até mais tempo --eu me lembro
disso-- se eu tivesse mais tempo eu lia isso com mais vagar".
Hoje o senhor tem tempo, o senhor curte mais, curte menos, como é que é hoje?
Presidente: Bem menos, bem menos.
Jornalista: Isso melhora a sua vida ou não?
Presidente: Não, acho que melhora. Eu fui deputado e eu sei como é que
muita gente passava matérias para o Painel da Folha, para o Informe
JB, para aquele negócio do Estadão. Você sabia quais
os deputados que ficavam procurando jornalista, você conversava
com um cara aqui e daqui...
Jornalista: Sabia o que era plantado...
Presidente:...sabia o que era plantado e o que não
era plantado. Eu sempre dizia que no PT, às vezes uma matéria
que saía em um informe qualquer, ou no Painel, era mais vista
do que uma matéria do Jornal Nacional. Eu falava isso em tom
crítico, porque eu queria mostrar o lado mais intelectualizado
da Direção do PT, que não via o que passava no
Jornal Nacional, que é o que o povo vê, e via o Painel,
que é uma coisa que o povo não lia.
Jornalista: O senhor nunca foi político de
fazer esse tipo de ação, vamos dizer, o senhor nunca
foi fonte de jornalista, o senhor nunca...
Presidente: Não gosto, não gosto de
ser fonte, porque eu acho que você estabelece uma relação
promíscua com o jornalista, com o jornal, com a revista, com
a televisão. Se você passa a ser uma espécie de
informante privilegiado... no caso do mundo policial, isso seria informante.
No mundo jornalístico é mais chique, você passa
a ser fonte. Então, é o cara que planta laranja para
colher manga, é o cara que planta manga para colher limão...
Jornalista: O senhor não acha que isso é válido
também?
Presidente: Eu não acho, eu não acho.
Você sabe por que eu não acho? Eu não acho correto
as pessoas se esconderem em nome de uma coisa fictícia, que é uma
fonte. Você pode ter jornalista sério, que tem uma fonte
verdadeira e, portanto, ele coloca uma matéria, e aí não é plantada, é uma
matéria que alguém disse. E você tem o cara que,
quem sabe, se levanta um dia, por falta de informação
melhor ele planta uma fonte, e em nome da fonte ele publica o que ele
quiser. Eu, sinceramente, não acho isso a coisa mais nobre da
imprensa brasileira...
Jornalista: O senhor lê jornal hoje?
Presidente:... até porque eu gostaria que
a fonte fosse mais digna e pudesse dar o nome: eu, Mário Sérgio,
penso tal coisa do Franklin; o Franklin pensa tal coisa do Lula, e
assim o mundo seria muito mais verdadeiro e menos falso. É nisso
que eu acredito.
Jornalista: O senhor lê jornal hoje, presidente?
Presidente: Eu leio menos do que deveria, e converso
mais do que preciso.
Jornalista: Mas o senhor tem o hábito, de
manhã o senhor pega o jornal...
Presidente: Tenho não, eu não tenho
isso faz tempo, faz tempo. Não é que não dá, é que
eu não quero fazer.
Jornalista: Ah, não quer...
Presidente: Eu tenho problema de azia. Eu me cuido
profundamente, para não perder o humor logo cedo. Eu começo
a minha atividade política tendo meia hora de conversa com o
Franklin sobre a imprensa brasileira. Eu tinha com o Ricardo Kotscho,
eu tinha com o André Singer, fazia uma avaliação
da imprensa, as principais coisas, o que estava rolando no mundo político,
o que estava rolando no mundo econômico. A partir daí tem
a minha conversa diária...
Jornalista: E televisão, o senhor vê?
Presidente: Raramente.
Jornalista: Raramente?
Presidente: Porque não tem tempo. Raramente.
Eu chego em casa muito tarde.
Jornalista: Mas e quando o Franklin, ou o Ricardo
ou o André, diz "olha, o senhor precisa ler tal artigo
ou tal documentário"?
Presidente: Aí ele me traz o artigo. Aí me
traz o artigo para ler, às vezes tem coisa boa na televisão
e eles me trazem vídeo para eu ver, às vezes eu vejo
no avião quando estou viajando.
Jornalista: Isso não dá para o senhor
a impressão de que o senhor pode ter uma visão distorcida,
sem (incompreensível)... o senhor não fica muito na mão
do assessor?
Presidente: Mas é muito melhor ficar na mão
de um assessor em que eu confio do que na mão de um artigo que
eu não conheço o jornalista. Então, eu prefiro
conversar com alguém que eu recruto, da maior seriedade, e que
me dá as informações corretas.
Jornalista: Mas saber o que está acontecendo
no país e no mundo com a população, não é bom
o senhor ler (incompreensível)?
Presidente: Um homem que conversa com o tanto de
pessoas que eu converso por dia deve ter uns 30 jornais na cabeça
todo santo dia. O que acontece? Em cada conversa que você tem
com uma pessoa, surge o assunto do dia, seja ele da economia, seja
ele da agricultura, seja ele da política. Não há hipótese
de um presidente da República ser desinformado sobre as coisas
mais importantes que acontecem no Brasil. Agora, o que acontece é que
muitas vezes você tem coisas que deformam a notícia. Por
exemplo, quando nós lançamos o programa para o povo comprar
material de construção com desconto, um jornal importante
no Brasil publicou "Lula faveliza o Brasil". Ou seja, é uma
concepção distorcida de um cara que possivelmente não
tem a menor noção do que significa as pessoas mais pobres
terem acesso a comprar material de construção mais barato
e poder fazer a sua casa, reformar, fazer a sua garagem, fazer seu
puxadinho. Quando eu fiz o programa Bolsa Família, as matérias
que saíam deles, analistas, eram de que isso era assistencialismo.
Ou seja, as pessoas muitas vezes têm a sua formação
ideológica, tem a sua tese sobre as coisas. O que eu às
vezes não concordo é que as pessoas, em vez de publicarem
um fato como ele é, contra ou a favor, não importa, as
pessoas colocam apenas aquilo que pensam sem se importar com o fato
como ele é. Apesar de que eu acho que cada um pode ter sua opinião,
cada um pode falar o que quiser.
Jornalista: Agora, saber de opiniões não
lhe dá uma dimensão melhor do país?
Presidente: Não, eu fico sabendo de muitas
opiniões. Você pode ficar certo de que quando um jornalista
importante escreve um artigo que fala do governo ou fala da economia,
eu fico sabendo tão rápido quanto ele, que escreveu.
