 |
Agência Estado, 25
de janeiro de 2009
Diferenças: renda cresce, mas
mulher e negro ganham menos
O mercado de trabalho metropolitano registrou aumento na ocupação
e no rendimento e queda na taxa de desemprego desde o início do
governo Lula, mas as mulheres e os negros ainda ganham menos, segundo
estudo divulgado na última quinta-feira (22) pelo IBGE. O levantamento
mostra a evolução desde 2003, quando a taxa média
anual de desemprego chegou a 12,3%, até o ano passado, que apresentou
taxa de 7,9%.
A taxa média de desemprego de 2002, ano em que
teve início a nova série da Pesquisa Mensal
de Emprego do IBGE, não é utilizada como
comparação porque os dados daquele ano só levam
em conta o período de março a dezembro. Na
média dos meses de março a dezembro, a taxa
de 2002 foi de 11,7%.
O estudo mostra também que o número de desocupados
caiu 29,4% em seis anos, passando de 2,6 milhões
de desempregados nas seis regiões na média
de 2003 para 1,9 milhão, em média, no ano
passado.
No que diz respeito ao número de empregos gerados,
houve um aumento de 3 milhões de vagas, passando
de 18,7 milhões de ocupados em 2003 para 21,7 milhões
na média do ano passado.
No que diz respeito ao rendimento médio real dos
trabalhadores, houve aumento de 11,3% de 2003 a 2008, mas
não foi o suficiente para recuperar as perdas dos
dois primeiros anos do governo Lula.
Em 2003, a renda média foi de R$ 1.132,13, chegando
a R$ 1.260,74 na média do ano passado. Porém,
em 2002, levando-se em conta os dados disponíveis
de março a dezembro, a renda média chegava
a R$ 1.284,50.
Apesar dos avanços ocorridos nos últimos
seis anos, em 2008 as mulheres ainda ganhavam apenas 70%
dos salários dos homens nas seis regiões,
enquanto o rendimento dos negros e pardos ainda era metade
do dos brancos.
|
Congresso em Foco, 25 de
janeiro de 2009
Simpatia na ponta do bisturi
Mãe do PAC, Dilma Rousseff repete fórmula de Lula ao apostar
em melhoria da imagem para agradar ao eleitorado
“ Quércia, quando foi
governador de São Paulo, fez uma operação,
tirou metade do nariz e ainda sobrou nariz para caramba.
E não se falou tanto sobre isso", diz marqueteiro
que vê machismo em comentários sobre novo visual
da ministra
Daniela Lima
No país que ocupa o segundo lugar no ranking mundial
de cirurgias plásticas, um procedimento em especial
está em posição de destaque em jornais
e revistas desde o último dia 12 deste mês.
E, ao contrário do que geralmente se espera, a intervenção
em questão não foi publicada em páginas
destinadas a reportagens sobre beleza, saúde, ou
celebridades siliconadas que se preparam para o Carnaval.
Foi no noticiário político que o já famoso
lifting da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, ganhou
destaque.
Tamanho alvoroço sobre as mudanças na fisionomia
da autoridade política que desfruta da alta confiança
do presidente Lula pode ser atribuído a diversos
fatores. O principal deles gira em torno da possível
candidatura de Dilma à presidência da República
em 2010. A plástica sinalizaria uma tentativa da
ministra, batizada pelo presidente como “mãe” do
Programa de Aceleração do Crescimento (PAC),
de parecer mais “simpática” aos olhos
do eleitorado.
Dilma Rousseff exibe uma fisionomia nitidamente mais amena
e menos sisuda do que a anterior. “Ela perdeu a cara
de professorinha má”, compara, com humor,
o marqueteiro político Carlos Brickmann.
Palavra de especialista
Aos 61 anos, a ministra se submeteu a ajustes nas pálpebras,
nas maçãs do rosto e no pescoço. “Ela
fez as pálpebras superior e inferior, e suspensão
da cauda da sobrancelha. As bochechas foram levantadas
para projetar a maçã do rosto, e ela também
fez uma reposição da musculatura da face,
o que cria uma espécie de ‘triangulização’ do
rosto. O excesso de pele do pescoço também
foi retirado, assim como o acúmulo de gordura debaixo
do queixo. O resultado ficou muito natural”, elogia
o regente do capítulo de cirurgia estética
da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Luciano
Chaves.
