 |
Agência Informes, 8
de março de 2009
Fator previdenciário:
relator agenda debate com centrais sindicais
O deputado Pepe Vargas (PT/RS) apresentou à Comissão de
Finanças e Tributação Requerimento 161/09, que solicita
a realização de três audiências públicas
nos dias 24 e 26 de março, com representantes das centrais sindicais,
entidades patronais e do Governo, para discutir o PL 3.299/08, que extingue
o fator previdenciário.
O requerimento deve ser apreciado pela Comissão na próxima
reunião do colegiado, quarta-feira (11).
O parlamentar foi designado relator do projeto de lei do senador Paulo
Paim (PT/RS) em novembro de 2008, e desde então tem se reunido
com diversos segmentos da sociedade na busca de um entendimento sobre
a matéria.
A proposta de realização das audiências públicas
na comissão ficou acertada durante o encontro no Ministério
da Previdência Social, com representantes do Governo e centrais
sindicais, que aconteceu no dia 4 de fevereiro.
O relator avalia que existe a necessidade de ampliar a discussão
na Câmara, pois se trata de matéria relevante, que busca
corrigir um dispositivo que não alcançou, na prática,
os objetivos para os quais foi instituído e que atualmente penaliza
aos trabalhadores do Regime Geral da Previdência Social no momento
de sua aposentadoria.
Ele entende "ser imprescindível que todos os membros do
Colegiado, tenham também a oportunidade de observar o posicionamento
de cada grupo interessado no tema, como subsídio para o posicionamento
de todas as bancadas à apreciação das proposições
em plenário".
|
Correio Braziliense, 8 de
março de 2009
Setores imunes à crise
mundial: alimentos, bebidas, higiene e limpeza
A turbulência no mercado financeiro não
afetou os gastos com alimentos, bebidas e produtos de higiene
e limpeza no país. No último trimestre de 2008,
as compras das mercadorias cresceram 11%
O consumo de bens não duráveis atravessou ileso um dos
períodos mais críticos da crise econômica internacional.
Pesquisa da LatinPanel, instituto especializado em investigar tendências
do varejo, mostra que nos últimos três meses de 2008 o
volume de compras das famílias brasileiras com alimentos, bebidas,
produtos de higiene pessoal e limpeza cresceu 11% na comparação
com o trimestre anterior.
O resultado surpreendente reforça a tese de que os setores
responsáveis por essas cadeias serão os menos afetados
pela queda na produção e no emprego industriais.
A LatinPanel colhe informações semanalmente junto a
8,2 mil domicílios em todos os estados do país. As 70
categorias de produtos analisadas representam, de acordo com a consultoria,
91% do potencial de consumo domiciliar do Brasil.
Todos os grupos de produtos pesquisados registraram resultados positivos
no segundo semestre do ano passado - só a cesta de bebidas registrou
um avanço de 17% em volume consumido. As demais cresceram na
casa de um dígito. Os dados foram divulgados ontem.
Christine Pereira, diretora comercial do instituto, explicou que o
consumidor deixou de gastar com itens considerados caros para não
abrir mão do básico. O fenômeno foi maior nas famílias
da classe C. "Elas estão com o bolso mais apertado do que
os públicos A e B. Ainda assim, mantiveram o consumo em alta",
reforçou.
De acordo com o levantamento, o último trimestre de 2008 foi
tão positivo que respondeu por 28% das vendas dos grupos de
produtos analisados, contra 26% do resultado geral apurado em 2007.
Christine Pereira justificou que o ano passado foi o "ano das
classes [estratos] A e B". "Foram essas famílias que
sustentaram o consumo", completou.
Na comparação ano a ano, porém, o crescimento
do consumo em 2008 foi mais tímido do que o registrado em 2007.
O salto de apenas 2% ficou longe dos 4% verificados na virada de 2006
para 2007.
Apesar das notícias ruins, os brasileiros consultados apostam
em um 2009 regular. Dos entrevistados, 28% responderam que o ano será melhor
que 2008, enquanto que 39% acreditam que, na pior das hipóteses,
o cenário será o mesmo que o do ano passado.
O restante (33%) espera dias piores. Em relação à situação
econômica pessoal, 58% acreditam em melhora. No entanto, a lista
de cortes já tem prioridades. A principal, conforme a maioria
dos entrevistados (82%), é não contrair novas dívidas.
|
MTE, 8 de março de
2009
Grupos móveis
terão sistema informatizado para cálculos trabalhistas
A coordenação do Grupo Móvel
de Combate ao Trabalho Escravo está desenvolvendo
um sistema para facilitar os auditores do Ministério
do Trabalho e Emprego durante as ações de fiscalização.
Segundo a secretária de Inspeção do
Trabalho, Ruth Vilela, o software em desenvolvimento vai
facilitar as ações, por exemplo, como nos casos
de emissão de guias de seguro-desemprego, no cálculo
das indenizações trabalhistas devidas e na
aplicação dos autos de infração
cometido pela empresas.
"Cabe ao Ministério, a fiscalização e o
combate ao uso ilegal de mão-de-obra, principalmente a submissão
de trabalhadores a condições análogas a de escravo.
Estamos informatizando a fiscalização, para dar melhor
condição de trabalho aos fiscais", afirma a secretária.
Desde quando foi criado em 1995, o Grupo Móvel de Fiscalização
já retirou mais de 32 mil trabalhadores encontrados em situação
análoga a de escravo ou degradante no país, em mais de
2 mil propriedades fiscalizadas, aplicando cerca de 23 mil autos de
infração. Somente no ano passado foram mais de 150 ações.
