Informativo Eletrônico n.º 1.248   -   Ano 06   -   Curitiba (PR), 05 de abril de 2009.




Agência Diap, 5 de abril de 2009

Brasil já investiu R$ 475 bi no combate à crise financeira
Desde setembro do ano passado, o Governo brasileiro já anunciou medidas de combate à crise econômica que somam R$ 475 bilhões. O valor inclui todas as ações, inclusive as que não têm impacto no caixa do Governo, como a liberação do compulsório bancário.

Somente as medidas do Banco Central, entre elas mudanças na regra do compulsório (dinheiro dos bancos retidos pelo BC), leilões com dólar e linha de troca de moeda com o Federal Reserve (FED), somaram R$ 284 bilhões.

As decisões começaram a ser tomadas há seis meses, com a quebra do banco Merrill Lynch, nos Estados Unidos. Na primeira fase, o Governo brasileiro deu prioridade a medidas que facilitariam o acesso ao crédito.

Já as medidas de impacto fiscal, como isenção de impostos e aumento dos gastos, foram adotadas depois. A maior delas foi anunciada em dezembro, com a redução do Imposto de Renda e do IPI sobre carros, que resultou em um impacto de R$ 9 bilhões.

Mais recentemente, o Governo anunciou medidas de estímulo na área de infraestrutura, com o pacote habitacional, que deverá movimentar R$ 34 bilhões. No total, as medidas anunciadas pelo Governo correspondem a 17% do PIB. Mas os especialistas afirmam que essa conta seria "muito generosa".

"O dinheiro do compulsório não é dinheiro do Governo, mas sim dos bancos", diz o economista Márcio Garcia, da PUC-Rio. Algumas instituições internacionais, como a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Brookings Institution, de Washington, preferem calcular apenas aquilo que afeta diretamente o caixa dos Governos, como isenções fiscais e gastos diretos.

Por esse critério, as medidas anunciadas pelo Brasil correspondem a 0,5% do PIB. É menos do que o recomendado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que sugere gastos de 2% do PIB.

Em seu relatório, divulgado em março, a Organização Internacional do Trabalho apontou o Brasil como o país que menos gastou no combate à crise, de uma lista de 30 economias. Entre os que mais efetivamente colocaram a mão no bolso, segundo a OIT, estão a China e a Arábia Saudita. No pé da lista aparecem Brasil, Itália e Índia.

Ação coordenada

Uma das recomendações da declaração de Londres, endossada pelos membros do G20, é de que os países devem gastar ainda mais para reativar a economia mundial. O desafio é fazer com que as medidas sejam adotadas de forma coordenada. Ou seja, todos devem gastar mais e de acordo com o peso de suas economias.O economista Kevin Gallagher, da Universidade de Boston, diz que a ação coordenada é condição "essencial" para a retomada do crescimento.

"As economias de cada país estão ligadas. Por isso, não adianta um país estimular sua economia se o outro não está fazendo nada", diz. No entanto, diz o economista, é difícil mensurar até que ponto cada um pode esticar o déficit fiscal.

"Os Estados Unidos podem ter um déficit público alto, mas o Brasil, não. Os investidores adotam o critério de dois pesos e duas medidas quando comparam países ricos e em desenvolvimento", diz.

'Pouco e errado'

O Brasil já vê os efeitos da crise nas contas públicas. O superávit primário do Governo (receita menos despesas, exceto juros) deverá cair 1,3 ponto percentual este ano, para 3,3% do PIB. A diferença, porém, tem pouco a ver com a crise.

O aumento dos gastos é verificado, principalmente, em despesas de custeio, como por exemplo, o aumento de salário de servidores."Tivemos uma deterioração nas contas que não têm nada de medida anticíclica", diz o professor Márcio Garcia, da PUC-Rio. "O Brasil fez pouco e fez muito do que não devia".

O economista Flávio Salto, da Tendências, diz que o Governo brasileiro corre o risco de colocar um "peso excessivo" na política monetária. Segundo ele, a redução dos juros é "válida e bem-vinda", mas é uma medida de médio prazo.