A verdade é a seguinte: eu tenho uma tese hoje sobre os meios
de comunicação. Eu acho que os meios de comunicação
hoje estão muito mais democratizados e estão muito mais
independentes... A informação está muito mais
independente do que ela era antes. A possibilidade que o povo tem de
receber as coisas é infinitamente maior do que em qualquer outro
momento da história do nosso país.
Eu acabo de dar uma entrevista às 9h05, às 9h06 já está tudo
que eu falei na internet, está tudo. Aconteceu uma coisa na Venezuela,
aconteceu uma coisa com o Obama, já está tudo na internet,
você não tem que esperar o jornal do dia seguinte.
Jornalista: Quer dizer, o jornal perdeu poder?
Presidente: Eu acho que, na verdade, todos perderam
poder. Todos. Do ponto de vista...
Jornalista: E o senhor acha isso bom?
Presidente: Eu acho que isso democratiza demais as
informações, porque também você tem 300
blogs. Você tem muita gente importante com blog, você tem
as agências. Então, a quantidade de informação
que você recebe em tempo real vai deixando tudo que demora 10
minutos obsoleto. Ou seja, tudo que demora: então o jornal fica
mais obsoleto. Aliás, o próprio jornal se torna obsoleto,
porque ele publica as matérias de amanhã hoje. Você quer
saber o que vai sair na Folha amanhã, você já vê na
internet hoje. Você quer saber o que vai sair no Estadão,
você já vê na internet hoje. Você acompanha
a Veja, que sai no sábado, na quinta-feira já pela internet,
você acompanha... Então, há uma facilidade enorme
e isso tornou a informação muito mais independente. Eu
acho que alguns companheiros da imprensa não descobriram isso,
porque continuam agindo como se estivessem 40 anos atrás.
Jornalista: O senhor pede para ver blog, o senhor
pede para ver site na internet?
Presidente: Deixa eu te falar: eu recebo muita informação,
porque tenho muita assessoria. Eu recebo do Franklin, eu recebo da
Clara Ant, eu recebo do Gilberto Carvalho. Em cada área que
sair uma matéria, você pode ficar certo de que chega o
papel na minha mão na hora certa que eu preciso. Por isso é que
um presidente da República não precisa se preocupar em
se levantar de manhã e ler quatro jornais, três revistas,
ver todos os programas de manhã, porque isso ele vai vendo durante
o dia. Aliás, todos os presidentes que eu conheço fazem
exatamente o mesmo, ninguém se levanta de manhã preocupado...
Jornalista: Não, mas a opinião que
o senhor tem desses órgãos de imprensa, vamos lá...
Há muito pedido de patrão?
Presidente: Não.
Jornalista: Não vem aqui Marinho, Civitta,
(inaudível)?
Presidente: De vez em quando aparece alguém
aqui com um pedido normal de alguém que quer alguma coisa, que
quer discutir alguma coisa com o presidente da República. E
eu trato os empresários do meio de comunicação
como eu trato os empresários da construção civil,
como eu trato os bancos, como eu trato o pessoal do setor siderúrgico,
ou seja, é um cidadão que apresenta uma pauta de reivindicação.
Por exemplo, quando fomos discutir a TV digital, nós reunimos
várias vezes todos os empresários dos meios de comunicação
para discutir isso. Eu acho plenamente normal. Eu acho normal que um
empresário de meio de comunicação, se precisar
de dinheiro emprestado do BNDES, entre com o mesmo pedido como entra
uma empresa de construção civil, como entra uma indústria
automobilística. É um direito que ele tem de fazer investimento,
o Brasil tem um banco que empresta, portanto, ele não deve favor
nem ao banco e nem ao país.
Jornalista: Já tem tido retaliação
nisso? O senhor negar um pedido ou o governo negar um pedido e um órgão
de imprensa (inaudível) mais contra o senhor?
Presidente: Não, porque a análise é eminentemente
técnica. Alguém, para pegar dinheiro no BNDES, tem que
apresentar um projeto que tenha, eu diria, os fundamentos técnicos
corretos e por conta disso, o dinheiro é emprestado. Qualquer
empresário de empresa de comunicação que entrar
com um pedido de empréstimo, ele vai ser analisado --pode ficar
certo-- como qualquer outro. O que há, na verdade, é um
preconceito da própria imprensa contra a questão da relação
dos meios de comunicação com o governo ou com os bancos
públicos. Vem um agricultor de qualquer parte do Brasil, vai
ao Banco do Brasil e pega dinheiro emprestado. Isso vale para o dono
da Record, o dono da Globo, o dono do SBT, o dono da Bandeirantes,
o dono da rádio "fulano de tal". Se ele tiver um projeto
que seja convincente e aquele projeto seja exequível --aquele
projeto vai gerar mais empregos, vai gerar mais distribuição
de renda-- o BNDES ou o Banco do Brasil deve tratar como se fosse um
empréstimo comum. O empresário não precisa ficar
receoso, porque eu duvido que tenha um governo capaz de querer emprestar
dinheiro e pedir contrapartida. Ele seria execrado por todos os outros
que não pediram empréstimo. Então, a forma mais
segura para os donos dos meios de comunicação é agir
com naturalidade, e eu acho que é assim que nós agimos, é assim
que age o BNDES. Eu não sei se foi a Record que queria construir
um novo cenário para novela, eu me lembro da grande discussão
que houve quando a Globo construiu o seu...
Jornalista: Jacarepaguá, né?
Presidente: Eu sempre achei aquilo com muita normalidade.
Amanhã, se a revista Piauí quiser fazer uma sede nova,
uma gráfica nova e for ao BNDES apresentar um projeto e disser "nós
vamos fazer uma gráfica, estão aqui 60 milhões
de não sei das quantas, está aqui a garantia, o projeto é exequível",
eu acho que o BNDES tratará sem se importar com o nome.
Jornalista: O senhor se magoou muito alguma vez com
a imprensa? Eu vou lembrar alguns casos. Primeiro, o caso do seu filho.
Ainda na campanha, quando o Paulo Henrique Amorim, na Bandeirantes,
o apartamento, não sei o quê, aquilo deixou o senhor muito...
O senhor entrou com um processo.
