Informativo Eletrônico n.º 1.263  -   Ano 06   -   Curitiba (PR), 19 de abril de 2009.



Agência Diap, 19 de abril de 2009

Governo aumenta valor do benefício do programa Bolsa Família
O Governo Federal publicou, nesta sexta-feira (17), no Diário Oficial da União o aumento do benefício do Programa Bolsa Família.

A medida amplia o Decreto 6.824 e eleva de R$ 120 para R$ 137 o limite da renda familiar mensal per capita dos beneficiários do programa, em situação de pobreza, e para R$ 69, à aqueles que se encontram em extrema pobreza.

O programa objetiva a inclusão social das famílias em situação de pobreza e extrema pobreza por meio da transferência de renda e da promoção do acesso aos direitos sociais básicos de saúde e educação.

O Bolsa Família unificou todos os programas de transferência de renda, como o Bolsa Escola, Cartão Alimentação e Auxílio Gás, beneficiando, dessa forma, um número maior de pessoas.


Segundo informações da Agência Brasil, com o aumento na renda dos atendidos pelo Bolsa Família, o Governo gastará com o programa este ano R$ 549 milhões a mais.

No total, os R$ 11,8 bilhões que seriam pagos passa para R$ 12,3 bilhões. O total de atendidos é de mais de 11,1 milhões de famílias, segundo informa o site do Ministério de Desenvolvoimento Social e Combate a Fome.

A decisão de elevar o valor do benefício do Bolsa Família foi tomada em janeiro, durante reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias, e com os ministros da Fazenda, Guido Mantega, e do Planejamento, Paulo Bernardo.



 

Agência Brasil, 19 de abril de 2009
Receita quer discutir tributação com centrais sindicais
A Receita Federal pretende ouvir centrais sindicais para discutir a tributação sobre a renda do trabalho. A informação é do coordenador-geral de Estudos, Previsão e Análise da Secretaria da Receita Federal, Marcelo Lettieri. Em entrevista à Agência Brasil, Lettieri afirmou que agora o objetivo do órgão é ouvir todos, e não somente os representantes dos setores produtivos, como o automobilístico, construção civil e agricultura, beneficiados com desonerações para estimular a economia em crise.

Otimista, Lettieri vê crescimento de 2% para a economia (Produto Interno Bruto - PIB) em 2009 e critica as previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI) para o Brasil, por achar que a instituição está contaminada pelas conjunturas européia e americana.

Ele cobrou do Banco Central uma política rápida de redução dos juros. “Se a gente tiver nessa política monetária uma resposta mais rápida, a gente chega a 2% tranqüilamente”, enfatizou. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reúne-se nos dias 28 e 29 deste mês para definir a taxa básica de juros, a Selic.

Os setores financeiro, automobilístico, agrícola e outros estão sempre à porta do Ministério da Fazenda para reclamar e são atendidos. Quando é que veremos medidas para o trabalhador?

A secretária (da Receita, Lina Vieira) sempre diz que pretende ouvir todos. Ela disse que não vai ouvir só o setor produtivo, mas também os trabalhadores. Então, já entrou em contato para ouvir as centrais sindicais. Ela, juntamente com o Ipea (o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), vai discutir a tributação sobre a renda do trabalho de forma aberta. Vamos passar as informações, o Ipea vai fazer os estudos e discutir com os trabalhadores.

Ela sempre diz: “meu gabinete está aberto para receber todos os pleitos e dentro do limite institucional da Receita Federal”. Nós não fazemos a política tributária. Nós executamos e contribuímos para a política tributária apresentando dados e estudos. Acredito que não vai demorar muito para que haja essa conversa com as centrais sindicais.

A carga tributária não cai...

Carga tributária: se a arrecadação está crescendo mais que o PIB, tem realmente a carga tributária. Esse é o conceito. A questão do cálculo é outro debate que tem de ser esclarecido. É difícil comparar as cargas tributárias entre os países, não só por causa das metodologias, mas também pelo que o pessoal chama de carga tributária.

Há mapas que dizem que o Brasil tem carga tributária de 34% e o México de 22%. Mas o México não coloca previdência dentro da carga tributária. Então, esse debate tem que ser enriquecido. A discussão não é só a carga tributária. Nós ficamos muito preocupados com esse número de carga tributária bruta, mas não olhamos a realidade da composição, a qualidade da tributação, ou seja, o importante é quem paga a conta e não o tamanho da conta.