"Não adianta apenas reduzir os juros. O Governo terá de refazer as contas para investir mais. Tem que gastar, mas para isso terá de encontrar algum lugar para cortar", diz.


Congresso em Foco, 5 de abril de 2009
Se tudo der certo, deputado ganhará R$24,5 mil
Michel Temer discute com assembleias estaduais a incorporação de parte da verba indenizatória aos vencimentos dos parlamentares

Temer diz que mudança só trará economia se for acompanhada nos estados e nos municípios

Fábio Góis

O presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), assumiu a proposta de incorporação de parte da verba indenizatória ao salário dos deputados. O assunto foi tratado em conversas com integrantes da Mesa Diretora e com Assembléias Legislativas. A decisão será anunciada nos próximos dias.

Na última quarta-feira (1º), Temer levou a discussão ao plenário. “Todas as vezes em que se discute essa questão da verba indenizatória, eu verifico que uma eventual incorporação de uma parcela da verba aos subsídios representa uma economia para a Câmara dos Deputados e, naturalmente, para o Senado”, afirmou. Se for confirmada, a medida será tomada por meio de um projeto de decreto legislativo.

Pelas regras atuais, cada deputado tem direito a R$ 15 mil por mês para despesas com transporte, hospedagem e segurança, por exemplo. Os parlamentares apresentam notas fiscais e a Câmara faz o ressarcimento.

A verba indenizatória foi criada em 2002 pelo então presidente da Câmara, Aécio Neves (PSDB-MG), com o argumento de que reduzia o salário dos parlamentares. Na prática, virou uma fonte de escândalos.

Pela proposta em debate agora, o salário dos deputados chegaria a R$ 24,5 mil, equiparado ao teto da remuneração dos ministros dos tribunais superiores. Hoje, os parlamentares recebem R16,5 mil, fora a verba indenizatória.

Temer anunciou também que vai procurar os presidentes das assembléias legislativas para discutir o assunto. “Evidentemente, isso só poderia ser feito em comum acordo com todas as assembléias legislativas do país, de maneira a que lá também se verificasse essa redução da verba indenizatória. Quem sabe até em todas as câmaras municipais, especialmente das capitais”, ressalvou.

A preocupação de Temer se deve ao fato de que a incorporação pode abrir as portas para um aumento generalizado dos salários em assembléias legislativas (deputados estaduais) e câmaras municipais (vereadores), além da Câmara Legislativa do DF (distritais). O deputado paulista diz ter interesse em evitar que uma eventual economia nas despesas da Câmara, na prática, provoque aumento nos gastos do país.

De acordo com a Constituição, deputados estaduais recebem 75% dos salários dos federais e, vereadores, até 75% do que é pago aos estaduais. Pela regra, o reajuste estendido a todos os legisladores fica implícito na medida da Câmara.

Economia global

Temer disse ontem (2) que conversou com o presidente da Associação Nacional das Assembléias Legislativas, Alberto Pinto Coelho (PP-MG), também presidente da Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais, para avaliar como poderia ser executada a incorporação da verba indenizatória sem que isso representasse o aumento de gastos generalizado no legislativo nacional.

Com a consulta prévia, Temer quer evitar um “efeito-cascata”. A ideia do presidente da Câmara é que todas as assembléias façam a incorporação de parte da verba indenizatória, em vez do aumento puro e simples nos salários dos deputados e vereadores – embora ele saiba que o impacto no orçamento destinado ao pagamento de subsídios dos políticos será inevitável, devido aos encargos trabalhistas incutidos na folha salarial.

“ Se nós simplesmente aumentarmos aqui, e isso gerar um efeito-cascata nas assembléias legislativas e nas câmaras municipais, haverá economia aqui, mas prejuízo no valor global para o país”, explicou Temer. “Se fizermos dessa forma que estou sugerindo – com a participação de todas as assembléias legislativas – nós teríamos uma economia global no país.”

Na discussão sobre a verba indenizatória, Temer atua junto com o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Os dois procuram uniformizar as decisões referentes à gestão administrativa das Casas com salários, gastos com estrutura funcional e contratos de prestação de serviços.