Em algumas ações a fiscalização chega
a retirar mais de mil trabalhadores e a emissão de guias de
seguro-desemprego e cálculos trabalhistas serão mais
agilizados com o uso do software, segundo informa Ruth Vilela.
|
UNE, 8 de março de
2009
Em todo país,
mulheres saem às ruas para exigir direitos
Em comemoração ao Dia Internacional
de Luta das Mulheres, o 8 de Março, a UNE, entidades
feministas, sindicais e movimentos sociais promoverão,
em todo o Brasil, uma série de atos públicos,
manifestações culturais e ações
de cidadania e prevenção à saúde
e à violência contra a mulher.
Além de reivindicações históricas como
igualdade de direitos, liberdade, autonomia e o fim da violência
contra as mulheres, o 8 de Março deste ano dará destaque às
conseqüências da crise financeira mundial sobre a vida das
mulheres.
Em São Paulo, 40 entidades se unem para realizar, no dia 8,
um ato unificado com o eixo "Nós não vamos pagar
por essa crise! Mulheres livres, povos soberanos!". Além
do desemprego e da redução de direitos trabalhistas,
a crise provoca uma sobrecarga de trabalho para as mulheres.
"A Constituição de 1988 reconheça a igualdade
de direitos entre homens e mulheres, mas não basta alcançarmos
a igualdade na lei, é preciso alcançá-la na vida.
Para isso, é essencial que o Estado propicie políticas
públicas de inclusão e proteção às
mulheres", avalia a presidente da UNE, Lúcia Stumpf.
A manifestação iniciará às 10h, na Praça
Osvaldo Cruz, seguida por uma caminhada pela avenida Paulista até o
Parque do Ibirapuera, onde haverá um ato pela legalização
do aborto, outra das reivindicações desta jornada.
8 de Março do Mercosul
Um dos destaques das mobilizações deste ano será a
realização do primeiro 8 de Março do Mercosul,
organizado por sindicatos de trabalhadores e organizações
feministas do Cone Sul. As atividades conjuntas acontecerão
neste final de semana em Santana do Livramento (RS), que faz fronteira
com a cidade de Rivera, no Uruguai.
Além da questão da violência, o ato binacional
discutirá a defesa de igualdade salarial, a luta por soberania
alimentar, os conflitos agrários e os danos do plantio de eucalipto
na região e os efeitos da crise financeira na vida das mulheres.
Estão previstas atividades a realização de oficinas,
feiras de economia solidária, além do lançamento
da Frente Nacional contra a criminalização das mulheres
e pela legalização do aborto e um grande ato político
no dia 8. A expectativa é de que cinco mil mulheres participem
do 8 de Março do Mercosul.
|
Gazeta do Povo, 8 de março
de 2009
Educação
Filhos são reflexo
do modo de vida dos pais
Pesquisa mostra como o comportamento
e a conduta dos pais interferem no estilo de vida dos adolescentes
A importância dos pais na vida dos filhos foi tema de uma pesquisa
feita com 1.485 adolescentes com idade entre 14 e 17 anos pela Universidade
Federal do Paraná. O estudo confirma que a punição é ineficaz
na educação, porque enfoca o erro. E joga luz sobre a
conduta que os pais devem ter na educação das crianças:
o ideal é saber “dialogar, dizer não, negociar,
estabelecer regras e limites e pedir desculpas para seus filhos”.
A pesquisa mostra o que os filhos pensam de seus pais e suas atitudes,
como o uso da violência na educação – que
só alimenta problemas nas relações sociais –,
aumenta a agressividade, leva à deliquência, ao abuso
de drogas e afeta a autoestima. Nem mesmo as palmadas usadas para corrigir
pequenas travessuras são indicadas pelos especialistas. São
consideradas um fator de risco.
Segundo a psicóloga Lídia Weber, pesquisadora da UFPR
e autora de dez livros, há atitudes que são essenciais
na educação dos filhos. Colocar regras consistentes,
lógicas e claras para a criança, oferecer modelos de
comportamento adequado, incentivar a autonomia, ensinar valores morais,
estar presente e ter interesse real pelos filhos, praticar a não-violência
e demonstrar amor, carinho e afeto por gestos e palavras são
as indicações da especialista.
Para a psicóloga Sílvia Losacco, co-coordenadora do
Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Criança e o Adolescente
(NCA) da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, ao educar é preciso manter a coerência entre o
que o adulto pensa, sente e faz nas regras dos relacionamentos, nas
normas institucionais e na legislação. “O exemplo
vem mais das atitudes e menos da verborragia usada com os adolescentes”,
aconselha.
A pesquisa da UFPR revela que entre as crianças com autoestima
elevada, 48% são filhos de pais presentes. Entre os que relatam
baixa autoestima, 46% são filhos de pais omissos. Autoestima
comprometida pode levar a comportamentos antissociais, abuso de drogas
ou depressão. É claro que nem todos os filhos de pais
violentos ou relapsos terão problemas no futuro. Todavia, muitos
adolescentes em conflito com a lei vêm de famílias com
perfis de situação de risco – violência,
omissão e negligência.
Outros dados apontam que pais omissos têm mais chances de ter
filhos envolvidos com mentiras, violência e drogas, o oposto
do que ocorre quando os pais são participativos.
Segundo a pesquisa, entre os que mentem sempre, 68% são filhos
de pais omissos contra 5% que são filhos de pais presentes.
A participação dos pais tem reflexos em ações
cotidianas, como a frequência escolar. Entre os que matam aula
frenquentemente, 43% são filhos de pais omissos, contra 13%
adolescentes criados por pais presentes.
O estudo aponta ainda que o número de usuários de drogas é menor
nas famílias onde há mais atenção: 97%
dos filhos de pais presentes e de autoritários declararam não
ter consumido entorpecentes no último ano. O índice cai
de acordo com a mudança do perfil parental: 92% dos que não
usaram drogas são filhos de pais permissivos, e 82% de pais
omissos. Entre os que admitiram o uso de drogas, 83% dos que consumiram
crack, cocaína ou merla (derivada da cocaína) são
dos filhos de pais omissos.
