Agência Carta Maior,
31 de janeiro de 2009
Saul Leblon: Quem faria hoje
o que Roosevelt fez em 1933?
Franklin Roosevelt, o presidente
americano frequentemente evocado quando se trata de buscar
um paradigma à altura das tarefas colocadas pela crise
mundial, tomou posse no dia 3 de março de 1933. Era
uma sexta-feira e neste caso detalhes de calendário
têm um significado política como se verá a
seguir.
Por Saul Leblon, na Agência
Carta Maior
No domingo, dia 5, Roosevelt emitiria uma nota convocando
o Congresso dos EUA para sessão extraordinária
que deveria ocorrer na quinta-feira, dia 9. Não
detalhou a pauta, mas trabalharia exaustivamente sobre
ela nas horas seguintes. A uma da madrugada, já na
segunda-feira, dia 6, o presidente democrata socorreu-se
de uma lei da Primeira Guerra Mundial que confere poderes
adicionais ao chefe de Estado norte-americano tanto na
esfera monetária quanto cambial. Roosevelt decretou
um feriado bancário de quatro dias, assegurando-se
de que não haveria corrida às agências
até a sessão legislativa.
As precauções eram justificáveis.
A insegurança, a especulação e o desemprego
faiscavam por todo o país. O medo do futuro sentava-se à mesa
de milhões de lares sem ter sido convidado. O emprego,
a casa, a comida e o dinheiro estavam por um fio.
Independente de quantas voltas a chave pudesse girar
na fechadura, nada, nem ninguém, podia sentir-se
em posição confortável naquele momento.
Não havia um centímetro de chão sólido
no imaginário norte-americano em março de
1933.
Bolsas, bancos, fundos, grande conglomerados, advogados,
políticos e justiça compunham diante da sociedade
a caricatura de um enorme ladravaz. Uma bocarra disposta
a devorar até a última lasca da economia
em benefício próprio. A ameaça do
futuro resmungava sua língua pestilenta em cada
esquina.
A estrutura bancária dos EUA era uma montanha
desordenada de reputações em ruína;
rachaduras abriam-se em fendas até se tornarem buracos
sem fundo do dia para a noite. Notícias de demissões
faziam fila de espera nas manchetes de jornais. Havia a
percepção crescente de que as autoridades
estavam à reboque dos acontecimentos, engasgavam
com as notícias no café da manhã; à noite
rezavam em silêncio pelo dia seguinte. Números
azedos comandavam a economia sem que se erguesse uma voz
capaz de comandá-los.
O monólogo dos tempos difíceis ia impondo
sua ordem unida na frente da produção, na
do dinheiro, do emprego e da política.
A percepção de que as rédeas escapavam às
mãos que deveriam controlá-las fornecia a
ração diária de ceticismo e pânico
que engrossava a cintura do colapso econômico. O
relógio da crise adiantava seu despertar a cada
dia. O salve-se quem puder de cada unidade produtiva fornecia
combustível à imolação coletiva.
Na semana em que Roosevelt assumiu a presidência
dos EUA, o país tinha proporcionalmente o maior
contingente de desempregados do mundo. Mais de 14 milhões
de pessoas perambulavam pelas cidades e estradas sem trabalho,
número que somado às respectivas famílias
equivalia uma população maior que a da Inglaterra.
A perda de confiança no futuro funcionava como uma
empresa demolidora; milhões de marretas anônimas
trabalhavam dia e noite para desmontar o que restava do
alicerce social e econômico.
É nesse ponto que o timming das ações
do governo – de qualquer governo – faz enorme
diferença.
Cada gesto, cada decisão, cada anúncio
adquirem uma dimensão estratégica; a forma
como as providências são comunicadas, ademais
de sua contundência sobre a qual não pode
pairar dúvida, ou se revelam inócuas - ganha
importância de variável histórico insubstituível.
Uma crise tem um tempo certo para ser derrotada, ou derrotará o
governo -- a produção e o emprego – que
vacilar diante dela.
Nisso, sobretudo nisso, Roosevelt revelou-se o estadista
cuja habilidade ainda tem lições a oferecer
aos seus contemporâneos; inclusive no Brasil onde
o colapso da ordem neoliberal já arromba fronteiras
da economia, da política e do imaginário
social.