Todo o procedimento, narrado acima pelo especialista,
teve como objetivo suavizar as linhas da face da ministra,
além do rejuvenescimento, claro. E, como se a plástica
não fosse o bastante para inquietar jornalistas
e políticos, Dilma mudou o corte e a cor dos cabelos – os
fios estão mais repicados, modernos e em tom acobreado –,
e aboliu os grossos óculos, antes, companheiros
inseparáveis.
Em alta
Mudança tão radical no visual fez com que
ela arrancasse elogios do presidente Lula e de seu vice,
José Alencar. Outro que teceu comentários
sobre o assunto foi o ministro das Relações
Institucionais, José Múcio. “Ela deu
uma arrumada”, disse.
Na mesma semana em que Dilma exibiu um rosto mais suave
e criou burburinho nos corredores de Brasília, a
Câmara dos Deputados anulou o adicional de especialização
para servidores públicos, o novo plano de saúde
para os servidores comissionados; e o Brasil concedeu asilo
ao militante político italiano Cesare Battisti.
Todos esses acontecimentos dividiram os olhares do público
com as fotos do “antes e depois” da plástica
da ministra, exaustivamente publicadas pela mídia.
Ela, desde então, não falou publicamente
sobre o assunto. A assessoria de imprensa da Casa Civil
nem confirma oficialmente a plástica, que, estima-se,
leva cerca de quatro horas e custa entre R$ 14 mil e R$
15 mil. “De todo modo, isso já teve um efeito
positivo, por conta do espaço que ela ganhou na
mídia. Ainda mais para a Dilma, que ainda é um
nome pouco conhecido. É assim que avançam
os personagens políticos”, interpreta o cientista
político e sociólogo Antônio Lavareda.
Uma em 600 mil
Estima-se que pelo menos 600 mil plásticas sejam
feitas anualmente no Brasil. Apenas no consultório
do cirurgião Luciano Chaves, 80 procedimentos idênticos
ao que Dilma foi submetida foram feitos no ano passado. “Ela
fez o que cada vez mais mulheres fazem na idade dela. Independente
da motivação, a cirurgia certamente teve
um impacto positivo sobre a auto-estima. E um candidato
confiante tem desempenho melhor”, aponta Lavareda.
“Mas talvez ela fizesse a plástica mesmo
se não cogitasse a candidatura em 2010. Ou talvez
a campanha tenha sido apenas um bom pretexto”, analisa
o cientista político.
Mas o tamanho da repercussão da plástica
da ministra é interpretado de diferentes formas. “Tenho
a impressão de que essa mobilização
toda deve-se ao fato de que ela é mulher, e isso
me incomoda”, diz o especialista em marketing político
Carlos Brickmann.
Ele vai além na análise. “O Quércia,
quando foi governador de São Paulo [entre 1987 e
1991], fez uma operação, tirou metade do
nariz e ainda sobrou nariz para caramba. E não se
falou tanto sobre isso. Não há uma só pessoa
que não saiba que os cabelos do senador José Sarney
são pintados. Os dele e os de outros tantos parlamentares.
Ninguém fala sobre isso”, sustenta.
Para Brickmann, o impacto da mudança na imagem
de mulheres que circulam no meio político é infinitamente
maior em comparação com o que ocorre com
os homens. “Na posse na ministra Ellen Grace foi
a primeira vez que ouvi alguém elogiar as pernas
do presidente do Supremo Tribunal Federal. Durante toda
a gestão dela falaram de sua elegância. Nunca
ouvi nada parecido sobre o Gilmar Mendes”, ironiza.
Miss simpatia
Possibilidades à parte, os especialistas são
unânimes quanto à importância da adequação
da imagem de um candidato. O próprio presidente
Lula é um exemplo disso. Na década de 1980
se exibia com barba volumosa, cabelos desgrenhados, blusas
velhas e encardidas. Falava grosso, atropelava as palavras.
Aparentava ser truculento. “O Lula fez mudanças
cosméticas. Aparou a barba, passou a usar roupas
de grife. Tornou-se uma figura mais afável”,
pontua Carlos Brickmann.
A mudança chegou ao auge na campanha presidencial
para 2002. Aliando marketing político, publicidade
e estética, Lula emplacou uma imagem nova: a do “Lulinha
paz e amor”.”O Lula trabalhou para adquirir
uma imagem mais presidenciável. As pessoas esperam
que, ao conquistar um determinado posto, você tenha
uma aparência à altura dele”, pontua
Antônio Lavareda.