Longe de casa
Criado sem afeto, limites e valores, Léo (nome fictício),
17 anos, foi pego em flagrante num assalto à mão armada
no começo do ano, no bairro Cristo Rei. “Fiz oito assaltos
em 14 dias para comprar cocaína e também para curtir”.
Ele saiu de casa aos 12 anos, por causa das brigas com o padrasto.
A reabilitação de Léo vai depender da atitude
dos pais. Ele recebeu uma medida socioeducativa em meio aberto (liberdade
assistida e prestação de serviços comunitários),
desde que volte a viver com a família, mas o padrasto ainda
resiste à ideia de recebê-lo de volta na casa em que vive
com a mãe dele e oito irmãos.
Neto (nome fictício), 17 anos, vai ficar pelo menos 45 dias
na Vara do Adolescente Infrator em razão do tráfico de
drogas. O rapaz aprendeu a vender drogas com a avó, a mãe,
o padrasto, as tias e os primos. “Eu tinha 5 anos e a minha avó já vendia
crack e maconha em casa. Ela morreu e as minhas tias assumiram a boca-de-fumo”.
Depois, a mãe dele virou mula do tráfico, viajando de
Foz do Iguaçu (PR) a Brasília (DF). Numa das viagens,
ela foi detida com o filho, com 60 quilos de maconha na bagagem. Neto
sempre viveu na casa dos avós e diz não suportar o padrasto.
A turbulência em casa teve reflexos na vida escolar de Léo
e Neto. Ambos abandonaram a escola na quinta série do ensino
fundamental.
|
Gazeta do Povo, 8 de março
de 2009
Legislação
Assédio moral
permanece impune
Justiça registra crescimento
de denúncias de maus-tratos no ambiente de trabalho.
Falta de regularização, contudo, impede punição
dos culpados
São Paulo - Somente depois de sair da empresa em que trabalhava é que
Estênio Tibério da Costa teve coragem de entrar na Justiça
pedindo reparação por assédio moral. Ele pediu
demissão depois de mais de dois anos de pressão. No final
de 2008 veio a condenação do empregador em primeira instância
e também uma redução da indenização
para menos de 10% do valor inicial, na segunda instância. Os
desembargadores não julgaram que o caso fosse tão grave
quanto avaliou o primeiro juiz.
Para Costa, esse tipo de diferença só é possível
porque ainda não há regulamentação sobre
o que é de fato o crime de assédio moral. Esse também é o
entendimento de 79% dos magistrados da Justiça do Trabalho,
que querem a regulamentação do assédio, de acordo
com uma pesquisa divulgada esta semana pela Associação
Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho.
Hoje, de acordo com o presidente da entidade, Cláudio José Montesse,
a legislação não define o que é o assédio
moral, especialmente no ambiente de trabalho. Segundo ele, a regulamentação
pode facilitar não só que o trabalhador conheça
e busque os seus direitos, mas também que o empregador saiba
quais são os limites que deve respeitar.
“Se você regulamenta, estabelece maior facilidade de identificação
do problema, inclusive para o juiz ”, argumenta o magistrado.
Para ele, embora ainda não seja possível colocar o assédio
moral entre os principais problemas nas relações de trabalho,
essa é a situação que tem sido mais notificada
pelos trabalhadores na Justiça.
|
Gazeta do Povo, 8 de março
de 2009
É tica na política
10 ideias para combater
a corrupção
Especialistas apresentam propostas
para reduzir o desvio de dinheiro público
Vinte anos após o retorno das eleições diretas
para presidente, o Brasil ainda permanece distante de se livrar do
principal inimigo do fortalecimento da democracia: a corrupção.
O tema rouba a cena política de 2009, das obscuras compras de
castelos e mansões aos confrontos éticos do maior partido
do país, o PMDB, passando pelo polêmico retorno do ex-presidente
Fernando Collor de Mello (PTB-AL) ao círculo de poder de Brasília.
Para debater propostas sobre os principais motivos que levam à corrupção
e como combatê-la, a Gazeta do Povo compilou pesquisas nacionais
e internacionais e ouviu especialistas no assunto – entre advogados,
historiadores, escritores, cientistas políticos e representantes
de organizações não-governamentais (ONGs). Eles
levantaram 10 pontos fundamentais para enfrentar o problema.
Na opinião da maioria, a corrupção é algo
entranhado nas estruturas de poder desde o início da colonização
portuguesa e que só vai acabar com o envolvimento generalizado
da sociedade. “Estamos falando de uma cruzada cívica”,
resume o presidente da Comissão Especial de Combate à Corrupção
da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Amauri Serralvo.
1. Mudar as leis, que são permissivas
A legislação brasileira dificulta o combate à corrupção
e, em alguns casos, até a estimula. Os crimes praticados por
corruptos e corruptores têm punições leves. Quem
frauda uma concorrência pública, por exemplo, pode ser
multado e permanecer preso, em regime aberto, por um período
de dois a quatro anos. Já para um roubo comum, a punição
varia de quatro a dez anos de detenção, em regime fechado. “Isso
só aumenta a sensação de impunidade e diminui
o receio de praticar atos ilícitos”, alerta Fernando Knoerr,
professor da Escola da Magistratura do Paraná.
Além disso, a lei prevê inúmeras possibilidades
de recursos judiciais, fazendo com que processos se arrastem ao longo
dos anos. “O recurso é um mecanismo importante para se
evitar possíveis injustiças. Mas, utilizado em excesso,
coloca em xeque a eficácia do Judiciário”, afirma
o promotor de Justiça Mateus Bertoncini, do Ministério
Público Estadual. Por fim, a imunidade parlamentar e o foro
privilegiado para parte dos administradores públicos ajudam
a disseminar a ideia de impunidade.