A primeira lição de Roosevelt: a rapidez
em ocupar a frente do processo; contemporizar seria a capitulação.
Em apenas uma semana de mandato ele tomou algumas decisões
que não exorcizaram todos os demônios, mas
foram afrontá-los em seu próprio campo. Olhando
esse momento histórico a partir do mirante crítico
de 2009, não se pode dizer que foram medida acanhadas.
Hoje ainda elas sugerem tudo menos tibieza e hesitação
diante do grande vendaval que se forma quando o pânico
e o dinheiro se encontram numa mesma esquina.
Quantos dos atuais chefes de Estado teriam a coragem
de anunciar, quase 70 anos depois, o que Roosevelt proclamou
naqueles idos de março de 1933?
Os tempos são outros, alega-se. A globalização
tornou tudo mais difícil, justificam aqueles que
ocultam sua hesitação nas dificuldades do
presente para ofuscar o componente de coragem dos personagens
do passado.
Em 12 de março ao fazer seu segundo discurso à Nação,
Roosevelt trazia alguns troféus do primeiro round
de uma luta que se estenderia até 1944, quando os
EUA declararam guerra ao Eixo. Só então,
de fato, seu potencial produtivo pode, finalmente, ser
acionado a plena carga para desvencilhar-se da recessão,
graças às encomendas bélicas.
Muitos relativizam o alcance das medidas anti-cíclicas
tomadas nos 11 anos que antecederam esse momento. Mas poucos
lembram de se perguntar o que teria acontecido com o presidente
democrata, reeleito quatro vezes (de 1933 a 1945), se a
sua autoridade tivesse fraquejada no primeiro mandato,
na primeira semana ou no primeiro dia de março.
É sobre isso que os chefes de Estado de hoje deveriam
refletir em vez de adiarem decisões num dominó protelatório à espera
de um milagre de auto-ajuste do nercado; ou da caneta tinteiro
redentora de Barack Obama.
O maior desafio é exorcizar aquele risco apontado
por Roosevelt no discurso de posse exaustivamente citado
em palavrórios oficiais, mas pouca vezes assumido
na prática: diante de uma crise divisora, só devemos
temer o nosso próprio medo.
O torpor imobilizante parece ter contaminado até um
pedaço da esquerda diante de um colapso , batizada
por Chico de Oliveira como a primeira grande crise da globalização
capitalista - uma crise clássica de realização
do valor, declarou o sociólogo em entrevista à Carta
Maior.
Sua especificidade estaria no fato de não ter
origem num centro geográfico, mas na engrenagem
planetária irrestrita consolidada pelo capital.
O motor do monstro insaciável que avança
de mercado a mercado com apetite de saco sem fundo seria
a impossibilidade de realização da mais-valia
extraída das novas frentes de exploração
abertas nos últimos 20 anos, sobretudo na Ásia,
mas também no leste europeu. Essas novas fronteiras
fizeram mais que dobrar a oferta de mão-de-obra,
barateando o custo do trabalho urbi et orbe.
No primeiro momento do ciclo – quando FHC enxergou
a emergência um novo “renascimento” no
apogeu do Consenso de Washington,- detentores de capital
fictício experimentariam fastígio e glória
inigualáveis; agora, na reversão, sobrevém
o colapso abrupto, o derretimento financeiro incontrolável,
o desemprego assustador em todo o globo.
Ao risco da simplificação, vale a fórmula:
se a extração da mais-valia implica que uma
parte da riqueza produzida não é paga ao
produtor, padece o sistema de um desequilíbrio inerente
que se amplia na proporção em que se expande
a engrenagem. Um pedaço cada vez maior do valor
gerado não encontra meios para se realizar. Marx
ensinou que as crises de superprodução -
de capital e de capacidade produtiva - são o apanágio
do sistema baseado na propriedade privada dos meios de
produção. Estamos diante de uma delas. De
abrangência e agressividade proporcional às
dimensões magnificadas pela globalização
capitalista.
Decorre desta característica uma parte da perplexidade
que a crise fomenta e diante da qual se agiganta a lição
de timming político de Roosevelt.
