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AEN, 15 de março de 2009
PR: novo desafio é aprovar
mínimo regional, diz secretário do Trabalho
O Paraná sai na frente de outros estados brasileiros na defesa
dos empregos em meio à crise econômica global disse, na última
sexta-feira (13), o secretário do Trabalho, Emprego e Promoção
Social, Nelson Garcia.
"Com o Comitê em Defesa do Trabalho e do Emprego, vamos
trabalhar juntos, pois se tivéssemos trabalhado junto à Assembleia
Legislativa, não teríamos perdido a (votação
da) emenda constitucional que vincula incentivos fiscais a empresas à manutenção
de empregos. Mas já temos um novo desafio pela frente - aprovar
o piso salarial regional", falou.
"A emenda precisava ter sido aprovada, pois neste momento de
crise a população espera medidas que garantam empregos.
Nossa primeira ação vai ser denunciar os deputados
que votaram contra a proposta", afirmou o presidente estadual
da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Roni Barbosa.
"Os deputados que não permitiram a aprovação
da emenda votaram contra o trabalhador e contra o pai de família",
reforçou o diretor da Força Sindical do Paraná,
Nelson Silva de Souza.
Para o presidente da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB),
Juvenal Pedro Cim, a derrota da emenda é um duro golpe a favor
do desemprego. "Mesmo com a crise, nem todos vão ser
demitidos, mas o clima da demissão deixa todos apreensivos.
A emenda seria um instrumento de garantia do emprego para o trabalhador",
frisou.
Para o presidente da Nova Central Sindical, Ernane Garcia Ferreira,
a atitude dos deputados que votaram contra a PEC e dos que se ausentaram
no dia da votação é "lamentável". "Os
parlamentares serão cobrados pelos trabalhadores", disse.
O presidente do Conselho Estadual do Trabalho, Carlos Zimmer, falou
o resultado da votação é fruto da falta de organização
da sociedade. "Deveríamos estar dentro da Assembléia
Legislativa no momento da votação", explica. "Agora
vamos trabalhar para que essa situação seja revertida,
apresentando propostas que garantam os direitos dos trabalhadores."
"Este é um momento crucial para propor medidas para
a defesa do emprego e geração de renda ao mesmo tempo
de forma a fortalecer o capital produtivo. A coerência técnica
e o foco na diminuição das desigualdades sociais irão
permear nossas ações", falou o presidente do Instituto
Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes),
Carlos Manuel dos Santos.
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Agência Senado, 15
de março de 2009
Monetarismo: reduzir
a folha para salvar empresas e empregos
A diminuição de tributos foi uma das
ideias discutidas nesta quinta-feira (12) em audiência
pública conjunta da Comissão de Assuntos Econômicos
(CAE) com a Comissão de Acompanhamento da crise financeira
e da Empregabilidade. Para dois economistas presentes, a
desoneração poderia fomentar a atividade econômica
prejudicada pela crise global de crédito.
A proposta não é nenhuma novidade vindo
de economistas da PUC/RJ. É a velha retórica
monetarista de sempre. Para resolver o problema das crises
do capitalismo, os monetaristas sempre propõem as
soluções cíclicas.
Na verdade, o movimento é outro - anticíclico
- pois, a redução de salário, a não
ser em casos muito especiais, que devem ser vistos individualmente, é exatamente
o contrário. É o aquecimento do mercado interno,
que possibilitará que o País transite pela
crise com menos ônus possível para os trabalhadores
e a renda das famílias.
Contribuições sobre
a folha de salários
" Eu alocaria o máximo de dinheiro que eu pudesse para sustentar
a redução das contribuições sobre a folha de salários",
receitou o professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro (PUC/RJ), José Márcio Camargo.
Ele disse acreditar que, com a folha salarial mais barata,
as empresas preservariam e ampliaram os empregos. O resultado
para economia como um todo seria o estímulo ao consumo
e à produção.
Mas o economista ponderou que esse investimento no emprego
não poderia levar o Governo a abandonar as metas
de poupança do superávit primário,
essenciais para dar credibilidade ao país e garantir
o seu financiamento externo.