2. Reduzir o número de cargos comissionados
O governo federal tem quase o dobro de funcionários comissionados
(20.420) do que a soma de EUA (9.000), Alemanha (500), França
(500) e Inglaterra (300). Só no governo do Paraná são
outros 3,6 mil e na, prefeitura de Curitiba, 458. A quantidade exagerada
de pessoas que estão no serviço público por indicação
política, sem prestar concurso, estimula a troca de favores
e a proliferação de funcionários fantasmas.
O cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília,
diz que, quanto maior a quantidade de comissionados menos eficiente é o
funcionalismo. Segundo ele, o Brasil peca por não criar instrumentos
de controle nessa área. “O Lula pode nomear livremente
um exército de funcionários, enquanto o Obama (presidente
dos EUA) precisa da aprovação do Senado para, pelo menos,
dois mil cargos.”
3. Melhorar o controle público
Exigidos por lei, os órgãos de controle da administração
pública deveriam cobrar dos outros departamentos estatais a
prestação permanente das contas e da aplicação
de recursos. Mas esses órgãos, tanto do Executivo como
do Legislativo, acabam sujeitos a todo tipo de pressão política.
Os conselheiros dos Tribunais de Contas (TCs), por exemplo, são
indicados pelos governadores e têm de passar pela aprovação
dos deputados. “Os conselheiros estão ali para garantir
boa vida a quem os nomeou. Se os TCs acabassem amanhã, não
fariam falta alguma”, afirma Claudio Abramo, diretor-executivo
da ONG Transparência Brasil.
Segundo especialistas, falta ainda eficácia na atuação
do Ministério Público e da Justiça.
4. Mudar o sistema de emendas individuais
As emendas individuais aos orçamentos públicos consolidaram-se
como um dos principais instrumentos de barganha do Poder Executivo
com o Legislativo, nas esferas municipal, estadual e federal. No Congresso,
por exemplo, a cada sessão importante – como no caso da
prorrogação da CPMF em 2007 –, a liberação
de verba para as emendas é usada pelo governo federal como moeda
de troca para ter apoio no Legislativo.
Por ano, cada um dos 594 congressistas tem direito a indicar R$ 10
milhões em obras para seu estado ou municípios de sua
base em emendas – uma brecha para a utilização
de dinheiro público para fins eleitoreiros. O governo, porém,
não tem obrigação de pagar os pedidos. Isso dá margem
a negociatas.
“Enquanto não for revista a maneira como ocorre a distribuição
de recursos na relação entre municípios, estados
e União, a corrupção não vai diminuir”,
afirma o professor de Ética e Filosofia Política Roberto
Romano, da Unicamp. Especialistas citam duas soluções
para o problema: acabar com as emendas individuais, partindo do princípio
de que os deputados não têm conhecimento técnico
para definir qual a prioridade na aplicação dos recursos;
ou implantar um sistema de orçamento impositivo, no qual o governo é obrigado
a pagar os recursos estabelecidos na Lei Orçamentária.
5. Aumentar a transparência no poder público
Os brasileiros, em geral, têm dificuldade para obter informações
no poder público. A maioria dos órgãos estatais,
por exemplo, simplesmente ignora a internet como instrumento de divulgação
de informações. É o caso, por exemplo, de 377
das 399 câmaras de vereadores do Paraná, além da
Assembleia Legislativa do estado. “A transparência é indiscutivelmente
o maior inimigo da corrupção. Muitos políticos
sabem disso e, por isso, têm tanto medo de divulgá-las”,
afirma o diretor da ONG Contas Abertas, Gil Castelo Branco. A entidade
tem apenas três anos e, juntamente com a Transparência
Brasil, é uma das poucas especializadas na divulgação
dos gastos públicos.
6. Agilizar a Justiça
A estrutura da Justiça brasileira evoluiu pouco nos últimos
anos – em virtude, principalmente, de déficits orçamentários – e
não tem conseguido acompanhar o aumento no número de
processos. “A carência de estrutura reflete na demora dos
julgamentos, que acabam caindo na impunidade. Isso incentiva ainda
mais a corrupção”, diz o advogado Fernando Gustavo
Knoerr.
Segundo o promotor de Justiça Mateus Bertoncini, os tribunais
não estão estruturados de maneira adequada para julgar
casos de corrupção. Os 120 desembargadores paranaenses
(responsáveis pelo julgamentos de segundo grau), além
de atuarem na capital – muitas vezes, longe do local dos acontecimentos –,
são insuficientes para fazer o mesmo trabalho dos 568 juízes
de primeiro grau.
7. Dar mais transparência ao financiamento das campanhas
eleitorais
Campanhas eleitorais costumam ser financiadas por empresários
e pessoas que têm interesses na administração pública.
E, por vezes, a doação de recursos é uma forma
de exigir uma contrapartida quando o candidato for eleito. Para alguns
especialistas, o financiamento público de campanhas evitaria
a ingerência privada no setor público. Mas nem todos concordam,
pois a prática de caixa 2 nas eleições não
seria eliminada. “Ninguém é capaz de acabar com
a doação de recursos de onde sequer se sabe a procedência”,
afirma o advogado Fernando Gustavo Knoerr. “O dinheiro privado – hoje
no caixa 1 – vai acabar migrando para o caixa 2”, diz Claudio
Abramo, da ONG Transparência Brasil. Alguns especialistas sugerem
que os financiadores tenham de ser conhecidos durante as campanhas
e não após ela, como estabelece a atual lei. Assim, o
eleitor saberia quais são os interesses por trás de cada
candidato.
8. Simplificar o sistema tributário
O Brasil tem hoje 61 tributos, entre impostos, taxas e contribuições.