Presidente: Deixe-me falar uma coisa. Eu não
conheço nenhum cidadão que tenha sangue de barata, a
ponto de não ficar ofendido quando você vê um amigo
seu, um parente seu ou um companheiro sendo agredido por coisas que
são inverdades. A única coisa que eu lamento profundamente é que
quando acontece a publicação de uma mentira, quando vem à tona
que aquilo era mentira, não seja publicado do mesmo tamanho
o desmentido. Ou seja, parece que não há pedido de desculpas
nos meios de comunicação no Brasil quando erram. Esse é um
defeito que eu tenho dito publicamente: você tem direito de fazer
acusações, você tem direito de manchar o nome de
uma pessoa, mas você tem direito de pedir desculpas porque ninguém
pode ser incriminado antes de ser julgado. O bom da democracia é que
você tem um processo de denúncia, um processo de investigação,
um processo de julgamento, condenação ou absolvição.
Quando você é condenado, você já foi condenado
previamente. Quando você é absolvido, isso não
aparece. Você precisa ficar o tempo inteiro...
Jornalista: O senhor acha que na imprensa ocorre
muito isso?
Presidente: Eu acho que é uma cultura mundial
nos meios de comunicação do mundo inteiro. Há uma
predisposição, possivelmente do ponto de vista mercadológico,
do ponto de vista... Talvez a notícia ruim tenha mais charme
para vender um jornal do que uma notícia boa. Uma notícia
boa, normalmente é tida como se fosse chapa branca. Se a revista
Piauí fizer matérias falando bem do governo, ela vai
fazer uma... Bom, fez uma. Se fizer a segunda... Mas se fizer a terceira,
pronto: criou o estigma de chapa branca, e aí é melhor
ser neutro. Muitas vezes, na neutralidade, você passa a ser contra...
Jornalista: O senhor, por exemplo, no caso do seu
filho quando houve... A Veja falou que havia ligações,
não sei o quê... Isso deixa o senhor...
Presidente: Deixa, porque foi uma mentira absurda
e que somente o processo vai mostrar o que aconteceu de fato. Somente
um processo. Essa coisa, não adianta você ficar, também,
brigando, dando murro em ponta de faca, porque essa coisa, você tem
que entrar na Justiça, deixar que o processo ande... Qual é a
principal condenação que eu acho que tem que ter? A Justiça
normalmente obriga que a empresa que fez a matéria publique
a sentença no mesmo espaço e com o mesmo tamanho de letra
que foi publicada a denúncia.
Jornalista: Mas não funciona.
Presidente: Às vezes funciona. A Folha de
S.Paulo, quando eu tomei posse em 2003, foi obrigada a publicar uma
sentença de um juiz, de um processo que eu abri contra a Folha.
Obviamente, quem leu a denúncia, não leu a sentença,
porque se passou muito tempo. Mas é uma defesa até da
honra.
Jornalista: E quando o caso é enrolado? Por
exemplo, o negócio das telecomunicações. Que envolveu
um monte de gente, Daniel Dantas, Zé Dirceu de um lado, Gushiken,
jornais (inaudível), jornalistas (inaudível). É um
caso enrolado, envolve milhões, bilhões de reais, envolve
grandes empresas e envolve a imprensa. O que se faz, enquanto não
se tem uma decisão?
Presidente: Publica-se apenas a verdade. O que você não
pode é insinuar que todo mundo é ladrão sem nenhuma
prova, (inaudível) que você quer insinuar. Se você descobre
que uma determinada pessoa praticou um delito qualquer, uma fraude
qualquer, você faz a denúncia e investiga. O que você não
pode é ficar fazendo ilações, ilações
e mais ilações. Depois, passa o tempo e você não
prova nada contra ninguém, mas ficaram as ilações
feitas. A gente poderia pegar exemplos históricos no Brasil.
O Alceni Guerra é um deles. A gente poderia pegar a Escola Base,
e tantas outras coisas que acontecem. Esses dois foram os casos mais
famosos, mas você pode pegar outros casos. A imprensa tem um
papel nobre, que eu acho que é a sustentação da
democracia, que é a informação. A partir da informação,
muita coisa acontece no mundo: cai governo, entra governo, cai general,
entra general, a partir da informação. Agora, quando
você transforma essa informação em um instrumento
político e começa a fazer ilações sobre
isso, eu acho que a nobreza diminui, e aí entra a politicagem,
a má-fé. Durante a campanha eleitoral, eu fui a uma cidade
--não vou dizer qual-- em que se dizia o seguinte: um candidato
tinha um canal de televisão então ele apareceu em 66
reportagens durante a campanha, e o adversário não apareceu
em nenhuma. Não é possível que o adversário
não tenha criado um fato político que merecesse um minuto
na televisão.
Eu penso, Mário Sérgio, que com toda a grandeza que eu
tenho dito na minha vida... Eu falo que só cheguei à Presidência
da República por causa da liberdade de imprensa. Distorcido ou
não, bem ou não, o fato concreto é que como eu acredito
na capacidade de discernimento do povo brasileiro --e do povo de qualquer
mundo-- as coisas acontecem independentemente da má vontade desse
ou daquele órgão, desse ou daquele jornalista.
Jornalista: Agora, por que o senhor criou a TV pública?
Por que o seu governo criou essa TV pública?
Presidente: Porque eu acho que é necessário.
Jornalista: Por quê?
Presidente: Porque no mundo desenvolvido você tem
outras coisas a informar, além daquilo que dá ibope.
Eu não posso fazer dos meios de comunicação apenas
uma coisa de interesse mercadológico. Nós queremos uma
TV pública para informar, para promover debates sobre temas
que, certamente, a TV privada não tem interesse porque... Se
colocar a televisãozinha na frente do Ibope ali e começar
a cair, muda de assunto imediatamente.
Jornalista: Eu vi uma entrevista ontem, lá,
dos presidentes. Parece que é uma coisa chata pacas também,
né?
Presidente: Pode, mas se você for fazer só as
coisas agradáveis, aí você transforma no que é hoje.
Você não tem no Brasil hoje, com exceção
do Roda Viva, um espaço de debate político no Brasil,
os grandes temas da sociedade não tem o que ser debatido. Então,
eu acho que a TV Pública cumpre esse papel. Primeiro, ela não
se dispõe a disputar um espaço mercadológico com
as empresas privadas, mas ela se propõe a disputar e ganhar
espaço na informação, no debate dos grandes temas
nacionais, que parece que são tabu serem discutidos. Você pode
pegar a questão das células-tronco, você pode pegar
a questão do aborto, você pode pegar a questão
da crise econômica. Houve um tempo em que neste país tinha
debate. Você levava os grandes economistas para um debate. Hoje
você não vê mais isso. Hoje, quando você vê uma
discussão sobre economia, você vê quem? Um analista
de mercado. Mulheres como Maria da Conceição Tavares,
como Belluzzo, como Delfim não têm muito espaço
na televisão. Você não vê mais os economistas
sendo chamados a falar sobre assuntos que são pertinentes aos
economistas. Então, a TV Pública, eu espero --ela está em
fase de montagem ainda-- que ela cumpra essa função.