Em 1929 havia pouca clareza teórica - exceto para
marxistas e mesmo assim com grau de sofisticação
restrito a franjas minoritárias - sobre a natureza
da crise irradiada dos EUA. Marx era esconjurado; Keynes
apenas buscava legitimidade e nem Roosevelt apostaria nele
num primeiro momento.
A ignorância pode ter facilitado o desassombro.
Hoje dá-se o oposto. O objeto é razoavelmente
conhecido, mas paradoxalmente intangível dada a
abrangência planetária de sua mecânica
e a ausência de instituições correspondentes.
O antídoto implícito na narrativa conservadora
- a regularização das finanças ensandecidas – resume-se
ao de sempre: dinheiro público a rodo e substituição
da história pela moralidade. Alguns “imorais”,
como o mega-golpista Madoff, serão condenados à fogueira.
Sabe-se que no fundo apenas protagonizam a busca insaciável
do sistema pelo santo Graal da acumulação
pura –o sonho ancestral burguês desde o dia
seguinte da Revolução francesa. Ontem, como
hoje, o capital que se livrar das amarras da história,
buscando um porto-seguro onde a reprodução
desdobre-se em dízima dele mesmo (D-D). Finalmente
entoa estaria livre dos encargos trabalhistas, das greves,
dos Morales e suas constituições refundadoras.
No nirvana do dinheiro, as circunstâncias abrigadas
na danação marxista do D-M-D sumiriam. O
mercado, a mídia, os milionários e os especuladores
levitaram nessa bolha até o estouro ensurdecedor
das sub-primes nos EUA.
A verdade, porém, é que se a globalização
ampliou as condições para a utopia capitalista,
o dragão afrontado por Roosevelt em 1933 exalava
as mesmas obsessões. E, mais que hoje, ele não
dispunha também de nenhuma estrutura internacional
com a qual se aliar ou dividir tarefas.
Seu valioso contrapeso era intuição política
para atuar no vácuo da crise sem se deixar engolir
por ela, mesmo quando hesitava.
Foi assim que fez o Congresso discutir e aprovar, em
um único dia, uma Lei de Emergência Bancária
em rito fulminante, na quinta-feira, dia 9, seis dias depois
da posse.
Para se ter uma medida de comparação, basta
dizer que hoje o conservadorismo brasileiro não
aceita, sequer, que o Presidente da República tenha
influência sobre o Banco Central. A Emergência
Bancária, ao contrário, facultava a ingerência
estatal sobre todo o sistema financeiro público
e privado dos EUA. Com tais poderes, Roosevelt colocou
as instituições –sadias, poucas; e
podres, a maioria - sob custódia federal, numa espécie
de estatização branca, ainda que temporária,
mas radical e impiedosa com o rentistismo.
Naturalmente, estamos falando de um democrata progressista
com forte dosagem de austeridade conservadora e não
de um bolchevique – e nisso se assemelha muito à cabeça
de alguns líderes progressistas, como o Presidente
Lula, por exemplo. A exemplo deles, Roosevelt não
pretendia liderar uma revolução para derrubar
o capitalismo. Queria reformá-lo para que pudesse
outra vez fazer prosperar o emprego e a produção,
eliminar a fome e a miséria no seio das famílias.
Ao contrário de alguns desses líderes da
atualidade, tinha a vantagem de saber que isso não
aconteceria sem erradicar a especulação,
a jogatina, a obesidade mórbida do rentismo que
se atava à jugular do trabalhador e ao caixa da
produção.
Em 1933, Roosevelt sabia intuitivamente o que hoje é um
consenso teórico, mas não político.
Para salvar a economia do colapso financeiro é preciso
subordinar o crédito –portanto todo o sistema
bancário— aos desígnios da produção,
do emprego e do consumo. Nem que seja uma estatização
temporária do crédito, como recomendou o
professor Luiz Gonzaga Belluzzo em entrevista à Carta
Maior, no início da crise (15-10-2008). Só o
Estado é capaz de fazê-lo em tempo hábil,
antes que a epidemia se alastre e derreta o metabolismo
econômico.
A Lei de Emergência dava ao Estado norte-americano
essa faculdade e Roosevelt a exerceu com rapidez e apetite
de um estadista.