Se a análise for guiada por esse viés, pode
ser que os petistas estejam tentando repetir a estratégia
em 2010, investindo no rejuvenescimento de Dilma. “Não
existe estudo que assevere o impacto da beleza no eleitorado.
Agora, que simpatia é importante para convencer
o eleitor, qualquer um sabe”, afirma Lavareda.
Não há dúvidas de que a plástica
deixou a feição da ministra mais amena, resta
saber se as mudanças param no campo da estética.
|
Gazeta do Povo, 25 de janeiro
de 2009
Trabalho
Para escapar da onda de demissões,
proteja seu emprego
A crise econômica está levando
muitas empresas a cortar vagas. Tem mais chances de escapar
quem souber se comportar
Em tempos de desemprego em alta, é hora de você fazer
uma avaliação sobre o seu comportamento no
trabalho. É ele, principalmente, que fará a
diferença na hora de você ser incluído,
ou não, numa eventual lista de demissões.
E preste atenção: elas têm aparecido
aos montes nos últimos meses. “Comportamento é a
base de tudo: 85% das demissões ocorrem por problemas
comportamentais. Dificilmente você é demitido
porque não sabe fazer o trabalho. Comportamento,
competência e relacionamento fazem você se
manter no emprego”, diz a gerente-executiva da Ricardo
Xavier Recursos Humanos em Curitiba, Carina Daniel.
O mercado de trabalho brasileiro vive um dos momentos
mais críticos de sua história. Se até outubro
ainda havia dúvidas sobre como o desempenho das
empresas e do mercado de trabalho – aquilo que se
chama de “economia real” – seria afetado
pela crise que se anunciava, agora sobram certezas. Em
dezembro, quase 655 mil postos de trabalho foram fechados
no país, o maior número de que se tem notícia.
No Paraná foram 49,8 mil e, em Curitiba, 8,8 mil.
E, pior, o furacão não passou. Aqui e ali
aparecem anúncios de demissões, férias
coletivas e tentativas de flexibilizar relações
de trabalho para diminuir custos nas companhias.
A crise, que era financeira, agora também é do
emprego. E é bom aprender a proteger o seu. “Eu
diria que 80% do sucesso para se manter empregado está na
atitude e 20% no conhecimento técnico”, avalia
Gerusa Mengarda, gerente-executiva da Allis S.A., uma empresa
de recursos humanos.
Com base nos conselhos de consultores do setor de recursos
humanos, a Gazeta do Povo selecionou dicas para você se
manter agarrado, com unhas e dentes, ao seu emprego. Melhorar
o relacionamento no trabalho, mostrar que você é um
aliado da empresa (e não um peso para ela) e investir
na carreira são algumas maneiras de se evitar o
fantasma do desemprego. “Não é o momento
de pedir aumento e promoção, nem outros benefícios
que gerem mais custos. A empresa não pode vê-lo
como despreocupado”, lembra a gerente-executiva da
Ricardo Xavier.
E, para quem sentiu o gosto amargo da demissão,
especialistas recomendam calma, reavaliação
das capacidades profissionais e, principalmente, traçar
um objetivo claro do que se quer.
Empregabilidade
A ideia de se manter “empregável”,
dizem os especialistas, deve permear todo o trabalho do
profissional nesse momento. “É preciso agir
como sobrevivente, como se fosse seu último dia
na empresa”, diz Carina, da Ricardo Xavier. Para
Adriana Ferrareto, coordenadora de desenvolvimento humano
da NeoplanRH, é o investimento na sua empregabilidade – ou
seja, o quanto você é desejável aos
olhos do mercado – que fará com que, mesmo
se for incluído na temida lista de demissões,
o profissional tenha maiores chances de voltar ao mercado.
A lista de receitas para cumprir este objetivo é extensa.
