Jornal Classe Operária,
24 de janeiro de 2009
Medo do desemprego já deixa
trabalhadores à deriva
Priscila Lobregatte*
Nos olhos de Ailton da Cruz, 37 anos, está o sentimento
de milhares de trabalhadores brasileiros. O medo do desemprego
e as incertezas sobre o futuro rondam operários
de norte a sul que, em 2009, sentiram com mais força
os efeitos da crise mundial. "É horrível.
A gente vê os colegas indo embora e não pode
fazer nada", lamenta. Cruz é metalúrgico
e há 18 anos trabalha na Olimpus, em São
Paulo, empresa com cerca de 400 funcionários, fornecedora
de autopeças para GM, Volkswagen e Fiat.
A crise vai se estendendo mundo afora numa espécie
de efeito dominó. O jogo sujo do cassino financeiro
norte-americano resultou em problemas sérios em
todos os setores da economia, especialmente na área
da produção. Aqui, os principais efeitos
foram sentidos a partir do final de 2008. E, como sempre,
quem paga a fatura da festa da especulação
são os trabalhadores, especialmente os dos países
em desenvolvimento, como o Brasil.
Recentemente, a GM de São José dos Campos
demitiu 744 funcionários e outros 1.600 estão
ameaçados na fábrica de São Caetano
do Sul. Em todo país, 28,3 mil metalúrgicos
foram demitidos e destes 16 mil eram do setor de autopeças.
Na empresa onde trabalha Ailton da Cruz não foi
diferente. "Cem colegas foram pra rua desde outubro.
Não deu para evitar. Mas fizemos agora uma paralisação
de dois dias e com isso conseguimos ao menos a garantia
de que os demitidos terão seis meses de cesta básica
e de assistência médica, além de uma
ajuda de custo de R$ 600", explica.
As expectativas de Cruz não são boas. Com
dois filhos para criar e a esposa também trabalhando
na empresa, o operário tem economizado e cortado
despesas onde pode porque já não sabe como
será o amanhã. "O Natal e o Ano Novo
foram dias normais e sequer pude comprar presentes para
as crianças", conta. "Me sinto à deriva
porque mesmo empregado, sei que não há nenhuma
garantia de estabilidade. Os trabalhadores precisam se
unir porque só com a nossa mobilização
conseguiremos reverter esse quadro", diz.
Desilusão
Acácio Ferreira, 19, morador da periferia de Itu, no interior
paulista, é um dos jovens trabalhadores que viram seus sonhos
interrompidos pelos resultados da crise internacional. Ex-funcionário
da Caldlaser, indústria de caldeiraria que fornece peças
para montadoras, Cau, como é conhecido, não teve tempo
sequer para desfrutar dos benefícios de um trabalhador de carteira
assinada. Admitido como temporário dia 3 de novembro, teve o
contrato suspenso dia 14 do mesmo mês. "Primeiro disseram
que iam precisar de mais gente, nos chamaram e, em duas semanas, mandaram
quatro embora. Tudo mudou de repente e argumentaram que foi por causa
da crise", conta.
Ele é um dos 5.100 funcionários da área
metalúrgica automotiva que perderam seus empregos
desde novembro somente em São Paulo. Filho de pai
ceramista e mãe dona de casa, Cau contribuía
com parte importante do sustento da casa. "O duro é que
a gente faz planos. Queria continuar os cursos na área,
pensava em progredir na empresa, estava animado e agora
tenho que fazer cortes para poder dar conta do essencial",
diz. "Fiquei muito deprimido. Me escondi no vestiário
da empresa e chorei, me senti sem rumo. O pior foi contar
para minha mãe", lembra.
O sentimento de Cau já foi estudado por pesquisadores
da área. No livro "Trabalho e Autonomia",
o professor Antonio Cattani trata do sentimento de deriva
pelo qual passam aqueles que estão desempregados.
O trabalho, explica, é "essencial para a construção
de identidade e socialização e a principal,
ou a única, maneira de se obter recursos materiais
e imateriais necessários à vida". E,
quando falta o trabalho, o indivíduo se sente excluído,
sem domínio sobre os rumos de sua própria
vida. O movimento do desemprego no sistema capitalista,
segundo Cattani, "irá recuperar alguns, ‘afogar'
outros tantos e jogar para a margem a maioria".
Luta necessária
É contra esse afogamento em massa que governo, centrais sindicais e trabalhadores
têm lutado. Por todo país, espalham-se paralisações
e passeatas contra as demissões. "Estamos mobilizando a categoria
e a sociedade em defesa do emprego e dos salários. Existe a crise, mas
há empresas que fazem pressão sobre a categoria para reduzir o
ordenado e os direitos dos trabalhadores. Não podemos compactuar com isso",
protesta Assis Melo, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Caxias
do Sul e Região. Somente nesta cidade gaúcha, houve no final de
2008 cerca de 7.500 demissões no setor metalúrgico.
Assis explica ainda que a crise enfraquece o poder de
negociação dos trabalhadores. "Dialogar
com patrão é sempre difícil em tempos
de crescimento; em períodos de crise é ainda
pior porque o medo do desemprego dificulta a mobilização.
A crise diminui o poder de barganha dos trabalhadores".
Para ele, além da união dos trabalhadores, é preciso
que o Brasil ponha em prática um projeto de desenvolvimento
de longo prazo. "Hoje, um dos caminhos para enfrentar
a crise está no aumento de investimentos em áreas
estratégicas, como a de infra-estrutura. Construindo
casas populares, estradas, portos e melhorando os transportes
estaremos criando novos postos de emprego e preparando
o país para crescer em melhores condições",
argumenta.
Na Bahia, a situação também se complica.
Apenas no setor metalúrgico, houve 1.500 demissões
entre novembro e dezembro, segundo Aurino Pedreira Filho,
da direção da Federação dos
Metalúrgicos da Bahia. "Estamos resistindo
e conseguimos ao menos um acordo que garante os postos
dos trabalhadores até março", diz. Por
outro lado, criticou, "as empresas têm feito
de tudo para flexibilizar os direitos e tentar diminuir
os salários e isso não é justo já que,
nos últimos anos, as empresas faturaram muito inclusive
em produtividade".
Aurino reforça que neste momento é urgente
uma queda maior na taxa de juros para estimular a economia
interna. "O governo vem tomando medidas tributárias
importantes, mas deve também exigir, como contrapartida,
a manutenção dos empregos". Neste sentido,
o Ministério da Fazenda já planeja avaliar
a situação financeira das empresas e definir
como critério para empréstimos a não
demissão dos funcionários.
De acordo com o sindicalista, "agora é hora
de investir tanto o capital privado quanto o público
e aumentar o controle sobre o sistema financeiro e sobre
as remessas de lucro para o exterior". Do ponto de
vista da mobilização dos trabalhadores, Aurino
reforça: "temos de levar adiante uma agenda
comum de lutas que envolva todas as centrais sindicais.
A crise exige uma ampla mobilização dos trabalhadores
e de toda a sociedade".
(*) Para jornal Classe Operária,
edição de fevereiro