Camargo lembra que os Estados Unidos, a Europa e o Japão
atrairão o grosso dos recursos disponíveis
como forma de financiarem seus rombos financeiros. Tampouco
seria sensato, de acordo com o professor da PUC, aumentar
o déficit da Previdência Social.
"Saudável"
Na opinião do economista Marcos de Barros Lisboa, da Fundação
Getúlio Vargas (FGV/RJ), a ideia de reduzir o custo da folha
salarial "é saudável". Os recursos necessários
para compensar a queda de arrecadação previdenciária
poderiam ser conseguidos com a diminuição dos gastos
correntes do Governo.
O ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega é cético
em relação a medidas de cunho fiscal para
contrabalançar os efeitos da crise. No entender
dele, dificilmente se poderiam mobilizar recursos orçamentários
quando 90% das verbas estão vinculadas a destinações
obrigatórias.
Os economistas presentes ao encontro, incluindo o também
professor da FGV-RJ Luiz Guilherme Shymura de Oliveira,
recomendaram a insistência em reformas estruturais,
algumas a cargo do Congresso Nacional, como uma forma de
o Brasil diminuir os riscos de sua economia e obter vantagens
na disputa por créditos e investimentos.
O senador Delcídio Amaral (PT/MS) mencionou a necessidade
de se avançar na definição dos marcos
regulatórios do setor de infraestrutura e do papel
das agências reguladoras. E o economista Marcos Lisboa
defendeu a aprovação pelo Senado do projeto
que altera a lei de concorrências e reestrutura o
Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Na Câmara dos Deputados, a matéria foi aprovada
em dezembro do ano passado com o número PLC 3.937/04.
Para Mailson, se o Brasil seguir a trilha de reformas
iniciadas ainda no Governo do presidente José Sarney,
com redefinição do papel do Banco Central
e dos bancos oficiais, poderá garantir que a queda
nos juros não seja um efeito passageiro da crise
atual. Para ele, é possível que até o
fim do ano a taxa básica de juros, a Selic, esteja
em 9% ao ano e a taxa de juros real, em 5%.
O senador Tasso Jereissati (PSDB/CE) reclamou da falta
de crédito e apontou a concentração
bancária como um fator impeditivo da diminuição
dos juros. Já o senador Eduardo Suplicy (PT/SP)
voltou a pregar a instituição de um programa
de renda mínima.
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Gazeta Mercantil, 15 de março de
2009
‘Ajustes’:
Sony mantém preços no Brasil às
custas de demissões
Para conseguir segurar os preços dos televisores, impactados
pela alta do dólar no final do ano passado, a japonesa Sony
optou por cortar custos internos.
Segundo William Lima, gerente da linha de televisores da multinacional,
a empresa buscou diversas maneiras para fazer os ajustes e entre
eles estavam as demissões.
Lima disse que apesar de um final de ano turbulento, marcado por
uma série de demissões - 1,1 mil, segundo o Sindicato
dos Metalúrgicos de Manaus - a empresa fechou o ano com crescimento
da divisão de televisores.
No início do ano passado, a previsão da empresa era
dobrar a produção de televisores no pólo de
Manaus. Lima afirmou que a Sony conseguiu ultrapassar esse objetivo.
No entanto, segundo informações do sindicato, a fabricante
fechou 2008 com produção 30% menor que a registrada
no início desse ano.
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Agência Estado, 15
de março de 2009
Para analistas, plano
habitacional terá impacto no PIB e em 2010
Os efeitos do plano habitacional sobre a economia
só serão sentidos a partir do segundo semestre
e o impacto do programa será de 0,2 ponto porcentual
(ou 0,2% de aumento) do Produto Interno Bruto (PIB), nos
cálculos de economistas do Governo. A maior contribuição
do programa para a reativação da economia e
a entrega das casas à população ocorrerá em
2010, em plena campanha eleitoral para a sucessão
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Os detalhes do programa serão finalizados na próxima
semana, quando Lula dará a palavra final sobre o
nível do subsídio e a forma de participação
dos governadores e prefeitos.