Além do comportamento, o profissional deve mostrar
disposição para assumir novas funções
e desafios dentro da empresa. Ser polivalente e ter a capacidade
de assumir o trabalho dos outros, nesse momento, conta
pontos. “É preciso se mostrar disponível
e preparado e, num momento de cortes, mostrar que você pode
assumir novos projetos”, completa Gerusa, da Allis
S.A. Ela recomenda também o investimento na própria
carreira como uma das proteções contra o
desemprego. Cursar uma especialização é uma
opção, mas tem a desvantagem de levar tempo
e custar caro. A especialista destaca, porém, que
o investimento em capacitação nem sempre
exige tanto tempo e dinheiro. “Existem cursos gratuitos,
palestras e livros. A crise pode ser encarada de duas formas:
como uma paralisação ou um momento em que
você dá uma grande virada.” A vice-presidente
de Planejamento da Associação Brasileira
de Recursos Humanos (ABRH), Lizete Araújo, lembra
que profissionais com grande conhecimento da área
em que atuam numa empresa dificilmente são mandados
embora. “A empresa não gosta de colocar no
mercado aquela pessoa que tem um grande conhecimento técnico
de certa área. Por isso mesmo, em momento de crise
e desconfiança, o profissional não pode deixar
de investir em especialização e formação.”
|
Gazeta do Povo, 25 de janeiro
de 2009
Trabalho
Perfil de risco: jovem, solteiro
e com pouco tempo de casa
Os anúncios de demissão têm sido tantos
que fica difícil estabelecer um perfil da pessoa
que tem mais chance de parar nas listas de cortes. Embora
grande parte das demissões envolva pessoal de produção – caso
dos funcionários da indústria, que demitiu
274 mil pessoas em dezembro de 2008 –, já se
observa um movimento em áreas como a administrativa.
Só a Sadia anunciou, na semana passada, 350 demissões
em cargos de gerência, supervisão e diretoria.
Também na semana passada, o banco HSBC demitiu cerca
de 100 funcionários de dois centros administrativos.
O Santander cortou outros 400.
“Pela minha experiência, aquela pessoa mais
jovem, com boa formação acadêmica,
solteira e com perfil competitivo é mais vulnerável”,
diz a vice-presidente de Planejamento da Associação
Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Lizete de Araújo.
Segundo ela, é “menos traumático” demitir
alguém com este perfil, porque a pessoa tem melhor
chances de se recolocar.
“ Sem chão”
O administrador Tarcísio Renato de Souza Rodrigues
encaixa-se quase que perfeitamente neste perfil, exceto
por ser casado. Em setembro do ano passado, quando tinha
início a fase mais aguda da atual crise econômica,
ele foi incluído na lista de desligados de uma empresa
do ramo alimentício, onde trabalhava havia quatro
meses na área financeira. “Disseram que estavam
desligando um pessoal e eu fui o primeiro a ser escolhido
no setor, porque estava ali havia pouco tempo.”
“Eu me senti sem chão. Você está trabalhando às
6 da tarde de uma sexta-feira, te chamam para uma reunião,
e você vai lá, com seu caderninho, e ouve
isso. O mais complicado é ligar para casa e dizer
para a esposa: ‘estou desempregado a partir de hoje’”,
lembra Rodrigues.
Dois meses, mais de uma dezena de entrevistas pessoais
e sabe-se lá quantos contatos depois, ele foi admitido
por uma empresa do ramo educacional. Para ele, fizeram
muita diferença a formação, a pós-graduação
em finanças que ele já terminou, e o networking.
A colocação foi conseguida graças
a um contato de uma pessoa com quem ele já tinha
trabalhado.
Para quem está na mesma situação,
Rodrigues lista alguns itens que podem fazer a diferença: “Tem
de ter estudo, no mínimo uma pós-graduação,
uma língua estrangeira, e conhecimento técnico,
conhecimento na vivência da operação
do que você faz. E na entrevista tem de mostrar segurança
e confiança de que você realmente sabe aquilo”,
aconselha. (FL)
|
Folha de S.Paulo, 25 de
janeiro de 2009
DIRETAS-JÁ / 25 ANOS DEPOIS
Apoio ao voto obrigatório
e à democracia é recorde
Em 25 de janeiro de 1984, 300 mil
pessoas foram a comício histórico na praça
da Sé
Para estudiosos, dados da pesquisa Datafolha
indicam consolidação da democracia após
cinco eleições com voto direto para presidente
FERNANDO BARROS DE MELLO
JOSÉ ALBERTO BOMBIG
DA REPORTAGEM LOCAL
Transcorridos 25 anos do ápice do movimento pelas
Diretas-Já, pesquisa Datafolha revela que a aprovação
do brasileiro à democracia atingiu seu mais alto
patamar. Simultaneamente, é a primeira vez desde
que o instituto iniciou a série de levantamentos
que a maior parte da população defende a
obrigatoriedade do voto.