O sistema é considerado um dos mais complexos do mundo, o que
estimula a corrupção. “Quem apresenta dificuldade
quer vender facilidade”, diz o presidente do Instituto Brasileiro
de Planejamento Tributário, Gilberto Amaral. Além da
grande quantidade de tributos, o modelo brasileiro sofre também
com o excesso de leis. “Posso assegurar que não existe
hoje nenhuma pessoa no Brasil, por mais qualificada que seja, que conheça
toda a nossa legislação tributária”, diz
Amaral. E os erros de declaração costumam ter multas
elevadas, o que estimula a corrupção. A solução
seria uma profunda reforma tributária que simplificasse as regras.
9. Deixar o “jeitinho brasileiro” de lado
O famoso “jeitinho brasileiro” surgiu de maneira positiva,
como uma forma de o povo se adaptar às dezenas de situações
adversas do país. Porém, ele passou a ser usado com outros
fins, para se conseguir vantagens pessoais, passando por cima das leis.
Para o promotor de Justiça Mateus Bertoncini, o “jeitinho” carrega
forte individualismo e ausência de consciência coletiva,
que podem derivar para atos ilícitos e corrupção.
O cientista político Carlos Luiz Strapazzon, do Unicuritiba,
destaca ainda que não existem corruptos sem corruptores e, portanto,
parte da sociedade também está envolvida em atos ilícitos
ligados ao poder público. Portanto, investir na educação – sobretudo
das crianças – é o caminho para mudar essa mentalidade.
10. Estimular a participação do brasileiro na
política
O brasileiro tem uma tendência a não se envolver nos
assuntos públicos, fruto do paternalismo herdado das origens
ibéricas do país. “O Estado sempre foi visto como
o provedor da população, como um organismo dissociado
do cidadão comum”, diz o escritor Laurentino Gomes, autor
do livro 1808, que narra a chegada da família real portuguesa
ao Brasil. Duzentos anos depois, a falta de envolvimento da sociedade
ainda é um dos principais problemas do combate à corrupção. “Estamos
falando de uma cruzada cívica. Se o povo não denunciar,
se não deixar de lado atitudes consideradas banais como comprar
produtos piratas, a corrupção vai vencer”, avalia
o presidente da Comissão Especial de Combate à Corrupção
da Ordem dos Advogados do Brasil, Amauri Serralvo.
|
Gazeta do Povo, 8 de março
de 2009
Indústria moveleira
Feira começa
hoje em Arapongas
Expectativa é que 40
mil pessoas visitem a sétima edição
da Movelpar, que contará este ano com 190 expositores
das principais indústrias do país
A sétima Feira de Móveis do Paraná – Movelpar
2009 – apresenta a partir de hoje os lançamentos da indústria
e abre o calendário do varejo moveleiro nacional. A feira reúne
em Arapongas, no Norte do estado, 190 expositores das principais empresas
de todo o país. A expectativa é receber 40 mil pessoas
diretamente ligadas ao setor moveleiro, bem como a visita de importadores
provenientes de 15 países para as rodadas de negociação
que serão realizadas no evento. A previsão oficial para
o volume de negócios fechados durante a feira é bastante
otimista e supera os R$ 350 milhões – a última
edição, em 2007, registrou negócios da ordem de
R$ 300 milhões.
A abertura oficial da feira será às 12h30, com a presença
de representantes de associações e entidades do setor
no Brasil, entre eles o presidente da Associação Brasileira
do Mobiliário (Abimóvel), José Luiz Diaz Fernandes,
e o vice-governador do Paraná, Orlando Pessuti.
Durante a feira ocorre também o Projeto Comprador Internacional,
no qual estão confirmados 23 importadores de móveis provenientes
da África do Sul, Costa Rica, Índia, México, Marrocos,
Jordânia, Moçambique, Venezuela, Peru, Sérvia,
El Salvador, Equador, Emirados Árabes, Guatemala e Rússia.
Realizado pelo centro de eventos Expoara e pelo Sindicato das Indústrias
de Móveis de Arapongas (Sima), em parceria com a Apex Brasil
e programa Brazilian Furniture, da Abimóvel, o Projeto Comprador
incentiva a comercialização dos móveis nacionais
para o mercado externo. Nas rodadas de negócios, as empresas
nacionais terão a oportunidade de expor seus produtos e aumentar
a participação do setor nacional no exterior. Além
de participarem das rodadas, os importadores poderão conhecer
fábricas localizadas na região. Na última edição
da Movelpar, realizada em 2007, o Projeto Comprador realizou 825 rodadas,
que geraram cerca de US$ 4,2 milhões em negócios imediatos.
A Movelpar 2009 conta também com um espaço específico
para abrigar 32 protótipos de móveis criados por designers
de várias partes do país, selecionados pelo comitê técnico
da quinta edição do Prêmio Design Movelpar. Na
mostra, empresários visitantes poderão ter novas ideias
para o desenvolvimento de móveis com foco no eco-design. O prêmio
terá as colocações de 1º ao 3º lugar
e está dividido em três categorias de móveis – residência,
escritório e móveis especiais. As modalidades são
de estudante, profissional e indústria.
|
Folha de S.Paulo, 8 de março
de 2009
Disputa antecipada por
2010 já preocupa Justiça Eleitoral
Reclamações
de governo e oposição levam tribunais a analisar
propaganda fora de hora
Apesar de a lei não apontar objetivamente
o que é ilegal, cortes fazem distinção entre "atos
de campanha" e "atos de promoção pessoal"
FLÁVIO FERREIRA
DA REPORTAGEM LOCAL
As representações da oposição e do governo
contra a suposta realização de propaganda antecipada
pelos pré-candidatos à Presidência Dilma Rousseff
(PT) e José Serra (PSDB) levaram a Justiça e o Ministério
Público a adiantar em cerca de um ano a apuração
de eventuais situações de "queima de largada" para
a eleição de 2010. A publicidade eleitoral só pode
ser feita a partir do dia 5 de julho do ano que vem.
O presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Carlos Ayres Britto,
disse na sexta-feira que este ano vai ser um desafio para o tribunal.
Segundo ele, o ano anterior ao das eleições "tradicionalmente é eleitoralmente
neutro, uma espécie de indiferente jurídico eleitoral,
mas, como os tempos mudam e certos comportamentos podem assumir um grau
de ostensividade eleitoral, vamos ver o posicionamento correto".
DEM e PSDB acusam o presidente Lula e a ministra de usarem encontro com
prefeitos para turbinar o nome da petista. Do lado dos tucanos, o TRE
(Tribunal Regional Eleitoral) do Rio pediu às emissoras de TV
Globo e Bandeirantes dados sobre a propaganda institucional que a estatal
paulista Sabesp veiculou no Estado. Segundo o TRE-RJ, o objetivo da medida
foi armazenar informações para que possa ser avaliada a
eventual caracterização de propaganda pró-Serra.
A antecipação da disputa de 2010 também já preocupa
o Ministério Público Eleitoral. O procurador regional eleitoral
em São Paulo Luiz Carlos Gonçalves diz que "é preciso
fiscalizar atos de promoção pessoal que sejam percebidos
pela sociedade como apresentação de futuro candidato. Para
nós, isso é propaganda antecipada". Segundo decisões
dos tribunais do país, discursos de pré-candidatos voltados
para ações e projetos futuros configuram campanha fora
do prazo.
A lei não aponta uma lista de hipóteses ou critérios
objetivos para a definição do que é ilegal. Porém,
as cortes criaram uma distinção entre os chamados "atos
de promoção pessoal" e os "atos de campanha".
O envio de cartas com dizeres como "Feliz Dia da Mulher" é um
exemplo de promoção pessoal. Condutas como essa são
permitidas se realizadas com recursos particulares. Mas, se as mensagens
possuírem menções a data, plataforma, promessa ou
pedidos como "conto com você em 2010", poderão
configurar ato de campanha.
Ocorre irregularidade também quando os políticos exageram
na participação de eventos pagos pelo poder público
ou no uso de propaganda oficial para inflar seus nomes. Essas ações
são consideradas "abuso de propaganda institucional",
afirma Renato Ventura Ribeiro, advogado e doutor pela USP.
O advogado e ex-presidente do TSE Carlos Velloso diz que "os governos
devem prestar contas de suas realizações, mas, quando esses
atos se tornam repetitivos e indiretamente divulgam a figura do governante
ou do candidato dele, há propaganda institucional abusiva".
Para Velloso, essas situações "quebram o princípio
da igualdade, o equilíbrio que deve existir entre as candidaturas".
O advogado da área eleitoral Ricardo Penteado afirma que "é preciso
levar em consideração as sutis diferenças nas condutas
dos pré-candidatos, que, somadas, vão se tornando grotescos
exageros".
A pena para quem faz propaganda antecipada é multa. Se houver
uso indevido do poder político ou econômico, o crime deve
ser punido com a cassação da candidatura e a inelegibilidade.
Para decidir pela cassação, a Justiça avalia se
as irregularidades alteraram o resultado das eleições.
|
Folha de S.Paulo, 8 de março
de 2009
Crise empurra 88 mil
para o subemprego
Total de subocupados em 6
das maiores regiões metropolitanas sobe 14% desde
outubro; contingente supera 700 mil
Subempregado é aquele que trabalha em período
parcial, como em bicos, apesar da disposição para cumprir
jornadas maiores
PEDRO SOARES
DA SUCURSAL DO RIO
A crise econômica empurrou, entre outubro de 2008 e janeiro
passado, 88 mil pessoas para o subemprego nas seis principais regiões
metropolitanas do país, formando um contingente de 709 mil subocupados,
de acordo com o IBGE. Subocupados são pessoas que buscam trabalhar
mais horas e estão disponíveis para assumir uma jornada
maior imediatamente -para conseguir, provavelmente, uma remuneração
maior-, mas que, diante da crise, só obtêm biscates e
serviços em tempo parcial.
No período entre outubro e janeiro, justamente posterior ao agravamento
da crise, a subocupação acumulou alta de 14,2% em relação
ao total de trabalhadores que estavam nessa condição (621
mil). Em janeiro, o subemprego avançou 11% ante o mesmo mês
do ano anterior e repetiu a tendência já vista em dezembro
-alta de 10,2% nessa comparação, segundo dados da Pesquisa
Mensal de Emprego do IBGE compilados pela Folha.
Foram afetados brasileiros como Gabriela Paiva, 22, que trabalhava na
loja de uma financeira no centro de Niterói, fechada logo após
a crise de crédito detonada no fim do ano passado. Agora, ocupa
parte da semana com a venda de anúncios para um jornal de bairro
e ganha, no máximo, R$ 300 por mês em comissões.
Ela e tantos outros gostariam de trabalhar mais, mas o mercado se fechou
especialmente desde dezembro.
" O crescimento da subocupação se intensificou em dezembro
[ante o mesmo período de 2008] e já evidencia que é um efeito
da crise no mercado de trabalho metropolitano, que, olhando para os demais indicadores,
só começou a piorar a partir de janeiro", diz Fábio
Romão, especialista em trabalho da consultoria LCA.
Segundo ele, o contingente de subocupados historicamente sempre vai na
direção oposta à da ocupação: cresce
em tempos de desaceleração ou mesmo de queda do emprego.
Foi assim na recessão de 2003 e o quadro se repete agora, ainda
que com menor intensidade. Em janeiro daquele ano, esse grupo de trabalhadores
chegou ao pico de 1 milhão de pessoas.