No momento, prevalece a tese de não repassar recursos
diretamente aos governadores. Eles se juntariam ao esforço
do Governo federal, organizando a demanda nos Estados e
municípios. Prevalecendo esse entendimento, os governadores
e prefeitos é que diriam quem e qual região
deveriam ser beneficiados pelo programa, observando as
regras gerais que serão ditadas pelo Planalto.
A percepção do Planalto é que haverá "uma
guerra entre os governadores" para se integrarem ao
plano habitacional para construção de 1 milhão
de casas. "Todos poderão faturar politicamente
a obra", disse uma fonte.
O Governo estimula a adesão de Estados e municípios
e acena com facilidades e agilidade na contratação
dos projetos para quem puder ceder terrenos para a construção.
O modelo do programa considera como prioridade o atendimento à população
de baixa renda, embora contemple benefícios para
a faixa de até 10 salários mínimos.
Quanto mais pobre, maior o subsídio. A soma de recursos
do Governo no programa ainda não está definida
e dependerá das novas estimativas para a arrecadação
deste ano. Por causa da forte desaceleração
da economia, a queda na arrecadação é maior
do que a projetada inicialmente.
Os técnicos do Governo estão finalizando
as discussões na expectativa de que o presidente
Lula possa anunciar o pacote ainda este mês.
A filosofia do programa e as alternativas para um maior
ou menor nível de subsídio estão definidas,
dependendo, apenas, das novas projeções de
receita para este ano. As informações são
do jornal O Estado de S.Paulo.
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Gazeta do Povo, 15 de março de 2009
Conjuntura
Um nó ainda longe de ser desatado
Seis meses se passaram desde a quebra do
Lehman Brothers. Trilhões de dólares foram colocados
no sistema financeiro mundial. Mas, até agora, nada de solução
para problemas centrais da crise
Seis meses após a quebra do gigante banco norte-americano
Lehman Brothers e alguns trilhões em gastos aprovados em todo
o mundo na tentativa de estancar a sangria dos mercados, o principal
nó de uma das maiores crises econômicas da história
ainda não foi desatado. Ninguém sabe o que fazer com
os títulos “tóxicos” (aqui chamados de
podres) que originaram perdas de trilhões de dólares
ao sistema financeiro global, o que acabou contaminando a economia
como um todo. Nem como devolver a este sistema um ingrediente que
sumiu do mapa desde o dia 15 de setembro do ano passado: a confiança.
Há quem diga que a solução passará pela
nacionalização de instituições financeiras
problemáticas nos Estados Unidos – talvez o maior choque
cultural da história recente daquele país. Ou ainda
que os norte-americanos podem buscar no Brasil um belo exemplo para
contornar o problema: o bem-sucedido Proer, colocado em prática
por aqui para resolver o imbróglio bancário dos anos
90.
“ O grande problema foi que a desconfiança mútua
se instalou no sistema financeiro americano, na base das relações,
entre os próprios bancos”, avalia o economista André Biancarelli,
professor de macroeconomia da Unicamp (SP). “A quebra de um
banco do porte do Lehman Brothers foi um grande erro, mas os Estados
Unidos têm essa mania de deixar quebrar. Aquilo acabou transferindo
o problema para todo o mundo, gerou uma desconfiança geral,
e aí todo mundo começou a quebrar”, diz Keyler
Carvalho Rocha, professor de administração da Faculdade
de Economia, Administração e Contabilidade (FEA/USP).
Como, nos últimos meses, a questão da confiança
não melhorou lá muita coisa, os bancos continuam com
o pepino nas mãos. “A não-reativação
do crédito entre os bancos faz com que um banco que tem uma
situação boa rapidamente caminhe para uma situação
de insolvência”, avalia Biancarelli, da Unicamp. Rocha,
da FEA, cita o caso do Citigroup, que figurava impávido no
início da crise e hoje está às mínguas – as
ações, que chegaram a mais de US$ 50, valiam menos
de US$ 2 na última sexta-feira. “Um banco como o Citi
fechar suas portas seria uma catástrofe maior do que a que
a gente já viu.”