Mas não há acesso a esses dados?
A secretária quer abrir essa discussão. A gente tem esse número fechado, mas quer abrir.

Na sua avaliação, o país ainda está no fundo do poço por conta da crise financeira internacional?

Em janeiro foi o fundo do poço. Os dados de fevereiro foram melhores, os de março têm se mostrado melhores. Em termos de arrecadação, quando fechar abril vamos ter uma idéia melhor. Porque até março ainda estamos fechando o dado econômico de fevereiro.

A recuperação em março a gente não pode dizer que foi a recuperação total da economia em fevereiro. Ainda não. Tem a recuperação dos indicadores econômicos que sinalizam, mas tem fatores relacionados à lucratividade que compensaram muito a perda. A arrecadação de abril vai ser termômetro, inclusive na área em houve desoneração. A notícia que os setores estão dando é que já teriam recuperado o nível de produção.

Existe otimismo, mas também pessimismo em relação aos rumos da economia brasileira. Como o senhor avalia isso?

Estou mais otimista do que a maioria das pessoas. Acho que chegaremos a um PIB [Produto Interno Bruto, soma de todos os bens e serviços produzidos no país] de 2%. Conversei com o Ipea, que tem feito uma análise profunda dos dados. E o Ipea já trabalha com 1,5% a 2,5% de crescimento do PIB.

Se a gente fechar o primeiro trimestre com crescimento zero e o segundo trimestre com 1%, a gente chega a 2% no final do ano tranqüilamente. Por isso que esse resultado do primeiro trimestre é importante, não só do PIB, mas da arrecadação, porque ela dá uma sinalização da recuperação da economia. Junto com isso, se a gente tiver nessa política monetária uma resposta mais rápida, chega a 2% tranqüilamente.

Já para março, melhoramos a previsão do crescimento do PIB no trimestre, que pode ficar positivo. A previsão inicial era de crescimento zero.

Mas o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) não avaliam assim...

Os técnicos do FMI e do Banco Mundial estão contaminados pela grande recessão que está acontecendo na Europa e nos Estados Unidos e isso reflete nos demais países. Mas a China tem mostrado recuperação, está repondo seus estoques de commodities (produtos primários) e isso vai dar um fôlego para as nossas exportações. Eu estou bastante otimista.

Não estou tão pessimista quanto os nossos especialistas de mercado financeiro do boletim Focus, que prevêem recessão. E a gente tem ouvido o setor real (setores produtivos). A maioria está vendo recuperação nas vendas. A gente mostra, pelos dados da arrecadação, que a crise não chegou na renda e no emprego.

Se começar a recuperação agora, não vai atingir a renda e o emprego. A gente segura a crise com a demanda interna. Este será o grande mérito da economia brasileira.


 

Agência Sindical, 19 de abril de 2009
Franzin: moradia popular é tarefa para o sindicalismo
Ao anunciar o programa Minha Casa, Minha Vida, o governo federal abriu oportunidade de participação ao movimento sindical, que respondeu com propostas de melhorias técnicas e garantias trabalhistas.

Por João Franzin*

Fazendo esse gesto, Lula restabeleceu a linha da história, interrompida pela ditadura de 1964. Antes do golpe, o sindicalismo tinha presença em planos governamentais, inclusive com cotas de casas para trabalhadores sindicalizados.

Portanto, cabe ao movimento sindical, a partir de agora, colocar-se ativamente no plano, como, aliás, deve fazer em relação ao PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Já se registram algumas iniciativas. Por exemplo, o Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil de São Paulo editou cartilha explicativa sobre o programa. Em Guarulhos, o Sindicato dos Metalúrgicos cobra do prefeito Almeida que se abra aos sindicatos a possibilidade de participação ativa no programa.

Certamente, há muitas outras iniciativas, variando conforme as possibilidades e interesses locais. O que não se recomenda é a passividade.

O programa, pela sua dimensão, mobiliza altos interesses, com as empreiteiras disputando cada palmo do terreno. Mas construção de casas populares é assunto complicado demais para ser resolvido por empreiteiras e agentes financiadores.

O movimento sindical tem de ir pra dentro do Minha Casa, Minha Vida, para que o programa saia do papel e atenda aos interesses do povo, e não das construtoras.