Enquanto seus potenciais seguidores patinam na hesitação
em 2009, no longínquo de março de 1933, Franklin
Roosevelt pode apresentar-se à Nação,
apenas oito dias depois da posse, como um Presidente vencedor.
Ele havia enfrentado o foco da doença in locu, submetendo
o sistema bancário sem tergiversações.
Vencera o primeiro round.
A incerteza foi duramente atingida. No domingo,dia 12
de março, quando estreou seu programa “Conversa
junto à Lareira” , o Presidente tinha o que
dizer; e milhões queriam ouvi-lo. Sua palavra estava
sintonizada com o espírito das ruas e viria reforçar
a espiral da auto-confiança em diferentes setores
e segmentos.
As filas no guichê dos bancos já não
eram mais para sacar depósitos. Agora elas reuniam
cidadãos trazendo de volta suas economias porque
o Estado lhes devolvera a garantia e a segurança
no sistema.
Roosevelt foi além, na tarefa de devolver otimismo
a uma sociedade acuada e sem futuro. Não se limitou
a medidas rotineiras, nem confiou o destino da sociedade
aos “canais convencionais’, tão a gosto
dos acanhados chefes de Estado da atualidade.
Cada vez que falava à Nação, a voz
de Roosevelt dizia coisas inteligíveis à angústia
do pai de família que acordara empregado e fora
dormir demitido. Suas mensagens e políticas pavimentavam
o futuro sem negligenciar a emergência. Traziam respostas
para o presente.
Multiplicar providências imediatas para sacudir
a sociedade entorpecida pelo medo e a descrença,
esse foi o seu objetivo ao criar a Administração
para o Progresso do Trabalho. Com ela encarou o desafio
de enxugar imediatamente a inundação de desemprego
que afogava as famílias, as cidades e o interior
do país. A mensagem era simples e convincente: os
EUA foram divididos em zonas salariais; para cada uma delas
fixou-se um seguro-salário proporcional; o governo
passou a contratar até três milhões
de trabalhadores por ano, em troca desse pagamento. A nova
força-tarefa semearia canteiros de obra pelo país;
estradas, ruas, escolas, canalizações, hospitais,
parques infantis, pontes, caminhos vicinais foram recuperados,
expandidos e construídos.
A Administração para o Progresso do Trabalho
ganhou um braço cultural. Em um mês inauguraria
100 mil salas de alfabetização com um milhão
de adultos inscritos na luta contra o analfabetismo. Artistas
e escritores desempregados foram engajados também.
Sua mobilização desencadearia uma revolução
cultural ampliando as franjas de apoio progressista ao
governo, taxado de comunista pela direita raivosa e a mídia
cínica. O Presidente também convocou a juventude.Milhares
de jovens foram incorporados a serviços florestais
dando vida a planos de replantio de matas, preservação
e proteção de bosques.
O democrata austero continuou falando ao futuro e à angústia
do presente. Na Conversa ao Pé da Lareira de outubro
de 1933. Roosevelt deu um aviso ensurdecedor aos ouvidos
da crise: se houver qualquer família nos EUA, disse,
a ponto de perder a casa em que mora, a terra, ou seus
pertences, essa família deverá telegrafar
imediatamente para a Administração de Crédito
Rural ou à Companhia de Empréstimo aos Proprietários
de Residência; ela receberá o auxílio
de que necessita.
Para além das discussões técnicas
sobre a viabilidade ou não de um novo New Deal,
sobretudo na periferia do capitalismo,. há uma lição
de extrema atualidade a extrair dessa prontidão
exibida pelo governo democrata de Franklin Roosevelt.
Ele tinha a exata noção de que quando o
extraordinário acontece, as ferramentas da rotina
têm pouca eficácia e serventia. Antes de sensatez,
ensejam fracassos e derrotas.
Esse talvez seja o principal legado que a experiência
dos anos 30 tem a oferecer aos governantes progressistas
que continuam a contemporizar de forma temerária
ante as evidências de agravamento do colapso mundial.
Mas não só eles. O paradigma do desassombro,
associado ao realismo, convoca também sujeitos coletivos,
como o Fórum Social Mundial. Deles se espera agendas
e respostas a salvo da dispersão e do descompromisso
em relação às ansiedades e urgências
da sociedade, neste divisor da história.