De acordo com o Datafolha, 53% são favoráveis ao voto
obrigatório, contra 42% de 1994, a primeira vez que o instituto
pesquisou o tema.
Outro recorde é o apoio à democracia. O levantamento
revela que 61% acham que ela é a melhor forma de governo. A
série histórica começou em 1989, quando os brasileiros
voltaram a votar para presidente. O índice era de 43% e oscilaria
para 42% três anos depois, sua menor marca, no fim da gestão
de Fernando Collor de Mello.
Para estudiosos e personalidades, os números revelam a consolidação
da democracia, mas ainda existem riscos ao sistema e é preciso
aperfeiçoar o controle do financiamento de campanhas, alvo de
grandes escândalos após 1984, quando, há exatos
25 anos, no 430º aniversário de São Paulo, uma multidão
estimada em 300 mil pessoas lotou a praça da Sé pelo
direito de votar para presidente.
" A população se deu conta de que a democracia política
pode gerar democracia social", diz o historiador José Murilo de Carvalho,
autor de "Cidadania no Brasil - O Longo Caminho".
O diretor do Datafolha, Mauro Paulino, aponta a relação
entre os índices de popularidade do presidente Lula e os resultados
do levantamento. "A defesa da democracia ou da ditadura quase
sempre costuma seguir a avaliação do governante."
Outro aspecto destacado por Paulino é a relação
com o momento econômico: "Em geral, quando o bolso vai bem,
a avaliação que se faz do governante também tende
a ser melhor". Em dezembro do ano passado, no início da
atual crise econômica mundial, o mesmo Datafolha apontou que
70% dos brasileiros consideravam o governo Lula ótimo ou bom.
Para este mais recente levantamento, o Datafolha ouviu 3.486 brasileiros,
entre os dias 25 e 28 de novembro de 2008, em 180 municípios.
A margem de erro máxima da pesquisa é de dois pontos
percentuais para mais ou para menos.
São mais favoráveis ao voto obrigatório as mulheres
(57%), os mais jovens (59%), os que possuem ensino fundamental (58%)
e aqueles que têm renda de até dois salários mínimos
(60%), os que não são economicamente ativos (57%) e os
que avaliam o governo Lula como ótimo ou bom (57%).
Para o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, não
há uma relação direta entre apoio ao voto obrigatório
e aumento do apreço à democracia. Segundo ele, no atual
estágio, a sociedade pode debater se a medida deve ser mantida. " Mas
acho que o voto obrigatório no Brasil ajudou nessa revolução
cívica", diz.
A maior evolução no apoio à democracia está entre
os que possuem ensino fundamental (de 49% para 56%) e entre os que
têm renda de até cinco salários mínimos
(de 53% para 61%). "Os pobres estão percebendo que o voto
pode alterar positivamente a política pública e não
apenas gerar vantagens individuais", diz Carvalho.
Para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o bem-estar econômico
ajuda. "A população sentiu que através da
democracia foi possível melhorar a vida. O que não quer
dizer que havendo dificuldade econômica todos vão contra
a democracia", afirma FHC.
Autor de "História do Voto no Brasil", o cientista
político Jairo Nicolau diz que o principal desafio no futuro é a
questão do financiamento e da falta de transparência nas
contas. "O desafio que afeta a democracia é o controle
de gastos, o papel do dinheiro na política. E há uma
visão reducionista de que a única alternativa seria o
financiamento público exclusivo", afirma Nicolau.
Nos últimos anos, grandes escândalos tiveram vinculação
direta ou indireta com o financiamento das campanhas, entre eles o
impeachment de Collor e o mensalão, em 2005, quando o presidente
Lula insinuou que o caixa dois eleitoral ocorre "sistematicamente".
|
Folha de S.Paulo, 25 de
janeiro de 2009
DIRETAS-JÁ / 25 ANOS DEPOIS
Apenas 35% sabem dizer
o que foram as Diretas-Já
Jovens ostentam o maior grau de desconhecimento
histórico sobre o movimento
Geração que tem hoje entre
35 e 44 anos é que exibe o maior percentual dos
que dizem ter ouvido falar do movimento pelo voto: 70%
DA REPORTAGEM LOCAL
A maior parte da população (57%) diz ter ouvido falar
das Diretas-Já. Mas, mesmo dentro desse grupo de brasileiros,
apenas 35% sabem dizer exatamente o que foi o movimento, ao declararem
que foi a luta pelo voto direto, pelo direito de votar ou de escolher
o presidente/governante.