* João Franzin é jornalista e assessor sindical


Folha Online, 19 de abril de 2009
Lula teme dano político do "abacaxi" da poupança

KENNEDY ALENCAR
Colunista da Folha Online

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que a equipe econômica o meteu numa enrascada política. Não previu que a queda dos juros básicos exigiria mudança na rentabilidade da caderneta de poupança --expediente sagrado e consagrado dos mais pobres para economizar.

Lula chora o leite derramado, segundo relato de auxiliares que discutiram o assunto com ele nos últimos dois meses. O presidente avalia que os integrantes do CMN (Conselho Monetário Nacional) dormiram no ponto. São eles os ministros da Fazenda, Guido Mantega, do Planejamento, Paulo Bernardo, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que também tem status de ministro.

Se a taxa básica de juros, a Selic, cair para menos de 9% ao ano, a caderneta de poupança deverá render mais do os tradicionais fundos de investimentos, procurados pelas classes alta e média. Hoje, a Selic está em 11,25% ao ano.

O rendimento da poupança é previsto em lei: 6% ao ano mais a variação da TR (Taxa referencial), isentos de impostos. Os fundos são remunerados com base nos juros de mercado e são tributados.

O governo deseja evitar uma migração maciça para a poupança, o que esvaziaria os fundos, fundamentais para a rolagem da dívida pública. A rentabilidade da grande maioria deles tem a ver com os títulos públicos.

Se o CMN tivesse sido previdente, Lula acha que poderia ter sido apresentada no ano passado uma alteração no cálculo de rendimento da poupança dentro de um pacote de modificações da herança de indexação da economia. Ou seja, seria um detalhe num plano maior.

Agora, mudar a poupança soará a uma tungada nos mais pobres. Ou seja, ganharam menos a vida toda em nome da segurança, mas, quando poderiam ganhar mais, a poupança deverá mudar.

Isso é um problema e tanto para quem deseja vitaminar a potencial candidatura ao Palácio do Planalto da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.

Lula está quebrando a cabeça. O presidente disse que o CMN lhe deixou com um 'abacaxi para descascar'. Ele tem cobrado de Mantega, Bernardo e Meirelles uma solução defensável política e eleitoralmente. Até agora há algumas alternativas, desde criar faixas diferenciadas de rendimento à cobrança de Imposto de Renda dos grandes poupadores. Mas ainda não surgiu uma solução de agrado do presidente da República e de sua virtual candidata. Talvez não surja. E o governo terá de pagar o preço político-eleitoral.


 

Gazeta do Povo, 19 de abril de 2009
Maternidade
Licença para as militares sobe para 6 meses

As mulheres militares receberam o direito de prolongar por mais 60 dias a licença-maternidade, estabelecida por lei em 120 dias. A Portaria 520, assinada pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, foi publicada na sexta-feira no Diário Oficial da União, informou a Agência Brasil, órgão oficial de imprensa do governo federal.

As militares devem solicitar o benefício até o fim do primeiro mês após o parto. As que já estão em licença-maternidade podem solicitar a prorrogação, desde que o requerimento seja feito até 30 dias contados a partir de sexta-feira, data de publicação da portaria.

Para os casos de adoção ou obtenção da guarda judicial da criança, o prazo para a solicitaçãoda licença é específico para cada caso. Se a criança tiver até 1 ano de idade o período é de 45 dias e com mais de 1 ano de idade, de 15 dias. Antes, o direito de prorrogação da licença gestante e adotante estava restrito a funcionárias públicas civis e às da inciativa privada, com concordância da empresa.


Gazeta do Povo, 19 de abril de 2009
Congresso
É agora ou só em 2011
Em meio à sucessão de escândalos que envolve a Câmara e o Senado e ao bloqueio de votações causado pelo excesso de medidas provisórias, as reformas tributária e política correm o risco de serem votadas apenas na próxima legislatura

Brasília - As votações das reformas tributária e política correm contra o tempo no Congresso Nacional. Se as propostas não forem apreciadas nos próximos meses, os temas só devem voltar à discussão na próxima legislatura, em 2011. O prazo apertado e a falta de mobilização de vários segmentos políticos geram desconfiança sobre o real interesse de mudança.

“É claro que ninguém quer mexer nisso. Estamos falando do mais puro jogo de cena que vemos se repetindo há décadas”, afirma o cientista político Octaciano Nogueira, da Universidade de Brasília (UNB). O professor confirma a opinião com números. Vinte propostas de reforma tributária foram apresentadas nos últimos 42 anos, enquanto pelo menos seis grandes debates sobre reforma política ocorreram a partir da promulgação da Constituição de 1988.