Nacionalização
Segundo os economistas, a nacionalização de instituições
financeiras pelo governo norte-americano pode devolver, em parte,
a confiança que se perdeu no mercado. Ou, ainda, pode ser
a única solução. “A Europa já fez
isso, nacionalizou alguns bancos e, na outra mão, injetou
caixa nos bancos, garantindo os depósitos na maior parte dos
lugares. Isso evita uma corrida bancária (para sacar depósitos)”,
exemplifica Roy Martelanc, professor do MBA Banking da Fundação
Institu-to de Administração (FIA).
Ainda assim, ele explica que há grandes questões,
além da cultura do livre-mercado, que dificultam a nacionalização. “A
solução é nacionalizar, tocar um tempo como
público, e depois reprivatizar. Mas há muita dificuldade
em reprivatizar, mesmo porque é uma incógnita. Ao mesmo
tempo, se você é um executivo de uma instituição
que virou pública, não vai ganhar nem perto do que
ganhava antes”, diz Martelanc. O problema também é cultural. “Para
eles isso é quase religião: o governo não pode
ter um banco”, diz Evaldo Alves, professor de Economia Internacional
da Fundação Getulio Vargas (FGV) em São Paulo.
Papéis “tóxicos”
Além da nacionalização dos bancos problemáticos,
resta ainda a questão dos “toxic assets”, ou títulos
podres – aqueles ligados ao crédito “subprime” nos
Estados Unidos, fruto de uma engenharia financeira moderna e que
causaram perdas bilionárias em todo o mundo.
“A grande questão é como precificar um papel
que ninguém vai comprar. O banco tem para receber coisa que
ele não vai receber. Isso é fruto de uma engenharia
financeira, de um conluio com agências de risco – que
avaliaram bem esses títulos –, e aí os governos
têm que assumir esses ativos. Mas assumí-los pelo valor
de face seria absolutamente injusto”, considera o professor
Biancarelli. “Boa parte dos chamados ativos tóxicos
que estão sendo absorvidos pelo setor público não
poderão ser ‘lavados’”, completa João
Basilio Pereima Neto, professor e vice-chefe do departamento de Economia
da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Para o presidente do banco francês BNP Paribas, Louis Bazire,
a criação dos chamados “badbanks”, instituições
para receberem os títulos ruins, pode ser uma solução. “E
aí é uma questão de tempo. O mercado imobiliário
vai se recuperar um dia, e o valor dos títulos também
vai se recuperar. Os Estados Unidos já tiveram problemas com
caixas de poupança há 15 anos, e fizeram uma gestão
disso no tempo. Colocaram os ativos de lado, e eles se recuperaram
com o tempo.” Para Pereima Neto, no entanto, a questão
da recuperação do valor dos ativos é “uma
esperança, não uma realidade”.
A última resistência: a que ponto um governo pode salvar
instituições e administradores que foram irresponsáveis?
Deixá-los quebrar pode prejudicar ainda mais a economia, mas
premiá-los com ajuda financeira seria injusto ou com a compra
dos títulos tóxicos por um valor superestimado soa
mal do ponto de vista político. “Entre os dois extremos – a
salvação total das almas zumbis ou a condenação
ao inferno –, vamos viver um longo período de purgatório
e remissão de pecados”, diz o professor Pereima Neto,
da UFPR.
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Gazeta do Povo, 15 de março
de 2009
Conjuntura
Crise “sumiu” com
US$ 50 tri, diz estudo
Um estudo do Banco de Desenvolvimento Asiático
(ADB, na sigla em inglês) mostra que, do fim dos
anos 80 até 2007, o Produto Nacional Bruto (PNB)
global – ou seja, a riqueza real, lastreada em produção – saltou
de US$ 10,1 trilhões para cerca de US$ 50 trilhões.
No mesmo período, a riqueza “artificial”,
baseada em ativos financeiros, cresceu de US$ 12 trilhões
para quase US$ 200 trilhões. Destes, cerca de US$
50 trilhões já teriam sido destruídos
no lado financeiro da crise econômica.