Outras respostas também se aproximaram do tema. Para 5% dos
entrevistados, foi um "movimento pela democracia e contra a ditadura".
A resposta "campanha para acabar com o governo militar" atingiu
2%. Por outro lado, ainda dentro do universo dos que declararam já ter
ouvido falar das Diretas, 39% não souberam responder o que foi,
e 5% disseram que foi o movimento pelo impeachment do presidente Collor.
" O interessante é que o maior desconhecimento está entre
os mais jovens, que hoje, poderíamos dizer, são beneficiários
das conquistas das Diretas, justamente o direito ao voto", diz Mauro Paulino,
diretor do Datafolha. Mas os mais jovens também estão entre os
que têm maior apreço pela democracia. "Não ter ouvido
falar do movimento não significa alienação dos mais jovens",
diz Paulino.
Entre os entrevistados de 16 a 24 anos, 60% disseram nunca ter ouvido
falar das Diretas, enquanto que entre os que têm entre 25 e 34
anos a resposta atingiu 44%. Por outro lado, 70% dos entrevistados
na faixa dos 35 e 44 anos disseram ter ouvido falar do movimento. "É a
geração que viveu as Diretas", diz Paulino. Entre
aqueles que têm entre 45 e 59 anos, 65% disseram ter ouvido falar.
A emenda que propunha eleições diretas para presidente
da República foi apresentada em março de 1983 pelo deputado
Dante de Oliveira. Lançada nacionalmente em janeiro do ano seguinte,
a campanha Diretas-Já ganhou impulso com o comício da
praça da Sé, há exatos 25 anos.
Comandado pelo locutor Osmar Santos, o evento reuniu políticos
que tomariam caminhos distintos a partir dali. Estiveram no palanque
nomes como o então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva,
Fernando Henrique Cardoso (senador à época), Ulysses
Guimarães (deputado), Franco Montoro (governador de SP) e Leonel
Brizola (governador do Rio).
Veja site sobre as Diretas
www.folha.com.br/090231
|
Folha de S.Paulo, 25 de
janeiro de 2009
Procuradoria quer barrar flexibilização
ilegal
Ministério Público elabora
recomendações a centrais sindicais para evitar
que exceção prevista na lei trabalhista vire
regra
Fiesp e Força Sindical negociam "acordo
guarda-chuva" para balizar negociações
sobre redução de jornada e de salários
FÁTIMA FERNANDES
DA REPORTAGEM LOCAL
O Ministério Público do Trabalho em São
Paulo expediu na última sexta-feira notificações
a seis centrais sindicais e a 16 federações
de empregadores de São Paulo e região para
que respeitem as leis trabalhistas ao incentivarem acordos
ou convenções coletivas para a redução
de jornada e salários.
As discussões entre a Fiesp (Federação das Indústrias
do Estado de São Paulo) e a Força Sindical para encontrar
formas de evitar demissões levaram o MPT a instaurar um procedimento
preparatório para fiscalizar "fatos relativos à negociação
[das duas entidades]".
" Essa recomendação do MPT tem caráter preventivo e
de orientação e tenta evitar que haja uma disseminação
de acordos e convenções que prejudiquem os trabalhadores. Além
disso, vamos acompanhar a partir de agora esses acordos. Se forem abusivos, vamos
pedir a anulação deles na Justiça", diz Philippe Gomes
Jardim, procurador do MPT.
O MPT entende que a redução da jornada e de salários,
prevista na Constituição Federal (artigo 7º, inciso
6), tem de respeitar a lei nº 4.923. Essa lei cita que o salário
e a jornada de trabalho podem ser reduzidos em no máximo 25%
e por três meses (podendo ser prorrogados por mais três
meses) e que essa situação só pode ocorrer caso
a empresa comprove dificuldade financeira. Essas condições
têm de ser aprovadas em assembleia de trabalhadores.
O MPT teme que um "acordo guarda-chuva" como o que está sendo
preparado pela Fiesp e pela Força Sindical -que voltam a se
reunir nesta semana- vire regra, e não exceção,
e que todas as empresas comecem a reduzir jornada e salários.
" Essa discussão não pode ser feita de forma generalizada
e abranger todas as indústrias. Não está previsto na Constituição
que essa situação [redução de jornada e salários]
possa ser usada de forma ampla pelas empresas. Nós vamos nos posicionar
contra isso e vamos buscar alternativas para que o trabalhador não seja
prejudicado", afirma Laura Martins Maia de Andrade, procuradora regional
do MPT em São Paulo.