Por que desta vez seria diferente? A resposta pode estar em um possível empenho pessoal do presidente Lula. Durante o voo entre Brasília e Telêmaco Borba, no interior do Paraná, na terça-feira passada, ele confidenciou a um grupo de deputados paranaenses que uma de suas maiores frustrações durante os seis anos de mandato foi não ter conseguido sensibilizar o Congresso da importância da reforma política.

Lula teria a mesma sensação em relação à reforma tributária, de acordo com o relator do texto na Câmara, Sandro Mabel (PR-GO). “No dia em que o presidente Lula lançou o programa Minha Casa, Minha Vida, ele me chamou para uma conversa privada e disse: ‘Deixa tudo pronto que nós precisamos votar a reforma’”, conta o parlamentar.

Ao mesmo tempo em que se declara a favor das reformas, o presidente não tem aliviado a pauta do Congresso. O congestionamento de medidas provisórias (MPs), que têm prioridade de tramitação, não deixa espaço para a discussão de uma agenda própria dos parlamentares. Nesse caso, a salvação pode estar em uma artimanha jurídica do presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP).

Temer espera que o Supremo Tribunal Federal (STF) se posicione até a próxima semana sobre o entendimento de que as MPs só trancam a pauta de sessões ordinárias. Se a tese for confirmada, ele pretende convocar uma série de reuniões extraordinárias ao longo do ano para votar especialmente as duas reformas.

Outro problema é a sucessão de escândalos que envolve o Congresso. Desde fevereiro, Senado e Câmara têm se revezado nas denúncias de mau uso do dinheiro público, que têm feito as mesas diretoras das duas Casas gastarem mais tempo com a solução dessas questões do que na pauta que vai a plenário.

“Precisamos encontrar uma agenda positiva, mas está difícil”, afirma o deputado paranaense Marcelo Almeida (PMDB). Ele integra o movimento de parlamentares que defende o aumento da transparência no Congresso e vê poucas saídas. “A reforma política, por exemplo, precisa tratar ao menos de dois pilares fundamentais: financiamento público de campanha e voto em lista fechada. Se ficarmos só na janela para a troca de partido, vai pegar mal.”

No bolso

Veja quais são as principais mudanças previstas no texto da reforma tributária em tramitação no Congresso:

IVA FEDERAL

O Imposto sobre Valor Adicional Federal (IVA) seria criado para unificar os tributos indiretos incidentes no processo de produção e comercialização de bens e serviços - Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Confins), Programa de Integração Social (PIS) e Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico Combustível (Cide).

CSLL

A Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) seria incorporada ao Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ). A emenda prevê cobranças adicionais do IRPJ diferenciadas por setor econômico como já ocorre com a CSLL.

DESONERAÇÃO DA FOLHA

O salário-educação, que incide 2,5% sobre a folha de pagamento, seria extinto e as receitas serão substituídas com a arrecadação de uma parte do IVA Federal. A proposta de redução gradativa da alíquota da contribuição patronal ao INSS entrou no texto da PEC apresentado pelo governo ao Congresso, mas não há uma definição de quanto será essa redução.

ICMS

O valor da alíquota do ICMS, que hoje é definida por cada estado e usada para atrair empresas, seria unificada. A proposta também pretende transferir a cobrança do imposto do estado produtor para o estado receptor da mercadoria. Para ajudar os estados que serão prejudicados com essas mudanças no ICMS, deverá ser criado um fundo de equalização.

 

Gazeta do Povo, 19 de abril de 2009
Inadimplência
Saiba evitar dívidas. E sair delas
Crise elevou o índice de calotes, que retornou ao patamar de 2002. Quem não quiser engrossar essa estatística precisa de disciplina e força de vontade

Primeiro foi o crédito que secou. Depois, os empregos que desapareceram. E, agora, esses dois ingredientes levam a mais uma consequência da crise econômica internacional no Brasil: com consumidores e empresas enfrentando dificuldades para pagar suas dívidas, os níveis de inadimplência dispararam de setembro passado para cá. Alguns indicadores já mostram um retrocesso aos níveis de 2002. Nesse contexto, o consumidor precisa despertar o espírito de “Tio Patinhas” que tem dentro de si e tomar cuidado para não inflar as estatísticas. Fugir do calote é possível, sim, mas é preciso disciplina e força de vontade.