“ Fica evidente que uma destruição
de riqueza da ordem de US$ 50 trilhões iria exigir
recursos do Estado na mesma proporção para
que se preservasse o status quo vigente antes da crise.
Isso é impossível de ser realizado. A questão
não é recuperar perdas, mas sim preservar
a economia real e o que sobrou do sistema financeiro mundial”,
avalia o professor João Basilio Pereima Neto, do
Departamento de Economia da UFPR. “É mais
que óbvio que os cerca de US$ 3 trilhões
anunciados até agora são insuficientes.”
O professor Evaldo Alves, da FGV-SP, também avalia
que os recursos colocados no sistema financeiro global
até agora tiveram o objetivo “apenas de apagar
o incêndio e prover recursos para o sistema financeiro
não quebrar”. “Mas a causa da crise é mais
profunda, ela se localiza no setor produtivo, sobretudo
na economia americana”, diz ele. A avaliação é de
que um país ineficiente em produção,
altamente endividado e com níveis de poupança
próximos de zero entraria em crise mais cedo ou
mais tarde. “O programa agora tem que estar voltado
para o setor produtivo. Se eu continuar só ajudando
banco, iria afundar num caos gigantesco. É preciso
redirecionar os recursos para o sistema produtivo, melhorar
competitividade e produtividade.”
Pereima Neto acredita que o sistema financeiro mundial
pode evoluir para algo muito mais controlado, e voltado
principalmente para o financiamento da atividade econômica – portanto,
para a produção das empresas e criação
de empregos, aquilo que se chama de economia real. “Há 20
anos a intermediação financeira representava
50% da atividade dos bancos. Hoje representa menos de 15%.
Os bancos inventaram outras maneiras de ganhar no mercado
financeiro. Mas haverá um novo enquadramento, uma
nova ordem financeira, na qual o sistema financeiro vai
ser tão regulado que não poderá mais
alçar voos por conta própria.”
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Gazeta do Povo, 15 de março de 2009
Proer
Saída pode estar
no modelo brasileiro
A ideia de separar os bancos em dificuldades em duas partes, uma
com ativos bons e outra com títulos “podres”,
foi usada com sucesso no Brasil há pouco mais de dez anos.
O Programa de Estímulo à Reestruturação
e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer), criado
por Medida Provisória em novembro de 1995, teve a intenção
de ordenar a fusão e incorporação de bancos
a partir de regras ditadas pelo Banco Central – logo após
a crise do Banco Econômico, 22ª instituição
financeira sob intervenção ou liquidação
desde a implantação do Plano Real.
“O governo resolveu pegar esses bancos, separar cada um em
bom e ruim, completaram o resto do dinheiro que faltava para financiar
o banco bom e o vendeu para quem quisesse. E o banco ruim ia recebendo
ativos ruins, e o que conseguisse com eles cobriria o que foi gasto.
Uma parte voltou, outra se perdeu”, lembra o professor Roy
Martelanc, coordenador do MBA Banking da Fundação Instituto
de Administração. “O mais importante foi que
a economia não sofreu como está sofrendo agora. Nós
fizemos direitinho na época”, completa. “O Brasil
já passou por isso e tomou uma atitude”, diz o professor
Evaldo Alves, da FGV-SP.
Para Martelanc, a solução para o sistema financeiro
norte-americano passa por algo inspirado no Proer – que, por
sua vez, foi inspirado num programa sueco.