Jornalista: Mas o senhor vê?
Presidente: Muito pouco, porque ela não foi
feita para mim. Ela foi feita para a sociedade brasileira. Nós
estamos numa fase de comprar equipamentos ainda, de montar. Eu penso
que até o final do mandato ela vai estar mais ou menos pronta
e aí acaba aquela bobagem de dizerem que foi feita uma televisão
para o Lula. A primeira orientação que eu dei ao companheiro
Franklin foi a seguinte: se a televisão for puxa-saco do governo,
ela será chata; se ela for só oposição,
ela será chata. Encontrar esse ponto de equilíbrio é como
a chuva. A chuva, quando chove demais, os agricultores sofrem; quando
chove de menos, os agricultores sofrem. Ela tem a quantidade certa.
Então, o que eu quero é isso, é que a TV Pública
seja o equilíbrio da maturidade da informação
no Brasil, nem ser chapa-branca, mas também não ser chapa-marrom.
Jornalista: Presidente, o que o senhor gosta de ler?
Elio Gaspari, o senhor gosta de ler?
Presidente: Eu tenho profundo respeito pelo Elio
Gaspari, e o acho um dos grandes jornalistas brasileiros, independentemente
de gostar dele.
Jornalista: O Merval?
Presidente: Eu acho o Merval, às vezes, um
jornalista de um pensamento só, ou seja, contra o governo.
Jornalista: Clóvis Rossi?
Presidente: Eu sou muito amigo do Clóvis Rossi.
Jornalista: Ali Kamel?
Presidente: Eu acho que o Ali Kamel já fez
artigos me defendendo do preconceito, mas eu tenho profundo ressentimento
da campanha de 2006...
Jornalista: (incompreensível) de quê?
Presidente:... que eu não expresso no meu
comportamento, não expresso nas minhas atitudes, não
expresso na minha relação com a imprensa, muito menos
com a Globo. É uma coisa que está comigo.
Jornalista: Jânio de Freitas?
Presidente: Sou um admirador do Jânio de Freitas,
mesmo quando ele fala mal do governo.
Jornalista: Diogo Mainardi?
Presidente: Eu te confesso que não leio.
Jornalista: Paulo Henrique Amorim?
Presidente: Sempre tive admiração pelo
Paulo Henrique Amorim, desde o tempo em que ele era analista econômico
da Globo. Eu acho que quando ele foi trabalhar na Bandeirantes ele
enveredou por um caminho, assessorado por um jornalista que já não
trabalha mais com ele, que cometeram erros crônicos na imprensa.
Agora, ele está com um bom programa de debates, que eu acho
que... mesmo quando ele critica, você percebe que tem fundamento.
Mário, essa, para mim, é a coisa que eu acho importante.
Eu não quero que as pessoas falem bem de mim. Não, não.
Eu tenho 63 anos de idade, e eu duvido que tenha um jornalista, no
Brasil, que um dia tenha ouvido da minha boca um pedido para que ele
fizesse uma coisa favorável. A única coisa que eu gostaria é que
houvesse apenas o fato como ele é. Depois, se quiser fazer análise
pessoal, faça. Mas eu sou defensor de que o fato seja a razão
de ser da imprensa.
Jornalista: Nassif? Só faltam mais dois nomes.
Presidente: Eu gosto muito do Nassif. Independentemente
de qualquer coisa, eu acho o Nassif um dos grandes analistas econômicos
do país.
Jornalista: Mino Carta?
Presidente: Eu sou suspeito, porque eu sou muito
amigo do Mino Carta. Eu sou amigo do Mino Carta antes da Carta Capital,
sou amigo do Mino Carta (incompreensível).
Jornalista: É por amizade que o senhor vai
nas festas do Mino Carta e não vai nas festas da Globo?
Presidente: Não, é por amizade, é por
amizade.
Jornalista: Na Veja o senhor não vai é por "desamizade"?
Presidente: Não, não é por isso,
não. Eu acho que é uma questão de respeito ético.
Eu aprendi a me respeitar. Então, quando um cidadão aprende
a se respeitar, aprende com o que eu aprendi, neste país, eu
não posso ir a uma festa de uma pessoa que não gosta
de mim, eu não posso. Eu não posso visitar a casa de
uma pessoa que passa o tempo inteiro falando mal de mim. E olha que
o Mino Carta também faz críticas, mas eu tenho respeito
pessoal pelo Mino Carta.
Jornalista: Em termos de Estado, presidente, de governo.
Já falei isso com o nosso Franklin, aqui, estamos acabando. É legítimo,
ou é bom, que o governo tem que ajudar alguns órgãos
de imprensa? Dois exemplos concretos: Caros Amigos tem anúncios
de estatais, do governo; Carta Capital tem...
Presidente: Todos têm, meu filho, todos têm.
Jornalista: Mas não no sentido... não
no proporcional.
Presidente: Proporcional, mais. Pegue todas as revistas
brasileiras, todos os jornais e todas as televisões, pegue...
tem revista que esculhambava o governo e a primeira página de
publicidade era do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal,
e nunca houve nenhum problema, porque não é assim que
eu trabalho.
Jornalista: Não é assim?
Presidente: O que o companheiro Franklin estabeleceu,
e é correto, é a participação em função
da questão técnica. O cidadão vai ter proporcional
ao que ele pode ter, nem mais, nem menos. Você não pode
ter alguém que represente... que tenha uma audiência de
30% recebendo o equivalente a 70%; como você não pode
ter uma que tem 10% recebendo o equivalente a 5%. Então, quando
você cria critérios técnicos para poder cuidar
da publicidade, obviamente que algumas pessoas que mamavam começam
a ficar chateadas.
Jornalista: Não, eu estou falando outra coisa,
em benefício da diversidade, se deveria ter uma ajuda maior
a certos órgãos que são mais fracos, como existe
na Europa (incompreensível)...