Nos meses finais de 2008, a ocupação já dava sinais
de enfraquecimento, tendência que se intensificou neste ano. Em
janeiro, subiu 1,9% ante o mesmo mês de 2008 -abaixo da média
do ano passado, de 3,4%. De dezembro para janeiro, o total de ocupados
caiu 1,6%.
Segundo estudo do Ipea, até 70% dos informais gostariam de trabalhar
mais. Outro dado indica que a maioria dos subocupados está nas
faixas mais baixas de renda obtida. " O crescimento da subocupação
mostra uma deterioração do mercado de trabalho e uma piora
da qualidade do emprego, o que costuma acontecer em períodos de
crise", afirma Romão, da LCA.
Já Cimar Azeredo Pereira, gerente da pesquisa do IBGE, diz que
o crescimento da subocupação pode ser um sinal da crise,
mas ressalta que é preciso observar outros meses para que seja
confirmada a tendência de piora. Tal opinião é compartilhada
pelo especialista Lauro Ramos, do Ipea.
Romão diz que, nas metrópoles, os sinais da crise no mercado
de trabalho só se tornaram mais evidentes em janeiro, quando a
ocupação caiu e o desemprego cresceu. Ele prevê um
cenário mais negativo neste primeiro trimestre, quando as demissões
vão se intensificar no setor de serviços, o que mais emprega
nas grandes regiões metropolitanas.
Outro possível indício da deterioração do
mercado de trabalho, diz Romão, é o aumento do contingente
de trabalhadores sem remuneração -de 6,3% e 5,6%, respectivamente,
nos meses de dezembro e janeiro frente aos meses imediatamente anteriores.
Esse grupo é composto por membros secundários (filhos e
cônjuges) que ajudam o chefe da família -em geral, um trabalhador
por conta própria- no seu negócio.
"Esse crescimento pode ser mais um sintoma da crise. Acredito que o trabalho
não-remunerado tende a se expandir ao menos neste primeiro trimestre",
diz o analista.
|
Folha de S.Paulo, 8 de março
de 2009
Além da jornada,
redução da renda caracteriza subocupado
DA SUCURSAL DO RIO
A perda de renda é uma característica de quem foi forçado
a migrar para a subocupação, entre trabalhadores de diferentes
setores e níveis sociais e de instrução. A diarista
Maria José Costa, 32, foi dispensada de um dia de trabalho no
final do ano passado.
" A minha patroa me chamou e disse que não tinha mais como me pagar
dois dias na semana. Ela é psicóloga e disse que perdeu alguns
pacientes e ficou apertada. Só fiquei trabalhando um dia por semana para
ela. Também fui dispensada de outra casa por outro motivo. No ano passado,
estava com os cinco dias. Agora, só trabalho três dias na semana",
conta.
Maria diz que ganha pouco mais de um salário mínimo (hoje
em R$ 465) e só de aluguel paga R$ 300. "Está muito
difícil. Senti mesmo no bolso essa tal crise", afirma ela,
que mora na Vila do João, comunidade carente em Bonsucesso (zona
norte do Rio).
Gabriela Paiva conta que, quando trabalhava em uma financeira, ganhava
R$ 700 por mês. Agora consegue, no máximo, R$ 300 com a
venda de anúncio em um jornal de bairro de Niterói, onde
mora.
"É mais um bico, na verdade, só para ter algum dinheiro enquanto
não arrumo nada melhor. Mas o dinheiro nem dá para pagar a faculdade.
Dependo da ajuda dos meus pais", diz ela, no último ano de publicidade.
Paulo Henrique da Silva, 25, morador de Del Castilho (zona norte do Rio),
era operador de telemarketing. Saiu do emprego em janeiro e hoje é recepcionista
de eventos numa casa de shows. Ganha entre o piso de R$ 50 e até R$
200 por evento.
|
Folha de S.Paulo, 8 de março
de 2009
Dilma anuncia casa com
prestação zero para a baixa renda
Em palanque na Bahia, ministra
diz que "quem não puder pagar nada não
pagará nada" no pacote habitacional preparado
pelo Planalto
Alvo do programa serão as famílias
com renda de até dez mínimos que pagam aluguel; meta é construir
1 mi de casas em dois anos
FERNANDA ODILLA
ENVIADA ESPECIAL A FEIRA DE SANTANA
A ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) anunciou ontem, no interior
da Bahia, que o novo programa de habitação do governo
federal não vai cobrar nada de quem tem renda zero.
" Quem não puder pagar nada não pagará nada. Mas haverá um
esforço para todo mundo contribuir, nem que seja simbolicamente, com a
prestação", disse em discurso em Feira de Santana (BA) após
visitar construção de casas populares do PAC (Programa de Aceleração
do Crescimento) na periferia.
Num palanque improvisado no canteiro de obras, a ministra pediu, ao lado
do governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), que os prefeitos deem início
ao cadastro do público-alvo do programa: famílias com renda
entre até dez salários mínimos que vivem de aluguel.
Amanhã, ela se reúne com prefeitos de capitais e de grandes
cidades para discutir o programa de construção subsidiada
de 1 milhão de casas em dois anos.
Ontem, Dilma antecipou detalhes do "bolsa habitação".
Serão dois padrões de casa: um modelo popular, para quem
ganha até três salários (R$ 1.395), e um superior,
para quem tem renda de até R$ 4.650. O valor máximo do
imóvel será R$ 130 mil. A ministra disse que as prestações
serão de até 20% da renda. Assim, quem ganha dez mínimos
pagará, no máximo, R$ 930 de prestação. O
financiamento será de 20 anos.
" Até três salários mínimos vai pagar o que puder. É uma
prestação simbólica, ou seja, não serve para cobrir
o custo, mas é importante como compromisso da pessoa que está entrando
no imóvel que vai ser dela. Nas outras faixas, haverá um limite
de comprometimento da renda e, mesmo assim, nas faixas de renda mais baixas,
que não são essas de zero a três [salários mínimos],
vai haver um subsídio significativo."