Equiparação

Os primeiros movimentos para a incoporação foram feitos há quase dois meses. Em 18 de fevereiro, o Congresso em Foco revelou que alguns deputados defendiam a equiparação com os magistrados para aumentar os salários.

Depois de tomar posse, Temer decidiu criar um grupo de trabalho para apreciar temas de interesse do Judiciário, incluindo o aumento dos vencimentos dos ministros. O deputado Edmar Moreira (MG) corre o risco de ter o mandato cassado por apresentar notas fiscais da própria empresa para justificar gatos com segurança.



Gazeta do Povo, 5 de abril de 2009
Recursos naturais
Madeira nobre apodrece no PR
Árvore derrubada ilegalmente pode virar casa popular ou mobiliário de instituição de caridade

Ponta Grossa - Durante todo o ano passado, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) tirou de circulação no Paraná o equivalente a 125 caminhões de madeira derrubada ilegalmente. Por lei, a madeira pode ser doada ou leiloada, mas devido à lentidão do processo judicial e à falta de galpões de armazenamento, muitos lotes ficam sem a destinação correta. Na Floresta Nacional (Flona) de Irati, no Centro-Sul, que recebia os carregamentos até cinco meses atrás, há madeira nobre ao relento. Por força de um decreto federal, o Ibama está tentando acelerar os processos e dar uma destinação à madeira logo após a apreensão.

O carregamento que não tem comprovação de origem ou medidas que contrariam a legislação é retido pelos fiscais do Ibama. Até o ano passado, o lote ia para a Flona de Irati, mas desde que a unidade passou à gerência do Instituto Chico Mendes – um braço do Ministério do Meio Ambiente – a madeira fica com o próprio autuado, que é designado fiel depositário e tem de prestar contas à Justiça se não cuidar do carregamento.

Em 2007, o Ibama paranaense doou apenas 435,05 metros cúbicos de madeira, o que equivale a 29 caminhões carregados. O ano de 2008 foi atípico. Foram doados no período 1.330,43 metros cúbicos (o suficiente para encher 88 caminhões) enquanto foram apreendidos 1.881,45 metros cúbicos. A média de madeira doada, segundo o superintendente estadual do órgão, José Álvaro Carneiro, não ultrapassa 15% do volume de apreensão anual. O aumento no volume de doação no ano passado – 70% do material apreendido – se deve à concentração de processos finalizados e ao decreto federal 6.514, em vigor desde julho de 2008, que foi assinado para acelerar a doação do material.

Conforme o diretor substituto de Proteção Ambiental do Ibama em Brasília, Luciano de Meneses Evaristo, as superintendências estaduais estão trabalhando para pôr o decreto em prática.

Antes, a madeira só era encaminhada para doação ou leilão depois de esgotados todos os recursos judiciais propostos pelo infrator, em todas as instâncias possíveis. Agora, logo depois da apreensão, a madeira já pode ser liberada. A prioridade é para órgãos federais, como o Exército Brasileiro.

Caso a Justiça considere que o autuado tem direito sobre a madeira, o Ibama restabelece os custos ao dono e paga as devidas indenizações. “Mas isso é muito raro, normalmente os juízes não dão ganho de causa para os infratores”, afirma.

No Paraná, entre os lotes doados nos dois últimos anos havia processos iniciados em 2004. Como a madeira é guardada em condições precárias, muitos lotes ficam danificados. O Provopar Ação Social, por exemplo, chegou a rejeitar doações feitas pelo Ibama. Na Flona de Irati, há toras de imbuia e de araucária a céu aberto. No galpão, que guarda madeira serrada, há goteiras que comprometem os lotes.

Para o Ibama, deixar os lotes apreendidos com os próprios autuados é um risco. “É como deixar a raposa cuidando do galinheiro”, compara Carneiro. O órgão está negociando com o Instituto Chico Mendes o retorno do uso da Flona para abrigar os carregamentos apreendidos.