A diferença é que, no Brasil, foram usadas algumas
dezenas de bilhões de reais para estancar o problema. Nos
Estados Unidos, bancos e agências hipotecárias já receberam
ajuda superior a US$ 1 trilhão – algo próximo
do PIB brasileiro no ano passado – e ainda assim não
se vê uma luz no fim do túnel. Por aqui, o Proer também
deixou o gosto amargo de que administradores irresponsáveis
foram salvos pelo governo. (FL)
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Folha de S.Paulo, 15 de
março de 2009
Gasto com seguro-desemprego é recorde
Em fevereiro, desembolsos
com o programa atingem R$ 1,417 bilhão, aumento de
19% ante o mesmo mês de 2008
Em janeiro, 658,3 mil pediram o benefício,
alta de 17%; programa só perde para a Previdência
entre iniciativas de transferência de renda
GUSTAVO PATU
JULIANNA SOFIA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Os efeitos da crise econômica internacional no mercado
de trabalho brasileiro criaram despesas extras para o governo
com o seguro-desemprego, que contabilizou recordes de requerentes
em janeiro e de pagamentos em fevereiro.
Levantamento feito pela Folha no Siafi, o sistema eletrônico
de acompanhamento dos gastos federais, aponta que os desembolsos do
programa atingiram R$ 1,417 bilhão no mês passado, com
crescimento de 19% -bem superior aos índices de inflação
e de reajuste do salário mínimo, piso do benefício-
sobre o mesmo mês de 2008. No bimestre, a expansão do
pagamento chega a 25%.
Embora o impacto no caixa do Tesouro Nacional tenha se tornado mais
palpável agora, o aumento do número de desempregados
em busca do seguro começou no último trimestre do ano
passado, quando a economia brasileira deixou bruscamente uma trajetória
de crescimento e sofreu a maior retração medida na série
histórica do IBGE, iniciada em 1996.
Segundo dados obtidos no Ministério do Trabalho, em novembro,
dezembro e janeiro, o número de requerentes do benefício
-que só é pago a trabalhadores com carteira assinada
demitidos sem justa causa- ultrapassou o patamar de 600 mil mensais,
que só havia sido atingido duas vezes, em março de 2006
e de 2007. Em janeiro, aquele recorde foi quebrado: foram exatos 658,3
mil, um aumento de 17,1% em relação a janeiro de 2008.
Desde novembro, o mercado de trabalho formal perdeu 797,5 mil vagas,
segundo o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).
O secretário de Políticas Públicas de Emprego,
Ezequiel Nascimento, avalia que os números do seguro-desemprego
foram fortemente influenciados pela crise econômica. "Sempre
que há aumento do salário mínimo, há aumento
da despesa com o benefício, mas isso agora se sobrepôs
a outro fator, que foi o maior número de pessoas [requerentes]
por causa da crise."
Nascimento diz também que as demissões ocorridas em janeiro
deste ano ainda não chegaram aos gastos do programa, porque
normalmente há um prazo de pelo menos 30 dias entre o desligamento
e o início do pagamento do benefício ao trabalhador.
Isso indica que as despesas em março podem continuar crescendo.
" Devemos sentir esse efeito agora em março. Ou não, o trabalhador
pode conseguir um novo emprego. O fato é que não dá para
falar em tendência ainda." Em fevereiro, mesmo com os gastos em alta,
o número de requerentes voltou ao normal.
Devido ao formato do programa, a relação entre o crescimento
da quantidade de segurados e o volume de desembolsos nem sempre é direta
e imediata. Os benefícios variam de R$ 465 a R$ 870, com 3 a
5 pagamentos, dependendo da remuneração anterior do trabalhador
e do tempo em que permaneceu empregado.
De acordo com o governo, cerca de 40% dos demitidos sem justa causa
permaneceram na empresa por um tempo médio de dois anos, o que
significa direito ao número máximo de parcelas do seguro
-ou seja, seu impacto no gasto público pode perdurar por quase
um semestre inteiro. Pelas estatísticas, menos de 10% conseguem
um novo emprego no mesmo mês da demissão.
Em alta
Ao menos neste início de ano, a onda recessiva iniciada há seis
meses acelerou uma tendência de expansão das despesas
com o seguro-desemprego que já preocupava o governo Luiz Inácio
Lula da Silva. Antes da crise, porém, era o bom momento da economia
brasileira que, paradoxalmente, elevava as despesas.
A aceleração do consumo e do investimento nos últimos
anos, impulsionada pelos ventos favoráveis da economia global,
permitiu o aumento do mercado de trabalho formal no país. Pelas
estatísticas, o número de vagas com carteira assinada
saltou de 22,3 milhões, no início de 2002, para 29,1
milhões, no fim de 2007.