À noite, já em Salvador, após a Folha pedir mais detalhes
sobre a prestação zero, Dilma disse que as casas não serão
grátis. Afirmou que o governo vai cobrar valores "irrisórios" dos
mais carentes, por achar que é importante a família assumir um
compromisso de quitar o imóvel próprio. Mas ressalvou que "quem
ganha zero, não tem como pagar", ponderando que essa será uma
parcela muito pequena dos beneficiados.
Diferentemente do que o presidente Lula disse em Vitória na sexta,
Dilma afirmou que não haverá cobrança de taxas antes
da entrega das chaves. "As pessoas pagarão só a partir
das chaves em todas as hipóteses. Não paga nada antes de
entrar." Lula disse que seriam cobradas prestações
simbólicas até as famílias se mudarem para, então,
passarem a pagar as prestações da casa própria.
O programa não se limita aos subsídios que vão assegurar
prestações simbólicas. As famílias na faixa
até dez salários mínimos contarão com o Fundo
Garantidor, que terá cerca de R$ 500 milhões do Tesouro
e vai bancar prestações dos mutuários que ficarem
desempregados. Os mutuários com renda até três salários
mínimos poderão suspender o pagamento das prestações
por até 36 meses, mas terão de quitá-las ao fim
do contrato. Para a faixa de até cinco salários, o Fundo
honrará até 24 meses; no grupo até dez mínimos,
12 meses.
Foi a forma que o governo encontrou para encorajar os bancos a conceder
financiamentos a profissionais autônomos, com dificuldade de comprovar
renda. Embora as medidas priorizem a população de baixa
renda, a classe média também será beneficiada.
Está em estudo ampliar o limite do valor dos imóveis que
podem ser pagos com o FGTS do mutuário. O valor deve passar de
R$ 350 mil para R$ 600 mil.
|
Folha de S.Paulo, 8 de março
de 2009
Empresas veem classe C
como saída da crise
Com maior capacidade de recuperação
em cenário econômico adverso, grupo de renda
menor é alvo de onda de lançamentos
Investimentos levam em conta consumo crescente dessa
faixa de renda e até migração de compras das classes
A e B com a crise
DENISE MENCHEN
JANAINA LAGE
SAMANTHA LIMA
DA SUCURSAL DO RIO
Apontada por especialistas como a fatia do mercado mais resistente
aos efeitos da crise, a classe C tem sido alvo de uma nova onda de
produtos e marcas específicas lançados para atender a
esse segmento. Muitos investimentos foram planejados antes da crise,
mas as empresas decidiram ir em frente porque apostam na capacidade
de consumo desse grupo e na migração do consumo das classes
A e B para itens mais populares.
Pesquisa inédita, feita pela agência McCann Erickson, que
investiga as tendências do consumo na classe C, mostra que esses
consumidores não estão mais em busca do acesso a bens,
mas, sim, da melhoria de qualidade. "Essas pessoas já têm
eletrodomésticos, além de uma despensa e uma geladeira
sortidas e, agora, evoluíram. Não basta dizer, agora, "você pode
ter determinada coisa", mas sim "você pode ter a melhor'",
diz Aloísio Pinto, vice-presidente de Planejamento da McCann Erickson.
Um exemplo está na alimentação. Para 38% das mil
famílias entrevistadas em São Paulo, Recife, Rio de Janeiro,
Porto Alegre e Goiânia, o valor nutricional é o item mais
importante em um produto. Para 82% dos entrevistados, nutritiva é a
comida preparada em casa, onde 76% fazem sua principal refeição,
o jantar.
A pesquisa, que será divulgada nesta semana, mostra ainda que
a posse de eletroeletrônicos é associada por 82% dos entrevistados
a lazer para toda a família. "Isso compensa a falta de opções
nos bairros", diz. De acordo com Haroldo Torres, diretor do instituto
Data Popular, a classe C tem maior capacidade de recuperação
em um cenário de crise.
"É um consumidor com perfil mais flexível de inserção
no mercado de trabalho. É o policial que dirige táxi ou é vigilante à noite, é a
dona-de-casa que vende comida, pessoas que se viram na crise", disse. Ele
ressalta que a classe A foi duplamente afetada pela crise global, tanto com a
perda de vagas em cargos executivos como com as perdas na Bolsa de Valores e
em fundos de investimento.
Isso explica a nova onda de lançamentos voltados para a classe
C, apesar da crise. "Quem vende para as classes A e B têm
um mercado de 20 milhões de pessoas. Mesmo que também sofra
com a crise, a classe C é um grupo quatro vezes maior. Saber vender
para eles é questão de sobrevivência", diz o
consultor de varejo Roberto Meir.
Curioso é que nenhuma empresa tradicionalmente focada nos segmentos
A e B quer atender a classe C pela sua marca principal. "Não
podemos correr o risco de mandar a mensagem errada para nosso público
A e B", afirma Ronaldo Marcolin, diretor comercial da Única,
fabricante dos armários Dell Ano, que acaba de lançar a
linha New, mais barata.
Curinga
Na incerteza econômica, ter produtos de qualidade para a classe
C pode ser um curinga para as empresas. "Se a economia piorar, o
consumidor da classe B vai comprar esse produto. Quando melhorar, a classe
D ascende", diz o consultor de varejo Marcos Quintarelli.
Conquistar o público C para quem sempre vendeu para a classe AB
não é simples. "É preciso falar a língua
desse público, oferecer bom atendimento e investir em qualidade
e design, para que o público valorize o produto. Se a comunicação
se mantiver sofisticada, o produto vai ser rejeitado. Se não investir
na qualidade, o público não vai desejar o produto",
diz Quintarelli.
|