Os efeitos da crise financeira internacional nas empresas brasileiras
são as razões apresentadas pela Fiesp e pela Força
Sindical para discutir formas de evitar demissões (leia texto
ao lado). "Os empresários querem utilizar a crise para
colocar em prática o que eles desejam há muito tempo.
Isso é puro oportunismo", afirma a procuradora do MPT.
O TRT (Tribunal Regional do Trabalho) de São Paulo também
entende que só se uma empresa ou até um setor estiver
passando por dificuldades econômicas comprovadas é possível
a redução de jornada e salários. "Mas esse
acordo não pode ser feito só por um lado. O trabalhador
também tem de querer essa situação, assim como
tem de querer a suspensão de contrato de trabalho, que pode
ocorrer por dois a cinco meses, como cita a Constituição
[artigo 476 A]", afirma Decio Sebastião Daidone, presidente
do TRT de São Paulo.
Primeiros casos
A indústria de autopeças GKN, do Rio Grande do Sul, fez
acordo por três meses para redução de 14,6% da
jornada e de salários de seus 1.400 empregados alegando problema
de fluxo de caixa. "A empresa abriu as contas e comprovou que
tinha problemas. Eles queriam 22% de redução nos salários,
mas fechamos em 14,6%. E haverá devolução de salários
quando a situação da empresa melhorar", afirma Claudir
Nespolo, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos
da Grande Porto Alegre, ligado à CUT. Segundo ele, em votação
secreta, 94% dos trabalhadores aceitaram a redução de
salário.
A Renault e seus empregados optaram pela suspensão de contrato
de trabalho de mil funcionários da produção da
fábrica de São José dos Pinhais (PR). Nesse período,
no qual a empresa fará um ajuste de produção,
o empregado, segundo a montadora, vai receber o equivalente ao salário
líquido -uma parte será paga pela empresa e outra parte
virá de recursos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador).
Em São Paulo, a Basso Componentes, a Indebras (fabricantes de
autopeças) e a Muller (produtora de plásticos) também
fecharam acordos de suspensão de contrato de trabalho. As duas
fabricantes de autopeças negociaram com o Sindicato dos Metalúrgicos
de São Paulo. E a Muller fez acordo com o Sindicato dos Químicos
e Plásticos de São Paulo.
A Volks optou pela introdução do sistema de banco de
horas, no qual a empresa poderá conceder até 25 dias
de descanso na fábrica de Taubaté (SP). Se a demanda
cai, o funcionário trabalha menos, e, se as vendas voltam a
subir, trabalha mais.
A discussão que se faz neste momento, segundo Daidone, do TRT, é se
as empresas estão de fato tendo prejuízo com a crise
ou se estão apenas vendendo menos. "É preciso ficar
bem atento a isso. Entendo que este ainda não é o momento
de reduzir jornada e salários de forma generalizada, mas isso
não quer dizer que não precisamos modernizar a legislação
trabalhista. Será que as empresas estão tão mal
das pernas?"
O TRT, segundo ele, fez recentemente uma encomenda de 40 carros para
uma montadora e foi informado de que haveria atraso na entrega dos
veículos por conta da alta procura pelo modelo. "A montadora
sugeriu um carro mais caro pelo mesmo preço do modelo solicitado
só para entregar no prazo. Isso mostra que as vendas não
estão tão ruins como se fala."
|
Folha de S.Paulo, 25 de
janeiro de 2009
Para Fiesp e Força,
acordo tenta evitar demissões em massa
DA REPORTAGEM LOCAL
O acordo entre a Fiesp (Federação das Indústrias
do Estado de São Paulo) e a Força Sindical
pretende, segundo as duas entidades, estabelecer formas de
evitar demissões no período crítico
de retração de demanda, que deve se estender
até abril.
A Força Sindical, segundo Miguel Torres, presidente do Sindicato
dos Metalúrgicos de São Paulo, ligado à central,
procurou Paulo Skaf, presidente da Fiesp, no final do ano passado,
porque "sentiu que havia disposição" da federação
para discutir meios de evitar demissões e ao mesmo tempo não
mexer nos direitos dos trabalhadores.