Casas populares

Um bom exemplo da destinação correta de madeira apreendida foi a construção de sete casas populares na Vila Santo Antônio, em Rebouças, na Região Centro-Sul. A prefeitura transformou um lote de madeira serrada doada pelo Ibama em um núcleo habitacional destinado a pessoas de baixa renda. A madeira maripá foi apreendida em 2006 no Porto de Paranaguá e doada em março de 2008 à prefeitura. O município doou a madeira e o terreno, e moradores providenciaram a construção em forma de mutirão e a compra dos materiais de acabamento. Em novembro do ano passado, a dona de casa Eva Luciane França, 29 anos, se mudou para a casa nova. “É uma casa muito boa, principalmente para a minha família que estava morando de favor com o meu tio”, disse. Agora, os moradores lutam para conseguir luz e água na região, que ainda não foram ligados.

Impunidade é estimulada

Não há um número preciso de quanta madeira apreendida no Paraná é aproveitada para doação ou leilão. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) estima em 15% do total, em média, mas o Instituto Ambiental do Paraná (IAP) não forneceu as informações à reportagem, citando apenas que possui 282 entidades cadastradas para doações.

Um estudo coordenado pelo Instituto Imazon, que realiza pesquisas sobre a Amazônia Legal, mostrou no ano passado que apenas 4% da madeira apreendida entre os anos de 2004 e 2006 em seis estados da região amazônica tiveram um destino, como doação ou leilão.

Para o coordenador da pesquisa do Imazon, Paulo Barreto, a baixa destinação aumenta a sensação de impunidade. “Com a doação da madeira apreendida, as pessoas veem que o órgão ambiental não fica apenas na apreensão formal, que há uma punição”, diz. Para Barreto, a doação não é um método eficiente como destinação social porque muitas entidades não têm capital para fazer o transporte da madeira ou o seu beneficiamento, quando ela vem em toras. (MGS)

Volume

A quantidade de madeira reencaminhada após as apreensões ainda é pequena no país.

Brasil

- No ano passado, de acordo com o Ibama, foram apreendidos 150 mil metros cúbicos de madeira nobre cortada ilegalmente. Na Amazônia, só 4% foram doados.

Paraná

- A estimativa do escritório regional do Ibama é que 15% do volume apreendido no estado seja encaminhado para doação ou leilão.

2008

- O ano passado foi atípico e mostrou que a desburocratização pode funcionar. A média de doação foi de 70% do material apreendido, depois de um decreto que agiliza a transferência da madeira.




Gazeta do Povo, 5 de abril de 2009
Mudanças na previdência
Fator da discórdia
Petistas tentam articular proposta de consenso para restringir o Fator Previdenciário e melhorar regras de acesso à aposentadoria com benefício integral

Brasília - Governo e Câmara dos Deputados estão em contagem regressiva para fechar ainda em abril uma proposta consensual de mudanças nas regras de acesso à aposentadoria no Brasil. A solução, negociada com as centrais sindicais, pode solucionar um impasse histórico no PT. A ideia é criar um mecanismo paralelo ao fator previdenciário, que facilite o recebimento do benefício integral aos trabalhadores, mas não aumente o rombo da Previdência Social.

O novo texto está sendo discutido na Comissão de Finanças da Câmara e deve ficar pronto dia 21. A expectativa é que ele possa ser votado em plenário no primeiro semestre, antes de ser encaminhado ao Senado. Em uma previsão otimista e com intervenção do governo, ele pode ser totalmente aprovado em 2009 e vigorar no ano que vem.

A proposta negociada passa por uma conta simples, que suaviza os efeitos do fator previdenciário (veja infográfico acima). Consiste na soma dos anos de idade do contribuinte na data da aposentadoria, mais os anos de contribuição.

Pela ideia inicial, que tem o aval do Palácio do Planalto, o benefício integral para as mulheres estaria garantido quando essa adição atingisse 85. E para os homens, quando o número chegasse a 95. As alterações atingiriam as pessoas que ainda vão se aposentar, mas há também a possibilidade de quem já se aposentou ter o benefício revisado a partir da adoção do novo sistema de cálculo.

A regra 85/95 agrada parcialmente a líderes de sindicatos, que já pediram o rebaixamento do teto para 80/90. A fórmula, porém, parece o único caminho viável até o momento para desatar um nó que remonta a 1999, quando o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) conseguiu aprovar a Lei 9.876, que criou o Fator.