“Em ano de calote, a gente precisa olhar um pouco mais para essa conjuntura toda e consumir menos de maneira irresponsável. O principal não é parar de consumir, mas comprar só quando tiver o dinheiro na mão”, sugere o educador financeiro Conrado Navarro, criador do blog Dinheirama. “A população acreditou que havia uma marola, e nós sabemos que não é uma marola. As pessoas deveriam reduzir o consumo, ter um consumo consciente, evitar supérfluos e tudo aquilo que não for necessário no momento”, completa o consultor Altemir Farinhas, da consultoria Equilíbrio Financeiro.

Os dois avaliam que é momento de tomar cuidado extra na hora de contrair qualquer dívida. “O consumidor desavisado de hoje pode ser o desempregado de amanhã”, diz Farinhas. Para Navarro, é preciso resistir à tentação de usar cheques pré-datados – em tempos de crédito escasso, eles têm voltado à moda. “As pessoas estavam desacostumadas a usar o cheque. Ele é uma arma perigosa, porque as famílias não têm um controle rígido das finanças. E o cheque vai ser compensado numa data futura, nem sempre no dia acordado, e o planejamento da família fica furado.”

Mecanismo

A alta na inadimplência observada nos últimos meses é resultado de uma combinação de fatores. De um lado, os tempos de crédito farto no país acabaram pouco depois de setembro, mês que marcou o início da fase mais aguda da crise internacional. A quebra generalizada de confiança prejudicou a concessão de empréstimos tanto para grandes bancos quanto para pequenos empresários. Os prazos, que eram longos, encolheram. Os juros, que caminhavam para baixo, de repente dispararam.

Na outra ponta, muito consumidor que aproveitou os tempos de fartura agora se vê em apuros. Muita gente contraiu empréstimos para comprar carro ou reformar a casa – era possível parcelar veículos em até cem vezes, por exemplo. Parte dessa massa de endividados perdeu o emprego, e não conseguiu honrar os pagamentos. E, vale lembrar, inadimplência gera maior aversão ao risco, maior restrição na concessão de crédito e, por fim, ainda mais inadimplência.

Endividados

Para quem já está atolado em dívidas, a tarefa é uma só: renegociação. Para isso, lápis e papel nas mãos, é preciso calcular quanto se deve, para quem e em que prazo. “Se deve com a loja, fala com a loja. Se deve com a administradora de cartão, fala com ela. Nada de pegar empréstimo pessoal para pagar dívida”, orienta Altemir Farinhas. “As pessoas têm que perder a preguiça de negociar. Às vezes a pessoa se faz de vítima da dívida, mas ela tem que assumir o papel de agente da mudança”, completa Conrado Navarro.

A lógica da negociação é muito simples. “É melhor o empresário estender os prazos e receber do que não flexibilizar e não receber nada”, diz Murilo Jovtei, da consultoria de negócios Go4!. Uma postura muito rígida nestes casos, diz ele, é ruim para duas as partes. “O cliente perde porque o risco dele aumenta. E a empresa perde porque não vai receber.”

Tal postura também é recomendada pela Associação Comercial do Paraná (ACP) para seus associados. “É importante que o comerciante analise a possibilidade de dar uma mão aos inadimplentes, parcelando e até diminuindo os juros, cobrando só o essencial. A ideia é fazer acordos que possam transformar essas pessoas novamente em consumidores”, diz o diretor Cesar Luiz Gonçalves. Ele conta que a própria Associação Comercial tem convênio firmado com empresários para renegociar, por conta própria, as dívidas dos clientes.

Somente quando a renegociação é impossível deve-se partir para um empréstimo, desde que ele tenha taxas de juros menores que os da dívida já existente. “Aí você começa a trocar uma taxa de juros ruim por uma melhor”, diz o consultor Altemir Farinhas. O ideal, principalmente nos casos de cheque especial e cartão de crédito, é buscar um financiamento com taxas pré-fixadas. “Se você fizer isso, sabe que em 12 ou 24 prestações liquida a dívida.”


Folha de S.Paulo, 19 de abril de 2009
Terceirizada que lesa governo usa laranja
Empresas que receberam mais de R$ 154 milhões do governo estão em nome de ex-funcionários com renda inferior a R$ 800

União é alvo seguido de golpes nos quais herda dívidas trabalhistas de prestadoras de serviço que abandonam contratos

ALAN GRIPP, DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
ADRIANO CEOLIN, ENVIADO ESPECIAL A BELO HORIZONTE

Duas das maiores empresas de terceirização de mão de obra em valores recebidos do governo federal, a ZL Ambiental Ltda. e a Higiterc Higienização e Terceirização Ltda., utilizam laranjas para ocultar os seus verdadeiros donos.