" O que pretendemos fazer é um "acordo guarda-chuva" para
orientar os sindicatos, pois não temos poder para engessar as decisões
de sindicatos. A decisão sobre se haverá redução
de jornada e de salários e suspensão de contrato de trabalho é do
trabalhador. O que pretendemos é estabelecer critérios para uso
de condições que estão na legislação. Todo
acordo tem de ser feito em assembleia com a participação de trabalhadores."
Um dos setores mais afetados pela crise financeira, segundo Torres, é o
de autopeças. "Cerca de 110 empresas, que representam 19
mil trabalhadores, já consultaram o nosso sindicato para saber
o que podem fazer para evitar demissões. Se não tivéssemos
lançado a ideia de conversar com a Fiesp, provavelmente essas
empresas nem estariam consultado o sindicato, já estariam fazendo
demissões em massa. Esse acordo com a Fiesp é muito importante,
pois demonstra boa vontade dos dois lados para discutir o que fazer
neste momento mais crítico da crise", afirma.
O acordo, que deverá, segundo ele, ser realizado com a Fiesp
nesta semana, será encaminhado para as empresas e para os filiados
da Força.
" Cada sindicato terá autonomia para fazer acordos, mas nossa ideia é que
eles sejam mais ou menos uniformes. Ouvi que há central falando em suspensão
de data-base de trabalhador por conta da crise. Não queremos isso, queremos
um entendimento entre trabalhadores, empresários e sociedade e que tudo
seja feito de forma transparente. Nossa proposta não é flexibilizar
lei trabalhista. Propomos usar a lei."
Empresários
A Fiesp afirma, por meio de sua assessoria de imprensa, que desde setembro
de 2008 houve preocupação da federação
com o ritmo de atividade das fábricas e com o desemprego.
Por essa razão, a federação criou um comitê para
acompanhamento da crise, que busca sugestões e diálogo
com as centrais sindicais. Para a Fiesp, ainda segundo sua assessoria,
não há necessidade de flexibilizar a legislação
trabalhista, já que a lei atual dá condições
para contornar a crise, como a redução de jornada e de
salários. A ideia do acordo com as centrais, segundo a Fiesp, é orientar
as partes para evitar demissões em massa. (FF)
|
Última Instância,
25 de janeiro de 2009
Imposto sindical obrigatório
deve continuar, diz procurador-geral
O procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, encaminhou
parecer ao STF (Supremo Tribunal Federal), manifestando-se contra a suspensão
da cobrança compulsória do imposto sindical.
O tributo é alvo de uma ADPF (Argüição
de Descumprimento de Preceito Fundamental) proposta pelo
PPS, que argumenta que o desconto automático do imposto,
sendo o trabalhador filiado ao sindicato ou não, viola
o direito constitucional de livre associação.
Antonio Fernando, no entanto, entendeu de forma diversa.
O procurador-geral explica no parecer que a contribuição
sindical —equivalente a um dia de trabalho descontado
diretamente na folha— atende ao princípio da
igualdade do Direito Coletivo do Trabalho.
Isso porque, segundo infomações da PGR, quando
o sindicato obtém vantagem negociada para os empregados
de uma empresa, o benefício acaba sendo estendido
a todos os trabalhadores, mesmo aos não sindicalizados.
“Portanto, teria caráter discriminatório
a não-obrigatoriedade da contribuição
ou a sua restrição somente aos membros dos
sindicatos, tendo em vista a amplitude dos beneficiados.
Outrossim, a não-obrigatoriedade incentivaria a inércia
dos trabalhadores que optassem por não se filiar,
visto que muitos desfrutariam dos benefícios das negociações
sindicais sem contribuir com o processo que lhe serve”,
argumenta o procurador.
Antonio Fernando ressalta também que a própria
jurisprudência do Supremo admite a constitucionalidade
da cobrança. Ele explica que o STF tem identificado
a parte final do inciso IV do artigo 8º da Constituição
Federal como uma exceção à regra da
liberdade de associação, com o objetivo de
se manter em funcionamento o sistema de representação
sindical.
Por esses motivos, não estaria preenchido um dos
requisitos para a concessão da medida cautelar, que é a
plausibilidade jurídica no pedido (fumus boni iuris).
O procurador-geral ainda destaca que não existe razão
para a concessão de uma liminar —pedida pelo
partido— até que o Plenário da Corte
aprecie o mérito do processo, já que o tema
tem sido debatido com freqüência no Judiciário.
O parecer vai ser analisado pelo ministro Celso de Mello,
relator do caso no STF.
|