O índice combina a idade do contribuinte ao parar de trabalhar, o tempo de contribuição e a expectativa de sobrevida no momento da aposentadoria – dado que muda de acordo com estimativas anuais feitas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A mudança diminuiu em até 30% o valor das aposentadorias. Por outro lado, também reduziu em R$ 10 bilhões o déficit previdenciário ao longo dos últimos dez anos. Na época, o PT se posicionou radicalmente contra o fator e chegou a recorrer, sem sucesso, ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Dilema petista

Ao assumir a Presidência da República, porém, a situação mudou dentro do partido. Nos primeiros seis anos de governo Lula não houve acordo para extinguir o fator, antiga bandeira ideológica de contraposição ao PSDB. A negociação só avançou nos últimos três meses e confronta três petistas do primeiro escalão da legenda em Brasília – o ministro da Previdência, José Pimentel, do Ceará; o senador Paulo Paim e o deputado Pepe Vargas, ambos do Rio Grande do Sul.

Metalúrgico e sindicalista como Lula, Paim construiu grande parte da carreira parlamentar com projetos de interesse dos aposentados e conseguiu aprovar há um ano, no Senado, o Projeto de Lei 3.299/08, que acaba com o fator. “Luto contra algo inadmissível para todos os trabalhadores. Ninguém pode contribuir por décadas para a Previdência e depois ter o benefício reduzido em 35%, 40%”, resume.

O texto de Paim também prevê que o cálculo do benefício seja feito a partir da média das últimas 36 contribuições do trabalhador. A regra atual leva em consideração uma média de 80% das maiores contribuições, descartando-se as 20% mais baixas. Nesse aspecto, a sugestão de Paim desagrada até as centrais sindicais, pois permitiria que empresários e profissionais liberais passassem 32 anos contribuindo com base em um salário mínimo e nos últimos três anos pulassem para o teto.

Graças a essa conta e à simples extinção do fator, o governo já deixou claro que terá de vetar o projeto, caso ele seja aprovado na Câmara como passou no Senado. Na Comissão de Finanças da Casa, o relator é Pepe Vargas. Partiu dele a busca por um consenso que evite o provável veto do Palácio do Planalto. “Se o governo vetar, não tem mais volta, a situação dos trabalhadores continua como está. Vamos pagar para ver?”, questiona.

Consenso

Vargas é médico e fez carreira na própria área como funcionário do Sindicato dos Metalúrgicos de Caxias do Sul. Segundo ele, é preciso que os líderes sindicais entendam que a situação de hoje é totalmente diferente de 1999. “Estamos em um momento em que o governo não quer retirar direitos dos trabalhadores. Os sindicatos não estão mais na defensiva, é hora de repor parte do que foi retirado lá atrás.”

O deputado organizou na semana passada duas audiências públicas para debater as propostas. Na primeira, com representantes das principais centrais sindicais, ouviu críticas, mas conseguiu uma sinalização de que há margem de negociação ao menos com a Força Sindical e a Central Única dos Trabalhadores. Além de reduzir a fórmula para 80/90, eles reivindicaram que o cálculo da contribuição leve em consideração apenas 60% das maiores contribuições – e não 80%.

Na segunda, com especialistas de órgãos como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e o IBGE, recebeu um bombardeio contra soluções que encareçam as aposentadorias. “Vejo um futuro sombrio para os nossos filhos se isso acontecer”, destacou o chefe do Departamento de Risco de Mercado do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Fabio Giambiagi. Estima-se que a simples extinção do Fator aumente as despesas em até R$ 40 bilhões.

O ciclo de debates será encerrado na terça-feira, quando o ministro Pimentel participará da última audiência. Depois disso, Vargas levará as propostas debatidas ao governo e checará a viabilidade de cada uma. O relatório, inicialmente previsto para ficar pronto no dia 16, deve ser apresentado uma semana depois. Se as mudanças forem aprovadas, o texto volta ao Senado. “Queremos resolver a questão na Câmara pelo menos até o primeiro semestre. No Senado, é outra história.”