Essa expansão também multiplicou o número de candidatos
em potencial ao seguro-desemprego -e, mesmo durante o período
de prosperidade, o mercado de trabalho manteve altas taxas de rotatividade.
No primeiro semestre do ano passado, por exemplo, os pagamentos do
seguro cresciam a um ritmo de 12,5%, a metade do registrado no bimestre
janeiro-fevereiro deste ano.
Em 2008, os desembolsos somaram R$ 13,8 bilhões, o que torna
o programa a segunda maior iniciativa de transferência direta
de renda do governo federal, atrás apenas da Previdência
Social. O aumento do número de segurados neste ano deve tornar
ainda maior a necessidade de cortes em outras despesas do Orçamento,
em razão da queda da arrecadação motivada pela
crise.
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Folha de S.Paulo, 15 de março de
2009
Homens são 80% dos
demitidos
Salário de até R$
1.245 predomina entre as 798 mil vagas fechadas em três
meses
Empresas com mais de 500 funcionários respondem
por 34% do saldo total de demissões entre novembro e janeiro
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Após três meses seguidos de baixas, o mercado de trabalho
formal delineou o perfil do trabalhador brasileiro demitido pela
crise econômica que varre o planeta. Dados do Caged (Cadastro
Geral de Empregados e Desempregados) obtidos pela Folha mostram que
o maior número de empregos eliminados ocorreu entre pessoas
com renda de 1 a 3 salários mínimos.
Entre novembro de 2008 e janeiro deste ano, o mercado perdeu 797.515
postos de trabalho. Desse total, 79% são trabalhadores com ganhos
entre R$ 415 e R$ 1.245 à época. Os homens foram os principais
afetados pelo encolhimento do emprego formal e respondem por 8 a cada
10 vagas fechadas no período -especialistas atribuem a tendência
ao fato de que os setores que mais demitiram no período foram
a construção civil e a indústria, atividades dominadas
pelo sexo masculino.
Além disso, os números do cadastro revelam que as grandes
empresas foram as que mais cortaram empregos com carteira assinada
por conta da crise. Os estabelecimentos com mais de 500 funcionários
responderam por 34% do saldo total de demissões. No período,
essas empresas fecharam 271.015 postos de trabalho.
Especialistas consultados pela Folha avaliam que os sinais apontados
por esse conjunto de informações são preocupantes
e levam a crer que a crise no mercado de trabalho pode estar só no
começo e, diferentemente de outras ocasiões, desta vez
chegou mais rápido do que se esperava.
" Todos os dias estamos vendo nos jornais que são as grandes empresas
que demitem mais, como é o caso da Embraer. Isso tem um efeito "bola-de-neve".
Agora, são as grandes. Depois, os provedores delas começarão
a demitir. Pode ser só o começo da crise no mercado de trabalho",
afirma Janine Berg, especialista de emprego da OIT (Organização
Internacional do Trabalho) no Brasil.
Apesar de considerar o efeito "bola-de-neve" uma tendência,
o professor da Unicamp José Dari Krein ressalta que muitos elos
da cadeia produtiva já fizeram seus ajustes. "No setor
automotivo, o segmento de autopeças já demitiu. O que é preocupante
em relação a grandes empresas demitindo é que
isso vai resultar em uma desestruturação do mercado de
trabalho, como a que ocorreu nos anos 90."
Baixa qualificação
Na avaliação de Krein, já era de esperar que o
contingente de renda mais baixa fosse mais afetado pela crise. Historicamente
essa é a parcela que mais entra e sai do mercado. "Há uma
elevada rotatividade de mão-de-obra devido à baixa qualificação.
Todos os anos, 40% dos trabalhadores são demitidos e recontratados."
Fábio Romão, economista da LCA Consultores, pondera que,
proporcionalmente, a crise teve efeitos mais devastadores entre os
trabalhadores com renda acima de 20 salários mínimos. "Para
os que ganham menos, há um impacto maior por conta do volume.