Presidente: Eu não sei se tecnicamente tem,
eu não sei. Agora, o correto é o seguinte: se tem uma
coisa que ninguém pode criticar neste país, é a
justeza do comportamento democrático e republicano deste governo.
Este governo, este país já teve ministro de Comunicação
que baixava na direção de jornais para impor coisas.
Eu duvido que no meu governo o ministro da Comunicação
ou um secretário da Secom tenha ido a um jornal, a uma rádio,
a uma televisão pedir para não fazer tal coisa. A melhor
forma, Sérgio, de a gente vencer essa batalha da democracia, é a
gente sendo democrata. Não existe outro jeito.
Jornalista: No geral, o senhor gosta de jornalista
ou não? De conversar, ou acha chato pra cacete.
Presidente: Não, não.
Jornalista: Mais chato que político, ou não?
Presidente: Primeiro, eu gosto de conversar com todo mundo. Eu acho
que tem gente chata na minha família, tem gente chata no meio
do jornalismo, tem gente chata no governo, tem gente chata... qualquer
lugar tem gente chata e gente boa. Tem gente que é maravilhosa
para conversar, tem gente que sabe contar piada, tem gente que não
sabe contar piada. Tem gente que só se senta perto de você para
conversar de política. Eu, por exemplo, dia de sábado
e domingo não quero conversar política, quero conversar
sobre futebol, sobre cinema, sobre qualquer outra coisa. Então
esse cara que só sabe conversar sobre um assunto termina virando
um cara que você não pode chamar para qualquer coisa.
Você vai fazer um churrasco, você não vai chamar
um cara... Mas eu sempre me dei bem com a imprensa.
Jornalista: Mas o senhor tem, o senhor sempre...
mas o senhor é diferente, assim... O político tradicional
brasileiro gosta de cultivar, chamar para casa, "vamos trocar
uma ideia"... tudo falso! O senhor não faz isso por que
o senhor não gosta?
Presidente: Não, eu não faço
isso, por honestidade. Eu não faço isso, por uma questão
de princípios. Veja, eu tenho grandes amigos aqui. Eu tenho
jornalistas aqui que são meus amigos do tempo em que eu era
diretor do sindicato.
Jornalista: Ricardo Kotscho.
Presidente: Mas o Ricardo não é...
não vamos ver o Ricardo como jornalista porque já ultrapassou.
Mas eu tenho companheiros aqui que eu já dormi na casa deles.
Agora veja, eu sou o presidente da República. Enquanto eu for
presidente da República, não é correto e não é prudente
a gente permitir uma certa intimidade, porque isso estabelece uma promiscuidade,
eu não quero. Isso é bom para o jornalista e é bom
para mim. Porque daqui a pouco está o jornalista achando que
ele tem informações sigilosas do presidente, e está o
presidente achando que tem um jornalista que é informante dele.
Aí não dá certo. Eu prefiro manter assim. Eu trato
todo mundo bem, trato todo mundo com muito carinho, mas eu acho que
cada um sabendo qual é o seu papel.
Jornalista: Mas a minha impressão é de
que o senhor não gosta muito de jornalista, no que faz muito
bem, mas é uma coisa... O senhor gosta... de economista o senhor
gosta?
Presidente: Devia ser o contrário. Deixa-me
falar uma coisa para você. Eu fui frequentador, você está lembrado
disso, eu fui frequentador do Sindicato dos Jornalistas de São
Paulo durante anos, anos e anos, quando o [Sindicato] dos Jornalistas
foi um espaço de debate, até 1979, 1980. Mas eu sempre
me dei bem com a imprensa em qualquer lugar. Quando é que eu
comecei a ter uma cisma maior com a imprensa? Quando uma vez eu fui
a Teófilo Otoni, se não me falha a memória, e
um cidadão faz uma pergunta para mim e eu respondo a pergunta
em off, e ele fala para mim: "jornalista não tem off".
E publica uma coisa eu diria insana. Não vou nem voltar ao assunto.
Então eu fiquei mais comedido em dizer determinadas coisas.
Jornalista: O senhor não trabalha com off,
não? Eu acho que nunca...
Presidente: Eu não gosto, eu não gosto.
Se tem que dizer, diga. Se tem que dizer, diga. Por que eu vou dizer
para você e falar "não publica"? Quando eu disser
para você "não publica" eu estou dizendo para
você "porra, aqui tem uma coisa boa, mas vai firme".
Então eu prefiro... obviamente que quando eu não for
mais presidente da República e não tiver mais a responsabilidade
institucional do cargo, eu poderei (incompreensível).
Jornalista: Pelo que eu entendo, presidente, pela
observação que o senhor falou do fim de semana. No fim
de semana, pelo que eu entendo, o senhor se isola. O senhor não
encontra nem com político, nem com jornalista, nem com ninguém,
só fica lá com o seu acupunturista, eu acho, não é?
Presidente: Às vezes.
Jornalista: Joga carta, anda com a Dona Marisa...
Presidente: Às vezes eu fico com a Marisa, às
vezes eu pesco com a Dona Marisa... Sabe por que? É apenas precaução,
apenas precaução. O mandato parece longo, mas é curto.
Então veja, eu estou aqui há seis anos. Eu nunca fui
a uma festa, eu nunca fui a um restaurante, nunca fui a um aniversário,
eu nunca participei de nenhuma atividade. Para não dizer que
eu fui a duas festas, eu fui a duas. Eu fui a uma dos 60 anos do Pão
de Açúcar em São Paulo, a convite do Abílio
Diniz, terminei não jantando, e fui a uma aqui esta semana,
eu e o José Alencar, dos 60 anos da Andrade Gutierrez. Foram
as duas coisas a que eu fui nestes seis anos de governo. Não
vou nem em aniversário de companheiros.
Jornalista: E por que essas duas, presidente?
Presidente: Essas duas porque são simbólicos
60 anos.
Jornalista: Não é pelo Abílio
Diniz, ou por (incompreensível)?
Presidente: Não, é porque são
60 anos de empresas, e eu acho importante uma empresa que dura esse
tempo inteiro. Mas aqui eu tenho evitado ir até a aniversário
de companheiros. Ah, mas vai ter o aniversário do Franklin.
O Franklin nunca convidou também... Mas vai ter o aniversário
do Marco Aurélio e tal, Marco Aurélio vai fazer uma janta.
Eu prefiro não ir. Só faltam dois anos para eu terminar
meu mandato...