Folha de S.Paulo, 5 de abril de 2009
Brechas da legislação eleitoral favorecem caixa 2 de partidos
Prazos de prestação de contas de doações são muito longos, ao passo que punições a eventuais ilegalidades são muito brandas

Para especialista, em vez de "demonizar" contribuidores, é preciso criar maneiras de aperfeiçoar lei para dar mais transparência às doações

FLÁVIO FERREIRA
DA REPORTAGEM LOCAL

O controle de doações aos partidos políticos no país possui muitas fragilidades, o que facilita a existência de caixa dois. Os prazos de prestação de contas, por exemplo, são muito longos. Já as punições contra as ilegalidades são muito brandas. Segundo o procurador regional eleitoral em São Paulo, Luiz Carlos Gonçalves, "a legislação eleitoral tem crimes demais e penas de menos". "Para alguns delitos, as punições aos responsáveis pelas contas dos partidos acabam sendo de prestação de serviços à comunidade", diz.

Esse cenário contrasta com a legislação relativa às doações para candidatos nas eleições, que é rigorosa e pode até resultar em perdas de mandatos.

A Operação Castelo de Areia, da Polícia Federal, trouxe à tona a questão dos repasses de recursos aos partidos. Escutas da investigação indicaram doações da empreiteira Camargo Corrêa ao senador José Agripino Maia (DEM-RN), no valor de R$ 300 mil, e ao senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), no montante de R$ 200 mil.

Ao serem questionados sobre os repasses, os senadores apresentaram à imprensa imagens digitalizadas de recibos que registram as doações da empresa aos seus partidos. Porém, até a semana retrasada, a Justiça Eleitoral ainda não havia recebido os documentos. Segundo os congressistas, os recibos ainda estavam em poder dos partidos porque o prazo para envio de prestações termina em 30 de abril. A legislação realmente determina que os partidos devem entregar seus registros contábeis anuais até essa data.

Assim, uma contribuição realizada por uma empresa a um partido, em janeiro de um ano, poderá permanecer sem registro na Justiça Eleitoral por mais de 15 meses.

O ex-presidente do TSE Carlos Velloso afirma que esse prazo é muito longo. "As prestações de contas dos partidos deveriam ser feitas mensalmente. Além disso, a Justiça Eleitoral deveria contar com o auxílio de auditorias do TCU (Tribunal de Contas da União) e da Receita Federal para fazer o cruzamento de informações", diz.

Punições

Outro problema é que as penas para quem descumpre a legislação relativa às contas partidárias são leves, como é o caso da punição para recebimento de valores de entidades proibidas de doar a partidos, como sindicatos e órgãos públicos.

A violação a essa regra leva à perda dos repasses do Fundo Partidário -constituído com recursos da União e outras fontes- pelo prazo de um ano.

O advogado Renato Ventura Ribeiro, especialista em direito eleitoral, afirma que as penas deveriam ser mais rigorosas.

" Um exemplo de punição mais severa seria a perda de parte do tempo no horário eleitoral gratuito, que é muito valioso para os partidos nos períodos de eleições", diz.

Ricardo Penteado, advogado especializado em matéria eleitoral, defende que a lei seja aperfeiçoada para dar mais transparência às doações. "Não se deve demonizar os doadores, mas criar mais formas para que se possa saber para quem e como eles estão contribuindo."


Folha de S.Paulo, 5 de abril de 2009
Crise radicaliza ação de sindicatos na França
Desesperados, funcionários de empresas em dificuldades sequestram altos executivos para tentar evitar onda de demissões

Especialista prevê agravamento de tensões; desemprego no país atinge 2,38 milhões de pessoas, ou 8,5% da população ativa

ANA CAROLINA DANI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE PARIS

Na última terça-feira, cinco executivos de uma filial francesa do grupo norte-americano Caterpillar foram tomados como reféns e passaram a noite retidos nos escritórios da empresa, instalada na região de Grenoble, no sul da França.