Desde 2006, elas receberam pelo menos R$ 154 milhões de órgãos federais, o equivalente a todo o orçamento de publicidade do governo neste ano. Em 2009, a Higiterc garantiu mais R$ 4 milhões em contratos fechados com o Senado e o Tribunal de Contas da União.

Investigadas pela CGU (Controladoria Geral da União), as empresas pertencem ou já pertenceram, no papel, a ex-funcionários com remuneração máxima de dois salários mínimos, rendimentos incompatíveis com o patrimônio em tese adquirido. Também figuram ou figuraram como sócios pessoas desconhecidas dos próprios empregados e até uma empregada doméstica.

Procurados pela Folha nas duas últimas semanas, os "donos" da ZL e da Higiterc não foram encontrados nas sedes das empresas nem nos endereços e telefones registrados em seus nomes -alguns deles falsos. Além disso, não responderam a questionamentos feitos por meio de advogados.

Valer-se de pessoas de baixo poder aquisitivo é uma estratégia conhecida para livrar os reais proprietários de uma empresa de cobranças judiciais e penhoras. Como mostrou a Folha na semana passada, o governo tornou-se alvo de golpes em sequência das terceirizadoras de serviços, que abandonam os contratos e deixam as dívidas trabalhistas para a União.

A ZL e a Higiterc já pertenceram a um mesmo grupo, tiveram três sócios em comum e participaram, juntas, de 49 licitações -forte indício de que atuaram para simular uma falsa concorrência. Hoje, os empresários por trás das duas empresas estão brigados e vivem situações distintas. Enquanto a ZL está mergulhada em dívidas, a Higiterc vem crescendo.

Nos últimos anos, elas forneceram motoristas, copeiros, faxineiros, entre outros profissionais. Venceram licitações em órgãos dos ministérios da Educação, da Saúde, dos Transportes e da Ciência e Tecnologia, além do Comando do Exército. A UnB (Universidade de Brasília) é a maior cliente das empresas.

No papel, os donos atuais da Higiterc são Elias Gomes Araújo e Marta Pereira dos Santos, ambos de 46 anos. Ex-funcionários da ZL, ocupavam funções administrativas e foram demitidos em janeiro e em novembro de 2007, respectivamente. A Folha teve acesso às rescisões contratuais dos dois. Quando foi demitida, Marta ganhava R$ 508,32 mensais, mais vale-transporte e cesta básica. Quatro meses depois, virou dona de 99% das cotas da Higiterc, avaliadas em R$ 490 mil.

Araújo, que ganhava R$ 869,68, também já foi dono de 99% da Higiterc, entre maio e agosto de 2006. Hoje, tem apenas 1% das cotas. A sede da Higiterc fica em um escritório na zona sul de Belo Horizonte. Trata-se de uma sala com um computador e um funcionário. Na porta, uma placa registra o nome de outra empresa: a Wi-Fi Telecomunicações e Informática.

Oficialmente, Marta vive em um apartamento no bairro Barro Preto, na capital mineira, informação negada pelo porteiro e por vizinhos. Segundo registro na lista telefônica, quem vive lá hoje é o seu "sócio", Araújo.

O imóvel também é oficialmente o local de moradia de Aline Alves de Holanda, 26, apesar de os vizinhos também negarem. Ex-funcionária de um salão de beleza, Aline é, no papel, uma das proprietárias da ZL, destinatária de R$ 140 milhões de recursos públicos desde 2005.

Em 2008, Aline chegou a ter 99% das cotas da empresa, o que representava à época R$ 2,4 milhões. Hoje, tem sua participação reduzida a 1%.

A Folha procurou Aline na sede da ZL em Belo Horizonte, mas os funcionários não a conheciam. Informada de que se tratava da proprietária da empresa, uma atendente orientou a reportagem a procurá-la na filial de Brasília. "Aline Alves? Esse número está errado, não?", disse uma funcionária da empresa na capital.

As duas empresas têm outro elo de ligação: tiveram como sócia, entre 2005 e 2006, Santa Pinheiro da Silva. A Folha apurou que Santa é empregada doméstica de um empresário de Belo Horizonte investigado pela suspeita de ser o real proprietário das empresas. Seu nome é mantido em sigilo.