Jornalista: O senhor se sente solitário no
fim de semana?
Presidente: Não, não... Meu caro, ficar
o final de semana sem discutir problema e sem discutir economia, sem
discutir política, é uma terapia que eu acho que todo
político precisaria aprender a fazer. É assim, eu acho
que o exercício da presidência ele é tão
importante, é um cargo tão nobre em uma República,
que nós precisamos aprender o momento de fazer as coisas, aprender
o momento de falar, aprender o momento de ficar quieto, sabe, eu estou
no aprendizado. Lamentavelmente, faltam só dois anos para terminar
o mandato. Agora, a vida é essa Mário, a vida é essa.
Eu acho que a imprensa tem um papel excepcional aqui no Brasil e em
qualquer parte do mundo.
Jornalista: Mas eu lamento que o senhor não
curta mais como o senhor me dava a impressão de curtir. O senhor
gostava daquela conversa de... Você viu o que o Juca Kfouri escreveu?
Presidente: Não. Eu posso até gostar
depois da Presidência, mas enquanto eu estou na Presidência...
eu sei de presidentes que levavam editores para sua casa para jantar,
almoçar, que às vezes convocavam os principais articulistas
para almoçar, para jantar, eu não gosto de fazer isso.
Jornalista: O senhor se sente injustiçado
pela imprensa ou não?
Presidente: Não.
Jornalista: Não? (incompreensível)
Presidente: Não. A história é que
vai julgar. Vocês me julgaram. Um dia se você escrever
um livro você vai dizer o que você acha que a imprensa
fez comigo. Mas eu não me queixo. Eu aprendi na vida a não
me queixar, meu caro. Não tem espaço para eu ficar chorando
aqui. O Franklin está comigo já há algum tempo.
Nunca cheguei para ele e falei: você liga para fulano, que (incompreensível).
Cada um de nós é responsável pelo que faz. Todos
nós temos gente de olho na gente. Todos nós temos gente
de olho na gente. Então, é com essa tranquilidade que
eu tento governar o país. Se alguém acha que vai escrever
um artigo "descendo o pau" e que eu vou ficar nervoso, que
eu vou ficar com azia, que eu vou...esqueça.
Jornalista: Por exemplo, me falaram que o senhor
ficou chateado, não com a revista, a revista publicou um longo
perfil do Zé Dirceu. Mas que o senhor ficou chateado, primeiro
com o Zé Dirceu, e depois com a revista por ter feito aquilo.
Presidente: Com a revista não. A revista fez
o que ela se propôs a fazer. Eu sei também que o Serra
não topou fazer.
Jornalista: Sabe?
Presidente: Não topou fazer.
Jornalista: Por causa do senhor.
Presidente: Eu acho uma loucura alguém que
exerce um cargo político ficar uma semana, totalmente desnudado,
diante de um jornalista, porque podem acontecer coisas muito agradáveis
e podem acontecer coisas desagradáveis.
Jornalista: E ter visão política, presidente.
Eu comecei a conversa falando que eu passei uma semana com o senhor.
O senhor muito afável, muita piada, muita (incompreensível),
bebemos, não sei o quê, (incompreensível) fomos
de Porto Alegre ao Recife de jatinho, o senhor não abriu a guarda
em nenhum momento. Eu escrevi uma matéria na Folha de S.Paulo,
que eu não pude dizer o...
Presidente: Mas eu não acho que a revista
está errada em querer fazer isso. Eu acho que está errado
o cara que se expõe a isso. Porque o cara acha que vai passar
por algumas situações e o jornalista vai esconder. É errado
esconder. A liberdade da informação que eu defendo é essa.
Se eu um dia falar: Mário Sérgio, você vai andar
comigo um dia por aí, e um cara me "taca" um sapato,
mesmo que não tiver a televisão, você tem que dizer:
um cara "tacou" um sapato no presidente. O que não
pode é, se não "tacou", você dizer: "olha,
houve intenção..."
Jornalista: Que um cara com sapato... estava no pé,
mas...
Presidente: Ontem, quase que eu tiro o sapato para
jogar na imprensa. Agora é isso. Eu acho, Mário, eu acho
que... Primeiro, um dia, essas coisas acontecem...um dia nós
vamos analisar no Brasil o seguinte: nós tivemos duas experiências
ricas neste país. Nós tivemos a primeira experiência
do primeiro mandato do Fernando Henrique Cardoso, o que foi uma experiência
de muito sucesso do Plano Real, uma experiência muito rica do
processo de privatização do país. Parece que o
chamado neoliberalismo tinha chegado ao ápice, ao Pico do Himalaia.
Então, foram quatro anos de pensamento único, em que
não havia espaço para você contrariar. No meu mandato,
eu acho que nós vivemos um outro período. Quatro anos
de pensamento único, mas ao contrário. Isso um dia vai
merecer uma análise. Quem sabe, o Marco Aurélio, quando
voltar para a universidade vai fazer uma análise do que foi
isso. Foi...
Jornalista: Jornalisticamente, têm duas coisas
no seu governo até agora que são, aí merecem...
o negócio do mensalão, como é que surgiu isso,
como é que foi coberto, como é que acabou? E a questão
Daniel Dantas. São dois casos, jornalisticamente, presidente,
que ainda são muito misteriosos.
Presidente: Eu acho...
Jornalista: Sabe, é uma coisa que...
Presidente: Eu acho que... é uma coisa que
eu sempre fico imaginando. Nós estamos aqui reunidos nesta sala,
entra o Marco Aurélio e diz que eu não devo dar entrevista
para o Mário Sérgio Conti, porque o Mário Sérgio
Conti sai dizendo para todo mundo que paga aos seus entrevistados.
Jornalista: (incompreensível)
Presidente: Aí nós fazemos uma CPI
e o Marco Aurélio confessa que não tem prova nenhuma
contra o Mário Sérgio. Ainda assim, eu puno o Mário
Sérgio. Quer dizer, no caso do mensalão, eu espero que
a Justiça desvende esse mistério. Porque devem ter tantos
milhões de páginas ali. Então veja: o grosso...eu
fico olhando a cassação do Zé Dirceu. A dele próprio.
O acusador é cassado porque não provou a acusação
e, ainda assim, o Zé Dirceu é cassado. Quer dizer, eu
não sei, juridicamente, qual o fundamento disso. Mas a impressão
que eu tenho é de que foi uma cassação eminentemente
política. Eu não acho que isso seja bom para o país,
judicializar a política. Eu acho isso muito ruim, isso não é bom.