Eles não foram vítimas de nenhum comando terrorista e muito menos atacados por sequestradores. Os executivos, entre eles o diretor-geral da fábrica na França, Nicolas Polutnik, foram retidos pelos próprios empregados, que protestavam contra o plano de demissões anunciado pela empresa.

Segundo os sindicatos, a decisão foi tomada porque a direção se negava a negociar as condições de saída e o valor das indenizações que seriam repassadas aos assalariados.

Em janeiro deste ano, o grupo Caterpillar anunciou a supressão de 25 mil postos de trabalho em todo o mundo, sendo 733 na fábrica de Grenoble. Os sindicatos tentavam negociar melhores indenizações e pediam a redução do número de demissões.

O exemplo da Caterpillar, que está longe de ser um caso isolado, ilustra o clima de crescente tensão social que vive o país. Também na última terça-feira, cerca de cem empregados das redes Fnac e Conforama, filiais do grupo PPR, bloquearam por quase uma hora o táxi que transportava o presidente do grupo, François-Henri Pinault.

O empresário, à frente do segundo maior grupo de luxo do mundo, somente pôde seguir viagem após a intervenção da polícia. Os empregados também protestavam contra o plano de restruturação, anunciado no dia 18 de fevereiro, que prevê a redução de 1.200 postos de trabalho nas duas empresas.

Na semana anterior, no dia 25 de março, executivo de uma fábrica de remédios na França, filial do grupo norte-americano 3M, também foi feito refém por mais de 24 horas. Poucas semanas antes, no dia 13 de março, o presidente da Sony no país, Serge Foucher, já havia sido retido por mais de um dia por empregados da fábrica de Pontonx-sur-l'Adour, na região dos Landes, sudoeste da França.

Os assalariados tentavam uma última cartada para evitar o fechamento do local, previsto para o próximo dia 17 de abril.

Tensão

" A multiplicação dos anúncios de supressão de empregos em um contexto de grave crise econômica levou a uma evidente radicalização dos movimentos e das relações sociais", avalia Guy Groux, sociólogo, especialista em movimento sociais e professor do Instituto de Ciências Políticas de Paris. Segundo ele, ações radicais como sequestros de empresários, barricadas em estradas ou ocupação de fábricas devem se tornar mais frequentes nos próximos meses.

Desde que a crise financeira mundial se transformou em crise econômica, não se passa uma semana sem que uma empresa na França anuncie planos de reestruturação, muitos deles prevendo demissões. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (Insee), somente nos seis primeiros meses deste ano, 387 mil empregos devem desaparecer no setor privado francês.

Com isso, a taxa nacional de desemprego tem crescido. Somente no mês de fevereiro, cerca de 80 mil pessoas ficaram desempregadas, registrando o segundo mês consecutivo de aumento da desocupação, que atinge 2,384 milhões de pessoas, ou o equivalente a 8,5 % da população ativa.

Para o especialista em relações sociais Hubert Landier, a crise econômica é a principal causa da radicalização das ações dos sindicatos e dos trabalhadores, mas não a única. "Na França, as relações sociais são fundadas muito mais na confrontação do que na busca do compromisso, como é o caso na Alemanha e nos países do norte da Europa", afirma.

Landier também aposta no agravamento da tensão social no país. "Muitas empresas que puderam até o momento resistir com medidas como férias coletivas ou suspensão temporária da produção serão obrigadas a demitir nos próximos meses, o que deve contribuir para novas ações violentas", afirma.

Segundo ele, é necessário evitar comparações simplistas. "São trabalhadores, e não criminosos, que optaram por um tipo de ação radical, por desespero e para chamar a atenção da opinião pública e do governo", conclui.

Desde o inicio deste ano, duas greves paralisaram parcialmente a França. A mais recente, no dia 19 de março, reuniu entre 1,2 milhão e 3 milhões de pessoas, em várias cidades. Ante o aumento do desemprego e da pressão social, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, anunciou na semana passada a nomeação de um secretário para a reindustrialização, a fim de coordenar ações do governo nas regiões industriais mais afetadas pela crise.

O governo também decidiu proibir a atribuição de bônus e de opções conversíveis em ações a executivos de empresas ajudadas pelo governo.