Mas, se olharmos a proporção de admitidos e desligados
no período, para a faixa acima de 20 salários, as demissões
ficaram 118% acima das contratações."
Segundo ele, isso é reflexo das fusões ocorridas na economia
recentemente e, agora, da necessidade de enxugamento. Pelos dados detalhados
do Caged, o número de trabalhadores demitidos é maior
entre aqueles com idade entre 25 e 39 anos. Eles representam mais da
metade (57%) das vagas fechadas nos três meses analisados.
Cerca de 70% dos postos de trabalho eliminados atingiram pessoas entre
a quinta série incompleta e o ensino fundamental completo. (JULIANNA
SOFIA)
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Consultor Jurídico,
15 de março de 2009
Estabilidade na gravidez
Reclamação
depois da estabilidade é ilegal
Por Welton Guerra dos Santos
Uma das hipóteses de estabilidade provisória na relação
de emprego é a da gestante. Prevista pelo artigo 10, inciso II,
alínea “b” do Ato das Disposições Constitucionais
Transitórias, a empregada gestante não poderá ser
dispensada sem justo motivo desde a confirmação da gravidez
até cinco meses após o parto. No entanto, não é de
hoje que a norma citada provoca algumas dúvidas entre os operadores
do Direito.
O início da estabilidade é o primeiro ponto
a ser discutido. O artigo já mencionado afirma que
a estabilidade provisória da empregada se inicia
com a confirmação da gravidez. Contudo, não
menciona se esta confirmação seria da empregada
ao seu empregador.
Esta dúvida poderia prejudicar ambas as partes,
mas principalmente a empregada, afinal, como poderia comprovar
em eventual rescisão contratual que informou ao
seu empregador sobre sua gravidez?
Através da Súmula 244, o Tribunal Superior
do Trabalho encerrou a discussão ao afirmar que
o desconhecimento do estado gravídico pelo empregador
não afasta o direito da empregada ao recebimento
da indenização decorrente da estabilidade.
Deste modo, para ter direito a estabilidade, a mulher não
precisa informar o início da gravidez ao seu empregador,
mas tão somente conceber.
Assim, o tormento passou a ser todo do empregador, já que
no momento da demissão da empregada, não
há como ter certeza se esta pode ser despedida ou
se goza da estabilidade provisória. Inclusive, nem
mesmo se pode cogitar a hipótese de submetê-la
a teste, pois tal ato é proibido por lei.
A Lei 9.029/95 define como crime a exigência de
teste de gravidez e prevê, por meio de seu artigo
3º, a pesada multa de dez vezes o maior salário
da empresa para casos de descumprimento.
Diante disto, não há como saber, no momento
da rescisão contratual, se a empregada está grávida.
Portanto, se for despedida sem justo motivo, ainda que
tenha conhecimento posterior de que sua gravidez tenha
iniciado durante a vigência do contrato de trabalho,
ela terá direito de pleitear seu período
de estabilidade.
Mas neste último ponto o colendo TST, por meio
da Súmula 244, gerou nova dúvida. Isso ocorre
porque a lei fala apenas sobre a garantia de emprego, mas
a súmula ainda cita a possibilidade de sua conversão
em indenização.
Parece justo que a empregada impossibilitada de regressar
ao posto de trabalho possa ter este período convertido
em indenização. Ocorre que, para alguns,
a súmula daria a opção para empregada
grávida: escolher entre voltar ao trabalho assim
que tivesse conhecimento do estado gravídico, ou
ingressar com a Reclamação Trabalhista somente
após ter cessado o período de estabilidade,
para então receber todos os salários e demais
benefícios sem a necessidade de trabalhar.
Esta última interpretação não
merece em hipótese alguma ser aplicada, pois não
encontra fundamento legal. Isso ocorre porque a legislação
concede à empregada em gestação a
garantia do emprego. Assim, se esta garantia de emprego é provisória,
a empregada deverá pleiteá-la antes de seu
término, sob pena de ser reconhecida a renúncia
tácita de seu direito à estabilidade.
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