Eu acho que seria melhor que o Congresso resolvesse os seus problemas
sem ideologia, ou seja, as discussões serem mais profundas para
que a gente não banalize a atividade política, que está muito
desacreditada. Qual foi a outra coisa que você falou?
Jornalista: Daniel Dantas.
Presidente: Daniel Dantas, você tem uma investigação.
Essa investigação está desde 2003, 2004, se não
me falha a memória. Desde 2004. Isso é um processo. Vai
indo, vai indo, vai indo. Qual é o papel do governo? É apenas
criar as condições para que a investigação
seja feita. Na hora em que ela for feita, quem estiver dentro que pague
o preço. Ou quem estiver dentro e for inocente, que seja inocentado.
Jornalista: Mas é tão confusa a situação...
Presidente: Pois é, por isso é que
precisa de uma grande... É por isso que demorou...
Jornalista: Mas o delegado parece ser...
Presidente: É por isso que demorou para ser
investigado, é por isso que teve uma nova comissão estudando
o inquérito, porque não há interesse de o Estado
brasileiro contribuir para punir quem quer que seja, sem dar a essa
pessoa o direito da mais irrestrita defesa. A pessoa tem que se defender.
Tem gente que não gosta, tem que gente que acha "não,
tem que pegar e condenar logo". Não, eu sou favorável
a que a gente utilize todos os mecanismos possíveis para que
a pessoa tenha o direito de se defender. Até que vai chegar
um momento em que não tem mais, a pessoa será condenada
ou absolvida. É assim que precisa ser. Por isso é que
um presidente da República não tem o direito de ficar
querendo que aconteça isso ou não querendo que aconteça
aquilo. A única coisa que nós temos o direito de querer é que
as coisas sejam feitas da forma mais justa possível.
Jornalista: Sim, mas a coisa vem aqui pegando, pegaram
até o Gilberto aqui, presidente. Há inquéritos
que surgem que nem lei (inaudível)...
Presidente: Mas quando esses inquéritos começam
a não dizer nada, quando você começa a fazer uma
manchete, telefonema grampeado, e você vai escutar o que estava
no telefone e não tem nada, aí você percebe que
começa a banalizar as coisas que podem ser tratadas com mais
seriedade. Você se esquece que foram tirar um doleiro preso para
fazer julgamento do Márcio Thomaz Bastos. Daqui a pouco vão
tirar o Fernandinho Beira-Mar para te julgar. Quando isso começa
a acontecer, as coisas que poderiam ser tratadas com seriedade começam
a ser banalizadas. Então, você pode ficar tranquilo que
quem sentar nesta cadeira aqui tem que agir, sobretudo, com muita,
mas com muita consciência e tomar decisões de forma muito
bem pensadas.
Jornalista: Última pergunta, presidente. O
senhor, depois de seis anos aqui, sente que o presidente tem mais ou
menos poder do que o senhor imaginava? O presidente pode mais do que
o senhor imaginava ou não pode porque é muita burocracia,
porque o Brasil é muito confuso? Como é que é isso
na sua cabeça?
Presidente: Deixe-me lhe contar uma coisa. Eu comparo
o presidente da República a um trem. Eu sou a locomotiva, a
máquina pública é a estação. Trem
passa um monte ali, fazem barulho, soltam fumaça, apitam, buzinam,
vão embora, e a máquina está impávida ali
no seu lugarzinho, às vezes não muda nem de cor. O Brasil é um
país engraçado porque nós temos uma Constituição
parlamentarista e um regime presidencialista. E esse é o problema
de quem é oposição e pensa que nunca vai chegar
ao governo. Nós fizemos uma Constituição, e o
PT tem responsabilidade em algumas coisas...
Jornalista: Não votou...
Presidente: O PT não votou porque queríamos
uma mais avançada ainda, mas depois assinamos. Eu acho que hoje
o presidente da República tem muito menos poder do que, por
exemplo, na época do Juscelino. Não vou nem falar dos
militares, estou falando dos democráticos eleitos. O Juscelino
se fosse presidente da República hoje e pensasse em mudar o
[Governo do] Rio de Janeiro para Brasília, ele ainda não
teria conseguido licença prévia para fazer a pistazinha
para o seu teco-teco pousar aqui. O Meio Ambiente, ou o Ministério
Público, ou o Tribunal de Contas, ou o Poder Judiciário,
ou quem tivesse perdido a licitação...
Jornalista: presidente, muito francamente, isso é bom
ou é ruim? Então quer dizer que Brasília poderia
ver (incompreensível).
Presidente: Eu acho que tem duas coisas importantes. Primeiro, que
o país tenha se dotado de amplos mecanismos de fiscalização é bom, é correto
e é necessário. Agora, que esses mecanismos de fiscalização
sejam a razão de você, muitas vezes, demorar dois anos
para começar uma obra, é ruim. Veja uma coisa, num mandato
de quatro anos, qualquer que seja o presidente da República,
se ele começar uma hidrelétrica, ele não termina
ela. Se ele pegar uma estrada de 2 mil quilômetros, entre pensar,
fazer o projeto, contratar, fazer licitação, conquistar
a licença prévia, vai metade do tempo de construção.
E aí começa o processo de judicialização,
ou seja, alguém da sociedade entra com uma queixa popular, o
Ministério Público acata, o Ibama ainda embarga. Então
tem um processo muito moroso. Como fazer para que as coisas tenham
a mesma seriedade de fiscalização e, ao mesmo tempo,
que a gente não perca... Hoje, quando você faz licitação,
quando o Tribunal de Contas está concordando, quando o Ministério
Público está concordando, quando as ONGs estão
concordando, quando o Ibama já deu licença, quando o
dinheiro está depositado no caixa para começar a fazer
a obra, sabe o que acontece? Uma empresa que perdeu a licitação
entra com um processo, e às vezes leva um ano, um ano e meio,
e a obra não sai. Eu acho que o país não pode
esperar por isso. Então, era preciso... eu espero que tenha
bastante coisas de mudança lá, tem projeto de mudança
da lei de licitação, alguma coisa para tornar... Há quanto
tempo está se fazendo aquele Anel Viário em São
Paulo? Cada dia tem uma coisa... Então, tudo isso eu acho que
contribui para o Custo Brasil, as coisas demorarem muito. Então,
eu acho que o presidente da República tem menos poder do que
já teve neste país, fora o período militar, mas
no período democrático. Acho que a Constituição
de 1988 diminui o poder do presidente da República e aumenta
o poder do Poder Legislativo e das instituições, como
Ministério Público. Acho que isso é bom. Agora, é só encontrar
o caminho do meio para que essa necessidade toda de fiscalização
não seja a razão do impedimento de construir as coisas
que precisam ser construídas no Brasil.
Jornalista: Mas o senhor está gostando de
ser presidente, não é?
Presidente: Eu, sinceramente, acho que...
Jornalista: O senhor não gostava de ser presidente
do sindicato, não gostou de ser deputado...
Presidente: Parece que o povo está gostando
mais do que eu.
Jornalista: Porque o senhor é um dos 80...
Presidente: É que eu tenho, Mário...
exercer o papel de presidente é complicado.
Jornalista: Mas é bom.
Presidente: O cerceamento da liberdade individual
da pessoa é total. Agora, qual é o prazer? O prazer é que
você passou a vida inteira dizendo que era possível fazer
algumas coisas, e quando você chega ao governo, começa
a realizar. As coisas começam a acontecer e começam a
ter o reconhecimento da sociedade. Eu acho que é isso a coisa
prazerosa do exercício do poder.
Jornalista: E a frustração, presidente?
O que o senhor achava que dava para fazer mais...
Presidente: Você sempre vai achar que dava
para fazer mais. O cara que marca um gol, achava que poderia ter feito
o segundo; o cara que ganhou uma medalha de ouro, acha que poderia
ganhar a segunda. Um governo, quando termina, ele vai falar "puxa,
por que eu não fiz aquilo, por que eu não fiz aquilo?" Não
fez porque não foi possível fazer. Nós tivemos
uma visão do segundo mandato, que eu acho que é uma coisa
consagradora. Eu sempre tive medo do segundo mandato, e dizia publicamente:
eu tenho medo do segundo mandato porque você pode perder a motivação,
porque pode virar mesmice, porque pode... Quando nós pensamos
em lançar o PAC, a gente pensou em lançar o PAC ainda
em 1986. Depois, chegamos à conclusão... Não,
em 2006. Depois chegamos à conclusão que a gente não
poderia misturar o PAC com as eleições, porque ele perderia
força. Então, lançamos o PAC no dia 22 de janeiro
de 2007. Esse PAC tem obras e dinheiro até o dia 31 de dezembro
de 2010. Portanto, o PAC foi uma coisa que deu ao governo um aprendizado
de agilidade e a descoberta que a gente faz das coisas, porque quando
você não tinha dinheiro, todo mundo dizia "não
tem dinheiro, não tem dinheiro". Aí, quando você tem
dinheiro, você percebe que as prefeituras não tem projeto
executivo, não tem projeto básico, você percebe
que os estados não têm projeto. Então, foi a partir
do PAC que nós começamos a fazer tudo isso. Nós
lançamos o PAC. Eu determinei para a Dilma "agora eu quero
que você chame, primeiro, a partir do governo federal, quais
são as cidades e os estados que têm maiores problemas.
Vamos pegar do principal problema para o menor problema. Palafitas,
favelas, nós temos que atacar isso com rapidez". Então,
chamava aqui o governador José Serra com os prefeitos das cidades
mais problemáticas, o governador do Rio de Janeiro com os prefeitos
das cidades mais problemáticas. Com base nessas conversas, nós
levantamos os principais projetos para começar a trabalhar projeto
básico, projeto executivo. Levou um ano entre você tomar
decisão, reunir, preparar projeto para você começar
a executar. Então, o ano de 2009 será um ano em que teremos
muitas obras em execução e em fase de acabamento no Brasil.
Em 2010 será a conclusão de grande parte das obras do
PAC, e aí nós vamos preparar um outro PAC. Nós
vamos anunciar para o Brasil um novo planejamento que pode ser seguido
ou não por quem vier depois de mim. Se eu conseguir fazer a
minha sucessão, certamente a pessoa seguirá o segundo
PAC.
Jornalista: Eu pensei que o senhor ia dizer "sucessora" e
o senhor fala em sucessão, hein?
Presidente: Eu falei sucessão porque eu estou
pensando ainda na minha sucessão. Na verdade, é isso,
eu acho que a Dilma tem todas as condições. Obviamente,
o PT tem que discutir isso...
Jornalista: Mas está indo para ela, né?
Presidente: Mas eu acho que a Dilma tem todas as
condições de ter uma qualificada disputa com quem quer
que seja, e tem condições de ganhar as eleições.
Vamos ver se... o debate, precisa construir aliança política,
que é difícil, precisa conversar com todos os companheiros,
de todos os partidos.
Jornalista: O senhor a conhece desde quando, presidente?
Não é de muito tempo, é mais recente, né?
Presidente: É engraçado. O negócio
da Dilma comigo é muito engraçado. Eu tinha... Eu sempre
tive assessoria para o setor energético, e mais ou menos em
junho... eu sabia que a Dilma era secretária do Olívio
Dutra, mas não tinha muito contato, até porque ela era
do PDT, se não me falha a memória.
Jornalista: É, PDT.
Presidente: Aí o meu grupo que cuidava de
energia, quem cuidava era o Pinguelli. Então, a gente tinha
a cada ano, três, quatro reuniões com vários engenheiros
do setor energético, e já próximo de 2002, aparece
uma companheira com um computadorzinho na mão lá. Começamos
a discutir, começamos a discutir, e eu percebi que ela tinha
um diferencial dos demais que estavam ali porque ela vinha com a praticidade
do exercício da Secretaria de Minas e Energia do Rio Grande
do Sul. Aí eu fiquei pensando: eu acho que já encontrei
a minha ministra aqui. No primeiro contato que houve, houve uma certa
negociação com o PMDB para o Ministério de Minas
e Energia e eu disse: para esse lugar aqui vai a companheira Dilma.
Foi assim, foi uma coisa muito rápida. Ela se sobressaiu em
uma reunião que tinha 15 pessoas...
Jornalista: Pela objetividade...
Presidente: Pela objetividade e pelo alto grau de
conhecimento do setor. Então foi assim que ela apareceu no meu
governo.
Jornalista: Ótimo, presidente. Muito obrigado.
O senhor vai encontrar com o Raúl Castro, não é?
Presidente: Raúl Castro.
Jornalista: O outro era melhor, né? Vou fazer
intriga aqui.
Presidente: Eu gosto dos dois.